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MEDIDAEMPSICOLOGIA

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Rocha Machado Outubro de 2004

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Introdução 3

1 Aspectos epistemológicos e metodológicos da psicologia 5

1.1 O carácter nomotético da psicologia 5

1.2 Conceito e unidade de “medida” 6

1.3 Dificuldades epistemológicas 7

1.4 A psicologia diferencial e o método comparativo 8

1.5 Método estatístico: objectivo e processo 11

1.6 O método dos testes e a psicologia diferencial 12

2 A medida em psicologia 15

2.1 O conceito geral de medida 15

2.2 O conceito de medida em psicologia 16

2.3 Base teórica do “número” em psicologia: dos resultados às diferenças 17

2.4 A exigência científica e funcional da quantificação 18

2.5 Natureza dos dados psicológicos 20

2.6 Significado do número como expressão de uma medida em psicologia 21

3 Medida física versus medida psicológica 22

3.1 Da simplicidade da medida física à complexidade da medida psicológica 22

3.2 Características da expressão numérica da medida em psicologia 24

4 Interpretação dos resultados em psicologia: a “norma” e a “amostra” 25

Conclusão 27

Bibliografia 28

Síntese: O artigo realça o cariz nomotético da psicologia e evidencia a problemática da medida neste domínio. Trata a psicologia diferencial como grande descoberta e procura dar-lhe coerência científica. Analisa o problema da quantificação e põe a claro o seu significado evidenciando a natureza das variáveis comportamentais. Põe em evidência o uso do método comparativo e retrata os conceitos de norma e amostra no âmbito da psicologia aplicada.

Não sabemos o que medimos, ignoramos se é legítimo quantificar e calcular a partir dos resultados obtidos e o que significam os resultados tão pouco o conhecemos.

Thorndike

Não há ciência senão quando a medida pode intervir.

Henri Piéron

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O presente texto aborda a problemática da aplicação da medida na Psicologia e bem assim, o significado e valor que podem ser atribuídos ao resultado dos testes, no contexto do exame psicológico. Apesar da diversidade de opiniões emitidas reconhece-se que continua a reconhece-ser um método de avaliação individual usado em diferentes situações, tais como, na selecção de pessoal, na orientação profissional, no diagnóstico psicológico/clínico etc. Trata-se, portanto, de um método de avaliação que, apesar da controvérsia que o rodeia, continua a ser aplicado embora nem sempre da forma mais adequada e mais plausível.

Reconhece-se, de facto, que se usa e abusa do exame psicológico porque se aceitam as suas conclusões como se reflectissem uma avaliação objectiva e completa do indivíduo examinado sem tão pouco problematizar a relatividade da medida usada e o valor do resultado obtido. E, o que é mais grave, nem sequer se questiona o significado do “número” que expressa o valor de uma aptidão, de um interesse ou de um traço de personalidade. Sublinha-se, todavia, que numa posição extrema, há também quem recuse liminarmente o valor intrínseco do exame psicológico sobretudo pela sua inadequação à realidade para que pretende avaliar os indivíduos. Chega-se mesmo a suspeitar que o exame psicológico funcione, por vezes, de forma adversa à sua finalidade limitando-se a eliminar candidatos. Nesta perspectiva torna-se um obstáculo ao ingresso numa carreira, porventura de sucesso, e um factor de negação do valor individual podendo ter consequências imprevisíveis para os “examinados”.

Há que reconhecer e a experiência já o demonstrou, que o exame psicológico pode ser um entrave à iniciativa e à criatividade individual. E não é demais realçar que os testes psicológicos que o integram não foram idealizados para medir a criatividade. Esta escapa-lhes. E é por isso que, para muitos, não passa de uma pura perda de tempo, não admitindo sequer que seja o instrumento de avaliação que, em mais curto espaço de tempo, fornece maior quantidade de informações acerca do examinado. É, porém, de referir que os indivíduos que obtêm os melhores resultados nos testes psicológicos nem sempre são os que mais gostam de trabalhar e que mais sucesso obtêm. Esta realidade evidencia a insuficiência do exame das aptidões como método exclusivo de avaliação. Na verdade, a motivação individual e o projecto pessoal são fundamentais para o êxito profissional.

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As considerações tecidas relevam a importância do problema da “Medida em Psicologia”1 e do seu significado, pela influência que têm na interpretação do resultado

do exame psicológico. Este não terá, por certo, o valor que uns lhe querem atribuir nem a irrelevância e o desprezo a que outros o querem votar. Nem uns nem outros terão a razão total. Haverá, certamente, uma postura intermédia capaz de promover a conciliação das posições e encontrar o correcto equilíbrio.

Não se deve ignorar que a medição em psicologia assume um relevo particular, porque age sobre variáveis contínuas, escapando à métrica do tipo comummente utilizado. Além disso, não se medem atitudes, interesses, aptidões ou traços de personalidade, mas sim as suas manifestações objectivas, inferindo-se a partir desse facto a sua natureza, expressão e intensidade. Fazem-se, portanto, medições indirectas.

É destes assuntos que se ocuparão as páginas seguintes.

1. Aspectos epistemológicos e metodológicos da psicologia.

1.1 O carácter nomotético da psicologia

A Psicologia é uma ciência nomotética pois procura extrair “leis”, não só a partir de relações quantitativas, de algum modo constantes e exprimíveis sob a forma de funções matemáticas, mas também como factos gerais que se traduzem por meio de uma linguagem corrente mais ou menos formalizada.

Para o psicólogo (como aliás acontece com o sociólogo, o etnólogo, ou o linguista, em relação às suas ciências), estudar casos individuais é fazer psicologia diferencial. Por isso, as suas investigações testemunham claramente uma preocupação de generalidade e de estabelecimento de leis, a tal ponto que a psicologia não é só a ciência do indivíduo, mas do homem em geral, do “indivíduo” enquanto Universal2, (embora possa, em certas

circunstâncias, interessar-se sobretudo pelos casos individuais e pelo seu estudo

1 Cfr. Bonboir, Anna – O Método dos Testes em Psicologia, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1974,

pág.17. Para a autora a história e o estudo da medida em psicologia tem sido uma preocupação permanente desde o século XIX buscando a fiabilidade na avaliação dos comportamentos humanos.

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experimental e teórico), o que constitui a orientação corrente da investigação psicológica.

Os primeiros problemas com que se debate a psicologia experimental, tais como a discriminação sensorial, o estabelecimento de limiares de sensibilidade, a influência de vários factores na sensibilidade, apontavam para o estabelecimento de princípios e leis gerais e não propriamente para a extensão e natureza das diferenças inter-individuais. A preocupação seguinte, se por um lado progrediu no sentido de uma investigação aplicada baseada na psicologia diferencial, por outro lado aprofundou as raízes epistemológicas da psicologia enquanto ciência. E é nesta perspectiva que se compreende que Piaget (1896-1980) tenha afirmado ser impossível dissociar a psicologia da epistemologia. Quando o psicólogo ultrapassa o estudo de determinado nível de desenvolvimento do adulto ou do adolescente e se ocupa da génese e formação das funções cognitivas e das transformações da inteligência humana, tem de se interrogar quanto à forma como se adquirem os conhecimentos, como crescem, como se organizam e se reorganizam. Como qualquer outra ciência nomotética, a Psicologia comporta, pois, investigações acerca dos fenómenos que se desenrolam segundo uma dimensão “histórica”. No caso do desenvolvimento do indivíduo, trata-se de um desenrolar de factos históricos que se repetem e que permitem verificações experimentais, de tal modo que o seu objectivo continua a ser a procura de leis sob a forma de “leis do desenvolvimento”.

1.2 – Conceito e unidade de “medida”

Um dos problemas mais complexos que a psicologia tem de resolver e que é aliás extensivo às outras ciências humanas, é o da medição em si própria, ou seja, o grau de precisão do conhecimento dos próprios factos observados.

A precisão e a concisão máximas na comunicação são conseguidas por meio de asserções numéricas ou quantitativas. Se se recorre ao número, há que assumir que não é por qualquer preconceito que se dá primazia à quantidade, mas por que o número contém em si mesmo uma estrutura substantiva e extensiva, a inclusão de classes que permite a classificação e a ordem que caracteriza as seriações, o que lhe dá um valor instrumental ímpar (e de entendimento generalizado).

Cfr. Piaget, Jean – A Situação das Ciências do Homem no Sistema das Ciências, Livraria Bertrand, Lisboa, 1971, pág.76

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Mas para além deste problema e implícito nele, o que o torna mais difícil de encarar, está o problema da constituição de “unidades”. A grande dificuldade da Psicologia, como das outras ciências do homem,é a ausência de unidades de medida. E embora o método dos testes, por exemplo, forneça dados chamados métricos, porque incide no único aspecto mensurável das condutas – a resultante das reacções – não se pode falar em unidades de medida. Que significado terá, por exemplo, a retenção por um indivíduo de 10 palavras em 15 ou a realização de 30 questões em 40, num teste de inteligência? De facto esta informação ou valor não tem um significado identitário se não for relacionado com um padrão de medida.

Embora não tendo dominado o problema da medição no sentido de uma redução completa ao número e aos sistemas de medida, a Psicologia está na posse de dados estatísticos e estruturas lógico-matemáticas qualitativas que lhe permitem dar resposta ao problema atrás enunciado, não só no sentido de lhe fornecer uma explicação, como também uma base suficiente para lhe permitir certa previsibilidade dos fenómenos. Sublinha-se que data dos finais do séc. XIX a primeira aplicação de métodos matemáticos à Psicologia (diferencial). Neste âmbito surgem nomes como o de Francis Galton (1822 – 1911) fisiologista britânico e do filósofo alemão Gustav Theodor Fechner (1801-1887), ao traduzir numa fórmula matemática a lei de Weber (Ernest Heinrich Weber, fisiologista e anatomista alemão, 1795-1878), de que “o menor aumento perceptível de intensidade do estímulo é uma fracção constante da intensidade inicial”.

No início do séc. XX relevam-se as experiências realizadas em 1905, 1908 e 1911, no âmbito do desenvolvimento educacional, por Alfred Binet, fisiologista, psicólogo e pedagogo (1857-1911). Este trabalho teve grande repercussão científica na época.

Por seu lado, Charles Spearman, psicólogo e matemático inglês (1863-1945) recorreu à utilização da análise factorial nos estudos desenvolvidos tornando-se um dos fundadores da psicologia experimental. É nesta perspectiva que desenvolve, no início do século XX, um trabalho de grande valor científico acerca da avaliação objectiva da inteligência com o recurso ao método das correlações relevando a sua importância e significado, assunto a que já se tinha referido num artigo publicado em 1888. Mais tarde é Edward Lee Thurstone, psicólogo americano (1874-1949), que dedica toda a década de 1920 – 1930 ao estudo dos problemas da medida, pela importância que esta lhe merecia. Por isso, é com fundamento que Spearman e Thurstone são considerados, a par de outros

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investigadores, os verdadeiros precursores da teoria matemática aplicada à medida em Psicologia, embora limitada, durante largos anos, ao estudo dos testes psicométricos3.

1.3 – Dificuldades epistemológicas

Para assumir foro de ciência, a Psicologia abandonou, não só o estudo do “eu” como expressão imediata da alma, mas também o método introspectivo, dando ênfase à adopção do método comparativo. Para concretizar este projecto percorreu um longo caminho e nele intervieram comparações sistemáticas entre o normal e o patológico, o adulto e a criança, o homem e o animal. Este ponto de vista acabou por prevalecer na psicologia científica, pois entendeu-se que a consciência só poderia ser compreendida quando inserida no conjunto da “conduta”, o que supunha o recurso a métodos de observação e de experimentação.

Foi um esforço persistente e determinado, pois tratando-se de uma ciência do homem, aliás seu objecto de estudo em diferentes dimensões, encontrou-se na posição particular de ser ao mesmo tempo sujeito e objecto, o que levantou problemas de difícil solução. A situação foi particularmente agravada pelo facto do sujeito que observa ou experimenta em si próprio ou no outro, poder ser influenciado pelos fenómenos observados ou estes serem fonte de modificação para o observador. É neste sentido que Piaget realça que a «dificuldade epistemológica central das ciências do homem, a de ser ao mesmo tempo sujeito e objecto, prolonga-se por estoutra, a de que, sendo o objecto, por seu turno, no sujeito consciente dotado de linguagem falada e de múltiplos simbolismos, a sua objectividade e condições prévias de descentração tornam-se difíceis e muitas vezes limitadas».

As dificuldades inerentes a esta “situação circular” do sujeito e do objecto, transparecem claramente no método introspectivo, em que o sujeito é modificado pelo objecto a conhecer, como reciprocamente se modificam os fenómenos observados. Este é, por isso, um problema que urge resolver e ultrapassar.

1.4 – A psicologia diferencial e o método comparativo

3 Cfr. Boudon, Raymond – Modelos e Métodos Matemáticos, Livraria Bertrand, Lisboa, 1973, pág. 17 e

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Francis Galton, familiar de Charles Darwin4, foi um dos fundadores da Psicologia das

diferenças entre indivíduos. Defensor da eugenia, adoptou nos estudos desenvolvidos o método estatístico procurando desta forma credibilizar o trabalho.

Influenciado e defensor fervoroso das teorias evolucionistas, F. Galton esforçou-se por imprimir à nova psicologia uma feição característica e particular. De facto, confrontado com o problema das diferenças inter-individuais e persuadido da crescente degeneração da raça humana, desde a civilização grega, o seu objectivo foi acelerar a sua regeneração, substituindo a selecção natural por uma selecção inteligente. Tal propósito passaria necessariamente pela medida das aptidões humanas, pois considerou necessário averiguar as possibilidades intelectuais de cada indivíduo. Estava, deste modo, dada a partida para a invenção de métodos, técnicas e instrumentos que permitissem a avaliação objectiva das potencialidades (aptidões) individuais. Foi neste contexto de pesquisa que surgiu o teste psicológico, instrumento que oferecia um procedimento rápido de medida com a particularidade de aplicação possível a um universo de indivíduos bastante alargado.

Para credibilizar a investigação desenvolvida, F. Galton recorreu ao uso de técnicas estatísticas, tendo sido um dos pioneiros na sua aplicação à Psicologia. Neste plano foi notável o recurso ao método das correlações utilizado nas pesquisas científicas efectuadas. E foi assim que descobriu “sur les tas”, como refere Paul Fraisse, que a medida em Psicologia, não tem zero, nem unidade própria. Também não era possível fazer apelo senão a comparações sobre a distribuição estatística das medidas. Estes pressupostos e condicionantes acabaram por acarretar uma profunda viragem nas concepções de então sobre a matéria, apesar das resistências que sempre se verificam nestas circunstâncias.

Reconhecidas as dificuldades apontadas, uma das formas de remediar tais insuficiências metodológicas foi “descentrar” a própria introspecção, para empregar a palavra usada por Piaget, isto é, comparar os sujeitos entre si, face a problemas bem delimitados. Construiu-se uma espécie de “introspecção provocada” que permitiu levar a cabo uma comparação sistemática e, portanto, supostamente digna de credibilidade.

4 Charles Darwin, fundador da teoria evolucionista, é, e por isso mesmo, o fundador da psicologia

comparada. A continuidade entre as espécies até ao homem, não é somente física, mas psicológica. A partir de elevado número de observações concluiu que as expressões do homem são vestígios de condutas animais que lhe eram directamente úteis.

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Esta medida aplicou-se no domínio da psicologia diferencial, o que significou que foi adoptada como método, a observação das diferenças entre os indivíduos, comparados segundo diversas dimensões pré-definidas. Assim, foi possível proceder à comparação de estados sucessivos de um determinado tipo de desenvolvimento (psicologia genética), à comparação de grupos diferentes constituídos por indivíduos convenientemente escolhidos (psicologia diferencial) ou à comparação de animais de espécies diferentes (psicologia animal). A natureza desta experimentação, que se inseria no âmbito da psicologia experimental, utilizou como meio o método matemático – estatístico, porque lhe fornecia uma linguagem mais precisa e mais capaz de lhe permitir condensar as informações colhidas.

Efectivamente, quando se comparam indivíduos ou grupos de indivíduos, pode-se ordenar esses indivíduos ou a média desses indivíduos e, por vezes, calcular as diferenças existentes entre eles. Este tipo de trabalho é tarefa própria da psicologia diferencial e insere-se no método comparativo. Também se podem analisar os resultados de vários testes realizados por um grupo de indivíduos e considerar que não constituem variáveis psicológicas diferentes, evidenciando, pelo contrário, um factor comum entre si. De igual modo se pode, a partir da comparação dos resultados obtidos por um único indivíduo submetido a uma série de testes, obter correlações que permitam entender o seu comportamento. Estas referências permitem evidenciar a utilização do método comparativo, método que se inscreve no domínio dos métodos objectivos, pois permite o controlo das hipóteses e dos dados resultantes da experimentação. Tal constatação permite, ainda, distinguir o conhecimento baseado na intuição (pseudo científico) que é incontrolável e não verificável, do conhecimento baseado na experimentação5.

Como se referiu anteriormente deve-se a Francis Galton não só a descoberta da psicologia das diferenças inter-individuais mas também a realização de numerosos estudos quantitativos neste domínio que muito contribuíram para a sua consolidação. O facto de ser adepto da teoria evolucionista, terá reforçado o seu empenho em imprimir à nova psicologia (diferencial) uma feição particular já que vira nesta descoberta (as diferenças inter-individuais) uma oportunidade privilegiada para agir e ultrapassar uma das suas grandes preocupações que era a persuasão de que a raça humana estaria em degeneração contínua de há muito tempo. Por isso para sustar este fenómeno entendia

5 O conhecimento baseado na intuição não significa que não seja evidente e coerente, só que esta evidência

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dever agir de forma a substituir a selecção natural por um outro método mais eficaz que seria a selecção inteligente. Esta baseada na detecção e reconhecimento das diferenças individuais. Este projecto passava necessariamente pela medida das aptidões humanas, isto é, por averiguar as possibilidades e potencialidades de cada indivíduo. Com este projecto estava dado o grande impulso para a criação de métodos, de técnicas e instrumentos que permitissem a avaliação das potencialidades individuais. É nesta perspectiva que introduz a utilização da curva normal de probabilidades no estudo das diferenças inter-individuais. Foi, também, pela mesma razão que surgiram os “testes psicológicos”6, instrumentos de medida rápidos e de aplicação possível a um universo bastante numeroso de indivíduos.

Como se pode verificar F. Galton, para concretizar e objectivar a sua investigação, teve a preocupação da quantificação pelo se serviu da estatística, tendo sido o promotor da sua aplicação à psicologia, particularmente de certos dos seus métodos, como o método das correlações, por exemplo.

Esta preocupação advinha do facto de admitir que a medida em psicologia não tinha zero, nem unidade própria, pelo que não poderia fazer apelo senão a comparações sobre a distribuição estatística das medidas ou resultados7.

1.5 – Método estatístico: objectivo e processo

A natureza dos problemas postos à “psicologia diferencial”8 constrangeram-na, para sua

credibilidade, a utilizar o método estatístico no tratamento de resultados.

De facto, considera-se que o grau de desenvolvimento de uma característica individual não pode ser avaliado senão por relação com o desenvolvimento médio dessa mesma

6 Foi o psicólogo americano Mc. K. Cattell que pela primeira vez em 1880 empregou a expressão teste

para designar uma série de provas psicológicas com as quais procurava estabelecer diferenças entre indivíduos

7

Cfr. Fraisse, Paul – Traité Psychologie Exoerimental, T, I – Histoire st Méthode, Presse Universitaire de France, Paris, 1976, pág. 26.

Também Galton aplica a curva normal de Laplace-Gauss à distribuição dos dados obtidos nas suas investigações, mas contrariamente à utilização que dela faz Quetelet (1796-1874) para quem o importante era a média (a estatística permite descrever o homem médio) sendo os “desvios” interpretados como erros da natureza. Para Galton esses “desvios” eram o dado mais importante pois permitiam a medida do “génio”.

8 A psicologia diferencial de dois tipos de problemas. O primeiro refere-se aos fundamentos e técnicas de

medição das diferenças inter-individuais. O segundo ao estudo de como surgem estas diferenças e como se relacionam entre si.

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característica da amostra da população de que o indivíduo faz parte. Nesta perspectiva, uma pontuação directa (bruta) obtida em qualquer teste psicológico carece de significado. Afirmar que um indivíduo resolveu correctamente 15 problemas num teste de raciocínio aritmético ou que memorizou 20 palavras no espaço de 1 minuto, nada diz acerca do nível de cada uma dessas funções.

O objectivo fundamental proporcionado pelo método estatístico é o de organizar e sintetizar os dados quantitativos com vista a facilitar o seu significado e a sua compreensão. Assim, uma lista de 169 resultados obtidos num teste de inteligência (n=169) apresenta um aspecto desordenado. Porém o tratamento estatístico desses resultados através da realização de uma distribuição de frequências, passa a conferir-lhes significado e portanto sentido interpretativo.

Convém referir que o resultado final de um teste pode ser apresentado de forma gráfica diversificada, como por exemplo através de um histograma, de um polígono de frequências9 ou de outro modo qualquer. A representação visual é mais atractiva, pois

traduz os factos numéricos, muitas vezes abstractos e de difícil interpretação, de forma concreta e facilmente compreensível, isto é, conjuga quantidade e qualidade.

Efectivamente, a visualização dos resultados de um teste psicológico permite compreender facilmente o seu sentido e significado. Assim, numa primeira análise, se os resultados do teste se concentram na extremidade superior da escala, ele é certamente fácil. Mas se se concentram na extremidade inferior é porque é muito difícil. Quando o teste é adequado ao nível das aptidões/capacidades do grupo, os resultados tendem a distribuir-se simetricamente em torno da média ou seja, aproximam-se da curva normal de probabilidades.

1.6 O método dos testes e a psicologia diferencial

A psicologia diferencial é essencialmente uma psicologia comparativa que adopta vários métodos, sendo o principal ou mais corrente, o método dos testes (psicológicos)10. Trata-9 Não há normas gerais para o uso do histograma ou do polígono de frequências. O polígono de

frequências é menos exacto que o histograma, mas em contrapartida oferece maior utilidade quando se confrontam dois ou mais gráficos traçados sobre os mesmos eixos.

Convém no entanto referir que tanto o polígono de frequências como o histograma relatam a mesma história e ambos permitem mostrar como os resultados se distribuem ao longo da escala, como refere H. Garret no livro A Estatística na Psicologia e na Educação, Ed. Fundo de Cultura, Rio de Janeiro, 1962, T. I., pág. 43.

10 Cfr. Pierre Pichot teste psicológico é uma situação experimental estandardizada que serve de estímulo a

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se de um instrumento essencial de análise e avaliação, cujo valor assenta em três características fundamentais: o grau de objectividade das suas observações, que pode ser controlado; o tratamento estatístico que permite que cada resultado individual seja compreendido e valorizado em função de um conjunto e o seu carácter analítico.

Quanto à primeira, é indispensável que o resultado de um teste não dependa do seu utilizador (o psicólogo). O instrumento utilizado deve ser definido de forma precisa. O processo de aplicação deve estar objectivamente fixado. As instruções de realização devem ser rigorosas. Assim, a forma de corrigir, de notar e de avaliar os resultados não deve deixar margem para a apreciação subjectiva por parte do observador ou avaliador. O rigor do método dos testes psicológicos é evidente quando comparado com outros processos de observação e avaliação utilizados, como por exemplo, o dos exames de natureza escolar, pois a sua construção, o sistema de aplicação, a cotação, a sua correcção e notação obedecem a normas estandardizadas.

Henri Piéron (1881- 1964), refere no seu livro “Examen et Docimologie”, vários estudos que denunciam a emergência de uma equação pessoal na avaliação de um mesmo exercício escrito ou oral, afirmando que o mesmo exercício visto por professores diferentes ou pelo mesmo professor em ocasiões diferentes, pode obter avaliações bem diferentes11. A psicologia científica não permite tal variação, mesmo quando implica

uma atitude subjectiva12. As divergências entre os observadores são consideradas como

“erro”, que é tratado e trabalhado estatisticamente conduzindo ao verdadeiro valor da observação. O estudo dos diversos factores de erro de observação constituiu aquilo que se denominou fidelidade (ou garantia) de um teste. Um teste oferecerá tanta mais garantia, quanto menos for afectado por factores de “erro”. Diversos processos de análise desta qualidade ou característica são postos à disposição do psicólogo, tais como a repetição do teste passado algum tempo (teste-reteste), a aplicação de testes análogos

indivíduos colocados na mesma situação, permitindo assim classificar o examinando quer quantitativa quer tipologicamente.

11 Cfr Henri Pieron em Ciência e Técnica dos Exames, Moraes Editora, Lisboa, 1977, pags. 26 a 35. 12 De facto a “prova de grupo” e a entrevista não oferecem o rigor da observação do teste pois nenhum

destes processos se poderá definir como uma situação experimental “estandardizada”. O seu grau de objectividade, porque são provas objectivas, baseia-se em dados como a compreensãodos factores em análise (sociabilidade, maturidade, inivciativa, capacidade de chefia...) e no conhecimento do posto de trabalho se se trata de selecção. Para a “prova de grupo” requerem-se grelhas de observação e para a entrevista requer-se um guião.

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(formas paralelas13), a comparação dos resultados obtidos pelo mesmo sujeito em duas

séries de questões extraídas do mesmo teste (garantia de bi-partição).

O rigor do teste psicológico advém também do facto das suas observações se exprimirem sob forma numérica. Número de respostas certas e erradas. Número de “faltas”, ou seja, ausência de resposta. Tempo gasto na sua execução. Quantidade de trabalho desenvolvido num dado período de tempo. Como escreve Reuchlin14, é uma observação “à medida”.

Esta asserção é particularmente verdadeira quando se trata de testes de aptidões, de inteligência, de interesses ou de personalidade. Não é necessariamente tão evidente quando se trata das técnicas projectivas.

É uma constatação observável, que os indivíduos diferem uns dos outros sob múltiplos aspectos, cabendo à psicologia diferencial medir essas diferenças, que identifica através do termo “dimensão”. Este problema equaciona a necessidade de uma diferenciação não apenas global (escola de Binet), mas de maior sensibilidade discriminativa, incidindo sobre os factores diferenciadores (tese de Piéron).

Esta questão é importante, porque, na prática, em psicologia não se podem comparar várias medidas, sem se saber o que se está a comparar, isto é, se se trata ou não da mesma dimensão. Para o efeito, a melhor forma é identificar o que se procura determinar, “o que se pretende medir”. Toma-se, assim, um critério que permite afirmar que um teste (psicológico) mede realmente aquilo que interessa medir.

O método dos testes (psicológicos), recorre na sua constituição a três métodos usados no âmbito da psicologia.

Em primeiro lugar, ao método de observação, pois na constituição do próprio teste cuida-se o seu conteúdo em termos comportamentais de modo a ser o mais real possível, faz-se apelo a gestos profissionais e a conhecimentos implícitos no exercício de uma aptidão.

13 Um teste diz-se “forma paralela” de outro quando o número de itens é igual, a média e o desvio-padrão

são aproximados, o grau de dificuldade é semelhante, a mecânica de aplicação é idêntica, e quando, obviamente, o seu conteúdo não sendo igual, é bastante semelhante, dado tratar-se de medir a mesma aptidão ou o mesmo traço de personalidade. Há casos em que testes diferentes, quer pelo seu grau de dificuldade ou pelo número de itens ou pelos valores estatísticos dados, são considerados “formas paralelas”, desde que na sua aplicação se observem determinadas normas. É o caso do teste de dominós: o D70 e o D48. Aquele quando aplicado seguido deste, o maior grau de dificuldade do D70 é diminuído pela aprendizagem facultada pela aplicação prévia do D48.

14 Cfr, Reuchelin, Maurice – La Psychologie Différencielle, Presse Universitaire de France, Paris, 1980,

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Em segundo lugar, ao método experimental, pois o teste é em si um método experimental objectivado e metódico definido em presença e função das características duma experimentação como:

 O controlo das condições da experimentação;

 A possibilidade de repetição, permitindo a verificação e o controlo dos resultados e das conclusões;

 A possibilidade de submeter os dados obtidos a um tratamento específico.

Em terceiro lugar o método estatístico, pois o comportamento do indivíduo só adquire significado quando comparado estatisticamente com o mesmo comportamento observado numa dada população ou amostra. Esta comparação permite definir o grau de rendimento (inteligência, aptidão) ou forma típica de comportamento (personalidade) e, como tal, classificar o indivíduo relativamente aos outros indivíduos da mesma amostra ou população.

Salienta-se, todavia, que um teste (psicológico) para ser aceitável e credível deve satisfazer os seguintes requisitos ou condições:

 Facilidade e objectividade da notação asseguradas pelo tipo de resposta permitido, ou seja, êxito ou fracasso na resposta ou rendimento num tempo determinado;

 Capacidade discriminativa ou sensibilidade às diferenças inter-individuais o que exige o escalonamento do indivíduo em relação ao grupo;

 Adaptação do teste à população a que se destina e que procura diferenciar;

 Condições de estandardização, de aplicação, de cotação, de interpretação e de comunicação dos resultados.

 Garantia, isto é, o grau de confiança que merece a medida obtida. Uma certa variabilidade é inevitável quer proveniente do examinando, quer do examinador, quer da situação de exame ou mesmo das condições físicas onde o exame é realizado;

 Validade ou valor preditivo15, ou seja, em que grau se verificará o prognóstico formulado a partir do resultado do teste. Convém referir que a validade é um problema de grau, já que nenhum teste é válido para todos os objectivos, para todas as situações ou para todos os grupos de indivíduos.

15 Cfr. Marques, José Ferreira – O Problema da Validade em Psicologia Diferencial, Lisboa, texto

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Finalmente, não pode deixar de se realçar que o teste psicológico constitui-se como uma situação simulada pelo que o seu valor e significado advêm de uma correcta análise da situação real a simular, bem como do ajustamento da sua própria construção16.

2 - A medida em psicologia

2.1 - O conceito geral de medida

O conceito de “medida” é usado em diversos sentidos e contextos, tanto na literatura filosófica como cientifica. Em geral, a medida é definida como “uma expressão comparativa de dimensões e quantidades” ou, mais precisamente, como “ a expressão de uma relação entre unidade de medida. Em sentido amplo poderá ser vista como a atribuição de números a objectos (acontecimentos ou situações), de acordo com determinada regra. Medir é, pois, conhecer uma quantidade por meio de uma medida, o que permite:

 Comparar uma realidade com outra da mesma natureza17 tomada como padrão18;

 Estabelecer uma relação entre os objectos comparados;  Expressar os resultados em termos quantitativos.

A medida é, portanto, um instrumento de padronização através do qual se assegura a equivalência entre objectos de origens diversas, tornando possível fazer discriminações mais subtis e, consequentemente, descrições mais precisas.

Importa, porém, realçar, que a medida não é um fim, em si mesma. A sua validade científica só pode ser apreciada numa perspectiva instrumentalista, dentro da qual se indagam os fins que pretende servir, o papel que lhe cabe desempenhar numa dada situação experimental e as funções que lhe cabem na investigação.

Só se pode falar em medida, quando certas propriedades das coisas estabelecidas pela experimentação são postas em correspondência com certas propriedades dos números. Como refere Maurice Reuchlin, nestas circunstâncias é estabelecida uma espécie de isomorfismo entre as propriedades escolhidas para as coisas e para os números, de tal modo que o resultado de certas operações práticas sobre os números permita prever o resultado de operações isomórficas praticadas sobre as coisas.

16 Cfr. Muchielli, Roger – L’Examen Psychotechenique, Paris, S/d, pág. 31

17 Parece haver consenso generalizado que a homogeneidade é condição indispensável para a medida, isto

é, a unidade de medida deve ser homogénea com o medido.

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2.2 – O conceito de medida em psicologia

O conceito de medida não é controverso quando se trata da medida física. Mas no âmbito da psicologia o termo “medida” não é tão pacífico, porque rapidamente ressaltam e se assinalam um conjunto de apreensões referentes:

 Aos problemas e limites impostos à medida psicológica;  À forma assumida pelos resultados;

 Às operações permitidas pelos dados colhidos.

Então o que significa “medir” em Psicologia? O que significa um QI de 120 em relação a um outro QI de 60? Será possível medir em psicologia? Se o intelecto não é mensurável e se, como dizem os filósofos, só se pode medir aquilo que tem extensão19,

então como se pode tentar medir aquilo que não tem pontos de apoio, nem força material?

Estas são algumas das perguntas que se podem formular ao colocar-se o problema da medida em psicologia.

É necessário deixar, desde já, bem claro que não é o espírito que se mede, mas os resultados da sua actividade. São os “produtos” da inteligência que podem ser medidos. Da inteligência que Bergson (1859-1941) considerou “criadora de utensílios” e que se define no essencial pela acção que exerce e que se materializa no mundo exterior. Sendo assim, é possível calcular a extensão da resposta a uma excitação exterior, como é permitido dar expressão numérica às realizações psíquicas através de testes psicológicos. Isto porque tais realizações se executam em situações estandardizadas que permitem estabelecer comparações.

2-3 – Base teórica do “número” em Psicologia: dos resultados às diferenças.

O aparecimento de diferenças entre os indivíduos submetidos a experiências em laboratório por Wilhelm Wundt, psicólogo e fisiólogo alemão (1832-1920) levou James McKeen Cattell, psicólogo americano (1860-1944), à ideia de medir estas diferenças com um objectivo essencialmente prático. Baseado nos princípios estatísticos de Galton, criou uma técnica, que ele próprio denominou “teste”, que consistia na realização de

19 Como refere Bergson os “estados da consciência” não podem ser “partidos” interpenetram-se e

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uma tarefa idêntica por um grupo de indivíduos. A avaliação feita permitia descrever numericamente os resultados. Os números assim obtidos eram considerados em certo sentido como a “medida” de uma característica psicológica.

A atribuição de números aos diferentes resultados, fundamentava-se no princípio de que a tarefa proposta era tal que os indivíduos não a cumpriam todos da mesma maneira ou no mesmo espaço de tempo. Definido o grau de “dificuldade” para cada um dos resultados possíveis, a medida da característica psicológica de determinado indivíduo dependeria da dificuldade na obtenção do resultado na realização da tarefa20.

A medida de uma aptidão, traço de personalidade, interesse ou atitude fundamenta-se no resultado obtido no teste considerado globalmente, isto é, nas respostas fornecidas a várias questões e não apenas a uma questão. Esta constatação exigia que o teste fosse homogéneo21, estando esta homogeneidade ligada não apenas ao conteúdo do teste, mas

também à forma de apresentação das questões e ao grau de dificuldade dos seus itens. A homogeneidade poderia advir de duas perspectivas, pressupondo-se que em qualquer dos casos o teste media a mesma característica. No primeiro caso o grau de dificuldade seria o mesmo para todas as questões, por exemplo, colocar um selo numa carta. Neste caso o tempo médio exigido pela amostra para realizar a tarefa definia o grau de dificuldade do teste. Neste caso o número de selos colocados em cartas em determinado período de tempo fornecia uma notação de natureza idêntica, podendo os resultados obtidos no teste serem ordenados, bem como os indivíduos que os obtiveram. No segundo caso o grau de dificuldade seria diferente, sendo neste caso as questões apresentadas por ordem crescente de dificuldade. Neste caso poderá, teoricamente, afirmar-se que o indivíduo que resolveu uma questão de elevada dificuldade resolveu todas as questões anteriores de índice de dificuldade inferior22. Estas considerações levam a intuir, ser possível

classificar e ordenar os indivíduos pelo número de itens resolvidos. De igual modo as questões podem ser ordenadas pelo grau de dificuldade, definido a partir da percentagem de indivíduos que não obtiveram respostas “boas”.

20 Cfr. Reuchlin, Maurice – Les Méthodes Quantitatives En Psychologie, Presse Universitaire de France,

Paris, 1962, pág. 29

21

O Problema já não pode ser encarado deste modo quando se fala do exame psicológico em que várias provas de tipo diferente, ou mesmo diversos testes, contribuem complementarmente para a avaliação da mesma característica.

22 Há testes como as “matrizes progressivas” , por exemplo, que apesar de divididas por níveis de

dificuldade crescente inserem no início de cada nível questões mais fáceis do que as dos níveis anteriores. O objectivo é dar alento à resolução dos problemas mais difíceis que se seguem.

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2.4 – A exigência cientifica e funcional da quantificação

Perante a dificuldade de esboçar a construção de uma métrica adequada à psicologia, pode perguntar-se se esta ciência será capaz de alcançar a “realidade” (psicológica) e explicá-la de modo científico e rigoroso, ou se deverá contentar-se com o chegar a ela apenas através de comportamentos decorrentes das operações dessa realidade sem grande preocupação de expressar os resultados em termos quantitativos. Este é o problema da psicometria ou o problema da possibilidade de observação e registo da manifestação de uma característica de modo mais ou menos rigoroso23. É, em suma, o

problema da quantificação.

Mas tanto na “ciência pura” como ciência “aplicada”, a psicologia pretende compreender o indivíduo. E “compreender” o indivíduo é constatar nele a presença de várias características24. E é registando os comportamentos ou “efeitos”, que se pode relacionar

o tipo e forma de intervenção dessas características (traços de personalidade ou aptidões). Todavia, para conhecer o indivíduo de modo mais exacto e completo, já que, como escreve Thorndike, nunca se pode conhecer inteiramente uma pessoa porque não se pode descrever tudo, há que:

 Definir a qualidade que se pretende medir;

 Determinar a série de operações que permite a manifestação do atributo em causa;

 Estabelecer uma série de processos ou definições para traduzir as observações em proposições quantitativas.

A necessidade referida e a sua possibilidade constituem uma característica da psicologia experimental, pois o pensamento quantitativo não é uma expressão meramente secundária e acessória. Pelo contrário constitui “uma característica essencial e não periférica da psicologia”, como refere Leona Tyler. Só assim é possível extrair conclusões precisas das experiências. O comportamento das pessoas varia de indivíduo para individuo. Sem a possibilidade de quantificar os modos típicos do comportamento,

23

Cfr. Tyler, Leona - Testes e Medidas, Zahar editores, Rio de Janeiro, 1966, pág.11

24 Cfr. Anna Bonboir in “O Método dos Testes em Psicologia”, Companhia Editora Nacional, S. Paulo,

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os resultados de quase todas as experiências apresentariam dados contraditórios e confusos. A quantificação permite conhecer melhor a densidade da variável analisada numa determinada pessoa facilitando a tomada de decisões. De facto quantificar significa dispor de resultados que permitam situar um indivíduo numa amostra quanto às suas capacidades, interesses e características pessoais25.

2.5 – Natureza dos dados psicológicos

O desenvolvimento da medição em psicologia foi retardado, em parte por alguns mal-entendidos acerca da natureza desta matéria e em parte por se considerar a psicologia numa perspectiva eminentemente filosófica. Aliás, Emmanuel Kant, filósofo alemão (1724-1804), afirmara que não seria possível existir uma ciência psicológica porque os dados básicos não poderiam ser observados e medidos. Foram exactamente concepções desta natureza que levaram à divisão dos fenómenos psicológicos em físicos e mentais, numa tentativa de explicar uns e outros pela sua interacção. Tratava-se de um ponto de vista lógico, mas verdadeiramente infeliz, como escreve Nunnally, que levou à procura de inúteis argumentos acerca das pretensas conexões entre o mental e o físico26.

Todos aqueles factos que podiam ser vistos, ouvidos, tocados ou experimentados em comum podiam ser medidos, desde que fossem observáveis e a sua evidência fosse tal que pudesse ser examinada por outros. Parece trivial dizer que a sensação individual de satisfação, de gosto, de alegria, não seja passível de investigação científica. Mas já a informação do indivíduo acerca do seu grau de satisfação é um legítimo dado científico. É esta distinção que força o investigador a encarar problemas difíceis e complexos sobre a natureza dos seus dados.

A resposta do indivíduo é sempre a resposta de um “indivíduo” e jamais se poderá provar que realmente “gosta” ou “sente” do que diz gostar ou sentir e no grau em que exprime esse gosto ou essa sensação. Dispõe-se apenas da informação do indivíduo e é com este dado básico que se vai lidar. Esta restrição poderia pressagiar uma derrota, caso não houvesse a possibilidade de comparar as respostas do indivíduo observado com outros actos comportamentais confirmadores de determinado diagnóstico ou a

25 Quando se diz que determinado indivíduo obteve no “Questionário de Interesses” de Kuder um

resultado de Percentil 75, por exemplo, na escala de “Actividades ao ar livre”, quer-se significar que tal indivíduo escolhe esta actividade mais do que 75% das pessoas que constituem o seu grupo.

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possibilidade de saber qual o comportamento “norma” da população a que o indivíduo pertence27.

Os “dados” fornecidos pela medida nada têm de absoluto. São obtidos a partir de um indivíduo concreto empenhado numa acção definida que não é exercida no vazio, mas num contexto que está longe de ser neutro. Por isso, é em função da situação em que o sujeito está envolvido que os dados psicológicos podem e devem ser interpretados.

2.6 – Significado do “número” como expressão de uma medida em psicologia

Os aspectos já referidos permitem encarar o problema referente ao significado que revestem os resultados obtidos, seja num teste ou em qualquer outro instrumento de medida psicológica. A pontuação directa ou bruta da execução de um indivíduo proporcionada por estes instrumentos, pode ser o número de respostas dadas correctamente ou o tempo gasto na execução de uma tarefa, o número de manifestações de determinado comportamento ou de escolha de um determinado objecto.

Estas pontuações podem dar origem a interpretações erradas se não se atender ao padrão de medida com que devem ser comparadas.

As medidas psicológicas não permitem a mesma leitura que as medidas físicas. Estas podem ter um ponto zero e as suas unidades serem iguais. Em psicologia, porém, não há zeros absolutos. Então o que significará o resultado zero num teste de inteligência? Que esse indivíduo é desprovido totalmente de inteligência? Ou mesmo que um zero num teste de matemática significa que os conhecimentos desse indivíduo se reduzem a zero? As pontuações directas ou brutas nada nos dizem do nível de uma aptidão ou de um traço de personalidade. A forma de saber o valor desta pontuação é comparar o indivíduo com um grupo de referência, um critério, convertendo as pontuações directas

27 São aqui referidos os conceitos de Garantia e de Validade com o objectivo de realçar o que se afirma e

portanto evidenciar uma realidade. A garantia tem a ver com a consistência dos resultados, portanto com a possibilidade do mesmo instrumento de medida fornecer resultados consistentes em várias medições. Esta qualidade refere-se tanto à consistência dos resultados obtidos ao longo da prova quando é aplicada uma vez (consistência interna) como em ocasiões diferentes, isto é, até que ponto permite a predição. Estes dois aspectos estão todavia intimamente relacionados. Salienta-se que qualquer instrumento de medida utilizado tem como objectivo principal a predição e o planeamento do desenvolvimento e rendimento subsequente, por isso, um índice elevado de garantia é uma condição sine qua non da sua solidez. A Validade traduz o grau em que determinado instrumento de medida mede efectivamente o que visa medir, comparado com critérios externos reconhecidos. É este conceito que dá garantia ao prognóstico pois permite estimar as diversas dimensões comportamentais do indivíduo numa situação real.

Os dois conceitos mencionados estão relacionados e têm particular significado na avaliação da qualidade de qualquer teste.

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em pontuações derivadas28. Estas passam a representar a posição do indivíduo em relação

a um grupo de referência.

Para compreender o significado de um resultado bruto, há pois necessidade de recorrer a uma informação complementar, a uma referência, a uma norma ou a um critério29.

A fim de determinar mais precisamente a posição de um indivíduo em relação à amostra de que faz parte, a pontuação directa é reduzida a uma pontuação relativa. Uma comparação directa nada dirá. Poderá mesmo induzir em erro. Mas uma pontuação derivada dirá em qual dos testes é melhor, ou se é bom em todos.

Existem várias formas de converter as pontuações directas (brutas), de forma a garantir as exigências de compreensão dos resultados em psicologia, atrás enunciadas. As pontuações dos testes psicológicos expressam-se essencialmente em dois tipos principais: percentílicas e padronizadas. A abordagem explicativa destas representações quantitativas, embora relevante, não é por aqui desenvolvida, pois requereria um tratamento demasiado extenso.

3. Medida física versus medida psicológica

3.1 Da simplicidade da medida física à complexidade da medida psicológica

A orientação psicométrica procurou obter uma avaliação quantitativa dos aspectos

isolados de uma execução. Thorndike (1874 - 1949), resumiu os fundamentos filosóficos desta preocupação do seguinte modo: “Se alguma coisa existe, existe em certa quantidade, se existe em certa quantidade, pode ser medida”30. Nesta afirmação está

pressuposta a possibilidade de equiparação entre as leis que regem a quantificação dos fenómenos de psicologia e as que regem a quantificação dos fenómenos da física, já que se consideram os traços de personalidade como “coisas” cujas dimensões se podem medir, do mesmo modo como se pode medir o volume e o peso de um objecto ou a amplitude e frequência de uma onda luminosa.

28 Diz-se que um teste está referido a um critério quando traduz a pontuação numa afirmação acerca de

uma conduta que se espera de alguém que obteve essa pontuação. Por exemplo, a pontuação obtida pelo indivíduo “X” indica que se pode esperar que resolva 75% de uma série de problemas de aritmética. Isto acontece porque o teste está referido a uma norma. Neste caso o indivíduo “X” resolveu os problemas de aritmética melhor do que 74% da população de que faz parte.

29 Como refere Anna Anastasi no livro Testes Psicológicos, Aguilar, Madrid, 1980, pág. 40, as normas de

um teste representam a execução do teste pela amostra “típica” pelo são estabelecidas empiricamente.

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Em todos os níveis da investigação psicológica se utilizam observações quantificadas, pois:

Mede-se a amplitude e a velocidade do influxo nervoso que percorre as fibras nervosas;

 Conta-se o número de influxos que atinge o centro nervoso respectivo, num determinado período;

 Avalia-se quantitativamente o desenvolvimento intelectual do indivíduo, os seus interesses, etc...;

 Adopta-se o número para descrever as atracções e as repulsas manifestadas num grupo de crianças para comparar, por exemplo, as atitudes de uma população face a problemas de natureza racial.

Estes métodos não se ficam por considerações teóricas ou meramente investigatórias. São largamente utilizados para fins práticos, nos domínios mais diversos da Psicologia, seja ela industrial, escolar, clínica ou em problemas como os da selecção, de orientação escolar e profissional, de diagnóstico de patologias diversas, etc.

Há preocupações epistemológicas presentes, por exemplo, no carácter de simplicidade e de unicidade das coisas físicas, incompatível com a complexidade e ambiguidade fundamentais de toda a observação psicológica. Não há igualdade entre dois indivíduos. Por isso, dois observadores apreendem aspectos diferentes do mesmo indivíduo. A precisão da linguagem numérica aplicada às “coisas” fixas e simples do físico é inadequada às coisas da psicologia, quer se trate do indivíduo, quer da colectividade. Enquanto na medida física se podem usualmente obter resultados muito fidedignos, por três razões básicas:

 As características físicas podem ser medidas directamente;  Os instrumentos usados para obter as medidas são muito precisos;  As características medidas são relativamente estáveis.

No campo da psicologia tal não acontece. A medida psicológica é muito menos fidedigna e precisa que a medida física. E isto porque:

 A medida psicológica é uma medida indirecta. Para medir a estabilidade emocional ou o grau de motivação é preciso medir o comportamento e, indirectamente, inferir o grau da característica possuída pelo indivíduo.

(23)

 O grau de precisão e garantia dos instrumentos de medida é menor e baseia-se na dedução legítima de que a pessoa inteligente ou com “jeito” para a mecânica, a pessoa emotiva ou extrovertida respondem às situações artificiais (estímulos), do mesmo modo como se comportam ou comportarão na vida real31.

De facto, o “material” de que é feito o instrumento de medida não oferece a mesma garantia de fidelidade da medida física.

 A estabilidade da medida de uma característica psicológica é uma questão de grau. Nenhum resultado obtido pelo mesmo indivíduo em ocasiões diferentes é totalmente estável. As fontes de variação são múltiplas como já se referiu.

A consequência deste artificialismo manifesta-se particularmente na descontinuidade entre o homem “objecto de medida” e o homem “real”, descontinuidade que, segundo Maurice Reuchlin, poderá explicar os fracassos ou os êxitos relativos dos métodos da psicologia aplicada, fundados sobre elaborações quantitativas.

Pelo que se expôs, é possível afirmar que não há comparabilidade nem identidade entre resultados obtidos nos testes psicológicos e os valores obtidos nas medidas físicas como o comprimento, o peso, a intensidade luminosa ou sonora. No campo físico, as unidades de medida são fixas e constantes ao longo da escala. Na psicológica, pelo contrário, a medida é difícil e implica problemas especiais. Se em física é possível dizer que o objecto x tem 60 centímetros de comprimento, 800 gramas de peso e é três vezes mais comprido e duas vezes mais pesado do que outro que tenha 20 centímetros de comprimento e duzentos gramas de peso, em psicologia não é possível uma medição directa nem uma comparação deste tipo. Trata-se fundamentalmente de comparar o que não é comparável, pois num caso, trabalha-se com variáveis discretas e no outro caso com variáveis contínuas. A medida psicológica é muito menos fidedigna e precisa do que a medida física. Esta obtém-se directamente, enquanto aquela se obtém indirectamente. O físico sabe o que mede. O psicólogo não. Isto porque a medida em psicologia tem um carácter artificial. A consequência deste artificialismo manifesta-se particularmente na descontinuidade entre o homem “objecto de medida” e o homem

31 As situações apresentadas no teste não têm que se parecer com as situações comportamentais que

pretendem predizer. Há apenas necessidade de uma correspondência empírica. O grau de semelhança pode variar amplamente.

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“real”, descontinuidade que, segundo M. Reuchlin, explicará os fracassos ou os êxitos relativos dos métodos da psicologia aplicada, baseados em elaborações quantitativas32.

3.2 Características da expressão numérica da medida em psicologia

Procurou mostrar-se o significado do “número” enquanto expressão da medida de carácter psicológico. Referiu-se que o número em Psicologia apenas reflecte uma “ordem” entre resultados e, em alguns casos, igualmente o “intervalo” que os separa, partindo de um pressuposto de ordem teórica que garante esta possibilidade e, como tal, tomado como hipótese de trabalho. Mas o número com que se opera não é o número gozando da totalidade das suas propriedades. A sua função aditiva, por exemplo, não é considerada, por ser incongruente quando referida à medida psicológica.

Ao abordar-se a “expressão numérica dos resultados em Psicologia”, há pois que compreender em que sentido se está a usar o número. A compreensão do significado do número nas diferentes escalas utilizadas é importante para apreensão completa do seu valor e significado enquanto expressão, por exemplo, de um percentil, de uma nota T (com uma média) x=50 e (desvio padrão) σ=10)33 ou de uma nota Z (classe

normalizada padronizada).

4. Interpretação dos resultados em psicologia: a “norma” e a “amostra”

O resultado bruto obtido num teste psicológico não significa praticamente nada. Há que referenciar esse resultado a um resultado médio ou típico (a norma), para que tal resultado bruto adquira um significado. A norma é, pois, o resultado médio ou típico obtido por uma amostra/população34 específica num determinado teste. Qualquer norma, seja qual for

o modo como se expresse, está limitada à amostra da população a partir da qual foi derivada. Portanto, as normas de modo algum são absolutas, universais ou permanentes.

32 Cfr. Maurice Reuchlin in Les Méthodes Quantitatives en Psychologie, Presses Universitaire de France,

Paris, 1962, pág. 3

33 As notas T cuja fórmula de cálculo é, T= Zx10 + 50, são uma variante do resultado padronizado.

Trata-se, contudo, de um método independente da amostra que coloca a média em 50 e o desvio padrão em 10. Como se pode verificar pela fórmula acima indicada, evitam-se os valores negativos que a nota Z pode transmitir. Por exemplo, a um resultado padronizado de Z = -1, 00 corresponde uma nota T de 40. As notas T têm a particularidade de poderem ser aplicadas em geral permitindo comparar as notas T de diferentes testes, somá-las e mesmo calcular a sua média aritmética.

34 Uma amostra diz-se significativa ou “boa” quando há grande possibilidade de obter valores próximos

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Representam somente a execução obtida naquele teste, ou seja, o nível de rendimento obtido pelos indivíduos que constituem o grupo normativo (amostra).

O termo “Norma” aparece com um duplo significado ou sentido:  Norma como grupo referência;

 Norma como resultado médio típico de um determinado teste e obtido por uma amostra definida. Esta amostra é a base da constituição das normas, devendo ter-se em atenção o ter-seu deter-senvolvimento e aplicação.

Para se obter uma boa amostra, ou seja, uma amostra representativa de uma população, deve considerar-se:

 O seu tamanho – isto é, deve ser suficientemente grande para oferecer estabilidade. A estabilidade permite esperar e afirmar que se se utilizar outra amostra obtida por processo semelhante se obteriam resultados semelhantes;

 A sua representatividade – isto é, a amostra tomada abrange um determinado número de factores característicos da população em geral. As categorias ou factores considerados são, normalmente, o sexo, a idade, o nível sócio-profissional, o nível cultural, o lugar de residência, tomadas nas proporções equivalentes às da população em geral, de forma a constituir uma representação adequada da população;

 A homogeneidade da amostra - isto é, o grupo que constitui a amostra deve obedecer às variáveis definidas pelos objectivos da prova;

 A actualidade – esta característica da amostra pretende realçar que a mudança que ocorre no mundo em que se vive e que afecta sobretudo a educação, provocando a rápida desactualização das normas, deve ser obtida recentemente, o que lhe dá, por isso, um valor limitado no tempo;

Estas quatro exigências servem para realçar a dificuldade de obtenção de normas adequadas a toda uma população, sendo por isso raros os testes que apresentam valores característicos da população em geral. Opta-se, geralmente, por definir a população de forma mais restrita, apresentando normas de aplicação limitada. Estas, são resultados médios ou valores obtidos a partir da medição efectuada em determinado grupo (amostra) representativo de uma determinada população.

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As normas reflectem, portanto, o grau de desenvolvimento (psíquico ou físico) da amostra, cujas condições e oportunidades favoráveis nem sempre são satisfatórias. Também os testes, como qualquer outro instrumento de medida, medem as dimensões e funções tais como se revelam nas condições reais, não dando ao investigador (psicólogo) uma indicação do que deveria ser, mas daquilo que realmente é.

Conclusão

As dificuldades enunciadas em relação à medida aplicada à Psicologia Diferencial, procuram provar como pode ser falível a decisão fundamentada em indicadores quantitativos, por si mesmo volúveis. É, todavia, de realçar, que a Psicologia é ainda uma ciência em construção, por isso nem a sua métrica, nem o seu processo de aplicação são obras acabadas. A medida tem um carácter relativo e, porventura, mutável. Trata-se também de uma medição indirecta que, utilizando instrumentos com as limitações já referidas, visa a avaliação de traços ou aptidões nem sempre estáveis ou bem definidos. O grau de intensidade da característica que está a ser medida pode também, variar ou mudar ao longo do tempo. Há ainda que considerar que o valor dos testes depende da observância de determinadas condições relacionadas com a sua construção (conteúdo, forma de apresentação, sistema de aplicação, correcção, notação e tratamento estatístico, que permitam compreender os resultados), com o seu grau de garantia e validade e com condições imprevistas da sua utilização.

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Referências

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