Esclerose Múltipla: conceitos gerais e
aspetos particulares
- Epidemiologia e Etiopatogenia
- Compreender a Esclerose Múltipla
- A Gravidez e a Doença na Idade Pediátrica
Formadores:
- Prof. Dra. Ana Martins da Silva
- Prof. Dr. João Cerqueira
- Prof. Dra. Sónia Batista
ESCLEROSE MÚLTIPLA
Epidemiologia e Etiopatogenia
Ana Martins da Silva
Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar do Porto
Professora Associada de Neurologia do ICBAS– Universidade do Porto
E-mail: [email protected]
EPIDEMIOLOGIA
- MUNDO: ≈ 2.5 milhões de pessoas com EM - EUROPA : 700.000 pessoas com EM
Global prevalence of Multiple Sclerosis in 2013 (www.atlasofms.org)
A prevalência da EM no Mundo é heterogénea:
EUA: 140/100.000
Asia Oriental: 2.2/100.000
África Subsariana: 2.1/100.0
Na Europa:
Suécia: 189/100.000
Albânia: 22/100.000
Portugal: 46.3/100.000 (
João Sá, 2006)
Os estudos epidemiológicos permitem classificar a
Península
Ibérica
como
zona de média-alta prevalência
(Portugal entre 40-50/100.000 habitantes).EPIDEMIOLOGIA
Qual a(s) causa(s) da EM ?
1. Alterações genéticas
2. Infeção
3. Hábitos de vida(exemplos: dieta, tabagismo, obesidade)
Qual a resposta mais correta ?
A
– 1
B - 1+2
C - 1+3
D - 1+2 +3
Qual a causa da EM ?
1.
Alterações genéticas
2.
Infeção
3.
Hábitos de vida
(exemplos: dieta, tabagismo, obesidade)
Qual a resposta mais correta ?
A
– 1
B - 1+2
C - 1+3
Natureza multifatorial
Oksenberg,2013Fatores genéticos na EM
Estudos gémeos:
-
:
30% concordância para MZ
e 3-5% DZ
Investigações baseadas em
famílias
-
~ 20% dos doentes com EM
têm um familiar 1º, 2º ou 3º
grau com EM
Estudos de adopção
-
Prevalência
de
EM
em
familiares de 1º grau por
adopção
é
semelhante
à
prevalência da população em
geral
Fatores genéticos na EM
Oksenberg, Expert Rev. Neurother. 2013
Ascherio, Nat Rev Neurol. 2012 Dobson, Neurol, Neuroimmun and Inflam 2017
O risco de EM é 10 x menor em doentes EBV negativos comparativamente com EBV positivo e 2 a 3 x superior nos
doentes com hx de mononucleose Infeciosa
O risco de EM é muito baixo
em indivíduos que nunca foram infetados pelo EBV (
1/1074)
Epstein Barr Vírus e EM
Qual o papel da infeção EBV no aparecimento da EM?
* Ativação e expansão de células B e T autoreactivas durante infeção por EBV – síndrome com forte ativação imune
* Células B incorporam EBV e levam à produção de autoanticorpos e ativação de células apresentadoras de antigénio
Epstein Barr Vírus e EM
Munger et al., Mult Scler. 2011; Ascherio, Nat Rev Neurol. 2012
O tabagismo aumenta o risco de EM (OR=1.46)
A inflamação pulmonar pode levar a ativação do SI que contribui para
aparecimento de algumas doenças inflamatórias (ex: EM e Artrite
Reumatóide) assim resposta a fármacos biológicos
Jalal Poorolajal et al., J Public Health (Oxf). 2016; Olsson et al., Nat Rev Neurol. 2017
Munger et al., JAMA 2006 Chantal Mathieu, 2011
Estudo prospetivo, caso-controlo com mais de 7 milhões de amostras (USA
military personnel)
O risco de EM está significativamente diminuído em doentes
com elevados níveis de 25(OH)D.
Os efeitos da Vit D3 nas células dos sistemas imunes inato e
adquirido promovem a tolerância periférica.
Vitamina D e EM
Munger, Neurology 2009; Hedstrom, MSJ 2012; Versini., Autoimm Reviews 2014
Os adipócitos e células do SI infiltram o tecido adiposo e segregam altos
níveis de adipocinas responsáveis por estado pró-inflamatório
Alto IMC antes dos 20 anos associado a aumento do risco de EM
A obesidade está associado a EM pediátrica
Estilos de vida - Microbiótica
Correlação entre microbiotica e expressão genes ligados SI
Jorg, Cell. Mol. Life Sci. 2016
As alterações do microbioma na EM correlaciona-se com variações na
expressão de genes ligados sistema imune.
Interação genes/estilos de vida e ambientais
A infecção por EBV, o tabagismo e a obesidade na adolescência
interatuam com genes HLA classe II (risco), com substancial aumento do
risco individual de desenvolver EM quando estam presentes os diferentes
fatores.
Qual a causa da EM ?
Goodin, Handbook of Clinical Neurology, 2016
A susceptibilidade genética é um fator determinante na EM
Três (ou mais) fatores ambientais sequenciais tem papel importante O risco de EM é parcialmente definida por fatores que atuam em momentos
críticos, tais como nascimento e adolescência.
CA
S
CA
T
A
CA
US
A
L
-
A identificação dos factores ambientais é fundamental para
prevenção da doença ou identificação dos indivíduos em risco.
S.Ramagopalan,, Lancet Neurol 2010
Mulher, 24 anos, 12 anos de escolaridade, trabalha num call-center
AP:
Obesidade, tabagismo
MH: Anticoncepcional oral
Gravidez Parto
Dezembro 2014
Janeiro 2014
(22 anos)
Dôr ocular direita
Diminuição da visão olho D Dura 7 dias
Caso clínico (1)
Julho 2015 Adormecimento do hemicorpo direito Dura 3 dias de evolução
Mulher, 28 anos, 12 anos de escolaridade, logista
AP:
Obesidade, tabagismo
2 gesta
1.2016 (27 anos)
Alteração da sensibilidade do hemicorpo direito incluindo face
Recuperação em 7 dias Diagnóstico - AVC 9.2016
Alteração da visão
Duração de 4 dias
Caso clínico (2)
EM-SR Inicio 30 anos
14 anos acamado faleceu pelos 54 A)
DN: 1989 EM-SR Inicio: 27A DN: 1992 EM-SR Inicio 22A DN: 1997 DN: 2009
Interação genes/estilos de vida e ambientais
Existe evidência que permite
intervenção:
-Correção/evitar défice de vitamina D
-Abstinência tabágica
-Evitar obesidade na adolescência
Estas medidas são particularmente importantes em periodos criticos, como
adolescência, para
individuos que têm historia familiar de EM e assim têm
risco mais elevados de desenvolver EM .
Obrigado pela vossa atenção
ESCLEROSE MÚLTIPLA
Conceitos gerais e aspectos particulares
Compreender a Esclerose Múltipla
-Prof Dr. João Cerqueira
Serviço de Neurologia do Hospital de Braga
Mulher, 28 anos, 12 anos de escolaridade, logista
AP: Obesidade, tabagismo 2 gesta
9.2016
Alteração da visão
Duração de 4 dias
1.2016 (27 anos)
Alteração da sensibilidade do hemicorpo direito incluindo face
Recuperação em 7 dias
Diagnóstico - AVC
Caso clínico (2)
A que correspondem os surtos?
Neurol Clin. 2011 May; 29(2): 257–278
Neurol Clin. 2011 May; 29(2): 257–278
Mulher, 28 anos, 12 anos de escolaridade, logista
AP: Obesidade, tabagismo 2 gesta
9.2016
Alteração da visão
Duração de 4 dias
1.2016 (27 anos)
Alteração da sensibilidade do hemicorpo direito incluindo face
Recuperação em 7 dias
Diagnóstico - AVC
Caso clínico (2)
A que correspondem as lesões na
RM?
Lucchinetti et al., Ann Neurol 2000;47:707–717
MOG MAG
LFB CD6 8
A placa é a marca patológica da
EM
Na placa há desmielinização e
inflamação
Neurol Clin. 2011 May; 29(2): 257–278
O que sabemos do mecanismo da
doença?
Periferia
Todos temos células autoreativas...
mas controladas.
Goodnow et al. (2005) Nature 435, 590-597
Immunology and Cell Biology 87, 13–15 (2009)
Nas pessoas com EM esse mecanismo
falha.
J Clin Invest. (2012) 122(4):1180-1188.
Mulher , 20 anos, 12 anos de escolaridade, estudante
Antecedentes pessoais e medicações: Φ
1.2017 (20 anos)
Desequilíbrio na marcha, vertigens e
diplopia, 6 dias de evolução
Exame neurológico: parésia adução do olho direito com nistagmus
horizonto-rotatório contralateral (oftalmoparésia internuclear direita) e ataxia da marcha
Caso clínico (3)
Punção lombar: citoquimico normal; índice de IgG aumentado (2.32) e presença de 10 bandas oligoclonais apenas no liquor
Restante estudo sem alterações...
Qual a origem das bandas
oligoclonais?
Quase todas as células estão
envolvidas na EM...
Nature Reviews Neuroscience (2002) 3:291-301
As células são ativadas nos gânglios
cervicais
Hauser SL, Mult Scler. (2014)
Nature Reviews Immunology (2003) 3:569-581
E entram no SNC por 3
“acessos”
Mulher, 24 anos, 12 anos de escolaridade, trabalha num call-center
AP: Obesidade, tabagismo MH: Anticoncepcional oral
Oftalmologia (1 M após): sem alterações
Gravidez Parto
Dezembro 2014
Janeiro 2014
(22 anos)
Dôr ocular direita
Diminuição da visão olho D Dura 7 dias
Julho 2015 Adormecimento do hemicorpo direito Dura 3 dias de evolução
Serviço de Urgência
Caso clínico (1)
Porque é que as lesões mais típicas
de EM são peri-ventriculares?
Principalmente através dos
vasos
Exp Neurol (2010) 225:9-17
No SNC há desmielinização, dano
axonal e perda neuronal...
Ciccarelli et al (2014) Lancet Neurol
Que é imperfeita...
•
Sintomas paroxísticos
•
Reativação dos défices prévios
Obrigado!
Parte 1. Aspectos particulares da EM
EM e
gravidez
Sónia Batista
Serviço de Neurologia do CHUC
1998
Estudo PRIMS
Proscrita!
» Gravidez
Confavreux C. et al. N Engl J Med. 1998. Estudo PRIMS
» Pós-parto
Confavreux C. et al. N Engl J Med. 1998. Estudo PRIMS
Mulher, 24 anos, 12 anos de escolaridade, trabalha num call-center
AP: Obesidade, tabagismo MH: Anticoncepcional oral
Oftalmologia (1 M após): sem alterações
Gravidez Parto
Dezembro 2014
Janeiro 2014
(22 anos)
Dôr ocular direita
Diminuição da visão olho D Dura 7 dias
Julho 2015 Adormecimento do hemicorpo direito Dura 3 dias de evolução
Serviço de Urgência
Caso clínico (1)
M. Pia Amato. ECTRIMS 2012
T
H ↓Estrogénios ↑Estrogénios Prolactina Progesterona TestosteronaT
H1
T
H17
T
H2
Treg
Resposta
imunitária
Pro-inflamatória IL-2 IFN-γ LT Anti-inflamatória IL-4 IL-5 IL-6 IL-10 TGF-β Gravidez _ _Outras questões…
Factos & Mitos
QUESTÕES: EM E GRAVIDEZ
1. Fertilidade Diminuída?
A. Sim
B. Não
No geral não… no entanto:
• Disfunção sexual na EM
• Alguns tratamentos associados a amenorreia ou menopausa prematura • Os estimulantes hormonais para tratamentos de infertilidade podem agravar a EM
QUESTÕES: EM E GRAVIDEZ
2. O bebé da grávida com EM tem mais risco de
complicações?
A. Sim
B. Não
• Sem diferenças no Apgar ao nascimento • Sem aumento das malformações • Sem aumento da mortalidade perinatal • Sem aumento de mortalidade fetal
• Em média, têm um peso ligeiramente menor (sem critérios de baixo peso)
QUESTÕES: EM E GRAVIDEZ
3. O parto na doente com EM tem que ser por
cesariana?
A. Sim
B. Não
QUESTÕES: EM E GRAVIDEZ
4. A analgesia/anestesia epidural está contraindicada na
EM?
A. Sim
B. Não
• Analgesia/anestesia epidural
– Sem aumento do risco de surtos no pós-parto – Sem alteração no curso da EM
QUESTÕES: EM E GRAVIDEZ
5. A amamentação está contraindicada na mulher com
EM?
A. Sim
B. Não
Parte 2. Aspectos particulares da EM
EM na idade pediátrica
Sónia Batista
Serviço de Neurologia do CHUC
Doenças Desmielinizantes Primárias SNC
ADEM
recorrent
e
ADEM
multifásic
a
Síndrome
Clínico
Isolado
•International Pediatric MS Study Group•
Doenças Desmielinizantes Primárias SNC
Doenças Desmielinizantes Primárias SNC
EM
pediátrica
1º evento não ADEM 2º evento não ADEM 30 diasDoenças Desmielinizantes Primárias SNC
EM
pediátrica
1º evento não ADEMRM: critérios McDonald (crianças ≥12 anos)
+
Doenças Desmielinizantes Primárias SNC
EM
pediátrica
ADEM
RM com novas lesões critérios McDonald (crianças ≥12 anos) 2º evento não ADEM 3 meses
+
Caso clínico
Menina, 12 anos de idade Dextra
AP: meningite meningocócica aos 2 anos; miopia diagnosticada aos 7 anos.
QUEIXAS:
- Fraqueza do membro superior direito com ~2-3 semanas de evolução - Formigueiro na não direita desde há alguns dias
Caso clínico
EXAME NEUROLÓGICO: -Vigil, orientada
- Parésia facial direita central
- Hemiparésia direita de predomínio braquial – M. sup G4; ;M. inf G4+ - Hiperreflexia à direita
- CP em extensão à direita
Caso clínico
Caso clínico
RM-CE:
LCR: Bandas Oligoclonais IgG presentes Exclusão de outras doenças
1º evento
não ADEM
RM: critérios McDonald (crianças ≥12 anos)
+
EM
pediátrica
Menina, 12 anos de idade Hemiparésia direita
Esclerose Múltipla Pediátrica
2-5% início em idade pediátrica (em Portugal prevalência 50/100 000)
Idade pré-púbere: sem diferenças entre géneros Depois da puberdade: mais frequente no sexo feminino
Forma de evolução por surtos é mais frequente (95%) Forma primária progressiva é muito rara
Características
epidemiológicas
Esclerose Múltipla Pediátrica
KIDMUS Study Group. N Engl J Med 2007;356:2603-13
História natural da EM pediátrica
Progressão mais lenta… mas atingem EDSS 6 em idades
mais jovens!
Esclerose Múltipla Pediátrica
Taxa surtos pré-tratamento 2.76 vs 1.78 (p 0.01) Taxa surtos pós-tratamento
1.12 vs 0.35 (p<0.001)
Esclerose Múltipla Pediátrica
Hipótese:
EM pediátrica com progressão mais lenta mas
Maior Taxa de surtos Neurodegenerescência -Capacidade de neurogénese +++ Capacidade de remielinização +++
Esclerose Múltipla Pediátrica
A. Ghezzi, et al. Neurol Sci (2010) 31 (Suppl 2):S215–S218