“Padre não deve se meter em política?”: conflitos de política e religião em Riachão do Jacuípe nas últimas décadas do século XX.
Texto
(2) UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA. “PADRE NÃO DEVE SE METER EM POLÍTICA?” Conflitos de política e religião em Riachão do Jacuípe/BA nas últimas décadas do século XX.. MARINÉLIA SOUSA DA SILVA. Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Programa de Pós - Graduação em História da Universidade Federal da Bahia sob a orientação da Prof. Dr. Gabriela Reis Sampaio como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em História.. ORIENTADORA: Profª Drª. Gabriela dos Reis Sampaio. SALVADOR 2005 2.
(3) Silva, Marinélia Sousa da “Padre não deve se meter em política?”: Conflitos de política e religião em Riachão do Jacuípe nas últimas décadas do século XX/ Marinélia Sousa da Silva. Salvador:Dissertação de Mestrado em História, UFBA, 2005.. 3.
(4) TERMO DE APROVAÇÃO. MARINÉLIA SOUSA DA SILVA. “PADRE NÃO DEVE SE METER EM POLÍTICA?” Conflitos de política e religião em Riachão do Jacuípe/BA nas últimas décadas do século XX.. Dissertação de mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal da Bahia – UFBA, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em História Social.. Aprovada por:. BANCA EXAMINADORA:. ______________________________________________________ Prof. Dr. Gabriela dos Reis Sampaio(ORIENTADORA). ______________________________________________________ Prof. Dr. Claúdio Pereira. ____________________________________________________ Prof. Dr. Elizete da Silva. Salvador, 30 de novembro de 2005. 4.
(5) A mainha Mariete por não permitir que a desistência fizesse parte da minha trajetória. A Hanna (minha filhinha) pela sua presença provocadora.. 5.
(6) AGRADECIMENTOS. Aos jacuipenses por serem uma inesgotável fonte de inspiração. Aos entrevistados: Sr. Zuzinha, D. Iaiá, Eli, Sr. Afonso, Tirita, D. Pissi, Sr. Zonito, D. Nair, Juce, Vital, Zé Carneiro, Sr. Evaldo, Pró Nildete, Mestre Anísio, Sr. Maninho, D. Antonia, Ari, Ivone, Ana Neta, D. Benta, D. Benedita, D. Bernadete, Sr. Lory, D. Raquel, D. Orcarlita, D. Cecinha, D. Zizi, D. Lourdes, Toinho de Abdias, Zé Expedito, Vera, Sr. Zico, D. Damiana, D. Florizete, Carlinhos, D. Éster, Sr. Nezinho, Miltão, D. Zelí, Sr. Otávio, Rita, Sr. Rui, padre Silvino, Sr. Bonifácio, D. Terezinha, Mariete, Sr. João, Hernorina, Toinho, D. Raimunda, José, Wellington, Zé Reis, D. Maria do Carmo, Sr. Bonifácio, D. Lili, Jorge, Delfina, Sr. Evaldo, Darsone, Renato, Sr. Izauro, D. Angelina, D. Zizi, Toinho de Godô. Aos que não gravaram entrevista e aos que não quiseram sequer conversar sobre o assunto. Ao padre Roberto, ao padre Valney e aos funcionários da Casa Paroquial de Igreja de Nossa Senhora da Conceição: Luzia, Luís e especialmente a Vital Martinho. Ao presidente Antonio Marcos e aos funcionários da Câmara de Vereadores de Riachão do Jacuípe: Maria José, Maria, Jandira, Roberto, especialmente a Sr. Izauro. A professora Elizete da Silva pela indicação de bibliografias. A amiga Naná pela oportunidade de conhecer a obra de Miguel Carneiro, pelas diversas correções e incentivo constante. Às amigas Scheyla e Adailza pelas correções apressadas. A Bruno, a D. Carmem, a Vicente, a Derlane, a Bilosca, a D. Bernadete, a Rosemeire pelas fotos. As escolas Maria Dagmar de Miranda, Nossa Senhora da Conceição e Osvaldo Cruz A painho e a meu irmão Danillo pela ajuda em todos os momentos. A Joselita por ter acolhido e cuidado de uma mulher prenha na cidade da Bahia. Aos professores e aos colegas do mestrado, em especial a amiga Elisângela. A CAPES. A professora orientadora, Gabriela dos Reis Sampaio, por ter aceitado esta tarefa num momento complexo, pela sua paciência e sabedoria.. 6.
(7) RESUMO. Este trabalho tem como objetivo estudar as concepções de política dos moradores de Riachão do Jacuípe – BA, através de narrativas sobre os conflitos ocorridos na cidade na década de 1990, durante o vicariato do padre José Silvino dos Santos adepto de uma evangelização libertadora baseada na Doutrina Social da Igreja. A evangelização libertadora praticada pelo padre Silvino, sua opção preferencial pelos pobres e pela defesa da justiça social incomodou e aborreceu muitos jacuipenses, sobretudo os políticos que, há três décadas no poder, estavam “acostumados” a terem os padres como aliados. Para entender os significados e práticas de política dos jacuipenses entrevistei 60 pessoas da comunidade, consultei os arquivos da Câmara Municipal e da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, os jornais que circulavam na cidade na época. Inicialmente, discuto o discurso do Riachão atrasado da década de 1990. Em seguida, trato da construção da memória do tempo da harmonia, o período anterior à chegada de padre Silvino na cidade, época em que vigoravam os costumes e as tradições religiosas e que ‘padres e políticos eram amigos’. E, finalmente, abordo o tempo do conflito marcado pelos desentendimentos entre o padre, os políticos e grande parte da população em que se intensificou a repetição da frase: “Padre não deve se meter em política”.. Palavras chave: Riachão do Jacuípe; Costume; Política; Igreja Católica; Conflito.. 7.
(8) ABSTRACT. This work focuses on the political concepts of people from Riachão do Jacuípe-BA, through the narratives of some conflicts that took place in the city in the 1990’s, the period of the work of Catholic Priest José Silvino dos Santos. He practiced an evangelical libertarianism, based on the Social Doctrine of the Church. This evangelical libertarianism, with a leaning in favor of poor people and social justice, created problems for the powerful politicians of the city, in power for over 3 decades and “accustomed” to the support and friendship of the priests. To understand the meaning and political practices of the people from Riachão do Jacuípe, I did 60 interviews, and did research in the archives of the Municipal House of the Representatives and in the Municipal Catholic Church records. At first, I discuss the ideas related to the underdevelopment of the city in the 1990’s. Then, I work with the formation of memory of the “time of harmony”, a period before the arrival of Father Silvino, when customs and religious traditions were strong and politicians and priests were friends. Finally, I discuss the time of conflict, strongly considered as the cause of disruption between politicians, priests and the population. That’s when the phrase “priests should not involve themselves in politics” became popular.. Key-Words: Riachão do Jacuípe; Politics; Custom; Catholic Church; Conflict.. 8.
(9) LISTA DE FOTOS. Foto 01 - Sisal (agave) ............................................................................ 31 Foto 02 - Trabalhadores do Sisal .............................................................32 Foto 03 – A Igreja Matriz e o Coreto ......................................................56 Foto 04 - O retorno da imagem de Nossa Senhora Santana.....................88 Foto 05 – Padre Severino..........................................................................95 Foto 06 – Procissão de Corpus Christi.................................................... 96 Foto 07 – Manifestação de Trabalhadores Rurais..................................131 Foto 08 – Procissão de São Roque.........................................................140 Foto 09 – Grito dos Excluídos................................................................160 Foto 10 - Padre Silvino abençoando Herval Campos.............................163. 9.
(10) SUMÁRIO. Introdução .............................................................................................................. 11 Capítulo I – Riachão do Jacuípe, anos 1990: querelas sobre o atraso .................. 18 Do veneno à maldição: antes do meu tempo........................................................... 32 Capítulo II - Políticos e padres nos “tempos da harmonia” ................................... .46 Dr. João Campos: “político, santo, benfeitor ...”..................................................... 54 Pe. Hélio Rocha: “um padre político”..................................................................... .64 Problemas na harmonia ........................................................................................... 83 Capítulo III -“Padre não deve se meter em política”........................................... ...93 A Igreja Católica em Mutação .................................................................................96 Parte I – A narrativa do conflito.............................................................................103 Outros indesejados na política jacuipense...............................................................115 Flores no terreno insólito........................................................................................120 Parte II – A palavra e a circunstância: a eleição de Herval Campos.......................136 Considerações Finais ..............................................................................................163 Bibliografia ............................................................................................................174 Fontes.......................................................................................................................177. 10.
(11) INTRODUÇÃO. “O que criou a humanidade foi a narração.” Pierre Janet. Do desejo de entender a política de Riachão do Jacuípe - o lugar de onde sou - nasceu este trabalho. Desde a adolescência ouço as vozes de minha terra resmungarem que a cidade é atrasada, que nada de bom que chega, nela permanece. Observava que na maioria das narrativas, a causa do atraso local era atribuída aos políticos que, dispostos a satisfazerem seus interesses pessoais, não se preocupavam com o destino da cidade e de seu povo. Estas reflexões ganharam novo impulso quando, durante o curso de Licenciatura em História, na Universidade Estadual de Feira de Santana, entendi que deveria estudar o coronelismo de Riachão do Jacuípe. Naquela época, tinha a convicção de que este conceito iria me ajudar a entender os arranjos da política local que tanto me inquietavam. Afinal de contas, a cidade reunia os indícios necessários, tinha ruas, colégios e praças com nomes de coronéis; eu mesma tive colegas de infância bisnetos daqueles poderosos. Li poesias e contos que narravam feitos e desgraças daqueles homens. Ouvia meus avós, tios e amigos mais velhos contarem causos engraçados e cruéis dos tempos dos coronéis. Logo vislumbrei a possibilidade de estudar o coronelismo da cidade através da oralidade de seu povo. Enquanto lia considerável número de trabalhos acadêmicos recentes e antigos, revistas e jornais sobre este assunto, assistia noticiários de televisão, filmes e novelas que sugeriam que a política nas cidades pequenas do interior do nordeste moldava-se aos comandos do chefe ou do coronel local e que, por conseguinte, a população miserável submetia-se aos seus desmandos. Vale salientar que os maiores órgãos de imprensa do país contribuíam muito para a inculcação destes princípios, dando ênfase a tais análises, sobretudo quando se referiam ao caso específico do Estado da Bahia e à figura de Antonio Carlos Magalhães (ACM) - revistas de renome nacional o classificam de “coronel nordestino”, “coronel do PFL”, rotulam-no 11.
(12) como “um raro caso de coronelismo urbano1”. Seguindo esta perspectiva é interessante observar a definição do professor de Ciência Política da Universidade de Campinas (Unicamp) Caio Navarro Toledo, ao analisar a conjuntura política do país no início do ano de 2001, que afirmou:. É preciso lembrar que este autêntico Coronel - como os da República oligárquica sempre tratou (e continua tratando) seus adversários com a chibata na mão. Os setores democráticos da Bahia são testemunhas do arbítrio e da virulência deste tiranete que, controlando a política local e os meios de comunicação, manda reprimir e calar as oposições combativas. 2. Lembro-me que todos os prefeitos eleitos em Riachão do Jacuípe na época (décadas de 1980 e 1990) eram aliados de ACM. Diante destas leituras era impossível não ver na cidade um típico caso de coronelismo. Seguindo esta lógica, o eleitor era construído da seguinte maneira:. O oprimido vota no opressor; do outro lado, o opressor, que tem todos os desejos satisfeitos, acha que o mundo lhe pertence. Daí a auto-estima esmagada e a capacidade de suportar grandes frustrações sem reclamar que caracterizam a psique camponesa. O oprimido vota direto no opressor, no coronel tipo ACM, Jader Barbalho etc.3. Transportava esta leitura para a minha realidade, e observava que a população carente da Bahia era a maior vítima deste esquema aviltante - sobretudo do interior, onde ACM, mancomunado com os prefeitos, conseguia expressivas vitórias eleitorais. Neste contexto, a válvula de escape da população miserável, para mudar a realidade hostil, era migrar para os grandes centros do Sudeste do país, para a capital do Estado, ou até mesmo para Feira de Santana, a cidade vizinha mais desenvolvida. Nestes lugares o sertanejo nordestino, em particular, o jacuipense, ia aumentar o número de moradores das favelas e engrossar as estatísticas de outros problemas sociais. Causava-me grande incômodo conceber a idéia de que tinha nascido numa região atrasada, que eu e os meus éramos um dos entraves ao desenvolvimento do país, a exemplo das imagens da seca, onde os sertanejos eram tidos como infames incultos além de serem ridicularizados em programas de humor. Estudar a política da. 1. Ver. Observatório de Imprensa – 31/01/2001. www.observatóriodeimprensa.org.br acessado em 13/10/ 2005. TOLEDO, Caio Navarro. Cenas Parlamentares: Simbolismo e submissão ideológica. Ver site: Gramsci e o Brasil. Política 2001. www.artnet.com.br/gramsci/arquiv154.htm acessado em 13/10/ 2005. 3 Folha de São Paulo 10/05/01.Rose Marie Muraro ‘Uma nova lógica no poder’ 2. 12.
(13) minha cidade era uma forma de reagir a isso. Entusiasmada com a idéia e motivada pelo desejo de contribuir para a mudança da realidade local, construí um projeto de pesquisa. No decorrer do curso, a contrapelo dos estudos de história recomendados, me encantava com toda e qualquer leitura sobre história política. Os professores e professoras falavam muito de história das mulheres, da escravidão, dos operários, da família, da criança, das religiões, da relação entre história e literatura, entre outros temas que não me interessavam tanto quanto entender a política de Riachão do Jacuípe. Depois de muitos desencantos, fui me desfazendo da pretensão ingênua de achar que ia mudar o mundo ou o Riachão. Todavia continuava curiosa por entender as lógicas da política local e, num dado momento, entendi que o conceito de coronelismo já não dava conta de produzir uma leitura razoável sobre aquele contexto4. No último semestre da graduação, cursando a disciplina História das Religiões, fiz leituras na área de história cultural voltadas para a penetração do sentimento religioso nos conflitos e dilemas de nosso tempo. O que me indicou novas perspectivas de investigação e reascendeu a minha vontade de fazer pesquisa sobre a minha cidade e os meus. Resolvi então, conversar com meus conterrâneos, indagar as suas idéias de política e o que esperavam dos políticos. Na ocasião, escrevi algumas laudas sobre o que denominei de Teologia da Libertação em Riachão. Vislumbrava a possibilidade de estudar a política jacuipense a partir da análise dos problemas ocorridos a partir da chegada de padre José Silvino dos Santos na cidade em 1991. Isso se transformou na monografia da Especialização em História da Bahia. 5. e no projeto com o qual ingressei no mestrado, cuja preocupação. central fora entender os jeitos dos jacuipenses viverem e significarem a política no cotidiano. A partir do contato com as fontes: as Atas da Câmara de Vereadores de Riachão do Jacuípe, os livros de Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, os contos e poesias de Miguel Carneiro, da leitura dos jornais da época, dos vídeos dos movimentos protagonizados pelo padre Silvino e seus leigos nas ruas da cidade, fui construindo minha leitura sobre o Riachão recente. Observei que passados cinco anos da saída do pároco da cidade, ainda era comum ouvir jacuipenses repetirem a frase que intitula esta dissertação: “Padre não deve se meter em política”, referindo-se a ele. Daí brotaram as questões norteadoras deste trabalho: Que comportamentos atribuídos ao pároco geraram tal comentário? Como, na compreensão dos jacuipenses, políticos e padres se relacionavam até então? Quais os entendimentos de política forjados pelos moradores da cidade a partir da análise dos conflitos ocorridos na época de padre Silvino? Até que ponto os jacuipenses eram 4 5. Essa questão será discutida no decorrer do texto. Neste trabalho desenvolvi uma análise da documentação escrita dos anos 1990.. 13.
(14) vitimas de um sistema opressor comandado pelos políticos da terra que culminavam com o discurso sobre o atraso da cidade? Na busca por respostas a estas perguntas, desenvolvi minha pesquisa e análise; a partir das entrevistas e das fontes escritas, atentando para o cotidiano, os costumes partilhados pela comunidade e os conflitos estabelecidos. Fiquei alerta para a forma como os moradores da cidade comentavam o assunto, nas ruas, em conversas com amigos, em programas de rádio - desenvolvi uma espécie de sensibilidade para o tema. Estar com os entrevistados e com os que não quiseram conversar sobre o assunto, ouvir seus medos, anseios, receios e estratégias ante as perguntas que lhes dirigia fez ressurgir a vontade de fazer pesquisa. Nestas ocasiões questionavam: “por que você escolheu logo eu?”; outros alegaram: “eu não tenho leitura, não vou saber lhe dizer nada que preste” - e cuidavam imediatamente de me fornecer uma lista de pessoas indicadas para falar do assunto. Entre elas, o juiz da cidade, religiosos, professores, funcionários públicos, pessoas que tinham leitura e que sabiam falar, por isso, na visão destes, aptas a contribuir. Outros entrevistados foram mais contundentes, e num tom misterioso, perguntavam: “para quê você quer saber disto, moça?”. As palavras do presidente da Câmara Municipal, quando lhe solicitei permissão para ler as Atas da Casa, foram incisivas: “Você não vai encontrar nada de política do Riachão lá nas atas”. Reações compreensíveis se for lembrado que não era comum pessoas se interessarem por estas informações - é importante salientar, que, até aqui, não foi feito nenhum trabalho mais detalhado sobre a política recente da cidade. Nestes momentos, dialoguei com a maioria dos depoentes, expliquei o objetivo do trabalho, o que era a pesquisa, a universidade, a importância da fala de cada um deles para a sua realização. Muito antes de ganhar a forma que agora apresento, a tentativa de responder as curiosidades dos depoentes é uma das contribuições deste trabalho. Compartilhar da alegria de muitos, quando, não obstante demonstravam algum receio de terem falado dos vivos e dos riscos inerentes a tais declarações, animaram-se por terem sido entrevistados e por gostarem de falar das coisas da juventude vivida no “Riachão véio”. É possível que lembrar ‘daqueles tempos’, embalados pelo saudosismo, tenha lhes proporcionado alguma satisfação - geralmente soltavam um riso maroto, misto de desconfiança e animação, e depois argüiam: “Tu vai levar isto lá pra Salvador pros doutor vê, é menina? E tu acha que eles vão dá valor a isso?”. O fato de ser uma pesquisadora de Riachão, de quem eles conhecem os pais e os avós, pessoas com as quais se irmanam, que estava fazendo uma pesquisa sobre a cidade, talvez também tenha sido motivo de orgulho para muitos, que não descuidavam em dizer: “Boa sorte, minha filha. Deus lhe ajude que você progrida em seus estudos”. Por essas e outras tantas sensações, antes de se tornar esta pilha de 14.
(15) papel encapada e encadernada, igual e a tantas outras, acredito que esta pesquisa foi relevante por que ouvi o resmungo do meu povo, por que cheguei mais pertinho, adentrei em suas casas, em sua religião, em sua forma de encarar a política e em seus sentimentos - senti o pulsar de minha gente. Neste percurso fiz questão de pedir a permissão dos entrevistados para utilizar recortes de seus relatos, bem como respeitei às suas vontades durante as entrevistas. Nestas ocasiões, geralmente quando iam tratar de um assunto comprometedor, solicitavam que eu desligasse o gravador e assim o fiz. Quando, porventura, usei estas informações no texto não expus o nome do depoente conforme fora previamente combinado. A partir da memória dos entrevistados e da minha própria, construí esta narrativa que lhes apresento. Sou também parte deste trabalho, na medida em que me propus a tratar das memórias de jacuipenses das décadas últimas décadas do século passado – período que corresponde a infância e ao início da minha juventude correndo de bicicleta pelas ruas da cidade. Minhas lembranças também me indicaram pistas dos caminhos que deveria seguir. Rememoro com saudades o tempo em que meus avós e tios maternos moravam na roça, onde eu passava minhas férias escolares. Lembro-me de fins de tarde em que vô Zé partia a maior melancia da despensa; quem estivesse ali, chupava, se lambuzava até se fartar. Adorava ir de carroça-de-burro até o roçado (pedaço de terra destinado ao cultivo de produtos para o consumo da família); lá, meu avó colhia aipim, abóbora, batata doce, quiabo, maxixe. No armazém ao lado da casa havia dornas onde ele guardava milho, feijão e farinha; eu, meus primos e primas adorávamos traquinar naquele lugar. Para uma menina da cidade, jogar três caroços de feijão numa cova e depois passar o pé era um trabalho muito divertido, do mesmo modo que ir bem cedo ao curral buscar leite para o consumo da casa. Minha vó Zefa fazia questão de me arranjar esse serviço logo cedo. O friozinho da manhã regava os meus primeiros e orgulhosos dias de trabalho na roça. Dizia sempre que se minha mãe deixasse, eu ia morar lá. Quando o sol começava a raiar no horizonte meu avô cuidava logo de gritar na porta do quarto: “Levanta desta cama, nigrinha. Tá na hora de procurar o que fazer”. Ainda desorientada, ouvia o canto dos galos, resmungava nos pensamentos desejando mais uns minutinhos de sono. Durante o ano, meus avós nos visitavam freqüentemente em Riachão sempre vinham no banco fazer alguma movimentação financeira. Para meu irmão e eu, isso era motivo de grande felicidade, porque além de matarmos a saudade dos nossos avós e tios, tínhamos a certeza que traziam uma sacola de náilon colorida com todas aquelas frutas e raízes, ovos; não faltava também uma garrafa de vidro com leite. Gostávamos muito de ganhar umbu e licuri. A idéia 15.
(16) de que aqueles alimentos eram mais gostosos do que os que minha mãe comprava na feira da cidade era muito presente para nós – e minha mãe sempre se incumbia de reforça-la. Perto de Riachão havia a roça de meu tio Maninho, aonde íamos com meu pai de lambreta, e comíamos manga, cambucá, pinha, goiaba e até fruta do conde. Meu pai, na oficina de bicicleta, sempre ganhava alguma coisa dos fregueses em dias de feira (sábado): maxixe, feijão de corda, umbu. O tempo foi passando, meus avós vinham cada vez menos para Riachão, preferiam ir ao banco de Valente6. Quando vinham à cidade, já não traziam mais a sacola de náilon com as frutas tão desejadas, apenas o leite, vez ou outra tripa e pelanca de carneiro seca, que eu e meu irmão apreciávamos muito. Quando estava começando a escrever esta dissertação fui arrebatada por estas lembranças. De acordo com os relatos analisados, até meados da década de 1980, Riachão do Jacuípe ainda vivia dos despojos do sisal, tinha uma economia forte e era uma espécie de centro da região, com bancos movimentados; seu povo trabalhava nas indústrias de beneficiamento da fibra, e na roça sempre tinha safra dos produtos acima citados - geralmente o povo da roça não comprava abóbora, feijão ou milho na feira. A partir da segunda metade daquela década o preço da fibra do sisal caiu e, junto com ela, o desenvolvimento do lugar. Anos mais tarde, a cidade perde o posto de uma das maiores exportadoras do produto do país e passa a amargar o título de lugar seco e atrasado. Fecham-se agências bancárias, agiganta-se a fala sobre o atraso. Um caso antigo, a narrativa de uma maldição que acompanha o destino do lugar, ganha eco na voz cansada dos mais velhos, e será narrado por mim. Esta será a matéria do primeiro capítulo deste trabalho. Ao transcrever as entrevistas entendi que os depoentes falavam de dois tempos da memória que ora se completam, ora se opõem: o tempo da harmonia e o tempo do conflito. Estes foram escolhidos para dar continuidade a esta narrativa. O tempo da harmonia será discutido no segundo capítulo – composto, sobretudo, pelas lembranças do período anterior à chegada de padre Silvino, onde predominam falas sobre a prosperidade política e religiosa (católica) da cidade, com destaque para a atuação de Padre Hélio Rocha e para o prefeito de três mandatos - Dr. João Campos, “um homem santo”. O tempo dos conflitos será construído no terceiro capítulo, cujo foco será padre Silvino, a partir da análise de relatos e silêncios sobre as críticas, decepções e aborrecimentos. Tratarei especialmente dos modos de fazer a política na cidade, buscando compreender as concepções de política dos jacuipenses, e como. 6. Valente é uma cidade próxima também pertencente a região sisaleira que conseguiu vencer a crise e criar meios de beneficiar o produto e se tornou um expoente da economia regional, a partir da criação da APAEB – Associação dos Pequenos Agricultores do Município de Valente .. 16.
(17) estas noções estão ligadas aos costumes – especialmente os religiosos. Padres, políticos e a população não são visto em separado, mas, sobretudo como partes da engrenagem da vida local que se inter-relacionam e partilham memórias e experiências. Não se trata de uma história de vítimas e algozes, mas de um relato particular sobre os homens e mulheres de minha terra, quando construíam desejos e crenças com palavras vadias, segredos sorrateiros, risos soberbos.... 17.
(18) CAPÍTULO I. RIACHÃO DO JACUÍPE, ANOS 1990: QUERELAS SOBRE O ATRASO.. “Deram veneno ao padre. Essa terra está excomungada, num fica padre. O padre disse né, como é o provérbio? ‘Riachão não vai crescer nunca’, mais ou menos assim: ‘Riachão tu vai ficar excomungado, atrasado, tu vai crescer como rabo de égua: de cima para baixo’. Entendeu? Riachão não progride, não traz assim um desenvolvimento. Alguém acha que isso teve uma influência. Superstição, sei lá. Entendeu? Não sei explicar muito bem o caso. O caso do padre que teve ou foi problema político, política de religião, não de evangelho, de, de famílias mesmo, alguma coisa sabe, toda vida teve7”. Prof.º Zé Reis. “Riachão é um pedaço de carne seca, Grudado no fundo de um mutulhão8”. Miguel Carneiro. Riachão do Jacuípe, bocadinho de sertão baiano, outrora (1887) fora elevado à categoria de Vila dedicada a Nossa Senhora da Conceição do Riachão do Jacuípe – a padroeira da cidade. Nos idos de 1990, contava com aproximadamente trinta mil almas, participantes e/ou. 7. Entrevista a José Reis de Santana, professor aposentado, 62 anos de idade, em 17/07 2004 – Riachão do Jacuípe (conhecido popularmente como Prof.º Zé Reis). 8 CARNEIRO, Miguel A. Os Cânticos. Salvador: EGBA, 1993, p.12. (poesia sem título). 18.
(19) expectadoras da performance político-evangelizadora do padre José Silvino dos Santos9. Escrever sobre a vivência dos jacuipenses nos anos de 1990 é um exercício de rememoração das frescas lembranças dos primeiros anos da minha juventude. Um trânsito por tempos sociais diferentes. Falarei do que vivi e do que ouvi, dos que estavam à minha volta. A intenção deste estudo é analisar Riachão, a partir dos recursos utilizados pelos seus moradores para explicá-lo, para esculhambá-lo, para amá-lo... As citações que abrem este capítulo partiram de jacuipenses, produto de um “consenso” predominante que considerava Riachão do Jacuípe uma cidade atrasada. O atraso da cidade extrapolava os liames do falatório geral e ganhava conformação nas poucas obras acadêmicas e literárias, jornais e revistas que se ocuparam de produzir leituras sobre o município. A riqueza e diversidade de construções alimentadas pela comunidade para explicar o atraso no seu cotidiano não serão exploradas neste texto. Para esta ocasião, elegi duas construções coletivas sobre este tema que, de alguma forma, se relacionam com a polêmica deflagrada na cidade, a partir da atuação de padre Silvino, tendo em vista que o contexto de composição do discurso do atraso era a tônica das falas do pároco à comunidade quando, por exemplo, convocava os cristãos católicos a analisarem as condições sociais e econômicas do município como ponto de partida para repensarem o comportamento político costumeiro. A recorrência com que aparecem, nas fontes da década de 90, as determinantes climáticas e a decadência do cultivo do sisal no município será o primeiro indício perseguido sobre o discurso do atraso na cidade. Posteriormente, analisarei a fala e o silêncio de alguns dos mais velhos10, o que atiçou a minha curiosidade para uma história de maldição condensada na expressão misteriosa: “Riachão não vai pra frente porque aqui, antigamente, mataram um padre envenenado11”. O contista Miguel Carneiro, em meados dos anos 90, assim descreveu Riachão: “O sol tomava o meio do céu, o povo continuava encaimbrado de mesmice12”. Para muitos, o afinco com que o sol brilha nessas terras é a causa maior do atraso, da pobreza e do sofrimento dessa gente sertaneja. Com baixa pluviosidade média anual, chuvas mal distribuídas, altas temperaturas (média de 24,6º C), clima semi-árido, Riachão do Jacuípe era indicado como mais um dos municípios do nordeste baiano inserido no polígono das secas - com mil cento e dezenove quilômetros quadrados de terras pertencentes a esta região13. Na década de 1990, as 9. O Censo do IBGE de 1996 informou que Riachão do Jacuípe tinha 30 456 habitantes. Conversei com 30 pessoas com mais de 50 anos sobre a história do padre envenenado e apenas 12 lembraram ou quiseram tratar do assunto. Percebi que alguns sabiam, no entanto preferiam não se pronunciar sobre o caso. 11 Presente na fala de parte dos jacuipenses em conversas sobre a falta de desenvolvimento da cidade. 12 CARNEIRO, Miguel. O diabo em desordem. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo EGBA, 2001. 13 IBGE - súmula Riachão do Jacuípe baseado no censo de 1996. A Região Nordeste ocupa 18,27% do território brasileiro, com uma área de 1.561.177,8 km². Deste total, 962.857,3 km² situam-se no Polígono das Secas, 10. 19.
(20) secas pareciam ser a maior marca desse “pedaço de chão esquecido por Deus e pelos homens”, como se costuma dizer por aqui em época de temporão14. A mesmice, o cochilo na espreguiçadeira ao entardecer dos homens do sertão do Riachão, na construção do artista, parece ser o recurso utilizado para opor a vida dos sertanejos à dos cidadãos das grandes cidades, marcada pela rigidez dos horários de trabalho na indústria, pelo asfalto, pelas tecnologias avançadas, pela vida prática. Para Miguel Carneiro, os homens do sertão estavam alheios, abandonados à má sorte de conviver com a seca e com os desmandos dos coronéis, acomodados numa cidadezinha quase desértica, em tardes de sol a pino:. Foi um tempo em que não chovia naquele termo e a paisagem virava pó. Se alguém consultava uma geografia e localizava aquele ponto no mapa, logo exclamava: Hum! Foi o Demo quem mudou de lugar, já não mais existe.15. Os longos períodos da estiagem registrados e divulgados para o Brasil e o mundo através da música, da literatura, da imprensa e do cinema16, mostram o semi-árido como um lugar que, devido a seus caracteres naturais, relega à maior parte de seus habitantes a miséria. Se as chuvas “tivessem a regularidade do registro, o sofrimento não seria a grande constante no caminhar dessa gente17”. Sertão e sofrimento soam como uma combinação perfeita que se “cristalizou” nos discursos sobre o interior nordestino.Os diagnósticos governamentais presentes na mídia apresentam o semi-árido como região-problema do país com a maior parte da população abaixo da linha de pobreza. Em 1996, Riachão do Jacuípe era classificado entre. delimitado em 1936, através da Lei 175, e revisado em 1951. O Polígono abrange oito Estados nordestinos - o Maranhão é a única exceção -, além da área de atuação da Sudene em Minas Gerais, com 121.490,9 km², e compreende as áreas sujeitas repetidamente aos efeitos das secas. Já o Semi-Árido ocupa 841.260,9 km² de área no Nordeste e outros 54.670,4 Km² em Minas Gerais e caracteriza-se por apresentar reservas insuficientes de água em seus mananciais. 14 A expressão “época de temporão” refere-se ao período de estiagem. 15 CARNEIRO, Miguel. 2001. op. cit. 16 Existem inúmeras obras de arte que tratam das secas no nordeste citarei apenas algumas. Filmes: Ver SANTOS, Nelson Pereira dos. Vidas Secas. 1963; baseado no romance de Graciliano Ramos Vidas Secas. Ver COIMBRA, Carlos. Lampião Rei do Cangaço, 1963. Na música expressão maior foi Luiz Gonzaga através de sucessos como Triste Partida, Asa Branca. Na literatura ver QUIROZ, Rachel. O Quinze. Rio de Janeiro: Siciliano. 1998; Ver AMADO, Jorge. Tereza Batista Cansada de Guerra. Rio de Janeiro: Record, 1986 inspirou mine-série de mesmo título produzida pela TV Globo na década de 1990 e AMADO, Jorge.Seara Vermelha. Rio de Janeiro Record, 1986. Na iconografia ver PORTINARI, Cândido.Família de Retirante, 1944 , entre tantas outras. 17 SILVA, Cândido Costa e. Roteiro da Vida e da Morte. Col. Ensaios 81. São Paulo: Ed. Ática, 1982.. 20.
(21) esses municípios com baixos índices de desenvolvimento econômico e social do país, portanto, atrasado18. As condições climáticas apontadas acima prejudicavam substancialmente as práticas da pecuária e da agricultura - as tradicionais vocações da economia local. Os históricos atestam que a cidade surge de uma fazenda de gado de João dos Santos Cruz desmembrada da sesmaria do Conde da Ponte no século XVIII19. No livro Fidalgos e Vaqueiros, Eurico Alves Boaventura descreve o lugar como o berço da civilização do pastoreio, contemporânea da civilização da cana-de-açúcar. Foi aquela que movimentou o sertão:. A marcha lenta das boiadas nos ínvios caminhos dos sertões baianos traçou a rota primitiva dos destinos da Colônia que Portugal criou neste lado do Atlântico. E parece que inevitável, mas recomendável lentidão das marchas dos vaqueiros se impregnou no ritmo do nosso progresso, porque retardou muito o eco do aboio até chegar aos ouvidos do mar. 20. O autor refere-se à zona de Feira de Santana, da qual Riachão fazia parte nos idos do século XVIII, conhecida na época como Campos do Jacuípe onde se manifestavam as fazendas de criar auto-suficientes. Segundo registro do IBGE, em 1955 a principal atividade econômica da cidade era a agricultura (milho, feijão, mandioca, mamona, fumo e sisal) e ainda contava com um rebanho de 120.000 cabeças. Boaventura compara romanticamente o passo vagaroso do boi e o canto dos vaqueiros (aboio) aos destinos evolutivos do sertão. Por outro lado, anos antes, Roger Bastide se referia a região como “sertão da seca contra o litoral da cana-de-açúcar21”. Isso nos dá um exemplo de como o estereótipo progresso/litoral, atraso/sertão com relação à Região Nordeste vem sendo cristalizada no decorrer da história do país pela produção intelectual. O litoral fora construído como o lócus do desenvolvimento e da civilização, enquanto esse sertão ficara conhecido pela vagareza com que chegavam as inovações, quando elas chegavam. O estudo de Rafael Ribeiro, baseado na análise de jornais da década de 1990, constatou que a explicação da seca no nordeste obedece a um encadeamento lógico difundido pelos meios de comunicação e pela maior parte dos trabalhos acadêmicos. Seria aquela, originária da falta d’água devido à escassez e à irregularidade das chuvas, fator esse responsável pelo enfraquecimento da agricultura e da pecuária na região; a 18. SILVA, Gladston. Riachão Recente: Um panorama atual da política, economia e sociedade jacuipense. Feira de Santana: Clip Serviços Gráficos, 2003. 19 BOAVENTURA, Eurico A. Fidalgos e Vaqueiros. Salvador, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1989. 20 Idem. p. 15. 21 BASTIDE, Roger. Brasil, terra dos contrastes. Tradução de Maria Izaura Pereira de Queiroz. São Paulo: DIFEL 1959, p. 7.. 21.
(22) fome e a miséria completam a composição do quadro do atraso econômico. Tal discurso, envolto no fatalismo de ordem natural, é classificado pelo autor como um caso claro de determinismo geográfico, a despeito do desuso da teoria determinista no meio científico. O autor argumenta que, em outras regiões do planeta (Califórnia e Israel), o semi-árido não lançou suas populações a um estado de miséria22. A difusão de tais idéias, presente nos discursos das elites econômicas acaba por contaminar o imaginário do homem da região, reforçando sua impotência diante da intolerância das secas, vistas por esta ótica como um fenômeno puramente natural e, portanto imutável. Em sua pesquisa, Rafael Ribeiro também analisou os textos produzidos pelo Instituto do Ceará em fins do século XIX, nos quais constatou que, na época da efervescência nacionalista dos Institutos Históricos e Geográficos, afirmava-se que o clima da região “condicionaria o progresso, a seca era apenas uma adversidade temporária. (...) Clima altamente favorável ao desenvolvimento do homem23”. O clima, que propiciaria o progresso começa a ser responsabilizado por todas as adversidades no centenário seguinte. No início do século XX, intensificam-se as referências às secas e, segundo Margareth Rago, são criados o Nordeste e os nordestinos. Para ela, “os discursos instituintes da idéia de nordeste enquanto um espaço natural; (...) o recortam, classificam, definem, o incluem na história, simultaneamente excluindo-o da cultura e da civilização24”. Durval M. de Albuquerque, na obra A Invenção do Nordeste, localiza 1877 como o ano de descoberta da seca, arma política do discurso regionalista do norte que emocionava, mobilizava e que podia servir de argumento para exigir recursos financeiros do Estado25. Foi um dos discursos geradores da idéia de nordeste, que unificaria diversos interesses regionais em torno de um problema comum, pois todos estavam sujeitos ao mesmo fenômeno climático. Nesse âmbito, o constructo sertão-nordestino suplantou as fronteiras interestaduais. Riachão do Jacuípe seria só mais uma cidadezinha, incluída nesse emaranhado discursivo, irmanada a tantas outras do Piauí, da Paraíba, do Pernambuco, do norte de Minas, pelos laços da miséria.. 22. RIBEIRO, Rafael W. Determinismo Geográfico na análise do Nordeste. Anuário do Instituto de Geociências UFRJ vol. 22 1999. www.igeo.ufrj.br/. (acessado em 09/01/2005) 23 Idem. 24 RAGO. Margareth. Prefácio: Sonhos do Brasil. In. ALBUQUERQUE JR. Durval M. A Invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Ed. Massagana; SP: Cortez 2001. 25 ALBUQUERQUE JR. Durval M. A Invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Ed. Massagana; SP: Cortez 2001. p.58.. 22.
(23) Frederico de Castro Neves, na obra A Multidão e a História26, faz um estudo das ações de massa no Ceará entre 1877 e 1950. Interpreta a organização esporádica da multidão faminta, seja em Fortaleza ou nas grandes cidades do Ceará, pressionando e negociando o atendimento urgente de suas necessidades com as autoridades instituídas, como ação de um sujeito político coletivo, a despeito das análises que as classificam como irracionais ou nãopolíticas. Desta forma, contesta a produção intelectual que constrói o homem do sertão como uma indolente vítima da seca. Além do regime de chuvas e das altas temperaturas, a vegetação e a hidrografia são conceitos geográficos que compõem as características do clima enquanto categoria de análise. A fala do atraso na década de 1990 se contrapõe a um tempo em que predominava uma cumplicidade entre o homem e a natureza. Em decorrência do ponto de vista discutido, tratar do discurso ‘atraso jacuipense’ sem se referir, mesmo que rapidamente, à caatinga e ao rio Jacuípe, é trair a memória do povo da terra e possibilitar à posteridade apenas a sujeira e a devastação. Ou, simplesmente, perpetuar o atraso como uma sina incorrigível, contribuindo para a idéia da impotência, do analfabetismo, da pobreza dessa gente. Acredito na história que eleva, que mexe nas lembranças, que é capaz de provocar um sorriso, um sentimento de partilha entre homens e mulheres dessa cidade. De acordo com estudos da Companhia de Ação e Desenvolvimento Regional CARBA, a região semi-árida da Bahia é aquela cuja área coincide com o domínio da caatinga, advertindo que os limites não são os mesmos27. Conforme relatos orais, em Riachão até os anos de 1950, a caatinga era a vegetação predominante, o espinhoso desafio aos primeiros homens que penetraram nestes sertões, onde estrearam domínios, armados com machado e facão. A partir de 1970, os poetas da cidade cantam, com estima e melancolia, a saudade das árvores e pequenos arbustos contorcidos onde se escondiam veados, raposas e gatos do mato. O estudo de Guimarães sobre Riachão discute a questão da seca na cidade, analisa as condições biofísicas e, a partir das lembranças da comunidade, conclui que esse fenômeno tem-se agravado nos últimos tempos em resposta ao desmatamento desordenado da vegetação28. Conforme relatos,. 26. NEVES, Frederico de Castro. A Multidão e a História: Saques e outras ações de massa no Ceará. Rio de Janeiro: Relume Dumará; Fortaleza, CE: Secretaria de Cultura e Desporto, 2000. 27 Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional – CAR (BA). Alternativas para o desenvolvimento da Região Sisaleira. Salvador: CAR, 1994. 28 GUIMARÃES, Ana Maria C. Degradação Ambiental em Riachão do Jacuípe: a cidade, o rio e seu povo. Monografia da Especialização em Geografia do Semi-Árido apresentada à Universidade Estadual de Feira de Santana.Feira de Santana, 2003. Esta autora faz uma importante discussão a partir da memória dos jacuipenses sobre a caatinga e sobre o rio Jacuípe.. 23.
(24) As chuvas eram freqüentes e mais certas. O período de estiagem compreendia os meses de julho, agosto e setembro, indo no máximo até dezembro. Dificilmente não aparecia o cambueiro de setembro, que eram as chuvas que antecediam as trovoadas, permitindo que a vegetação refizesse seu ciclo de floração.29. O cambueiro de setembro era responsável pelas colheitas de verão. Nas propriedades rurais, existiam os roçados, onde eram cultivados produtos para o consumo familiar. Melancia, abóbora, aipim, batata, maxixe, quiabo, mandioca eram produtos da época. Entre os meses de abril e maio, na época de São José, plantavam as roças de milho e feijão, ingredientes essenciais do cardápio do sertanejo, por conseguinte, fundamentais para o abastecimento das famílias no decorrer de todo ano. Esses produtos também eram comercializados. Na década de 50, “o município era considerado grande produtor de milho, feijão e sisal no Estado30”. A fartura na zona rural era partilhada com a zona urbana. Era comum, “pessoas da roça” trazerem para amigos e parentes que moravam na rua (na cidade) cozidos de feijão, molhos de maxixe, melancias, abóboras, beiju... Além desses, folha larga, licuri, umbu, jabuticaba, cajá são frutas da caatinga que alegravam as crianças do sertão do Riachão. Além do sabor de suas frutas, a caatinga era o cenário preferido dos casos de assombração, das aparições das mulas-sem-cabeça e dos lobisomens. Raposas e cobras habitavam aquele lugar misterioso que exigia cautela dos que não o conhecessem. Espinhos ou um inocente cansanção poderiam causar sérios transtornos a um transeunte despercebido. Estudos realizados pela CEI31 apontam que, em 1980, o município possuía 44381 hectares de matas e florestas; em 1985, esta área era apenas de 10163 hectares. No intervalo de apenas 5 anos, a caatinga foi reduzida em 78%. Considerando o argumento de que a diminuição da cobertura vegetal aumenta o risco de estiagem, esse dado pode ser uma explicação para o agravamento desses problemas. Desde a década de 70, o governo federal, através do Banco do Brasil, fez investimentos na região, priorizando a ampliação de pastagens para a criação de gado bovino em substituição ao caprino; aquele com resistência bem menor às secas. Riachão já fora conhecido como a “terra do bode32” nos anos 50 e 60, entretanto a redução dessa criação foi tão significativa que nem aparecem referências sobre esses animais nos levantamentos estatísticos realizados na década de 80. Essa é apenas uma análise recorrente. 29. Entrevista realizada com Sr. Zico. APUD. GUIMARÃES, 2001. op.cit. Enciclopédia dos Municípios, 1956. Op. cit. 31 BAHIA. SEPLANTEC. CENTRO DE PLANEJAMENTO DA BAHIA,CEPLAB. Informações Básicas dos Municípios Baianos; por microrregiões homogêneas. Salvador 1999. 32 TRANSE. Primeiros Informes de Riachão do Jacuípe. Feira de Santana, 1989. 30. 24.
(25) para explicar o problema. O discurso racional auto-suficiente sobre as vocações da região direcionou os incentivos governamentais. Percebe-se que as escolhas políticas foram fundamentais para a conformação da paisagem do município. A fala da memória também acena para o rio Jacuípe. Os mais velhos contam que os primeiros descendentes da família Carneiro, católicos apostólicos, que habitaram a região no século XVIII, começaram a construir, na sede da velha fazenda Bom Sucesso, uma igreja para professar a sua religião, onde seus antepassados afirmaram ter ocorrido uma Santa Missão.. No entanto, as coisas se modificaram; havendo como há, sempre mais abundâncias no Riachão do Jacuípe (rio Jacuípe) que no rio dos Tocós. E por que havia lá em Riachão do Jacuípe terras da mesma família; a fazenda Barra e adjacências, a conselho da autoridade Eclesiástica, foi transferida para lá a igreja; passando a ser freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Jacuípe.33. Tanto nesta versão menos conhecida do histórico da cidade como na outra34, o rio está incluso na explicação de sua origem. Com águas instáveis, o Jacuípe de antigamente era lugar de banhar-se, lavar, beber, pescar... Homens e mulheres tinham lugares determinados para realizar o asseio ao entardecer. Minha avó Angelina conta, com alegria e saudades, dos tempos de menina em que ia para o rio junto com sua mãe lavar roupa; lá brincava com outras meninas, também acompanhadas de suas mães. No “berço” do rio, fez amizades que duram até hoje, na labuta de seus 90 anos. Recorda-se da brincadeira com D. Etelvina, pulando as pedras do rio – comadres de grande consideração, acredito que mesmo depois que a morte levar uma das duas35. Penso que a história de vida da minha avó esteve muito relacionada à do Jacuípe do Riachão. Na infância, ela brincou e se divertiu em suas pedras. Quando mãe de família, dentre outras atividades, criava porcos nas margens do rio para ajudar no sustento da prole. Já com idade avançada, construiu no quintal de sua casa, na Rua da Quixabeira, uma cisterna enorme de onde vendia latas da água represada da chuva. A cisterna de D. Angelina é uma marca do rompimento da comunidade com o rio, pois a água do rio, próxima de sua 33. Na década de 80, descendentes da família Carneiro iniciam um movimento em prol da reconstrução da antiga igreja construída por Antonio Carneiro da Silva, hoje em ruínas, com o propósito de nomeá-la de Nossa Senhora do Bom Sucesso. O objetivo é perpetuar a memória de seus antepassados. Com Sr. Evaldo Carneiro conseguia cópia do documento da Sociedade Organizada Pró-construção do Santuário de Nossa Senhora de Bom Sucesso e a cópia do discurso proferido por Luiz Cirilo Carneiro em janeiro de 1984 de onde recortei o trecho acima. 34 Segundo a Enciclopédia dos Municípios a cidade foi fundada nos terrenos de um a fazenda de criação de gado, pertencente a João dos Santos Cruz, situada á margem esquerda do rio Jacuípe. (...) Ao ter começo, a povoação, foi levantada uma capela consagrada a Nossa Senhora da Conceição, elevada a categoria de Freguesia pela Lei Provincial número 276 de 25 de maio de 1847. 35 História de vida de minha Avó Angelina Carneiro da Silva nascida em Riachão do Jacuípe no dia 12 de maio de 1914 aposentada.. 25.
(26) residência, já não podia ser consumida pelos seus.. Na década de 60, começam a ser. implantados na cidade os sistemas de água e esgoto sanitário36. Na década de 90, as margens do Jacuípe passaram a ser enfeitadas pelos dejetos da cidade de água encanada. Isso mudou a compreensão que a população tem do rio: os mais jovens vêem um Jacuípe feio, seco e sujo, admirando, só em ocasiões de enchentes o poder belo e devastador do velho (rio) desprezado. Jacuípe, segundo Teodoro Sampaio, pode significar “no rio dos jacus, ou no rio, seco ou temporário37”. O rio, assim como a caatinga, completa os requisitos de inclusão do Riachão do Jacuípe na classificação semi-árida, portanto, carente de atenção especial dos governos em tempos de seca e de enchentes; eram as informações difundidas na década de 90 pela televisão sobre esse lugar. Tais concepções passavam pelo crivo da leitura dos jacuipenses e, de alguma forma, devem ter influenciado na formação do juízo de valor que têm e/ou emitem sobre a sua terra. As informações produzidas aqui, no meio dominante, são outros exemplos dessa leitura. Era praticamente unânime entre representantes desse setor a idéia de que a condição “natural”semi-árida, sobredeterminava o andamento da economia do município. O gerente da agência Banco do Brasil local afirmou que: Dependendo da situação climática, as pessoas não têm firmeza em relação aos investimentos. Se chove, isso aqui é uma beleza mas, caso contrário, não se pode fazer nada e é até perigoso investir. 38 A veemência com que era apontado o perigo do investimento afastava a possibilidade de o negócio vir a ter sucesso, em virtude da instabilidade climática, expressando a retração de investimentos dessa instituição bancária no município na década de 90. Esse foi um dos fatores que propiciou o agravamento dos problemas sociais com o conseqüente aumento dos índices de desemprego, pobreza e redução de moeda circulante no comércio local, reforçando o pensamento sobre o atraso. A incapacidade da instituição bancária de apontar alternativas de investimento nos períodos de estiagem é disfarçada pela alegação de que o problema é de ordem natural; a solução, pois, não dependeria da intervenção humana. Sai do campo da política para um campo “natural” apolítico sem conflitos e tensões. Naturaliza-se a situação sem explicar os motivos que levaram à sua ocorrência. Dessa forma, retira-se a possibilidade de ação e transformação dos homens e mulheres do lugar. Os discursos dos “políticos” jacuipenses também acompanhavam essa determinante, mais ainda: sinalizavam constantemente para o desinteresse das esferas de poder estadual e federal no sentido de prover soluções para o aclamado problema da seca que aflige a 36. BENEVIDES, Lourdisnete S. A Louvação das Prostitutas do Jacuípe ao Glorioso São Roque.Dissertação de Mestrado em Artes Cênicas apresentada a Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2003. 37 APUD, Enciclopédia dos Municípios, 1957. 38 Revista Executivo Plus. Campo Grande, 1997 nº 111- Ano XIV. 26.
(27) população e compromete a parca receita municipal. Os anais da Câmara Municipal do período (1990-1998) contêm apelos lamuriosos em defesa do sertanejo sofredor que só é considerado e contabilizado pelos deputados e senadores nos períodos eleitorais. Logo após, é esquecido, ficando à mercê das intempéries. Em muitas ocasiões, os vereadores recorreram desesperadamente à intersecção do “Glorioso Pai Celestial” pedindo chuva para aliviar as agruras de sua gente. Em geral, solicitam das esferas maiores do poder verbas, cestas básicas, frentes de trabalho. Ainda assim, a solução assistencialista não se constituía num discurso uníssono. O vereador Raimundo Ferreira Lima “discordou do fornecimento de cestas básicas para as famílias carentes, alegando que estes atos de piedade incentivavam a preguiça”. Isso remete a uma noção bastante comum no imaginário das elites dirigentes em nosso país, que associa “classes pobres a classes perigosas39”. Já a Vereadora Nilza Oliveira Souza “discorda da proposta de financiamentos bancários para socorrer a classe pobre, tendo em vista que essas pessoas não dispõem de terras para usufruir desses direitos40”. A noção de direito firmado na propriedade demonstra que a vereadora, que provavelmente era proprietária, pensava que os pobres não deviam ter acesso a meios que pudessem lhes possibilitar melhores condições de sobrevivência. Observa-se na região o processo de bi-polarização fundiária, ou seja, de um lado, o grande latifúndio e, de outro, o processo de minifundização, implantado seja por venda, seja por herança41. Segundo a CAR, essa estrutura fundiária que impede o pequeno produtor de obter excedente deixa-o extremamente vulnerável quando a produção de subsistência não é possível devido à seca. Além das secas ou em conseqüência delas, outros episódios da década de 90 ajudaram a fomentar o discurso do atraso entre os jacuipenses. Uma edição do jornal Folha Regional, da primeira quinzena de fevereiro de 1995, estampa a seguinte manchete: “Mais uma porta se fecha em Riachão42”. A reportagem trata do fechamento da agência da Caixa Econômica Federal. Segundo explanação do gerente, a agência de Riachão nos anos de 1990 e 1991 pagou os custos, mas em decorrência da seca, o ano de 1994 foi bastante fraco, apontando também o desinteresse dos representantes políticos da cidade por não terem se mobilizado frente à presidência da instituição para explicar os problemas ocorridos no último ano e, 39. Ver CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: Cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Cia da Letras, 1996. p. 20-29. 40 Atas da Câmara de Vereadores de Riachão do Jacuípe 05/03/93. 41 SANTOS, Ednusia M. C. A APAEB e a (Re)organização espacial no semi-árido da Bahia. Humanas: revista do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia – UEFS. Ano 1, n.1. (jan./jun. 2002) Feira de Santana: UEFS, 2002. 42 Idem.. 27.
(28) assim, tentar manter o funcionamento da agência na cidade. Conforme suscita a manchete, a população de Riachão do Jacuípe assistiu a diversas perdas no fim da década de 80 e no decorrer década de 90: fechamento da unidade da Secretaria da Fazenda, da agência do Banco Bradesco, do posto de atendimento do INSS, da fábrica de sandálias que pertencia ao exprefeito Valfredo Matos, das batedeiras de sisal, dentre outros. “Passou aquele arraial a ser esquecido do mundo. Lá ninguém ia, lá ninguém queria ter negócios. Os tropeiros mudaram as suas rota. Cartas não chegavam, agiotas tinham medo de ir lá cobrar. Ficou aquele putesco chão, sepultado perante a memória do Estado”.43 O contista Miguel Carneiro, na década de 1990, ao se referir a tropeiros, agiotas utilizou-se de temporalidades diferentes para denunciar o descaso dos órgãos governamentais e retratar a inexistência de perspectivas para a gente de um lugar de ninguém. Dados estatísticos constroem, sob outra ótica, situação similar; o censo empresarial do SEBRAE concluiu que, quanto ao consumo de energia elétrica nas categorias industrial e comercial, em 1985, havia 60 consumidores industriais e 649 comerciais, caindo para 41 e 455, respectivamente em 1990. 55% dos estabelecimentos empresariais da cidade empregavam apenas uma pessoa, sendo que geralmente esse empregado era algum familiar do proprietário44. A redução do número de estabelecimentos comerciais e industriais da cidade elevou os índices de desemprego e subemprego. Os dados do IBGE confirmam que, em 1996, mais da metade da população tinha renda inferior a meio salário mínimo. A partir dos dados apresentados, é possível vislumbrar elementos que sustentam a repetição do discurso do atraso do município na década de 1990. Outra concepção recorrente entre os jacuipenses é que a cidade é atrasada, sobretudo, devido à ausência de indústrias.. Desde quando cheguei em Riachão, no ano de 1981, ouço dizer que nossa cidade não tem indústrias, e à medida que ia crescendo, presenciava campanhas eleitorais onde cobrava-se e prometia-se indústrias para dar empregos e renda para o povo.45. O pensamento de que a instalação de indústrias em Riachão resolveria os problemas de emprego e renda da cidade é praticamente unânime entre os jacuipenses. Os candidatos a prefeitos e deputados dos últimos pleitos eleitorais têm alimentado essa esperança. Em muitos momentos, a produção acadêmica nacional difundiu a idéia de que o desenvolvimento 43. CARNEIRO, Miguel. 2001. op.cit. SEBRAE/BA. Diagnóstico Muncipal – Riachão do Jacuípe. Setembro 2000. 45 SILVA, Gladston. Riachão Recente: Um panorama atual da política, economia e sociedade jacuipense. Feira de Santana: Clip Serviços Gráficos, 2003. 44. 28.
(29) do país estaria irremediavelmente atrelado à industrialização46. Só com a implantação efetiva dessa atividade econômica, o país venceria as etapas do atraso a que estava relegado. As deficiências educacionais do município engrossavam a noção do atraso nos anos 90. Duas reivindicações apareciam com freqüência nas plenárias da Câmara de vereadores: uma biblioteca pública municipal e uma faculdade. Se for observado que em 1956 o município dispunha de duas bibliotecas públicas - uma pertencente à Prefeitura Municipal e outra mantida pela Agência de Estatísticas, a Biblioteca Machado de Assis47 -, quatro décadas depois se esperava, minimamente, que tais instituições permanecessem em funcionamento. Entretanto, a despeito desse descaso com a educação municipal, em fins da década de 90, observou-se que um crescente número de jovens jacuipenses buscava o ensino superior em faculdades públicas e privadas da região, do estado e do país.48 Entretanto, o discurso que naturaliza as razões do atraso prevalecia sobre os demais. A freqüência com que ocorre a estiagem é posta como a causa principal da pobreza do município, que não dispõe de outras fontes de renda, afora a agricultura, a pecuária e o pequeno comércio. Sob essa égide, crescem as demais ramificações do pensamento sobre o atraso. Sob outra ótica, do fato de o município pertencer ao semi-árido emana a idéia de que sempre foi assim, e que não se pode fazer muito para resolver a situação. Rezas para São José, pedidos de frentes de trabalho e de cestas básicas não têm revertido a tristeza do quadro. Neste ínterim, a questão a ser investigada é: Riachão sempre foi considerada pelos seus uma cidade atrasada? No decorrer da discussão, foram suscitadas ocasiões em que jacuipenses referiam-se ao passado com saudades, de maneira idealizada. Por outro lado, havia os que ridicularizavam a situação sócio-econômica da cidade com a pilhéria: “Riachão é a cidade do já teve. Já teve posto da Secretaria da Fazenda, já teve Caixa Econômica, já teve fábricas...” Uma lista infindável de elementos poderiam ser relacionados, mas um merece destaque especial:. Riachão era cidade na época do sisal. O povo da roça trabalhava no motor e o povo da rua nas batedeira, muita gente trabalhava, corria dinheiro, não tinha esse tanto de gente sem trabalho. Ah! Riachão já foi terra boa.49. 46. Praticamente todas as correntes de pensamento concordavam com a idéia de que indústria é sinônimo de desenvolvimento nota 47 IBGE. Enciclopédia dos Municípios – BA ,1956. 48 José Avelange Oliveira “ A Descoberta dos Jovens” In. Jornal Gazeta da Bahia APUD. SILVA, Gladston. Riachão Recente: Um panorama atual da política, economia e sociedade jacuipense. Feira de Santana: Clip Serviços Gráficos, 2003. 49 Entrevista ao Sr. João Cordeiro de Almeida, 89 anos de idade, lavrador aposentado, em 23 de março de 2004.. 29.
(30) São poucos os trabalhos acadêmicos sobre a cidade.. A Louvação das Prostitutas do. Jacuípe ao Glorioso São Roque50 é um deles. Assim como o de Guimarães, citado acima, ambos apontam a década da 60 como um marco para a modernização e o progresso da cidade. Naquela década, através de projetos de combate à seca implementados pelo DNOCS (Departamento Nacional de Obras contra a Seca) foi construída a Barragem Grande, destinada a prover o abastecimento de água da cidade; foram instaladas as redes de esgoto e de energia elétrica; foi pavimentada a rodovia BR 324. Além disso, a ampliação do Hospital Adelaido Ribeiro, a construção da primeira escola estadual, a Escola Osvaldo Cruz, e a instalação de uma agência do Banco do Brasil com abertura de crédito rural. Como parte dessas iniciativas do governo federal no combate às secas, chega à região semi-árida da Bahia, o sisal (ver foto a seguir). O clima quente favorece o desenvolvimento da planta. Conforme estudos, o sisal prefere dias completamente ensolarados, caso contrário as folhas torna-se flácidas, diminuindo o vigor e enfraquecendo a fibra. A região Nordeste do Brasil, onde é plantado o sisal, apresenta temperatura média anual de 30° C, sendo que a pluviosidade veria entre 400 e 600 mm anuais. Nessa região a pluviosidade é irregular e a agave resiste bem a períodos secos normais. De acordo com Souza e Mercês51 “o sisal chega à região (Riachão do Jacuípe) na Fazenda São Bento, de propriedade do saudoso Dr. João de Oliveira Campos52, na década de 1950. A partir de então, (com incentivos do governo federaljá disse acima), via Banco do Brasil, que oferecia crédito a juros, a caatinga foi dando lugar ao plantio da agave.. 50. BENEVIDES, 2003. Op. cit. SOUZA, A. G., MACHADO J. G. , MACHADO, P. S. e MERCÊS R. M. Linguagens e Memórias das Empresas da Região do Sisal . Relatório Interdisciplinar produzido no curso de Graduação em Administração – Universidade do Estado da Bahia. Serrinha: 2003. Vale salientar que dois dos quatro autores do trabalho são jacuipenses: Adelson Gonzaga Souza e Rose Meire das Mercês. 52 João Campos será discutido no capítulo seguinte. 51. 30.
(31) Foto 01 - Sisal (agave). Pessoas da comunidade explicam como o sisal foi se espalhando na região:. “Via o vizinho ter plantio, comprava uma carrada de muda, o caminhão vinha, vendia a quem queria. Eles compravam e plantavam os tarefamentos que queriam, aí o sisal ia sempre crescendo e quando estava num tamanho desenvolvido ia para o corte. Antes disso, fazia um roçado, vamos dizer, de dez tarefas e plantava as mudinhas do sisal.”53. Conta-se que o roçado era feito a braço de homem: para a caatinga mais leve, usavam a foice; as árvores mais fortes eram derrubadas com machado. Inicialmente, a caatinga era derrubada, deixava-se secar por uns 50 dias e colocava-se fogo para deixar a terra limpa e, só depois cuidava-se do plantio do agave. Em médias e pequenas propriedades, o trabalho era familiar, sendo que as crianças, a partir de 10 anos, eram iniciados na lida para ajudar os pais. O processo se dava por etapas: um cortava a palha, outro a transportava no jegue, o resideiro a colocava para o sevador e tirava o resíduo. O trabalho do sevador era o mais perigoso, já que era ele responsável por colocar a folha (palha) no motor e retirar a fibra (ver foto abaixo). As mulheres cortavam a palha e espalhavam a fibra para secar. O pagamento de todos os funcionários era feito semanalmente sendo que, o sevador ganhava mais que os demais trabalhadores do “motor”, devido ao risco a que estava exposto. Nesse processo, cada motor de sisal empregava, no mínimo, sete pessoas. Depois da secagem, a fibra era recolhida e feitos. 53. Conversa com D. Mariete de O. S. Silva, costureira, 48 anos de idade em 20/02/2004 – Riachão do Jacuípe.. 31.
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