Universidade do Algarve – Escola Superior de Educação e Comunicação
Língua Portuguesa
1º Ano do Curso de Ciências da Comunicação Professora Maria da Conceição de Andrade
Ano Letivo de 2010/2011
Recensão Crítica
Ana Rita Gervásio, 42261 Frederico Campos, 42677 Maria Carolina Oliveira, 42536
Maria Inês Nunes, 39320 Ricardo Pinto, 41913
Literatura Portuguesa
Conto Simbólico
Manuel Teixeira-Gomes
O Triste Fim do Major Tatibiate
Obras Completas de Manuel Teixeira-Gomes, volume II: Gente Singular, Novelas Eróticas e Maria Adelaide
2ª Edição
Lisboa, Biblioteca de Autores Portugueses 2010
Prefácio de Urbano Tavares Rodrigues e notas de Urbano Tavares Rodrigues, Helena Carvalhão e Vítor Wladimiro Ferreira
14 páginas
Dedicado a Francisco Carrelhas
Ao mesmo tempo radicalmente antirromântica; pela forma como os impulsos idealistas das personagens são continuamente menosprezados pelo confronto com os próprios impulsos humanos, com a materialidade ou o ridículo; e antinaturalista e anticientífica, pela forma caricatural como questiona uma realidade cuja compreensão escapa ao racionalismo, a prosa de Manuel Teixeira-Gomes recupera um esteticismo classicista, patente em descrições onde a frase longa, bem cadenciada, sem recusar, para maior propriedade da expressão o uso de arcaísmos, e adquire na evocação imaginária uma beleza raras vezes atingida na literatura portuguesa.
Manuel Teixeira-Gomes nasceu em Portimão em 1860. Terminada a sua instrução primária, seguiu para o seminário em Coimbra, tendo depois estudado Medicina e Direito, sem concluir ambos. Em 1923 foi eleito Presidente da República. Renunciou ao cargo em 1925, exilando-se voluntariamente e, depois de inúmeras viagens, fixou-se em Bougie na Argélia. Faleceu quase cego e isolado em 1941.
No conto simbólico e ficcional que vamos tratar, O Triste Fim do Major Tatibiate, Manuel Teixeira-Gomes apresenta-nos a história sórdida de quatro personagens com um fim inesperado. Neste conto, na primeira parte, que pode ser entendida como a introdução, existe uma breve apresentação das quatro personagens principais. São elas Gentil Pepa, o major, o padre e o poeta. Existem ainda duas personagens secundárias, o alferes e o médico, e um figurante, o guarda de Rilhafoles
(manicómio), que vão surgindo ao longo do conto. As personagens principais são modeladas, pois o seu comportamento difere ao longo do conto, apesar da caracterização física não ser quase utilizada pelo autor e a psicológica ser indireta.
Gentil Pepa era bonita e atraente. Pelo menos era como a viam o poeta Júlio Ramires, o padre Péricles e o major Aparício de Lima. Ela, porém, amava o alferes, um cavaleiro cujas capacidades foram sempre postas em causa pelos “três idólatras”, que estavam encarregues de Gentil Pepa.
Numa segunda parte da obra (desenvolvimento), há o adoecimento de Gentil Pepa e consequente aceitação do alferes como sócio. Então, certo dia, Gentil Pepa adoece, e fica ainda mais enfraquecida quando os três tutores negam a sua proposta de admitir o alferes como sócio beneficiário.
Gentil Pepa adoecia de dia para dia, e recusou-se a ser tratada pelo médico que foi a sua casa (e aqui chamamos a atenção para o facto de Teixeira-Gomes não caracterizar fisicamente as personagens nem especificar mais sobre o sítio onde moram). No entanto, ele receitara-lhe uma limonada de citrato de magnésia (aqui fazemos referência aos possíveis conhecimentos adquiridos enquanto o autor estudou Medicina). Ditou a sorte que seria o Major a tentar dar a limonada a Gentil Pepa, mas todos os seus esforços foram por água abaixo, e este ainda ficou um pouco aluado. Os três não tiveram outra hipótese que aceitar o alferes como sócio. Gentil Pepa logo melhorou.
Numa terceira e última parte da história (conclusão), há o enlouquecimento do Major e o seu internamento, desencadeando o desenlace do conto. Ou seja, na noite seguinte, a convite dos três amigos, o alferes foi lá jantar e levou a guitarra. Porém, quando começa a tocar, o major, para além de Gentil Pepa, começa a marcar o ritmo e a dançar. Mesmo quando a música parou, o major continuou a dançar e a proferir frases sem sentido, tanto que os outros já estavam preocupados. Chamaram o médico que declarou o major como doido e mandou-o para o hospital psiquiátrico. E assim foi.
Os amigos ficaram a sentir-se culpados, e ainda mais Gentil Pepa, e visitaram o major, que maluco estava. Gentil Pepa, de tão culpada que se sentia, teve mesmo de confessar-se ao padre Péricles, porque queria voltar a ter paz.
Desde então mais ninguém se lembrou do major Tatibiate.
A linguagem utilizada é, na sua maioria, literária, mas o conto apresenta-nos também passagens em linguagem familiar, especialmente nos diálogos entre as personagens. Algumas das palavras utilizadas pelo autor são hoje arcaísmos, ou seja,
caíram em desuso. Este conto é simbólico e retrata algumas referências, entre elas a poesia.
No entanto, este conto de Manuel Teixeira-Gomes não tem, cremos, nenhum fim, nenhuma moral, e o enredo é um tudo ou nada vazio.
Bibliografia
SOARES, Mário – MANUEL TEIXEIRA-GOMES, Uma personalidade singular. Porto: Edições ASA, 2001.
TEIXEIRA-GOMES, Manuel – OBRAS COMPLETAS, vol. II. Lisboa: Biblioteca de Autores Portugueses, 2010.
MACHADO, Álvaro Manuel – Quem É Quem Na Literatura Portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979.
MARREIROS, Glória Maria – QUEM FOI QUEM? 200 Algarvios do Século XX. Lisboa: Edições Colibri, 2000.
NEMÉSIO, Vitorino – PORTUGAL, A TERRA E O HOMEM. Viseu: Editora Arcádia, 1978.