Índice:
Editorial
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O Mesmerismo e a Homeopatia
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O Medicamento Homeopático
Combinado Cysto-Gastreu
®S R18
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From Abroad: Homeopatia e a nova
Ficha Técnica, Índice ... 2 Editorial ... 3 O Mesmerismo e a Homeopatia ... 4 O Medicamento Homeopático
Combinado Cysto-Gastreu® S R18 ... 13
From Abroad : A Homeopatia e a nova “Batalha da Grã-Bretanha” ... 17 Recensão crítica ... 21 News ... 22
Índice
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Franz Anton Mesmer Ilustração: Schunk-Design
Caros leitores do Reckeweg Journal, Em 1937, numa conferência reali-zada num encontro da Associação Alemã de Homeopatia (“Deutscher Homöopathischer Zentralverein”) em Berlim, o biógrafo de Hahne-mann, Rudolf Tischner, demonstrou que o mesmerismo era o único procedimento médico aceite por Hahnemann - na última fase da sua vida - para além do método por si desenvolvido . Segun-do Tischner, Hahnemann interpretava o mesmerismo como a influência da força vital que se dirige directa e dinamicamente do mesmerizador à outra pessoa, eliminando a desordem patológica do princípio vital do paciente. Esta perspectiva da doutrina de Hahne-mann inspirou-nos a apresentar neste número a géne-se e o degéne-senvolvimento, bem como a aplicação práti-ca, da doutrina do “magnetismo animal” do médico Franz Anton Mesmer. O primeiro artigo deste boletim é dedicado ao tema acima mencionado. Obviamen-te, neste artigo, também se examinam conecções ideológicas que levaram a que as ideias de Mesmer influenciassem – e continuem a influenciar - outras áreas da medicina para além da Homeopatia, desde a terapia pela música ao sonambulismo, psicanálise e bioenergética. Devido a uma intensa actividade de pesquisa sobre Mesmer que precedeu este número, foi largamente documentado o material existente so-bre Mesmer e soso-bre as ligações entre Mesmer, a his-tória da Medicina, as teorias de Siegmund Freud, a homeopatia e outras escolas terapêuticas.
Surpreendentemente, o magnetismo tal como é en-tendido hoje e como era enen-tendido na época de Mesmer, e o atributo „animal“, estão interligados de um ponto de vista moderno, uma vez que a literatura referente à investigação contemporânea em Biofísica tem produzido frutuosas descobertas sobre o facto de que a radiação electromagnética dos organismos vi-vos ser portadora de informação. Aparentemente, é justamente este o significado da ideia de um mag-netismo que é transmitido pelo mesmerizador, ainda que ilustrado pelo conceito auxiliar de fluido. Este artigo sobre o trabalho de Mesmer inclui alguns as-pectos desta pesquisa e ainda um exemplo ilustrativo, como extrapolação para evidência empírica contem-porânea.
Apresentamos também o medicamento homeopático combinado Cysto-Gastreu® S R181. Através da citação de literatura homeopática de referência, explicamos como a mistura de potências de Berberis vulgaris, Cantharis, Dulcamara, Equisetum hyemale e Eupato-rium purpureum é indicada para inflamação da bexi-ga e do tracto urinário eferente.
A coluna „From Abroad“ deste boletim é ocupada por um artigo que contém a descrição, por assim di-zer, de acções que pretendem tornar a homeopatia obsoleta na Grã-Bretanha, país onde, note-se, a ho-meopatia tinha uma grande tradição. O seu autor é o químico, terapeuta não-médico, jornalista cientí-fico e pesquisador em Homeopatia, Dr. Lionel Mil-grom. Entre o planeamento e a impressão da presente edição, ocorreu um incidente na Grã-Bretanha cuja magnitude – e grau de ignorância das pessoas – di-ficilmente pode ser ultrapassada. Em mais de doze cidades Britânicas, várias pessoas permaneceram em frente de farmácias da cadeia Boots, onde cada pes-soa bebeu o conteúdo inteiro de um frasco pequeno contendo uma alta potência de uma substância alta-mente tóxica. Através desta acção pretendiam provar a ineficácia dos medicamentos homeopáticos. Nós permaneceremos curiosos para saber se, pelo menos, aquele gigantesco ensaio farmacológico – porque re-almente é nisto que ele consiste – foi documentado. A nossa revisão bibliográfica do livro „Clinical Rese-arch in Complementary Therapies“ (Investigação Clí-nica em Terapias Complementares) apresenta, de cer-ta forma, um contraste com os eventos ocorridos na Grã-Bretanha. Contrariando as alegações de alguns dos protagonistas do dilema na Grã-Bretanha, o livro mostra que a pesquisa na área das medicinas comple-mentares não está de modo algum ultrapassada, não é vazia de sentido, nem lhe falta impacto positivo so-bre as terapias. O livro é uma fonte de conhecimen-to para conhecimen-todos aqueles que pretendem alcançar uma compreensão das necessidades e desenvolvimentos futuros das medicinas complementares.
1 Numa edição posterior do Reckeweg-Journal apresentaremos alguns re-sultados terapêuticos obtidos com este medicamento.
Editorial
Otto WeingärtnerNome Dr. Otto Weingärtner
Direcção Pharm. Fabrik Dr. Reckeweg & Co. GmbH Berliner Ring 32 - D-64625 Bensheim País Deutschland
Telefone +49 (6251) 1097245 Fax +49 (6251) 1097227 e-Mail [email protected]
Introdução
Em um artigo do periódico do Deutsche Apotheker Zeitung Nr. 41 /2009, o autor estabelece a ligação entre a Homeopatia praticada por Hahnemann (1755 - 1843) e os ensinamentos do magnetizador Franz An-ton Mesmer (1734 – 1815).
Esta associação é base-ada em dois aspectos. Primeiro, ambos os indi-víduos são marginais ao meio médico do século XVIII e inícios do século XIX. O segundo elo de li-gação é a cidade de Me-ersburg, no lago Cons-tance, um dos locais de actividade de Mesmer e também segundo lar da escritora Annette von Droste-Hülshoff. Este elo não revelaria qualquer ligação entre o magnetismo e a homeopatia não fora o facto adicional de Annette von Droste-Hülshoff ter sido paciente de Clemens von Bönninghausen duran-te vários anos. O tratamento de Annetduran-te von Drosduran-te- Droste--Hülshoff por Bönninghausen figura frequentemente na literatura homeopática referente ao trabalho de-senvolvido por este. Annette von Droste-Hülshoff viajou repetidamente de Meersburg para Munster, na Vestefália, para ser curada – com vários graus de sucesso1 - por von Bönninghausen, das suas várias afecções.
Admissivelmente, a ligação entre homeopatia e mag-netismo patente no artigo da “Apothekerzeitung”, não é a mais impressiva nem a mais substancial. Autor e leitor teriam beneficiado muito mais de uma conec-ção directa entre os ensinamentos de Hahnemann e os de Mesmer, posto que Hahnemann, nos últimos
1 Na biografia de Bönninghausen, Kottwitz descreve detalhadamente os fundamentos e evolução do tratamento de Annette von Droste-Hülshoff [7]. O livro contém igualmente um conjunto de ilustrações e uma exten-sa bibliografia, pelo que nos parece apropriado citarmos apenas o livro de Kottwitz (ver também o artigo sobre Bönninghausen no Reckeweg Journal 2/2009).
anos da sua vida, viu nos ensinamentos de Mesmer a explanação prática da sua ideia de força vital (“Le-benskraft”) e o seu papel na doença. Hahnemann levou esta ideia tão longe ao ponto de afirmar que a doutrina de Mesmer era a única que, justificada-mente, podia coexistir com a homeopatia (ver [15], p. 79).
Quem era Franz Anton Mesmer e em que consiste a sua doutrina do “magnetismo animal”? Os seus tra-tamentos tiveram necessariamente de ter um sucesso que justifique o facto de que o seu trabalho perma-nece vivo até hoje. A intenção do presente artigo é explorar esta questão.
Afortunadamente, temos a vantagem de dispor de informação relativa a um simpósio científico que se realizou em Maio de 1984, em Meersburg, por al-tura da comemoração dos 250 anos do nascimento de Mesmer. Este evento deu origem a um manancial relativamente rico de material escrito (ver também [ 3], [ 9], [18]) sobre a vida e o trabalho de Mesmer, incluindo diversas interconecções com muitos desen-volvimentos na medicina. Em alguns aspectos, este material constitui a fonte do trabalho que aqui apre-sentamos. Obviamente, também foi tida em conta a literatura contemporânea do século XIX.
Temos também de agradecer ao biógrafo de Hahne-mann, Rudolf Tischner (ver [14], [16]) o esclarecimen-to sistemático da relação entre os ensinamenesclarecimen-tos de Hahnemann e os de Mesmer. Durante anos Tischner estudou a biografia de Mesmer e trabalhou intensiva-mente estando, consequenteintensiva-mente, apto e estabele-cer as conecções entre as duas teorias.
Presentemente, qualquer consideração sobre o “mag-netismo animal” leva tendencialmente a que muitas pessoas façam um leve sorriso, como se se tratasse de ideias antiquadas de séculos passados. Em primei-ro lugar, as pessoas tendem a ignorar o facto de que na altura, o magnetismo não era visto como parte do electromagnetismo, tal como este foi formulado pelo físico escocês James Clark Maxwell (1831 – 1879) Otto Weingärtner
Franz Anton Mesmer (1734 – 1815) durante a sua estada em Paris (segundo [13]).
como um sistema lógico e completo, mais tarde. O magnetismo da época de Mesmer continua a ser vis-to como um fenómeno pleno de segredos. Para além disto as pessoas tendem a ignorar que o atributo “animal” (“thierisch”) se refere a uma qualidade que, aparentemente, emana do corpo do magnetizador, o que era inicialmente atribuído ao efeito de magnetos. Expresso em termos modernos, imaginam um fluido cuja fonte é o sistema biológico. Ignorado até ao iní-cio do século XX, só desde então o “magnetismo ani-mal” atraiu um verdadeiro interesse de investigação. Obviamente este interesse não foi despertado pelo ressurgimento do magnetismo e, consequentemen-te, a transposição dos resultados da pesquisa sobre a doutrina de Mesmer só é possível num grau muito limitado. No entanto, podemos registar que existem hoje muitos estudos sérios e credíveis sobre a radia-ção electromagnética dos sistemas biologicos. A ex-planação completa do que é relevante em termos te-óricos seria ir demasiado longe aqui. Pensamos que é suficiente a menção da teoria e apresentar um exem-plo gráfico, no penúltimo parágrafo deste ensaio.
Resumo biográfico
Franz Anton Mesmer nasceu em Maio de 1734 em Iz-nang, uma pequena localidade próxima de Radolfzell no Lago Constance.
O pai de Mesmer era “venator”, uma espécie de guar-da florestal e caçador simultaneamente, ao serviços do bispado. O próprio príncipe-bispo governava Me-ersburg. À partida estava decidido que Mesmer se tornaria padre e portanto, inicialmente, frequentou a escola dos Jesuítas, em Constance. Aos dezasseis anos recebeu a autorização para estudar metafísica e teologia na Universidade Jesuíta em Dillingen no Danube. Em 1754 Mesmer inscreveu-se na Univer-sidade de Ingolstadt. Supostamente doutorou-se em Filosofia, mas não existem provas a tal respeito. Em 1759 mudou-se para Viena para estudar medicina, tendo-se doutorado em medicina em 1766 com uma dissertação intitulada “De influxu planetarum in cor-pus humanum”2.
O famoso doutor Gerald van Swieten3, pupilo de Herman Boerhaave, foi alegadamente um dos seus professores Vienenses, pelo que se assume que o co-nhecimento médico de Mesmer não fosse inferior, como deixou supor com o tema da sua tese, um tanto afastado de medicina. Depois do seu doutoramento,
2 Em português: Sobre a influência dos planetas no corpo humano. 3 Ver também Reckeweg Journal 1, 2008, no qual este mesmo médico Ge-rald van Swieten, médico pessoal de Maria Theresia, é mencionado como percursor das teorias de Arndt e chulz.
Local de nascimento de Mesmer (segundo [18]).
Mesmer estabeleceu-se em Viena como médico, ca-sou com a abastada viúva do farmacêutico conselhei-ro imperial, van Bosch, em 1768, e teve uma vida em grande, ou assim foi dito na altura. Fundou um pequeno hospital próximo do seu consultório. Foi justamente ali que teve lugar a “cura” da cantora, compositora e pianista Maria Theresia Paradis, facto que marca o início da fama subsequente de Mesmer. Troca Viena por Munique depois de várias querelas com os médicos de Viena e com o astrónomo Ma-ximilian Hell que o havia conduzido ao seu método terapêutico. Em Munique foi bem sucedido na cura das numerosas afecções do Presidente da Academia de Artes e Ciências da Bavaria, Herr Peter von Os-terwald.
Em 1778 já Mesmer se encontra em Paris, onde co-nhece Marie-Antoinette e, através desta, tem a opor-tunidade de divulgar o seu método terapêutico através de “Associações de Harmonia” (“Harmoniegesells-chaften”), uma espécie de clubes privados compará-veis às lojas maçónicas. O próprio rei Luís XVI, em pessoa, encarrega a Academia de Ciências de fazer uma revisão científica do método de Mesmer. A Aca-demia produz um veredicto negativo, declarando que o método de Mesmer provinha da sua imaginação. Teve então início uma intensa polémica, amplamen-te documentada na liamplamen-teratura. Tal não impediu que o método de Mesmer fosse praticado com sucesso em grandes instituições médicas e que o próprio tenha feito uma fortuna praticando-o. Uma grande parte da sua fortuna foi depois perdida durante a revolução francesa. Quando a sua esposa – que tinha perma-necido na Áustria – morre em 1790, Mesmer volta a Viena para resolver as questões da herança e retorna a Paris, para logo ser expulso pelas turbulências da revolução, acabando por ficando a viver na sua ci-dade natal.
Em 1806/07 Mesmer viveu em Frauenfeld, na Suiça, de 1812 a 1814 em Constance e a partir de 1814 vi-veu próximo de Meersburg. Durante todos estes anos continuou a dar consultas e a tratar os seus pacientes. Mesmer morre em Meersburg, na sua última residên-cia, em Março de 1815 com um acidente vascular encefálico.
O método de Mesmer
Durante os seus estudos na Universidade de Viena, Mesmer tinha observado Maximilian Hell a utilizar os magnetos para curar determinadas doenças. Estava profundamente impressionado, quer pelo que tinha visto quer pelo que tinha ouvido sobre o assunto. Desta feita, quando concluiu os seus estudos e come-çou a praticar medicina, Mesmer tentou influenciar terapeuticamente os seus pacientes, através da apli-cação de magnetos. Tendo sido bem sucedido, Mes-mer apercebeu-se de que os magnetos também eram efectivos a distâncias maiores. Até que por fim, para sua grande surpresa, verificou ser capaz de alcançar resultados terapêuticos, colocando meramente as suas mãos sobre os órgãos afectados. Mesmer con-clui então que ele próprio tem de deter forças mag-néticas e que estas, aparentemente, são absorvidas pelo paciente. As analogias já conhecidas na altura entre electricidade e magnetismo levarno a am-plificar as forças magnéticas através da electricidade. Mesmer assumiu que era possível utilizar o seu mag-netismo intrínseco para magnetizar não só objectos magnetizáveis mas também objectos electrificáveis. Assim como se pode armazenar a electricidade com a ajuda do vaso de Leyden4, Messmer supunha que deveria ser também possível armazenar o fluido mag-nético em um recipiente adequado.
Com base nestas conclusões, o mais tardar em1780, Mesmer iniciou um tipo de tratamento colectivo dos pacientes, possivelmente devido à elevada afluência de pacientes, que já não lhe permitia trata-los com as mãos individualmente. No tratamento colectivo, os pacientes sentavam-se em círculo à volta do acumu-lador magnético (“baquet”) numa sala forrada com espelhos que reflectiriam e reforçariam o fluido mag-nético, tocando-se com os dedos polegar e indica-dor. A atmosfera era potenciada através de música de piano ou de uma harmónica de cristal que Mesmer tocava5.
4 Um vaso de Leyden, também conhecido como vaso de Kleist, é um recipi-ente de vidro forrado interna e externamrecipi-ente com varetas de metal. O vidro funciona como o isolante de um condensador, parecendo assim permitir o armazenamento de electricidade.
5 A harmónica de cristal é um instrumento musical desenvolvido no século XVIII. Sinos de cristal de diferentes tamanhos são dispostos lado a lado ali-nhados horizontalmente e são atravessados por um eixo. O eixo é rodado através de um pedal. O som é produzido pelo toque dos dedos na parte
su-O acumulador magnético era um tubo de madeira com pedaços de vidro e ferro. O seu conteúdo era molhado com água e fechado. A tampa era atraves-sada com varetas de ferro rectangulares (como um pára-raios) e colocava-se o que era conhecido como cordas molhadas (tal como para transmissão de elec-tricidade) à volta dos pulsos ou tornozelos dos pa-cientes.
A descrição destas sessões faz lembrar o espiritismo, levantando a importante questão: existe alguma pro-va de que alguém tenha sido curado, ou mais preci-samente, tenha sido positivamente influenciado em termos terapêuticos pelo método de Mesmer? Só uma
resposta positiva a esta questão pode refutar a alega-ção de que Mesmer era um charlatão. Para obter uma resposta a tal pergunta vale a pena examinar mais profundamente os tratamentos acima mencionados da menina Paradis de Viena e do Sr. von Osterwald em Munique. Ao analisar a literatura encontramos muitas descrições de casos, mas falta a documentação ne-cessária para ihes dar credibilidade. Possivelmente tal deve-se ao método documental praticado na altura, ou pode dever-se ao facto de Mesmer não entender as doenças tal como elas são entendidas hoje, de acordo com as definições da Organização Mundial de Saúde, mas sim porque ele via as doenças como
perior dos sinos, enquanto estes giram accionados pelo pedal. A amplitude tonal vai de duas oitavas e meia até quatro oitavas.
projecções de bloqueios e a cura com a ajuda do magnetismo animal (ver também [ 9], p.233 –252) como uma restauração da mobilidade do organismo como um todo.
Lendo várias descrições das causas da enfermidade da menina Paradis, a evolução do tratamento feito por Mesmer e os acontecimentos posteriores, verificamos que há inconsistências. Estas começam com a idade que a menina tinha quando ficou doente e terminam com a interpretação do sucesso da terapia. Marie The-resia Paradis era uma jovem rapariga de cerca de 18 anos no tempo em que Mesmer a tratou. Ela era cega desde a mais tenra infância e vários especialistas dos olhos tentaram em vão curar a assumida parale-sia do nervo óptico com vesicantes, sanguessu-gas, choques eléctricos. etc. Uma bolsa anual de 200 florins concedida pela imperatriz ao talen-to musical da jovem, por conta de sua cegueira, entrelaça toda a história. Alegadamente, Mesmer observou a jovem, em muitas ocasiões, duran-te um longo período de tempo, tendo recolhido informações detalhadas sobre as suas condições de vida. Inicialmente, ofereceu-se para controlar os movimentos de rotação e contracção dos seus olhos. Mais tarde afirma que desde o início teve a intenção de curar completamente a sua cegueira, sem que an-tes tenha mencionado tal, a alguém. Mesmer come-çou a tratar a jovem em ambulatório, em Janeiro de 1777 e a sua terapia magnética teve resultados muito rapidamente. A jovem cega acalmou e ao quarto dia os seus olhos moveram-se para a sua posição normal. Os tremores no corpo cessaram, mas sentia o toque da mão de Messmer como agulhas espetadas, as do-res nos olhos e mesmos nas costas aumentaram e sen-tiu vertigens. Nesta altura Mesmer interna-a na sua clínica privada. Tinha de permanecer no escuro pois
a sensibilidade dos seus nervos ópticos aumentava de dia para dia. Mesmer explicava isto como sendo o resultado das primeiras impressões do contacto com a luz. Ele tinha conseguido mover os olhos dela para a sua posição natural, conferindo-lhe a capacidade de os movimentar livremente e restaurando-lhe a “vi-são”. Tudo isto parecia ser um sucesso espectacular de Mesmer – até que toda a história caiu por terra. Em breve circulava um rumor em Viena de que a jovem não conseguia ver de todo e que era mesmo incapaz de identificar os objectos colocados à sua frente. Os seus pais estavam assustados com a perspectiva de que a sua filha não poderia nunca mais dar concertos e que a sua bolsa lhe seria retirada, pelo que exigi-ram o término imediato do tratamento com Mesmer. Seguiram-se duros argumentos entre o pai da jovem e Mesmer. No final, a paciente começou a vomitar, teve espasmos, ataques de raiva e como resultado, voltou ao seu estado de cegueira. Em retrospectiva, podemos constatar que a doença da jovem não se devia tanto a uma perda definitiva da visão, estando mais ligada a uma contorção dos olhos e ocorrência de convulsões.
O tratamento de Herrn Peter von Osterwald, que ti-nha o formidável título de Conselheiro Privado do Eleitorado da Bavaria e Director da Academia de Munique tem características totalmente diferentes. Se bem que Osterwald estivesse presente na demonstra-ção do método de Mesmer na Academia, não ficou particularmente impressionado. Só depois de ter ou-vido falar aos seus amigos de curas surpreendentes, contactou Mesmer. Quando os dois se encontraram, Osterwald descreve-lhe numerosas doenças sofridas anteriormente. Mais tarde descreve a cura magnética realizada por Mesmer, sublinhado que Mesmer não tinha utilizado um único magneto. Mesmer tratou-o de uma forma simples, tocando-o directamente ou in-directamente nas áreas afectadas, contínua ou inter-mitentemente consoante as circunstâncias. Osterwald e outros foram curados milagrosamente e afirmavam--se firmemente convencidos da existência de alguma matéria subtil. O relato de Osterwald é significativo em três aspectos. Em primeiro lugar Osterwald in-sistiu em experimentar pessoal e fisicamente o tra-tamento, pelo que pode atestar a sua autenticidade. Em segundo lugar, era uma figura pública o que, só
por si, traz credibilidade, prestando ao mesmerismo um serviço de valor incalculável. Em terceiro lugar, afirma claramente que a transferência do magnetis-mo por Mesmer não era uma questão de dispositivos externos e que Mesmer só transmitia algo que lhe era inato. Olhando para trás, também não podemos des-cartar aqui a hipótese, das queixas em questão não serem manifestações primárias de doenças orgânicas, mas parestesias, que podem melhor ou desaparecer através do tratamento personotrópico do paciente.
Hahnemann e o mesmerismo
Num artigo “Sobre a relação entre Homeopatia e Mesmerismo” (“Zum Verhältnis von Homöopathie und Mesmerismus”) [17], Renate Wittern refere-se às ligações entre as ideias de Hahnemann e o trabalho de Mesmer.
Segundo este trabalho, é suposto Hahnemann ter es-tado em Viena em 1777 - facto confirmado por Tisch-ner (ver [13], [15]) - tendo pois tido a oportunidade de acompanhar, no local, a cura da Menina Paradis. Na sua tese de doutoramento “Conspectus adfectuum spasmodicorum aetiologicus et therapeuticus”6, apre-sentada na Universidade de Erlangen em 1779, Hah-nemann enumera os medicamentos para a cura dos nervos. Entre eles encontram-se a casca de quina, a electricidade e o magnetismo. Esta último tem a nota adicional “Mesmerianae Curationes (em Odontal-gia)”.
Mesmo nos seus primeiros escritos [8], publicados no “Jornal da Farmacologia Prática” (“Journal der practis-chen Arzneykunde und Wundarzneykunst”), em Hu-feland, Hahnemann estabelece uma analogia entre o magnetismo animal e as pequenas doses de medica-ção características do seu sistema, dizendo que esta força, que o magnetismo animal desenvolve, funda-menta que já minimas doses de reméditos actuam nos organismos receptivos a elas. Hahnemann utiliza o termo “receptividade” como sinónimo de “remédio identificado segundo o princípio de similitude”.
6 Em português: Observações relativas à etiologia e terapia das doenças espasmódicas.
A terceira edição do Organon, nas secções 319 – 320 (ver [6]), contém elaborações sobre a afiliação do princípio de Mesmer no impacto da medicação pelo similar7. Hahnemann expõe aqui os seus pontos de vista sobre a natureza do mesmerismo assim como faz a descrição dos
esta-dos de doença tratáveis através dele e respectivo método de aplicação. Hahnemann conclui, com clareza, que o mes-merismo é uma força curadora que é transmiti-da à pessoa doente pela vontade e toque de um ser humano presente. Hahnemann assume que são partes “anormalmen-te acumuladas” de força
vital insuficiente que podem ser melhor distribuídas pelo organismo através do mesmerismo. Descreve a aplicação do mesmerismo como um afagar, do que está por baixo da superfície corporal, pela intensa proximidade da palma das mãos, da cabeça aos pés. Num ensaio publicado, em vária partes, na AHZ ([11]) no ano de 1855, o médico de Hamburgo Sie-mers descreve como foi necessário uma elevada persuasão para despertar o seu interesse na Home-opatia e como deste modo tomou conhecimento das directivas de Hahnemann sobre a aplicação do mesmerismo. Segundo Hahnemann, Siemers afirma por um lado, que o mesmerismo proporciona a pos-sibilidade de estimular sintomas semelhantes aos do estado patológico que se pretende curar e, por outro lado funciona dispersando as acumulações anormais localizadas da força vital, que falta em algum outro lado e por último transmite também uma nova força vital. Siemers descreve detalhadamente a pertença de medicamentos individuais a grupos; descreve casos e oferece uma espécie de guia, para novos colegas, do estudo e prática do mesmerismo. Para ele, a agitação durante a preparação das potências homeopáticas é idêntica à magnetização de Mesmer.
7 Na sexta edição, nas secções 288 – 289, esta descrição é quase literal. Ernst Stapf; imagem gentilmente cedida por Homéopathe Internati-onal.
Ernst Stapf, um dos primeiros alunos de Hahnemann - e durante algum tempo um dos de maior confiança – tentou [12] discutir as possibilidades de aplicação do mesmerismo com base no sistema homeopático. Devido à sua relação próxima e confiança mútua, podemos assumir que Stapf falou extensivamen-te com Hahnemann, o mestre, anextensivamen-tes de publicar as suas ideias. A esta luz, o conteúdo publicado pode ser interpretado como uma espécie de afirmação do próprio Hahnemann. Stapf aceita, sem questionar, a existência do magnetismo animal, embora não como uma panaceia. Discute detalhadamente tipos de efei-tos, possíveis formas de absorção do fluido, as indi-cações do método, os requisitos necessários quanto ao mesmerizador, etc. Exige que a indicação para um medicamento homeopático seja confirmada por – isto é inteiramente actual e constitui em essência o ponto principal do seu ensaio – uma verdadeira aná-lise prévia dos casos clínicos conhecidos e provas do mesmerismo em pessoas sãs.
Carl Gottlob Caspari definiu mesmerismo [2] com a influência dinâmica imediata do corpo de um ser vivo sobre outro; tal como Stapf, ele rejeita a ideia de panaceia. Igualmente como Stapf, Caspari não tem dúvidas de que o mesmerismo se submete às leis da homeopatia. No entanto, ao contrário de Stapf que apenas pára e coloca questões, Caspari leva a cabo experiências sistemáticas com o mesmerismo, em pessoas sãs, de forma semelhante a um estudo clínico farmacológico e publica os seus resultados [2]. Conclui que o mesmerismo origina uma doença semelhante a excitação do sistema nervoso e conse-quentemente o mesmerismo é adequado a aplicação terapêutica para tratamento de “doenças com eleva-da excitação do sistema nervoso e falta de força do mesmo. Caspari publicou uma lista de 80 sintomas observados durante os ensaios.
De um modo geral, podemos concluir que Hahne-mann tinha uma perspectiva psico-fisiológica da doença, patente desde a sua tese de doutoramen-to até descrição da aplicação e uso apropriados do mesmerismo, que faz no Organon. Por exemplo, Hahnemann não refere como indicação uma força
O legado de Mesmer à Medicina
Muitas vezes personalidades excepcionais continu-am a exercer a sua influência através do que deixa-ram escrito. Assim podemos ler sobre as várias etapas do seu percurso, ler descrições documentadas das suas invenções ou descobertas. No caso de Mesmer a situa ção é ligeiramente diferente. Muitos dos do-cumentos que chegaram até hoje estão escritos em francês, devido ao facto de ele viveu e trabalhou em França durante um longo período e o francês era a língua de eleição nos círculos sociais mais elevados da altura. Tischner teve dificuldade em encontrar tra-balhos de Mesmer em livrarias [13]. Conseguiu en-contrar 31 documentos, ainda que alguns deles sejam pequenas notas. Não podemos falar de uma obra li-terária completa. A partir do levantamento feito por Tischner, estão listados no Quadro 1 alguns dos títu-los de Mesmer.
Ao longo deste ensaio tem havido indicações claras de que o tratamento de Mesmer visada mais tratar o corpo humano no seu todo, do que promover a me-lhoria de sintomas locais. Assim sendo, não é surpre-sa que o legado de Mesmer nos conduza a todo um conjunto de métodos imputável ao aspecto psicológi-co da acção terapêutica e não ao acto de cura local. Está fora do nosso âmbito traçar todas as linhas que se originam a partir de Mesmer. O desenho mostrado no Quadro 2 pode servir como primeira orientação. Nas actas da conferência [9] da autoria de Schott - o editor [10] e de Bongartz [11], podem ser encontra-das extensas descrições sobre o desenvolvimento da hipnose, que se seguiu à psicanálise Freud. Ambos os ensaios incluem a via que liga Mesmer a Freud e dispõem de uma extensa bibliografia. No entanto, as ligações à parapsicologia, treino autogénico, terapia pela música, terapia de grupo, teoria do orgone de Wilhelm Reich e à bioenergética, estão menos bem documentadas.
Electromagnetismo e sistemas biológicos
A pessoa de Mesmer, manifestamente, emanava uma força que era por ele usada para curar as pessoas das vital perturbada, mas sim uma distribuição desigual
da mesma, relativamente aos chamados – mais tar-de – estados espasmódicos dos pacientes. Caspari e com algumas limitações Siemers, apesar de este só o deduzir pela descrições dos seus casos, sumarizaram isto de sua própia maneira.
1. Dissertatio physico-medica de planetarum in-fluxu.
2. Schreiben über die Magnetkur von Herrn A. Mesmer, Doktor der Arzneygelährtheit, an ei-nen auswärtigen Arzt. Viena, 1775, Druckerei J. Kurzböck, Cópia na Biblioteca da Universi-dade de Heidelberg.
3. Schreiben über die Magnetkur an einen auswär-tigen Arzt, Neuer gelehrter Mercurius, Altona, 1775, pp. 25-30.
4. Neueste Nachrichten aus Wien von den ver-mittelst des Magnets geschehn seyn sollenden Curen, 1775, n. p.
5. Schreiben über die Magnetkur von Herrn Dr. A. Mesmer, 1776, n. p.
6. Zweites Schreiben an das Publikum, Anhang zum Wiener Diarium, Nr. 6, Sonnabend, Jan. 31, 1776.
7. Précis historique des faits relatifs au magnétis-me animal jusques an avril 1781, Biblioteca do Estado Prússia, Berlin.
8. Letters
9. Aphorismes de M. Mesmér, 1785.
10. Lehrsäzze des Herrn Mesmer’s, 1785, Bibliote-ca do Estado da Bavária, Munique.
11. Über meine Entdeckungen, 1799, Biblioteca da Universidade de Kiel.
12. Allgemeine Erläuterungen über den Magnetis-mus und den SomnambulisMagnetis-mus, Askläpieion, 2. Jahrg., 1812, 247-302, 3-25. (Biblioteca do Estado Berlin).
13. Mesmerismus. Oder System der Wechselwi-rkungen, Theorie und Anwendung des thie-rischen Magnetismus als die allgemeine Hei-lkunde zur Erhaltung des Menschen, Nicolai Bookshop in Berlin, 1814.
suas queixas. A capacidade de aprender a enviar para o exterior esta força, o que teve de acontecer quan-do o mesmerismo foi
aplicado por outros que não Mesmer, é uma indi-cação de que esta força tem de ser qualquer inata ao próprio ser humano, mesmo que não seja de-senvolvido pelo treino8. Tal como anteriormente referido por Caspari, as pessoas assumem que um corpo vivo tem um efeito directo sobre ou-tro de influência
“dinâ-mica”, isto é, cada qual sendo portador de energia. Em linguagem actual é utilizado o termo radiação9.
No entanto, a radiação, pelo menos de um ponto de vista físico, tem a sua origem numa das quatro forças básica conhecidas. São elas: a força nuclear fraca, responsável pela coesão de átomos e moléculas, a força nuclear forte, responsável pela coesão das
par-8 Permanece por esclarecer como é que esta capacidade pode ser aplicada a outros sistemas biológicos, de células de cultura a organismos animais ou vegetais altamente organizados.
9 Ludwig Griesslich por exemplo, que era mais um seguidor da luta contra a homeopatia pura de Hahnemann ([16], p. 484), relata sucessos variáveis com a aplicação do magnetismo (Hygea, volume XIX, 1844, pp.11-54).
tículas elementares, a força magnética, responsável pela comunicação ao nível macro e a força gravita-cional responsável pelos efeitos cosmológicos. Des-tas quatro forças, a força electromagnética é a única que pode ser percebida pelo sistema biológico. Nos primeiros anos da década de setenta, o físico Herbert Fröhlich da Universidade de Liverpool, pro-pôs a seguinte hipótese ([4]): a oscilação eléctrica na gama dos gigahertz é coerentemente activada por processos metabólicos em materiais metaboli-camente activos. Esta activação pode ter importantes consequências biológicas, pois pode, por exemplo, conduzir a interacções de longo alcance entre bio-moléculas. Decorrentemente, numerosas equipas de cientistas começaram a testar a hipótese de Fröhlich. Um destes resultados é aqui utilizado como exemplo. ([5]).
A experimentação consistia na observação do cres-cimento de células de levedura, em condições defi-nidas, numa câmara de radiação. As amostras eram exposta a luz de diferentes frequências e intensida-des. Os resultados obtidos foram os seguintes: 1. A taxa de crescimento das células depende da
fre-quência da radiação.
Ludwig Griesselich; imagem gen-tilmente cedida por Homéopathe International.
2. Observam-se frequências de ressonância. No caso, estas frequências produziram-se quando o material biológico tinha a mesma frequência da luz incidente.
3. O gradiente da curva de ressonância pode ser in-fluenciado por radiação de diferente intensidade. Estes resultados indicam que o sistema biológico tem um comportamento não linear10 e estão de acordo com a ideia da existência de um sistema de oscila-dores auto-mantidos dentro do sistema biológico, os quais interagem com o espaço à volta das células. Como é que este exemplo se relaciona com o mag-netismo animal de Mesmer? Ele mostra, em princípio, que é possível existirem influências ressonantes oriun-das de radiação electromagnética (como a luz) sobre os sistemas biológicos, apesar da extrapolação para os sistemas humanos permanecer ainda uma questão em aberto. De um certo modo, e por consequência, isto justificaria a utilização do termo “animal” bem como do termo “magnetismo”. Ainda que o resulta-do não confirme a efectividade das potências atra-vés da radiação electromagnética ressonante, como foi clamado durante anos, poderia ser uma pequena peça no grande mosaico, em busca do mecanismo de acção que produz os efeitos das potências home-opáticas.
Conclusão
Perante a extensa bibliografia sobre o fenómeno de Mesmer com relação à homeopatia, não nos é aqui permitida uma discussão detalhada. No entanto, al-guns pontos importantes foram elucidados e foi exa-minado o seu núcleo fundamental: nomeadamente, como mesmo agora o conceito de terapia de Mesmer – o qual acreditamos pode ser facilmente classifica-do como “influência psicológica” ou “exercício de relaxamento” pode ser visto como parte integrante do tratamento homeopático. É certamente concebível que não apenas o gesto de passar as mãos – como demonstrado por Mesmer e evidentemente recomen-dado por Hahnemann em algumas situações - mas
10 Comportamento não-linear significa aqui que a radiação não somente penetra mas também activa ou apoia activamente o processo, dentro do sistema.
também um outro tipo de atenção empática des-conhecida para nós, mas que subconscientemente ocorre no processo de tratamento homeopático, é um elemento indispensável da terapia homeopática. Um elemento sem o qual nenhum efeito pode ser trans-ferido.
Referências
[ 1] Bongartz W: Das Erbe des Mesmerismus: Die Hypnose, in Wol-ters G. (Ed.): Franz Anton Mesmer und der Mesmerismus, Universi-tätsverlag Konstanz, Constance, 1988.
[ 2] Caspari CG: Der Mesmerismus als Heilmittel, Bibliothek für die homöopathische
Medizin und Materia medica, Vol. 1, Leipzig, 1827, 145 – 178. [ 3] Flory E: Ars Magnetica, Universitätsverlag Konstanz, Constance, 1995.
[ 4] Haehl H: The Biological Effects of Microwaves and Related Questions, Adv. Electron. Electron Phys., 1980, 53 – 85.
[ 5] Grundler W, Kaiser F: Experimental evidence for coherent exci-tations correlated with cell growth, Nanobiology, 1992, 163 – 176. [ 6] Hahnemann S: Organon-Synopse (die 6 Auflagen im Über-blick), Haug-Verlag, Heidelberg, 2001.
[ 7] Kottwitz F: Bönninghausens Leben, O-Verlag, Berg am Starn-berger See, 1985.
[ 8] Schmidt J, Kaiser D: Hahnemann Samuel: Gesammelte kleine Schriften, Haug-Verlag, Heidelberg, 2001.
[ 9] Schott H: Franz Anton Mesmer und die Geschichte des Mesme-rismus, Franz Steiner Verlag, Wiesbaden Estugarda, 1985.
[10] Schott H: Die Strahlen des Unbewussten – von Mesmer bis Freud, in Wolters G (Ed.): Franz Anton Mesmer und der Mesmeris-mus, Universitätsverlag Konstanz, Constance, 1988.
[11] Siemers: Die Homöopathie und der Lebensmagnetismus, AHZ, 1855, 49 – 52, 58 – 60, 67 – 70.
[12] Stapf E: Zoomagnetische Fragmente, Arch. hom. Heilk, 2, 1823, 1 – 28.
[13] Tischner R : Franz Anton Mesmer, Verlag der Münchner Drucke, Munique 1928.
[14] Tischner R : Hahnemann und die geistigen Strömungen seiner Zeit, AHZ, 1938, 215 - 231, 297 – 303.
[15] Tischner R: Mesmer und sein Problem, Hippokrates, Estugar-da, 1941.
[16] Tischner R : Geschichte der Homöopathie, Neuauflage, Springer, Viena e Nova Iorque, 1998.
[17] Wittern R: Zum Verhältnis von Homöopathie und Mesmeris-mus, in Schott H (Ed.): Franz Anton Mesmer und die Geschichte des Mesmerismus, Franz Steiner Verlag, Wiesbaden Estugarda, 1985. [18] Wolters G (Ed.): Franz Anton Mesmer und der Mesmerismus, Universitätsverlag Konstanz, Constance, 1988.
Nome Dr. Otto Weingärtner
Direcção Pharm. Fabrik Dr. Reckeweg & Co. GmbH Berliner Ring 32 - D-64625 Bensheim País Deutschland
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Heidemarie Rostek-Gugg, Otto Weingärtner O medicamento homeopático combinado
Cysto-Gastreu® S R18 é uma mistura de diluições líquidas, produzida de acordo com as directrizes da Farmaco-peia Homeopática Alemã. Encontra-se disponível na forma de gotas contendo álcool. Na Homeopatia as gotas são uma forma comum e amplamente utilizada de dosagem para ingestão oral. Neste artigo, é apre-sentado o medicamento. É feita uma descrição da sua composição, dosagem, base terapêutica da sua aplicação e são apresentados os fundamentos biblio-gráficos do seu campo de aplicação. Será publicado futuramente no Reckeweg Journal, o resultado obtido com a aplicação prática deste medicamento.
A dose recomendada está de acordo com sua aplica-ção usual em homeopatia como terapêutica de regu-lação e estimuregu-lação, assim como com a dose padrão recomendada pela Comissão Técnica D Alemã para os Homeopáticos, do Instituto Federal Alemão dos Medicamentos e Produtos Médicos. A frequência da administração depende do quadro clínico, de quão aguda é a situação e da reactividade de cada orga-nismo.
Como regra geral: situações agudas – pequenos inter-valos entre as tomas, situações crónicas – interinter-valos longos (ver também [4], [5]). No caso do Cysto-Gas-treu® S R18, isto significa que no caso de adultos e crianças maiores de doze anos com sintomas agudos, devem ser administradas 5 gotas até seis vezes por dia. Se necessário, o medicamento pode ser diluído num pouco de água antes de ser diluído. Após me-lhoria dos sintomas a frequência da toma deve ser reduzida para, 5 gotas 3 vezes ao dia.
Base Terapêutica da Administração do Medicamento
Os componentes dos medicamentos homeopáticos combinados são seleccionados com base nas suas in-dicações comprovadas. Em homeopatia, o conceito de indicação comprovada é utilizado nas chamadas afecções invariáveis. São quadros clínicos com cau-sas idênticas e alguns, poucos mas típicos, sintomas. Décadas de prática da Homeopatia por médicos ho-meopatas mostraram que, para este tipo de afecções, o mesmo medicamento ou combinação de medica-mentos é normalmente indicada.
Basicamente, os perfis de eficácia dos medicamentos homeopáticos podem ser divididos em dois níveis de eficácia de acordo com as suas indicações compro-vadas.
O primeiro nível é caracterizado pela sua relação organotrópica ou histiotrópica. Tal medicamento homeopático mostra um marcado efeito num siste-ma de órgãos ou num tecido. Alguns, poucos, sin-tomas típicos levam à selecção do medicamento
Combinado Cysto-Gastreu
®
S R18
10 g do medicamento contêm os seguintes ingredientes1: Berberis vulgaris D4 1g Cantharis D4 1g Dulcamara D4 1g Equisetum hyemale D6 1g Eupatorium purpureum D6 1g Outros ingredientes: água e etanol.
O medicamento foi desenvolvido para administração oral em adultos e crianças com mais de 12 anos e é indicado para inflamação aguda da bexiga e do tracto urinário.
1 As diferenças de composição existentes noutros países em relação à com-posição na Alemanha, devem-se a especificações relevantes da regulamen-tação de cada país.
BERBERIS vulGaRIS
Nome popular: Espinheiro-vinheto, Uva-espin. Nome homeopático usual: Berberis
Nome botânico: Berberis vulgaris
Parte usada, segundo a Farmacopeia Homeopática/ Farmacopeia Europeia: partes secas, aéreas e
subterrâneas
CaNTHaRIS
Nome popular: Mosca espanhola Nome homeopático usual: Cantharis Nome científico: Lytta versicatoria Fabricius Parte usada, segundo a Farmacopeia Homeopáti-ca/Farmacopeia Europeia: insectos secos, inteiros e
não danificados
DulCaMaRa
Nome popular: Doce-amarga, Erva-moura-de-trepa,
Uva-de-cão, Vinha-da-Judeia, Vinha-da-Índia.
Nome homeopático usual: Dulcamara Nome botânico: Solanum dulcamara L.
Parte usada, segundo a Farmacopeia Homeopáti-ca/Farmacopeia Europeia: rebentos jovens frescos,
incluindo folhas colhidas antes da floração
EquISETuM HYEMalE
Nome popular: Equiseto-dos-campos
Nome homeopático usual: Equisetum hyemale Nome botânico: Equisetum hyemale L.
Parte usada, segundo a Farmacopeia Homeopática/ Farmacopeia Europeia: planta fresca inteira
Imagem: Beat Ernst, Basel
Imagem: Gudjons GmbH & Co. KG – Homöopathisches Labor
Imagem: Beat Ernst, Basel Imagem: Beat Ernst, Basel
Componente Sintomas-chave / Efeito no Medicamento Fundamentado em: Monografia da comissão Técnica D para os Homeopáticos BERBERIS vulGaRIS
Relação funciotrópica com o tracto urinário;
Ardor ao urinar, muco e sedimentos vermelhos na urina; micção fre-quente; dores espasmódicas na bexiga; sensação de urina na bexiga após micção (ver [1]-[12]).
Afecções do tracto urinário (ver [13], [14])
CaNTHaRIS Relação organotrópica com os órgãos urinários e sexuais;
Micção urgente e estrangúria; dores lancinantes antes e depois da micção; urina em gotas e dificuldade em reter a urina ou micção involuntária; urina com proteínas e por vezes sangue.
(ver [ 1] – [12]). Inflamação aguda da mucosa dos tractos urinário e genital (ver [13], [14])
DulCaMaRa Relação organotrópica com os órgãos urinários e sexuais;
Micção urgente e estrangúria; dores lancinantes antes e depois da micção; urina em gotas e dificuldade em reter a urina ou micção involuntária; urina com proteínas e por vezes sangue.
(ver [ 1] – [12]). Inflamação do tracto urinário (ver [13]) EquISETuM HYEMalE
Relação organotrópica com as vias urinárias eferentes;
Irritação da bexiga; urgência em urinar, mas apenas pequenas quantida-des; ardor na bexiga e uretra durante a micção; dor e sensibilidade na região vesical; dor intensa no final da micção; incontinência urinária (ver [1], [ 3], [4], [6]-[12]). Afecções dos tractos urinário e renal (ver [13]) EuPaTORIuM PuRPuREuM
Relação organotrópica com os órgãos urinários e sexuais;
Sensação de ardor na bexiga e na uretra durante a micção; urgência cons-tante e dolorosa de urinar; sensação de bexiga cheia mesmo depois de urinar; muco na urina; irritação da bexiga (ver [1], [3], [4], [6]-[9], [11]).
Inflamação da bexiga (ver [13])
Tabela 2: Fundamento das indicações
Imagem: Ozarks Regional Herbarium Website (SMS)
EuPaTORIuM PuRPuREuM Nome popular: Eupatório
Nome homeopático usual: Eupatorium purpureum Nome botânico: Eupatorium purpureum L.
Parte usada, segundo a Farmacopeia Homeopática/ Farmacopeia Europeia: partes frescas subterrâneas,
correspondente. Os medicamentos são aplicados em baixas potências.
O segundo nível do efeito é caracterizado pela sua influência para além de um órgão específico ou te-cido. Estes medicamentos também podem agir nos mecanismos de regulação neurais ou humorais. É o chamado efeito funciotrópico de uma substância. A selecção destes medicamentos é determinada pela causa e modalidades que se traduziram em sintomas ou que os melhoraram ou agravaram. Estes medica-mentos são utilizados em potências, que vão de mé-dias a altas.
O medicamento combinado que ora apresentamos, Cysto-Gastreu® S R18 contém componentes dirigidos aos dois níveis de acção. Com respeito à indicação alegada, os components individuais do medicamento complementam-se significativamente, tal como se-guem a mesma direcção de efeito (combinação ho-motrópica), estão presentes nas potências indicadas e não exibem quaisquer incompatibilidades entre eles, isto é, não têm quaisquer efeitos de inibição ou eli-minação mútuos.
Fundamentos Bibliográficos do seu Campo de Apli-cação.
O medicamento combinado Cysto-Gastreu® S R18 foi desenvolvido para o tratamento homeopático da inflamação aguda da bexiga e do tracto urinário. O campo de aplicação do R18 está documentado pela monografia da substância da Comissão Técnica D para os Homeopáticos do Instituto Federal Alemão de Medicamentos e Produtos Médicos (ver também [13], [14]) e pela literatura padrão relativa a cada um dos seus componentes.
O quadro farmacológico de cada um dos componen-tes individuais Berberis vulgaris, Cantharis, Dulcama-ra, Equisetum hyemale and Eupatorium purpureum, evidencia relações organotrópicas e/ou funciotrópi-cas com os órgão urinários e genitais.
Os componentes do medicamento agem no sentido dos sintomas, para queixas que aparecem como re-sultado de estados catarrais da bexiga ou do sistema
colector do tracto urinário, de acordo com o respecti-vo quadro farmacológico. A toma deste medicamen-to homeopático provoca um estímulo específico que apoia o esforço endógeno do organismo para resta-belecer o equilíbrio funcional e regulatório dos sis-temas.
Referências
[ 1] Boericke W. and O.E.: Homöopathische Mittel und ihre Wir-kungen. Verlag Grundlagen und Praxis, Leer, 1986.
[ 2] Charette G.: Homöopathische Arzneimittellehre für die Praxis. Hippokrates Verlag, Estugarda, 5ª edição, 1987.
[ 3] Clarke J.-H.: Praktische Materia Medica. Vol. I(A-M) and Vol. II(Mag.-Z) , Barthel & Barthel Verlag, 1994.
[ 4] Fellenberg-Ziegler v. A: Homöopathische Arzneimittellehre. Haug Verlag, Heidelberg, 25ª edição, 1998.
[ 5] Kent J.T.: Kent’s Arzneimittelbilder. Haug-Verlag, Heidelberg, 7ª edition, 1988.
[ 6] Leeser O.: Leeser’s Lehrbuch der Homöopathie. Vols. I-IV, Haug Verlag, Heidelberg, 2ª edição rev., 1988.
[ 7] Mezger J: Gesichtete Homöopathische Arzneimittellehre. Band I-II, Haug-Verlag, Heidelberg, 11ª edição, 1995.
[ 8] Nash EB.: Leitsymptome in der Homöopathischen Therapie. Haug-Verlag, Heidelberg, 19ª edição, 1996.
[ 9] Phatak SR: Homöopathische Arzneimittellehre. Ulrich Burg-dorf Verlag, Göttingen, 1999.
[10] Stauffer K.: Klinische Homöopathische Arzneimittellehre. Jo-hannes Sonntag Verlagsbuchhandlung GmbH Stuttgart, 13ª edição não modificada, 1998.
[11] Voisin H: Materia medica des homöopathischen Praktikers. Haug Verlag, Heidelberg, 2ª edição 1985.
[12] Wiesenauer M., Elies M.: Praxis der Homöopathie. Hippo-krates Verlag Estugarda, 2ª edição revista e ampliada, 1995. [13] Keller, Greiner, Stockebrand: Homöopathische Arzneimittel, Materialien zur Bewertung (Monographien der Fachkommission D), Govi Verlag, Pharmazeutischer Verlag GmbH Frankfurt a.M., colecção de folhas soltas, 6º fascículo, entregue em 1995. [14] Comissão Técnica D para os Homeopáticos do Instituto Fede-ral Alemão para os Medicamentos e Produtos Médicos: Berberis vulgaris, Cantharis; monografia revista não publicada.
Nome Heidemarie Rostek-Gugg
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Devido a essa clientela da classe alta, usando os seus muitos contactos políticos, Quin assegurou-se de que a homeopatia não seria excluída da Lei do Registo Médico2. Foi assim estabelecido, pela primeira vez, o estatuto profissional e a regulamentação legal dos terapeutas formalmente qualificados em termos mé-dicos e o porquê da apropriação do termo “doctor” (anteriormente, ‘doctor’ significava – e ainda signifi-ca – uma pessoa que passou uma parte razoável do seu tempo a aumentar a soma total do conhecimento humano), fazendo a distinção relativamente a “curan-deiro”. Esta lei ainda hoje regulamenta a prática mé-dica na Grã-Bretanha.
No entanto, desde o início da homeopatia, sempre existiu quem tentasse garantir o acesso dos pobres e dos menos abastados à homeopatia. Os médicos ho-meopatas em geral, não viam com bons olhos os seus colegas sem qualificação medica o que originou ten-sões entre os vários ramos profissionais que, hoje em dia, são peculiares da Grã-Bretanha. Em Inglaterra, desde o tempo do Rei Henrique VIII, o direito anglo--saxão – algo cada vez mais ameaçado pela legisla-ção proveniente da União Europeia [ 2] - protege, em certa medida, os direitos das pessoas de fazerem uso de outras terapias (por exemplo, fitoterapia e formas de cura não reconhecidas em termos médicos) prati-cadas por terapeutas qualificados não médicos. Consequentemente, sob o patrocínio dos ricos e po-derosos, a homeopatia tem sido “tolerada” no Rei-no Unido, e nunca foi censurada pelo parlamento como uma prática médica inaceitável ou desviante.
2 Em Inglês: Medical Registration Act. Esta lei regula o registo dos médicos e assuntos relacionados.
A homeopatia e a nova “Batalha” da Grã-Bretanha
Dr Lionel R Milgrom é um homeopata não-médico, cientista (químico académico), es-critor e professor. Exerce em sua casa e numa clínica dentária integrativa, no centro de Londres. Os seus mais de trinta anos na área científica permitiram-lhe participar na fundação, em 2001, de uma empresa de biotecnologia no Colégio Imperial de Londres, que se dedica ao desenvolvimento e comercialização de uma nova terapia de cancro (marcação biológica/activação pela luz). Publicou 70 artigos sobre a química das porfi-rinas e mais de 70 sobre homeopatia, muitos dos quais sobre a natureza da interacção entre o terapeuta, o paciente e o medicamento e comentários sobre a batalha entre os defensores da homeopatia e os seus detractores. Vive em Londres, é casado e tem três filhos adultos.
1
“Não falem na Guerra “ é uma frase tornada famosa por John Cleese (e pela fama dos Monty Python) na ’Fawlty Towers’, a série de comédia da TV Britânica dos anos setenta. E de facto, tal preocupação pode ser altamente apropriada considerando a proveniência deste jornal e a nacionalidade do seu autor. No en-tanto, espero que me permitam esta indiscrição pois, com efeito, há uma “outra guerra”, como eu escrevi, na Grã-Bretanha. E trata-se de salvar a Homeopatia de ser expulsa do nosso maravilhoso Serviço Nacio-nal de Saúde (NHS), lamentavelmente uma galinha dos ovos de ouro super-burocratizada.
A Homeopatia tem uma interessante história no Reino Unido [ 1]. Foi trazida por Dr F H F Quin (1799-1878) na 3ª década do século XVIII. Quin foi um discípu-lo directo de Samuel Hahnemann e era altamente considerado quer na Grã-Bretanha quer em França. Oriundo de uma família aristocrática, Quin rapida-mente desenvolveu a prática da Homeopatia entre as classes mais altas da Grã-Bretanha, de modo que esta se tornou moda entre a aristocracia e Família Real, eventualmente com o patrocínio desta. No início do século XIX, isto teve o efeito de facilitar a passagem para a profissão médica e muitos médicos tornaram-se homeopatas. Assim, Sir John Weir, foi suposta-mente Médico Real de seis monarcas britânicos, de Edward VII a Elizabeth II, do rei Gustavo V da Suécia e do rei Haakon VII da Noruega.
1 Lionel R. Milgrom LCH, MARH, MRHom BSc, MSc, PhD, CChem, FRSC LCH = Licentiate of the College of Homeopathy ; MARH = Member of the Alliance of Registered Homeopaths; MRHom = Member of the Register of Homeopaths; MSc = Master of Sciences; PhD = Doktor; CChem = Chartered Chemist; FRSC = Fellow of the Royal Society of Chemistry
Como resultado, floresceram alguns hospitais home-opáticos, sendo o mais famoso, o Real Hospital Ho-meopático de Londres (Royal London Homeopathic Hospital), mas existiram outros, como por exemplo, o de Liverpool, Glasgow e o de Bristol. A homeopatia foi mesmo introduzida no Sistema Nacional de Saúde (NHS), quando este foi lançado com grande alarde, em 1948, pelo então Ministro da Saúde do Governo Trabalhista, Aneurin Bevan, tornando-a assim grátis e disponível para todos que assim o quisessem. Neste momento e infelizmente tudo isto pode estar próximo de mudar.
A Homeopatia sempre teve “detractores” (hoje em dia, estes chamam-se a eles mesmos “cépticos” mas, em bom rigor, são pessoas que ainda têm de ser es-clarecidas) [ 3]. O aparecimento da Teoria Atómica no final do século 19 e início do século 20 represen-tou uma séria ameaça à utilização dos medicamentos altamente diluídos e succionados (ver o sítio-web de actualizações da Hipótese da Memória da Água [ 4]., do Professor Martin Chaplin). No entanto, desde a úl-tima década do século 20, a mais séria ameaça veio, sem dúvida, daqueles que fazem uma interpretação muito estrita dos princípios da medicina baseada em evidências (MBE). No Reino Unido, o chefe destes cépticos ultra-MBE, é o Professor Edzard Ernst, estra-nhamente o primeiro professor Britânico de Medicina Complementar e Alternativa (MCA) da Faculdade de Medicina da Península, em Exeter, Devon [ 5]. Os seus ataques à homeopatia e MCA tiveram uma am-pla cobertura pelos meios de comunicação social. A sua recente colaboração com o escritor científico Dr Simon Singh, levou ao desenvolvimento de um discurso céptico acessível aos mídia ( ver também [ 6]), que não toma minimamente em consideração as complexidades da evidência em homeopatia, evidên-cia esta cada vez maior, de resto, negando desde logo e simplesmente que ela exista.
Como afirmado inicialmente, MBE era‘‘uma aborda-gem aos cuidados de saúde que promove a recolha, interpretação e integração (...)de dados relatados pe-los pacientes, observações clínicas e evidência obtida na investigação. A melhor evidência disponível, me-diada pelas circunstâncias e preferências do pacien-te, é utilizada para melhorar a qualidade das
avalia-ções clínicas “ (ver também [ 7]). Consequentemente, os objectivos científicos dos estudos clínicos foram originalmente estabelecidos como parte de um “pa-cote” de provas originadas por diversas fontes. David Sackett, um dos fundadores da MBE, sublinhou isto mesmo em 1992: ‘‘A Medicina Baseada nas Evidên-cias não está restringida aos estudos clínicos aleatórios e às meta-análises. Trata-se sim de rastrear a melhor evidência externa, com base na qual respondemos às nossas questões clínicas...’’ (ver também [8]).
No entanto, a prática corrente da EBM concentra-se apenas no seu “padrão dourado”: o estudo clínico duplo cego, aleatório e controlado (ECDCAC) e meta-análises feitas a partir destes estudos clínicos, como as únicas evidências científicas aceitáveis para tera-pias ou procedimentos (ver também [ 9]). Procedi-mentos complexos (é virtualmente impossível separar a terapia do contexto no qual ela é levada a cabo, por exemplo na Terapia Cognitiva Comportamental, Homeopatia e muitas outras Medicinas Complemen-tares e Alternativas) não se prestam a ECDCAC e são deixados de fora. Esta interpretação muito mais es-trita da MBE suscitou respostas incisivas dentro da própria medicina convencional, sobretudo pela sua intolerância ao pluralismo terapêutico (ver também [10]-[13]).
No entanto, o professor Ernst e outras vozes dos “cépti-cos” da comunidade científica, afirmam que qualquer coisa que não pode ser testada e provada através da interpretação mais restrita da MBE é “curandeirismo”. Assim, independentemente da crescente evidência a favor da homeopatia, produzida por uma variedade de fontes, recentemente, com o apoio de um “exérci-to“ de “cépticos” bloggers da Internet, bem como do professor Ernst - outro céptico de alto perfil, o Emérito Professor Oncologista Michael Baum convidou cien-tistas, políticos e público em geral a adoptarem uma mente fechada em relação à homeopatia.
Este combate à homeopatia em particular e às MCA em geral, tem sido travado no Reino Unido desde à mais de uma década, mas no momento subiu à tona. O escritor científico, céptico da homeopatia e MCA, Dr Simon Singh, escreveu um artigo de jornal sobre os quiropráticos no qual ele alega que um dos corpos
profissionais destes, no Reino Unido, a Associação Quiroprática Britânica (BCA), estava a promover “fal-sos” tratamentos. A BCA exigiu que o Dr Singh reti-rasse este seu comentário: ele recusou. Assim, a BCA meteu-lhe um processo em tribunal por calúnia [14]). O juiz concordou sentenciando contra o Dr Singh e o jornal retirou o artigo ofensivo. Posteriormente foi dada autorização de recurso ao Dr Singh, pelo que o caso continua.
No entanto, logo após a decisão do tribunal, alguns cientistas, escritores, políticos e até mesmo um co-mediante, começaram a proclamar o Dr. Singh como um campeão da “liberdade de expressão” e afirma-vam que as discussões científicas estaafirma-vam a ser ata-cadas pelos tribunais britânicos ([ver [15]). Tudo isto resultou numa campanha para manter as leis da di-famação fora da Ciência, liderada por um fundo de caridade ultra-pro-ciência/anti-homeopatia/MCA chamado “Sense About Science”, do qual o Dr Singh é administrador e entre cujos apoiantes se incluem la-boratórios farmacêuticos, o jornal médico The Lancet e o influente jornal The Guardian [16]. Eles retratam os quiropráticos do Reino Unido e um dos seus ór-gãos representativos, como instrumentos na tentativa de abafar o escrutínio científico aberto e honesto (ver também[17]). Entretanto tudo isto serviu para aumen-tar a oposição dos cépticos, nomeadamente em rela-ção à homeopatia.
Um olhar atento está a ser mantido sobre estes pro-cessos. Porque, se o Dr. Singh é bem sucedido no seu recurso, abrir-se-á porta para comentários levianos nos mídia sobre homeopatia/MCA e os seus pratican-tes, que podem ser confundidos com crítica científica séria. Com efeito, isto pode significar que qualquer pessoa pode dizer o que lhe apetecer contra qual-quer terapia complementar e alternativa que pense ser não-científica, homeopatia e homeopatas incluí-dos, e não ser responsabilizada por isso. Infelizmente a corrente contra a homeopatia no Reino Unido não se fica por aqui.
Recentemente, instigados pelo lobi dos cientistas, políticos e jornalistas cépticos, o Comité de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Comuns do Reino Uni-do, que aconselha o Governo, está a realizar uma
segunda verificação das evidências da homeopatia. Este comité solicitou a apresentação de provas es-critas a favor e contra a homeopatia3 e no final de Novembro vãse realizar sessões orais para determinar a validade da homeopatia como intervenção terapêu-tica prestados pelo sistema nacional de saúde (Na-tional health Service (NHS)) (pode adivinhar quem foi convidado para liderar o processo contra a ho-meopatia, é isso mesmo: o professor Edzard Ernst).
Presumivelmente, se o Comité deliberar contra a ho-meopatia, o Governo será aconselhado a que esta deixe de ser gratuita no NHS. Caberá depois ao Go-verno decidir se vai ou não seguir o conselho da co-missão. No entanto, com eleições no início do Verão de 2010, a recessão global ainda presente na Grã-Bretanha e os escândalos sobre os gastos parlamen-tares nos meios de “comunicação sensacionalistas“, pode-se argumentar que o Governo britânico terá problemas muito mais urgentes para resolver.
Se, no entanto, o governo decidir seguir qualquer re-comendação contra a homeopatia que o comité pos-sa fazer (e, como escrevi, o comité apenas iniciou a recolha de provas), será o final de um caminho cujos primeiros passos já foram dados. A MBE e a constante repetição (pelo professor Ernst e outros influentes ele-mentos do grupo dos cépticos, mídia tendenciosos e um elenco de “bloggers“ apoiantes), de que a home-opatia não tem qualquer prova credível, já deixaram a sua marca, o que significa que já se registou uma acentuada diminuição da prestação de cuidados de saúde homeopáticos no NHS. Os Cuidados de Saúde Públicos (PCT), que são financiados a nível central e cujo trabalho é a prestação de cuidados de saúde do NHS a nível local, têm encaminhado os pacientes cada vez menos para médicos homeopatas. Isto pode dever-se, em parte, a uma carta infame enviada para o jornal The Times em Maio de 2007 (assinada por Ernst, Baum e outros cépticos), que foi escrita sem autorização em papel timbrado do Departamento de Saúde/do NHS. Nela a homeopatia é descrita como „improvável“ e apela-se ao PCT para retirar o finan-ciamento e prestação de Homeopatia (ver também [18]).
3 Na altura da elaboração deste manuscrito, não se conhecia o resultado da sessão de Novembro de 2009 nem os resultados das eleições de 2010.
Assim, desde 2005, o montante dispendido pelo NHS em medicamento homeopáticos caiu quase 50%; de £ 593,000 para £ 321,000 em 2007: o último valor representa uns meros 0,006% do orçamento actual para a prescrição total de medicamentos do SNS (ver [19]). Isto comparado com os mais de 80 milhões de libras gastas por um único hospital, em apenas um ano, justamente o Hospital North-West London, per-tencente ao Sistema Nacional de Saúde. Enquanto isto um hospital homeopático foi marcado para ser encerrado e outro, o Real Hospital Homeopático de Londres, emblemático do NHS, requereu um debate na Câmara dos Comuns para poder garantir, tempora-riamente, a sua existência (ver [20]).
Assim, o futuro da homeopatia gratuita no Sistema Nacional de Saúde no Reino Unido pode estar ame-açada…a menos que as próximas eleições levem a uma mudança de governo, o que aliás todos os indi-cadores parecem sugerir. Isto não significa necessa-riamente que um futuro governo conservador tenha qualquer simpatia para com a homeopatia. No entan-to, com a presente crise financeira global, o próximo governo do Reino Unido deverá querer fazer grandes poupanças, principalmente no quase paralisante or-çamento do NHS.
É aqui que a homeopatia pode ser capaz de deixar novamente a sua marca, assumindo que quem está no poder pode ser trazido à razão e ser sensível à crescente evidência da eficácia da homeopatia e ao clamor crescente dos eleitores que serão privados de serviços gratuitos de homeopatia/CAM.
Assim, irá a Homeopatia sobreviver a esta nova “Ba-talha da Grã-Bretanha?
Só o tempo o dirá…
Referências
[ 1] Morrell P. A History of Homeopathy in Britain. http://www.ho-meopathyhome.com/reference/articles/ukhomhistory.shtml, aces-sado em 12/11/2009
[ 2]Milgrom LR. Under Pressure: Homeopathy UK and its Detrac-tors. Forsche Komplementmed 2009;16:256-261.
[ 3] Holmes OW. Homeopathy and Its Kindred Delusions. 1842 re-published in Stalker D, Glymour C. Examining Holistic Medicine. Buffalo, NY: Prometheus Books; 1989.
[ 4] Chaplin M. Water Structure and Behaviour. Regularly updated online document at: www.lsbu.ac.uk/water/
[ 5] Baum M, Ernst E. Should we maintain and open mind to home-opathy? Am J Med 2009;12:973-4.
[ 6] Singh S and Ernst E, Trick or Treatment: Alternative Medicine on Trial. Bantam Press, Londres, UK, 2008.
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[ 8] Sackett DL, Rosenberg WMC, Muir Gray JA, et al. Evidence ba-sed medicine: What it is and what it isn’t. BMJ 1996;312:71–72. [ 9] Kaptchuk, T. J. „The double-blind randomized controlled trial: Gold standard or golden calf?“ Journal of Clinical Epidemiology 2001;54:541-549.
[10] Rawlins M. De Testimonio: On the evidence for decisions about the use of therapeutic interventions. The Harveian Oration. Delivered to the Royal College of Physicians, Londres, October 16, 2008. Documento online em: www.rcplondon.ac.uk=news=news. asp?PR_id¼422 Acessado em 1 de Novembro de 2008.
[11]Smith GCS, Pell JP. Hazardous journey: Parachute use to prevent death and major trauma related to gravitational chal-lenge. Systematic review of randomised controlled trials. BMJ 2003;327:1459–1461.
[12] Sikora K. Complementary medicine does help patients. Times Online, 3 de Fevereiro de 2009. Online Documento em: www.time-sonline.co.uk/tol/life_and_style/court_and_social?article5644142. ece Acessado em 18 de Fevereiro de 2009.
[13] Holmes D, Murray SJ, Perron A, Rail G. Deconstructing the evidence-based discourse in health sciences: Truth, power, and fas-cism. Int J Evid Based Healthc 2006;4:180.
[14] See the BCA website: http://www.chiropractic-uk.co.uk/de-fault.aspx?m=1&mi=1. Acessado em 10 de Junho de 2009. [15] Cohen N. Why are they trying to gag a top Bri-tish science writer? The Observer, 31 de Maio de 2009. http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2009/may/31/ simon-singh-science. Acessado em 10 de Junho de 2009 [16] See the Sense About Science website: See, http://www.sensea-boutscience.org.uk/. Acessado em 10 de Junho de 2009
[17] Godlee F. Keep the libel laws out of science. BMJ 2009;339: b2783, and the resulting thread of online debate.
[18] Baum M, Ashcroft F, Berry C, et al. Use of “Alternative Medici-ne” in the NHS. The Times, 23 de May de 2007.
[19] Praities N: GPs shun homeopathy as prescription halve. Pulse www.pulsetoday.co.uk/story.asp?storycode=4120112.
[20] Vis R: NHS homeopathic hospitals. See the site; http://edmi.parliament.uk/EDMi/EDMDetails.aspx?EDMID=33006.
Nome Lionel R. Milgrom
Direcção Program for Advanced Homeopathic Studies 17, Skardu Road
London NW2 3ES País United Kingdom Telefone +44 (0) 208 425 8760