UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES LICENCIATURA PLENA EM LETRAS HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES LICENCIATURA PLENA EM LETRAS

HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

AMBIGUIDADE LEXICAL EM CARTAZES DOS PROTESTOS

MARIA RONNYELE ABREU BARBOSA

JOÃO PESSOA MARÇO DE 2014

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MARIA RONNYELE ABREU BARBOSA

AMBIGUIDADE LEXICAL EM CARTAZES DOS PROTESTOS

Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa.

Prof. Dr. Magdiel Medeiros Aragão Neto, orientador

JOÃO PESSOA MARÇO DE 2014

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B238a Barbosa, Maria Ronnyele Abreu.

Ambiguidade lexical em cartazes dos protestos / Maria Ronnyele Abreu Barbosa.- João Pessoa, 2014.

54f. : il.

Orientador: Magdiel Medeiros Aragão Neto TCC (Graduação) – UFPB/CCHL

1. Língua portuguesa. 2. Ambiguidade lexical. 3.Homonímia. 4. Polissemia. 5. Vagueza. 6. Cartazes.

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MARIA RONNYELE ABREU BARBOSA

AMBIGUIDADE LEXICAL EM CARTAZES DOS PROTESTOS

Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa.

Data de aprovação: ____/____/____

Banca examinadora

Prof. Dr. Magdiel Medeiros Aragão Neto, DLCV, UFPB orientador

Profª. Drª. Maria Leonor Maia Santos, DLCV, UFPB examinadora

Profª. Drª. Mirna Fernanda de Oliveira, UNIOESTE examinadora

_________________________________________________________________________ Profª. Drª. Oriana de Nadai Fulaneti, DLCV, UFPB

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Agradecimentos

Agradeço em primeiro lugar a Deus, que me trouxe até aqui, e não me permitiu desistir ao longo do caminho, mesmo diante de dificuldades.

Aos meus pais, a quem devo tudo, João Avelino e Maria das Neves, por tamanho amor e dedicação a mim, a cada momento da minha vida. E por me amarem incondicionalmente. À minha irmã Rejane, por ser um exemplo para mim. E por me mostrar que as adversidades da vida nos levam sempre ao crescimento e ao amadurecimento.

À minha irmã Rogéria, pela alegria e descontração nos meus momentos de maior estresse. Pelo cuidado e carinho de sempre. Por ser um exemplo de alegria, de esposa e de mãe. À minha irmã Rosângela, pela preocupação comigo. Pelo carinho, amor e dedicação que tem por mim.

À minha irmã Renata, exemplo de esposa, mãe e filha. Obrigada pelo zelo, carinho, amor e apoio de sempre. Obrigada por ser sempre tão protetora e por me amar de qualquer forma. À minha irmã Rita, por toda ajuda, por todo carinho, por toda amizade e por todo o apoio em toda a minha vida, principalmente nos últimos anos. Obrigada por sempre fazer o melhor por mim.

À minha tia, Maria do Céu, pela torcida e pela força de sempre, bem como pelo carinho e amor a mim dedicados em toda minha vida.

À Mirela, irmã do coração, pela amizade, bondade e alegria de sempre. Por me fazer rir mesmo quando minha vontade é chorar.

À Laís, pela amizade e pelo carinho de sempre; e também a Luana, por mesmo distante se fazer presente.

Aos meus cunhados, Manoel e Wellington, aos quais tenho tanta estima, amor e admiração. Aos meus sobrinhos, Fernando, Luiza, Renan, João Vítor e Caio, os quais eu tanto amo. À Luciana, por ser minha amiga ao longo de todo o curso.

Ao Profº. Drº. Magdiel Medeiros de Aragão Neto: por ser meu orientador e por dedicar seu tempo a mim; por despertar em mim a paixão pela semântica; por me proporcionar as melhores aulas, mesmo em manhãs sonolentas; pelas risadas, experiências e histórias compartilhadas; e por fim, por mostrar que tudo “isso é maravilhoso”.

Aos professores Arturo, Leonor, Ferrari, Rinaldo, Juvino, e Marli, por serem exemplos de professores, pela dedicação e respeito para com seus alunos, demonstrando isso em cada aula dada.

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Dedico

Aos meus pais, pelo carinho e amor dedicados a mim, bem como pela paciência durante o período de elaboração desse trabalho. Obrigada por tudo.

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Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projetos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para elas se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha.

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RESUMO

O presente trabalho tem por fim o estudo da ambiguidade e da vagueza, fenômenos que constituem a indeterminação semântica, em cartazes de protestos ocorridos no Brasil em 2013. A ambiguidade que nos propomos a analisar é a lexical, que ocorre da variação de sentido de um item lexical. Os fenômenos que geram casos de ambiguidade lexical são a homonímia, que consiste em formas iguais e sentidos diferentes e não relacionados entre si; e a polissemia, que resulta de um único lexema com dois ou mais sentidos relacionados entre si. Diferente destes dois casos, é a vagueza, que resulta da variação dentro de um único sentido. Teremos, contudo, como foco central, os casos de polissemia, por ser o tipo de indeterminação mais relevante na análise. A fim de diferenciar esses três casos, o primeiro capítulo do nosso trabalho, intitulado Fundamentação teórica, abordará as características de cada um, e apontará critérios que tem o intuito de facilitar no processo de diferenciação. O segundo capitulo, nomeado Análise, é constituído da apresentação do gênero cartaz, seguido do contexto histórico das manifestações e da análise dos sete cartazes, os quais serão nosso corpus. Utilizaremos textos de John Lyons e Heronides Moura para definição, exemplificação e diferenciação de cada tipo de indeterminação semântica; e tambtextos de Bakhtin e Roselane Rocha, para a apresentação de dialogismo e discurso, e do gênero cartaz de protesto, respectivamente. Observamos que os cartazes dão margem a pelo menos duas ou mais interpretações em cada caso analisado, devido à variação de sentido que (pelo menos) um item lexical constituinte do enunciado tem em que este sentido irá incidir em todo o enunciado. Após feita a análise, foi possível observar que a polissemia, enquanto fenômeno linguístico, foi o fator responsável pela criatividade nos cartazes, e também pelo jogo de sentidos que o locutor faz para com o seu interlocutor. Com isso, observamos neste trabalho que o uso da ambiguidade aplicada ao gênero cartaz, não prejudicou a intenção pretendida pelos locutores, que foi a de reivindicar e levar o leitor ̶ que nesse caso refere-se a um público em massa ̶ a apoiar uma causa e reivindicar refere-seus direitos. Por fim, este trabalho justifica-se por mostrar a relevância do estudo da indeterminação semântica no gênero cartaz, gênero que, mesmo apresentando-se curto, é semanticamente rico e não se esgota quanto a possibilidades de estudos.

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ... p. 08 1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA... p. 10 1.1 Indeterminação semântica ... p. 12 1.2 Critérios Distintivos... p. 17 2. ANÁLISE ... p. 25 2.1 Gênero cartaz ... p. 25

2.1.1 Definidores de gêneros de acordo com Bakhtin... p. 27

2.1.1.2 Contexto histórico ... p. 28 2.2 Análise do texto 1 ... p. 30 2.4 Análise do texto 2 ... p. 33 2.5 Análise do texto 3 ... p. 36 2.6 Análise do texto 4 ... p. 38 2.7 Análise do texto 5 ... p. 41 2.8 Análise do texto 6 ... p. 44 2.9 Análise do texto 7 ... p. 47 CONCLUSÃO ... p. 49 REFERÊNCIAS ... p. 53

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como proposta analisar a indeterminação semântica ocasionada pela ambiguidade e pela vagueza. Para tanto, serão utilizados como corpus sete cartazes dos protestos ocorridos no Brasil em 2013. Protestos estes que, iniciaram-se com uma manifestação organizada em redes sociais com o intuito de reivindicar contra o aumento das tarifas dos transportes públicos, e desencadeou uma série de outros protestos em que os ativistas protestavam em busca de melhoria na educação, saúde pública, segurança, e outros setores. A revolta do povo e o descontentamento com a classe política se mostraram não só no uso de cartazes com frases de revolta, mas também no apartidarismo, visto que não houve presença de bandeiras de partidos nos protestos. O povo expressou sua revolta através de cartazes com frases curtas e diretas, fazendo uso de ironias e ambiguidades.

A ambiguidade que interessa a este trabalho é a lexical, gerada a partir da variação de sentido de um item lexical, que resulte em sentenças ambíguas, ou seja, com mais de uma interpretação possível.

Os fenômenos que causam ambiguidade lexical são homonímia e polissemia. A homonímia consiste em dois ou mais itens lexicais com forma igual e sentidos não relacionados, como é o caso de mate, que tem quatro sentidos não relacionados: fosco; erva mate; lance decisivo no jogo de xadrez; 1ª e 3ª pessoas do subjuntivo, e imperativo do verbo “matar”. Já a polissemia ocorre devido à atribuição de dois ou mais sentidos relacionados entre si, a um mesmo item lexical, como por exemplo, café: o grão; o pó fabricado a partir do grão; a bebida fabricada a partir do pó; o estabelecimento comercial onde se toma a respectiva bebida; e ainda, o evento, ao qual costumamos nos referir quando temos o intuito de nos reunir com uma ou mais pessoas, a fim de conversarmos ou debatermos um assunto, podendo haver ou não, o consumo da referida bebida.

A vagueza, muitas vezes confundida com ambiguidade, consiste na variação dentro de um mesmo sentido; assim, ela também resulta em indeterminação. Contudo, não constitui ambiguidade, pois o que ocorre é a falta de precisificação de um sentido, a exemplo da palavra velho, que gera casos duvidosos quanto a sua aplicação a certos seres, em certas situações (MOURA, 2001).

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Por mais que algumas vezes se considere que tudo seria mais simples se todas as palavras tivessem um único sentido, ou seja, fossem monossêmicas, isso não seria econômico, por que seria necessário que se aprendesse um número bem maior de palavras. A monossemia, propriedade que uma palavra tem de ter apenas um sentido, não prevalece na língua, pois, diariamente, são utilizadas palavras semanticamente mais complexas, seja porque têm mais de um sentido, “seja porque são ortográfica e/ou foneticamente idênticas a(s) outra(s), seja porque são vagas” (ARAGÃO NETO, 2012, p. 1).

Em decorrência do caráter indeterminado dos itens lexicais, alguns testes e critérios são sugeridos pelos estudiosos da área, os quais serão apresentados no decorrer deste trabalho, para identificar a cada lexema indeterminado seu respectivo tipo, seja ele ambíguo ou vago.

Como dito, neste trabalho, serão analisados sete cartazes de protesto, os quais constituirão o corpus para o referido trabalho. O foco desta análise será na ambiguidade gerada pela polissemia. Ademais, o trabalho em questão é decerto importante que seja observado que, mesmo apresentando ambiguidades, as intenções “reais” do locutor de cada cartaz foram percebidas. Este trabalho justifica-se por mostrar a relevância do estudo da indeterminação semântica, em um gênero que, a princípio, por apresentar texto curto, transmite a ideia de ter um caráter simples. Contudo, é um texto dinâmico, sóciolinguisticamente marcado, que ainda se apresenta credor de estudos. Por conseguinte, constatamos que os cartazes de protesto não se esgotam quanto a possibilidades de estudos, e assumimos a conjectura de que os cartazes de protesto usam de muita indeterminação semântica, fator que dá ao gênero criatividade. Esse gênero torna o sujeito ideologicamente ativo, posicionando-o como formador de opiniões e responsável por conduzir o outro à adoção de uma causa em favor de um bem comum.

Foram utilizados como arcabouço teórico para este trabalho, textos da área de semântica, bem como textos a respeito do gênero cartaz e sua finalidade discursiva.

Quanto à metodologia, além da introdução e conclusão, este trabalho está dividido em dois capítulos. O primeiro, intitulado Fundamentação teórica, aborda os três fenômenos geradores de indeterminação do sentido, e por conseguinte, elenca os critérios utilizados a fim de distinguir cada tipo: a homonímia, a polissemia e a vagueza.

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No segundo capítulo, Análise, apresentaremos brevemente o gênero cartaz, seguido do contexto histórico das manifestações, com o intuito de situar o leitor com os fatos ocorridos. Por último analisaremos os sete cartazes. E após esse capitulo, segue-se as conclusões dos dados analisados.

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1. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

No nosso dia a dia, embora falantes nativos do português e familiarizados com nossa língua natural, nos encontramos, repetidas vezes, na difícil missão de atribuir significado às palavras e expressões linguísticas em geral. Devido à pluralidade de significados, muitas vezes temos a intenção de dizer uma coisa e acabamos por dizer outra. Isso ocorre pelo fato das palavras possuírem mais de um sentido, ou seja, pode haver variações de um mesmo significado, como também variações de diferentes significados, algo que é próprio das línguas naturais e que culmina em ambiguidade.

Pode parecer, em algumas situações, que tudo seria mais simples se as palavras fossem monossêmicas, tendo, cada uma, um único significado. Não obstante, teríamos que aprender um número bem maior de palavras para darmos conta das nossas interações diárias, o que faria do processo de comunicação algo difícil. Ao contrário disso, “ao encontrar um objeto novo, tentamos imediatamente ‘reconhecê-lo’, encaixando-o em alguma categoria já existente na memória (e na língua) ” (PERINI, 1996).

De acordo com o que nos explica Ullmann (1964), em termos linguísticos existem três tipos de ambiguidade, são elas: gramatical, fonética e lexical. Aqui, nos interessa a ambiguidade lexical, que ocorre por meio da polissemia e da homonímia.

Embora a delimitação do significado dos itens lexicais seja ainda questão em aberto na literatura semântica, vários testes e teorias surgiram com a intenção de explicar casos de ambiguidade lexical, geradas pela homonímia e pela polissemia. Segundo Lyons (1981, p. 109), “a língua dispõe de um vocabulário, ou léxico, que é complementar à gramática”. Nesse vocabulário estão presentes os lexemas da língua e, associados a eles, além de informações semânticas, as informações que são necessárias às regras gramaticais. Essas duas são do tipo morfológicas e sintáticas. Desta forma, é possível identificarmos na entrada de um item lexical, por exemplo, se ele é um verbo, e de qual tipo argumental ele é, como também é possível encontrarmos as informações necessárias para a construção de suas formas flexionais.

Ao falarmos de lexemas, é importante deixar claro que nem todos os lexemas são palavras. Segundo Lyons (1981) há casos em que o lexema é sintagmático, ou seja, sua forma é um sintagma. Podemos exemplificar lexemas sintagmáticos com as frases a seguir:

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1. Geralmente, o puxa-saco dá um marido e tanto.1 2. Depois de tanto sofrer, João bateu as botas.

Quando os lexemas sintagmáticos podem ser relacionados a expressões sintagmáticas não-idiomáticas, dizemos que estas expressões não são lexemas, pois não fazem parte do vocabulário da língua. Segundo Lyons (1981, p. 110) “quando um lexema sintagmático semanticamente idiomático pode equivaler a uma expressão sintagmática não-idiomática”, podemos então dizer que esta expressão possui um sentido literal que difere do sentido figurado, metafórico ou idiomático pertencentes ao lexema sintagmático.

Puxa-saco e bateu as botas são exemplos de lexemas sintagmáticos, porque o conjunto inteiro forma uma unidade semântica e morfossintática, pois puxa-saco pode apresentar-se como sinônimo de “puxa-saquismo”, sentido metafórico de “babão”, e o plural “puxa-sacos”, pode literalmente referir-se ao objeto que comporta sacos. A mesma relação pode ser feita com bateu as botas, podendo este lexema apresentar-se como uma forma figurada de dizer que “João morreu”, ou também que “João” literalmente bateu uma bota na outra, com o intuito, por exemplo, de tirar a areia. Com isso, os dois lexemas sintagmáticos podem variar semântica e morfossintaticamente.

Segundo Lyons (1981), para cada caso de lexema sintagmático, há um caso de expressões em uma língua que deixam dúvidas quanto a serem ou não lexêmicas, ao passo que nem sempre é possível traçar com propriedade uma linha divisória entre lexemas sintagmáticos, de um lado, e expressões fixas e clichês, do outro. Isso ocorre porque não há um critério seguro que nos permita dizer com certeza a diferença entre um e outro. O autor acrescenta que esse fato é uma das razões que nos levam a acreditar que embora o vocabulário de uma língua seja finito por um lado, tem tamanho indeterminado por outro, pois “está na própria essência das línguas naturais o fato de os significados lexicais se mesclarem uns com os outros e de serem indeterminadamente ampliáveis” (LYONS, 1981, p. 111).

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Dada a indeterminação dos itens lexicais, a literatura semântica vem há anos analisando os motivos que levam a esse fato e culmina em casos de ambiguidade e vagueza. Diante disso, falaremos a seguir dos três tipos de indeterminação semântica, bem como dos critérios utilizados para a distinção de cada um dos tipos.

1.1 Indeterminação semântica

Dizemos que um item lexical é semanticamente indeterminado quando para ele existe mais de um sentido correspondente. Os casos em que isso ocorre são a homonímia, a polissemia e a vagueza. Durante anos, os estudiosos da literatura semântica vêm propondo vários critérios e testes para diferenciar cada um dos tipos. Antes de citar os testes, começaremos por conceituar cada tipo de item indeterminado, de acordo com vários autores.

Existem várias definições para os itens indeterminados, e são vários os estudiosos do tema. Contudo, basicamente, todas as definições são sinônimas em algum ponto. Segundo Aragão Neto (2012, p. 3) “homonímia é a relação de identidade formal entre pelo menos dois signos distintos”. Ou seja, na homonímia os significantes são idênticos e os significados diferentes e não relacionados.

De acordo com Lyons (1981) há dois tipos de homonímia, a absoluta e a parcial. A homonímia absoluta ocorre quando o som e a grafia de dois ou mais itens lexicais são iguais, ou seja, quando os itens são homógrafos e/ou homófonos. Podemos exemplificar com o item lexical canto, que possui a pronuncia e a grafia idênticas, contudo seus significados não se relacionam, isto é, existe canto (substantivo) e canto (verbo). Já a homonímia parcial ocorre quando as palavras são: a) homógrafas mas não homófonas (ex: apelo (substantivo) e apelo (verbo)); ou b) homófonas mas não homógrafas (ex: sexta e cesta).

Segundo Lyons (1981), na homonímia os signos não têm relação de significado transparente e∕ou sincrônica. É o caso dos itens lexicais mate1 comoerva-mate”; mate2 comoembaciado; fosco”; mate3 como “lance decisivo no jogo de xadrez; xeque-mate”; e ainda

mate4 como “imperativo do verbo matar” e “1ª e 3ª p. do subjuntivo”. Como podemos observar, há incompatibilidade entre os sentidos dos itens lexicais. De acordo com o que explica Moura (2001), a incompatibilidade entre os sentidos advém da necessidade que uma

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palavra homônima tem de ter um único sentido selecionado no co(n)texto, se opondo a outros sentidos. Assim, há mais de uma entrada lexical no dicionário para registrar as ocorrências dos itens homônimos.

Silva (1989 apud ZAVAGLIA, 2003) nos apresentou uma contribuição para o estudo da homonímia com sua pesquisa baseada em dados empíricos. Esta pesquisa teve o intuito de distinguir palavras homônimas de polissêmicas. A pesquisa foi aplicada em falantes nativos do português, e estes baseavam-se em graus de similaridade, utilizando uma escala de 0 a 4, em que os falantes atribuíam esses valores a pares de palavras. De acordo com essa pesquisa, houve um consenso por parte dos falantes na divisão entre homonímia e polissemia, e assim, foi possível observar que os falantes eram dotados de mecanismos que os levavam a uma compreensão e desambiguação dos pares de palavras, mostrando que os fenômenos da homonímia e polissemia eram distintos na mente de cada um deles.

Passando ao caso da polissemia, dizemos que esta é a propriedade que um signo tem de possuir mais de um significado com alguma relação entre eles. Hoje em dia, na polissemia, procuramos a relação sincrônica entre as palavras (LYONS, 1981). Como é o caso da palavra casa2 “lar, família, edifício destinado à habitação”, cujos significados estão

relacionados. É essa, a princípio, a primeira diferença entre a homonímia e a polissemia, a propriedade que esta tem de ter seus significados relacionados, diferente daquela.

De acordo com Moura (2001), existem dois tipos de polissemia, a saber: a literal e a metafórica. Usemos como exemplo o lexema mala3: “1. Espécie de caixa para transporte de

roupas em viagem; 2. Mala para transporte de correspondência, se utilizada no sentido literal”. Ou podemos utilizá-la no sentido metafórico, sendo mala “pessoa enfadonha; maçante”. A relação entre os sentidos literal e metafóricos advém do fato de assim como é difícil e cansativo carregar uma mala, seja ela de viagem ou de correspondências, pelo cansaço que causa, por muitas vezes ser pesada, é também difícil “carregar uma pessoa mala”, pois comumente atribuímos o sentido metafórico de mala a pessoas maçantes, cansativas, que se tornam difíceis de “carregar”, assim como o objeto mala. Outro exemplo é novela, que possui ao menos três sentidos e estes possuem alguma relação entre si: novela “1. Situação complicada; 2. Gênero literário e ainda 3. Gênero de programa televisivo”. Os dois últimos correspondem ao sentido literal, e o primeiro corresponde ao sentido

2 Dicionário Aurélio (2001). 3 Dicionário Aurélio (2001).

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metafórico. A relação entre os sentidos de novela “gênero de programa televisivo” e “gênero literário” se dá pelo fato de ambos serem constituídos de enredo (com começo, meio e fim), e por este enredo apresentar sempre uma complicação em sua trama. Estes sentidos se relacionam com o sentido metafórico, pelo fato de usarmos novela para relatar uma “situação complicada”, assim como ocorre nos gêneros literário e televisivo.

Outro critério utilizado com o intuito de distinguir polissemia e homonímia é o etimológico, conforme explica Lyons (1981), ou seja, a origem das palavras. Contudo, a linguística sincrônica descarta este critério e o assume como não suficiente ou necessário para a diferenciação entre os dois casos de ambiguidade.

Passemos agora ao caso da vagueza, outro tipo de indeterminação semântica muitas vezes confundida com a polissemia. Ao longo dos anos muitos testes têm sido propostos com o intuito de distinguir polissemia e vagueza. Kempson (1977) aponta quatro tipos de vagueza, são eles: a) vaguidade referencial, que ocorre quando o significado de um dado item lexical, mesmo sendo claro, torna-se difícil de aplicarmos a alguns seres e objetos; b) a indeterminação do significado, que se refere a ocorrência já indeterminada do lexema em um dado enunciado; c) falta de especificação no significado de um item, diz respeito ao significado de um item lexical que, embora pareça claro, é muito geral, ou seja, não especificado; e por último d) disjunção na especificação do significado de um item, ocorre quando o significado do item envolve a disjunção de diferentes interpretações.

Para o primeiro tipo vagueza, podemos exemplificar com a seguinte frase: 1. Caio Castro é um homem bonito.

Não temos um conjunto X de propriedades precisas e∕ou pontuais que possamos acessar para caracterizar alguém como sendo ou não bonito. Contudo, podemos ouvir várias opiniões que nos digam quais características uma pessoa deve ter para ser considerada ou não como bonita. Muitas vezes nos valemos de frases como: “Na minha opinião, Caio Castro é um homem bonito”, para evitarmos comentários contrários acerca do que expressamos ou até mesmo para não ouvirmos do outro que temos mau gosto. O mesmo vale para a palavra velho. Há casos em que chamamos alguém de velho(a) e somos mal interpretados. O que acontece é que muitas vezes, para uma pessoa de 18 anos, alguém com mais de 40 anos é considerado velho. Já para uma pessoa de 70 anos, alguém com 40 anos, como muitas vezes ouvimos as pessoas falarem, “é um menino”, não um velho. Assim sendo, observamos algo

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que é característico das palavras vagas: como não é possível medir precisamente as características que uma palavra vaga expressa, a verdade ou a falsidade dessas características irá depender do ponto de vista assumido como referência, como explica Aragão Neto (2012).

Outras palavras que se adequam como exemplos, são: magro, gordo, rico e pobre. Diante disso, observamos duas propriedade características desse tipo de vagueza: escalaridade e da comparação. Assim, podemos considerar alguém como bonito seguindo uma escala de mais ou menos, e também assumindo que alguém é mais bonito em relação a uma outra pessoa.

O segundo tipo de vagueza abordada por Kempson (1977) pode ser exemplificado através do seguinte enunciado:

1. Fernando comprou a Veja.

Este exemplo nos traz a possibilidade de duas leituras: ou Fernando comprou um exemplar da revista, ou então, a empresa que é dona da revista intitulada “Veja”.

O terceiro tipo de vagueza, “falta de especificação no significado de um item”, pode ser exemplificado através de palavras como: criança e adulto, que não especificam nada quanto a raça, idade ou até mesmo o gênero e assim, acabam generalizando. E também os verbos fazer e ir. Vejamos:

2. Observamos a criança tomando seu sorvete preferido. 3. Elena fez o jantar para o noivado da irmã.

O que podemos dizer no enunciado (3) a respeito da idade necessária para considerarmos alguém como sendo criança? E quanto ao gênero? Não há nenhuma especificação no enunciado. Já no enunciado (4) o emprego do verbo fazer nos possibilita pelo menos duas leituras: ou Elena preparou ou alimentos para o jantar, ou ela mesma fabricou cada item que seria necessário para preparar os pratos do referido jantar.

O quarto e último tipo de vagueza apresentado por Kempson (1977), “disjunção na especificação do significado de um item”, pode ser exemplificado pelo seguinte enunciado:

4. Pedrinho, guarde já essa bola, senão vai apanhar ou ficar de castigo.

No enunciado (5) o elemento ou é inclusivo, pois a parte que o antecede ou a que o sucede pode ser verdadeira, ou então, ambas as partes podem ser verdadeiras. No caso do ou

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exclusivo, seria um caso de ambiguidade, pois ou uma coisa ou outra seria verdadeira, ambas não poderiam ser verdadeiras ao mesmo tempo. O que não é o caso da sentença acima, pois é possível que Pedrinho tanto apanhe quanto fique de castigo. Com isso, no caso desta sentença, há um caso de vagueza, e não ambiguidade.

Na próxima sessão, abordaremos os critérios utilizados a fim de determinar os sentidos, bem como a importância do co(n)texto e da lexicalização.

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1.2 Critérios distintivos

Dada a dificuldade para se fazer a distinção entre os itens indeterminados, ambiguidade (homonímia e polissemia) e vagueza, foram propostos alguns critérios a fim de solucionar ou ao menos ajudar a distingui-los. Um desses, é o critério de obrigatoriedade de determinação no contexto, proposto por Moura (2001), em que se assume que homonímia e polissemia se distinguem, e o traço mais forte nessa distinção é que nas palavras homônimas um só significado relacionado ao item homônimo deve ser selecionado no co(n)texto4. No caso da polissemia, os vários significados podem co-ocorrer de acordo com o co(n)texto.

Com base nesse critério, alguns testes de ambiguidade foram propostos pela literatura semântica, entre eles o teste de identidade e o teste de zeugma, propostos com o intuito de demostrar a incompatibilidade dos sentidos que são associados a um item lexical, como nos explica Moura (2001).

A princípio, a divisão era entre a ambiguidade gerada pela homonímia e pela polissemia de um lado, e do outro lado a vagueza. Contudo, os testes nos mostram algo de maior prioridade, e assim, a oposição passa a ser entre homonímia de um lado, e polissemia e vagueza do outro. A obrigatoriedade que um lexema homônimo tem de ter seu sentido selecionado no co(n)texto é o fator responsável por essa separação, tendo em vista que itens polissêmicos e vagos não necessitam obrigatoriamente selecionar um sentido no co(n)texto. Pinkal (1995 apud MOURA 2001, p. 3) compartilha da mesma opinião ao assumir que “uma expressão é homônima se e somente se um nível de base indeterminado é inadmissível”. Em outras palavras, na homonímia os sentidos são completamente incompatíveis, e já na polissemia, a incompatibilidade pode variar em mais ou menos.

O teste de identidade diz que em caso de incompatibilidade de sentido, ao usarmos a expressão (fazer isso) também apenas o mesmo sentido previamente selecionado, pode ser outra vez selecionado. Vejamos um exemplo dado por Moura (2001, p.3):

1. João encontrou um corretor, e Paulo fez isso também.

4 Fica a critério do leitor a escolha entre uma e outra forma de leitura. Contudo, assumimos aqui co(n)texto como a relação que os elementos linguísticos estabelecem uns sob os outros, diferente de contexto extralinguístico.

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No exemplo acima, só podemos selecionar o mesmo sentido para a palavra corretor em ambas as ocorrências. Ou assumimos corretor como sendo um agente imobiliário, ou como um corretor de texto, por exemplo. O item homônimo corretor não nos permite selecionar um sentido para sua primeira ocorrência na frase e outro para a segunda ocorrência. Ou seja, não é possível uma leitura cruzada, pois as palavras homônimas não permitem coordenação de significados distintos. Já as palavras polissêmicas e as palavras vagas se comportam de maneira diferente. Usemos mais uma vez, um exemplo dado por Moura (2001, p. 3)

2. João gostou do livro, e o Paulo também.

No exemplo acima, podemos, sem nenhum problema, selecionar um sentido para a primeira ocorrência do substantivo livro e outro sentido para a segunda ocorrência. Ou seja, podemos dizer que João gostou do conteúdo do livro, do enredo, e Paulo pode ter gostado do acabamento, da capa, etc. E não há uma incompatibilidade entre os dois sentidos, o que caracteriza o substantivo como polissêmico. Vejamos agora outro exemplo dado por Moura (2001, p.3):

3. Maria é uma boa aluna, e Pedro também.

Neste caso, é possível notar que assim como palavras polissêmicas podem permitir uma leitura cruzada, o mesmo acontece com palavras vagas, que é o caso da palavra bom. Podemos, por exemplo, interpretar da seguinte forma: Maria pode ser considerada uma boa aluna por ser inteligente, por não faltar às aulas ou por ser estudiosa. Já Pedro pode ser considerado também um bom aluno, mas por uma característica diferente da apresentada por Maria. Pedro pode ser um bom aluno por ser participativo, bem comportado, por ter uma boa relação de convivência com os colegas de sala, enfim, por vários fatores. O teste de zeugma, também aplicado ao critério de obrigatoriedade de determinação no contexto, nos mostra que é impossível acessar mais de um sentido, ou seja, não é possível conectar sentidos diferentes com elipse do verbo.

4. João montou o cavalo, e Maria a peça de Shakespeare.

Como podemos notar, não é possível coordenar mais de um sentido para montar, pois de acordo com o que explica Moura (2001, p. 4) “não é possível coordenar por zeugma os sentidos de montar um cavalo (cavalgar) e montar uma peça (encenar), porque o co(n)texto exige a determinação de apenas uma acepção, em oposição a outra”. O teste provaria, então,

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o contrário do que dizem os dicionários: a palavra seria um caso de homonímia e não de polissemia, pois este teste impede a coordenação por zeugma (elipse do verbo) no caso de palavras homônimas. Já as palavras polissêmicas co-ocorrem em determinados co(n)textos e não causam prejuízo nenhum à comunicação. Portanto, se o item lexical “montar” fosse um caso de polissemia, ou até mesmo de vagueza, seria possível fazermos uma leitura cruzada na frase acima, o que não é o caso.

Pinkal (1995 apud MOURA, 2001, p. 4) nos dá o exemplo do adjetivo veloz interpretado de maneira concreta e disposicional aplicado ao substantivo carro. Se, por exemplo, ao vermos um carro passando a 180km e falamos que esse carro é veloz, podemos estar nos referindo à velocidade efetiva do carro, que é a interpretação concreta, ou podemos estar falando da característica própria do veículo de andar velozmente. Não se faz, neste caso, necessária a escolha de um dos significados associados à palavra veloz. Esse comportamento não seria possível diante de um caso de homonímia.

Com base nos exemplos aqui apresentados, observamos que o critério de obrigatoriedade de determinação no contexto separou a homonímia de um lado, e do outro, a polissemia e a vagueza.

Ainda com base nos testes utilizados aqui, observamos que os itens lexicais indeterminados se colocam em uma escala de incompatibilidade entre os seus significados. Nesta escala, no seu mais alto nível está a homonímia, no nível mais baixo, a vagueza, e, numa posição intermediária, a polissemia, como explica Moura (2001).

O critério da lexicalização postula que os itens lexicais têm seus significados provenientes do léxico e do co(n)texto, como explica Moura (2001). Ele explica ainda que quando o sentido acessado está previamente disponível no léxico, o sentido é, então, lexicalizado. Mas quando o sentido é resultante do co(n)texto, não há lexicalização. Por exemplo, se utilizarmos a frase “ele é um bom amigo”, o sentido de bom em bom amigo não estará previamente disponível no léxico. A interpretação dada a bom amigo dependerá do co(n)texto. Se nos encontramos com uma pessoa que já não víamos há muito tempo, e essa pessoa nos pergunta: “como está fulano, vocês eram tão próximos. Ainda são?”; e nós respondermos: “Claro, sempre nos vemos! Fulano é um bom amigo e todo mês me ajuda a fazer compras no supermercado”, dizemos então que fulano pode ser considerado bom por ser prestativo e estar sempre disponível a ajudar. Se ao invés disso nós respondêssemos: “sempre me encontro com fulano para conversar e desabafar. Ele é um bom amigo”. O

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sentido de bom em bom amigo estaria relacionado ao fato de fulano ser um bom ouvinte e provavelmente lhe aconselhar ou prestar atenção em tudo o que é dito na conversa. Dessa forma, percebemos que há uma variação dentro de um mesmo significado. Assim, por não termos um critério de definição preciso, o significado de bom será proveniente do co(n)texto e não do léxico.

Ainda a fim de distinguir polissemia e vagueza, outro teste nos é apresentado por Antunes (2002). Este teste foi proposto por Aristóteles, intitulado teste de definição. Neste teste, um item será polissêmico se, para darmos conta dos seus significados, mais de uma definição for necessário. Como descrito por Antunes (2002), azul forte e azul pastel não necessitam de duas definições, podendo ser explicáveis através de uma só definição: uma gradação de cores que varia entre um tom mais escuro e outro mais claro, contudo, ambos são tons de azul. Já para o item café uma única definição não daria conta, fato que aponta este lexema como sendo polissêmico.

Uma proposta que vai de encontro à distinção de polissemia e vagueza é a apresentada por Cruse (1986, apud ANTUNES,2002, p. 24) que chama de modulação contextual “a variação induzida pelo co(n)texto de modo a dar mais ou menos ênfase a determinados traços semânticos do significado de uma palavra” e seleção contextual quando “um sentido particular de entre outros que um item lexical possui”. Vejamos os exemplos apresentados por Antunes (2002, p. 25):

(1) a. O carro precisa de ir à revisão. (Mecânica) b. O carro precisa de ser lavado. (Carroçaria) (2) a. O quarto está pintado com uma cor leve. (Clara)

b. O João fez uma refeição leve. (Ligeira)

As frases em (1) são exemplos de modulação contextual, pelo fato de mais de um aspecto do item carro ter sido mencionado, ou seja, variados traços semânticos do significado do item carro: a mecânica e a carroçaria. Sendo assim, o co(n)texto deu ênfase a dois traços semânticos diferentes, um para cada ocorrência. Contudo, não se trata de entidades diferentes, mas sim, aspectos diferentes da mesma entidade selecionados pelo co(n)texto. Já em (2) trata-se de um caso de seleção contextual, pois apenas um significado

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de leve é selecionado. Não é possível que os diferentes significados sejam ativados simultaneamente.

Vejamos outros exemplos:

(3) O carro precisa de ser lavado e de ir à revisão.

Um exemplo que nos permite observar que diferentes aspectos de carro podem ser acessados simultaneamente é a frase (3). A estrutura é semanticamente aceita, ainda que os diferentes aspectos de carro (carroçaria e mecânica) estejam sendo referidos.

(4) *O João fez uma refeição leve e tem o quarto pintado da mesma maneira.

A frase (4) acima é semanticamente inaceitável, pois só um sentido de leve pode ser acessado, o que não nos possibilita uma coordenação de significados distintos. O co(n)texto seleciona um significado particular para leve.

As distinções trazidas por Cruse, entre seleção contextual e modulação contextual, que foram apresentadas acima, vão de encontro à distinção entre polissemia e vagueza, já apresentadas, buscando uma separação entre os dois itens. Contudo, o que em um determinado co(n)texto pode constituir caso de variação de um determinado significado, em alguns casos pode vir a constituir significados distintos, como explica Antunes (2002). Em (1) e (3) carro constitui casos de modulação contextual de um mesmo significado, há co(n)textos em que esses significados são incompatíveis. Por exemplo, se em uma sucata temos um carro velho, sem motor ou qualquer outro componente mecânico, dizemos que este é um carro em se tratando de sua forma, contudo já não é um carro quanto à sua função, ou seja, já não é possível utilizarmos para locomoção. Assim, o co(n)texto pode selecionar um significado em particular dentre ou outros que um item lexical possua e o modular um mesmo significado, realçando determinados traços semânticos de um dado item. O exemplo (5) mostra que neste co(n)texto particular carro constitui um caso de polissemia e não vagueza. Vejamos:

(5) Isto é um carro mas já não é um carro.

De acordo com Antunes (2002, p. 26) “o contexto influencia a interpretação do significado de um item lexical, funcionando quer como elemento seletivo quer como elemento criador da sua semanticidade”, sendo assim, importante para a desambiguação do item lexical.

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Assim, percebemos que a polissemia pode ser um fenômeno co(n)textual, quando o co(n)texto influencia na escolha de um significado em particular de um valor semântico específico referente a um determinado item lexical. Contudo, e apesar disso, defende-se a ideia de que nem todos os valores semânticos se dão através do co(n)texto. Assim, acredita-se na existência de propriedades acredita-semânticas independentes. Esacredita-se critério acredita-se asacredita-semelha ao critério de lexicalização mostrado por Kleiber (1999 apud Antunes 2002), em que é assumido que os sentidos lexicais são oriundos do léxico e do co(n)texto. Já as diferentes acepções de uma palavra vaga são derivadas exclusivamente do co(n)texto.

Na opinião de Moura (2001), as questões teóricas são de fundamental importância para a delimitação entre polissemia e vagueza, ele aborda função atribuída ao co(n)texto na determinação dos itens lexicais, e também, o papel reservado à estrutura lexical em si. Outro fator importante nessa teoria é a diferença entre os sentidos lexicais gerados pelo léxico e os que são provenientes do co(n)texto. Com isso, os estudos semânticos atuais têm duas visões divergentes a respeito do processo que resulta na determinação do sentido lexical no co(n)texto, em que atribuem-se papéis diferentes para o léxico e para o co(n)texto. E estas duas sugerem uma sobrecarga na função de um, ou do outro. Com isso, a depender da perspectiva teórica adotada, a produção dos sentidos lexicais será atribuída ao co(n)texto, ou então, ao léxico (Moura, 2001).

A teoria do Léxico Gerativo (LG), desenvolvida por James Pustejovsky (1995 apud ARAGÃO NETO, 2003), veio a se opor a chamada Sense Enumeration Léxicon5 (SEL).

Segundo Aragão Neto (2003), a SEL diferenciava a ambiguidade contrastiva da complementar. Ainda segundo esse autor, nessa teoria, cada sentido de um item lexical correspondia a uma entrada lexical diferente, assim sendo, o item lexical banco teria quatro entradas lexicais, a saber: banco1 como “instituição financeira”; banco2 como “prédio”;

banco3 como “pessoal da instituição”; e ainda banco4 “objeto para assentar-se”. Contudo, apresentaram-se alguns inconvenientes nessa teoria, como por exemplo, a dificuldade de lidar com o uso criativo das palavras, ou seja, com a forma com que as palavras agem em certos co(n)textos. Aragão Neto (2003) explica que devido a não consideração do uso criativo de palavras em novos co(n)textos, foi necessário elaborar um modelo de representação semântica mais rica, que lida com o processamento de línguas naturais visando a explicação semântica dos itens lexicais de maneira isolada ou de acordo com o co(n)texto.

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Nessa teoria, o léxico possui uma série de regras e estas possibilitam a produção de sentidos lexicais diferentes, pelo fato dos itens lexicais possuírem diferentes dimensões de interpretação, e assim, uma interpretação é produzida em um co(n)texto determinado.

A SEL elenca uma infinidade de significados em novos co(n)textos, e também uma lista dos possíveis sentidos ao qual se recorreria para que fosse possível determinar o significado de um item lexical. Outro problema encontrado advém da possibilidade de nem sempre ser fácil selecionar um sentido correto para a ocorrência de um item lexical em um co(n)texto especifico. Outro problema se dá ao tratar um item polissêmico regular como tendo vários sentidos separados em suas diferentes ocorrências, pois não é econômico para a língua, como explica Aragão Neto (2003). Esses são alguns dos problemas apresentados no SEL, o que torna a teoria do léxico gerativo (LG), segundo alguns estudiosos, mais apropriada e econômica para o estudo dos itens lexicais.

No modelo do LG, a criação de sentidos específicos provem de fatores estruturais, e as regras linguísticas determinam os sentidos lexicais a serem acessados. Assim sendo, do ponto de vista teórico, a polissemia depende de condições estruturais, ou seja, uma palavra que seja considerada polissêmica, é resultado de estrutura lexical.

Uma visão que vai de encontro a de Pustejovsky (1995) é a de Moura (2001), que adota a visão polissêmica de indeterminação do sentido, em que o léxico é o principal responsável pela geração do sentido, e o co(n)texto assume o papel de ativador dos sentidos lexicais. Há ainda a visão vaga da indeterminação do sentido, que assume que a estrutura lexical tem um papel secundário e o co(n)texto é o principal ativador dos sentidos. Esta abordagem teórica norteia a Teoria da Precisificação. A precificação consiste em Moura:

Um operador semântico que transforma um sentido indeterminado num sentido mais determinado. Ou seja, dado um sentido lexical Si indeterminado, em relação ao qual mais de uma interpretação é possível, a adjunção a ele de uma precisificação P produz um sentido lexical S1 mais determinado. Se pensarmos em termos de compatibilidade de interpretações, Si é compatível com mais de uma interpretação, ao passo que S1 é incompatível com algumas dessas interpretações. (2000, p. 3)

Ou seja, a precisificação acontece quando um dos sentidos lexicais já previamente disponíveis no próprio léxico é acessado pelo co(n)texto, contudo, não proveniente deste,

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como explica Aragão Neto (2003). Por exemplo, se dissermos, “Fernando é um bom aluno”, nessa frase, nada há de específico quanto ao que seja bom. Não há no léxico nada que determine o sentido de bom, pelo fato de ser uma propriedade que não podemos medir precisamente. Dessa forma, Fernando pode ser um bom aluno quanto ao comportamento, participação em sala de aula, assiduidade ou pelas boas notas. Desta forma, o sentido de bom não está lexicalizado, assim, o sentido será buscado no co(n)texto. Assim, o lexema bom necessita de precisificação, transformando um sentido indeterminado, em um sentido mais determinado. Assim sendo, poderíamos fazer a seguinte precisificação: “Fernando é um bom aluno quanto ao seu comportamento”; dessa maneira, o sentido de “bom” estará precisificado na sentença, impedindo que se atribua outros possíveis sentidos a este lexema.

Diante do exposto, entendemos que o recorte feito entre polissemia e vagueza parece depender da decisão teórica de darmos ênfase ao léxico ou ao co(n)texto na determinação do sentido lexical, mostrando que a teoria é relevante para apontar essas diferenças, e que também, não são coniventes critérios semânticos independentes para fazermos tais distinções.

No próximo capítulo, apontaremos alguns aspectos do gênero cartaz, bem como faremos a contextualização dos cartazes aqui utilizados e, após isso, a análise de cada um.

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2. ANÁLISE

A ambiguidade lexical é produto de uma característica presente nas línguas naturais: a criatividade. Com isso, esta análise tem como intuito demonstrar que as palavras relacionam-se umas com as outras e produzem, algumas vezes, enunciados até então desconhecidos ou nunca ouvidos da mesma maneira, bem como os novos usos de palavras. Assim dito, assumimos que a criatividade que os falantes utilizam na linguagem não produz qualquer impedimento ao entendimento de novos significados em situações discursivas. O gênero cartaz vem a ser uma forma criativa e concisa de chamar a atenção para o que se tem por objetivo alcançar. No caso do cartaz de protesto, o objetivo maior é a reivindicação.

2.1 Gênero Cartaz

Partindo dos estudos teóricos de Bakhtin (1996 apud Rocha, 2013), assumimos que a perspectiva discursiva dos gêneros considera os enunciados como parte de uma cadeia discursiva em que vários elementos estão envolvidos. Para Bakhtin, os enunciados pressupõem a existência de sujeitos do dizer, e estes, através de suas vozes, expressam valores, sempre ligados por meio de uma relação dialógica, ou seja, existe uma interação, na qual um texto escrito ou oral estabelece relação com outros discursos similares. Assim, a chave dos estudos bakhtinianos é o dialogismo. Bakhtin assume que a linguagem é, por natureza, dialógica, ou seja, estabelece o diálogo entre pelo menos dois seres, dois discursos, duas palavras. De acordo com Bakhtin (apud ROCHA 2013, p. 1) “a riqueza da diversidade dos gêneros é imensa, porque as possibilidades da atividade humana são inesgotáveis”, a exemplo desta riqueza, evidenciamos aqui os cartazes dos protestos.

No que diz respeito à finalidade discursiva do cartaz, esta é norteada por informações que são transmitidas a um determinado público utilizando um breve discurso, podendo ou não haver imagens aliadas ao discurso em questão, tendo como intuito chamar a atenção do público e criar, assim, uma rápida afinidade, a fim de sensibilizar e/ou convencer as pessoas

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com relação a um determinado assunto. Cereja & Magalhães (2005) nos explica que além do texto presente na comunicação, há outros fatores importantes que influenciam e auxiliam na construção do sentido, como os papéis sociais que os interlocutores desempenham, a intenção do locutor com o dado enunciado, bem como as circunstâncias histórias ou sociais em que se dá a comunicação. Chamamos esse conjunto de fatores que formam a situação na qual um texto é produzido de co(n)texto discursivo. E chamamos de discurso a atividade comunicativa desenvolvida entre interlocutores, ou seja, à reunião de texto e co(n)texto discursivo que produz o sentido: quem fala, com quem se fala e qual a finalidade do que se fala.

Há vários tipos de cartazes, os comunitários, com intuito de alertar a população com relação aos riscos de várias doenças, muito presentes em unidades de saúde. Há os cartazes utilizados em restaurantes, portas de lojas e afins, os cartazes com avisos a respeito de crianças desaparecidas, criminosos fugitivos da polícia, e há também os cartazes utilizados em passeatas, protestos e reivindicações políticas. O cartaz, comumente, é composto de linguagem verbal e não-verbal, e traz uma linguagem concisa e objetiva, em letras grandes e palavras em destaque, a fim de chamar a atenção do leitor para o que se pretende alcançar ou informar.

As passeatas e manifestações ocorridas no Brasil em Junho de 2013 evidenciaram esse tipo de gênero discursivo, e os manifestantes utilizaram o diálogo com a linguagem das redes sociais, por terem sido manifestações originadas justamente nelas, e depois tomado as ruas, como forma de chamar a atenção do leitor e criar uma identificação instantânea. Visto que a finalidade do cartaz é estabelecer uma comunicação entre os sujeitos, no caso dos cartazes do protesto, a intenção dessa comunicação é a de reivindicar os direitos do povo (ROCHA 2013).

2.1.1 Definidores de gêneros de acordo com Bakhtin

Após as concepções teóricas brevemente apresentadas a respeito de enunciado e gênero do discurso, Bakhtin (2003) apresenta o estilo e faz suas críticas a estilística tradicional. O autor define gênero como “tipos de enunciados relativamente estáveis”, com relação ao estilo, à forma composicional e ao tema. Para o autor gênero do discurso está

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vinculado ao conceito de estilo, apontando que o estilo é um dos principais elementos a constituir o gênero. Assim, segundo o autor, para que se classifique um gênero discursivo, é necessário que os três aspectos acima citados sejam levados em consideração. De acordo com Bakhtin (2003), dentre estes aspectos o estilo é um dos mais importantes, pois, através dele, o falante passa toda sua individualidade. Contudo, o autor deixa claro que nem sempre é possível que através do estilo, seja expressada a forma estilística do sujeito, pois, segundo ele, alguns gêneros necessitam ter sua forma padronizada de linguagem, como é o caso dos documentos oficiais.

De acordo com Bakhtin (2003), o conteúdo temático do enunciado não se resume ao conteúdo em si, mas também a característica de sentido do tema no todo do gênero. O conteúdo temático alude a vontade do autor/falante, adaptando-se assim, ao gênero escolhido.

Em relação à forma composicional do gênero, esta dispõe o conteúdo temático, contudo possibilita ao autor/falante sua inovação, permitindo ao sujeito atualizar/inovar a forma do gênero, e permite que um gênero se distinga de outros, de acordo com seus aspectos técnicos.

A seguir, apresentaremos brevemente o contexto histórico dos cartazes, a fim de situar o leitor.

2.1.1.2 Contexto histórico

Podemos observar, costumeiramente, a presença da ambiguidade em todos os gêneros linguísticos, a exemplo de anúncios publicitários, programas humorísticos, charges, quadrinhos, entre outros. No entanto, neste trabalho, como já dito, iremos apresentar os resultados da análise dos casos de ambiguidade existentes em cartazes utilizados nas manifestações que ocorreram no primeiro semestre de 2013 no Brasil. O que deu início às manifestações foi o protesto contra o aumento das tarifas dos transportes públicos, e os participantes demonstravam que o aumento das tarifas foi o que culminou em protestos; entretanto, houveram outros fatores que contribuíram para que grande parte da população fosse às ruas reivindicar, como por exemplo, gastos em eventos esportivos, como a copa do

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mundo, corrupção, péssima qualidade do serviço público de saúde e homofobia, entre outros fatores. A repercussão foi nacional e internacional, o que levou alguns cidadãos de outros países, e também brasileiros residentes em outros países, a apoiar os protestos que ocorriam no Brasil, fazendo com que os acontecimentos fossem tema de reportagens em noticiários no Brasil e no mundo.

As manifestações foram organizadas na internet através de redes sociais como facebook e twitter. Inicialmente, o objetivo era apenas protestar contra o reajuste das tarifas de transportes públicos. Inicialmente, não houve apoio da mídia, nem mesmo um grande número de participantes. Houve repressão por parte dos policiais militares e com isso, ocorreram conflitos violentos entre os mesmos e manifestantes. Em um segundo momento das manifestações, houve cobertura e apoio da mídia, e os jornais de grande audiência, dos principais canais de televisão do Brasil, tinham como destaque em suas chamadas o que acontecia nas cidades que participavam dos protestos, e também traziam em suas manchetes a repercussão do grande movimento popular.

Os participantes dos manifestos utilizaram cartazes como forma de expressar seus desejos de mudança e também o não conformismo com a situação. Assim, foi possível observar que os manifestantes utilizaram a ambiguidade na elaboração dos cartazes, apresentando uma multiplicidade de sentidos, mostrando humor, revolta e criatividade. E mostrando também, que o uso criativo das palavras em novos co(n)textos é uma maneira inteligente e não impensada por parte dos falantes do português ou qualquer outra língua natural, visto que os estrangeiros que apoiavam os manifestantes brasileiros, também utilizaram os cartazes como forma de apoio.

Diante do que foi aqui explicado, a seguir, apresentaremos uma análise de sete cartazes dos protestos ocorridos no Brasil, que fazem uso da indeterminação semântica como recurso criativo para estabelecerem uma interação entre os sujeitos.

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2.2 Análise do texto 1

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O cartaz acima, foi um dos mais comentados durante os protestos, e foi utilizado após a presidente Dilma ser vaiada durante a abertura da Copa das Confederações no estádio Mané Garrincha em Brasília, em Junho de 2013, antes do jogo da seleção brasileira.

O enunciado presente no cartaz, além dos lexemas que serão analisados, por constituírem casos relevantes de ambiguidade, possui também lexemas homônimos e polissêmicos que não são relevantes para a análise, porém os apresentarei sem maiores detalhes, apenas por questão de esclarecimento. São eles: somos (ser); paciência; causa; acertou; mundo e o como casos de polissemia; os lexemas das e sem como casos de homonímia parcial; e ainda o, se, um, e, a, e que como homônimos perfeitos.

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Dentre os lexemas ambíguos acima citados, dois são relevantes para análise: educação e saúde. De acordo com o dicionário Michaelis7, educação possui os seguintes sentidos8: “1. Ato ou efeito de educar; 2. Aperfeiçoamento das faculdades físicas intelectuais e morais do ser humano; disciplinamento, instrução, ensino; 3. Processo pelo qual uma função se desenvolve e se aperfeiçoa pelo próprio exercício: educação musical, profissional etc.; 4. Formação consciente das novas gerações segundo os ideais de cultura de cada povo; 5. Civilidade; 6. Delicadeza; 7. Cortesia; 8. Arte de ensinar e adestrar os animais domésticos para os serviços que deles se exigem; e ainda”. Todos os sentidos do lexema educação possuem uma relação entre seus sentidos, estabelecendo um caso de polissemia.

Podemos observar a mesma relação entre os sentidos no lexema saúde: “1. Bom estado do organismo, cujas funções fisiológicas se vão fazendo regularmente e sem estorvos de qualquer espécie; 2. Qualidade do que é sadio ou são; 3. Vigor; 4. Força, robustez; 5. Disposição física, estado das funções orgânicas do indivíduo; 6. Disposição ou estado moral do indivíduo; 7. Bem-estar físico, econômico, psíquico e social (conceito moderno); 8. Brinde ou saudação que se faz bebendo à saúde de alguém; 9. A que apresenta alternativas de melhor ou pior. S. pública: arte e ciência que trata da proteção e melhoramento da saúde da comunidade, pelo esforço organizado dos poderes públicos e que inclui a Medicina preventiva e diversas formas de assistência social”.

Diante do contexto9 em que a frase está inserida, o leitor que possui conhecimento do que estava ocorrendo no Brasil, ao ler a primeira oração, possivelmente, irá selecionar o sentido de “civilidade” e “cortesia”, ou seja, irá entender que o povo brasileiro não possui boas maneiras, não é cortês ou polido, pois, a frase foi uma resposta ao que muitas pessoas, inclusive o presidente da FIFA10, Joseph Blatter, falaram a respeito dos torcedores que estavam no estádio durante o jogo da seleção, após as vaias à presidente Dilma. Sendo assim, seleciona-se o sentido de “pessoa não polida”, “mal educada”, devido a isotopia semântica com o item vaias. Contudo, ao deparar-se com a segunda ocorrência do lexema educação,

7 Dicionário online Michaelis. (http://michaelis.uol.com.br/. Acesso em: 22 de fev. de 2014).

8 Na análise dos sete cartazes, serão listados apenas os sentidos mais relevantes de cada lexema, de acordo com a necessidade da análise.

9 Aqui, refiro-me a contexto extralinguístico.

10 Do francês, Fédération Internationale de Football Association (Federação Internacional de Futebol), é a entidade que supervisiona diversas federações, confederações e associações relacionadas com o futebol ao redor do mundo. (http://www.infoescola.com/esportes/federacao-internacional-de-futebol-fifa/. Acesso em: 10 de fev. 2014).

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há uma reinterpretação, e assim, o sentido selecionado passa a ser outro. Assume-se, então, educação, como acesso ao sistema educacional de ensino (fundamental, médio e superior), responsável por formar e capacitar o cidadão para exercer uma profissão ou uma determinada função. A reinterpretação do lexema educação ocorre por meio da isotopia semântica com o item saúde.

Observamos também que há uma relação sincrônica entre os sentidos do lexema educação, relação do mesmo tipo existe no lexema saúde. É importante observar que, geralmente, associa-se “polidez” e “gentileza” a pessoas que são escolarizadas, ou seja, que tiveram acesso ao sistema de ensino, que condiciona o cidadão a uma formação educacional/acadêmica. E o mesmo ocorre com saúde, pois, geralmente, associamos pessoas doentes àquelas que não têm acesso à saúde, que não possuem recursos11 para tratamentos.

Outro aspecto a ser destacado, além da relação sincrônica, é o fato da relação existente entre os significados dos itens lexicais polissêmicos ser sistemática. Assim, “parece existirem classes de nomes que partilham a capacidade de exprimir conceitos da mesma ordem” (ANTUNES, 2002, p. 21) Esse é o caso dos lexemas acima citados: educação e saúde.

A título de exemplo, podemos lembrar outros itens lexicais que possuem o mesmo tipo de relação entre os significados, como Janela “abertura na parede” e “objeto que serve para tapar a abertura na parede”; e porta “abertura na parede”; e “objeto usado para tapar a abertura”; como também escola “instituição de ensino” e “edifício onde a instituição de ensino se localiza”; e banco “instituição financeira” e “edifício onde se localiza a instituição financeira”, como aborda Antunes (2002). Esse fenômeno é o que chamamos de polissemia regular, que ocorre quando “o tipo de distribuição existente entre os significados de um item lexical for comum a outros itens da mesma classe, tornando o fenômeno regular e previsível” (ANTUNES, 2002, p. 22). A mesma relação existente entre os lexemas janela e porta e escola e banco, existe, então, nos lexemas educação (sistema educacional e condição que

11Muitas vezes esses recursos são associados ao resultado da formação acadêmica, ou seja, educação. Deixando bem claro aqui que há quem tenha predisposição a alguns problemas de saúde, mesmo possuindo recursos. A diferença é que quando existem condições de tratamento, a chance de uma pessoa ser tratada e curada são maiores do que a chance de quem não tem como se tratar, por falta de dinheiro para ir a um hospital particular, ou por falta de uma saúde pública de qualidade e de fácil acesso ao cidadão.

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um ser possui) e saúde (sistema de saúde e condição que o ser possui em ter o organismo saudável).

Em síntese, observamos que os sentidos dos itens lexicais polissêmicos podem co-ocorrer em um determinado co(n)texto sem que isso prejudique a comunicação. No caso, há indícios de que quem produziu o cartaz, soube, desde o início, qual o seu objetivo e qual mensagem queria transmitir.

2.3 Análise do texto 2

12

A sentença do cartaz acima foi utilizado durante o jogo do Brasil contra o México, na Copa das Confederações. O cartaz é constituído apenas de linguagem verbal; contudo, para interpretarmos mais detalhadamente o conteúdo do cartaz, devemos também observar que o torcedor que o segura veste a camisa da seleção brasileira, mas usa chapéu mexicano, parecendo estar em contradição, ou indeciso quanto à sua torcida. Contudo, o motivo deste

12 http://esportes.br.msn.com/copa-confederacoes/fotos/cartazes-de-protesto-chegam-%C3%A0s-arquibancadas?page=29

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cartaz se deve ao fato de o mesmo ser utilizado como forma de protesto durante as manifestações no Brasil. Os torcedores decidiram protestar dentro do estádio Castelão, em Fortaleza, utilizando cartazes e aproveitando o fato de ser o jogo algo visto nacional e mundialmente. Assim, o acontecimento teve grande repercussão e ajudou a chamar mais atenção para os protestos que ocorriam na cidade de Fortaleza, e também para os protestos que ocorriam em todo o país.

Na expressão linguística do cartaz, temos a ocorrência da ambiguidade nos lexemas: o e no (homonímia); e está (polissemia). Contudo, as ambiguidades relevantes no cartaz estão nos lexemas povo e ataque. Começaremos com o item ataque, que se encontra em destaque, escrito em caixa alta e em vermelho, cor que representa a guerra e luta, e é associada ao sangue derramado. Em ataque, os sentidos podem variar em: “sm (de atacar2) 1. Ação ou efeito de atacar; assalto, investida; 2.Acusação, agressão, injúria, insulto, ofensa; 3.Os ataques da imprensa ao governo; 4. Altercação, discussão, disputa, pendência; 5. Esp Linha dianteira no jogo de futebol; vanguarda; 6. Esp Ainda em futebol, ação de levar a bola em direção ao arco contrário, com o objetivo de fazer gol”.

Além da ambiguidade em ataque, temos também a ambiguidade presente no lexema povo, que possui de acordo com o dicionário Michaelis, os possíveis significados, e esses significados se relacionam entre si: “1. Conjunto de pessoas que constituem uma tribo, raça ou nação: Povo brasileiro; 2. Conjunto de habitantes de um país, de uma região, cidade, vila ou aldeia; 3. sociol. sociedade composta de diversos grupos locais, ocupando território delimitado e cônscia da semelhança existente entre seus membros pela homogeneidade cultural; 4. Pequena povoação; 5. As pessoas menos notáveis e menos privilegiadas de uma nação ou localidade; a plebe; 6. Grande número; quantidade; 7. Família: Como vai o seu povo?”.

Se levarmos em conta a caracterização de quem segura o cartaz, podemos relacionar o chapéu mexicano, como sendo representante dos jogadores mexicanos, adversários da seleção brasileira. Assim, é possível acessarmos o sentido de povo como sendo o grupo de jogadores mexicanos partindo para o ataque, ou seja, levando a bola em direção ao arco contrário com a intenção de fazer o gol e, possivelmente, obter vitória. Uma segunda interpretação, que é a relevante, ocorre ao levarmos em conta que o torcedor está vestido com a camisa da seleção brasileira, assim, poderíamos assumir que aquele torcedor representa o povo, a nação brasileira, e ataque tem seu sentido relacionado à investida do

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povo brasileiro em busca dos seus direitos, ou ainda, metaforicamente falando, representa o povo em ataque ao governo que é o adversário, com o intuito de fazer o gol e possivelmente obter vitória, ou seja, ter seus direitos respeitados.

A ambiguidade nos itens lexicais povo e ataque é um caso de polissemia, tendo em vista que o lexema povo apresenta seus sentidos relacionados entre si, da mesma forma ocorre com ataque. Com relação ao lexema povo, este substantivo não poderia ser um caso de homonímia, porque há relação entre seus sentidos; nem tampouco um caso de vagueza, pois, de acordo com a propriedade da vagueza, a escalaridade, apresentada por Aragão Neto (2012, p. 8) “alguém pode estar mais velho do que da última vez que o vimos”, mas não pode ser uma entidade menos povo, visto que a há uma escala que classifica alguém como velho, variando entre mais ou menos, mas não há como classificar alguém como entidade do tipo mais ou menos povo. Sendo assim esse, um caso de polissemia e não vagueza.

Já para aferir a polissemia em ataque, podemos recorrer ao critério de lexicalização, proposto por Moura (2001), visto que os sentidos de ataque estão previamente disponíveis no léxico, e não são produzidos pelo co(n)texto, como ocorre no caso de lexemas vagos. Na polissemia, o co(n)texto apenas seleciona um dos sentidos já existentes no léxico, não o gera. As regras linguísticas existentes no léxico “possibilitam a produção de sentidos lexicais nos diferentes contextos” Pustejovsky (1995, p. 59 apud MOURA 2001).

Assim, fica a critério do leitor selecionar um dos sentidos previamente disponíveis no léxico. Tendo o cartaz como finalidade estabelecer um diálogo entre os sujeitos, observamos que em se tratando do cartaz de protesto, a função desse diálogo é reivindicar, e nesse caso em especial, espera-se que o receptor seja não apenas uma pessoa, mas sim o público em massa (ROCHA, 2013).

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2.4 Análise do texto 3

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O texto presente no cartaz, traz dois itens lexicais ambíguos relevantes: troco e bala. Primeiramente, observamos o lexema bala, e seus possíveis sentidos de acordo com o dicionário Michaelis14: “sf (ant alto - al balla) 1. Projétil de arma de fogo; 2. Blocozinho de açúcar refinado em mistura com outras substâncias e solidificado; caramelo, rebuçado”.

O destaque dado ao lexema bala, possivelmente, leva o leitor a interpretar e selecionar o sentido que considera apropriado, que nesse caso seria o de “projétil de arma de fogo”, levando em consideração que, possivelmente, a intenção de quem fez o cartaz foi associar a cor em que bala está escrito em vermelho, ao efeito que a mesma provoca ao atingir alguém (no caso, uma pessoa atingida por bala sangra). Essa interpretação ocorre pelo fato desse cartaz ser uma resposta aos policiais que estavam revidando de forma injusta aos manifestos que ocorriam naquele momento, e como forma de “conter” esses manifestantes, utilizavam balas de borracha, alegando que estas não machucavam, apenas dispersavam os manifestantes. Contudo, houve manifestante reclamando e mostrando que as balas utilizadas machucavam de fato.

13 http://www.autosurf.wcsa.info/diretorio/Noticias/2013/Julho/27-07-2013_20:17:28-julejerizu-autosurf-elpais.html

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Referências

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