DULCILENE ALVES DE MELO
SATISFAÇÃO/INSATISFAÇÃO DOCENTE: EM BUSCA DO
BEM-ESTAR
Prof. Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer
Ijuí-RS 2010
UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO
GRANDE DO SUL
DEPARTAMENTO DE PEDAGOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO NAS
CIÊNCIAS-MESTRADO
SATISFAÇÃO/INSATISFAÇÃO DOCENTE: EM BUSCA DO
BEM-ESTAR
Projeto de Dissertação apresentada junto ao programa de pós-graduação em Educação nas Ciências-Mestrado Unijuí, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre.
Orientador: Prof. Dr. Paulo E. Fensterseifer
Ijuí-RS 2010
UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO
GRANDE DO SUL
DEPARTAMENTO DE PEDAGOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO NAS
CIÊNCIAS - MESTRADO
A Banca examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação
SATISFAÇÃO/INSATISFAÇÃO DOCENTE: EM BUSCA DO
BEM-ESTAR.
elaborada por: DULCILENE ALVES DE MELO
como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em Educação nas Ciências
Banca Examinadora:
Pro. Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer (UNIJUI)________________________________ (orientador)
Profª. Drª. Cristina Kologeski Fraga(UNIPAMPA) ___________________________ Prof. Dr. Francisco Baptista Assumpção Junior(USP)_________________________ Prof. Dr. Walter Frantz (UNIJUI)__________________________________________ Ijui, (RS) 30 de agosto de 2010.
Aos meus pais
AGRADECIMENTOS
Agradeço todos os que comigo dialogaram e contribuíram das mais diferentes formas para a realização deste trabalho:
Ao Prof. Dr. Francisco Baptista Assumpção Junior, médico psiquiatra, professor da FACIS-IBEHE- Faculdade de Ciência e Saúde de São Paulo e da USP-Universidade Federal de São Paulo, que, no final do curso de Especialização de Saúde Mental na Infância e Adolescência, me incentivou na construção do projeto de Mestrado.
Ao meu companheiro e colaborador Ismaél Riethmüller, que com amor e compreensão me acompanhou durante o período do curso de Mestrado, tornando possível a realização deste sonho.
Ao Prof. Dr. Paulo Evaldo Fensterseifer, que com dedicação, seriedade e competência orientou e guiou-me pelos caminhos das leituras e escritos dos textos, do início ao término da dissertação, propiciando oportunidade de aprender ainda mais contigo.
À minha querida amiga Marta Borgman, pela amabilidade que me recebeu, tantas e quantas vezes precisei, na tentativa de sanar minhas dúvidas.
À Secretaria da Educação da Prefeitura de Augusto Pestana e aos profissionais docentes que gentilmente aceitaram participar desta pesquisa, colaborando de forma carinhosa ao me receber durante as entrevistas.
Ao Sr. Ary Otto Riethmüller, que pacientemente me direcionou rumo às escolas, para realizar a pesquisa.
Ao Prof. Dr. Walter Frantz, que na medida do possível dispensou sua dedicação quando solicitado, enviando textos que muito me ajudaram no aprimoramento desta dissertação.
À Profª Drª Ruth Fricke, que me orientou nos caminhos da pesquisa científica e, principalmente, pelas palavras de incentivo e carinho no decorrer destes dois últimos anos.
A todos os amigos e professores do curso de Mestrado em Educação, em especial as amigas Lao-Tsé Bertoldo e Vanessa Neubauer e os amigos Renato Missioneiro e José Adair, conhecido como Black, que de alguma forma contribuíram para re-significar minha vida na Cidade de Ijuí, na fase de adaptação quando da mudança do Estado de São Paulo (Capital) para o Rio Grande do Sul.
Aos meus familiares, que, mesmo em outro Estado, me apoiaram e entenderam minha ausência nos eventos comemorativos.
A todos os amigos do cotidiano e aqueles que silenciosamente me escutaram, até mesmo nos momentos de finais de semanas e feriados, propiciando reflexão em busca da realização deste estudo.
RESUMO
A satisfação/insatisfação no trabalho docente pode ser analisada a partir da percepção dos próprios trabalhadores/sujeitos que dele fazem parte. Neste contexto, esta dissertação tem como objetivo, pesquisar a satisfação docente e as medidas suportivas para buscar e/ou manter o bem-estar na profissão.
Para analisar a questão e entendê-las, desenvolveu-se uma pesquisa qualitativa com referenciais teóricos e quantitativa com levantamento de dados empíricos através da metodologia da aplicação de um questionário autoaplicável e entrevista individual com os docentes envolvidos na pesquisa, na cidade de Augusto Pestana. Os dados levantados se basearam na Análise de Classificação Múltipla, que significou a pesquisa de uma maneira duplamente sensível: pelo respeito à fala dos entrevistados, uma vez que não subestima nem ignora nenhum argumento, e pela participação do pesquisador, que comparece apoiado nos autores que chamou para o debate. A grande contribuição deste método é a de poder considerar todos os argumentos e, inclusive, considerar as “falas” sob mais de uma ótica.
Articulando os resultados com os referenciais teóricos, estes resultados fortaleceram a ideia de que as as medidas suportivas são estratégias de enfrentamento eficazes na obtenção de satisfação e/ou bem-estar, porém nãoúnicas. É necessária uma reflexão contínua, com relação aos prazeres e desprazeres que, constantemente, permeiam a vida pessoal e profissional, entrelaçada pelas forças internas e externas, requerendo sempre a busca de equlíbrio de energia física e mental.
Palavras-chave: Trabalho Docente. Satisfação/insatisfação. Bem-estar Docente. Medidas Suportivas.
ABSTRACT
The satisfaction/ dissatisfaction in the teacher’s work can be analyzed from the perception of the workers/ subjects themselves who are part of it. In this context, the goal of the present master’s degree dissertation is to survey the teacher’s satisfaction and the supportive measures to obtain and/ or maintain the welfare in the profession.
In order to analyze and understand this issue, were developed both a qualitative survey with theoretical references and a quantitative survey with empirical data raise through a self-administered questionnaire and invidual interview with the teachers involved in the survey, in the city of Augusto Pestana. The raised data were based in the Analysis of Multiple Classification, what made the survey doubly sensitive: concerning the respect to the interviewees’ speeches, once it does not underestimate nor ignore any argument; and concerning the participation of the researcher, who attends based on the authors brought to the debate. The great contribution of using this method is the possibility to consider all the arguments, and yet, consider “speeches” on more than one view.
Articulating the results with the theoretical references, the results strengthened the idea that the supportive measures are efficient coping strategies for the attainment of satisfaction and/ or welfare, however, not the only ones. It is necessary a continuous reflection concerning their pleasures and displeasures which constantly permeate the personal and professional life, interlaced by the internal and external forces requiring always the search for balance of physical and mental energy.
Keywords: teacher’s work, satisfaction, teacher’s welfare, supportive measures.
SUMÁRIO INTRODUÇÃO... 15 1 APRESENTAÇÃO DA PESQUISA... 20 1.1 Objetivos ... 20 1.2 Caminhos metodológicos... 21 1.3 Tipo de estudo... 22
1.4 Coleta dos dados... 24
1.5 Instrumentos de coleta dos dados... 26
1.6 Interpretação dos dados ... 26
2 SATISFAÇÃO/INSATISFAÇÃO, FELICIDADE E/OU BEM ESTAR: REVISITANDO O DEBATE... 29
2.1 Fundamentos filosóficos sobre felicidade e/ou bem-estar: um sobrevoo histórico... 29
2.2 A felicidade em nosso tempo: possibilidade, em certa medida, de bem-estar... 35
2.3 Sociedade, Educação e trabalho docente: relação paradoxal... 39
2.4 Pesquisas sobre os estados emocionais: satisfação/insatisfação, felicidade e/ou bem-estar docente... 42
3 AS CONDIÇÕES DO TRABALHO DOCENTE... 46
3.2 Estresse e sofrimento psíquico: até que ponto os estados emocionais interferem na saúde docente... 50 3.3 Fatores indicadores de mal-estar docente... 54 4 INDICADORES DE POSSIBILIDADES DE OBTER SATISFAÇÃO, FELI-
CIDADE E/OU BEM-ESTAR... 58 4.1 A busca de “sentido” de vida como fonte de satisfação, felicidade e/ou bem-estar... 58 4.2 O trabalho como possibilidade de realização humana... 61 4.3 A influência do contexto familiar, sexual, social e cultural, sobre os estados emocionais na profissão docente... 63 4.4 Estratégias e medidas suportivas para evitar o mal-estar docente: possibilidades de se obter satisfação, felicidade e/ou manter bem-estar no trabalho... 65
5 RESULTADOS DA PESQUISA... 69 5.1 Apontamentos dos resultados das tabelas:... 69 5.1.1Tabela-33: Dados reagrupados e cruzados, mostra o perfil dos docentes envolvidos nesta pesquisa, de acordo com os dados demográficos e profissionais. ... 69 5.1.2 Tabela 26-A e 27: Geradores de satisfação e insatisfação por pergunta dos Entrevistados e por classificação quanto ao grau de satisfação geral... 70 5.2 Análises dos dados dos resultados das tabelas26-A, 27, 29-D e 31-D... 70 5.3 Apontamentos dos resultados das questões 51 e 51.1, que compõe o questionário da pesquisa... 71 5.4 Apontamentos do resultado da pergunta 53, que compõe o questionário desta pesquisa... 71 5.5 Apontamentos das falas dos docentes na entrevista semiestruturada... 73
CONSIDERAÇÕES FINAIS... 83
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 87
ANEXOS ... 91
I. Avaliação do Protocolo de Pesquisa, segundo orientações da Resolução CNS nº. 196/1996... 91
II. Solicitação para autorização de pesquisa à Secretaria da Educação ... 93
III. Termo Autorização... 95
IV. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido... 96
V. Conteúdo do questionário... 99
VI. Tabela 26 - A: Distribuição dos entrevistados por grau de satisfação.... 108
VII. Tabela 26 - B: Distribuição dos entrevistados por pontuação com a avaliação do nível de satisfação... 109
VIII. Tabela 27 - Distribuição dos entrevistados quanto ao grau de satisfação geral... 110
IX. Tabela 28 - Distribuição dos entrevistados por presença de sentimentos negativos... 111
X. Tabela 29 - D: Distribuição dos entrevistados por nº de citações por classificação dos sentimentos negativos pela CID... 111
XI. Tabela 31 - D: Distribuição dos entrevistados por nº e citações por medicação utilizada agrupados por indicação... 111
XII. Tabela 32 - Distribuição dos entrevistados por tempo de consumo da medicação utilizada... 112
XIII. Tabela 33 - Distribuição dos entrevistados por Dados Demográficos e profissionais... 113
XIV Tabela com percentuais... 114
35 - Distribuição dos entrevistados por pontuação, valor médio, percentual e classificação por grau de satisfação conforme questionário autoaplicável... 114
XV Tabelas cruzadas... 115
40 - Distribuição dos entrevistados por classificação do nível de satisfação (nº e % por tempo e satisfação) segundo o tempo que trabalha como docente... 115
41 - Distribuição dos entrevistados por classificação do nível de satisfação (nº e % por QV e satisfação) segundo a satisfação como sente e avalia sua própria qualidade de vida... 116
XVI- Tabela Simples das respostas da entrevista semiestruturada... 116
Tabela 1: Respostas da questão (1) da entrevista semiestruturada... 116
Tabela 2: Respostas da questão (2) da entrevista semiestruturada... 120
Tabela 3: Respostas da questão (3) da entrevista semiestruturada... 122
Tabela 4: Respostas da questão (4) da entrevista semiestruturada... 126
XVII- Quadros e Tabelas cruzadas das respostas da entrevista semi-estruturada... 129
Quadro 2: Glossário das questões utilizadas na Análise de Classificação Múltipla e sua codificação a ser utilizada nas tabelas... 129
Quadro 3: Conceituação das categorias utilizadas na Análise de Classificação Múltipla das questões abertas... 130
Tabela 55-A: Distribuição dos entrevistados segundo classificação das respostas à questão: Q1- Fatores que contribuem para a satisfação docente... 130
Tabela 55-B: Distribuição dos entrevistados segundo o número de repetições dos argumentos utilizados na questão: Q1- Fatores que contribuem para a satisfação docente... 131
Tabela 56-A Distribuição dos entrevistados segundo classificação das respostas à questão: Q2- Medidas suportivas, de enfrentamento (esportes etc.) que são utilizados em situação de estresse... 131
Tabela 56-B: Distribuição dos entrevistados segundo número de repetições dos argumentos utilizados na questão: Q2- Medidas suportivas, de enfrentamento (esporte, etc.) utilizadas em situação de estresse... 132
Tabela 57-A: Distribuição dos entrevistados segundo classificação das respostas à questão: Q3- Ações para melhorar a convivência no trabalho... 132
Tabela 58-A: Distribuição dos entrevistados segundo classificação das respostas à questão: Q4- Aspectos no ambiente de trabalho que contribui para aumentar o bem-estar dos alunos e professores... 133
Tabela 58-B: Distribuição dos entrevistados segundo número de repetições dos argumentos e importância do argumento das respostas à questão: Q4- Aspectos no ambiente de trabalho que contribui para aumentar o bem-estar dos alunos e professores... 133
Tabela 59-A: Distribuição dos entrevistados segundo classificação das respostas à questão: Q5_1- Motivos que levaram a pensar em sair do magistério... 134 XVIII- Tabelas extras... 135
INTRODUÇÃO
Os grandes desafios enfrentados pelo sistema de ensino público no Brasil, nos últimos trinta anos, levaram um número significativo de pesquisadores a se dedicar ao estudo do fracasso escolar, focalizando especialmente o aluno e os entraves à sua aprendizagem. No bojo desse debate colocou-se também a questão da satisfação/insatisfação docente frente aos novos desafios da educação escolar, bem como as medidas suportivas para o enfrentamento dessas possíveis situações problemáticas, ou como possibilidade de obter e/ou manter bem-estar evitando o mal-estar. É no interior desse debate que se situa esta investigação.
Os estudiosos concordam em reconhecer que o mal-estar docente é um fenômeno desencadeado por uma multiplicidade de fatores e alimentado tanto pela escola como pela comunidade e a sociedade em geral. Esse fenômeno, de proporções cada vez mais abrangentes, afeta aquilo que é crucial ao exercício da profissão docente, ou seja: o envolvimento com o trabalho; a crença na importância do ensino para as futuras gerações; a percepção de reconhecimento e valorização da atividade docente por parte dos alunos, dos pais e da sociedade; a garantia de condições satisfatórias de trabalho e de salário condizente com o esforço; enfim, tudo o que se refere ao bem-estar do professor. Diante desse contexto é que este estudo focaliza o bem-estar emocional, a “satisfação” docente, que desencadeará medidas suportivas como estratégias de enfrentamento visando eliminar ou minimizar a sensação de mal-estar e obter o bem-estar.
Essas ações estratégicas de enfrentamento interagem direta ou indiretamente no comportamento docente, transformando-se e transformando o outro, por isso o cotidiano do educador, suas trajetórias rotineiras, “as práticas
miúdas”, formam o impasse entre as imagens criadas, de quem é ou deveria ser esse profissional, produzidas no contraste entre o vivido e o concebido(ARROYO, 2000, p. 27-29).
Sem perder de vista tais preocupações e questionamentos com relação ao resultado da dinâmica entre a realização real e ideal do trabalho docente, que justificam esta pesquisa, este estudo adota uma perspectiva que nasceu a partir da monografia de Especialização em Saúde Mental da Infância e Adolescência, quando iniciei um trabalho sobre TDAH- Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, com a finalidade de mensurar a percentagem dos alunos de 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental atingidos pelo TDAH e o quanto essa patologia interferia no processo ensino-aprendizagem. Os resultados não somente apontaram o que a pesquisa propunha, mas também indicam a necessidade de estudos voltados para os comportamentos, as atitudes e as alterações dos sentimentos dos docentes em sala de aula. Dentre alguns comportamentos apresentados pelos docentes, foram observados: irritação e impaciência constantes, palavras bruscas, respostas ríspidas, indiferença quanto às perguntas de alunos, gritos e expressão de fúria ao responder quando questionados pelos alunos, etc.
Esses apontamentos com relação aos comportamentos dos docentes aumentaram e qualificaram a reflexão, com interesses mais específicos, entremeados por diversas questões, dentre elas: Como os docentes na educação lidam com suas peculiaridades, suas individualidades diante de um sistema complexo, que abrange o contexto individual interagindo coletivamente? Quais estratégias e/ou medidas suportivas são utilizadas como estratégias de enfrentamento como prevenção e/ou obtenção de bem-estar? Teoricamente, o professor é um profissional com baixíssimo risco de exposição a agentes físicos, químicos e biológicos, portanto, é de se esperar que a organização do trabalho e a dinâmica que o envolve atuem como principais agentes agressores à sua saúde.
Neste sentido e na tentativa de delimitar o estudo desta pesquisa, evidenciamos os dados que caracterizam o impacto do fator emocional positivo sobre os comportamentos e atitudes dos docentes e quais as estratégias e/ou
medidas suportivas utilizadas como fonte de satisfação, que permeiam e permitem o estabelecimento de vínculos prazerosos com o trabalho e com a escola.
Considerando, como hipótese, que as condições determinantes para se obter sentimento de prazer e de desprazer são influenciadas tanto por condições externas quanto pelas disposições internas do indivíduo, ou, mais ainda, por uma combinação de ambos, o trabalho desenvolvido é apresentado em cinco capítulos.
No primeiro, é efetivada uma contextualização do estudo e análise da pesquisa, com a finalidade de elucidar o processo para a sua realização. A pesquisa foi realizada com os docentes na cidade de Augusto Pestana/RS. A escolha dessa cidade foi feita pela participação e interesse da Secretaria da Educação municipal, acolhendo a proposição de investigar a insatisfação/satisfação numa perspectiva de interação biopsicossocial, objetivando estar mais próximo dos resultados como resposta dessa interação sujeito singular versus objetivo/subjetivo. As coletas de dados foram feitas em duas etapas, a primeira etapa, através de um questionário autoaplicável, dividido em três partes: a primeira parte constituído por, perguntas que revelassem o perfil do profissional em questão (idade, sexo, estado civil, nº de filhos, etc.); a segunda parte constituído por, fatores que correspondiam às dimensões do trabalho (conforme escala de respostas: cinco categorias, muito insatisfeito, insatisfeito, neutro, satisfeito, muito satisfeito) e a terceira parte do questionário, pediu-se ao professor que respondesse à pergunta “O que o torna feliz na profissão?”. Dando continuidade na pesquisa, a segunda etapa de campo foi realizada por uma entrevista semiestruturada com cada docente, com o objetivo de identificar as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos professores face aos segmentos avaliados como “satisfeito/insatisfeito” e aos conflitos e dificuldades vivenciados no dia a dia do trabalho.
No segundo capítulo, procura-se apontar, de forma sucinta, conceitos e fundamentos teóricos das transformações do pensamento filosófico acerca da “felicidade”. Esta foi e é procurada pelos seres humanos desde o início de sua existência e, em nosso tempo, é possível em certa medida, se obter “bem-estar.”
Esse sentimento, entretanto, transforma-se em uma relação paradoxal quando comparado às necessidades de manter o equilíbrio e evitar o “mal-estar”. Algumas pesquisas acerca do tema abordado são apresentadas, com a finalidade de salientar o quanto a interação das emoções de “bem-estar e mal-estar” é vivenciada no cotidiano escolar e como os determinantes sociais e históricos propiciam o aparecimento de diversos sentimentos, negativos e/ou positivos.
No terceiro capítulo, são apresentados os pressupostos teóricos mais específicos que serviram como base para as análises posteriores, nas quais se busca compreender os aspectos das transformações dos fatores ou condições que levam um indivíduo a se sentir satisfeito ou insatisfeito nas condições do trabalho docente. Segundo autores, o trabalho docente é visto como uma situação tensa e conflitiva em todas as regiões, de norte a sul do Brasil, bem como em diversas partes de outros países. Essa constatação pressupõe a insatisfação docente, quando correlacionada às especificidades em cada situação (salário, infraestrutura concreta, apoio do sistema educacional, etc.), porém, quando comparada à singularidade do sujeito que ensina (desejos pessoais, realização profissional, etc.), a afetividade versus trabalho é capaz de receber e enviar comportamentos amorosos através dos estímulos sensoriais e psicológicos para a sua manutenção e motivação na profissão. Desta inter-relação entre tentar obter e manter o “bem-estar” na profissão, poderá ocorrer um estresse e/ou sofrimento psíquico, que aparece como advertência em relação às interferências dos estados emocionais na saúde do docente. Por fim, neste capítulo, salienta-se que a persistência dos estados emocionais negativos são fatores indicadores de mal-estar docente, resultando em possíveis ausências temporárias e/ou na instauração de quadros patológicos.(CODO, 2006, p.12-14,54-63),
Na tentativa de direcionar para o foco da pesquisa em questão, no quarto capítulo destacamos alguns apontamentos no que se refere aos indicadores de possibilidades de obter satisfação, felicidade e/ou bem-estar, não excluindo as ambiguidades que o contexto escolar apresenta (entre a caracterização pela relativa autonomia que o sistema educacional detém- determina as coisas que promete- ou pela relativa dependência da estrutura da sociedade, que determina as coisas que
realmente pode oferecer), mas propondo enfatizar que a busca de “sentido” de vida, segundo Frankl, faz-se necessária como fonte de satisfação, felicidade e/ou bem-estar e que o trabalho se torna possibilidade de realização humana, bem como o contexto familiar, sexual, social e cultural, determinando os estados emocionais pessoais e profissionais. Diante dessa constatação, apresentamos sugestões e constatamos a urgente necessidade da busca de estratégias e medidas suportivas para evitar ou minimizar o mal-estar docente e aumentar as possibilidades de se obter satisfação, felicidade e/ou manter bem-estar no trabalho(1984, p. 51).
Por fim, no quinto capítulo, é efetuada uma análise minuciosa dos dados teóricos e empíricos levantados, buscando examinar os relatos dos docentes entrevistados, cujas respostas permeiam o desvelamento do processo de satisfação e insatisfação na profissão, bem como as medidas suportivas para o enfrentamento desses possíveis conflitos e/ou a manutenção de “bem-estar”. As respostas dadas pelos docentes através do questionário autoaplicável e da entrevista individual representam seu perfil profissional, seus projetos de vida, seus vínculos na frustração e nas alegrias em seu percurso profissional, permitindo visualizar a constituição de tramas singulares, bem como a constituição da estrutura emocional para suportá-los.
1 APRESENTAÇÃO DA PESQUISA
Investigar as condições objetivas e subjetivas do trabalho docente é uma tarefa complexa, entretanto, se torna possível através de suas atribuições na prática pedagógica e em seus padrões de comportamentos e da simbolização originadas, que indicam um caminho a ser percorrido neste estudo. As atribuições de causalidade formuladas pelos docentes relativas à satisfação/insatisfação no trabalho, pode revelar suas particularidades nas formas concretas, ou seja, suas crenças e valores subjetivos não somente como um fenômeno individual, mas também social e coletivo.
Neste contexto social e coletivo (em termos de pesquisa) o presente estudo pode ajudar a elucidar sobre a problemática mais universal da satisfação ou insatisfação docente nas escolas brasileiras, porém, vale ressaltar que esta pesquisa se trata de um estudo de “espaço-tempo” local em uma realidade interiorana com forte influência das condições de vida rural, confrontada com as mudanças no processo de trabalho-docente globalizado.
1.1 Objetivos
O objetivo geral desta pesquisa é identificar os fatores geradores de satisfação/insatisfação, bem como as medidas suportivas dos docentes de Educação Infantil e do Ensino Fundamental das Escolas Municipais em Augusto Pestana - RS. Os objetivos específicos são:
apontar quais fatores contribuem para o grau de satisfação no bem-estar docente;
fazer um paralelo com o grupo “satisfeito/insatisfeito”, que caracterizam o apontamento das fontes e dinâmicas que geram e mantêm o bem-estar, como possibilidades de reestruturação adequada de suas práticas e modos de ser e estar na profissão;
apontar quais as medidas suportivas de que o grupo “satisfeito” se utiliza para enfrentar situações de insatisfação e conflitos vivenciados na escola;
fazer uma relação entre os fatores causais das medidas suportivas apresentadas pelo grupo “satisfeito”, como uma tentativa de alterar as condições externas ou modificar a própria conduta e o modo de perceber as situações com a finalidade de se obter bem-estar docente.
1.2 CAMINHOS METODOLÓGICOS
Em busca de obter informações com relação ao “mal-estar” dos professores da Secretaria de Educação do Município de Augusto Pestana, através, pó exemplo, de um levantamento dos atestados médicos e/ou registro de afastamentos temporários de professores das escolas municipais da rede pública, foi constatado que há , no referidos, atestados de saúde, o nome do médico que o afastou e o período de afastamento, mas a Classificação Internacional de Doenças (CID-10) não é apontada, dificultando a ideia de que essas patologias classificadas poderiam apontar quais eram os motivos das ausências no trabalho.
A partir daí, e considerando a complexidade da pesquisa, foi necessário estabelecer novos objetivos, direcionando a pesquisa para o “BEM-ESTAR DOCENTE” e estabelecer os procedimentos para a coleta de dados, através de um questionário autoaplicável, entrevistas e análise de classificação múltipla dessas respostas para suporte empírico. Para tanto, os dados possibilitaram:
a identificação do grau de satisfação dos professores com cada uma das dimensões do trabalho docente e a relação destes com a autopercepção de bem-estar;
as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos professores face aos graus avaliados como satisfatório e que mantêm o bem-estar;
fazer uma relação entre os fatores causais das medidas suportivas apresentadas pelo grupo “satisfeito”, com a finalidade de visualizar um novo horizonte no entendimento das fontes de satisfação que permitem o estabelecimento de vínculos prazerosos com o trabalho e com a escola.
Hargreaves (2000, p.83) destaca a importância de se identificar as fontes de satisfação do trabalho para que elas possam servir de “encorajamento aos professores”, no sentido de auxiliarem no enfrentamento das dificuldades encontradas no exercício do magistério. O autor parte do pressuposto de que o bem-estar é uma possibilidade existente na relação do professor com o seu trabalho, que pode ou não se concretizar, dependendo:
das características do trabalho (a atividade laboral, as condições físicas, socioeconômicas e relacionais oferecidas para a sua realização);
do resultado, positivo ou negativo, da avaliação que o professor faz dessas características;
dos modos como o professor enfrenta e resolve os conflitos gerados pelas discrepâncias entre a sua organização interna e a organização do trabalho.
1.3 TIPO DE ESTUDO
O bem-estar docente foi delimitado neste estudo como a hipótese de que decorre da vivência, com maior frequência e intensidade, de experiências positivas. Considerando a natureza de seus objetivos, o estudo foi feito por pesquisa de campo para levantamento de dados, buscando compreender a organização do trabalho docente, ou seja, relação de poder, conteúdo de sua tarefa, organização administrativa, carga horária e trajetória profissional, bem como sentimentos,
valorização e expectativa profissional dos entrevistados, fatores que, entre outros, contribuem para as medidas suportivas e enfrentamento da dinâmica escolar.
Este estudo teve como modelo teórico a pesquisa apresentada de forma esquemática no Quadro 1, realizada por Flavinês Rebolo Lapo, intitulada Professores retirantes: um estudo sobre a evasão de professores do magistério público no Estado de São Paulo (1990-1995). Dissertação de mestrado. Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1999 e LAPO, F.R. e BUENO: Professores: desencanto com a Profissão, 2003.
Quadro 1: Esquema do modelo para a análise do bem-estar docente.
1.4 COLETA DOS DADOS
Para a realização da coleta de dados, tanto para a aplicação do questionário, como para a entrevista individual, foi feita uma apresentação do projeto de pesquisa à direção escolar de cada escola e aos sujeitos inseridos na pesquisa.
A pesquisa de campo foi composta por duas etapas. A primeira etapa consistiu na identificação dos fatores de satisfação e insatisfação com o trabalho docente e a relação desses com a autopercepção de bem-estar de um grupo de professores, através de um questionário autoaplicável. Esse questionário foi construído, a partir do modelo utilizado por Lapo (1995, p.105), sobre os componentes essenciais para que as atividades da vida cotidiana proporcionem satisfação e das características ambientais que se constituem na base do bem-estar e, também dos modelos proposto por Walton (1975 apud Chiavenato, 2004, p.452) e pelo Saeb1 (2005). Associamos os fatores apontados por esses autores e reformulamos o questionário, dividindo-o em três partes:
1- A primeira, constituída por itens sobre dados pessoais (idade, sexo, estado civil, número de filhos, outros dependentes, formação e renda familiar) e profissionais (o tempo de exercício do magistério, o nível de ensino em que leciona atualmente, a situação funcional, a jornada de trabalho, o número de escolas em que trabalha e a faixa salarial), com vistas a colher subsídios para traçar o perfil do grupo de professores participantes desta etapa da pesquisa;
2- A segunda, constituída por fatores que correspondem às quatro dimensões do trabalho (da atividade laboral, concreta, relacional e socioeconômica) e à qualidade de vida, construída com uma escala de cinco categorias de respostas (muito insatisfeito, insatisfeito, neutro,
1
Em 2005, a Portaria Ministerial n.º 931 alterou o nome do histórico exame amostral do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), realizado desde 1990, para Avaliação Nacional da Educação Básica (Aneb). Por sua tradição, entretanto, o nome do Saeb foi mantido nas publicações e demais materiais de divulgação e aplicação deste exame.
satisfeito, muito satisfeito), as quais permitem ao professor expressar seu grau de satisfação/insatisfação com cada um dos fatores investigados;
3- Na terceira, pede-se ao professor que responda à pergunta: “O que o torna feliz na profissão?”. Considerando que o bem-estar é um fenômeno que não pode ser aferido externamente e cuja existência só pode ser afirmada ou negada pela própria pessoa, busca-se conhecer, com esta pergunta, como cada docente se sente em relação ao seu trabalho.
Na segunda etapa da pesquisa de campo, para identificar as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos professores face aos segmentos avaliados como “satisfeito/insatisfeito” e aos conflitos e dificuldades vivenciados no dia a dia do trabalho, foi realizada uma entrevista individual semiestruturada com todos os sujeitos da pesquisa. Entretanto, somente as respostas do grupo selecionado como “satisfeito” foram computadas, com a finalidade de determinar quais os fatores de satisfação e as quais estratégias de enfrentamento geram e mantêm o bem-estar desses docentes. A entrevista individual se constituiu em uma técnica apropriada quando o que se pretendia era coletar informações sobre a vivência de um fenômeno que, muitas vezes, não é claro nem mesmo para quem o vive.
Neste sentido, Bleger afirma que:
A pesquisa feita por entrevista individual possibilita uma investigação mais ampla e profunda da personalidade do entrevistado, permitindo ao entrevistado configurar o campo da entrevista segundo sua estrutura psicológica particular, além de uma melhor comparação dos dados e da importância científica da mesma.(1993, p.10)
1.5 INSTRUMENTOS DE COLETA DOS DADOS
No primeiro momento, a obtenção dos dados foi viabilizada através de um questionário autoaplicável, numerado de 1 a 37 (número de sujeitos da pesquisa) e cada profissional teve seu nome identificado com um número, com o objetivo de selecionar o grupo de “satisfeitos” e de manter o anonimato dos sujeitos na segunda etapa da pesquisa. A seleção do grupo “satisfeito” foi feita pelo critério de um maior número de respostas dadas como “satisfeito” e “muito satisfeito”(perguntas nº 22 a 47 do questionário). Essa numeração no questionário possibilitou obter o controle do grupo “satisfeito” na continuidade da pesquisa sem que os mesmos percebessem, mantendo o anonimato.
Para assegurar a confidencialidade e privacidade dos sujeitos envolvidos, foi realizada uma entrevista individual semiestruturada e descritiva (com relação às perguntas nº 22 a 47 do questionário), mas somente foram computadas as respostas dadas pelos sujeitos que compunham o grupo “satisfeito” com o objetivo de apontar e/ou determinar os fatores que contribuíram para o grau de satisfação no bem-estar docente, bem como quais as medidas suportivas de que se este grupo se utilizava na tentativa de enfrentar situações de insatisfação e conflitos vivenciados na escola.
Após o término do trabalho de campo e conclusão da pesquisa, os dados colhidos foram incinerados por este ser um dos processos mais eficientes em termos de destinação final, considerando a Resolução 196/96 do Conselho Nacional da Saúde/Ministério da Saúde que trata das diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa em Seres Humanos (BRASIL, 1996).
1.6 INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
Na tentativa de se manter fiel aos dados coletados, a interpretação foi feita através dos seguintes passos:
Ordenação dos dados em tabelas por análise estatística de classificação múltipla2; releitura do material e organização dos dados obtidos no trabalho de campo;
Classificação dos dados: leitura, releitura do material coletado, estabelecendo-se interrogações para identificação do que surgiu de relevante;
Para a interpretação dos dados do questionário, as respostas foram relacionadas aos fatores avaliados como muito insatisfeito, insatisfeito, neutro, satisfeito, muito satisfeito, através da auto percepção de bem-estar do docente que o respondeu;
Para a interpretação das respostas da entrevista individual semiestruturada, foram criados critérios pré-estabelecidos conforme as repostas apontadas no questionário da primeira etapa (perguntas nº 22 a 47), mas subentendeu-se que constaria de perguntas sobre como as pessoas consideram uma experiência, uma ideia ou um evento estressor no contexto educacional, ou fornecer informações sobre o que esses profissionais pensam, sentem ou, ainda, como agem na forma de medidas suportivas no enfrentamento da rotina educacional. Mais do que uma técnica, a entrevista permite coletar dados muitos importantes, além da possibilidade de se obter informações não previstas através da fluidez da conversação que favorece o surgimento de opinião do participante e a obtenção de informações que não ficam limitadas a uma prévia concepção do pesquisador (BLEGER,1993, p.11-12);
Análise final: articulações entre os dados e o referencial teórico construído, buscando responder às questões da pesquisa, explicitadas nos objetivos;
2
A análise estatística é uma espécie de releitura, que decodifica as relações observadas. Interpreta as informações após a sua sistematização procurando máximos e mínimos, bem como sua importância relativa em consonância com as medidas descritivas que buscam ampliar a leitura dos dados. Também, procuram-se os elementos que podem ser projetados a partir das estatísticas amostrais para a população, após sua validação pelos testes de hipótese. Esta leitura é complementar e argumentativa e ajusta-se, por um lado, à necessidade de evidenciar relações não tão aparentes, comprovar e validar resultados, projetando-os amplamente, e, por outro lado, a corroborar as afirmações “visualizadas”, sustentando-as como argumentos textuais (FRICKE, 2009, p.111
Considerando que esta pesquisa seguiu as normas da Resolução 196/96, do Conselho Nacional da Saúde/Ministério da Saúde, que trata das diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa em Seres Humanos (BRASIL, 1996), e com a pretensão de garantir o retorno dos resultados aos sujeitos envolvidos na pesquisa após o término desta, foi feita uma apresentação dos resultados em data definida pela Secretaria da Educação do Município, oportunizando um amplo debate sobre a mesma, com o resguardo da identidade dos sujeitos envolvidos.
2 SATISFAÇÃO/INSATISFAÇÃO, FELICIDADE E/OU BEM-ESTAR:
REVISITANDO O DEBATE
Neste capítulo, apontamos algumas considerações teóricas que tratam de estudos sobre satisfação/insatisfação, felicidade e/ou bem-estar. Dentre alguns autores, o filósofo e escritor espanhol Julián Marías traz uma visão esclarecedora sobre o assunto, de uma maneira que é possível imaginar e acompanhar a evolução do pensamento que nos constitui e que partindo dele é o que nos torna possível vivenciarmos e modificarmos ao longo de nossas vidas. As questões acerca da felicidade impossibilitam um esclarecimento único e total de entender a vida e o mundo, mas proporcionam conhecer e inovar conceitos com a realidade de nosso tempo no que se refere à possibilidade de se obter felicidade em certa medida de bem-estar, pois são causas complexas, difíceis de domesticar e impossíveis de reduzir ao já conhecido. Os apontamentos sobre a relação paradoxal, sociedade, educação e trabalho, bem como algumas pesquisas sobre os estados emocionais, caracterizam ainda mais a complexidade deste assunto, que incorpora as marcas apreendidas nos diálogos de muitas gerações e interesses políticos, impossibilitando entender o mundo e a vida, mas permitindo lançar alguns esclarecimentos sobre e, mais, remediar algumas ausências sobre o que é peculiar ao ser humano.
2.1 Fundamentos filosóficos sobre felicidade e/ou bem-estar: um sobrevoo histórico
Os fatores ou condições que levam um indivíduo a se sentir feliz ou ter bem-estar variam muito, mas a “felicidade” foi e é procurada pelos seres humanos desde
o início de sua existência, conforme se constata nos escritos de teólogos, poetas e filósofos gregos(MARÍAS, 1989, p.72).
Dentre os escritos filosóficos, as diversas interpretações das escolas socráticas entendiam, por definição quase comum, que a felicidade consiste em “viver segundo a natureza” ou “conforme a natureza”. A partir da escola socrática, Platão, apesar de não formular nada específico sobre a felicidade, apresenta versões divergentes e oscilantes acerca do assunto. No conjunto do seu pensamento, prevalece, em primeiro plano, a questão do éros, do amor, ligada finalmente à ideia do bem, que se revela como um grande gênio que não é deus, porém é superior aos homens (MARIAS, 1989, p. 84).
Segundo Marías (1989, p. 74), o filósofo grego que mais a fundo se propôs a estudar a felicidade - eudaimonía e makária, em grego - foi Aristóteles, que desde o início liga diretamente a ideia de felicidade em conexão com o bem, pertencente ao exercício da razão. Ele identifica a felicidade com a virtude, a sabedoria prática ou filosófica independente de estarem acompanhadas de prazer ou de prosperidade. .
Dando continuidade ao conceito de felicidade, herdamos do pensamento Romano, dois vocábulos em latim para a palavra felicidade, felicitas e beatitudo. Por não haver um sentido fixo e determinado, ocorrem conceitos linguísticos diferenciados, mas considerando palavras clássicas da língua falada e escrita, beatitudo significa no conjunto de acumulado dos bens e felicitas, no sentido da fecundidade, fertilidade e prosperidade(MARÍAS, 1989, p.96).
Nesse período do pensamento romano, Sêneca, na tentativa de ampliar os conceitos sobre “felicidade”, une natureza, razão e virtude (...), afirmando que “a vida feliz é a que é conforme a sua natureza (...); é feliz o que tem um juízo reto; é feliz o que está contente com as circunstâncias presentes, quaisquer que sejam elas, e é o amigo que tem(...) (MARÍAS, 1989, p.99).
Em uma época posterior a Sêneca, destaca Marías (1989, p. 101), acontece um momento em que não se crê muito em nada e, no sentido da aceitação das circunstâncias, surge o pensamento estóico: que eu sou dono, e decido se algo é bom ou mau, se devo dar-lhe importância ou não. Talvez uma concepção defensiva, diante da pressão que a realidade exercia sobre o homem daquele tempo.
O pensamento estóico mantém em quase todos os movimentos um ponto de vista próximo ao de Epicuro: trata-se de conseguir a conformidade racional com a ordem das coisas. Um dos elementos fundamentais dos estóicos é “suporta e renuncia”(sustine et abstine), pois há uma ordem natural das coisas, e é isso o que se tem de aceitar. Mas Sêneca questiona, se nisso consiste a felicidade. É mais do que duvidoso (MARÍAS, 1989, p.89)
Para Epicuro, afirma Marías (1989, p. 85), a felicidade é identificada com os prazeres (hedoné), duráveis, tranquilos e aprazíveis; em primeiro lugar, pela ausência de dor, e o bem mais importante na vida é a posse de amizade, a perda dos amigos causa dor e sofrimento, por isso evitar toda tomada de posição intensa ou ativa, que nos faça perder a calma e a serenidade, é fundamental para tranquilizar o homem em relação aos temores (aos deuses, à morte e também à vida): “O sábio não é o que sabe o que são as coisas, isto não é o primário, mas o que pode olhar tudo com mente tranquila; e nisso consiste fundamentalmente a felicidade” (MARÍAS, 1989, p. 89).
O período histórico que envolve o pensamento estóico e epicurista é marcado pela incredulidade, e o cristianismo aparece pedindo algo novo, mais concreto, imediato, referindo-se à vida de cada um através de parábolas, empregando uma mensagem mais acessível. Sua concepção de felicidade é a bem-aventurança3 como promessa cristã e o futuro como tempo-espaço de mudança. O sentido mais importante é o das felicidades ensinadas e prometidas por Cristo, mas também as que se podem alcançar nesta vida (MARÍAS, 1989, p.111).
3A palavra “bem-aventurança” deriva de “ventura”, usada em espanhol para nomear a felicidade,
Partindo do pensamento do cristianismo, Santo Agostinho considerou a felicidade como sabedoria, possessão do verdadeiro absoluto e possessão de Deus (...) e São Boaventura a definiu como conhecimento, amor e possessão a Deus (MONACI, 1995, p.37).
O ápice do nível da filosofia, segundo Marías, foi provavelmente o pensamento do século XVII. Neste período se encontra Descartes, que trata da questão da felicidade sob vários pontos de vista; sem pretensão de explicá-la, aponta alguns conceitos. Em cartas escritas às amigas, a princesa Isabel da Boêmia e a rainha Cristina da Suécia, trazem suas ideias e novos significados para “felicidade” com relação aos dizeres do texto latino de Sêneca, sobre beatitude, em um primeiro momento completa que a felicidade é um estado de ânimo, estar contente e satisfeito, independentemente do que aconteça, do que venha de fora. Dizem que “ser feliz” é questão das coisas exteriores, que nos ocorram ou que tenhamos, porém a beatitude consiste no contentamento e na satisfação do espírito. As coisas que dependem de nós são, para Descartes, a virtude e a sabedoria, e as que não dependem são as honrarias, as riquezas e a saúde. Salienta que é provável que uma pessoa com grande pretensão de felicidade se sinta menos feliz que outra de pretensão muito limitada, embora sua dose real de felicidade seja muito superior. No término de suas ideias sobre o bem supremo em Sêneca, diz: “Não há diferença entre a beatitude, o supremo bem e o fim último. A beatitude pressupõe o contentamento de possuir o supremo bem, identificando o estado de contente”(MARÍAS, 1989, p.120-127).
Na busca de maiores reflexões acerca da “felicidade”, apareceram alguns outros filósofos importantes neste período do século XVII, que contribuíram de alguma forma para a evolução do pensamento sobre a “felicidade”:
Leibniz (1646-1716) considera que
a felicidade está ligada ao amor, embora acompanhada de beatíficas visões ou conhecimentos de Deus, nunca pode ser plena, porque sendo Deus infinito não pode ser conhecido por inteiro, sendo assim
nossa felicidade não deve consistir em um gozo pleno, mas sim em um progresso contínuo e interminável. (...) Deus quer tornar os homens perfeitamente felizes, e para isso só deseja que o amem (apud, MARÍAS, 1989, p. 132).
Pascal contrapõe as ideias filosóficas anteriormente descritas, quando diz que a felicidade é algo impossível de se alcançar, porque
a futurição e o desejo excluem a felicidade. Como a natureza nos faz desgraçados em todos os estados, nossos desejos fantasiam um estado feliz, porque acrescentam ao estado em que estamos os prazeres do estado em que não estamos; e, quando chegássemos a esses prazeres, não por isso seríamos felizes, porque teríamos outros desejos conforme a este novo estado (apud MARÍAS, 1989 p. 126).
Spinoza situa a felicidade não como prêmio da virtude,
mas como a própria virtude; e não gozamos dela por reprimirmos os impulsos viciosos, mas ao contrário, gozamos dela por podermos reprimir os impulsos viciosos. A felicidade é a virtude (apud MARÍAS, 1989, p.128-129).
Por outro lado, Kant argumentou que a felicidade não poderia depender da razão, uma vez que esta se modifica de acordo com os sentimentos momentâneos, portanto não poderia fornecer um direito. Estabeleceu uma conexão entre a experiência subjetiva de felicidade e os postulados éticos, considerando que o atendimento das leis morais proporciona mais felicidade.
Para Kant a primeira preocupação do homem não deve ser como tornar-se feliz, mas sim, como tornar-se digno da felicidade (...). É de tal modo difuso o conceito de felicidade que, se bem que todos desejam alcançá-la, ninguém pode precisar, clara e definitivamente, o que realmente deseja e quer (...). Seria tola uma norma prescrevendo que todos devem procurar a felicidade, pois não se
ordena a ninguém aquilo que inevitavelmente já quer de sua própria vontade. Seria apenas necessário prescrever ou, melhor, proporcionar ao homem os meios para tal fim, já que ele não pode tudo o que quer. Prescrever, porém, a moral sob o nome do dever, é inteiramente razoável, pois nem todos querem obedecer de bom grado a essas prescrições, quando a elas se opõem as inclinações; quanto aos meios de seguir esta norma, mas não é necessário ensiná-los, pois neste sentido o homem pode o que quer (...). Felicidade contém tudo, mas também nada mais do que isto, que a natureza pode proporcionar-nos; virtude, contudo, contém aquilo que somente o homem pode dar ou tornar a si mesmo (MONACI, 1995, p.39).
Desenvolvendo a filosofia de Kant, o filósofo alemão G.W.F. Hegel, considerou que a felicidade é apenas um conceito universal que se manifesta através de instruções sociais. Contestou que a satisfação da felicidade estivesse localizada num mundo empírico, mais do que no domínio da razão (apud MONACI, 1995, p.41).
Fichte, filósofo idealista e também discípulo de Kant, descreve seu pensamento sobre a “felicidade”:
A vida é necessariamente feliz, pois é a felicidade (...) não pode ser outro modo, a vida é amor, e toda forma e força da vida consiste no amor e brota do amor. O amor é, além disso, contentamento consigo mesmo, alegria de si mesmo, gozo de si mesmo, e assim felicidade; e, portanto, é claro que vida, amor e felicidade são em absoluto uma e a mesma coisa(apud MARÍAS, 1989, p.134)
Sob um pensamento materialista, Thomas Hobbes (s/d) contrapunha-se ao idealismo, que visava ao desenvolvimento anímico e espiritual do ser, e definiu como felicidade o prazer da mente o contínuo prazer e o prosperar. Afirmou que, quanto
maior a riqueza, a honra e o poder, maior a apetite; por isso, aqueles que não os conseguiam, precisavam de diversão, recreio e jogos para seu contentamento. Reiterou ainda que (...) não existe a felicidade estática, excluindo as felicidades do céu, que ficam além de nossa compreensão (apud, MONACI, 1995, p.38).
Pensando na quantificação da felicidade, no final do século XVII, Locke, filósofo inglês, fala diretamente sobre a felicidade: “felicidade, em sua plena extensão, é o máximo de prazer de que somos capazes, e desgraça o máximo de dor”;e, no que tange ao aspecto qualitativo, acrescenta: “trata-se da felicidade de alguém, de uma pessoa singular” (apud MARÍAS, 1989, p.161-163).
Com grande insistência na ideia de felicidade, John Stuart Mil (1806-1873, apud MARÍAS, 1989, p.166-170) definiu que, para que haja felicidade, tem que haver uma combinação de tranqüilidade e excitação, pois cada um entende por felicidade algo próprio, e necessita de coisas diferentes para ser feliz. Quando perguntamos a alguém se é feliz, pode ser que responda que é feliz às vezes e infeliz em outras, e essa felicidade não necessariamente é constituída por bens. Parece que a felicidade depende do momento e do ato da pessoa, que tem a vontade de ser feliz e obter o bem-estar.
2.2 A felicidade em nosso tempo: possibilidade, em certa medida, de bem-estar
O homem do nosso tempo (séculos XX e XXI) é um ser estimulado a buscar e alcançar a felicidade, ao menos em parte, através dos avanços científicos, sociais e tecnológicos, que propiciam o aumento dos recursos para consegui-la. À primeira vista, favorece; porém, acompanha uma escassez da possibilidade efetiva de procurá-la. As criações de imensas riquezas aumentaram nos países e no mundo, através do poder econômico e político, aliado ao grande desenvolvimento técnico e industrial. Essas transformações proporcionam a obtenção de bens de consumo, bem como o trabalho excessivo para mantê-los. Resultaram disso altos índices de violência, divisão econômica dos países ricos e desemprego no mundo. Por fim, a
vida consistia em viver em dificuldades, e o homem se esforçando para superá-las diminuía cada vez mais as expectativas de obter a felicidade e projetar o futuro (MARÍAS, 1989, p.247-254).
Segundo Ferry (2007, p. 164-166), as ideias conforme acima citadas em resumo, poderiam ser definidas como um conjunto de valores expressos por deveres imperativos que fazem com que se perca o respeito pelo outro, suscitando um pensar mais reflexivo na interação com os valores éticos e morais, redefinindo outras ideias e ideais em nossa sociedade, que prega direitos e deveres iguais para todos, porém não há uma fórmula certa que seja possível atender a todos de maneira pacífica. Haverá sempre uma incongruência entre o querer e o poder efetivo de todos conseguirem, ao mesmo tempo, estes dois bens fundamentais que são a liberdade e a felicidade.
Esse conceito de liberdade é fortemente caracterizado pelo pensamento das correntes filosóficas contemporâneas, que levaram à formulação do capitalismo e do pragmatismo, acompanhado por aspectos sociopolíticos resultantes de acúmulos de bens e satisfações, através de seu falso “poder” científico e tecnológico, anulando o indivíduo que compõe a sociedade. Segundo Ferry (2007, p.120), algo de errado aconteceu, houve alguma falta de controle, nada mais se ajusta, nem o mundo consigo mesmo, nem a harmonia do cosmos, nem os humanos com o mundo numa visão moral natural. Criou-se uma nova teoria do conhecimento: uma ordem do mundo que não é mais dada, e sim construída.
Nesta percepção, John Done (1611, apud FERRY, 2007, p. 119) afirma: A nova filosofia torna tudo incerto. O elemento do fogo está completamente extinto. O sol se perdeu, e a terra; e ninguém hoje pode mais dizer onde encontrá-la [...]. Tudo está em pedaços, toda coerência desaparecida. Nenhuma relação justa, nada se ajusta mais.
No mundo moderno, como nos tempos passados, é necessário inventar e/ou reinventar, sempre que precisamos ocupar o lugar com novos saberes. Ferry (2007, p.167-170) salienta que é preciso desconstruir as certezas através das constatações da fragilidade e da finitude humana, para propiciar novos saberes na construção da estruturação emocional do ser humano, para enfrentar possíveis conflitos advindos do problema, que parece ser ainda maior quando se quer caminhar sem cosmos e sem Deus.
Analisando os elementos que poderiam tornar possíveis a felicidade e o bem-estar e desviando-nos do que a sociedade nos impõe, uma vez que os tempos podem ser outros, o filósofo Bertrand Russell (2004, p. 120), também matemático, menciona dois tipos de felicidade: normal ou fantasista/animal ou espiritual/ do coração ou da cabeça. Esses dois tipos de felicidade, na concepção do autor, mostram que um deles é possível ao alcance de qualquer ser humano e que o outro só pode ser atingido por aqueles que sabem ler.
Os prazeres da realização apresentam dificuldades de que o êxito parece, de antemão, duvidoso, embora, em geral, seja no fim conseguido (...). O homem que subestima suas possibilidades é constantemente surpreendido pelo êxito, enquanto que o homem que tem de si uma opinião excessivamente elevada é surpreendido, com idêntica frequência, pelo fracasso (RUSSELL, 2004, p. 121-123-).
Russell (2004, p.124-127) acredita que é possível encontrar felicidade no casamento, na leitura de um livro, nas atividades de jardinagem, nas artes e/ou atividades diversas; algumas requerem energia física, outras exigem energia psíquica e intelectual. O que difere são as energias vitais a serem empregadas para a realização de tal atividade. Porém, essas energias vitais também produzem obstáculos, sendo possível encontrar situações infelizes, mas tais circunstâncias fazem com que se perceba a importância da atividade e o prazer em desenvolver
uma habilidade especializada, fato este que em geral reverte o quadro e torna as pessoas mais felizes.
Diante disso, Russell (2004) afirma que na felicidade não há espaço para os sentimentos de medo, inveja, piedade, culpa e admiração por si; porque esses sentimentos aprisionam o homem e o levam a acreditar que o mundo o abandonará; tais sentimentos o levarão ao egoísmo e ao tédio, porém o exercício da razão e da coragem é meio para a remoção desses sentimentos.
Recomenda ainda:
Aprenda a sentir que a vida ainda seria digna de ser vivida mesmo que você não fosse como certamente é infinitamente superior, em virtude e em inteligência, a todos os seus amigos. (...). O homem feliz é (...) o homem cuja personalidade não está nem dividida contra si mesmo, nem voltada contra o mundo. Tal homem se sente cidadão do universo, desfrutando livremente do espetáculo que o mundo oferece e das alegrias que este proporciona, indiferente à ideia da morte, pois que não se sente, realmente, separado daqueles que virão dele. É nessa união profunda e instintiva com o fluxo da vida que se pode encontrar a maior alegria (RUSSELL, 2004, p. 207- 210).
Por fim, dentre outros pensadores que poderiam ser citados, destacamos as ideias de Freud (1930, apud MONACI, 1995, p.41), embora seu campo de estudos fosse outro - a estrutura do pensamento humano-, sua teoria desenvolveu novas formas de raciocínio. Em um dos trechos escritos em “O mal-estar das civilizações”, afirma que não existe a felicidade plena, apenas a vivência de momentos de satisfação. Explica que a vida é regida pelo princípio do prazer e o princípio da realidade, mas que interagem e conflitam. O princípio do prazer age como instinto de vida, estimulando a interação social, coletiva, do indivíduo, mesmo que a satisfação seja subjetiva e individual. O princípio da realidade age como instinto de morte, de forma ameaçadora, individualista e agressiva. Portanto, vivera civilização exige sacrifícios, evidencia as dificuldades do desenvolvimento cultural como sendo
inerente ao desenvolvimento do ser humano, por isso cabe ao homem a responsabilidade por suas escolhas e respostas do seu ser na busca da felicidade e do fim do sentimento de culpa. Para Freud, a felicidade é um problema individual. Por isso, aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz(apud MONACI, 1995, p. 42).
2.3 Sociedade, Educação e Trabalho docente: relação paradoxal
Miguel Arroyo (2000, p.18), ao descrever a história da educação, salienta as interfaces da profissão docente face às diversas e muitas transformações pelas quais o processo educativo passou em função de ideais políticos e sócio educativos. O resultado desse processo deixou marcas na prática educativa e nos educadores, pois a historicidade da educação intercala com a história individual e coletiva que o espaço escolar proporciona; esse conviver de gerações e o saber conviver neste processo de socialização repercute na educação das novas gerações.
Em acordo com as ideias acima citadas, Mário Osório Marques afirma que:
a cultura identifica os grupos humanos inter-relacionados no espaço e encadeados no suceder de gerações. Significa não apenas um mundo concretamente pensado, penetrado de sentido pela ação humana e convertido em valor, também uma dimensão de processos sociais, de relações de poder associados a relações de significados, inserida e parte ativa de toda dinâmica social, significativa das diferenças dos modos de vida(1995, p.126)
O modo de vida de hoje incorpora as marcas apreendidas nos diálogos de muitas gerações e interesses políticos, tentando assumir um caráter biopsicossocial, ou seja, a reprodução de saberes apreendidos, adquiridos, além de incorporar as pressões que o processo de industrialização e eletrônico impõe.
Ao perceber esse conceito biopsicossocial, Arroyo (2000, p.19), com o olhar centrado na história da divisão do trabalho docente, escreve que, apesar das
políticas, das normas e dos regimes centrados na produtividade, da incorporação dos especialistas, entre os que decidem, os que pensam e os que fazem, houve uma cultura resistente por parte da classe do professorado. Os traços mais definidos de toda ação educativa, incorporados pelo contexto socioeconômico e político, resistiram e perduraram, acentuando que a relação educativa que se dá na sala de aula e no convívio entre educadores(as) e educandos(as) traz as marcas desta ação pedagógica.
Toda ação do processo escolar está imbuída da participação direta das comunidades e das famílias. Essa participação constitui uma oportunidade de proporcionar aos educandos(as) e educadores(as) as proximidades dos saberes sociais, o convívio social permeado por centros de lutas e anseios populares em busca dos direitos sociais, saúde, moradia e educação. O ambiente escolar reflete as ideias e os ideais da sociedade local globalizada; porém, no que diz respeito ao trabalho docente, seus direitos e investimentos são mais lentos (ARROYO, 2000, p. 22).
Antonio Nóvoa (et al 2001, p.19)4reconhece a existência desses conflitos com relação ao trabalho docente e salienta que é um percurso repleto de lutas, de hesitações e de recuos, um campo ocupado pelo Estado, pela Igreja, pela família, etc., que sentem na consolidação do corpo docente uma ameaça aos seus interesses. Mesmo com o passar dos anos, a história retrata que a profissão docente continua seguindo processos contraditórios em diferentes perspectivas, assumindo e assinalando a desprofissionalização a que os professores têm estado sujeitos nas últimas décadas(Norte/Sul, progressistas/conservadores, nacionalistas/internacionalistas, católicos/laicos, etc.).
4
Na história da educação, foi e é possível identificar momentos bem distintos que evidenciam a desprofissionalização docente: durante o Estado Novo, uma política de desvalorização do professorado; no pós-25 de abril, a prevalência das dimensões ideológicas sobre os critérios profissionais; em 1986, a reforma que acentua o fosso que separa os “actores (Estado, Igreja, famílias, etc.) e os decisores”, no que se refere às incertezas das finalidades e missões da escola pela política pública e a afirmação e consolidação de especialistas pedagógicos, que tenderam a ocupar margens de competência dos professores nos anos oitenta (NÓVOA et al, 2001, p.21).
É certo que a importância dos professores e do seu trabalho nunca esteve em causa, mas os olhares viraram-se para outros problemas e preocupações: nos anos 70, foi o tempo da racionalização do ensino, da pedagogia por objetivos, do esforço para prever, planificar, controlar; depois, nos anos 80, assistimos a grandes reformas educativas, centradas na estrutura dos sistemas escolares e, muito particularmente, na engenharia do currículo; nos anos 90, dedicou-se uma atenção especial às organizações escolares, ao seu funcionamento, administração e gestão. Entretanto, no início deste século XXI, começa a notar-se a necessidade de "dar uma nova centralidade à profissão docente”(NÓVOA et al, 2001, p.22).
Apesar da historicidade do processo de ensino apontar diversas e diferentes transformações através de grandes pressões demográficas e sociais, a profissão docente não sofreu mudanças estruturais tão significativas como as de outras profissões. É uma profissão acompanhada de confiança e desconfiança com relação às suas competências e à qualidade de trabalho, alimentada por círculos intelectuais e políticos que dispõem de um poder importante de simbolizar as culturas de informações. Essas simbolizações refletem o resultado da inter-relação entre: educando/educadores, Estado/sistema de ensino e família/sociedade, resultando destes a qualidade de ensino (NÓVOA et al, 2001,p.23).
As simbolizações dos valores que sustentam a produção da profissão docente caíram em função da evolução social e da transformação dos sistemas educativos. Por isso, se faz necessário que seus grandes ideais e valores sejam renovados e que não reneguem as reminiscências mais positivas do idealismo escolar, mas permitam atribuir significados na ação presente, para que os docentes voltem a sentir-se bem na sua identidade de professor (NÓVOA et al, 2001, p.29).
Esse paradoxo explica a existência de conflitos entre a visão idealizadora e a realidade do ensino na atualidade, sustentada pela exigência de mudanças bruscas e repentinas, revelando a necessidade de importantes investimentos na educação, bem como a constatação de projetos de autonomia profissional exigente e responsável, que recria a profissão professor. Trata-se de um novo ciclo na