INTRODUÇÃO
A Psicologia tem realizado enorme progresso como ciência, e muitos de seus desenvolvimentos têm sido admirados e aproveitados em uma diversidade de áreas disciplinares e profissionais (Wapner & Demick, 2002). A origem da presente proposta de pesquisa é exatamente uma dessas descobertas, e diz respeito a um determinado desenvolvimento da ciência psicológica, a teoria dos behavior settings, que possui uma poderosa gama de potenciais de aplicação na área de ensino, pesquisa e prática profissional da Arquitetura e Urbanismo, entre outras áreas. Há necessidade de se desenvolver uma série de extensões da extraordinária teoria dos behavior settings, no sentido de torná-la ainda mais capaz de explicar e prever as relações entre o comportamento humano e o ambiente construído ou utilizado pelo ser humano. Segundo Barker (1987),
Behavior settings são fenômenos eco-comportamentais híbridos: são padrões circunstanciados (bounded) espacial e temporalmente, e apresentam graus de estabilidade em sua manifestação, reunindo componentes humanos e não-humanos em atividades que podem ser descritas como sistemas integrados de forças e de instâncias de controle, que mantêm essas instâncias em um estado de equilíbrio semi-estável; as partes componentes e os processos presentes nos behavior settings possuem um elevado grau de interdependência interna, o que faz dos behavior settings unidades discretas, entidades identificáveis no ambiente ecológico (p. 1420).
A pesquisa que culminou com a descoberta desses padrões de espaço e comportamento foi iniciada por Roger Barker (1903-1990) quando professor na Universidade do Kansas, EUA. Sua pesquisa consistiu na observação sistemática do comportamento cotidiano de populações de uma pequena cidade norte-americana e, também, de uma cidade inglesa, ambas com cerca de 1.000 habitantes, por duas décadas e meia (1947-1972). Barker e sua equipe de pesquisadores colaboradores, e sucessivos grupos de estudantes de Psicologia, construíram um grande banco de dados sobre os padrões de vida cotidiana de centenas de famílias, empresas e atividades de instituições de várias naturezas, tais como igrejas, escolas, instituições públicas, dentre outras, por décadas. Sua abordagem buscava o reconhecimento de regularidades no comportamento cotidiano, especialmente das crianças.
O estudo direto de situações comuns do comportamento humano tinha como fundamento as idéias de Kurt Lewin, com quem Barker tivera contato nos anos de 1930, e as linhas inovadoras de estudo como a da Escola de Chicago, criadora da sociologia urbana e do paradigma de ecologia urbana, também nos anos 1930. Os métodos de registro etnográfico, os fundamentos de pesquisa qualitativa, os procedimentos de observação participante já eram conhecidos dos sociólogos e antropólogos, mas Barker foi um dos primeiros a usar e adaptar esse arsenal para a pesquisa psicológica, de forma extensiva. Esse trabalho permitiu a descoberta de padrões estruturados de comportamento integrados a espaços e objetos e corpos físicos, que denominou behavior settings. Toda a vida comunitária e parte das rotinas individuais podiam ser explicadas a partir desses padrões. Um novo paradigma dos estudos da psicologia social, então, surgia, e Barker o denominou Psicologia Ecológica (Barker, 1968).
A teoria dos behavior settings avançou através do estudo da integração entre comportamentos e elementos físicos em escolas, igrejas, lojas, áreas de visitação pública, etc. (Barker, Barker & Ragle, 1967; Barker & Gump, 1964; Barker & Wright, 1954; Wicker, 1983). É uma teoria obrigatoriamente citada na literatura da Psicologia Social (Nisbett, Gilovich & Keltner, 2005; Taylor, Peplau & Sears, 2005), e um dos fundamentos da Psicologia Ambiental (Bechtel & Churchman, 2002; Bell, Greene, Fisher & Baum, 2005).
Através da teoria dos behavior settings é possível, prospectivamente, construir modelos da organização e da dinâmica de sua transformação no tempo, assim como seu funcionamento num momento determinado, de organizações de diversos graus de complexidade. Dois pequenos núcleos urbanos foram os laboratórios de Barker, o que permite conceber a possibilidade de se construir modelos mais amplos, capazes de gerar explicações e previsões sobre a organização e o funcionamento de cidades inteiras, passo a passo, através da análise das redes de behavior settings. Modelos urbanos modelados como estruturas físico-comportamentais operariam a partir dos programas comportamentais e dos arranjos físicos que constituem o ambiente urbano. Modelos assim ainda não foram produzidos com o uso da teoria dos behavior settings. É necessário que uma nova etapa de sua elaboração seja iniciada, tornando-se uma teoria que pode problematizar, explicar, predizer e simular aspectos fundamentais das organizações urbanas, de um modo inacessível às teorias urbanas da atualidade. Sua aplicação transformaria profundamente as atuais práticas de planejamento e gestão urbana, pois permitiria a interação entre situações
de espaço e comportamento particulares e em escalas tão amplas quanto as escalas metropolitanas e regionais.
Trata-se, portanto, de uma ambiciosa promessa da teoria e um campo de pesquisa de enorme importância, não apenas para a Psicologia Social, mas também para a Arquitetura e Urbanismo e outras áreas afins. Quando o grupo de Barker se desfez, a Teoria dos behavior settings praticamente não avançou, com a exceção da notável extensão formulada por Alan Wicker, discípulo de Barker, de uma teoria sobre redes de behavior settings (Wicker, 1983, 1987). Essa extensão feita por Wicker não teve fundamentação empírica sistemática, que embasasse suas especulações. Nesse sentido, a presente pesquisa dá continuidade à extensão formulada por Wicker, explorando empiricamente aspectos fundamentais da estrutura e da dinâmica das redes de behavior settings.
O questionamento que motiva o presente estudo parte do reconhecimento dos problemas devidos a essa fundamental lacuna empírica no estudo das redes de behavior settings. Suas aplicações são, potencialmente, de grande impacto para o planejamento urbano e para a arquitetura de edificações. Esses campos carecem fortemente de um embasamento empírico sobre o funcionamento de organizações e comunidades. Esses estudos denominados como pesquisas de pré-projeto (predesign research) por Duerk (1993) e Hershberger (1999), não utilizam o instrumental da psicologia social de forma sistemática, e não devem ser confundidos com o construto de programa comportamental, da teoria dos behavior settings.
Os projetos profissionais de arquitetura e urbanismo não se baseiam em uma compreensão explícita das unidades psico-ambientais que constituem a organização urbana e as edificações. É nesse sentido que a teoria dos behavior settings se apresenta como poderosa descortinadora de padrões de integração entre ambiente e comportamento, em uma ampla gama de escalas de aplicação ao planejamento urbano e arquitetônico. Contudo, o estado em que se encontra a teoria dos behavior settings não é satisfatório. Seu desenvolvimento apresenta suas próprias lacunas, e não atraiu até o momento, a atenção de pesquisadores de áreas aplicativas como as da Arquitetura e Urbanismo. A própria Psicologia Social não realizou nenhuma contribuição relevante à teoria dos behavior settings, além daquelas feitas pelo grupo de pesquisadores reunidos em torno de Roger Barker (Scott, 2005).
A questão que é colocada diz respeito à natureza das redes de behavior settings. A teoria define os settings como unidades ecológicas supra-individuais, onde ocorrem padrões de comportamento estruturados. Por exemplo, as aulas de um curso, em que o
professor tem um papel bem definido, assim como os estudantes e outros participantes aceitos ou convidados. O funcionamento dessas unidades não depende de pessoas específicas. Um professor pode ser substituído por outro, as turmas de estudantes mudam semestre a semestre e a aula segue. Segundo a teoria, as redes de behavior settings apresentam homologias com o modelo descoberto e, teoricamente, são definidas segundo princípios comuns aos casos estudados por Barker, de behavior settings individuais (Wicker, 1987). Obtém-se, no nível das redes de behavior settings, o equivalente a programas comportamentais estruturados, envolvendo objetivos coletivos.
Esses programas comportamentais das redes de settings também teriam a mesma natureza supra-individual dos settings componentes: independeriam de indivíduos específicos. Mas a caracterização tanto dos programas comportamentais quanto dos aspectos físicos das redes de settings revelou-se um problema de enorme complexidade. A lógica interna desses programas seria bastante para que as redes de behavior settings persistissem, apresentando comportamentos emergentes a partir de seus componentes ecológicos, os behavior settings individuais. Essa dificuldade foi reconhecida por Wicker (1987), que propôs uma variedade de mediações e processos de geração e manutenção de redes de settings, com o objetivo de minimizar o determinismo contido na tese do caráter supra-individual de seus programas comportamentais. Contudo, Wicker não examinou a possibilidade de que as diferenças nos comportamentos e aspectos individuais estivessem associadas a fenômenos relacionados à estrutura e à dinâmica das redes de behavior settings. Esse exame deveria esperar por estudos empíricos desenhados para o exame das correlações entre esses dois aspectos fundamentais: os comportamentos de indivíduos particulares ou membros de grupos específicos, versus os aspectos estruturais e dinâmicos das redes de settings.
Mesmo nos modelos de aplicação das ciências comportamentais ao projeto urbano e nas teorias críticas do urbanismo (Lang 1987, 1994), as teorias sobre os processos de vitalização e de-vitalização de áreas urbanas se referem a processos supra-individuais. A própria teoria dos behavior settings pode ser usada para permitir a exploração do ambiente de redes de settings, acerca do papel que as diferenças individuais podem ter para a explicação de diferenças no desempenho das próprias redes. As diferenças individuais devem nos levar a novas considerações sobre sub-grupos populacionais, como os idosos, as crianças, os adolescentes ou, por exemplo, as famílias chefiadas por um adulto apenas. Na abordagem que é proposta, de análise das redes de settings, há considerações sobre as
diferenças individuais, que levam ao reconhecimento de grupos populacionais especialmente relevantes para a dinâmica das redes, que devem atingir diretamente a elaboração de projetos de arquitetura e urbanismo. Apesar do esforço existente na atualidade, de contemplar grupos especiais de população nos projetos de arquitetura e urbanismo, esses grupos não são compreendidos como agentes ativos de uma rede de relações espaciais e comportamentais (Duany, Platter-Zyberk & Speck, 2000).
A questão-chave, portanto, pode ser colocada, até esse ponto, de forma essencialmente empírica: o questionamento da natureza supra-individual dos programas comportamentais pode ser feito à luz do desempenho que as redes de behavior settings apresentam: (a) do ponto de vista de seus participantes, e (b) do ponto de vista de uma instância ecológica externa à rede – que pode ser o ponto de vista do pesquisador, de uma organização interveniente ou de uma política pública incidente sobre o campo de atuação de uma determinada rede de settings.
A presente pesquisa está baseada no procedimento de survey pelos correios (Dillman, 1978). Responder à survey engloba diversas atividades, tais como: receber a correspondência enviada, ler as instruções, responder ao questionário sobre comportamento de ajuda e vida em comunidade, e, finalmente, enviar o questionário respondido pelos correios. A resposta dada pode ser considerada uma forma de comportamento social especialmente validada (Dillman, 1978; Groves & cols., 2004; Levine, 2003).
Essa extraordinária coincidência entre a resposta ao questionário enviado e o concomitante comportamento de ajuda cumpre um duplo papel no procedimento de pesquisa: (a) é um comportamento social programático que está presente na vida de comunidades de vizinhança (Gärling & Skjaeveland, 2002; Wiesenfeld, 2002), como um comportamento importante, programático, dos behavior settings dessas comunidades; (b) é um comportamento social índice, medido diretamente pela própria taxa de respostas à survey pelos correios, permitindo, indiretamente, a exploração da estrutura de inter-relações e da dinâmica da rede de behavior settings.
Este estudo teve como foco o Plano Piloto de Brasília, o qual oferece uma oportunidade notável para a implementação de delineamentos quase-experimentais, envolvendo seus setores urbanos mono-funcionais, isto é, com funções urbanas restritas a uma só função, sem a inextricável mistura de atividades que caracteriza as cidades não-planejadas. As Superquadras são frações urbanas de uso residencial exclusivo, caso não sejam considerados os Setores de Comércio Local adjuntos às Superquadras, e as
instituições religiosas e educacionais que existem nas Entrequadras. Esse conjunto de vizinhanças urbanas notavelmente assemelhadas entre si com relação a aspectos físicos, organizacionais e demográficos permite comparações que tirem vantagem do controle que ocorre em virtude do projeto de urbanismo da cidade. As Superquadras são organizadas em faixas estendidas ao longo de uma via expressa que atravessa longitudinalmente o Plano Piloto. Escolheu-se a faixa relativamente mais homogênea do ponto de vista da composição de sua população, isto é, as Superquadras da faixa 300 do Plano Piloto de Brasília.
Espera-se que esse trabalho mostre elementos da complexa relação entre componentes individuais e supra-individuais existentes nas redes de padrões de organização de espaço e comportamento, behavior settings, que é deduzido do paradigma da psicologia ecológica, tal como definida por Roger Barker (1968) e ampliada por Allan Wicker (1983, 1987).
Nesta tese, não se traduziu a expressão original criada por Roger Barker: behavior setting. Evidentemente, a dificuldade está, em parte, na palavra setting, que pode ser traduzida por contexto, ambiente, lugar, assentamento, cenário, arranjo ou ajuste (Dicionário Inglês-Português Michaelis, 2007); mas a maior dificuldade está no próprio construto. Os behavior settings não são simplesmente situações de comportamento, frase que não traduz a dinâmica das interações presentes e não dá a adequada perspectiva de seu programa comportamental, capaz de criar condições físicas que permitem seu próprio desempenho e transformação. Também não é adequado traduzir por cenários de comportamento, pois enfatiza os aspectos físicos e relativamente estáticos desses padrões. Expressões como padrões estruturados de espaço e comportamento, ou padrões físico-comportamentais são um pouco mais fiéis ao construto, mas resultam desajeitadas, longas e distanciadas da concisa expressão original. Por respeito à tradição de uso e à especificidade da compreensão do termo original para pesquisadores com publicações em língua portuguesa (Carneiro & Bindé, 1997; Pinheiro, 1997), foi mantido o uso de behavior settings – ou simplesmente settings, em alguns momentos.