SOCIEDADES COOPERATIVAS
Laura Delgado1
INTRODUÇÃO
A manutenção do emprego – e do sustento familiar – é uma preocupação de todos àqueles que dele depende para propiciar a sobrevivência e qualidade de vida a si e seus dependentes. Remetendo o cenário do desemprego ao século XVIII, vê-se que é nele que as cooperativas nasceram.
Historicamente, na Europa, as cooperativas tiveram suas origens na Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra, no Século XVIII, em meio a Revolução Industrial, época em que a mão-de-obra perdeu grande poder de força, unida a baixos salários, longa jornada de trabalho, gerando grandes dificuldades socioeconômicas aos trabalhadores. Diante disse, surgiram, na classe operária, lideranças que criaram associações assistências, sem muito resultado. A partir disso buscaram-se novas formas de superar as dificuldades que assolavam a população frente ao severo capitalismo que avançava a cada dia. Surgiu, então, a ideia de criar uma organização chamada de cooperativa, com regras, normas e princípios respeitadores dos valores do ser humano. Assim, 28 operários tecelões se reuniram e, com a quota de 1 libra cada um, somando 28 libras, no dia 21 de dezembro de 1844, conseguiram abrir as portas de um pequeno armazém cooperativo no Bairro Rochdale-Mandhester, a Sociedade dos Probos de Rochdale, a primeira cooperativa do mundo e seus princípios, até hoje, são considerados a base do cooperativismo. A função inicial da sociedade era conseguir capital para aumentar o poder de compra coletiva. Posteriormente essa estrutura de organização coletiva se difundiu na França e Alemanha e depois para o mundo todo.
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Laura Delgado é advogada, graduada em Direito pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e pós-graduanda em “Arte na Educação: Teoria e Prática” pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Atua como voluntária na Rede Papel Solidario.
No Brasil, a primeira cooperativa se deu no Século XIX, na cidade de Ouro Preto – MG, em 1889, chamada Sociedade Cooperativa Econômica dos Funcionários Públicos de Ouro Preto. Era uma cooperativa de consumo.
Já no Século XX, em 1902 surgiram as Cooperativas de Crédito no Rio Grande do Sul – iniciativa do Pe. Theodor Amstadt. Da mesma forma, também no Rio Grande do Sul, em 1906, por influência dos imigrantes alemães e italianos, tiveram início as Cooperativas Rurais.
Em 1969, foi criada a Organização das Cooperativas Brasileiras – OCB, com a tarefa de representar e defender os interesses do cooperativismo brasileiro. Registrada em cartório, foi caracterizada como Sociedade Civil, sem fins lucrativos, com neutralidade política e religiosa.
Em 1971, a Lei nº 5.574, que entrou em vigor no dia 16 de dezembro, define a Política Nacional de Cooperativismo e institui o regime jurídico das sociedades cooperativas, traz consigo diversas peculiaridades e se ampara em sete princípios primordiais: autonomia da vontade, gestão democrática dos integrantes, participação econômica dos membros, independência, formação e educação, união de esforços e interesse na comunidade.
Significativo avanço se deu com a lei que define a Política Nacional de Cooperativismo (Lei 5.764/1971) que traz consigo diversas peculiaridades da sociedade cooperativa – conforme veremos – e se ampara em sete princípios primordiais: autonomia da vontade, gestão democrática dos integrantes, participação econômica dos membros, independência, formação e educação, união de esforços entre cooperativas e interesse na comunidade. Porém, essa lei restringiu a autonomia dos associados, interferindo na criação, funcionamento e fiscalização do empreendimento.Essa limitação somente foi superada pela Constituição Federal de 1988, que proibiu a interferência do Estado nas associações, dando início à autogestão do cooperativismo.
Com esse rápido escorço histórico, verifica-se que a finalidade inicial da cooperativa – ampliar a competitividade dos pequenos negócios, mantem-se até os dias atuais, afinal, o trabalho cooperado satisfaz necessidades que cada indivíduo sozinho e isolado não conseguiria satisfazer.
Recentemente, em 1998, foi criado o Sistema Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo – SESCOOP, mais uma instituição do
Sistema ´S `, com o objetivo de somar à OCB através da formação cooperativista. Assim o Sescoop é responsável pelo ensino, formação profissional, organização e promoção social dos trabalhadores, associados e funcionários das cooperativas brasileiras.
O presente texto busca expor em uma estrutura de perguntas e respostas como a cooperativa se encontra estruturada no Brasil: sua definição e embasamento legal, forma de constituição, tipos de cooperativa e ramos de atuação, etc.
O QUE É UMA COOPERATIVA?
No Brasil, legalmente as cooperativas são reconhecidas como uma das formas de organização de empreendimentos coletivos2.
A cooperativa é a organização de determinado grupo de pessoas com objetivos em comum que, de forma democrática e participativa, por meio de um acordo voluntário para cooperação recíproca, visam solucionar problemas e suprir necessidades que, sozinhos, não conseguiriam, porém, pelo empreendimento coletivo, podem se fortalecer e aumentar seu poder econômico e de competitividade.
QUAL A NATUREZA JURÍDICA DA COOPERATIVA?
Legalmente, as cooperativas são regidas pelo Código Civil em seus artigos 1.093 a 1096 e pela legislação especial, qual seja, Lei n° 5,764/71, que definiu a Política Nacional do Cooperativismo. Há ainda a previsão na Carta Maior, em seu artigo 174 que diz: “a lei apoiará e estimulará o cooperativismo e outras formas de associativismo”.
O artigo 3° da Lei n° 5764/71 diz:
2“Fortalece o poder de compras e de vendas, compartilha recursos, combina competência,
divide o ônus de realizar pesquisas tecnológicas, partilha riscos e custos para explorar novas oportunidades, oferece produtos com qualidade superior e diversificada” [grifos nossos]. Dentre os empreendimentos coletivos se encontram a central de negócios, consórcio de empresas, rede de empresas, e também, as cooperativas. Disponível em: <https://www.sebrae.com.br/sites /PortalSebrae/artigos/serie-empreendimentos-coletivos-cooperar-para-competir,> Acessado em: 08/11/2016.
“Celebram contrato de sociedade cooperativa as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício de uma atividade econômica, de proveito comum, sem objetivo de lucro”.
O Código Civil considera cooperativa enquanto sociedade simples, independentemente de seu objeto, conforme artigo 982, parágrafo único, que diz: “independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples3, a cooperativa”. É também uma sociedade de pessoas4 (artigo 4° da Lei 5.764/1971).
Apesar de ser, por força de lei, uma sociedade simples, muitas são suas peculiaridades, e Waldirio BULGARELLI (1985, p. 75) inclusive afirma:
“A sociedade cooperativa é hoje mais um tipo de sociedade, com forma jurídica própria, pois tantas foram as modificações, adaptações e limitações que sofreram as regras oriundas dos outros tipos societários, que se tornou impossível confundir a atual sociedade cooperativa com os demais tipos societários” . BULGARELLI, portanto, defende a possibilidade de a sociedade cooperativa ser um novo tipo societário, e não uma espécie da sociedade simples.
Em outra visão doutrinária, a professora Carolina Iwancow Ferreira (2013, p. 137) entende de forma diversa, ou seja, para ela inexiste um novo tipo societário na classificação jurídica da sociedade cooperativa, apenas uma espécie da sociedade simples sui generis das demais. Sua principal fundamentação se refere ao princípio da taxatividade. Vejamos:
“(...) é possível observar que, adotar a interpretação de que seria um novo tipo societário ao invés de um subtipo da
3“A sociedade simples é pessoa jurídica de direito privado constituída para o exercício
de atividade econômica de cunho não empresarial (de natureza civil), cujos integrantes partilham, entre si, os resultados por ela auferidos. (...)
Assim, a sociedade simples tem como objeto social, por exemplo, a prestação de serviços profissionais, em que prepondera a marca particular (intelectual) de seus integrantes, de natureza cientifica, literária e artística; atividades relativas à agricultura e pecuária; a administração e venda de imóveis; e atividade cooperativa” (PAZZAGLINE FILHO, CATANESE, p. 64).
4São aquelas sociedades em que os critérios pessoais na escolha dos sócios e nas
sociedade simples, seria uma atitude contrária ao nosso próprio ordenamento vigente. Em que pese o entendimento diverso, tal alegação resultaria em grande insegurança jurídica, posto que a cooperativa, justamente por apresentar especificidades, possui regulamentação própria que deve ser respeitada”.
Partindo do princípio das sociedades cooperativas serem uma espécie de sociedade simples, destaca-se aqui apenas umadas mais importantes peculiaridades: a finalidade lucrativa.
A sociedade simples em geral, apesar de não ser sociedade empresária, tem por objetivo o lucro, enquanto as sociedades cooperativas não objetivam o lucro, mas sim o proveito comum dos cooperados.
O objetivo maior do cooperado é o de buscar bens e capital com a intenção de favorecer todos os outros. A forma e natureza é própria, não se confundindo com nenhum outro tipo de pessoa jurídica. A principal diferenciação é o papel do ´proprietário` da sociedade, isto é, o cooperado, que difere de todos os cotistas ou acionistas. Na cooperativa, o sócio-cooperado é ao mesmo tempo ´dono da sociedade` (possuidor das quotas-partes), usuário e fornecedor. Na cooperativa, pois, todos são patrões. Inexiste a figura do cooperado-empregado. Ao mesmo tempo que o cooperado é trabalhador da cooperativa, é também cliente. Então, pode-se de dizer que a cooperativa é uma “empresa” que presta serviços aos seus cooperados.
A finalidade da cooperativa é essencialmente econômica. A finalidade maior é colocar os produtos e serviços de seus cooperados no mercado, em condições mais vantajosas do que eles teriam isoladamente – viabilizar junto ao mercado o negócio produtivo de seus cooperados. É a união de esforços para facilitar a execução de uma atividade.
As cooperativas também se diferem das associações. As cooperativas se destinam mais a uma atividade comercial, enquanto as associações a atividades sociais. Assim, a cooperativatem finalidade essencialmente econômica e seu principal objetivo é a viabilização do negócio produtivo de seus cooperados junto ao mercado.
A cooperativa, portanto, é uma sociedade de natureza jurídica própria, regulada pela Lei nº 5.764/71, com peculiaridades que a diferencia de
outros tipos societários, realiza atividade econômica, sem, contudo, escopo lucrativo e seus sócios se comprometem a contribuir com bens e serviços para a execução das atividades de interesse comum
QUAIS AS CARACTERÍSTICAS DAS SOCIEDADES COOPERATIVAS?
Uma distinção importante a respeito da cooperativa e demais sociedades se encontra no artigo 4° da Política Nacional de Cooperativismo (Lei 5.764/1971): suas características. Destaca-se o que segue:
o A adesão na cooperativa deve ser voluntária e o ingresso é livre e ilimitado, resguardado os requisitos e condições estabelecidos no Estatuto Social e a natureza da prestação do serviço;
o A titularização de mais de uma quota-parte não acarreta em nenhum tipo de benefício, vantagem ou privilégios, financeiros ou não para o cooperado (vide artigo 24, §3°, da Lei 5.764/1971). Ou seja, o cooperado titular de três quota parte e o titular de uma quota-parte possuem os mesmos direitos. Por exemplo: um cooperado é igual a um voto – independentemente da quota-parte;
o As quotas-partes são intransmissíveis a terceiros, estranhos à sociedade, ainda que por herança (vide artigo 1.094, do Código Civil). A quota parte não pode ser transferida livremente, mas sim, apenas para aqueles que preencham as condições para ser tornar um cooperado (vide artigo 26 da Lei 5.764/1971);
o A cooperativa é regida pelo princípio da administração democrática, assim, os votos e quórum para funcionamento e deliberação da assembleia geral é computado em número de sócios e não do capital. o As cooperativas são obrigadas a constitui um Fundo de Reserva, cuja
sua finalidade é reparar perdas e atender ao desenvolvimento de suas atividades, bem como um Fundo de Assistência Técnica, Educacional e Social, destinado a prestação de assistência aos associados, seus familiares, e aos empregados da cooperativa – quando previsto nos estatutos (vide artigo 28 da Lei 5.764/1971). Em caso de dissolução da cooperativa, esses fundos não poderão ser divididos pelos sócios – o que caracterizaria vantagem econômica – devendo ser destinado a
instituição municipal, estadual ou federal de fins idênticos ou semelhantes;
o As cooperativas devem ser neutras politicamente não podendo haver descriminação religiosa, racial e social.
HÁ TIPOS DIFERENCIADOS DE COOPERATIVAS?
A OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) estabeleceu a divisão das cooperativas em ramos, em 1993, levando em contas as diferentes áreas de atuação. São eles:
Consumo: busca o abastecimento do cooperado fazendo compra em comum, assim consegue-se preço mais baixo e melhor qualidade do produto;
Social: busca inserir no mercado de trabalho as pessoas que necessitam ser tuteladas ou que estão em situação de desvantagem;
Trabalho: é formada por trabalhadores do mesmo ramo que se propõem a realizar em comum suas atividades. Tem lei própria, como se verá a seguir;
Educacional: formada por professores e pais de alunos que se organizam para prestar melhores serviços educacionais para seus filhos, administrando escolas e contratando professores. Seu principal objetivo é unir o ensino de boa qualidade ao preço justo.
Transporte: busca atuar na prestação de serviços de transporte de cargas e passageiros. Poderiam ser enquadradas no ramo trabalho mas, devido suas peculiaridades específicas, tem denominação própria.
Agropecuária: ramo tradicional englobando produtores rurais, agropastoris e pescadores. Atualmente é responsável por aproximadamente 50% da produção agropecuária brasileira;
Saúde: unindo médicos e outros profissionais da saúde que visam oferecer uma alternativa aos custosos planos de saúde existentes e à inércia e incapacidade do Estado;
Crédito: busca uma melhor administração dos recursos financeiros, atua na prestação de serviços como empréstimos e poupanças. Equipara-se às instituições financeiras e é autorizada pelo Banco Central;
Habitacional: funciona da seguinte maneira: os associados contribuem com um valor mensal e tem acesso a um determinado tipo de imóvel, acordado previamente;
Produção: o associado contribui com seu trabalho para a produção de bens e produtos, assim se descarta a figura do atravessador;
Infraestrutura: atua, de forma coletiva, na prestação de serviços essenciais como energia, telefonia, limpeza pública, segurança, saneamento básico;
Mineral: busca a extração, industrialização e comercialização de produtos minerais;
E, finalmente, Turismo e Lazer: busca organizar a comunidade na disponibilização de seu potencial turístico, sobretudo, hospedando os turistas e prestando-lhes os serviços essenciais. Dos tipos supracitados, dois merecem destaque pois tem legislação própria: a cooperativa social e a cooperativa de trabalho.
A cooperativa social é regida pela Lei 9.867, de 10 de novembro de 1999 e tem por finalidade inserir as pessoas em desvantagem no mercado econômico, por meio do trabalho, fundamenta-se no interesse geral da comunidade em promover a pessoa humana e a integração social dos cidadãos, podendo exercer atividades de organização e gestão de serviços sociossanitários e educativos e atividades agrícolas, industriais, comerciais e de serviços, bastando que em sua razão social conste: cooperativa social. Importante destacar que a lei classifica as pessoas em desvantagem social. São os deficientes físicos e sensoriais, deficientes psíquicos e mentais, os dependentes e os egressos de tratamento psiquiátrico, dependentes químicos e egressos de prisões, além dos condenados a penas alternativas à detenção. Finalmente estão aqui incluídos os adolescentes em idade adequada ao trabalho e situação familiar difícil do ponto de vista econômico, social ou afetivo. A organização é livre e a vulnerabilidade da pessoa deve ser atestada
por órgão competente, ressalvado o direito à privacidade. Excepcionalmente, admite a presença do sócio voluntário que, sem estar em situação de desvantagem, presta serviço gratuitamente.
Já a cooperativa de trabalho, é regida pela Lei nº 12.690, de 19 de julho de 2012.
A cooperativa de trabalho é definida como uma sociedade constituída por trabalhadores para o exercício de suas atividades laborativas ou profissionais com proveito comum, autonomia e autogestão, exercida de forma coletiva e coletiva, para obterem melhor qualificação, situação socioeconômica e condições gerais de trabalho. A Assembleia Geral define as regras de gestão, as diretrizes de funcionamento e operações da cooperativa e os sócios decidem sobre a forma de execução dos trabalhos.
Os princípios norteadores da cooperativa de trabalho seguem os gerais do cooperativismo, porém, diferentemente do que determina o Código Civil, por ser uma lei específica, para a sua constituição bastam o número
de 7(sete) sócios. Da mesma forma que a cooperativa social, deve constar na
razão social: cooperativa de trabalho e é fiscalizada pelo Ministério do Trabalho.
COMO FAÇO PARA CRIAR UMA COOPERATIVA?
Antes de tudo, é preciso ver quais são as exigências legais: a confecção do Estatuto Social, o Capital Social e a documentação exigida pela Junta Comercial ou Cartório, conforme o caso, e a Receita Federal.
Tendo em vista estas formalidades, uma cooperativa assim se cria: Reunião: O primeiro passo se refere à discussão entre as pessoas interessadas e a delimitação do objetivo e reflexão sobre a viabilidade da pretendida cooperativa, questionando por exemplo, se a cooperativa é a solução adequada e se os cooperados estarão dispostos a cooperar. Neste momento devem ser respondidas as seguintes perguntas: A cooperativa é a solução adequada? Os interessados estão dispostos a cooperar? Todos estão conscientes do que seja uma cooperativa, suas características, exigências legais, sociais e de participação voluntária de todos? A cooperativa terá como contratar pessoal qualificado para administrá-la?
Superado o momento inicial supracitado, destaca-se três importantes pilares da criação de uma cooperativa: estatuto social, capital social e registro.
a) As normas referentes ao estatuto social se encontra na lei que define a Política Nacional de Cooperativismo, em específico em seu artigo 21, combinado com o artigo 4° (Lei 5.764/1971). O estatuto social é a base da cooperativa. É ele que direciona o seu funcionamento. De certa forma, é o contrato firmado entre os cooperados e deve para tanto ser aprovado em assembleia geral. O estatuto social deve-se ater ao que dispõe o artigo 15, caput e incisos, da Política Nacional de Cooperativismo (Lei 5.794/1971) aborda de forma específica o ato constitutivo da cooperativa, e sob pena de nulidade elenca quatro incisos: I) a denominação da entidade, sede e objeto de funcionamento; II) o nome, nacionalidade, idade, estado civil, profissão e residência dos associados, fundadores que o assinaram, bem como o balo e número da quota parte de cada um; III) aprovação do estatuto social; IV) o nome, nacionalidade, estado civil, profissão e residência dos associados eleitos para os órgão de administração, fiscalização e outros
b) O capital social é o valor que cada cooperado deverá contribuir. Portanto, é essencial a delimitação/estudo, de forma específica, a respeito daquilo que será objeto de investimento do capital social, como por exemplo, quais as instalações, equipamentos, etc. O capital é o instrumento tanto para o uso da estrutura quanto para a feitura da mesma. Ou seja, a estrutura disponibilizada pela cooperativa tem no cooperado tanto o usuário quanto o fornecedor. Deste modo, o capital social é o instrumento que possibilita o cooperado possuir parcela da sociedade cooperativa – o capital social no cooperativismo não é investimento financeiro, mas sim, possibilidade de uso da sociedade. A respeito do capital social, a Política Nacional de Cooperativismo (Lei 5.794/1971) em seus artigos 21, III e 24 a 27 regula aspectos como o capital social mínimo (que possui valor uniforme para todos os cooperados), a subdivisão em quotas-partes, a vedação de qualquer distribuição de benefícios às quotas-partes, com exceção dos juros, se houver sobras no exercício, etc.
c) Outro dado importante se refere ao registro da cooperativa no órgão competente. Segundo a Lei de Política Nacional de Cooperativismo (Lei 5.764/1971), em seu artigo 18, o registro da cooperativa se dá na Junta Comercial do Estado. Vejamos:
“Verificada, no prazo máximo de 60 (sessenta) dias, a contas da data de entrega em seu protocolo, pelo respectivo órgão executivo federal de controle ou órgão local para isso credenciado, a existência de condições de funcionamento da cooperativa em constituição, bem como a regularidade da documentação apresentada, o órgão controlador devolverá, devidamente autenticados, duas cias a cooperativa, acompanhadas de documentos dirigidos à Junta Comercial do Estado, onde a entidade estiver sediada, comunicando a aprovação do ato constitutivo da requerente”
O registro dos atos constitutivos da cooperativa se dá na Junta Comercial. Este é o entendimento do Tribunal Regional Federal que negou o pedido de uma cooperativa de inscrever no CNPJ antes do registro da Junta Comercial. Decidiu a corte que, por se tratar de lei específica, vale o que dispõe o artigo 18 de Lei 5.764/71. A propósito o Código Civil em seu artigo 1.093, estabelece que “a sociedade cooperativa reger-se-á pelo disposto no presente Capítulo, ressalvada a legislação especial", que deve prevalecer onde contiver estipulações peculiares a entidade cooperativa.O Código Civil não revogou a Lei de Política Nacional de Cooperativismo (Lei 5.764/1971) e dessa forma, mesmo as cooperativas sendo uma espécie de sociedade simples, as mesmas devem continuar registrando seus atos na Junta Comercial, conforme previsão expressa da lei específica (artigo 18, Lei 5.764/1971).
Finalmente, é conveniente que tudo na cooperativa deve ser decidido em Assembleia Geral, pois a vontade deve ser coletiva, democrática e participativa, com a presença dos associados.
A classificação das cooperativas se encontra tipificada no artigo 6° da Política Nacional de Cooperativismo (Lei 5.764/1971).
As cooperativas singulares, previsto no inciso I do artigo supracitado, são aquelas formadas pelo número mínimo de vinte pessoas físicas. Pessoas jurídicas são admitidas, excepcionalmente, apenas no caso de exercerem atividades econômicas igual ou correlatas com a das pessoas físicas, ou ainda, aquelas sem fins lucrativos.
Já as cooperativas centrais, também chamadas de federações de cooperativas, são constituídas por no mínimo três singulares, podendo excepcionalmente admitir associados individuais – exceto se se tratar de atividade de crédito (artigo 6°, inciso II e §2° da Lei 5.764/1971)
As confederações de cooperativas são constituídas por no mínimo três cooperativas centrais/federações de cooperativas, da mesma ou de diferentes modalidades (artigo 6°, inciso II da Lei 5.764/1971).
Historicamente, verifica-se que o campo de atuação das cooperativas foram expandindo da agricultura (área dominante até a metade do século XX) às cooperativas urbanas. Isso mostra seja qual for o problema econômico ou social, sempre é possível a constituição de uma cooperativa.
QUAL A IMPORTÂNCIA DAS COOPERATIVAS NO PLANO DA RELEVÂNCIA ECONÔMICA E DA FUNÇÃO SOCIAL?
Atualmente, tanto os meios de produção quanto os de prestação de serviços giram basicamente em torno do capital e do anseio do lucro. A competição é a regra do capitalismo. Tal estrutura alavancou a tecnologia e a industrialização, porém, trouxe consigo o desequilíbrio social e desigualdade econômica.
No Brasil, esse cenário de desigualdades é prevalente, eis que a Constituição Federal de 1988 trouxe a inovação da função social das empresas, da propriedade, dos contratos, etc. (decorrência do artigo 3°, inciso I da CF – solidariedade).
A função social está intimamente ligada com o conceito da dignidade da pessoa humana (artigo 1°, inciso III da CF). Dessa forma, a busca do lucro é um direito, desde que não acarrete em mais pobreza e desigualdade social e
desde que o homem não ocupe uma posição apenas de “meio” – deve o homem ser o “destinatário final”, o fim, o objetivo final5
.
As sociedades cooperativas cumprem um papel de descentralização do capital. A fonte de renda antes inatingível por uma pessoa sozinha e acessível apenas à grandes e médias potencias econômicas, através da união de um grupo em coletivo organizado acaba se tornando possível.
As sociedades cooperativas desenvolvem um significativo papel na redução de desequilíbrio social e desigualdade econômica, pois, através de seus valores pautados na democracia, igualdade, autonomia e inclusão, a responsabilidade social é apenas a consequência lógica de sua estrutura.
Referências:
BULGARELLI Waldirio. Sociedades Comerciais: Empresa e Estabelecimentos. 2ª ed. São Paulo: Malheiros, 2010.
COMPARATO, Fábio Konder. A Afirmação Histórica dos Direito Humanos. 3° ed. São Paulo: Saraiva, 2004.
FILHO, Marino Pazzaglini; CATANESE, Andrea Di Fuccio. Direito de Empresa no Novo Código Civil. São Paulo: Atlas, 2003.
Natureza Jurídica das Cooperativas. Disponível em: <http://www.direito.ufmg.br/revista/index.php/revista/article/viewFile/P.0304-2340.2013v62p119/247> Acessado em: 8 de novembro de 2016.
Portal
Sebrae:<http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/tipoconteudo/cooperaca o?codTema=1> Acessado em: 8 de novembro de 2016.