A DISTRIBUIÇÃO DA TERRA NAS REGIÕES NORTE E NOROESTE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO: 1970 A 1995
André de Paula Simões Paulo Marcelo de Souza
RESUMO:
A pesquisa procura analisar, através das informações dos Censos Agropecuários, as alterações ocorridas na distribuição da posse da terra nos municípios das regiões Norte e Noroeste fluminense, no período de 1970 a 1995. Na caracterização do perfil agrário desses municípios foram empregados o índice de Gini, a área média, o percentual da área correspondente aos 5% maiores imóveis e o percentual da área correspondente aos 50% menores imóveis. Os resultados permitiram constatar diferenças significativas entre a regiões em estudo, com a região Norte sobressaindo-se por apresentar estrutura fundiária mais concentrada. Observou-se ainda que a estrutura fundiária dos municípios analisados sofreu poucas alterações no período, destacando-se, porém, a redução no percentual da área total correspondente aos 50% menores estabelecimentos, historicamente muito pequena.
Palavras-chave: distribuição da terra, estabelecimentos agropecuários, concentração.
1- INTRODUÇÃO
As regiões Norte e Noroeste do estado do Rio de Janeiro compreendem 23 municípios que, além da extensão territorial, possuem grande importância para a economia do estado devido, principalmente, à atividade agrícola e mais recentemente aos “Royalties” do Petróleo. Produtoras de Açúcar e Café, as regiões Norte e Noroeste respectivamente, são consideradas um dos espaços canavieiros e cafeeiros mais tradicionais do Brasil, datando o séc XVIII. Essa diferenciação das atividades econômicas (sobretudo as atividades agrícolas) dos municípios, foram determinadas pelas diferenças de clima e relevo encontradas nas das regiões analisadas no presente estudo. De relevo plano, típico de baixada, e clima quente e úmido, a região norte fluminense se estruturou sua economia sobre a lavoura de cana-de-açúcar. Já o Noroeste Fluminense, com relevo fortemente acidentado, não pode fortalecer a lavoura da cana, mas se diferenciou em região produtora de gado de leite e café, sendo uma importante bacia leiteira que abastece o grande centro mais próximo.
Ocupando uma área de 15.143,6 km², equivalente a 35,3% da área total do estado e por ser uma região de intensa exploração agropecuária, o estudo das mudanças na estrutura do setor agrícola do norte e noroeste fluminense se faz extremamente necessário para entender o atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas na agricultura da região e para que as ações destinadas ao setor, visando a aspectos como infra-estrutura, serviços médicos, educação, pesquisa etc., possam ser consistentes com o ambiente de mudanças dentro do qual se busca implementá-las.
De modo simplificado, a estrutura do setor agrícola é definida como a posição deste setor, em determinado momento, quanto a aspectos relacionados à distribuição das firmas com respeito ao tamanho, à tecnologia e às suas características de produção, à posse dos recursos, ao padrão de financiamento das atividades e à importância das ligações inter e intra-setoriais (BOEHLJE, 1992).
Um dos parâmetros de grande importância na definição da estrutura do setor agrícola é a distribuição da terra. Sabe-se que, no Brasil, a distribuição da posse da terra é historicamente concentrada, fato cuja origem remonta ao período da colonização, com as capitanias hereditárias e a doação das sesmarias. No estado do Rio de Janeiro, a distribuição
desse recurso, conquanto menos concentrada que a média do país, apresenta-se ainda muito distante do que caracterizaria uma distribuição igualitária.
Formada pelos municípios de Campos dos Goitacazes; São João da Barra; Macaé; São Fidelis; Conceição de Macabu; Cardoso Moreira; Quissamã; Carapebus e São Francisco do Itabapoana a região norte fluminense tem como principal atividade agrícola a extração e transformação da cana de açúcar. Mais recentemente o estado têm incentivado a fruticultura na região, mas devido ao tradicionalismo e “facilidade” do cultivo da cana aliado a deficiências no programa do governo estadual a fruticultura na região ainda está muito aquém do seu potencial.
A região noroeste fluminense é formada pelos municípios de Itaperuna; Miracema; Italva; Itaocara; Santo Antonio de Pádua, Porciúncula, Laje do Muriaé, Natividade; Varre e Sai; Bom Jesus do Itabapoana; Cambuci; Aperibé e São José de Ubá possuem atividade agrícola mais diversificada, sendo a pecuária leiteira e a cafeicultura os principais produtos agrícolas da região.
As regiões Norte e Noroeste Fluminense foram, antes do descobrimento e por muito tempo, habitadas por três nações indígenas: os Guarulhos, Goytacazes e os Mopi. Com o descobrimento e a posterior divisão do território em Capitanias Hereditárias a atual região Norte e Noroeste Fluminense passaram a pertencer a Capitania de São Tomé (1536), que se estendia a partir do rio Macaé até o rio Itapemirim, no Espírito Santo.
A primeira atividade econômica desenvolvida na região foi a criação de gado e cavalos para abastecer de carne e animais de tração a cidade do Rio de Janeiro, que na época produzia de cana de açúcar no entorno da Baia de Guanabara e tinha seus engenhos movidos a tração animal. A construção do primeiro engenho da região Norte e Noroeste, situado no local hoje conhecido como “Fazenda do Visconde”, é atribuída a Salvador Correa de Sá e Benevides, então ocupando o cargo de Governador da Capitania do Rio de Janeiro. A partir de então, foram surgindo novos engenhos e engenhocas, concomitante à expansão da lavoura da cana todo o norte do estado. Na Tabela 1 pode-se constatar o grande crescimento do numero de engenhos no estado do Rio de Janeiro, crescimento este que, em grande parte, pode ser atribuído à expansão da lavoura canavieira no norte do estado.
Tabela 1 – Numero de engenhos no Estado do Rio de Janeiro
Ano Numero de Engenhos
1737 34 1750 50 1769 55 1778 113 1783 278 1819 400 1828 700 Fonte: Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA)
O século XVIII foi, portanto, um período de grande expansão da lavoura canavieira na região. O século seguinte foi marcado pela evolução tecnológica no setor, quando alguns proprietários de engenhos bangüês começam a fazer modificações em suas fabricas visando melhor aproveitamento da cana de açúcar, gerando um melhor produto para concorrer com o açúcar das Antilhas no mercado internacional.
Já ao final do século XIX, havia acontecido uma relativa diversificação nas forças produtivas da região, com destaque para o cultivo do Café. Essa diversificação ocorreu na região hoje conhecida como Noroeste Fluminense que já no inicio do século XX se tornara a maior região produtora de Café do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, um número maior de atividades passa a compor a produção econômica das regiões Norte e Noroeste, uma vez que, além da cana de açúcar e do cultivo do café, encontram-se desenvolvidos os setores de extração de petróleo e gás natural, comercio e serviços, pesca, turismo, industria de transformação, pecuária de corte e leite, industria de laticínios, produtos granjeiros e extração mineral, para citar os mais importantes (IBGE - Censo Demográfico, 2000; TCE – Estudo Sócio Econômico, 2002).
2. METODOLOGIA
Para analisar as alterações na estrutura fundiária, serão calculados os índices de Gini, a área média, o percentual da área correspondente aos 50% menores imóveis e o percentual correspondente aos 5% maiores imóveis, que são normalmente usados como indicadores da distribuição da posse da terra. A seguir, faz-se uma descrição da metodologia para cálculo do índice de Gini, uma vez que os procedimentos de cálculo, bem como o significado das outras medidas usadas, são apreendidos facilmente.
2.1.1 Índice de Gini
O índice de Gini é uma medida de concentração, mais freqüentemente aplicada à renda, à propriedade fundiária e à concentração das indústrias. Este coeficiente é medido através da fórmula geral seguinte, conforme COSTA (1979):
∑
= − − − + − = n i i i i i Y X X Y G 1 1 1)( ) ( 1 (1) em que Xi é a percentagem acumulada da população (pessoas que recebem renda, proprietários de terra, indústrias, etc.) até o estrato i; Xi-1 é a percentagem acumulada da população até o estrato anterior ao estrato i; Yi é a percentagem acumulada da renda, área, valor da produção, etc., até o estrato i; Yi-1 é a mesma percentagem acumulada até o estrato anterior ao estrato i; e n é o número de estratos de renda, área, valor da produção, etc.Outra definição do índice de Gini pode ser dada através da curva de Lorenz. Seja p o valor da proporção acumulada da população até certo estrato e Φ o valor correspondente à proporção acumulada da posse da terra. Os pares de valores (p, Φ), para os diversos estratos, irão definir um conjunto de pontos, cuja união constitui a curva de Lorenz (Gráfico 1), que mostra como a proporção acumulada da posse da terra varia em função da proporção acumulada de proprietários, com os indivíduos ordenados de acordo com valores crescentes de tamanho das propriedades (HOFFMANN, 1991).
α 45o 1,0 0,9 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 -0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 1,0 β
Gráfico 1. A curva de Lorenz
Φ
p A
B
C
A área α é denominada área de concentração, e seu valor aumenta quanto maior for a concentração da terra, ocorrendo o contrário quando a distribuição se torna mais igualitária, quando então a área de concentração diminui. No caso extremo de igualdade completa, a curva de Lorenz se transformaria num segmento de reta formando 45o com os eixos, denominado linha de perfeita igualdade. Por outro lado, considerando uma situação de máximo de desigualdade, isto é, um indivíduo possuiria toda a terra, enquanto os n-1 indivíduos restantes da população nada teriam, a curva de Lorenz se confundiria com o poligonal ACB, com a área de desigualdade aproximadamente igual à área do triângulo ACB, que é igual a 0,5. Por definição, o índice de Gini (G) é a relação entre a área de concentração (α) e a área do triângulo ABC, ou seja:
G = α/(α+β) = α/0,5 = 2α (2)
dado que 0 ≤ α < 0,5, tem-se que 0 ≤ G < 1.
O índice de Gini é um número adimensional. Aumentando a concentração, cresce a curvatura da curva de Lorenz, aumentando portanto a área entre a curva e a linha que passa a 45o no gráfico, com o índice de Gini aproximando-se de 1,0 quanto maior for a concentração. Por outro lado, quanto mais igualitária a distribuição da terra, a curva de Lorenz se aproxima da linha de 45O, e o índice de Gini tende a zero.
3 - Variáveis e fonte de dados
A pesquisa busca analisar as alterações ocorridas na estrutura fundiária das mesoregiões Norte e Noroeste do Estados do Rio de Janeiro. Para tanto, foram considerados, como unidades de análise, todos os municípios que compõem essas regiões, ou seja, os municípios de Campos dos Goytacazes, São João da Barra, São Fidélis, Conceição de Macabu, Macaé, Quissamã, Porciúncula, Natividade, Varre e Sai, Cardoso Moreira, Itaperuna, Bom Jesus de Itabapoana, Laje do Muriaé, Miracema, Santo Antônio de Pádua, Cambuci, Aperibé, Italva e Itaocara. Os municípios surgidos a partir de 1995, como Carapebus, São Francisco de Itabapoana e São José do Ubá, não fizeram parte desta análise, pois não existem informações disponíveis na principal fonte de dados utilizada.
No que diz respeito à fonte dos dados foram empregadas informações publicadas pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - FIBGE, nos Censos Agropecuários. Como essa fonte não divulga dados individuais acerca da posse da terra, apresentando sua
distribuição entre classes, os indicadores a serem calculados tendem a subestimar a verdadeira desigualdade da distribuição, uma vez que se desconhece a desigualdade existente dentro dos estratos ou classes de tamanho fornecido por esta publicação. Esse aspecto é destacado por (HOFFMANN,1979), que sugere sejam feitas pressuposições acerca da distribuição dentro dos estratos, com vistas a estimar a desigualdade existente nos mesmos. Nesse trabalho, entretanto, julga-se que tal procedimento não seja necessário, uma vez que, com o cálculo dos índices, o que se busca é o aspecto comparativo e evolutivo da distribuição da posse da terra, não sendo o valor absoluto de sua concentração o aspecto mais importante da análise.
Outro aspecto refere-se às mudanças ocorridas no último Censo Agropecuário, com possíveis impactos sobre os resultados da análise. No Censo Agropecuário de 1995, o período de referência, anteriormente o ano civil, se alterou para o ano agrícola, havendo, além disso, mudança na época de coleta dos dados, que passou a ser feita no segundo semestre. Essas mudanças têm, como uma de suas principais características, a não captação de estabelecimentos de natureza precária, alterando a comparabilidade dessas informações com as de anos anteriores, como destacado por HOFFMANN e SILVA (1999).
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A tabela 2 apresenta os valores do índice de Gini, calculados para as micro-regiões e para os municípios, envolvendo todo o período da analise.
Tabela 2 – Índice de Gini da distribuição de terra nos municípios das regiões Norte e Noroeste do estado do Rio de Janeiro
Índice de Gini Região
1970 1975 1980 1985 1995
Micro Região Itaperuna 0,6486 0,6323 0,6653 0,6818 0,7082
Micro Região Miracema 0,6842 0,7479 0,7202 0,7714 0,6957
Micro Reg. Açuc. de Campos 0,7928 0,7940 0,8191 0,8236 0,7917 Campos dos Goytacazes 0,8314 0,8128 0,8313 0,8467 0,8136
Macaé 0,7554 0,7578 0,7737 0,7634 0,7136
São João da Barra 0,7651 0,7704 0,8162 0,7894 0,8018
São Fidelis 0,7009 0,6997 0,7421 0,7307 0,6969 Conceição de Macabu 0,7303 0,7322 0,6921 0,7424 0,6305 Cardoso Moreira - - - - 0,7028 Quissamã - - - - 0,7460 Itaperuna 0,6759 0,6507 0,6939 0,7008 0,6763 Itaocara - - - - 0,6927 Cambuci 0,6376 0,7363 0,6711 0,6779 0,7158 Miracema 0,7898 0,8064 0,8087 0,8060 0,6798 Bom J. do Itabapoana 0,6324 0,6150 0,6103 0,6219 0,6660 Natividade 0,6133 0,6050 0,6175 0,6258 0,6533 Porciúncula 0,6192 0,6187 0,7099 0,7327 0,7621 Laje do Muriaé 0,6510 0,6407 0,6481 0,6557 0,6389 Italva - - - - 0,6878 Aperibé - - - - 0,6136
Santo Antonio de Pádua 0,6072 0,7118 0,6859 0,7772 0,6570
Varre e Sai - - - - 0,7307
Os resultados obtidos para o índice de Gini permitem constatar que a maior concentração na distribuição da posse da terra é encontrada na micro região açucareira de Campos, onde varia de 0,79 a 0,82 em todo o período da análise e nos municípios de Campos, São João da Barra e Macaé, onde varia de 0,75 a 0,85.
Cabe ressaltar que a partir do censo agropecuário de 1995/1996 ocorreram mudanças nas microregiões e surgimento de novos municípios, como é o caso de: Aperibé; Varre e Sai; Italva; Itaocara; Quissamã e Cardoso Moreira. Porém estes desmembramentos não resultaram diferenças significativas no padrão da distribuição da posse da terra. A tabela 3 apresenta o índice de Gini para a recomposição dos municípios onde ocorreram desmembramentos no período analisado.
Tabela 3 – índice de gini para a recomposição dos municípios com seus desmembramentos.
Município Índice de Gini 1995/1996
Italva + São Fidelis 0,6953
Varre e Sai + Natividade 0,7307
Aperibé + St. Antônio de Pádua 0,6544
Cardoso Moreira + Campos 0,8061
Quissamã + Macaé 0,7205
Fonte: IBGE Censo Agropecuário 1970, 1975, 1980, 1985, 1995
Com relação às mudanças ocorridas no período, pode-se constatar um significativo incremento no índice de Gini na micro-região de Itaperuna, que pode ser melhor observado na Figura 1. Esse movimento de piora na distribuição da terra não ocorreu nas duas outras micro-regiões, onde, apesar de algumas ocorridas de um ano a outro, o índice de Gini, no último ano considerado, apresenta-se praticamente idêntico ao do início da série.
0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9
M . Reg ião Itap eru n a M . Reg ião M iracema M . Reg ião A çu c. d e Camp o s
Índice de Gini
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 1 – Índice de Gini da distribuição da terra nas micro-regiões do Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
Quanto aos municípios, poucos são os que apresentam tendências claras quanto ao sentido das mudanças na distribuição da terra, sejam elas de concentração ou desconcentração, como pode ser contatado na Figura 2. Pode-se, entretanto, observar um significativo incremento no índice de Gini para o município de Porciúncula. Com menor magnitude e com variações no período, esse movimento pode ser também constatado em São João da Barra, Cambuci e Natividade e Bom Jesus do Itabapoana, muito embora, para esses casos, o fato de que ocorreram mudanças no último Censo desautoriza a constatação de ter havido aumento na concentração fundiária. Por essa mesma razão, não é possível afirmar que os municípios de Macaé, Conceição de Macabu e Miracema, nos quais o índice de Gini sofreu alguma redução no período, tenham passado por um processo de desconcentração fundiária.
0 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 0,9 C. Goitacazes Macaé S. J. BarraSão Fidelis
C. de Macabu Itaperuna Cambuci Miracema B. J. Itabapoana
NatividadePorciúncula
Laje do MuriaéS. A. Pádua
Índice de Gini
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 2 – Índice de Gini da distribuição da terra nos municípios das regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
Um segundo grupo de municípios é constituído por São Fidelis, Varre e Sai, Santo Antônio de Pádua, Italva, Porciúncula, Cambuci, Itaocara, Itaperuna e Conceição de Macabú onde o índice de Gini varia de 0,65 e 0,75 em grande parte do período analisado. O município de Miracema apesar de apresentar índice de Gini próximo a 0,80 no período de 1970 a 1985 pode ser incluído neste grupo devido a expressiva redução do índice de Gini no censo agropecuário de 1995, passando a 0,67.
O município de Itaocara pertencia a região centro-leste do Estado do Rio de Janeiro até o ano de 1985, por isso não constam os índices para os anos anteriores a 1995.
Finalmente um último grupo é formado pelos municípios que apresentam índice de Gini entre 0,60 e 0,65 como Aperibé, Laje do Muriaé e Natividade. A tabela 4 apresenta a caracterização das faixas do índice de Gini segundo a concentração da posse da terra.
Tabela 4 – Níveis de concentração da distribuição da terra, segundo classes do índice de Gini
Faixa do Índice de Gini Classificação
0,000 a 0,100 Concentração nula
0,101 a 0,250 Concentração nula a fraca
0,501 a 0,700 Concentração média a forte
0,701 a 0,900 Concentração forte a muito forte
0,901 a 1,000 Concentração muito forte a absoluta Fonte: Câmara 1949
A Tabela 5 exibe os valores da área média dos estabelecimentos agropecuários. Pode-se constatar que os valores mais elevados desPode-se indicador Pode-se encontram na micro região de Itaperuna, seguida da região de Campos. Em nível dos municípios, constata-se que os maiores valores da área média encontram-se em Macaé e Conceição de Macabu, cabendo ainda mencionar Bom Jesus do Itabapona e Itaperuna. Por outro lado, São João da Barra, Miracema e Santo Antônio de Pádua se destacam por apresentar os menores valores desse indicador. Tabela 5 – Área média dos estabelecimentos agropecuários nos municípios das regiões Norte e Noroeste do estado do Rio de Janeiro
Área Média (ha) Região
1970 1975 1980 1985 1995
M. Reg Itaperuna 55 57 57 52 45
M. Reg Miracema 36 28 35 24 34
M. Reg. Açuc. de Campos 43 50 41 36 44
C. Goytacazes 43 48 38 32 41 Macaé 92 103 96 87 114 S.J. da Barra 28 33 24 20 28 São Fidelis 38 35 40 36 32 C. de Macabu 80 101 118 116 99 Itaperuna 52 52 57 61 67 Cambuci 47 35 49 47 38 Miracema 20 21 24 21 50 B. J. do Itabapoana 56 60 68 64 49 Natividade 58 60 61 52 45 Porciúncula 70 70 38 27 25 L. do Muriaé 47 55 56 51 55 S. A. de Pádua 38 26 30 16 36
Fonte: Censo Agropecuário IBGE – 1970, 1975, 1980, 1985, 1995
Na Figura 3, que exibe a evolução da área média, pode-se constatar que esse indicador apresentou tendência de declínio em nível das micro regiões. Embora tenha ocorrido alguma elevação desse indicador no último ano para a micro região de Campos e a de Miracema, isso pode ser devido apenas aos problemas relativos ao último censo.
-10,00 20,00 30,00 40,00 50,00 60,00
M. Reg Itaperuna M. Reg. Açuc. Campos M. Reg. Miracema
Área média (ha)
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 3 – Área média dos estabelecimentos nas micro regiões do Norte e do Noroeste do Estado do Rio de Janeiro
Nos municípios, a evolução da área média não permite delinear, na maioria dos casos, tendências claras de crescimento ou redução. Pode-se, entretanto, considerar que houve tendência de redução desse indicador nos municípios de Natividade e Porciúncula, o que, em certa medida, também ocorreu em Campos, São Fidélis, São João da Barra e Santo Antônio de Pádua. Por outro lado, em Itaperuna, Conceição de Macabu, predomina o sentido do crescimento da área média no decorrer do período.
-20,00 40,00 60,00 80,00 100,00 120,00 140,00 B. J. Itabapoana Itaperuna Natividade
PorciunculaCambuciMiracemaS. A. Padua CamposC. Macabu S. J. Barra
Área média (ha)
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 4 – Área média dos estabelecimentos agropecuários nos municípios das regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
A tabela 6 apresenta os resultados da área dos 50% menores para a mesoregião, microregião e municípios em todo período analisado.
Tabela 6 – Percentual da área correspondente aos 50% menores estabelecimentos agropecuários nos municípios das regiões Norte e Noroeste do estado do Rio de Janeiro
1970 1975 1980 1985 1995
Norte Fluminense - 0,0465 0,0392 0,0337 0,0439
Micro Região Itaperuna 0,0920 0,1036 0,0803 0,0712 0,0621
Micro Região Miracema 0,0724 0,0464 0,0521 0,0336 0,0696
M. Reg. Açuc. de Campos 0,0440 0,0409 0,0318 0,0288 0,0349
Campos dos Goitacazes 0,0346 0,0357 0,0253 0,0232 0,0291
Macaé 0,0597 0,0575 0,0471 0,0474 0,0656
São João da Barra 0,0545 0,0495 0,0356 0,0438 0,0336
São Fidelis 0,0784 0,0786 0,0645 0,0595 0,0747 Conceição de Macabu 0,0590 0,0554 0,0672 0,0591 0,0966 Cardoso Moreira - - - - 0,0754 Quissamã - - - - 0,0384 Itaperuna 0,0853 0,0915 0,0720 0,0671 0,0895 Itaocara - - - - 0,0778 Cambuci 0,0991 0,0531 0,0839 0,0796 0,0585 Miracema 0,0568 0,0449 0,0402 0,0426 0,0596
Bom Jesus do Itabapoana 0,1074 0,1239 0,1265 0,1207 0,0655
Natividade 0,1122 0,1165 0,1060 0,0939 0,0815
Porciúncula 0,1008 0,0985 0,0599 0,0632 0,0548
Laje do Muriaé 0,0877 0,0904 0,0807 0,0824 0,0839
Italva - - - - 0,0930
Aperibé - - - - 0,0932
Santo Antonio de Pádua 0,1141 0,0584 0,0641 0,0316 0,0928
Varre e Sai - - - - 0,0649
Fonte: IBGE Censo Agropecuário 1970, 1975, 1980, 1985, 1995
Na Figura 5, pode-se inferir que o percentual da área correspondente aos 50% menores estabelecimentos, tradicionalmente baixo, principalmente na micro-região de Campos, experimentou declínio ao longo do período. Embora tenha ocorrido, para as micro-regiões de Miracema e de Campos, elevação desse indicador no último ano, tal recuperação pode ser devida apenas às mudanças na metodologia da fonte dos dados, como citado anteriormente.
0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00
M . Reg ião Itap eru n a M . Reg ião M iracema M . Reg ião A çu c. d e Camp o s
%
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 5 – Percentual da área correspondente aos 50% menores estabelecimentos agropecuários nas micro-regiões do Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
Nos municípios do Noroeste Fluminense pode se observar relativa estabilidade no comportamento da área dos 50% menores estabelecimentos, como mostra a Figura 6. Nos municípios de Bom Jesus do Itabapoana, Cambuci, e Natividade pode se observar estabilidade até o ano de 1985, com queda no censo agropecuário de 1995. A análise e diagnóstico de uma tendência ficam prejudicados pela não realização do censo agropecuário de 1990 pelo IBGE.
Se considerarmos as alterações ocorridas até o ano de 1985, dada a incerteza sobre o período seguinte, pode-se concluir que a quase totalidade dos municípios sofreu uma redução no percentual da área correspondente aos 50% menores estabelecimentos. Como exceções, restam apenas em Conceição de Macabu, Bom Jesus do Itabapona e Laje do Muriaé, nos quais esse percentual permanece estagnado ou se eleva ligeiramente.
0,00 2,00 4,00 6,00 8,00 10,00 12,00 14,00 C. Goitacazes Macaé S. J. BarraSão Fidelis
C. de Macabu Itaperuna Cambuci Miracema B. J. Itabapoana
NatividadePorciúncula
Laje do MuriaéS. A. Pádua
%
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 6 – Percentual da área correspondente aos 50% menores estabelecimentos agropecuários nos municípios das regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
Em contrapartida, pode-se observar o comportamento dos 5% maiores estabelecimentos e verificar a relação inversamente proporcional do comportamento destes quando comparados com os 50% maiores estabelecimentos. A tabela 7 apresenta os resultados obtidos para a área total ocupada pelos 5% maiores estabelecimentos na região em todo o período analisado.
Tabela 7 – Percentual da área total corresponde aos 5% maiores estabelecimentos agropecuários nos municípios das regiões Norte e Noroeste do estado do Rio de Janeiro
Área ocupada pelos 5% maiores Região
1970 1975 1980 1985 1995
Norte Fluminense - 0,5242 0,5305 0,5482 0,4964
Micro Região Itaperuna 0,3843 0,3556 0,3812 0,4026 0,5757
Micro Região Miracema 0,3854 0,4613 0,4224 0,4832 0,5857
Micro Reg. Açucareira
de Campos 0,5847 0,5831 0,6022 0,6105 0,4516
Campos dos Goitacazes 0,6600 0,6143 0,6243 0,6594 0,4133
Macaé 0,5316 0,5177 0,5361 0,5042 0,5549
São João da Barra 0,5540 0,5377 0,6057 0,5691 0,4374
Conceição de Macabu 0,4562 0,4577 0,4295 0,5067 0,6800 Cardoso Moreira - - - - 0,4490 Quissamã - - - - 0,4371 Itaperuna 0,4364 0,3975 0,4347 0,4301 0,5876 Itaocara - - - - 0,4453 Cambuci 0,3780 0,4581 0,4066 0,4163 0,5643 Miracema 0,5530 0,5524 0,5323 0,5478 0,6340 Bom Jesus do Itabapoana 0,3838 0,3698 0,3469 0,3505 0,6601 Natividade 0,3374 0,3123 0,3165 0,3334 0,6294 Porciúncula 0,2837 0,2893 0,4132 0,4453 0,4778 Laje do Muriaé 0,3558 0,3394 0,3250 0,3568 0,7071 Italva - - - - 0,4551 Aperibé - - - - 0,3003
Santo Antonio de Pádua 0,3186 0,4213 0,3896 0,4691 0,6218
Varre e Sai - - - - 0,4424
Fonte: IBGE Censo Agropecuário 1970, 1975, 1980, 1985, 1995
Contrapondo-se ao movimento observado para os menores estabelecimentos, os 5% maiores estabelecimentos tenderam a manter sua participação na área total, ou mesmo a elevá-la. Na Figura 7, pode-se observar que, mesmo desconsiderando-se o último ano, o percentual da área correspondente aos 5% maiores estabelecimentos sofreu elevação na região de Miracema, mantendo-se praticamente o mesmo nas duas outras micro-regiões. 0 10 20 30 40 50 60 70
M . Reg ião Itap eru n a M . Reg ião M iracema M . Reg ião A çu c. d e Camp o s
%
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 7 – Percentual da área correspondente aos 5% maiores estabelecimentos agropecuários nas micro-regiões do Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
Em nível de municípios, observa-se que não houve, na maior parte dos casos, tendência nítida quanto ao sentido das alterações na participação dos maiores estabelecimentos na área total. Desconsiderando-se o último ano da série, constata-se que, com exceção de Porciúncula e Santo Antônio de Pádua, onde houve incremento na proporção da área ocupada com os 5% maiores estabelecimentos, nos demais municípios esse indicador sofreu pequenas alterações, quer num sentido ou noutro.
0 10 20 30 40 50 60 70 80 C. Goitacazes Macaé S. J. BarraSão Fidelis
C. de Macabu Itaperuna Cambuci Miracema B. J. Itabapoana
NatividadePorciúncula
Laje do MuriaéS. A. Pádua
%
1970 1975 1980 1985 1995
Figura 8 – Percentual da área correspondente aos 5% maiores estabelecimentos agropecuários nos municípios das regiões Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro.
CONCLUSÕES
De uma maneira geral pode-se concluir que as regiões norte e noroeste fluminense possuem uma alta concentração de terras, sendo necessário maiores analises para explicar os fenômenos de oscilação da concentração durante o período analisado.
Por outro lado, foram constatadas algumas alterações no período, que podem ser entendidas como um movimento de concentração da terra, ainda que de pouca magnitude. Nesse sentido, embora a área média tenha exibido uma tendência de declínio, constatou-se um significativo incremento no índice de Gini na micro-região de Itaperuna, o que, entretanto, não foi observado para as demais regiões. Ocorreu ainda redução no percentual da área correspondente aos 50% menores estabelecimentos, principalmente na micro-região de Campos, onde esse indicador já é extremamente baixo. Por outro lado, ao contrário do ocorrido com os menores estabelecimentos, os 5% maiores estabelecimentos tenderam a manter sua participação na área total, ou mesmo a elevá-la, como observado para a micro região de Miracema.
Sabe-se que as políticas governamentais para o setor agrícola durante o período influenciaram a dinâmica do setor, mas podem ocorrer variações de região para região. O período compreendido entre meados dos anos 60 até o final da década de 70 constitui-se, na expressão de (BUAINAIN, 1997), no período da intervenção planejada, no qual a política se pautava por objetivos muito claros, visando promover a expansão da oferta agropecuária, a expansão e diversificação das exportações, bem como assegurar a normalidade do abastecimento doméstico.
No entanto o programa de modernização da agricultura brasileira atingiu apenas uma pequena parcela de grandes proprietários, devido às dificuldades burocráticas e exigências de garantia de pagamentos para obtenção dos empréstimos subsidiados, ficando os pequenos proprietários à margem do processo de modernização. A desigualdade com que esse modelo foi absorvido pelos agricultores e, principalmente, o efeito das políticas que o promoveram, beneficiando determinados segmentos em detrimento de outros, principalmente dos pequenos, são fatores que podem ter atuado no sentido de alterar desfavoravelmente a estrutura fundiária no período.
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