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O exame da efetividade no incidente de resolução das demandas repetitivas no novo Código de Processo Civil

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

RICARDO HEISSLER MALLMANN

O EXAME DA EFETIVIDADE NO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DAS DEMANDAS REPETITIVAS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Três Passos (RS) 2017

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RICARDO HEISSLER MALLMANN

O EXAME DA EFETIVIDADE NO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DAS DEMANDAS REPETITIVAS NO

NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia.

UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul DECJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.

Orientador: Msc. Antônio Augusto Marchionatti Avancini

Três Passos (RS) 2017

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Dedico este trabalho a minha família, aos meus amigos, aos meus professores e ao meu orientador, pelo incentivo, apoio e confiança em mim depositados durante toda a minha jornada.

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AGRADECIMENTOS

A Deus, primeiramente, por ter me dado saúde para seguir em frente e poder lutar pelos meus sonhos.

Dedico à minha família, em especial ao meu pai, Erni Mallmann e à minha mãe, Noeli Heissler Mallmann, que sempre me apoiaram e incentivaram nessa caminhada, como também ao meu irmão, Felipe Heissler Mallmann, que sempre se fizeram presentes e me incentivaram com apoio e confiança nas batalhas da vida, me dando forças para não desistir, e me mostraram que vale a pena cada esforço e tempo utilizado nesse momento de aprendizado e formação.

Ao meu orientador Antônio Augusto Marchionatti Avancini, a qual eu tive o privilégio de contar com seus ensinamentos, dedicação e disponibilidade, foi de suma importância a sua ajuda e paciência no decorrer desse trabalho.

A todos meus amigos por entenderem que em determinados momentos tive que me ausentar, para que assim, pudesse realizar esse trabalho.

Enfim, dedico a todos que de alguma forma ou outra me apoiaram incondicionalmente, fazendo com que este caminho se tornasse possível e mais fácil.

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“O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis.” Platão.

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RESUMO

Neste trabalho iremos discorrer acerca do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, que é uma maneira de tornar semelhantes as jurisprudências que darão formato aos novos precedentes judiciais. Pretende-se com o presente trabalho demonstrar algumas mudanças que vem ocorrendo na sociedade com a modernização, as quais são responsáveis pela massificação de conflitos. Diante dessa situação, é demostrado a ineficiência do modelo atual de processo em virtude da evolução da sociedade. Evidencia-se assim que as demandas individuais e coletivas são ineficazes para solucionar as demandas de massa, sendo esse, um dos principais fatores da morosidade da Justiça. Iniciamos com a revisão bibliográfica dentro da doutrina do direito processual civil e da Carta Magna. Esse novo modelo instituído pelo atual Código de Processo Civil, se mostrou eficiente, porém ainda não está consolidado o entendimento de sua real eficiência, buscada pelos juristas ao compor essa nova visão de uniformização de justiça.

Palavras-Chave: Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Massificação de Conflitos. Uniformização da Jurisprudência. Precedentes Judiciais. Efetividade. Novo Código de Processo Civil.

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ABSTRACT

In this paper we will discuss the Incident of Resolution of Repetitive Claims, which is a way of making similar jurisprudence that will shape the new judicial precedents. The present work intends to demonstrate some changes that have been taking place in society with modernization, which are responsible for the massification of conflicts. Faced with this situation, the inefficiency of the current process model is demonstrated by the evolution of society. Thus individual and collective demands are ineffective in solving mass demands, and this is one of the main factors in the slowness of justice. We begin with the bibliographical revision within the doctrine of civil procedural law and the Magna Carta. This new model, established by the current Code of Civil Procedure, proved to be efficient, but the understanding of its real efficiency, sought by the jurists in composing this new vision of standardization of justice, has not yet been consolidated.

Keywords: Repetitive Demands Resolution Incident. Massification of Conflicts. Uniformization of Jurisprudence. Judicial precedents. Effectiveness. New Code of Civil Procedure.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

1 AÇÕES REPETITIVAS E O ADEQUADO JULGAMENTO DE DEMANDAS ... 11

1.1A massificação dos conflitos ... 12

1.2Da tutela do coletivo e individual ... 15

1.3Conflitos coletivos e individuais: do processo coletivo ao julgamento de casos repetitivos ... 21

2 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL ... 24

2.1Conceito e caracteristicas da IRDR. ... 24

2.2Quanto ao cabimento, divulgação e procedimento do incidente ... 26

2.3Da legitimidade das partes ... 29

2.4Desistência ou abandono do processo ... 30

3 O EXAME DA EFETIVIDADE DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS FRENTE AOS CONFLITOS DE MASSA ... 32

3.1 Da valorização e uniformização da jurisprudência. ... 32

3.1.1 O precedente no Código de Processo Civil ... 35

3.2 A fixação de teses nos IRDRS e sua efetividade frente as demandas de massa ... 38

CONCLUSÃO ... 41

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta um estudo sobre a efetividade do Incidente de Resolução das Demandas Repetitivas no Novo Código de Processo Civil. Interessa analisar em especial a efetividade deste incidente com o intuito de tentar demonstrar o seu resultado nos tribunais brasileiros diante de um código tão novo, que tem como objetivo a uniformização desses entendimentos a fim de possibilitar uma maior agilidade nos julgamentos das demandas repetitivas.

A instauração deste novo instrumento judicial tem gerado vários questionamentos na comunidade jurídica. As considerações em relação ao incidente de resolução de demandas repetitivas cada vez estão ficando mais concretas.

O debate gira em torno de sua instauração, pois o legislador não deixa claro quantas causas com a mesma questão de direito precisam ser ajuizadas para instaurar o IRDR. Logo, os tribunais deverão se adequar a esse novo incidente, pois caberá à segunda instância definir a questão de direito que envolve os casos.

Assim, o presente estudo pretende verificar se o incidente de resolução de demandas repetitivas trará realmente uma maior efetividade ao julgar demandas em prol da coletividade, além de entendimentos dos tribunais e doutrinadores interessados na temática.

Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, analisando também as leis vigentes, a fim de enriquecer a coleta de informações e permitir um aprofundamento no presente estudo.

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10 No primeiro capítulo, buscou-se demonstrar a massificação dos conflitos ao longo do tempo, evidenciando assim, as possíveis causas que levaram a falência do sistema processual civil, no que diz respeito ao tratamento de litígios em massa, diante da ineficiência da prestação individual da tutela jurisdicional. Contudo, restou demostrado importantíssimas evoluções do sistema processual brasileiro como, por exemplo, a criação do incidente de resolução de demandas repetitivas, que vem com a função de tentar suprir as lacunas deixadas pelas ações coletivas quando à propositura e julgamento das ações repetitivas.

No segundo capítulo, buscou-se apresentar, de forma sucinta, o desenrolar da instauração do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, conhecido também como “IRDR”, cujo objetivo principal é a unificação de decisões sobre questão unicamente de direito, no âmbito de um mesmo tribunal, estendendo-se os seus efeitos a todo o território nacional. Ainda nesse capitulo, promove-se o estudo dos principais aspectos quanto a elucidação do seu procedimento de instauração, comentando alguns artigos que norteiam o tema.

Por fim, a última parte deste trabalho propõe-se a analisar alguns mecanismos do atual Código de Processo Civil que abordam sobre as causas repetitivas de maneira isonômica, além de demonstrar a importância da uniformização e consolidação da jurisprudência, evitando assim decisões divergentes que tiram a credibilidade do Poder Judiciário perante a sociedade. Demonstra-se ainda, a análise dos precedentes, bem como, a sua formação, efetividade e vinculação nas decisões proferidas no julgamento do incidente de resolução de demandas repetitivas.

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1 AÇÕES REPETITIVAS E O ADEQUADO JULGAMENTO DE DEMANDAS

A grande demanda de processos verificada nos últimos anos tem gerado bastante turbulência no Poder Judiciário, a ponto de se cogitar a geração de um novo Código de Processo Civil que se adequasse à atual situação judiciária brasileira. Em 2015, mais exatamente no dia 16 de março de 2015, passou a vigorar o Novo Código de Processo Civil, regido pela Lei N.º 13.105/2015.

Dentre suas principais mudanças se destacou a criação do incidente de resolução de demandas repetitivas, que tem como objetivo a “[...] unificação de decisões sobre questões unicamente de direito, no âmbito do mesmo tribunal e, eventualmente, estendendo-se os efeitos dessa unificação a todo o território nacional.” (BRASÍLIO. Ana Tereza. MELO. Daniela Muni Bezerra de. CONSULTOR JURÍDICO. Irdr potencializa resultado de julgamentos de processos repetitivos).

As demandas repetitivas, conforme define Alexandre Freitas Câmara, são “aquelas demandas idênticas, seriais, que, em grandes quantidades, são propostas

perante o Judiciário. Diz-se que elas são idênticas por terem objeto e causa de pedir idênticas, ainda que as partes sejam diferentes.” (CÂMARA, 2015, p. 477).

O judiciário brasileiro encontra-se extremamente sobrecarregado de demandas idênticas, as quais, como mencionado acima, são uma das principais responsáveis pela lentidão da entrega da tutela jurisdicional. Em decorrência disso, resultou uma massificação de litígios, como no caso das relações de consumo, pois as grandes empresas, diante da necessidade do mercado, passaram a produzir em massa, o que resultou em uma perda de qualidade de seus produtos e em contrapartida, os consumidores diante da lesividade aos seus direitos, passaram a ajuizar ações perante o Poder Judiciário.

Desta forma, se observa a grande quantidade de litígios dispersos em nosso Poder Judiciário, para os quais o legislador tentou enquadrar no Art. 976 no CPC, delimitando a instauração do incidente nos casos cabíveis do referido artigo.

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12 1.1 A massificação dos conflitos

Em face da modernização das relações processuais das demandas, a sociedade está passando por uma série transformações até então nunca vivenciadas. O código de processo civil foi marcado pelo viés individualista e liberal, com vistas a considerar uma única ação.

Segundo Guilherme Rizzo Amaral, (2011, p. 246) a sociedade contemporânea trouxe a reboque a massificação de conflitos de interesses e gerou, historicamente, uma preocupação do direito e do processo com adaptação da técnica processual [...]. Essas intensas mudanças econômicas e sociais ocorridas nos últimos anos não foram comportadas pela estrutura do Código de Processo Civil de 1973, sendo que de fato inúmeras situações evidenciadas no mundo moderno não foram apreciadas pelo Judiciário.

Segundo Leonardo José Carneiro da Cunha (2010, p. 141):

Com efeito, a atividade econômica moderna, corolário do desenvolvimento do sistema de produção e distribuição em série de bens, conduziu à insuficiência do Judiciário para atender ao crescente número de feitos que, no mais das vezes, repetem situações pessoais idênticas, acarretando a tramitação paralela de significativo número de ações coincidentes em seu objeto e na razão de seu ajuizamento.

Desta forma, a estrutura processual se mostrou insuficiente diante da realidade do povo brasileiro. A atividade econômica moderna tem como base de seu sistema, a produção de bens e prestação de serviços em massa, cujo resultado do aumento da população e das relações jurídicas desencadearam uma severa crise do Poder Judiciário, diante da impossibilidade de lidar de forma célere com os conflitos existentes.

Alguns outros fatores combinados acabam contribuindo de forma importante para a massificação de litígios. Referimo-nos ao aumento descontrolado do número de Faculdades de Direito em todo o país, associado ao assistencialismo da Justiça Gratuita e à quase inimputabilidade dos litigantes contumazes e de má-fé. Com o mercado da advocacia saturado, verifica-se o oportunismo de determinados profissionais, que assediam clientes – na mídia inclusive – propondo soluções milagrosas para salvá-los de toda e qualquer dificuldade, mesmo que esta se consubstancie no estrito cumprimento dos compromissos livremente pactuados. O Judiciário não é rigoroso na análise da concessão da Justiça Gratuita – tornando o processo um negócio sem risco para o autor da ação –, e ainda não reage de forma vigorosa para punir a litigância de má-fé e aventureira. Já os órgãos de classe não punem com rigor a publicidade dos serviços de advocacia que incita ao litígio. (AMARAL, 2011, p, 249).

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A ampla massificação da economia foi uma das responsáveis pela mudança na quantidade e qualidade de litígios no Brasil. Neste cenário, diante da tentativa de se conter as pilhas de processos que sobrecarregam as Cortes Judiciais, criou-se uma cultura de supervalorização de forma, na tentativa de fulminar as pretensões em decorrência de erros formais.

Grave deformidade causada pela massificação dos litígios é, ainda, a supervalorização da forma como um meio de reduzir as pilhas de autos que se acumulam nos tribunais. Enrijecem-se os requisitos de admissibilidade recursal: um carimbo ilegível, uma folha faltante na formação de um agravo de instrumento, a interposição do recurso antes da publicação da decisão recorrida, são causas suficientes para fulminar pretensões muitas vezes legítimas. A solução é falha, pois, em vez de reduzir a quantidade dos recursos, acaba-se atingindo apenas a sua qualidade. Saem de cena os recursos que discutem o mérito, entram em cena, praticamente em igual número, recursos para discutir problemas de forma. Perde-se tempo com questões inúteis e não com os reais problemas dos cidadãos. Abandona-se o princípio da simplicidade e do aproveitamento dos atos processuais. Atinge-se, ao fim e ao cabo, a capacidade do Judiciário em alcançara tutela específica ao jurisdicionado, elemento fundamental e integrante do valor efetividade. (CUNHA,2010, p. 205-251).

A segurança jurídica segundo AMARAL (2011, p. 251) também é alvo da massificação de litígios, cuja finalidade é tornar os juízes máquinas, muitas vezes ficam incapacitados de fazer reflexões necessárias para solucionar adequadamente cada caso, ou seja, alerta que nos julgamentos de massa, se observa a pior consequência para a segurança jurídica:

[...] a ausência de um julgamento concentrado das causas torna absolutamente imprevisível a sua solução. Cada juiz, uma sentença. Com isso, demandantes e demandados voltam a sua atenção e as suas súplicas para Brasília, cada um por si, porém num “comportamento de manada”, esperando que no dia e no órgão jurisdicional em que o seu recurso for julgado sejam eles premiados pela sorte. (AMARAL, 2011, p. 251-252).

Ressalta, ainda, que [...] “o direito processual coletivo brasileiro não enfrentou de forma corajosa e incisiva o problema, o que resultou em tratamento de todo antieconômico, ilógico e irracional para o processo coletivo e sua relação com as demandas individuais.”(AMARAL, 2011, p.253).

Para CUNHA (2011, p. 258) “as ações coletivas são insuficientes para resolver, com eficiência e de maneira definitiva, as questões de massa, contribuindo para a existência de inúmeras demandas repetitivas, a provocar um acúmulo injustificável de causas perante o Judiciário.”

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14 Desta forma, fica evidente que o sistema processual tradicional e a tutela coletiva não eram suficientes para dar uma solução eficaz às demandas repetitivas conforme discorre CUNHA (2011, p. 143-144):

A dogmática tradicional quanto à atividade processual não se revela suficiente para dar solução rápida a essas demandas repetitivas. Numa sociedade em que se exige celeridade processual, a ponto de constituir princípio constitucional o da duração razoável dos processos (art. 5º, LXXVIII, da CF/1988), é preciso que as demandas de massa tenham “soluções de massa”, ou seja, recebam uma solução uniforme, garantindo-se, inclusive, o princípio da isonomia. Realmente, decorre do princípio da isonomia a necessidade de se conferir tratamento idêntico a quem se encontra em idêntica situação.

Logo, observou-se que as demandas em massa deveriam ser tratadas em um âmbito geral, onde uma solução uniforme poderia servir para mais de um caso, conferindo assim um tratamento equânime e igual aos litígios que se encontram em idêntica situação, conforme dispõe CUNHA (2010, p.144).

Daí resultar ser imperioso envidar ingentes esforços no sentido de eliminar as divergências jurisprudenciais, pois não se deve admitir que alguém na mesma situação de outrem, tenha solução judicial diferenciada da que lhe fora conferida. Repugna ao senso comum deparar-se com situações como essa, em que determinado sujeito não logra êxito em sua demanda judicial, quando outra pessoa, na mesma condição, teve seu pleito atendido, ainda mais quando se trata de demandas de massa, em que a situação dos interessados revela-se absolutamente idêntica.

Não resta mais dúvidas que precisam ocorrer mudanças no ordenamento jurídico brasileiro, e uma das soluções implementadas pelo novo código de processo civil foi a valorização e a estabilização da jurisprudência, diante da necessidade de obter uma maior efetividade processual, com a finalidade de assegurar a isonomia e segurança jurídica, sobretudo, nos casos de demandas repetitivas.

Portanto, fica claro que em um primeiro momento, ocorreu a massificação das relações sociais e, consequentemente, das demandas do Judiciário, cujo resultado conduz a coletivização das demandas. Deste modo, tratar-se-á no próximo item sobre a tutela do direito coletivo e individual.

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1.2 Da tutela do coletivo e individual

O Brasil foi um dos pioneiros na implementação e criação de uma legislação a qual regula-se a defesa dos direitos coletivos dos indivíduos, passando assim, a se aperfeiçoar nos instrumentos de tutela dos interesses coletivos, destacando-se no presente momento com possuidor de uma das mais modernas legislações sobre o tema em comento.

Diante da nova redação do então vigente Código de Processo Civil, é de se observar que a disciplina que regula o Direito Processual Coletivo foi drasticamente afetada pelas mudanças trazidas pelo novo CPC, depois do Direito Processual Civil Individual. ALMEIDA, (2003, p. 28) defende a ideia de que existe um direito processual civil designado à tutela dos direitos individuais e outro destinado à tutela dos direitos metaindividuais, sendo que, a maioria dos estudiosos do processo coletivo defende a ideia de que a legislação processual apontada para a solução de demandas individuais não garante integralmente à tutela dos direitos supraindividuais.

De acordo com Luis Filipe Marques Porto Sá Pinto (2010, p.121):

A origem dos processos coletivos é remota e não poderia ser traduzida em um simples fato concreto, mas pelo gradual aparecimento de demandas que tratavam de questões que excediam o âmbito do patrimônio jurídico individual dos demandantes, atualmente denominadas de ações “pseudoindividuais” pela doutrina.

Diante da nova realidade conflituosa, SILVA (2014, p.14) destaca que “sentiu-se, no âmbito do processo civil, a imperiosa necessidade de adaptar-se às novas concepções que valorizavam o social e revelavam a existência de direitos coletivos, difusos e individuais homogêneos até então nem sequer pensados pelo direito processual.”

Do mesmo modo, SILVA (2015, p. 15) ressalta a ineficiência do modelo de processo em virtude da evolução da sociedade, cuja solução mais aceitável para o presente momento, é o tratamento das demandas em dimensão coletiva.

[...] o modelo de processo então existente revelou-se esgotado e insuficiente para atender às exigências impostas pelos novos tempos e pelas necessidades de uma sociedade em transformação, marcada por relações cada vez mais impessoais e coletivizadas. Em virtude dos conflitos ocasionados pelo novo tipo de sociedade que ora se apresentava, iniciaram-se diversas modificações no sistema processual

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civil até então em vigor, de modo a enfatizar a solução dos litígios em sua dimensão coletiva. De início, foi introduzida ao sistema a lei disciplinadora das ações populares (Lei n. 4.717/1965), a qual foi sucedida pela lei das ações civis públicas (Lei n. 7.347/1985). Ademais, a Constituição Federal de 1988 inovou na criação do mandado de segurança coletivo, previsto no art. 5º, LXX. Em momento posterior, foram editados diplomas normativos que proveram sobre a tutela de interesses transindividuais de pessoas portadoras de deficiências (Lei n. 8.069/1990) (sic), de consumidores (Lei n. 8.078/1990), da probidade na administração pública (Lei n. 8.429/1992), da ordem econômica (Lei n. 8.884/1994) e dos interesses das pessoas idosas (Lei n. 10.741/2003). Além desses instrumentos para a tutela de direitos transindividuais, criaramse mecanismos para a tutela coletiva de direitos subjetivos individuais. Nesse tocante, o Código de Proteção e Defesa do Consumidor – CDC (Lei n. 8.078/1990) trouxe como contribuição expressiva a disciplina da tutela, nas relações de consumo, dos “direitos individuais homogêneos”, além da conceituação dos direitos que não possuem como titular um indivíduo concretamente identificado – os direitos “difusos” e “coletivos”

Portanto, evidenciaram-se importantíssimas evoluções no sistema processual civil brasileiro, conforme demostrado por Teori Albino Zavascki (2014, p. 22):

O certo é que o subsistema do processo coletivo tem, inegavelmente, um lugar nitidamente destacado no processo civil brasileiro. Trata-se de subsistema com objetivos próprios (a tutela dos direitos coletivos e a tutela coletiva dos direitos), que são alcançados à base de instrumentos próprios (ações civis públicas, ações civis coletivas, ações de controle de constitucionalidade, em suas várias modalidades), fundados em princípios e regras próprios, o que confere ao processo coletivo uma identidade bem definida no cenário processual.

Maria Gonçalves Gallotti Ramos da Silva (2015, p. 16) destaca que microssistemas de tutela coletiva e seus mecanismos são de suma importância ao sistema processual, uma vez que demonstram ser alternativas pertinentes ao aperfeiçoamento da prestação individual da tutela jurisdicional.

Observa-se, atualmente, que a estrutura processual do Código de Processo Civil encontra-se ainda fortemente vinculada e voltada à defesa dos interesses individuais, servindo como base legislativa para a defesa da tutela dos direitos coletivos.

Contudo, diante das disparidades existentes na legislação, gerou-se um verdadeiro subsistema processual coletivo adaptando o processo civil as mais diversas situações com a finalidade de atender a doutrina de processo coletivo.

BARTILOTTI destaca que (2012. p. 160):

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aliado ao individualismo exacerbado; na igualdade formal e na fisionomia prioritariamente patrimonialista das demandas processuais, é inapropriado para a resolução célere e satisfatória de milhares de lides com teses jurídicas idênticas, na qual o resultado de uma delas ecoa excessivamente nas demais, podendo provocar, inclusive, soluções jurídicas das mais diversas, lesando os princípios da isonomia e da segurança jurídica.

Deste modo, evidencia-se que o sistema de demandas individuais não é eficaz para solucionar as demandas de massa, pois cada uma é verificada separadamente, inviabilizando assim uma atuação satisfatória do Poder Judiciário, sendo um os fatores principais da morosidade da Justiça.

Quanto ao sistema processual coletivo, CAMELO (2015, p. 28) demostra que o mesmo:

foi concebido para desestimular o ajuizamento de demandas individuais à Justiça, até mesmo em razão de a tutela judicial pretendida ser molecular, objetivando justamente contrapor-se à atomização do conflito em múltiplas demandas, levando sempre em consideração o acesso à justiça que merece atualmente uma releitura, não podendo mais ser analisado com uma busca exacerbada à litigância desmedida, uma vez que o excessivo número de ações individuais desfigura a utilidade do processo coletivo.

Já MENDES (2012, p. 220) define os direitos individuais homogêneos da seguinte forma:

A falta da indivisibilidade é a principal característica dos interesses individuais homogêneos. Sendo possível o fracionamento, não haverá, a priori, tratamento unitário obrigatório, sendo factível a adoção de soluções diferenciadas para os interessados. Os interesses ou direitos são, portanto, essencialmente individuais e apenas acidentalmente coletivos. Para serem qualificados como homogêneos, precisam envolver uma pluralidade de pessoas e decorrer de origem comum, situação essa que não significa, necessariamente, uma unidade factual e temporal. As vítimas de uma publicidade enganosa veiculada por vários órgãos de imprensa e em repetidos dias ou de um produto nocivo à saúde adquiridos por vários consumidores num largo espaço de tempo e em várias regiões têm, como causa de seus danos, fatos com homogeneidade tal que os tornam a “origem comum” de todos eles.

Para Murilo Martins Camelo, (2015, p. 28-29) o Brasil sofre fortemente em decorrência da ausência de uma cultura associativa, especialmente quando nos referimos a legitimidade extraordinária. Evidentemente que a maioria das demandas coletivas em função da inobservância da não coletividade, são ajuizadas pelo Ministério Público (MP) e pela Defensoria Pública (DP). Os dois acumulam diversas atribuições perante o judiciário e em consequência disso, acabam por abarcar em um número

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18 significativo de atuações, fato este que compromete o funcionamento de tais órgãos, na proteção desses direitos, cercados por ações repetitivas, abarrotando assim o Poder Judiciário.

Observa-se, que o nosso poder judiciário não possui a cultura associativa, ou seja, o cidadão acaba por optar pela tutela individual para resguardo de seus direitos, quando que a solução almejada poderia ser solucionada em uma ação de natureza coletiva.

Em relação à eficácia subjetiva da sentença de natureza coletiva, observa-se que a eficácia da sentença está atrelada ao resultado benéfico ou não aos interesses coletivos, conforme relata MENDES (2012, p. 264-264):

A vinculação aos efeitos deriva, igualmente, da legitimação extraordinária, tendo em vista que os interesses alheios estão sendo defendidos por outra pessoa mediante autorização da lei. É consequência natural, portanto, que os titulares dos direitos invocados no processo sejam atingidos. Leia-se “interessados” ou “titulares dos direitos alheios defendidos” onde se encontra escrita a palavra “vítimas”, no inciso III do art. 103. A extensão dos efeitos foi regulada, em parte, secundum eventum litis, ou seja, dependendo do resultado do julgamento. No caso de o pedido ser julgado procedente, haverá sempre a ampliação subjetiva da eficácia. Mas, do contrário, quando a pretensão for negada, o tratamento será diverso, conforme estejam em jogo interesses essencialmente coletivos (interesses difusos ou coletivos em sentido estrito) ou individuais homogêneos. Em relação aos primeiros, o pedido julgado improcedente não será vinculativo, para todos os interessados e legitimados, apenas se o resultado desfavorável decorrer da falta ou insuficiência de provas.

MENDES (2016, p. 263) ainda faz uma severa crítica quanto aos efeitos causados pelos julgamentos das demandas que tratam sobre os diretos individuais homogêneos, afirmando que:

Quanto aos interesses ou direitos individuais homogêneos, contudo, não há qualquer reserva. Assim, o julgamento contrário à parte que efetuou a defesa coletiva não produzirá efeitos erga omnes, o que merece ser criticado, pois viola o princípio da isonomia. Ao estabelecer, de modo limitado, como legitimados, apenas os órgãos públicos e as associações, a representatividade adequada foi presumida. Por conseguinte, torna-se desproporcional e despropositada a diferenciação dos efeitos secundum eventum litis, pois não leva em consideração, tal qual nos incisos I e II do art. 103, motivo significativo, como a falta ou insuficiência de prova, para afastar a extensão. O processo coletivo torna-se, assim, instrumento unilateral, na medida em que só encontrará utilidade em benefício de uma das partes.

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individuais ainda poderão ser ajuizadas, extinguindo a pretensão do processo coletivo, o qual atingirá as demandas individuais, em especial as repetitivas, ocasionando assim, uma redução significativa de conflitos.

CABRAL (2007, p. 138 apud CAMELO, 2015, p. 30-31) alega que as ações coletivas “promovem o rompimento político-ideológico com o dissenso, o pluralismo e as iniciativas individuais”, no mesmo sentido, o autor vê a necessidade de implementação de um novo mecanismo capaz de harmonizar às ações coletivas no tratamento das demandas de massa, pois não obstante os interesses relevantes a tutela coletiva, sistemas exclusivos e as técnicas de legitimidade extraordinária, além de atrapalharem o exercício das faculdades processuais, desencadeiam um rompimento político-ideológico com o dissenso, o pluralismo e as iniciais individuais.

A condução do processo por um ente estranho à coletividade pode esconder dissidências dentro da classe, vilipendiando a liberdade individual de talvez milhares de pessoas com opiniões divergentes, que poderiam inclusive ter adotado estratégia processual diversa se tivessem ajuizado demandas individuais. (CABRAL, 2007, p.142).

Em suma, ressalta que é uma disciplina discrepante do princípio dispositivo, o devido processo legal e o pluralismo que deve nortear o contraditório moderno, compreendido como a ampla capacidade de influir, condicionar a decisão estatal expressa na sentença. A doutrina moderna tenta consertar este problema com o intuito de se equilibrar harmonicamente os interesses dos ausentes com a exigência da tutela coletiva.

Diante desta situação, por mais que as ações coletivas desempenham um papel muito importante na solução de litígios que abordam os direitos coletivos, difusos e individuais homogêneos, o legislador acabou optando pela implementação de um novo mecanismo no combate as litigiosidades das causas repetitivas, que sobrecarregam o Poder Judiciário comprometendo a razoável duração do processo e a sua efetividade.

Conforme já abordado, verificou-se um assombroso crescimento no volume de massa em nosso judiciário, sendo necessário a concepção de novos instrumentos capazes de suprir essas demandas, como é o caso do incidente de resolução de demandas repetitivas, objeto desse trabalho, que tem como finalidade possibilitar a solução prioritária, racional e uniforme das causas repetitivas.

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20 Sidnei Agostinho Beneti (2009, p. 12) afirma que:

Mas exatamente por isso exige definição jurisprudencial urgente, a fim de se estabilizar orientação jurídica que norteie a prática de atos jurídicos pelos interessados. A demora na consolidação jurisprudencial relativa às macrolides provoca a elevação do número de processos em todos os graus de jurisdição, contribuindo decisivamente para o congestionamento da máquina judiciária. A urgência na definição impõe ao sistema processual a adoção de instrumentos capazes de conduzir ao resultado de julgamento absolutamente prioritário, a fim de que rapidamente se forme diretriz jurisprudencial que oriente o agir do meio jurídico e negocial, de modo a frustrar-se o surgimento de novas lides.

CAMELO (2015, p. 31) destaca que nas últimas décadas, houve diversas alterações jurídicas e sociais significativas, tanto que as demandas repetitivas, que são produtos de toda essa problemática, constituem-se em importantes aspectos responsáveis pela transformação dos sistemas jurídicos, em especial tanto os de tradição civil law como de commom law.

Nessa perspectiva, ATAÍDE JR. (2014, p. 48) relata que:

Todas as inovações nos sistemas jurídicos de diversos países ocidentais só vêm a demonstrar que os modelos de processo individual e coletivo afiguram-se inadequados e insuficientes ao trato das demandas de massa, que exigem um microssistema processual próprio, com institutos que proporcionem: (i) a rápida fixação da tese jurídica a reger o julgamento de todas as causas semelhantes; (ii) maior previsibilidade na aplicação do direito; (iii) um julgamento isonômico – para que casos análogos sejam solucionados da mesma maneira (treat like cases alike); (iv) a criação de filtros processuais, que possibilitem a diminuição do número de recursos nos tribunais superiores e, com isso, a eliminação da divergência jurisprudencial interna, bem como possibilitem a produção de precedentes de maior qualidade e, sobretudo, (v) uma cultura de respeito aos precedentes.

Fica evidente, diante do que foi abordado acima, a existência de enormes divergências jurisprudenciais no nosso ordenamento jurídico, causando grave afronta aos princípios da legalidade, da isonomia, da segurança jurídica e da razoável duração do processo. Toda essa divergência jurisprudencial, vai de afronta ao próprio sistema jurídico, o qual entra em colapso, fazendo com que surjam ainda mais demandas, cuja pretensão visa reverter a tese momentânea fixada.

Percebe-se, deste modo, que o legislador tenta buscar, com a projeção do IRDR, à harmonização e coerência do sistema jurídico, características essenciais para a garantia dos princípios da isonomia e segurança jurídica, buscando assim, evitar, a disseminação de multiplicidades de demandas singulares, prejudiciais ao equilíbrio do

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ordenamento jurídico. (CAMELO, 2015, p. 32).

1.3 Conflitos coletivos e individuais: do processo coletivo ao julgamento de casos repetitivos

Diante do que foi apresentado anteriormente, ficou evidente vários aspectos entre as ações coletivas e individuais e a relação com as demandas de massa, demonstrando assim, que se deve dar uma maior atenção as causas repetitivas, a ponto de se buscar a diminuição das ações individuais que abarrotam o judiciário e investir na solução de conflitos em massa.

Desta forma, Antônio Adonias Aguiar Bastos nota um aumento significativo em relação a massificação de demandas, as quais estão sobrecarregando o judiciário e o forçando ir em busca da criação de mecanismos capazes de dar soluções aos litígios em bloco, conforme adverte a seguir:

A massificação e a padronização das relações jurídico-materiais provocaram sensível incremento em relação à quantidade de conflitos que delas surgem e que são vertidos ao Poder Judiciário. Estes fenômenos também alteraram o perfil das demandas, que passaram a ser isomórficas, estabelecendo uma terceira categoria de causas, ao lado das demandas individuais e das coletivas (class actions). [...] O grande volume de causas repetitivas vem assoberbando o Judiciário e provocando a criação de mecanismos legais para a solução em bloco destas lides.

Do ponto de vista de Mario Kobus Junior (2011, p. 40):

Embora haja um regime próprio para o trato das demandas coletivas, tal sistematização tem-se mostrado insuficiente para resolver tamanha quantidade de litígios. Isso porque, o regime de tratamento das causas coletivas não se ajusta às causas repetitivas, as quais, embora não perfaçam essa coletividade em sentido estrito, multiplicam-se em nossos tribunais por tratarem da mesma tese ou fundo de direito, sem que no entanto seja possível dispensar-lhes tratamento coletivo.

Já para CUNHA, (2009, p. 237) “essas causa repetitivas, é preciso que se conceba um regime processual próprio, com dogmática específica, que se destine a dar-lhes solução prioritária, racional, e uniforme”.

Nas palavras de Renato Xavier as Silveira Rosa (2010, p. 7)

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tais, repetitivas, e devem ser julgadas de acordo com essa natureza, com resultados semelhantes para situações semelhantes, esta a verdadeira expressão da garantia da igualdade estampada no artigo 5º, caput, da Constituição Federal de 1988.

Nesse contexto, observa-se segundo Junior que a (2011, p. 41) “aplicação princípio da adequação do processo, sob a perspectiva legislativa, decorrente, esse, das garantias do acesso à justiça, do devido processo legal e da nova percepção do processo como instrumento do direito substancial.”

De acordo com DIDIER JR (2011, p. 41)

Inicialmente, a própria construção do procedimento deve ser feita tendo-se em vista a natureza e as peculiaridades do objeto do processo a que servirá; o legislador deve atentar para estas circunstâncias, pois um procedimento inadequado ao direito material pode importar verdadeira negação da tutela jurisdicional. O princípio da adequação não se refere apenas ao procedimento. A tutela jurisdicional há de ser adequada; o procedimento é apenas uma forma de encarar esse fenômeno

.

Logo, observa-se que as próprias ações coletivas já não estão dando conta do recado, passam por uma crise de efetividade e em consequência cresce a busca por meios alternativos de resolução de lides. Para JÚLIO CESAR ROSSI, o Brasil é detentor de uma das legislações mais completas em relação a defesa dos direitos supraindividuais:

[...] surgem respeitadas vozes no sentido de que a forma de tutela coletiva atual é ineficaz e insatisfatória em relação à tutela dos direitos coletivos (especialmente aos individuais homogêneos), fazendo acreditar que um ordenamento incapaz de impedir (em absoluto) a existência de ações repetitivas, embora possa tutelá-las de forma coletiva, revelase obsoleto e inoperante. (ROSSI, 2012, p. 226).

Nesta linha de pensamento, Aluísio Gonçalves de Castro Mendes e Roberto Aragão Ribeiro Rodrigues (2011, p. 195) ressaltam que o:

[...] surgimento do incidente de resolução de demandas repetitivas vem para suprir eventuais lacunas das ações coletivas brasileiras na tutela dos direitos individuais homogêneos, que são justamente ‘as espécies de direito material’ que dão ensejo à propositura das ações repetitivas.

O seguinte trecho anteprojeto do Novo CPC, expõe os motivos que levaram a criação do IRDR:

Criou-se o incidente de julgamento conjunto de demandas repetitivas, a que adiante se fará referência. Por enquanto, é oportuno ressaltar que

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levam a um processo mais célere as medidas cujo objetivo seja o julgamento conjunto de demandas que gravitam em torno da mesma questão de direito, por dois ângulos: a) o relativo àqueles processos, em si mesmos considerados, que, serão decididos conjuntamente; b) no que concerne à atenuação do excesso de carga de trabalho do Poder Judiciário – já que o tempo usado para decidir aqueles processos poderá ser mais eficazmente aproveitado em todos os outros, em cujo trâmite serão evidentemente menores os ditos “tempos mortos” (= períodos em que nada acontece no processo). Por outro lado, haver, indefinidamente, posicionamentos diferentes e incompatíveis, nos Tribunais, a respeito da mesma norma jurídica, leva a que jurisdicionados que estejam em situações idênticas, tenham de submeter-se a regras de conduta diferentes, ditadas por decisões judiciais emanadas de tribunais diversos. Esse fenômeno fragmenta o sistema, gera intranqüilidade e, por vezes, verdadeira perplexidade na sociedade. (Anteprojeto do Vovo (sic) Código de Processo Civil — Projeto de Lei do Senado nº 166 de 2010 (PLS nº 166, de 2010) 2010, p, 16-17)

[...] Com os mesmos objetivos [de evitar a dispersão excessiva da jurisprudência], criou-se, com inspiração no direito alemão, o já referido incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, que consiste na identificação de processos que contenham a mesma questão de direito, que estejam ainda no primeiro grau de jurisdição, para decisão conjunta. (Anteprojeto do Vovo (sic) Código de Processo Civil — Projeto de Lei do Senado nº 166 de 2010 (PLS nº 166, de 2010) 2010, p, 21).

Nas palavras de CAMELO, (2015, p. 35) o IRDR pode ser um instrumento que vai nos proporcionar inúmeros benefícios, como os que seguem:

[...] o incidente de resolução de demandas repetitivas pode ser um instrumento para transformar essa realidade que se apresenta, produzindo inúmeros benefícios, dentre eles: o tratamento igualitário aos litigantes de demandas com causa de pedir idênticas; previsibilidade e segurança jurídica; agilidade e qualidade na entrega da prestação jurisdicional; resgate da confiança no Poder Judiciário e acima de tudo a unidade e coerência do direito, em nosso ordenamento jurídico.

Portanto, o incidente de resolução de demandas repetitivas vem com o objetivo de reduzir drasticamente o número de demandas judiciais, com o intuito de tentar amenizar a crise do judiciário, sendo uma ferramenta eficaz aos tratamentos das demandas em massa.

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2 INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

A sociedade brasileira vem há muito tempo criticando a demora excessiva da sua justiça, e diante dessa situação o novo CPC traz como um de seus principais objetivos a modernização e agilidade na prestação jurisdicional, com intuito de garantir mais celeridade ao Processo, sem que isso cause cerceamento de defesa.

É inegável que a maioria das mudanças propostas pelo novo CPC eram necessárias, contudo, diante desta situação, está se buscando criar um sistema processual pautado pela organização, adequação, simplificação, flexibilização e efetividade.

O novo código não só aprimorou, como inovou algumas técnicas processuais, o processo em si passou a ser mais maleável e adaptável aos conflitos da sociedade, permitindo assim um julgamento mais individualizado do magistrado e uma maior fluidez ao processo.

Dentre os objetivos que foram estabelecidos pelo novo ordenamento jurídico, se dá destaque à promoção de dois pontos muito importantes: o da segurança jurídica e da celeridade da prestação jurisdicional. Neste ponto, para real efetivação dos referidos princípios, é apresentado o instituto do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas como um instrumento processual muito importante, considerado por muitos uma das grandes inovações do Novo CPC, o qual será analisado no decorrer desde capítulo.

2.1 Conceito e caracteristicas da IRDR.

Conforme Elpídio Donizetti (2016, p. 1177):

Uma das maiores novidades trazidas pelo novo CPC é o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, conhecido pela sigla IRDR. Trata-se de um procedimento-modelo ou procedimento-padrão, instaurado incidentalmente em julgamento de recurso, remessa necessária ou processo de competência originária (art. 978, parágrafo único) perante

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os Tribunais de Justiça ou Tribunal Regional Federal.

Segundo a exposição de motivos da Comissão de Juristas do Senado, trata-se de um dispositivo concebido para a “identificação de processos que contenham a mesma questão de direito, que estejam ainda no primeiro grau de jurisdição, para decisão conjunta”, ou seja, além do risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica, deve haver efetiva repetição de processos (art. 976, I, do Novo CPC). Essa incidência de repetição poderá ocorrer na primeira, na segunda ou em ambos os graus de jurisdição, no entanto, para instauração deste incidente, pelo menos um processo versando sobre a mesma questão de direito deve estar tramitando no tribunal de segundo grau. Caso esta tese já seja objeto de recurso extraordinário ou especial, o IRDR será incabível (art. 976 § 4º), uma vez que já está sendo analisado por uma instância superior e o seu resultado vinculará nos demais tribunais e juízos inferiores.

O IRDR apresenta várias semelhanças com outros institutos de repercussão geral e julgamento dos recursos especiais e extraordinários repetitivos. Negada a existência da repercussão geral quanto ao recurso representativo da controvérsia, serão negados todos os recursos extraordinários sobrestados na origem que versem sobre matéria idêntica (art. 1.035, § 8º). Ao contrário, se o recurso extraordinário for admitido e julgado o mérito, será apreciado pelas Turmas Recursais, pelo Tribunal ou Turma de Uniformização, procedimento idêntico ao dos recursos especiais repetitivos. (DONIZETTI, 2016, p. 1178).

Contudo, para ficar bem claro, uma das principais dúvidas referentes ao IRDR, o autor Elpídio Donizetti (2016, p. 1178) traz o seguinte texto:

O incidente de resolução de demandas repetitivas não é recurso, e sim um incidente instaurado no julgamento de recursos, remessa necessária ou processo de competência originária. A decisão proferida no IRDR, tal como ocorre com a tese definida em julgamento de recursos repetitivos, servirá de parâmetro para o julgamento de todos os processos – presentes e futuros, individuais ou coletivos – que versem sobre idêntica questão de direito e que tramitem ou venham a tramitar na área de jurisdição do respectivo tribunal, ou seja, vinculará os órgãos de primeiro grau e o próprio tribunal. O acórdão passará a ser a “lei” que regerá os processos em trâmite e que venham a ser instaurados sobre a mesma questão jurídica. Ao julgador caberá fazer a subsunção dos fatos a essa norma jurídica editada pelo tribunal.

Em relação as semelhanças presentes entre o IRDR com as ações coletivas, as mesmas se distinguem em único ponto. Como o próprio nome já diz, a ação civil pública, é uma ação, e não um incidente. Na ação coletiva o que se tutela é o direito coletivo. No IRDR apenas se define a tese jurídica a ser aplicada nos julgamentos futuros. Nas ações

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26 coletivas, não se admite veicular pretensões que envolvam tributos, contribuições previdenciárias, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e/ou outros fundos de natureza institucional (art. 1º, parágrafo único, da Lei nº 7.347, de 24.07.1985), já o IRDR não contempla qualquer limitação de matérias das expressões mais significativas da cultura jusfilosófica romana foi Marco Túlio Cícero(106-43 a. C), que soube unificar os preceitos do direito natural com o pragmatismo da legalidade material. (DONIZETI, 2016, p. 1179).

2.2 Quanto ao cabimento, divulgação e procedimento do incidente

Quanto à admissibilidade do IRDR, Elpídio Donizetti destaca que o mesmo será admitido quando “ [...] identificada a repetição de causas fundadas na mesma questão de direito, circunstância que pode provocar insegurança jurídica e ofensa à isonomia, perante a possibilidade de coexistirem decisões conflitantes sobre a mesma questão jurídica. ” (2016, p.1178)

Nesse mesmo sentido, leciona Neves (2016, p. 2477-2478):

[...] é cabível o incidente de resolução de demandas repetitivas, conhecido por IRDR, quando houver simultaneamente a efetiva repetição de processos que contenham controvérsia sobre a mesma questão unicamente de direito e o risco de ofensa à isonomia e à segurança. [...] O tratamento isonômico de diferentes processos que versam sobre a mesma matéria jurídica, gerando dessa forma segurança jurídica e isonomia, é a justificativa do incidente ora analisado, como se pode constatar da mera leitura do art. 976, caput, do Novo CPC.

É possível, então, concluir que para a instauração do IRDR, devem estar presentes os pressupostos processuais, observando sempre os requisitos para a sua admissibilidade, no caso a efetiva repetição dos processos que tratam sobre a mesma questão de direito.

Segundo o art. 979, caput, do CPC, a instauração e o julgamento do incidente serão sucedidos da mais ampla e específica divulgação e publicidade, por meio de registro eletrônico no Conselho Nacional de Justiça. No § 1.º do art. 979, ficou definido que os tribunais manterão os bancos eletrônico de dados atualizados com informações específicas sobre questões de direito submetidas ao incidente, comunicando-o imediatamente ao Conselho Nacional de Justiça para inclusão no cadastro.

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A divulgação desses dados é se suma importância, pois se o incidente for admitido, terá efeito suspensivo aos processos submetidos à competencia do tribunal, que tratam da mesma matéria.

Outro ponto importante desta divulgação da existência de algum incidente é permitir que interessados fiquem cientes de seu julgamento e, caso queriam intervir conforme limites fixados pelo art. 983 do CPC.

Em relação a competência para julgamento desse incidente, o art. 978 dispõe que, deverá recair em um órgão indicado pelos regimentos internos, responsáveis pela uniformização da jurisprudência do tribunal. Esse órgão poderá inadmitir o incidente se ausentes os pressupostos do art. 976. Havendo a admissão do incidente, observarse -ão os efeitos mencionados no art. 982, visto que haverá a suspens-ão dos processos pendentes, e a devida comunicação desta suspensão aos órgãos jurisdicionais competentes.

O Código de Processo Civil prevê o prazo máximo de um ano para o julgamento deste incidente, além de ter a preferência sobre os demais feitos, ressalvados os que envolvam réu preso e os pedidos de habeas corpus. (art. 980, do CPC).

Caso o incidente não seja julgado neste meio tempo, não haverá consequência para o seu descumprimento, exceto a interrupção da suspensão dos processos pendentes que trata o art. 982, I no CPC. Contudo, poderá o relator, mediante decisão fundamentada, pedir a continuidade da suspensão do processo conforme art. 980, parágrafo único do CPC.

No julgamento do incidente, o conteúdo do acórdão abrangerá a análise de todos os fundamentos sucitados concernentes a tese jurídica definida, sejam eles favoráveis ou não (984, § 2, do CPC).

Segundo Elpídio Donizetti (2016, p. 1181, grifo do autor):

Contra o acórdão que julgar o mérito do incidente de resolução de demandas repetitivas será cabível recurso especial ou recurso

extraordinário, a depender da existência de violação à lei federal ou de

violação direta à Constituição Federal (art. 984, caput). O recurso poderá ser interposto pela parte requerente do incidente, pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública, sejam estes partes ou não no incidente. Quanto ao Ministério público, quando não atua como parte, sua legitimidade decorre da atuação na qualidade de custos legis. A legitimidade da Defensoria Pública decorre do interesse público na

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fixação da tese jurídica, evitando a proliferação de processos e a insegurança jurídica. Aliás, não é por outra razão que o art. 982, § 3º, lhe confere legitimidade para requerer a suspensão dos processos na hipótese de admissão do incidente. Também ao amicus curiae, conforme permissivo contido no art. 138, § 3º, se confere legitimidade para recorrer.

Portando “o recurso especial e o extraordinário serão dotados de efeito suspensivo ope legis (art. 987, § 1º), presumindo-se, quanto a este último, a repercussão geral da questão constitucional discutida.” (DONIZETTI, 2016, p. 1182).

Julgado o incidente na forma do art. 984, a tese jurídica terá efeito em todos os processos que versem sobre aquela questão de direito (art.985, I), sendo aplicada em todos os processos individuais e coletivos sobre idêntica questão de direito e que tramitam na área de jurisdição do tribunal, incluindo os juizados especiais pertencentes aquela jurisdição.

A revisão da tese jurídica firmada no incidente acontecerá no mesmo tribunal que julgou a lide, podendo ocorrer de ofício ou mediante requerimento dos legitimados no art. 977, inciso III (art. 986 do CPC).

“Em suma, somente a revisão da tese jurídica pelo mesmo tribunal, além da superação em razão de julgamento pelo STJ ou STF [...] pode fazer cessar a força vinculante do julgamento proferido no IRDR” (DONIZETTI, 2016, p. 1182).

Caso não for utilizada pelo magistrado a tese jurídica firmada pela IRDR nos julgamentos daquele tribunal, caberá reclamação, conforme o disposto do art. 985, § 1º do CPC, de forma que, se faça valer a forma normativa daquela decisão conforme a sua competência.

Ressalta ainda Donizetti (2016, p. 1182) que:

A decisão proferida no incidente também tem verdadeira força de lei no que se refere aos serviços concedidos, permitidos ou autorizados, na hipótese de a questão jurídica com eles guardar pertinência. O que restar decidido no incidente deve ser observado nas relações futuras com os usuários de tais serviços, cuja fiscalização caberá à agência reguladora competente (art. 985, § 2º).

Consequentemente, todas as teses jurídicas resultantes do julgamento do IRDR buscam atender toda uma coletividade, através da uniformização de entendimentos jurisprudenciais, contudo, conforme traz NEVES (2016, p. 2514) algumas decisões poderão gerar conflitos internos entre tribunal superior e o de segundo grau:

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Cenário também pouco confortável é o trânsito em julgado de um incidente em tribunal estadual ou federal e posteriormente trânsito em julgado em incidente que em grau recursal chegou ao tribunal superior. Teríamos a aplicação da tese jurídica fixada pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em todos os estados e regiões, salvo naquela em que já havia trânsito em julgado de incidente previamente julgado. Novamente, não é preciso muito esforço para se notar uma violação clara e inaceitável do princípio da isonomia.

Logo, este problema também está presente entre os Estados que constituem a nação, pois um julgamento em um determinado local do país pode ser positivo e no outro negativo conforme relata Neves (2016, p. 2513)

[...] Um incidente de resolução de demandas repetitivas é julgado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo e, em razão da não interposição de recurso, tem sua decisão transitada em julgado. A eficácia vinculante obrigará todos os juízos paulistas a aplicar a tese jurídica fixada pelo tribunal. Mas em outro incidente proposto perante o Tribunal de Justiça da Paraíba há prolação de decisão em sentido diametralmente oposto, e que também transita em julgado pela ausência de interposição de recurso. Processos em trâmite em São Paulo e na Paraíba terão obrigatoriamente decisões divergentes, e a grande pretensão com a criação do incidente ora analisado, a preservação da isonomia será ferida de morte.

Diante do exposto, fica claro que há algumas lacunas deixadas pelo legislador no que compreende o incidente de resolução de demandas repetitivas, mas que ao ver dos doutrinadores, esses vícios poderão ser sanados, ficando assim na expectativa se realmente este incidente será eficaz e atenderá o proposito que foi criado.

2.3 Da legitimidade das partes

Os legitimados para instauração do incidente de resolução de demandas repetitivas estão elecados no art. 977 do CPC, sendo que o incidente será instaurado perante os Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal ou Tribunais Regionais (Enunciado nº 343 do FPPC)

No inciso I do art. 977 do Novo CPC, está prevista a legitimidade do juiz e do relator, sendo que a instauração se dará mediante ofício. “[...] a legitimidade do relator só existirá concretamente quando o processo repetitivo tiver chegado ao tribunal em grau recursal, reexame necessário ou, excepcionalmente, em ações de competência originária que estejam em trâmite perante o tribunal.” (NEVES, 2016, p. 2481-2482).

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Já o inciso II do artigo citado acima está prevista a legitimidade das partes, sendo que a instauração acontecerá mediante petição, sendo que o Ministério Público e a Defensoria Pública também possuem legitimidade para instaurar o incidente, conforme inciso III do dispositivo ora analisado, sendo que o incidente será instaurado por meio de petição.

2.4 Desistência ou abandono do processo

Conforme traz Neves (2016, p. 2507) ocorrendo a desistência ou o abandono da ação que deu origem ao incidente pelas partes, não impedirá que o exame de mérito deste incidente aconteça, ( art. 976, § 1, do CPC) portanto:

A previsão do art. 976, § 1º, do Novo CPC sugere que a desistência ou abandono do processo de onde se originou o IRDR será homologado pelo juízo, de forma que aquele processo será extinto sem a resolução do mérito. Como parto da premissa de que o incidente só pode ser instaurado em processo que tramite perante o segundo grau de jurisdição, entendo que o dispositivo tenha alcance consideravelmente limitado, aplicando-se tão somente aos processos de competência originária dos tribunais.

Logo, essa desistência decorre em razão da previsão legal do art. 485, § 5º, do CPC, que admite a desistência do processo e por consequência também o abandono, que é uma desistência tácita até a prolação da sentença. Deste modo, caso for instaurado o IRDR em processo em grau recursal ou a espera do julgamento do reexame necessário, não será cabível a desistência ou abandono do processo (NEVES, 2016, p. 2507)

Neves, (2016, p. 2507) nesse mesmo sentido destaca:

[...] para aqueles que entendem que é possível a instauração do IRDR em processo em trâmite no primeiro grau de jurisdição, o disposto no art. 976, § 1º, do Novo CPC faz mais sentido. E nesse caso se aplicarão as regras consagradas nos §§ 4º e 6º do art. 485 do Novo CPC, de forma que, depois de apresentada a contestação, a homologação da desistência ou abandono dependerá de anuência do réu.

Independentemente da desistência ou abandono do processo ou do recurso pela parte, não será o mesmo capaz de evitar que o tribunal fixe uma tese jurídica referente a lide que estava sendo julgada, não acarretando assim impedimentos para o julgamento do IRDR. Desta forma, afirma-se segundo NEVES (2016, p. 2508):

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[...] que o interesse público no bom funcionamento do instituto, capaz de gerar segurança jurídica, previsibilidade e isonomia, justifica o julgamento do incidente, com a fixação da tese, mesmo com o processo do qual se originou tal incidente já tendo sido extinto.

Destarte, encerra-se este capítulo, demonstrando que a mera desistência do processo ou do recurso não evitará que se julgue o incidente instaurado, garantindo assim que o interesse da coletividade esteja em primeiro lugar.

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3 O EXAME DA EFETIVIDADE DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS FRENTE AOS CONFLITOS DE MASSA

3.1 Da valorização e uniformização da jurisprudência.

Com a entrada em vigor do Novo Código de Processo Civil muitas foram as modificações ocorrida em relação ao Código anterior. Foram modificações pontuais com a finalidade de fazer com que a demanda processual atendesse de forma mais eficaz as exigências de uma sociedade em constante evolução. Desta forma, a cada momento surgem novas demandas a serem dirimidas pelo Estado-julgador, fazendo com que a norma existente se torne inconsistente ou até mesmo ineficaz diante da demanda a ser abordada. Como visto em itens anteriores, esta variedade de novas relações decorre dos vastos setores em que a atividade comercial e outras relações se desenvolvem na atualidade.

Um destes exemplos está no consumo massificado, nas relações comerciais virtuais, como outros tantos que antes nem sequer se imaginava. Neste passo, uma das novidades do novo diploma processual foi a formação de uma estrutura que pudesse abranger de forma efetiva um grande número de demandas que versassem sobre a mesma matéria. Tal novidade consiste no Incidente de Resolução de demandas Repetitivas-IRDR.

Quanto ao diploma, a inserção do IRDR vem a ser novidade, porém, atende a uma necessidade já levantada por doutrinadores e, principalmente atende a um comportamento jurisprudencial já verificado em nossos tribunais no que se refere a resolução coletiva de demandas.

Como constado pelos doutrinadores, trata-se de ferramenta de muita valia, tendo em vista o cenário atual das relações múltiplas estabelecidas. Estabelece-se, assim um modo de processo que venha a dar vasão a quantidade significativa de demanda com poucos processos. Isto por que a decisão aplicada em um processo em particular deverá atingir a outros que se encaixem nos requisitos de similitude com aquele. Consequência positiva que se extrai desta aplicabilidade e de que será possibilitada uma maior

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resolução de demandas em um lapso de tempo menor que o normal. Atenuando assim a morosidade percebida no judiciário e atendendo ao princípio da inafastabilidade da jurisdição, estabelecida pelo inciso XXXV, artigo 5º da Constituição Federal de 1988.

Uma destas atividades que servirá de pilar para que sejam possibilitadas as decisões coletivas é a harmonização de nossa jurisprudência, bem como de nossos tribunais. Tem-se a intenção de possibilitar uma grande vasão de demandas mediante a instalação do IRDR. Deve-se ter o cuidado para que não seja ferida a isonomia processual entre os processos atingidos. A segurança jurídica nas decisões deve estar presente no sentido de que devem ter decisões correlatas os casos que forem idênticos. Desta forma, imperioso que se estabeleça uma harmonia entre os tribunais e as decisões proferidas, a fim de gerar uma segurança jurídica e uma maneira eficaz de decidir as IRDR.

Ainda no que se refere à força normativa jurisprudencial nas decisões da IRDR, a Lei número 11.276 de 2006 estabeleceu a súmula impeditiva de recursos. Esta permite que o magistrado não receba apelação quando a sentença proferida estiver em conformidade com entendimento do Superior Tribunal de Justiça ou Supremo Tribunal Federal. Porém tal entendimento fere garantia processual previsto, qual seja a garantia constitucional ao duplo grau de jurisdição. O que se verifica é a possibilidade de julgamento liminar de improcedência nos casos em que, existe, no mesmo tribunal, decisão no mesmo sentido a respeito daquele direito. Este último caso apresentado poderá ser aplicado quando a matéria discutida for unicamente de direito, desde que no mesmo juízo já houver proferido sentença no sentido de total improcedência em casos idênticos ao apresentado. Neste caso será estabelecida a sentença nos mesmos moldes ao da anteriormente prolatada. Esta possibilidade de resolução da demanda petrifica o entendimento da jurisprudência e possibilita desde já a resolução a demanda, evitando a morosidade que iria ocasionar para atingir um resultado desde já conhecido.

O que se pode notar é que o CPC vem colaborar para que se possa consolidar o entendimento jurisprudencial, pois mediante sua previsão as jurisprudências serão submetidas a instâncias revisoras, as quais serão incumbidas de verificar a aplicabilidade ao caso concreto. Nesta direção verifica-se o § 1º do Art. 1.013 do CPC.

Art. 1.013. A apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada.

§ 1o Serão, porém, objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal todas

as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que não tenham sido solucionadas, desde que relativas ao capítulo impugnado.

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34 Note-se de pronto que as demandas repetitivas que antes eram objeto de julgamento exclusivo dos Tribunais Superiores, agora poderão, também, ser proposta perante os Tribunais de Justiça e Regionais Federais, podendo ainda ter por matéria de analise tanto questões de direito material quanto direito processual. É o que se extrai da leitura do artigo 928 no Novo Código de Processo Civil, que assim dispõem:

Art. 928. Para os fins deste Código, considera-se julgamento de casos repetitivos a decisão proferida em:

I - incidente de resolução de demandas repetitivas; II - recursos especial e extraordinário repetitivos.

Parágrafo único. O julgamento de casos repetitivos tem por objeto questão de direito material ou processual.

Por fim, percebe-se a importância da jurisprudência no auxílio das decisões das demandas repetitivas. De outra banda, o CPC, através do Incidente de Resolução de demandas Repetitivas, proporciona uma uniformização das jurisprudências, tendo em vista a análise das mesmas em tese por colegiados altamente competentes e qualificados, as aplicando ao caso concreto. A uniformização e consolidação da jurisprudência consiste, desta forma, em um interesse público, tendo em vista a sua abrangência e aplicabilidade. No que tange a sua importância é de ser mencionado o Art. 976, § 2º, o qual prevê a obrigatoriedade do Ministério Público, senão vejamos:

Art. 976. É cabível a instauração do incidente de resolução de demandas repetitivas quando houver, simultaneamente: [...] § 2o Se não

for o requerente, o Ministério Público intervirá obrigatoriamente no incidente e deverá assumir sua titularidade em caso de desistência ou de abandono. [...]

Conforme COELHO, (2010, p. 148) observa-se que:

A uniformização da jurisprudência é essencial para assegurar o cumprimento do postulado constitucional da igualdade. Não se olvide, porém, que a jurisprudência poderá ser modificada com a mutação do contexto social ou cultural, sendo prevista a possibilidade de revisão do entendimento firmado [...]. O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas entregará a prestação jurídica adequada para determinado momento histórico, sem pretensão de se tornar em lei eterna, sendo possível a sua revisão.

Portanto, a uniformização da jurisprudência está regulada no disposto no artigo 926, caput e §1º, do Código de Processo Civil, nas palavras de Maria Gonçalves Gallotti Ramos da Silva (2015, p.47):

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a competência material de certo tribunal. A razão de ser de tal instituto é que “decisões conflitantes a respeito de casos semelhantes, na verdade, não só expressam uma ordem jurídica destituída de coerência, mas também, mais especificamente, negação da previsibilidade e da confiança justificada depositada nos atos do Poder Público”.

Assim, mediante a aplicação da jurisprudência aos IRDR, está cada vez mais terão verificada sua uniformização, visto que serão analisadas de forma ampla bem como por diversos órgãos competentes.

3.1.1 O precedente no Código de Processo Civil

O sistema jurídico brasileiro vem ao longo do tempo sofrendo drásticas mudanças em seu ordenamento quanto aos níveis de litigiosidade no aspecto qualitativo e quantitativo. O aumento do número de demandas repetitivas, “[...] vem cada vez mais gerando um peculiar modelo de Direito Jurisprudencial no qual os precedentes são usados para geração de padrões decisórios (mediante a técnica de causa piloto) e aplicação em casos idênticos” (NUNES, Dierle. Novo CPC consagra concepção dinâmica do contraditório. Revista Consultor Jurídico, 2013.)

Ingrid Ariana Wagner, (2013, p. 47-48) destaca que:

A previsão da técnica dos precedentes no incidente de resolução de demandas repetitivas, se bem aplicada, pode ser de grande valia à sociedade e ao Poder Judiciário, na medida em que visa promover a segurança jurídica, a confiança legítima, a igualdade e a coerência da ordem jurídica através da fixação de tese a ser observada em julgamentos da questão apreciada no âmbito de jurisdição daquele tribunal que a prolatou. O precedente consiste em uma decisão dotada de potencialidade de se firmar como paradigma para a orientação dos jurisdicionados e dos magistrados, constituindo decisão acerca de matéria de direito. Esta decisão deve enfrentar todos os principais argumentos da questão jurídica relacionados ao caso concreto, lembrando-se que pode surgir “mediante uma construção da solução judicial da questão de direito que passa por diversos casos”. Assim, o precedente não trata de questão de fato e também não pode limitar-se a afirmar a letra da lei ou reafirmar outro precedente.

Todavia, conforme observa Luiz Guilherme Marinoni (2013, p. 215-216):

Nem toda decisão judicial forma precedente, embora todo precedente seja oriundo de uma abstração realizada a partir de uma ou de mais de uma decisão judicial. Ou seja, só há sentido falar de precedente quando se tem uma decisão dotada de determinadas características,

Referências

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