Maciço Calcário Estremenho
Caracterização da Situação de Referência
- Relatório Interno -Jorge M. F. Carvalho, Carla Midões, Susana Machado, José Sampaio, Augusto Costa e Vítor Lisboa
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MCE – PNSAC
CARACTERIZAÇÃO DA SITUAÇÃO DE REFERÊNCIA
Índice
EQUIPA TÉCNICA DO LNEG ... 3
1. CARACTERIZAÇÃO DA SITUAÇÃO DE REFERÊNCIA ... 4
1.1. ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO E GEOMORFOLÓGICO ... 6
1.1.1. O MACIÇO CALCÁRIO ESTREMENHO ... 7
1.1.1.1. Geomorfologia ... 7
1.1.1.2. Geologia ... 9
1.1.1.3. Tectónica ... 14
1.1.1.4. Sismicidade ... 16
1.2. RECURSOS GEOLÓGICOS DO MACIÇO CALCÁRIO ESTREMENHO... 18
1.2.1. RECURSOS MINERAIS E INDÚSTRIA EXTRATIVA ... 19
1.2.1.1. Os Recursos nas Áreas de Intervenção Específica do PNSAC ... 23
1.2.1.2. Avaliação de potencialidades em zonas não intervencionadas ... 24
1.2.2. RECURSOS HÍDRICOS SUBTERRÂNEOS... 25
1.2.2.1. Enquadramento hidrogeológico regional ... 25
1.2.2.2. Qualidade das águas subterrâneas ... 30
1.2.2.3. Trabalhos a desenvolver ... 32
1.2.3. RECURSOS PATRIMONIAIS ... 34
1.2.3.1. Trabalhos a desenvolver ... 38
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EQUIPA TÉCNICA DO LNEG
Augusto Costa Geólogo; Especialidade Hidrogeologia
Carla Midões Geóloga; Especialidade Hidrogeologia
Jorge Carvalho Geólogo; Especialidade Geologia, Tectónica e
Recursos Minerais
José Sampaio Eng. Geólogo; Especialidade Hidrogeologia
Susana Machado Geóloga; Património Geológico
Vítor Lisboa Geólogo; Especialidade Geologia e Recursos
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1. CARACTERIZAÇÃO DA SITUAÇÃO DE REFERÊNCIA
O Maciço Calcário Estremenho (MCE), cujo limite aproximado está representado na Figura 1, localiza-se na região central de Portugal, enquadrado pelas cidades de Leiria, Alcobaça, Rio Maior, Torres Novas e Ourém. Corresponde a uma unidade morfoestrutural do território português que se individualiza das regiões circundantes pelas suas peculiaridades geológicas e geomorfológicas.
Figura 1- Enquadramento no território nacional do PNSAC e do MCE (tracejado a preto).
Grande parte da área deste maciço está sujeita a um regime de proteção da natureza por intermédio do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC). Este ocupa uma área aproximada de 384 km2, e foi implementado em 1979 através do Decreto Lei nº 118 de 4 de maio. O seu Plano de Ordenamento foi recentemente revisto por intermédio da Resolução do Conselho de Ministros nº 57/2010 de 12 de agosto, e nele está preconizado que os principais núcleos de exploração de recursos minerais na área do PNSAC deverão ser alvo de intervenções específicas por intermédio de PMOTs – Planos Municipais de Ordenamento do Território. O POPNSAC (Plano de Ordenamento do PNSAC) também preconiza que esses planos municipais deverão estar vocacionados para a compatibilização entre a exploração racional dos recursos e a conservação do património natural, bem como com a recuperação das áreas degradadas.
5 As Áreas de Intervenção Específica (AIE) definidas no POPNSAC para a exploração de recursos minerais são (Figura 2):
- Codaçal;
- Portela das Salgueiras; - Cabeça Veada;
- Pé da Pedreira; - Moleanos;
- Alqueidão da Serra.
Figura 2- Áreas de intervenção Específica do POPNSAC.
Excetuando a AIE de Alqueidão da Serra na qual decorre a exploração de calcários para calçada, todas as restantes referem-se à exploração de blocos de calcário para fins ornamentais (produção de "chapa"). Contudo, na de Pé da Pedreira tanto ocorre produção de blocos como de calçada.
O presente projeto incide, unicamente, sobre os recursos em blocos de calcários ornamentais, através da caracterização e valorização geológica e ambiental das áreas em que ocorrem. No que respeita aos aspetos geológicos, pretende-se uma atuação em duas perspetivas complementares. Uma direcionada para o estudo e valorização das AIEs, tendo em vista a elaboração dos respetivos PMOTS e proposta de gestão de resíduos. Outra, mais prospetiva, direcionada para a seleção de áreas-alvo com aptidão ornamental.
6 A síntese do estado atual de conhecimentos que aqui se apresenta a respeito do MCE visa enquadrar essas duas perspetivas de abordagem, mas visa enquadrar também o conhecimento existente acerca de um dos principais fatores ambientais em causa no MCE: as águas subterrâneas. Paralelamente, numa visão de complementaridade entre a conservação dos valores naturais e a exploração dos recursos, pretende-se também a valorização económica e cultural destas duas vertentes, ou seja, das rochas ornamentais provenientes da área do PNSAC e do património natural aí existente, especificamente o de índole geológica, sendo essa a razão inerente à abordagem realizada acerca dos conhecimentos atuais respeitantes ao património natural de cariz geológico, tomado no seu sentido lato.
1.1. ENQUADRAMENTO GEOLÓGICO E GEOMORFOLÓGICO
O MCE é parte integrante da Bacia Lusitaniana, particularmente, da sub-bacia de Bombarral - Alcobaça (Figura 3).
Figura 3-Enquadramento do MCE no Setor Central da Bacia Lusitaniana. Subdivisões da BL de acordo com Kullberg
et al., 2006; geologia adaptada da Carta Geológica de Portugal à escala 1/1000000 (ed. LNEG, 2011).
A Bacia Lusitaniana (BL) é uma bacia intracratónica situada no bordo Oeste da microplaca Ibérica. Tem a sua origem associada aos episódios distensivos que levaram à abertura do Oceano Atlântico durante o Mesozoico. Tectonicamente corresponde a um graben alongado
7 segundo NNE-SSW no qual se depositaram sedimentos mesozoicos cuja espessura total ronda os 4 a 5 km (Ribeiro et al., 1979; Wilson, 1988). Esta depressão tectónica está limitada por acidentes longitudinais herdados da orogenia varisca: a ocidente, a falha do bordo Este do
horst das Berlengas; a oriente, um sistema complexo de falhas escalonadas das quais se
destacam a Falha de Porto – Tomar, Falha do Arrife e Falha de Setúbal – Pinhal Novo (Ribeiro
et al., 1979; Montenat et al., 1988; Pinheiro et al., 1996; Kullberg, 2000). Diversos outros
acidentes também herdados da orogenia varisca e orientados do mesmo modo, mas também segundo NE-SW e mesmo segundo W-E, compartimentam fortemente a bacia com reflexos na sua evolução ao nível da distribuição e espessura das fácies sedimentares (Kullberg et al., 2006).
A estratigrafia geral da BL está bem estabelecida, tendo sido particularmente descrita por Ribeiro et al., 1979; Montenat et al., 1988; Wilson, 1988; Cunha & Pena dos Reis, 1992; Soares & Duarte 1995; Pinheiro et al., 1996; Rocha et al., 1996; Kullberg et al., 2006. A maioria destes autores considera a existência de grandes sequências sedimentares limitadas por descontinuidades (unconformity bounded sequences) que refletem as sucessivas etapas evolutivas da bacia. Estas sequências sedimentares podem considerar-se subdivididas em dois grandes grupos: as que refletem o período distensivo (Triássico Superior - final do Cretácico) e que são maioritariamente constituídas por rochas carbonatadas (Jurássico) e siliciclásticas (Cretácico), e as que refletem o período compressivo, constituídas, essencialmente, por rochas siliciclásticas. Este período compressivo decorre desde o final do Cretácico até à atualidade, por colisão da microplaca ibérica com as placas africana e euroasiática. Conduziu à inversão da BL, justificando a atual exposição subaérea do pacote de rochas carbonatadas do Jurássico.
1.1.1. O MACIÇO CALCÁRIO ESTREMENHO 1.1.1.1. Geomorfologia
O MCE foi definido enquanto unidade geomorfológica elevada acima da Bacia do Tejo, da Plataforma Litoral e da Bacia de Ourém, por A. Fernando Martins na sua tese de Doutoramento (Martins, 1949). Esta constitui, ainda, um trabalho de referência atual sobre a geomorfologia deste maciço.
O MCE corresponde a uma unidade morfoestrutural que se individualiza pelas suas peculiaridades de âmbito litoestratigráfico e tectónico. Peculiaridade litoestratigráfica porque nele se regista a maior extensão de afloramentos em rochas calcárias do Jurássico Médio no território nacional. Tal é resultado de se encontrar sobrelevado relativamente às regiões limítrofes, donde a singularidade tectónica.
Em termos mais específicos, a morfologia do MCE está condicionada pela natureza calcária das rochas que o compõem, que acentuam a imponência das escarpas e condicionam o desenvolvimento de uma morfologia cársica bem característica. No entanto, a arquitetura do
8 maciço é resultado, fundamentalmente, dos movimentos tectónicos, nomeadamente, das falhas que o afetam (Rodrigues, 1998).
Figura 4- Carta hipsométrica do MCE. 1 - Serra dos Candeeiros; 2 - Planalto de Sto. António; 3 - Planalto de S. Mamede; 4 - Serra de Aire; 5 – Depressão da Mendiga; 6 - Depressão de Alvados; 7 - Depressão de Minde; 8 - Alinhamento diapírico Rio Maior – Batalha; 9 - Sulco tectónico Rio Maior-Porto de Mós; 10 - Sulco tectónico
Rio Maior-Moitas Vendas (adaptado de Martins, 1949)
O maciço encontra-se dividido em três regiões elevadas (Martins, 1949): a Serra dos Candeeiros, o Planalto de Santo António e o Planalto de São Mamede e Serra de Aire. A separá-las encontram-se os dois grandes sulcos tectónicos de Rio Maior-Porto de Mós e de Porto de Mós-Moitas Vendas, ao longo dos quais se formaram as depressões de Mendiga, no primeiro, e de Alvados e de Minde, no segundo. Distingue-se ainda um alinhamento diapírico alongado entre Rio Maior e Batalha.
Dada a natureza carbonatada do maciço, a rede de drenagem superficial é praticamente inexistente, sendo quase exclusivamente subterrânea. A morfologia cársica caracteriza de modo marcante este maciço. A espessa sequência de calcários com elevado grau de pureza do Jurássico Médio permitiu o desenvolvimento de diversos fenómenos de carsificação dando origem a uma pluralidade de estruturas que não têm paralelo no país. As formas de exocarso mais frequentes e notórias no MCE são as depressões fechadas de tipo dolina ou uvala, os poljes (dos quais o polje de Minde apresenta um conjunto de características endocársicas e exocársicas de tal modo completo que se pode considerar um exemplo de manual da definição
9 de “polje”), os vales secos e os extensos campos de lapiás (Santos, 2007). Existem, ainda, formas que testemunham paleorelevos resultantes de períodos de erosão normal no MCE, como sejam os Vales Suspensos da Serra dos Candeeiros (Martins, 1949).
As principais lacunas de conhecimento acerca da geomorfologia do MCE prendem-se com os seus aspetos evolutivos, em particular no que respeita ao significado dos vários tipos de depósitos siliciclásticos que preenchem as formas cársicas, atapetam o fundo da maioria das dolinas a diferentes cotas e cobrem áreas deprimidas relativamente extensas, também a diferentes cotas. Outras lacunas importantes respeitam à ausência de uma carta geomorfológica atualizada e ao conhecimento da rede de drenagem subterrânea.
1.1.1.2. Geologia
Como anteriormente referido, no MCE distinguem-se três unidades morfoestruturais elevadas separadas por depressões a que estão associadas importantes acidentes tectónicos:
- A Depressão da Mendiga (associada às falhas da Mendiga e de Rio Maior – Porto de Mós) e sua continuação para Norte, pela Depressão de Alqueidão (associada à Falha de Reguengo do Fetal), separam a Serra dos Candeeiros do Planalto de Santo António e do Planalto de São Mamede, respetivamente;
- As Depressão de Alvados e de Minde, associadas ao sistema de Falhas de Alvados – Minde, separam o Planalto de Santo António do Planalto de São Mamede e da Serra de Aire. Conforme se pode constatar no Mapa Geológico Simplificado do MCE que se apresenta na
Figura 5, as rochas aflorantes neste Maciço datam do Hetangiano ao Pliocénico mas, maioritariamente, são do Jurássico Médio e Superior. É notório que o Jurássico Médio ocorre nas zonas sobre-elevadas, ao passo que o Jurássico Superior ocupa, sobretudo, as regiões deprimidas atrás mencionadas. O Hetangiano, a que correspondem depósitos de natureza evaporítica, aflora ao longo duma estreita faixa entre Rio Maior e Porto de Mós que corresponde a uma "parede de sal" (Kullberg, 2000), ou seja, acidente tectónico ao longo do qual se deu a ascensão dos depósitos evaporíticos. Junto às cidades mencionadas verifica-se o alargamento dessa estrutura.
Quanto à litoestratigrafia, apresenta-se na Figura 6 a coluna respeitante ao MCE. Foi elaborada tendo em conta a nomenclatura formal mais recente apresentada em Carvalho, 2011. Para os casos em que a nomenclatura das unidades ainda não foi formalizada ou existem dúvidas quanto à sua integração nas unidades formais já definidas, apresentam-se as designações constantes das cartas geológicas à escala 1/50000 que abrangem o MCE. Na coluna não se respeitou proporcionalidade no respeitante à geocronologia e deu-se particular destaque às unidades do Jurássico Médio. A sucinta descrição que se segue das unidades litoestratigráfica do MCE tem como base as Notícias Explicativas das Folhas 27-A e 27-C da Carta Geológica de Portugal à escala 1/50000, editadas pelo Instituto Geológico e Mineiro (Manuppella et al., 2000; Manupella et al., 2006), bem como os trabalhos de Azerêdo et al., 2002; Azerêdo et al., 2003; Azêredo, 2007; Carvalho, 2011.
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Figura 6- Coluna litoestratigráfica do MCE (in Carvalho, 2011).
O Sistema Jurássico inicia-se pela formação de Dagorda que, na realidade, é uma unidade diacrónica cuja deposição se iniciou no Triássico. É constituída por rochas margosas e evaporíticas. Sobre estas ocorre a Formação Coimbra, também diacrónica mas essencialmente do Sinemuriano. É constituída por rochas dolomíticas mas, no MCE, aflora apenas a Sul de Porto de Mós, numa estreita faixa sem representatividade à escala do mapa que se apresenta. O Jurássico Inferior termina com a Formação de Fórnea (Pliensbaquiano a Toarciano),
12 constituída, essencialmente, por sequências rítmicas de margas e calcários margosos em bancos de espessura centimétrica. Localmente ocorrem sequências em que os brancos apresentam espessuras de ordem decimétrica. O conjunto total apresenta uma possança de 220-250 m. A área de afloramento desta formação é também relativamente reduzida, unicamente numa faixa orientada segundo a direção NW-SE, a Sul de Porto de Mós.
O Jurássico Médio inicia-se pela Formação de Barranco do Zambujal (Aaleniano – Bajociano inf.) que é constituída por margas e calcários mais ou menos margosos que, à semelhança da Formação anterior, também se apresentam em bancadas de espessura reduzida. Aflora em grande extensão no Planalto de Sto. António, apresentando uma espessura máxima a rondar os 220-250 m, tal como a Formação anteriormente descrita. Passa gradualmente à Formação que se lhe sobrepõe, ou seja a de Chão de Pias (Bajociano sup.). Esta é constituída por um membro dolomítico (Dolomitos do Furadouro) e por outro essencialmente calcário tipificado pela ocorrência de nódulos siliciosos (Calcários de Vale da Serra). As bancadas do membro dolomítico atingem, por vezes, espessuras consideráveis, até 1,5 m e afloram em 3 manchas principais: na região Nordeste da Serra de Aire, na região central do Planalto de S. Mamede e numa faixa estreita na região Sul da Serra dos Candeeiros. A espessura deste Membro é variável, mas terá o seu valor máximo no extremo nordeste da Serra de Aire onde alcança os 80 m. Já os Calcários de Vale da Serra apresentam-se em bancadas de espessura reduzida, centimétrica a decimétrica, por vezes de caráter laminítico, e afloram numa grande mancha na região central e Sudoeste da Serra de Aire, no Planalto de Sto. António e também na região Sul da Serra dos Candeeiros. A espessura máxima deste Membro ronda os 50-60 m.
Sobre as litologias anteriores sucedem-se duas formações coevas do Batoniano e que se interdigitam, nomeadamente a Formação de Serra de Aire e a Formação de Sto. António – Candeeiros. A primeira, com uma espessura na ordem dos 350-400 m, é constituída por uma grande diversidade de calcários micríticos mudstone a wackstone, mais ou menos biocalciclásticos e pelóidicos e com maior ou menor abundância de finas vesículas de calcite. Apresentam elevado grau de pureza, donde os tons bastante claros que ostentam. A espessura das bancadas ronda os 0,5 m, embora localmente surjam sequências de níveis bem menos espessos, entre 0,05 m a 0,2 m. Também localmente surgem bancadas com espessuras que podem alcançar 1,5 m. Os afloramentos desta Formação ocupam grande extensão em grande parte das zonas mais soerguidas do MCE.
No que respeita à Formação de Sto. António – Candeeiros, a sua idade prolonga-se até ao Caloviano e é constituída pelos membros de Codaçal, de Pé da Pedreira e de Moleanos. Os dois primeiros estão datados do Batoniano, ao passo que o membro de Moleanos representa a quase totalidade do Caloviano. Não se conhece a totalidade deste andar, pois a sua parte superior está truncada pelas rochas sobrejacentes do Oxfordiano médio. Essa truncatura chega mesmo a atingir os os calcários representativos do Batoniano.
Os membros referidos são, genericamente, constituídos por calcários esparríticos packstone a
grainstone, biocalciclásticos, mais ou menos oolíticos e pelóidicos. Apresentam, de modo mais
ou menos marcado por diferenças de granularidade e de cor, feixes de laminações sedimentares paralelas e oblíquas. A cor geral é creme, com tendência para tons bastante
13 claros, demonstrativos do elevado grau de pureza que os caracteriza em termos de percentagem de óxido de cálcio (Manuppella et al., 1985). As bancadas são muito espessas, alcançando, por vezes, valores superiores a 20 m. Quanto à espessura destes membros, ela é muito variável. O Membro de Codaçal apresenta, em média, uma espessura de 50-60 m. Contudo, alcança valores de 150 m. O Membro de Pé da Pedreira apresenta morfologia lenticular com uma espessura máxima de 60 m (Carvalho, 1997). O de Moleanos apresenta uma espessura máxima de 150 m.
Quanto à distribuição dos afloramentos dos membros da Formação em causa, o Membro de Codaçal aflora, quase exclusivamente, numa grande extensão do Planalto de Sto. António.
Afloramentos de reduzidas dimensões, como os que ocorrem na região de Abrã, não têm representatividade no mapa da
Figura 5. O Membro de Pé da Pedreira aflora em vários locais: na zona central da Serra dos Candeeiros, numa pequena mancha junto à povoação Portela das Salgueiras, na Depressão da Mendiga, numa estreita faixa soerguida e alongada N-S, numa mancha com alguma expressão cartográfica imediatamente a Norte da povoação que lhe deu o nome, numa faixa extensa e larga no Planalto de São Mamede, paralelamente à Falha de Reguengo do Fetal, e noutra mancha com dimensões apreciáveis junto à povoação de Casal Farto, ainda neste Planalto, para Sul de Fátima. No que respeita ao Membro de Moleanos, ele ocorre em duas extensas manchas de afloramentos no sopé e vertente ocidental da Serra dos Candeeiros. Ocorre, ainda, no Planalto de São Mamede, numa faixa arqueada que se desenvolve para Sul e sudeste de Fátima, estabelecendo o contacto com as rochas do Jurássico Superior.
O Jurássico Superior inicia-se pela formação de Cabaços (Oxfordiano médio) que apresenta uma espessura máxima de 80 m. É constituída, na base, por calcários conglomeráticos e margas amareladas com concreções ferruginosas, a que se seguem calcários micríticos, mais ou menos argilosos e mais ou menos biocalciclásticos e pelóidicos. As bancadas apresentam espessuras centimétricas a decimétricas, raramente ultrapassando 0,5 m. Por vezes ocorrem sequências mais ou menos espessas em que as bancadas denotam um caráter laminítico. Quanto à cor, estas rochas apresentam-se amareladas-ferruginosas e cinzentas.
Esta formação aflora, sobretudo, na região central da Serra dos Candeeiros e no seu sopé ocidental. Contudo, aflora também, de modo indiferenciado da formação de Montejunto que se lhe sobrepõe, nas depressões de Alqueidão e Mendiga e, ainda, na região de Fátima. A formação de Montejunto (Oxfordiano médio-superior), por sua vez, ocupa largas extensões de afloramento no MCE, nomeadamente nas zonas antes referidas e a Oeste da Serra dos Candeeiros, já na chamada Depressão de Alcobaça. É constituída por calcários micríticos de cores cinzentas, mais ou menos oolíticos, pelóidicos e bioclásticos. Para o topo desta unidade surgem calcários argilosos. As bancadas apresentam espessuras muito variáveis, desde alguns centímetros até 2 m. Predominam, no entanto, os termos decimétricos. A possança total da unidade é muito variável; desde 320 m, na Depressão de Alcobaça, a 600 m e 700 m nas depressões de Alqueidão e Reguengo do Fetal, respetivamente, onde a sua deposição foi controlada por subsidência tectónica.
14 Segue-se a formação de Alcobaça (Kimeridgiano) que aflora nas depressões de Alqueidão e de Alcobaça e a Sul da Depressão da Mendiga. É constituída por alternância de calcários argilosos e margas de tons cinzentos. Localmente surgem níveis de argilitos, arenitos micáceos e, ainda, níveis lenhitosos. As bancadas apresentam espessuras centimétricas a decimétricas e a possança total da unidade é variável, tal como a da Formação anterior. A possança máxima reconhecida é de 269 m. Sobre a formação anterior assenta a formação de Bombarral (Titoniano). É constituída por arenitos micáceos e argilitos, estando truncada superiormente pelas rochas de idade cretácica. Aflora predominantemente na Depressão de Alcobaça e a Sul da Depressão da Mendiga.
No que respeita ao Sistema Cretácico e aos pós-Cretácico, não se apresenta a respetiva subdivisão em unidades litoestratigráficas no mapa da
Figura 5. São constituídos, no essencial, por rochas siliciclásticas mais ou menos consolidadas (siltitos, arenitos e conglomerados). Excetuam-se os andares Cenomaniano (Cretácico) e Tortoniano? (Miocénico; Barbosa, 1995) que são de natureza carbonatada. Este último ocorre já na Bacia Terciária do Tejo.
Na área do MCE ocorrem também rochas ígneas. São pouco abundantes e estão dispersas por todo o Maciço, à exceção da Serra de Aire e Planalto de São Mamede. Podem-se subdividir em três grupos principais, consoante o tipo de estruturas a que se encontram associados:
- Corpos instalados em falhas de orientação NW – SE a WNW – ESE; - Corpos associados às estruturas diapíricas;
- Corpos isolados com correspondência a aparelhos vulcânicos.
Os correspondentes ao primeiro grupo afetam todo o Jurássico. As datações radiométricas disponíveis apontam idades para a sua instalação que variam entre os 154 Ma e os 93 Ma. Os corpos ígneos associados às estruturas diapíricas são pequenas intrusões dispersas que ocorrem no interior do diapiro das Caldas da Rainha (já fora do MCE), afetando o Hetangiano, e os aflorantes ao longo do acidente de Rio Maior – Porto de Mós, cortando as formações jurássicas. As datações disponíveis variam entre os 136 Ma e os 103 Ma. Neste grupo destaca-se o extenso filão-camada de Teira, a Norte de Rio Maior.
Nos aparelhos vulcânicos incluem-se a brecha vulcânica de Abrã que afeta rochas do Cretácico e o corpo de Alqueidão da Serra que afeta o Jurássico Superior e que parece associado a um acidente de orientação NW-SE. A instalação deste último terá ocorrido aos 140 Ma (Ferreira & Macedo, 1983) ou aos 136 Ma (Willis, 1988).
1.1.1.3. Tectónica
O estilo tectónico pantenteado pelo MCE é, em grande parte, herdado das estruturas originadas no decorrer da orogenia varisca que afetou o território nacional durante o Paleozoico. Está muito influenciado pelo facto de, no decorrer do Hetangiano, se ter
15 depositado uma espessa sequência de depósitos evaporíticos (formação de Dagorda) que funcionou como base de descolamento entre as rochas do soco e as meso-cenozoicas durante os episódios extensivos da deformação Alpina. Assim, nos locais onde esses depósitos evaporíticos apresentavam espessura reduzida, a reativação dos acidentes variscos levou-os a cortar toda a sequência mesozoica como falhas normais. Nos locais em que esses depósitos apresentavam espessura elevada, os acidentes variscos não se prolongaram para a superfície. Antes surgiram novas falhas normais acima da sequência evaporítica, a mimetizar as subjacentes. Verifica-se, portanto, a conjugação de tectónica de soco com tectónica pelicular (thick and thin skin tectonics) (Kullberg, 2000; Carvalho, 2011). Durante os episódios de compressão Alpina as estruturas terão voltado a rejogar, mas agora em movimentação inversa e desligante.
Os sedimentos evaporíticos terão ainda desempenhado papel importante na estruturação atual do MCE. A tectónica distensiva terá despoletado a formação de anticlinais salíferos ou mesmo a extrusão de sal em alguns locais (Carvalho, 2001; 2011). A tectónica compressiva, em particular a de maior intensidade, no decorrer do Miocénico, terá levado ao recrudescer das estruturas salíferas anteriores.
Os principais acidentes tectónicos que dominam o MCE correspondem a falhas orientadas segundo três direções principais: NNE-SSW, NW-SE e NE-SW.
Os acidentes NNE-SSW são os mais frequentes e integram 4 grandes falhas: a Falha dos Candeeiros que limita, a Oeste, a Serra com o mesmo nome, a Falha de Rio Maior – Porto de Mós que limita essa serra do lado oriental, e o sistema constituído pela Falha da Mendiga (no bordo ocidental do Planalto de Sto. António) e pela Falha de Reguengo do Fetal (no bordo ocidental do Planalto de São Mamede). Estes acidentes terão funcionado como falhas normais durante as fases extensionais mesozoicas e, pelo menos algumas delas, terão sofrido inversão durante o Cenozoico.
No que respeita aos acidentes NW-SE, eles estão fundamentalmente representados pelo sistema de falhas escalonadas de Alvados e Minde as quais estão interligadas na região de Alvados, limitando uma zona deprimida. À semelhança das anteriores, terão funcionado como falhas normais durante o período distensivo Mesozoico. A sua atividade terá conduzido à estruturação em roll over do bloco a teto, ou seja, o Planalto de São Mamede. Conforme o mapa da Figura 5 elucida, este sistema terá sido reativado posteriormente como rampa lateral dextrógira do Cavalgamento do Arrife, durante o período de inversão (Manuppella et al., 2000).
Ribeiro et al., 1996, referem a existência, sob o roll over de São Mamede, de uma espessa sequência pelito-evaporítica hetangiana, com aproximadamente dois mil metros de espessura. Associam-na a um graben no soco triássico, na continuação de um outro a Norte da Falha da Nazaré (graben de Monte Real) e admitem que não terá sido remobilizada halocineticamente. O sistema de falhas de Alvados – Minde estará na continuação do bordo ocidental desse
16 A direção NW-SE está ainda representada por acidentes que compartimentam os dois planaltos, estando alguns deles intruídos por rochas doleríticas. A par com outros de grandes dimensões que afetam sobretudo a Depressão de Alcobaça e se prolongam para a Bacia Terciária do Tejo, constituem um dos traços distintivos do MCE. Wilson et al., 1989, associam estes acidentes às fases distensivas mesozoicas. Como consequência da posterior compressão miocénica terão sido reativados como desligamentos direitos (Pinheiro et al., 1996).
Quanto à direção NE-SW, ela está sobretudo representada pela Falha do Arrife. Esta limita o MCE a SE. Durante as fases de compressão alpina foi reativada como cavalgamento vergente para SE (Kullberg, 2000; Manuppella et al., 2000; Carvalho, 2011).
As bancadas sedimentares no MCE apresentam-se, no geral, subhorizontais, em função de ligeiros basculamentos induzidos pela movimentação das falhas ou devido a dobramentos de grande raio de curvatura. De entre estes destaca-se a já referida estruturação anticlinal do Planalto de São Mamede, a qual tem correspondência com um roll-over a teto do sistema de Falhas de Alvados-Minde. Destaca-se ainda a estruturação anticlinal dos depósitos do Jurássico Superior na Depressão de Alqueidão, a qual está truncada por sedimentos de idade cretácica, e os anticlinais a que correspondem a Serra dos Candeeiros e a Serra de Aire. Estes dois últimos estão, provavelmente associados a domas salíferos (Kullberg, 2000).
De modo localizado ocorrem, também, dobramentos apertados que acompanham algumas das principais falhas, sendo indicativos da sua reativação sob efeito de campo tectónico compressivo. É o caso particular dos dobramentos na Depressão da Mendiga, entre a falha com o mesmo nome e a Falha de Rio Maior – Porto de Mós, e os que ocorrem nas imediações do Cavalgamento do Arrife, paralelamente a esse acidente.
1.1.1.4. Sismicidade
A Figura 7 mostra um extrato da Carta Neotectónica de Portugal Continental (Cabral & Ribeiro, 1988) que enquadra a região do MCE. Os acidentes representados são aqueles para os quais existem evidências de atividade desde o final do Pliocénico, ou seja para os últimos dois milhões de anos, aproximadamente (Cabral, 1995).
Os principais acidentes condicionadores da sismicidade nesta região são, de acordo com Cabral, 1995, a Falha do Vale Inferior do Tejo que se densenvolve por Lisboa – Vila Franca de Xira – Santarém – Entroncamento, e a Falha da Nazaré. Com efeito, segundo o mesmo autor, existe um notável alinhamento de epicentros sísmicos na região limitada por esses acidentes e ao longo deles. São essas as razões que permitem entender os mapas que se apresentam na Figura 8, relativos à intensidade sísmica e à sismicidade histórica desta região.
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Figura 7- Carta neotectónica da região enquadrante do PNSAC (adaptado de Cabral & Ribeiro, 1988).
Figura 8- Registo da intensidade sísmica e da sismicidade histórica para o território de Portugal Continental (Atlas do Ambiente (http://sniamb.apambiente.pt/webatlas/index.html, em 04Nov2011)). Mapa de intensidades sísmicas refere-se às zonas de intensidade máxima (escala internacional) para o período 1901-1972. Mapa de Sismicidade Histórica representa as isossistas de intensidades máximas, escala de Mercalli modificada 1956, para o período
18 Por seu turno, esses dois mapas permitem compreender que, de acordo com o Decreto-Lei nº 235/83, de 31 de maio, que aprova o Regulamento de Segurança e Ações para Estruturas de Edifícios e Pontes, a região do MCE se integre na Zona de Sismicidade B, correspondente a um coeficiente de sismicidade de 0,7, e que se pode interpretar como uma zona de perigosidade sísmica relativamente elevada (Figura 9). Convém, no entanto, notar que os riscos associados a esta perigosidade estão muito associados à vulnerabilidade dos centros urbanos e estruturas edificadas, sendo que a região do MCE é, essencialmente, uma região de características rurais, com baixa densidade populacional e núcleos urbanos de reduzida dimensão.
Figura 9- Zonagem sísmica de Portugal Continental de acordo com o Decreto-Lei nº 235/83, de 31 de maio, onde a sismicidade decresce da zona A para a zona D.
1.2. RECURSOS GEOLÓGICOS DO MACIÇO CALCÁRIO ESTREMENHO
Os recursos geológicos conhecidos do MCE incluem os recursos minerais, os hidrogeológicos e os patrimoniais. No que respeita aos primeiros destacam-se os recursos em calcários para fins ornamentais e industriais. Relativamente aos hidrogeológicos há que considerar o MCE como um aquífero de muita elevada importância para o abastecimento das populações. Atualmente é explorada a exsurgência dos Olhos de Água do Alviela, em Amiais de Baixo, pela EPAL. Serve a região de Lisboa desde os finais do século XIX, com uma capacidade de produção diária atual de 50000 m3 (EPAL, 2011).
No que diz respeito aos recursos patrimoniais destacam-se os de natureza geomorfológica e paleontológica. Nos primeiros integra-se uma extensa rede de galerias subterrâneas, de que as grutas de Santo António, de Mira d'Aire, da Moeda, de Alvados e do Algar do Pena são os testemunhos conhecidos mais emblemáticos. Relativamente aos de natureza paleontológica merecem realce primordial os abundantes icnofósseis de dinossáurios do período Jurássico, de que os mais representativos são os da Pedreira do Galinha, junto à povoação Bairro e os de Vale de Meios, junto a Pé da Pedreira.
19 1.2.1. RECURSOS MINERAIS E INDÚSTRIA EXTRATIVA
O conhecimento existente acerca dos recursos minerais do MCE deriva, em grande parte, do conhecimento da indústria extrativa que nele opera. Como se pode observar no mapa da Figura 10, esses recursos respeitam a calcários explorados em diversos locais para fins ornamentais e para agregados para a construção civil, para o fabrico de cal, para a indústria siderúrgica e para aplicações diversas na indústria química.
Para a indústria química e siderúrgica exploram-se dolomitos e calcários dolomíticos na Serra dos Candeeiros e na Serra de Aire. Exploram-se também britas basálticas nas proximidades de Rio Maior, em Teira. Nas regiões de Ourém, Alcanede e Juncal exploram-se os afloramentos cretácicos que aí ocorrem para a produção de argilas comuns para a indústria cerâmica, tendo como subproduto areias e saibros para a construção civil. Ainda a partir dos afloramentos cretácicos, mas apenas na região de Mosteiros (Alcanede), exploram-se argilas cauliníticas para fins cerâmicos. Em Rio Maior produzem-se areias especiais para a indústria vidreira e caulino para a indústria cerâmica, a partir dos arenitos pliocénicos que aí ocorrem. Embora atualmente inativas, algumas pedreiras exploravam calcite na Serra dos Candeeiros, a mais importante das quais situa-se em Casais Monizes (Alcobertas), sobre a Falha de Rio Maior – Porto de Mós.
Embora não explorada, importa referir a espessa sequência de evaporitos ricos em sal que ocorre em profundidade no Planalto de São Mamede. A sua importância decorre, não só do recurso mineral em si próprio, mas também das suas potencialidades de armazenamento. Em Rio Maior o sal é explorado em salinas por intermédio de métodos tradicionais.
Particularmente no que respeita aos recursos minerais calcários, os agregados para a construção civil são explorados sobretudo no Planalto de São Mamede. Maioritariamente, a unidade explorada corresponde a calcários micríticos da Formação de Serra de Aire. Embora algumas das explorações se situem sobre o Membro de Pé da Pedreira da Formação de Sto. António – Candeeiros, nomeadamente os afloramentos na região a Leste de Reguengo do Fetal, na realidade, as pedreiras há muito que alcançaram os calcários micríticos subjacentes. Em função das caraterísticas topográficas, a maioria das pedreiras desenvolvem-se em poço (Figura 11).
No extremo Nordeste da Serra de Aire, um pequeno núcleo de pedreiras explora os Dolomitos de Furadouro. A par com calcários micríticos, também são explorados calcários dolomíticos num núcleo que se desenvolve na região Sul da Serra dos Candeeiros.
Os agregados com destino ao fabrico de cal são explorados em pequeno núcleo na região de Pé da Pedreira. As pedreiras aí existentes iniciaram o seu desenvolvimento nos calcários oolíticos de Pé da Pedreira. Contudo, também já há muito tempo que alcançaram os calcários micríticos subjacentes, à semelhança do que foi referido para a região de Reguengo do Fetal. Devido à sua elevada pureza em termos de teor em óxido de cálcio (Manuppella et al., 1985), as duas fácies apresentam aptidão para o fabrico de cal, sendo necessário, unicamente, ajustar os parâmetros de moagem e cozedura.
20
21
Figura 11- Pedreiras em poço no MCE.
Os calcários explorados para fins ornamentais no MCE compreendem os explorados sob a forma de blocos, a calçada e a laje (Figura 12) Enquanto a calçada e a laje saem da pedreira já como produto final, os blocos são dirigidos para unidades transformadoras onde são sujeitos a esquadrejamentos diversos até alcançarem a forma final pretendida.
As explorações de blocos são as mais importantes do MCE, quer do ponto de vista do número de núcleos de exploração e área ocupada, quer do ponto de vista económico. Os principais núcleos de exploração localizam-se no Planalto de Santo António, nomeadamente o núcleo de Pé da Pedreira e o núcleo do Codaçal. Outros núcleos importantes em termos de volume de produção são o núcleo de Moleanos e o de Casal Farto.
Figura 12- Rochas ornamentais no MCE (A- Laje, B- Calçada e C- Blocos).
À exceção do núcleo do Azul de Valverde (a Sul de Pé da Pedreira) que explora calcários da formação Montejunto ao longo de um filão dolerítico, todas as restantes pedreiras exploram calcários do Jurássico Médio.
22 Os blocos comercializados correspondem a paralelepípedos que se pretendem o mais regulares possível. As suas dimensões médias rondam 2,8 x 1,8 x 1,5 m. No processo transformativo posterior à extração os blocos são serrados "a favor" ou "ao contra". A designação "a favor" refere-se à situação em que o corte é efetuado paralelamente à estratificação ou laminação sedimentar. Inversamente, a designação "ao contra" refere-se a corte perpendicular à estratificação.
As diferentes variedades ornamentais produzidas no MCE resultam, não só da fácies litológica, mas também do modo como é efetuado o corte dos blocos. Uma mesma fácies pode dar origem a diferentes designações comerciais, por diferente aspeto estético, em função do processo de serragem dos blocos ser efetuado a favor ou ao contra.
Figura 13- Principais variedades ornnamentais provenientes do MCE.
Embora existam muitas designações comerciais para os calcários ornamentais provenientes do MCE, a maioria tem correspondência com um número bem mais reduzido de variedades. De acordo com o Catálogo das Rochas Ornamentais Portuguesas (IGM, 1983-1994), essas variedades são o Moca Creme, o Semi Rijo, o Relvinha, o Vidraço de Moleanos, o Vidraço de Ataíja, a Brecha de Santo António, o Azul de Valverde e o Alpinina (Figura 13).
Tipicamente, as explorações desenvolvem-se em flanco de encosta, com vários pisos (Figura 14). A altura total das frentes de exploração é variável. Desde um mínimo a rondar os 6 m, como é o caso das pedreiras no pequeno núcleo de Casal do Rei que se iniciou há pouco tempo, até um máximo próximo dos 50 m, como é o caso do núcleo do Codaçal. Em Moleanos e em Casal Farto as explorações são do tipo Poço (Figura 11).
23 No que respeita às explorações de calçada, o mais importante núcleo situa-se em Pé da Pedreira, anexo ao da exploração de blocos. Ocupa uma área muito extensa sobre os Calcários Micríticos de Serra de Aire. Ainda explorando esta unidade de calcários de cor creme e tons claros, existem outros dois núcleos de dimensões menores, nomeadamente no Cabeço de Marvila (Planalto de São Mamede) e no Casal de Vale de Ventos (Serra dos Candeeiros).
Figura 14- Pedreira em flanco de encosta no núcleo de exploração do Codaçal.
Na Depressão de Alqueidão existem outros núcleos de exploração de calçada, mas agora sobre calcários da Formação de Montejunto. As litologias aqui exploradas apresentam cor castanho acinzentada. O núcleo de maiores dimensões circunda uma intrusão subvulcânica. Esta é responsável pela intensificação dos tons escuros da calçada aqui explorada, chegando mesmo a apresentar cor negra.
As pedreiras de calçada, salvo raras exceções, não ultrapassam os 10 m de altura. Em média terão cerca de 4 m de altura repartidos por 2 pisos e desenvolvem-se em flanco de encosta ao longo da direção das bancadas com aptidão. Apenas no processo de desmonte se faz uso de uma retroescavadora, sendo o processo de fabrico artesanal.
No que respeita à exploração de laje, os principais núcleos situam-se na Serra dos Candeeiros, na região compreendida entre o Casal de Vale de Ventos e Portela do Pereiro. Os calcários explorados, de características laminíticas, fazem parte da Formação Cabaços. Outros núcleos de dimensões bem menores ocorrem no Planalto de Santo António. Neles exploram-se também calcários de características laminíticas que ocorrem nas unidades litoestratigráficas de Barranco do Zambujal e de Vale da Serra. A tipologia das explorações é idêntica às da calçada, ou seja, em flanco de encosta e com frentes pouco altas.
1.2.1.1. Os Recursos nas Áreas de Intervenção Específica do PNSAC
As AIEs são as áreas-alvo em que se pretendem desenvolver os estudos conducentes à implementação de lavra integrada e ordenamento do território. Para tal há que recorrer a
24 levantamentos topográficos atualizados das áreas em causa e a um conhecimento adequado da localização e disponibilidade dos recursos existentes.
Das 5 AIEs consideradas neste projeto, 4 delas já foram alvo de estudos geológicos de pormenor tendentes à avaliação dos recursos em rochas ornamentais nelas existentes. Tais estudos referem-se às AIEs de Moleanos (Carvalho, 1996), Pé da Pedreira (Carvalho, 1997), Codaçal (Quartau, 2000) e Cabeça Veada (Quartau, 1998). A AIE de Salgueiras nunca foi objeto de estudos geológicos detalhados.
Como é óbvio, a geologia das áreas em causa não sofreu alterações. Contudo, para se alcançarem os objetivos de lavra integrada e ordenamento atrás mencionados, os conhecimentos geológicos adquiridos a respeito dessas áreas não podem ser integrados de modo direto. Com efeito, embora a geologia não tenha sofrido alteração, mudaram as capacidades de interpretação dos dados de campo e mudou enormemente a fisionomia das frentes de exploração, pondo em evidência novos dados. Por outro lado, os levantamentos geológicos realizados nas quatro áreas referidas tiveram como suporte levantamentos topográficos de cartas cadastrais à escala 1/2000 que já na altura se mostravam bastante desatualizadas. Trata-se de um fator com influência direta na cartografia geológica e, consequentemente, com influência no planeamento integrado que se pretende realizar. Assim, os trabalhos geológicos a realizar tendentes à avaliação dos recursos disponíveis, como suporte ao planeamento da lavra e ao ordenamento do território assentam, sobretudo, na atualização da cartografia existente e sua adaptação aos novos levantamentos topográficos realizados especificamente para este projeto, à escala 1/2000. Recorrer-se-á, ainda, à realização de novas sondagens para validação das interpretações realizadas.
Na AIE de Salgueiras, os trabalhos geológicos serão realizados de raiz à escala 1/2000. Terão, contudo, o suporte inicial de dados de sondagens realizadas pelos industriais que operam na área.
1.2.1.2. Avaliação de potencialidades em zonas não intervencionadas
Tal como para outros recursos, a indústria extrativa de rochas ornamentais ocupa o território temporariamente, enquanto há disponibilidade do recurso e/ou enquanto a sua exploração se revela economicamente viável. Uma gestão empresarial adequada necessita de conhecer a disponibilidade dos recursos que são alvo da sua atividade, perspetivando as ações futuras a adotar.
Embora os conhecimentos existentes acerca dos principais núcleos de exploração de rochas ornamentais existentes no MCE permitam afirmar que a disponibilidade de recursos nesses núcleos ainda é relativamente elevada, outros fatores condicionam a sua exploração, em particular a profundidade a que ocorrem e as questões de acessibilidade ao território decorrentes dos planos de ordenamento em vigor.
25 Numa perspetiva de acautelar a disponibilidade de recursos em rochas ornamentais no MCE pretendem-se levar a cabo trabalhos de prospeção que permitam determinar a localização de locais com eventual aptidão para a exploração destes recursos.
Esses trabalhos incluem várias etapas (Jimeno, 1996; Carvalho et al., 2008; Carvalho, 2010). A primeira consiste, com base nos conhecimentos disponíveis, na demarcação de grandes áreas potenciais. Suporta-se, sobretudo, numa análise faciológica regional, à escala 1/50000, das unidades litoestratigráficas do MCE, a par com uma análise dos padrões de fraturação que caracterizam esse maciço, também a nível regional.
A segunda etapa consiste na elaboração de Cartas de Aptidão ainda de âmbito regional, mas à escala 1/25000. Tem como suporte, ainda, a análise faciológica das unidades litoestratigráficas, mas entrando em linha de conta com a tendência média da espessura das bancadas e com a determinação das principais famílias de fraturas a partir de reconhecimentos de campo. Desta segunda etapa resultarão áreas-alvo para estudos de âmbito mais localizado, a realizar à escala 1/10000, numa terceira etapa, com recurso a cartografia geológica e sondagens de reconhecimento. Permitirão nova seleção de áreas-alvo cujos estudos subsequentes já deverão ser realizados fora do âmbito deste projeto, mas no contexto da atividade empresarial de pesquisa, tendentes à efetiva abertura de pedreiras.
1.2.2. RECURSOS HÍDRICOS SUBTERRÂNEOS
1.2.2.1. Enquadramento hidrogeológico regional
Tendo como base os Sistemas Aquíferos de Portugal Continental (Almeida et al., 2000), em termos hidrogeológicos, a área de intervenção insere-se no Sistema Aquífero Maciço Calcário Estremenho, parte integrante da unidade hidrogeológica Orla Ocidental que pode ser identificada em http://snirh.pt/index.php?idMain=1&idItem=1.4&uh=O. As formações geológicas que suportam o sistema são maioritariamente rochas carbonatadas de idade Jurássica.
Este sistema aquífero ocupa uma área de 767,6 km2, situando-se na região centro-oeste, entre Rio Maior, a Sul, Fátima a Nordeste, e Porto de Mós, a Norte (Figura 15). Constitui uma das principais reservas de água subterrânea de Portugal, com importância relevante no abastecimento de água a nível regional e correspondendo a um centro de irradiação de diversos cursos de água de superfície distribuídos por três bacias hidrográficas, Tejo, Lis e Ribeiras do Oeste.
Os limites do sistema não correspondem totalmente aos limites da unidade geomorfológica designada por Maciço Calcário Estremenho, pois a circulação subterrânea estende-se para lá dos limites deste maciço. Assim, a Oeste o sistema inclui a Plataforma de Aljubarrota
26 (Depressão de Alcobaça), estendendo-se até à nascente de Chiqueda. A Sul e a Este, o sistema é delimitado pelo cavalgamento das formações do Maciço Calcário Estremenho sobre a Bacia Terciária do Tejo.
A base deste sistema aquífero é constituída por sequências rítmicas de litologias essencialmente margosas, com intercalações mais calcárias ou mais argilosas. Correspondem à Formação Fórnea, de idade Jurássico Inferior, que anteriormente foi apresentada (Figura 6)
Figura 15- Localização do sistema aquífero MCE, segundo Almeida et al., 2000.
O Jurássico Médio (onde se encontram as formações aquíferas) compreende inúmeras variedades composicionais de calcários e margas, predominando, no entanto, calcários com elevado grau de pureza.. As suas unidades litoestratigráficas correspondem às formações cársicas por excelência. O Jurássico Superior, que apresenta grandes variações de fácies de E para W, é essencialmente constituído por argilas, margas e, novamente, inúmeras variedades composicionais de calcários. As formações do Jurássico Superior podem ser consideradas aquitardos ou barreiras parciais (lateralmente, a teto ou a muro) em relação ao aquífero do Jurássico Médio (Crispim, 1995).
Como abordado anteriormente, a espessura das diferentes unidades litoestratigráficas é muito variável, podendo atingir algumas centenas de metros.
A tectónica é condicionada pelos acidentes tardi-variscos que afetaram o soco e cuja reativação influenciou a cobertura mesozoica (Ribeiro et al., 1979). Como também já abordado em maior pormenor atrás, os acidentes mais importantes, em extensão e rejeito, apresentam-se orientados apresentam-segundo as direções NNE-SSW, NE-SW e NW-SE e individualizam vários blocos soerguidos no MCE: Serra dos Candeeiros, Planalto de Sto. António e Planalto de São Mamede – Serra de Aire. A Serra dos Candeeiros encontra-se individualizada do Planalto de Sto. António pela Depressão da Mendiga que corresponde a uma zona tectonicamente deprimida. Por seu
27 turno, esse Planalto encontra-se individualizado do de São Mamede por outras duas zonas tectonicamente deprimidas, as quais correspondem às Depressões de Alvados e de Minde. A carsificação desta região é intensa, apesar de corresponder a um carso jovem. As estruturas cársicas presentes são muito variadas (megalapiás, lapiás, dolinas, uvalas, algares e redes de galerias subterrâneas). As dolinas, em conjunto com os lapiás, constituem a principal forma de exocarsificação. Relativamente ao endocarso, ele está representado por algares, galerias e condutas. As galerias e condutas surgem a profundidades variáveis, ocorrendo por vezes a 80 m abaixo do nível das nascentes (Crispim, 1995). Os algares são estruturas relativamente antigas e abundantes neste maciço; possuem profundidades variáveis, podendo intersetar zonas com vestígios de circulação fóssil ou atual e as maiores profundidades situam-se entre os 100 e os 150 m.
Este sistema é muito complexo. Apresenta um comportamento típico de aquífero cársico, caracterizado pela existência de um número reduzido de nascentes perenes e várias nascentes temporárias com caudais elevados mas com variações muito acentuadas ao longo do tempo. É constituído por vários subsistemas cuja delimitação coincide aproximadamente com grandes as unidades morfoestruturais que constituem o MCE. Cada um desses subsistemas está relacionado com uma nascente cársica perene e, por vezes, com várias nascentes temporárias que descarregam apenas em períodos de ponta. A delimitação das áreas de alimentação de cada nascente apresenta grandes dificuldades devido ao padrão altamente complexo do escoamento em meios cársicos.
Uma característica comum dos maciços cársicos desenvolvidos é a dificuldade de captar água através de furos, pois na maioria dos casos estes são pouco produtivos ou mesmo improdutivos, dado que a água circula essencialmente através de galerias cársicas, por vezes de grande capacidade, inseridas em maciços rochosos de permeabilidade muito mais baixa. Esta dificuldade de captar água neste tipo de meios é bem demonstrada neste Sistema Aquífero onde os dados referentes a sondagens realizadas no seu interior, embora escassos, indicam caudais em geral fracos ou nulos. As captações com mais sucesso localizam-se perto das principais áreas de descarga.
A evolução natural dos maciços cársicos faz-se no sentido de uma hierarquização progressiva dos escoamentos, caracterizados pela existência de um número reduzido de eixos de drenagem subterrânea ligados a nascentes, por vezes muito caudalosas, a que se subordina um grande número de linhas de fluxo de reduzida importância. Esta organização da drenagem subterrânea pode ser avaliada, no caso presente, pelo facto de ser efetuada apenas por cinco nascentes perenes e algumas temporárias para uma área de recarga de quase 800 km2. A drenagem superficial é praticamente inexistente.
As cinco nascentes com maior débito estão localizadas nos limites do maciço, na zona de contacto com rochas menos permeáveis do Jurássico, Cretácico ou do Cenozoico. Duas delas situam-se no bordo Oeste (Liz e Chiqueda) e as restantes três no bordo S e E (Almonda, Alviela e Alcobertas).
28 A nascente mais importante do Maciço Calcário Estremenho (Olhos de Água do Alviela) fica situada num pequeno bloco calcário separado por um afloramento do Cretácico preservado no interior do sinclinal de Monsanto (a Este do sistema aquífero). Esta nascente possui débitos de 30 000 m3/dia na estação seca, sendo que, a descarga média anual é de 120 hm3 (Almeida et
al., 2000).
O Sistema possui contudo, muitas outras exsurgências de menor importância. Crispim, 1995, apresenta um inventário bastante completo onde contabiliza 120 nascentes.
A produtividade deste sistema aquífero pode ser avaliada, em termos globais, a partir das estatísticas de 28 dados de caudais de exploração, apresentadas na Tabela 1.
A transmissividade estimada a partir de caudais específicos de captações situa-se entre 1 m2/dia e 4 800m2/dia sendo esta dispersão característica de maciços cársicos com elevado grau de organização das drenagens subterrâneas.
Tabela 1- Produtividade das captações instaladas no Sistema Aquífero Maciço Calcário Estremenho (l/s).
MÉDIA DESVIO PADRÃO MÍNIMO Q1 MEDIANA Q3 MÁXIMO
2,3 4,5 0 0,5 0,8 1,2 20
Tendo em conta aspetos hidrogeológicos, geomorfológicos e estruturais, consideram-se, sob o ponto de vista hidrogeológico, os seguintes setores para o sistema aquífero:
- Serra de Candeeiros e Plataforma de Aljubarrota (ou Depressão de Alcobaça); - Planalto de Santo António;
- Planalto de S. Mamede e Serra de Aire; - Depressões de Alvados e Minde.
Duas das 5 Áreas de Intervenção Específica definidas no POPNSAC para a indústria extrativa de blocos de calcários para fins ornamentais, nomeadamente a de Codaçal e a de Pé da Pedreira, situam-se no Planalto de Santo António. A de Moleanos enquadra-se na Depressão de Aljubarrota, a de Salgueiras pode considerar-se integrada na Serra dos Candeeiros e, por fim, a de Cabeça Veada integra-se na Depressão da Mendiga, entre os setores da Serra dos Candeeiros e do Planalto de Sto. António.
Os conhecimentos de maior detalhe existentes sobre o sistema aquífero MCE respeitam ao Planalto de Sto. António. Este alimenta a nascente mais importante do sistema: a dos Olhos de Água do Rio Alviela. A área de alimentação desta nascente deverá ser constituída pela quase totalidade do planalto, que apresenta declive geral para sul, aproximadamente coincidente com o suave pendor das camadas calcárias. Algumas das falhas neste planalto que apresentam uma orientação geral NW-SE, estão injetadas por filões de natureza básica. De acordo com Crispim, 1995, estes deverão funcionar como barreiras hidráulicas, totais ou parciais, com
29 tendência para impedir o escoamento para Sul e a desviá-lo no sentido da nascente dos Olhos de Água. O remanescente dessa circulação deverá ser drenado por várias nascentes situadas no bordo Sul, perto do contacto com os terrenos menos permeáveis. As nascentes com caráter garantidamente cársico, ligadas a galerias subterrâneas, são o Olho de Água de Alcobertas, com circulação predominantemente perene, e o Olho da Mata do Rei, esta temporária.
Ainda de acordo com Crispim, 1995, uma pequena área noroeste do planalto, incluindo a depressão cársica de Chão das Pias, é drenada pelas nascentes do Lena. Esta ligação ficou provada através de traçagens tendo como ponto de injeção o Algar da Arroteia situado no bordo da referida depressão. Uma parte da circulação é descarregada pelas nascentes temporárias situadas na Fórnea de Alvados, das quais a mais importante é a Cova da Velha. Das nascentes do Lena apenas uma, Olho de Água da Ribeira de Cima, tem caráter permanente. As restantes, de montante para jusante, Fontainha, Nascente do Cabeço da Pedra, Nascente da Tapada das Freiras e Nascente das Arregatas, são temporárias.
No bordo SE do sistema, a N dos Olhos de Água do Alviela, fica a nascente de Vila Moreira (Olho da Mari'Paula ou Olho do Rabaçal). Esta nascente temporária pode debitar um caudal muito elevado em períodos de ponta. Tanto esta nascente, como os Olhos de Água do Alviela, recebem uma contribuição proveniente da Depressão de Minde (Polje de Minde). De facto, as traçagens efetuadas provaram a existência de uma ligação muito rápida entre sumidouros situados no fundo do Polje, perto de Minde, e as referidas nascentes, tendo sido o traçador recuperado fundamentalmente em Vila Moreira, mas verificando-se uma deflecção significativa para os Olhos de Água do Alviela. Presumivelmente, nos períodos em que a nascente de Vila Moreira permanece inativa, toda a drenagem se faz para os Olhos de Água do Alviela.
Traçadores injetados também no fundo do Polje de Minde, noutros sumidouros, provaram uma ligação com a nascente do Rio Almonda (Crispim, 1986). Isto significa que aquela área coincide com uma zona de divergência de fluxo, nas direções NE e SE. É possível que o padrão de drenagem mude em função dos níveis piezométricos, isto é, ao longo do ano hidrológico. Esse tipo de comportamento é relativamente frequente em maciços cársicos.
Em conclusão, na análise espaço-temporal da piezometria do Sistema, deve ter-se em conta que os dados disponíveis não permitem efetuar uma caracterização de forma pormenorizada. No entanto, as observações que se tem vindo a fazer permitem esboçar uma panorâmica das tendências principais das direções e sentidos de fluxo. Essas direções estão condicionadas essencialmente pela posição das nascentes principais. Partes das conclusões que foi possível obter devem-se a resultados de traçagens e a deduções baseadas nas características geológicas, estruturais e geomorfológicas da região. Assim, a definição rigorosa das linhas divisórias de águas subterrâneas é, nalgumas áreas, razoavelmente conhecida sendo que noutras está sujeita a confirmação, à medida que mais dados forem sendo obtidos.
30 Quanto às tendências temporais, é possível afirmar a inexistência de qualquer tendência de período longo. Como é típico de aquíferos cársicos, as flutuações interanuais são de grande amplitude podendo, nalgumas regiões, ultrapassar os 80 m.
Para o cálculo do balanço hídrico do sistema, considera-se uma precipitação média anual da ordem dos 1000 a 1500 mm/ano. Com base neste valor, diversos autores chegaram aos valores de recarga para o Maciço Calcário Estremenho que se apresentam na Tabela 2.
Considerando que da área total do sistema, uma parte é constituída por rochas com menor aptidão aquífera e menor capacidade de infiltração, é provável que os recursos hídricos médios, renováveis, sejam da ordem dos 300 hm3/ano a 350 hm3/ano.
O total escoado através das 3 nascentes principais, Alviela, Almonda e Fontes (Lis), é estimado em cerca de 275 hm3/ano, correspondendo ao Lis 60 a 70 hm3/ano (Almeida et al., 2000). Considerando como válido o valor acima indicado para as entradas, as restantes nascentes debitarão entre 25 e 75 hm3/ano, ou seja, entre 10 e 20% do total.
Tabela 2- Valores de recarga para o Maciço Calcário Estremenho.
AUTOR PRECIPITAÇÃO EFICAZ RECARGA
Oliveira & Lobo-Ferreira, 1994 - 342 mm/ano = 299,9 hm3/ano Crispim & Romariz, 1990; Almeida, 1992 50% 500 hm3/ano
Novo et al., 1991 37 a 43% 550 a 650 mm/ano = 434,7 a
513,8 hm3/ano Lobo-Ferreira & Rodrigues, 1988 - 260 mm/ano = 205,5 hm3/ano
Lobo-Ferreira, 1982 - 287 mm/ano = 226,9 hm3/ano
1.2.2.2. Qualidade das águas subterrâneas
A caracterização da situação de referência em termos de qualidade das águas subterrâneas baseou-se principalmente no trabalho “Sistemas Aquíferos de Portugal Continental” da autoria de Almeida et al., 2000, e na informação contida com base em dados do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH), consultável em http://snirh.pt/. Nestes documentos discute-se um conjunto de análises químicas de elementos maiores presentes em águas referentes a um período compreendido entre 1970 e 1995. A maioria das águas tem mineralização total mediana, são moderadamente duras a muito duras e exibem fácies bicarbonatada cálcica. As estatísticas que se apresentam na Tabela 3 foram obtidas com base em análises de nascentes referentes a um período compreendido entre 1988 e 1991.
31 Numa perspetiva de classificação da qualidade das águas com vista à sua utilização para consumo humano tem-se que, sob o ponto de vista químico, estas águas podem ser consideradas de boa qualidade pois não se verifica nenhum caso de violação dos VMAs, situando-se a maioria dos parâmetros abaixo dos respetivos VMRs (VMA = Valor máximo admissível; VMR = Valor máximo recomendado; valores de norma de qualidade constantes no DL nº236/98, de 1 de agosto). Registam-se, no entanto, algumas exceções. Assim, em relação aos cloretos verifica-se que 20% excedem o VMR, alcançando o valor máximo de 157 mg/L. Para o nitrato apenas se obtiveram 10 valores (análises de um período entre 1966 e 1991). Uma das análises excede o VMR, situando-se as restantes abaixo daquele limite. Por último, mais de metade dos valores de condutividade (55%) excede o VMR.
No entanto, dada a vulnerabilidade deste tipo de sistema aquífero, podem ocorrer contaminações súbitas de diversos tipos, sendo conhecidos casos pontuais de excesso de gorduras, hidrocarbonetos, metais pesados, etc.
Tabela 3- Principais estatísticas relativas às águas do sistema MCE.
N MÉDIA DESVIO
PADRÃO
MÍNIMO Q1 MEDIANA Q3 MÁXIMO
Condutividade (µS/cm) 98 415 90 275 374 406 424 940 pH 98 7,3 0,2 6,8 7,2 7,4 7,4 7,7 Bicarbonato (mg/L) 98 228 25 161 214 220 240 299 Cloreto (mg/L) 98 23,6 21,4 12.8 14,9 16,3 21,7 156,9 Sulfato (mg/L) 68 5,7 3,4 0,3 3,1 5,7 7,1 18,4 Sódio (mg/L) 43 12,5 18,8 4,3 6,1 6,7 9,7 110,3 Potássio (mg/L) 43 0,9 0,5 0,1 0,7 0,9 1,1 2,7 Cálcio (mg/L) 98 61,1 19,9 20 44,4 65,6 74,4 99,2 Magnésio (mg/L) 98 13,8 9,5 0 6,3 10 20,3 38,5
Do ponto de vista bacteriológico, a qualidade pode-se considerar deficiente pois ocorrem frequentemente valores muito superiores aos admissíveis, nomeadamente de coliformes fecais e totais, estreptococos e mesmo salmonelas, certamente relacionados com as deficientes condições de saneamento básico no interior do Maciço (Almeida et al., 2000) e com as explorações pecuárias que aí também existem.
No que respeita ao uso agrícola destas águas, a maioria (95,3%) pertence à classe C2S1 pelo
que representam um perigo de salinização médio e perigo de alcalinização baixo, de acordo com a classificação do U. S. Salinity Laboratory Staff (Richards, 1954). As restantes pertencem
32 à classe C3S1. Os parâmetros físico-químicos cumprem todos os VMA e VMR, exceto o cloreto
em duas amostras que se situam acima do último daqueles limites.
Na caracterização de âmbito geográfico regional com base em dados do SNIRH consideraram-se os dados analíticos de 16 pontos de água da rede de monitorização da qualidade da água subterrânea (Figura 16). Foram considerados unicamente os respeitantes ao Planalto de Santo António. Tratam-se principalmente de furos com mineralizações totais compreendidas entre 171 e 1027 mg/L e claro predomínio da fácies bicarbonatada cálcica, ainda que surjam pontualmente fácies distintas.
A informação disponibilizada pelo SNIRH sendo complementar da informação disponibilizada no relatório “Sistemas Aquíferos de Portugal Continental” apresenta como vantagens, entre outros:
- Maior atualidade dos dados, compreendidos entre os anos 2000 e 2010;
- Georreferenciação dos locais de amostragem, por vezes com características construtivas das captações associadas.
1.2.2.3. Trabalhos a desenvolver
Além da perspetiva generalista à escala regional do enquadramento hidrogeológico do sistema aquífero onde se desenvolve o estudo, importa fazer a caracterização quantitativa e qualitativa dos recursos hídricos subterrâneos nas Áreas de Intervenção Específica do PNSAC. No entanto dada a especificidade do descritor hidrogeologia, houve a necessidade, numa primeira fase, de se estabelecer um polígono que englobasse todas essas áreas, como se pode observar na Figura 16. Deste modo o estudo hidrogeológico incidirá sobre uma área de aproximadamente 377 Km2 que abrange, sobretudo, o setor hidrogeológico correspondente ao Planalto de Sto. António.
As unidades litoestratigráficas constituintes do Planalto de Sto. António e que foram anteriormente apresentadas, têm interesse regional e local para abastecimento público e particular. A informação sobre pontos de água que agora se apresenta relativamente à área de estudo, é proveniente das seguintes entidades: Laboratório Nacional de Energia e Geologia, Administração da Região Hidrográfica do Tejo, Instituto da Água e PDM de Porto de Mós (Figura 16). Numa fase posterior, será incluída a informação que a ARH Centro e outros organismos disponibilizem e que se entenda útil.
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Figura 16- Pontos de água localizados na área de estudo do descritor hidrogeologia com vista à caracterização hidrogeológica das AIEs do POPNSAC.
Para a caracterização dos recursos hídricos subterrâneos importará obter dados a respeito das estruturas cársicas presentes na área de estudo que se revelem condicionadores dos processos de infiltração e recarga de aquíferos. A circulação subterrânea será avaliada nos seus aspetos quantitativos e qualitativos.
No que respeita à caracterização quantitativa (geometria e aspetos hidrodinâmicos), ela deverá permitir, tanto quanto possível, a elaboração de um modelo conceptual do funcionamento hidráulico consubstanciado nos seguintes pontos:
- Validação e atualização do inventário dos pontos de água (furos, poços e nascentes) e sua implantação em suporte cartográfico à escala do projeto;
- Medições piezométricas e avaliação de tendências dos sentidos de fluxo subterrâneo; - Identificação de zonas de recarga e de descarga dos aquíferos identificados;
- Avaliação de parâmetros hidráulicos (condutividade hidráulica, transmissividade e produtividade);
- Conceptualização genérica dos sistemas hídricos subterrâneos (aquíferos) presentes nas áreas de intervenção específica (Pé Pedreira, Codaçal, Moleanos, Cabeça Veada e Salgueiras);
- Planeamento e realização dos ensaios de traçador que se considerem necessários para esclarecer dúvidas relativas ao ponto anterior;
- Elaboração de mapas de síntese da profundidade a que se situam os aquíferos identificados e respetivos sentidos de fluxo;