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Em busca do mecanismo psíquico da psicose

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WALKER DOUGLAS PINCERATI

Em busca do mecanismo psíquico da psicose

CAMPINAS/SP 2015

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM

WALKER DOUGLAS PINCERATI

Em busca do mecanismo psíquico da psicose

Tese de doutorado apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Doutor em Linguística.

Orientadora: Profa. Dra. Cláudia Thereza Guimarães de Lemos

CAMPINAS/SP 2015

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Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas Biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem

Crisllene Queiroz Custódio - CRB 8/8624

Pincerati, Walker Douglas,

P651e PinEm busca do mecanismo psíquico da psicose / Walker Douglas Pincerati. – Campinas, SP : [s.n.], 2015.

PinOrientador: Cláudia Thereza Guimarães de Lemos.

PinTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem.

Pin1. Distúrbios da linguagem. 2. Alienação (Psicologia). 3. Psicoses. 4. Neuroses. I. Lemos, Claudia Thereza Guimarães de,1934-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: In search of the mechanism of psychosis Palavras-chave em inglês:

Language disorders Alienation (Psychology) Psychoses

Neuroses

Área de concentração: Linguística Titulação: Doutor em Linguística Banca examinadora:

Nina Virgínia de Araújo Leite Angela Maria Resende Vorcaro Lauro José Siqueira Baldini Suely Aires Pontes

Data de defesa: 26-06-2015

Programa de Pós-Graduação: Linguística

Powered by TCPDF (www.tcpdf.org)

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RESUMO

O objetivo primeiro deste trabalho era o de estudar os ‘distúrbios da linguagem’ no dizer psicótico enquanto especificadores do modo distinto dele habitar a linguagem. Para a persecução desse objetivo, tomou-se como ponto de partida a afirmação que Jacques Lacan fez em As

psicoses, seminário proferido em 1955-1956, de que tais distúrbios são específicos das psicoses,

isto é, não existem nas neuroses. Contudo, uma neurose é explicada pela teoria do ‘recalque’, conceito que designa o ‘mecanismo psíquico’ neurótico e, por consequência, não dá conta da psicose. Como, então, tais “distúrbios” permitiriam depreender a particularidade do ‘mecanismo psíquico’ específico da psicose? Mais especificamente, como, a partir dessa noção de ‘distúrbios da linguagem’, pode-se depreender a trajetória de construção da concepção de que o ‘mecanismo’ psicótico é a ‘foraclusão do Nome-do-Pai’? Para dar conta dessa questão, tomou-se como base de estudos a versão estenografada do seminário, que apresenta diferenças relevantes em relação à versão editada e estabelecida por Jacques-Allain Miller. O resultado foi o de que não são os distúrbios “da linguagem” ou “na ordem da linguagem” que especificam a particularidade das psicoses, mas sim os ‘distúrbios de alienação na ordem da linguagem’. A partir da noção de ‘alienação’ nota-se que o modelo para se pensar a psicose está fundamentado na obra freudiana no modelo neurótico. O empreendimento lacaniano, ao propor que há tal ‘foraclusão’, é o de propor um exercício de reflexão que conceba o ‘mecanismo’ estruturante da psicose no momento da própria constituição do sujeito.

Palavras-chaves: Distúbios da linguagem; Alienação; Neurose e Psicose; Teoria do recalque; Foraclusão do Nome-do-Pai.

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ABSTRACT

The main goal of this dissertation is to study ‘language disorders’ in psychotic speech as indexes of the specific way the psychotic subject inhabits language. My starting point is Jacques Lacan’s claim that such disturbances are specific to psychoses, i.e., they don’t exist in neuroses (see The

Psychoses, seminar delivered in 1955-1956). Yet a neurotic affection is explained by the theory

of ‘repression’, a concept that designates the neurotic ‘psychic mechanism’ and thereby does not apply to psychosis. How then such “disturbances” would allow for the apprehension of the particularities of the specific “psychic mechanism” of psychosis? More precisely: Beginning from the notion of ‘language disturbances’, how one is to discern the trajectory of production of the conception according to which the psychotic ‘mechanism’ is the foreclosure of the Name-of-the-Father? In inquiring this question, this study relied on the seminar’s stenographed version, which substantially differs from Jacques-Allain Miller’s edited version. The conclusion is that what explains the particularities of psychoses is neither disorders “of language’ nor “in the order of language” but rather the “disorders of alienation in the order of language”. From the notion of ‘alienation’, we may infer that the model to thinking psychosis is premised on the neurotic paradigm of Freud’s work. In suggesting the abovementioned notion of ‘foreclosure’, Lacan instead proposed an exercise of thinking that conceives of psychosis’ structuring ‘mechanism’ in the moment of the subject’s proper constitution.

Palavras-chaves: Disorders of language; Alienation; Neuroses and Psychosis; Theory of repression; Foreclosure of the Name-of-the-Father.

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SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS XV

APRESENTAÇÃO 19

EM BUSCA DO MECANISMO PSÍQUICO DA PSICOSE 23

O RETORNO DO RECALCADO 41

O QUE HÁ ANTES? 59

Uma ausência 61

Distúrbios da linguagem ou da alienação na ordem da linguagem? 67

Das afasias às psicoses 67

Alienados na linguagem 76

I. O que é ‘alienação’? 76

II. Cade o ‘significante’? 82

III. Psicanálise divertida 90

IV. O significante é o sexual? 116

V. Há psicose infantil? Há pré-história? Há retorno? 139

ÀS CONSIDERAÇÕES “FINAIS”? 149

BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 157

ANEXOS 167

A cabeça que esquentava 167

Projeto de Pesquisa de Doutorado (2009) 175

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Aos traços e desejos que aqui se desenham... e às saltitantes angústias que passo a passo lançam pedras no meio de caminhos...

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A

GRADECIMENTOS

A muitos sou imensamente agradecido. Entretanto, em primeiro lugar, sou grato a Cláudia Lemos, que, ao longo de largos seis anos, esteve presente e persistente a meu lado, que desejou o primor com rigor para este trabalho e que depositou grande confiança de que aqui se escrevesse algo significativo. Sua voz foi um guia neste domínio inquietante e constrangedor de estudos e leituras, mesmo que muitas vezes “a psicose” tenha me deixado mergulhado numa gritante e tumultuada solidão. Há momentos, contudo, de sonhos..., em que um caminho em mil caminhos se abre. Em face deles, há que se decidir. Grato então por seu delicado apoio, sobretudo neste meu partir. As provisões podem até que sejam parcas... mas quais não são?

À banca que me exigiu uma defesa – talvez tímida, mas determinada – de um trabalho incompleto num tema tão controverso ao ponto mesmo de nos pôr a sonhar. A Angela Vocaro e Suely Aires pelas provocações e empuxos, pelos caminhos aventados e novos ares vislumbrados de leituras perturbantes. As discussões certamente frutificarão em uma obra que, se agora brota, está condenada a ser inacabada. Ao sonho de Nina Leite, no qual exatamente se esboçou esse destino; um destino que nos tira do eixo, quebra as expectativas e que exige outros tropeços num caminho que se delineia no ato mesmo do caminhar, Vidalita. Ao Lauro Baldini, por escutar no texto ecos incertos de segredos de um percuso ermo. Talvez isso seja próprio de todo aquele que se atreve a adentrar nos estapafúrdios domínios da loucura.

Aos companheiros do outrarte pelo fogo alimentado nas conversações. Vocês acalentam leituras e artimanhas que fazem colidir – ora, que coisa! – psicanálise e ciência. Suas escritas abrasam experiências singulares no caldeirão das discussões, graças à escrita que nunca se deixa capturar..., se ela é para o escritor uma arte. Se este escrito fez alguém sonhar, talvez tenha então cumprido o papel primordial de tocar no coração do desejar desenhar. Que fujam, então, das instituições já tão instituídas, novos artistas!

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xvi

Destacam-se entre os muitos companheiros, Carlos Eduardo Borges Dias, pelos escritos e projetos a serem desenvolvidos... Parceiro instigante de debates regados de desrazões, músicas e filosofia. A Maria Rita Salzano Moraes, pela inesquecível e franca amizade. Ao Paulo Sérgio de Souza Júnior, pelas questões estimulantes que invocam poesias e traidoras traduções. A Jane Ramos da Silveira, a preciosa, pelas risadas, chás e segredos.

Grato também pelo apoio pronto e gentil de todo o Programa de Pós-graduação em Linguística do IEL/Unicamp, Instituto do qual me despeço. Deixo muito especialmente um abraço saudoso ao Cláudio, Miguel e Rose, que me puseram tudo o que poderam a meu alcance.

Ao François Sauvagnat, das universidades de Rénnes II e Paris IV, pela oportunidade de escutar e me expor a outra realidade da psicanálise – e das discussões em psicopatologia – no estágio de doutoramento na França.

Grato aos sinceros amigos que estiveram e estão do meu lado nesta empresa incerta, turbulenta, mas fascinante. Por suas simples presenças nos longos, frios e calorosos momentos diante de curiosidades, que inevitável e felizmente seguem provocando paixões. Pois escrever é uma paixão. Devo especialmente nomear Alessandro José de Oliveira, Antonio Almir Silva Gomes, Bárbara Elice, Cláudia Leite, Clito Lagoeiro, Cristiano Nunes Alves, Daniel Nascimento e Silva, Elaine Silveira, Isadora Machado, Jefferson Voss, Lea Hamon, Luciana Carvalho, Liliam Braga, Marcos Barbai, Miguel Sierra, Vanderson Carlos Machado, Priscila Ohira e Sandra Camargo. Ao CNPq pela bolsa de estudos e à CAPES pelo apoio que possibilitou a ida a França.

Ao amor de meus pais, Walter e Maria Aparecida Garcia Pincerati, e irmãos Walter, Márcia Regina e Walkiria Cristina Pincerati; e à paciência, carinho e dedicação nos amaros mas muitos amados dias ao lado do Maro Mannes.

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17 Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito

equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; mas, sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa.

– Nenhum defeito?

– Nenhum, disse em coro a assembléia. – Nenhum vício?

– Nada.

– Tudo perfeito? – Tudo.

– Não, impossível, brandou o alienista. Digo que não sinto em mim esta superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.

A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador: - Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: – a modéstia.

Era decisivo, Simão Bacamarte curvou a cabeça justamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato contínuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disrecolheu-seram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

– A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.

– Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lágrimas.

Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjecturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.

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A

PRESENTAÇÃO

Na era clássica, é inútil procurar distinguir entre as terapêuticas físicas e as medicações psicológicas. Pela simples razão de que a psicologia não existe. Quando se prescreve a absorção dos amargos, por exemplo, não se trata de tratamentos físicos, uma vez que se pretende desoxidar tanto a alma como o corpo; quando se prescreve a um melancólico a vida simples dos trabalhadores, quando se lhe representa a comédia de seu delírio, não se tem aí uma intervenção psicológica, pois o movimento dos espíritos nos nervos e a densidade dos humores é que estão em jogo, acima de tudo. Mas num caso trata-se de uma arte da transformação das qualidades, de uma técnica na qual a essência da loucura é considerada como natureza e como doença; no outro, trata-se de uma arte do discurso e

da restituição da verdade onde a loucura vale como

desatino.

Quando for dissociada, nos anos que se seguirão, essa grande experiência do desatino, cuja unidade é caraterística da era clássica, quando a loucura, confiscada inteiramente numa intuição moral, não for mais que doença, então a distinção que acabamos de estabelecer assumirá um outro sentido: o que era doença procederá do orgânico e o que pertencia ao desatino, à transcendência de seu discurso, será nivelado no psicológico. E é exatamente aí que nasce a psicologia. Não como verdade da loucura, mas como indício de que a loucura é agora isolada de sua verdade que era o desatino e de que doravante ela não será mais que um fenômeno à deriva,

insignificante, na superfície indefinida da natureza.

Enigma sem outra verdade senão aquilo que a pode reduzir.

É por isso que se deve ser justo com Freud. Entre as 5

Psicanálises e o cuidadoso inquérito sobre as Médications psychologiques, há mais do que uma descoberta: há a

violência soberana de um retorno. Janet enumerava os elementos de uma divisão, enumerava o inventário, anexava aqui e ali, conquistava talvez. Freud retomava a loucura ao nível de sua linguagem, reconstituía um dos elementos essenciais de uma experiência reduzida ao silêncio pelo positivismo. Ele não acrescentava à lista dos tratamentos psicológicos da loucura uma adição maior; reconstituía, no pensamento médico, a possibilidade de um diálogo com o desatino. Não nos surpreendamos se o mais “psicológico” dos medicamentos tenha tão rapidamente reencontrado sua vertente e suas confirmações orgânicas. Na Psicanálise, o que está em jogo não é a Psicologia, mas, mais exatamente, uma experiência do desatino que a Psicologia no mundo moderno teve por sentido ocultar.

Michel Foucault, História da loucura na idade clássica, 1961 [1972a], pp.337-338 (ênfases do autor).

À l’âge classique, inutile de chercher à distinguer les thérapeutiques physiques et les médications psychologiques. Pour la simple raison que la psychologie n’existe pas. Quand on prescrit l’absorption des amers, par exemple, il ne s’agit pas de traitements physiques, puisqu’on veut décaper l’âme aussi bien que le corps; quand on prescrit à un mélancolique la vie simple des laboureurs, ou quand on lui joue la comédie de son délire, ce n’est point là une intervention psychologique, puisque le mouvement des esprits dans les nerfs, la densité des humeurs sont intéressés au premier chef. Mais dans un cas, il s’agit d’un art de la transformation des qualités, d’une technique dans laquelle l’essence de la folie est prise comme nature, et comme maladie ; dans l’autre, il s’agit d’un art du discours, et de la restitution de la vérité, où la folie vaut comme déraison.

Lorsque sera dissociée, dans les années qui vont suivre, cette grande expérience de la déraison, dont l’unité est caractérisque de l’âge classique, lorsque la folie, confisquée tout entière dans une intuition morale, ne sera plus que maladie, alors la distinction que nous venons d’établir prendra un autre sens ; ce qui était de la maladie relèvera de l’organique ; et ce qui appartenait à la déraison, à la transcendance de son discours, sera nivelé dans le psychologique. Et c’est là précisément que naît la psychologie – non comme vérité de la folie, mais comme signe que la folie est maintenant détachée de sa vérité qui était la déraison, et qu’elle sera plus dès lors qu’un phénomène à la dérive, insignifiant, sur la surface indéfinie de la nature. Énigme sans autre vérité que ce qui peut la réduire.

C’est pourquoi il faut être juste avec Freud. Entre les 5

Psychanalyses et la soigneuse enquête sur les Médications psychologiques, il y a plus que l’épaisseur d’une découverte ; il y a la violence souveraine d’un retour. Janet

énumérait les éléments d’un partage, dénombrait l’inventaire, annexait ici et là, conquérait peut-être. Freud reprenait la folie au niveau de son langage, reconstituait un des éléments essentiels d’une expérience réduite au silence par le positivisme ; il n’ajoutait pas à la liste des traitements psychologiques de la folie une addition majeure ; il restituait, dans la pénsée médicale, la possibilité d’un dialogue avec la déraison. Ne nous étonnons pas que la plus « psychologique » des médications ait réncontré si vite son versant et ses confirmations organiques. Ce n’est point de psychologie qu’il s’agit dans la psychanalyse : mais précisément d’une expérience de la déraison que la psychologie dans le monde moderne a eu pour sens de masquer.

Michel Foucault, Histoire de la folie à l’âge classique, 1961 [1972b], pp.427-428. (ênfases do autor).

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21 As palavras aqui devem ser breves, face o texto que se segue. Este trabalho

deriva do desejo de problematizar a tese lacaniana de que o psicótico habita a linguagem de um modo distinto do psicótico. Para tanto, tomou-se como ponto de partida que existem determinados distúrbios da linguagem que especificariam qual seria esse modo distinto, uma vez que o delírio é um fato de linguagem. Quais seriam então tais distúrbios? Na verdade, como procurá-los? Para que se possa encontrá-los se fez necessário entender que mecanismos psíquicos estão em jogo na estruturação da psicose. Eis a questão levantada no primeiro capítulo.

Desde S. Freud a particularidade da psicose foi buscada a partir da teorização centrada e edificada em torno da sintomatologia neurótica. A partir do conceito de ‘defesa’, saiu-se em busca do mecanismo da psicose procurando uma “analogia” entre o recalque na neurose e o que “ele” é na psicose. A empresa fracassou. No entanto, desde a perspectiva da teoria do recalque e do modelo explicativo de estruturação subjetiva que se desenha nesse trabalho de pesquisa, os processos psíquicos constitutivos da psicose diferem deveras dos que causam uma neurose. Cada qual possui uma mecânica distinta. Isso porque nesse modelo explicativo se distinguem quatro estágios de processos psíquicos que caracterizam tais mecanismos. Mas a psicose se separa da neurose exatamente no segundo. Então, o que teria acontecido nesse estágio?

É exatamente em busca dessa resposta que adentramos no terceiro e último capítulo. Contudo, nele se produz uma viragem. Isso porque o método adotado na investigação se sustenta na leitura da versão estenotipada do seminário sobre as psicoses, no qual J. Lacan propõe, a partir da Verwerfung freudiana, o mecanismo psicótico. Essa leitura aniquila com a perspectiva de se estudar a psicose a partir da noção de ‘distúrbios da linguagem’, que, note-se, sustentou – como se pode ler nos projetos nos Anexos – aos pontos de partida deste trabalho. Isso porque, como se procurou mostrar, a particularidade da psicose não reside em sua fenomenologia, isto é, em tais distúrbios, mas sim no próprio processo de estruturação do sujeito. Nesse ponto, destaca-se o tema da ‘alienação’. Nesse sentido, o terceiro capítulo acaba por recusar o modelo neurótico na busca do mecanismo psíquico específico da psicose.

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E

M BUSCA DO MECANISMO PSÍQUICO DA PSICOSE

Qual é o caráter propriamente desviante do dizer psicótico e como ele se manifesta no delírio? Desde Sigmund Freud a investigação sobre a especificidade da psicose tem sido interrogada em relação à neurose. Ele sempre foi claro – isto está expresso em Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa (1896) – sobre o fato de que seu interesse maior era a neurose. Mas quando tinha que defender sua posição sobre a etiologia das neuroses (histeria, obsessão e fobia) se via obrigado a trazer à discussão as psicoses (paranoia, confusão alucinatória e esquizofrenia). Fez isso porque notava muitos elementos comuns sobretudo entre a histeria, a neurose obsessiva e a paranoia. Por essa razão, por vezes as agrupou sob a denominação ‘neuropsicoses de defesa’ (cf. Freud, 1896f, p.163).

Foi nesse contexto de discussão que, desde seus primeiros trabalhos e reflexões, emergiu a questão de saber qual seria o mecanismo psíquico específico que produz uma psicose e não uma neurose. Isso é o que se lê exatamente no início da terceira parte do artigo supracitado:

Por tempo considerável tenho alimentado a suspeita de que também a paranoia [...] é uma psicose de defesa; isto é, que tal como a histeria e as obsessões, ela provém do recalcamento de lembranças aflitivas, sendo seus sintomas formalmente determinados pelo conteúdo do que foi recalcado. Entretanto, a

paranoia deve ter um método ou mecanismo especial de recalcamento que lhe é peculiar, assim como a histeria efetua o recalque pelo método da conversão em inervação somática e a neurose obsessiva, pelo método da

substituição (ou seja, pelo deslocamento através de certas categorias de associações). Eu havia observado diversos casos que favoreciam essa interpretação, mas nenhum que a comprovasse; até que, alguns meses atrás, tive a oportunidade, graças à gentileza do Dr. Josef Breuer, de empreender a psicanálise, com propósitos terapêuticos, numa mulher inteligente de 32 anos em cujo caso não se podia questionar o diagnóstico de paranoia crônica. Relato nestas páginas, sem mais delongas, parte das informações que pude obter a partir desse trabalho, pois não tenho perspectivas de estudar a paranoia exceto em ocasiões muito isoladas, e porque acho possível que meus comentários possam encorajar algum psiquiatra mais bem situado que eu nesse assunto, ao conferir

ao fato da “defesa” seu lugar de direito na discussão sobre sua natureza e seu mecanismo psíquico. (Freud, 1896f, pp.174-175, com leves alterações e

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Freud, como se sabe, não chegou a dar uma resposta a essa questão. Mais ainda, deixou, como se lê, que essa tarefa fosse realizada por um psiquiatra. Ele voltou a repetir essa afirmação em 1924, no texto A perda da realidade na neurose e psicose. Aliás, esse é o último texto onde se encontra no título a reunião dos termos ‘neurose’ e ‘psicose’. É inclusive, segundo o filósofo Richard Simanke (1994), o único texto em que Freud formula explicitamente uma definição de psicose a partir da tese de que ela é uma perturbação do vínculo com a realidade.1 Segue:

[...] na psicose é a parte rejeitada da realidade que tenta continuamente se reimpor ao mundo psíquico, enquanto na neurose quem o tenta é a pulsão recalcada. Contudo, o esclarecimento dos diferentes mecanismos que possibilitam o afastamento e a reconstrução da realidade nas psicoses, e o entendimento do quanto esses processos podem ou não ser bem-sucedidos é uma tarefa a ser empreendida pela psiquiatria especializada. (Freud, 1924a, p.129.)

O que é interessante é que, após tantos anos, a questão em Freud tenha ficado em aberto. Porém, aqui se vê um avanço. Lembremos que Freud, um ano antes de escrever

Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defesa (1896) e um após escrever As neuropsicoses de defesa (1894), no anexo a uma carta datada de 24 de janeiro de 1895,

enviou a seu amigo Wilhelm Fliess o Manuscrito H. Paranoia. Nele escreveu que na psicose há um “abuso do mecanismo de projeção para fins de defesa” (cf. Freud, 1895a, p.249). Em seu caso Schreber2, publicado em 1911, retificou essa conclusão. Nele disse que a projeção é a via pela qual se realiza o “processo de cura”, entendida, nesse texto, como uma ‘reconstrução’ (cf. id., 1911a, p.65), processo esse que desfaz “o recalque” e reconduz a libido às pessoas abandonadas por ela. E, então, retifica: “Não foi correto dizer que a sensação interiormente sufocada é projetada para fora; mais propriamente, entendemos que o cancelado dentro retorna a partir de fora.” (Ibid., p.66; ênfase minha.)

1 Tese que, afirma Simanke (1994, pp.9-10), fora de seu contexto, levaria a atrelar levianamente a concepção

freudiana de psicose às concepções psiquiátricas tradicionais. O objetivo do trabalho desse autor, então, é justamente retraçar o que chama “a formação da teoria freudiana das psicoses”, que desemboca em 1924 numa concepção de psicose no sentido psicanalítico que, diz ele, antes dessa data não existia.

2 Trata-se do famoso paranoico Daniel Paul Schreber, presidente da Corte de Apelação de Dresden

(Alemanha), que escreveu Memórias de um doente dos nervos, livro publicado em 1903 (cf. op. cit) que dirige à ciência para revelar as verdades religiosas.

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25 Como se lê, na retificação de Freud não há só a troca de “a sensação sufocada”

por algo que é “o cancelado”. Ao mesmo tempo, desloca a ênfase que antes deu à “projeção do sufocado” para colocá-la no “retorno do cancelado”. Isso desperta a curiosidade de saber qual é, afinal, o alcance de tal retificação. Pois, que ‘retorno’ é esse? O que é esse “cancelado”? Ele corresponderia ao que Freud chamou de “a parte rejeitada da realidade”, que não é “a pulsão recalcada”? Em suma, que ordem de retorno é essa na psicose? Isso indubitavelmente exige um exame mais detido da noção de ‘retorno’ na investigação da especificidade do mecanismo psíquico da psicose. É o que será feito nos próximos capítulos.

Notemos, neste momento, que a ‘conversão’ e a ‘substituição’ são, respectivamente, resultantes da defesa histérica e obsessiva e que são métodos de efetuação do recalque, que é o mecanismo psíquico específico da neurose. No entanto, a psicose não pôde e não pode ser explicada como resultante desse mecanismo, porque, como veremos, a alucinação não especifica um juízo sobre a existência de algo a ser recalcado, mas sim de algo que comparece como se jamais tivesse existido. Em outras palavras, comparece como algo completamente estranho ao eu do sujeito. Por essa razão, Freud deixou aberta a tarefa de saber qual mecanismo psíquico explicaria o porquê do que foi cancelado no mundo psíquico, uma parte da realidade e não a pulsão recalcada, “retorna do lado de fora”.3

O mérito de ter realizado essa tarefa é dado a Jacques Lacan, que, a propósito, era psiquiatra e defendeu sua tese de doutorado abordando um caso de paranoia (cf. Lacan, 1932). O início da realização dessa tarefa se deu em seu seminário sobre as psicoses4,

3 Essa distinção entre dentro/subjetivo e fora/objetivo será explorada mais a frente. Afinal, a alucinação não

seria psíquica?

4 Neste trabalho, a versão do seminário a ser mais utilizada é a estenotipada, disponibilizada pela École

Lacanienne de Psychanalyse em: http://www.ecole-lacanienne.net/fr/p/lacan/m/nouvelles/paris-7/stenotypies-version-j-l-seminaire-iii-les-psychoses-1955-1956-69. Quando sua leitura é dificultada, recorro a sua edição

feita por Patrick Valas, disponível em: http://www.valas.fr/IMG/pdf/S3_PSYCHOSES.pdf. Serão indicadas as referências da versão da Seuil em nota de rodapé. A eleição se deve a dois fatos: de um lado, do ponto de vista do conteúdo, a estenotipia não se afasta da versão da Seuil e, de outro, ela permite ouvir melhor o tom de Lacan porque conserva as marcas do ritmo de sua fala. Aliás, na versão da Seuil são, por vezes, gritantes as marcas de edição, que muitas vezes deixa mais ver o escrito do que o falado. As traduções aqui do texto estenotipado são minhas.

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proferido entre 1955-1956, quando propôs que o mecanismo psíquico específico da psicose é a ‘foraclusão5 do Nome-do-Pai’.6

Esse seminário teve início no dia 16 de novembro de 1955. Ao abri-lo, Lacan já anuncia que partirá da doutrina freudiana para introduzir “todos os problemas atuais que colocam para nós as psicoses”7 (Lacan, 16/11/56 [1955-1956a], p.14). Quais seriam? Diz que são os de (i) natureza clínica, (ii) nosográfica e, também, de (iii) tratamento. Todavia, no que se refere ao último, assevera que ele é o point de mire do ano de trabalhos que então se iniciava.

Lacan logo levanta uma crítica ao ponto de vista psicológico-psiquiátrico, que, basicamente, entende a psicose como uma ruptura no plano da continuidade da “ideia”, visão essa que está sustentada numa “compreensibilidade suposta” (cf. Lacan, 16/11/56 [1955-1956a], p.5). Essa visão, continua, faz com que se caia numa miragem porque determina de antemão uma resposta ideal, com a qual o médico mede o comportamento dito patológico do doente. Tal visão, afirma, não é a da psicanálise, pois “o grande segredo da psicanálise é que não há psicogênese”8

.

Outra maneira de exprimir as coisas e que vai mais longe ainda é que, na ordem do que é propriamente falando o psicológico, se tentarmos delimitá-la bem de perto [...], o psicológico é o etológico, é o conjunto dos comportamentos, das relações do indivíduo, biologicamente falando, com aquilo que faz parte de seu meio natural.

{Une autre manière d’exprimer les choses et qui va beaucoup plus loin encore, c’est que dans l’ordre de ce qui est à proprement parle psychologique, si nous essayons de le serrer de plus près [...], le psychologique c’est l’éthologie, c’est l’ensemble des comportements, des relations de l’individu, biologiquement parlant, avec ce qui fait partie de son entourage naturel.} (Lacan, 16/11/56 [1955-1956a], p.7)

5

Embora o dicionário Houaiss (2001) registre ‘forclusão’, mantenho a grafia utilizada pela maioria dos psicanalistas brasileiros que enfatiza o ‘fora’. A escolha deles parece se dever mais ao fato de que as vozes, as visões e as sensações alucinadas chegam ao psicótico desde fora. Ora, como veremos, a questão que Lacan destaca de Freud (cf. 1911a, pp.66-67) é a de saber por que o que foi cancelado dentro foi parar e “retornar” do lado de fora. Afinal, o que se quer saber é que mecanismo psíquico está em jogo na efetuação dessa operação.

6 Ver o trabalho de Corinne Fellahian (2005), La psychose selon Lacan (em pt.: A psicose segundo Lacan),

em que explora os pormenores desse percurso da tese ao seminário sobre as psicoses.

7 “[...] tous les problèmes actuels que posent pour nous les psychoses.” Cf. Lacan, 2002, p.11. 8

(27)

27 Entretanto, no que tange às relações humanas é preciso ir mais além, porque...

[...] a psicologia humana como tal é exatamente – como dizia Voltaire da história natural: ela não é tão natural assim – para dizer tudo, tudo o que há de mais antinatural. Tudo aquilo que é da ordem propriamente psicológica no comportamento humano está submetido a anomalias profundas, apresenta a todo instante paradoxos suficientes para, por si só, levantar o problema de saber qual ordem é preciso introduzir para que simplesmente nela nos reencontremos, para que a gata nela reencontre seus filhotes.

{[...] la psychologie humaine comme telle est exactement – comme disait Voltaire de l’histoire naturelle: elle n’est pas aussi naturelle que cela – pour tout dire, tout ce qu’il y a de plus anti-naturel. Tout ce qui est de l’ordre proprement psychologique dans le comportement humain, est soumis à des anomalies profondes, présente à tout instant des paradoxes suffisants pour, à soi seul, poser le problème de savoir quel ordre il faut introduire pour que, simplement, on s’y retrouve, pour que la chatte y retrouve ses petits.} (Ibid., pp.7-8.)

Essa ordem é chamada por Lacan de ‘simbólico’9, ordem essa que é fundada na linguagem. Afinal, nela “[...] todo elemento vale enquanto oposto a um outro.” (Ibid., p.10.)10 Essa afirmação, deve-se dizer, remete imediatamente à de Ferdinand de Saussure, pai da Linguística moderna, que diz que no sistema da língua cada signo se define negativamente em relação aos outros (cf. Saussure, 1913, p.136). Atente-se, porém, ao fato de que Saussure fala em ‘sistema da língua’, ao passo que Lacan fala em ‘ordem simbólica’. Isso certamente produz consideráveis deslocamentos conceituais e teóricos. Afinal, o gesto de Saussure excluiu a ‘fala’ da ‘linguagem’ para conceber a ciência da ‘língua’11

(cf. ibid., pp.15-23). A Psicanálise, por sua vez, se constituiu num gesto bem

9 Sobre ela, ele diz:

O simbólico, vocês acabaram de vê-lo aparecer muito precisamente agora pouco, no momento em que fiz alusão, de modo bem claro e por duas abordagens distintas, ao que está manifestadamente além da compreensão e no interior do qual toda compreensão se insere, e que exerce essa influência tão manifestadamente perturbante em tudo o que é relação humana e, mais especialmente, inter-humana. {Le symbolique, vous venez de le voir apparaitre tout à l’heure très précisement, au moment où j’ai

fait allusion de façon très nette, et par deux abords différents, à ce qui est manifestement au delà de toute compréhension, et à l’intérieur de quoi toute compréhension s’insére et qui exerce cette influence si manifestement perturbante sur tout ce qui est des rapports humains et très spécialement inter-humains.} (Ibid., p.9.)

Cf. Id., 2002, p.17.

10 “Dans l’ordre symbolique, tout élément vaut en tant qu’opposé à un autre.” Cf. Lacan, 2002, p.17

11 “A língua é para nós a linguagem menos a fala.” (Saussure, 1916, p.92.) Mesmo que muito brevemente,

pois isto não se insere no escopo deste trabalho, deve-se ainda assinalar que nos Escritos... de Saussure (cf. 2002) a relação entre ‘língua’ e ‘fala’ é bem mais complexa e de outra ordem.

(28)

28

distinto: Freud a edificou numa experiência de escuta da ‘fala’; mais essencialmente, da fala do sujeito do desejo inconsciente12.

A experiência freudiana pode ser lida nos inúmeros exemplos de chistes e de lapsos de língua nos livros consagrados ao estudo deles como fenômenos psíquicos (cf., respectivamente, Freud, 1901 e 1905). Em todos eles, Freud mostra que a fala do eu, a despeito daquilo que queira dizer, é ultrapassada devido a forças inconscientes. Nos tropeços de fala emerge um material inconsciente que remete à história da pessoa na linguagem, ou melhor, no mundo simbólico. A escuta analítica dessas falas coloca em xeque a supremacia do eu consciente ou da consciência como fundamento e determinante do psiquismo. Além disso, essa experiência mostra não só uma eficácia simbólica na investigação da psique humana. Ela especialmente demonstra que a existência da ordem simbólica é condição para que o neonato do humano adentre no “caminho de hominização” (cf. Freud, 1939b, p.157); caminho esse que leva (i) ao “triunfo da espiritualidade sobre a sensualidade”, isto é, à “renúncia aos impulsos com suas consequências psicologicamente necessárias” (ibid., p.156), (ii) ao “desenvolvimento da cultura humana” e (iii) ao “desenvolvimento da linguagem” e das atividades intelectuais (ibid.).13

Nessa perspectiva, ao falar em ‘ordem simbólica’, Lacan evoca, no dia 16 de novembro, o lugar em que se estrutura qualquer “relação humana e, mais especialmente, inter-humana” (cf. nota 09, p.16). Nesse dia, ele fala que é essa a ordem introduzida por Freud quando ele vai mais além da “experiência imediata” ou “sensível” em suas análises.14 “Nelas, como na física, não é, afinal de contas, a cor que retemos em seu caráter de sensação, diferenciado pela experiência direta, é algo que é anterior e que a condiciona”15

12

Ressalte-se que o termo ‘sujeito’ e a expressão “sujeito do (desejo) inconsciente” são introduzidas na psicanálise por Lacan.

13 Nesse caminho, escreveu Freud, “a ordem matriarcal foi substituída pela patriarcal” (1939, p.157). Com

certeza voltarei a esse ponto.

14 Creio que seja importante lembrar agora que Freud defendia a tese de que as neuropsicoses são causadas

por questões sexuais que remetem à infância e que, quando recordadas, produzem efeitos traumáticos. A sexualidade, para ele, não se reduz a sua função adaptativa, isto é, à reprodução da espécie. No seio da vida humana, ela tem um papel fundamental até mesmo na organização do arcabouço cultural dos povos, justamente porque constitui tabus que são transmitidos de geração em geração. De fato, essa ordem não é psicológica, mas simbólica.

15 “Là comme en physique ce n'est pas en fin de compte la couleur que nous retenons dans son caractère

senti, différencié par l'expérience directe, c'est quelque chose qui est derrière et qui la conditionne.” Cf.

(29)

29 (ibid., p.8). A ordem do imaginário, isto é, o campo da relação do animal com outro animal

e com o seu meio natural é “profundamente estruturada pelo simbólico”. Essa função do simbólico no imaginário é, enfatiza Lacan, capital (cf. ibid., p.9)16.

Vale a pena ressaltar alguns exemplos notáveis na obra de Freud dessa irredutibilidade da elaboração freudiana à experiência sensível, direta ou imediata. Em O

homem Moisés e a religião monoteísta (cf. 1939a, p.14), por exemplo, essa diferenciação

aparece quando ele distingue a ‘Geschichte’, a história real e objetiva ou o acontecer histórico, da ‘Historie’, que é a história conjectural, isto é, aquela que é ‘construída’17 a fim de preencher lacunas.

Aliás, nas cartas que Freud enviou a Fliess (cf. Freud, 1896a, 1896b e, sobretudo, 1897), pode-se ver que ele, a partir do que lhe contavam seus pacientes, chegou a afirmar que na base da etiologia das neuropsicoses haveria um ‘pai perverso’, como denominou o psicanalista Guy Le Gaufey (1994, p.65). O ‘pai perverso’ seria uma personagem real, de carne e osso: o pai do paciente. Esse autor escreve que nesses anos iniciais Freud supôs que uma neurose ou psicose teria como fator primeiro e desencadeador a perversão do pai. Ou melhor, teria acontecido um ato sexual na infância mais tenra do doente por parte de seu pai ou seu substituto. Sua penosa e traumática lembrança posterior suscitaria uma defesa, resultando em conflitos psíquicos entre o eu e aquilo que foi sufocado ou rechaçado, a saber: o conteúdo do que foi recordado e o afeto outrora suscitado. A especificidade do modo de defesa então levantada condicionaria a especificidade do conflito produtor quer de uma neurose, quer de uma psicose. A conjunção desse acontecimento sexual e do momento (idade) na infância em que ele teria acontecido formaria a constelação do que Freud chamou de “predisposição” ou “escolha” da neurose ou psicose.

Porém, escreve Le Gaufey (1994, p.65), Freud logo se interrogou sobre a natureza ou estatuto dessa personagem que comparecia na maioria das histórias contadas para ele em sua clínica. Se há verdade no que lhe narravam ali, que “pai” seria esse que habita as cenas sexuais traumáticas contadas pelos pacientes? O autor diz que Freud, após

16 Trecho não encontrado na versão editada. 17

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30

1897, não deixou de ver essa personagem em tais cenas, mas que, a partir de então, parou de lhe conferir “valor etiológico”: “[...] a perversão (sempre possível) do pai não o define mais [...]. Renunciando a sua “etiologia paterna”, Freud perde sua localização primeira do pai enquanto fabricador de histeria. Ele não sabe mais o que é um pai.”18 (Ibid., pp.65-66.) Uma resposta válida se fazia então necessária, já que a presença dessa personagem em tais cenas produzia notáveis efeitos perturbadores na vida do paciente. É por essa razão que, a partir de então, nos termos de Le Gaufey, Freud teve que sair em busca da “verdadeira natureza do pai” (cf. ibid., p.66). Com a publicação de Totem e Tabu em 1913, Freud “inventou” o ‘pai totêmico’ (cf. ibid., p.67) e é essa invenção que é retomada em O homem

Moisés e a religião monoteísta (1939).

Um estudo meticuloso do “pai freudiano” e seus desdobramentos na obra de Freud e depois na de Lacan pode ser lido em L’éviction de l’origine de Le Gaufey (1994; em pt.: A evicção da origem).19 Interessa agora apenas destacar que, como asseverou Lacan na sessão inaugural do seminário sobre as psicoses, a experiência clínica de Freud exigiu que ele saísse do plano da experiência imediata e que isso aconteceu quando ele verdadeiramente se indagou sobre o estatuto do pai na etiologia das neuropsicoses.20 Depois de 1913, esse pai se tornou mais propriamente uma personagem histórico-conjectural nas cenas sexuais infantis fantasiadas. É essa descoberta que Freud mostra em

O homem Moisés e a religião monoteísta (1939).

Esse último é um estudo que tem início com a investigação do nome ‘Moisés’ (cf. Freud, 1939a, p.7). Essa pesquisa permitiu a Freud distinguir o homem da personagem da saga. Para isso, ele se sustenta na prova da circuncisão, prova essa que considerou um “fóssil de referência” (cf. ibid., p.38). Muito sucintamente e focando mais essencialmente

18 “Du coup, [...] la perversion (toujours possible) du père ne le définit plus [...]. En renonçant à son

« étiologie paternelle », Freud perd sa localisation primière du père comme fabricateur d’hysterie. Il ne sait plus ce que c’est qu’un père.”

19

Ver Balmès (1997), Lemérer (1996) e Rabinovitch (1997), que tratam essa temática em uma perspectiva distinta da de Le Gaufey.

20 A psicanalista Brigitte Lemèrer (1996) demonstra o quanto essa questão atormentou e, por consequência,

constrangiu Freud às escritas dos dois Moisés, o de 1914 e o de 1939. Não é à toa que Lacan, no dia 02 de maio de 1956 (p.1; cf. Lacan, 2002, p.244), afirmou que a pesquisa sobre o estatuto do pai em Freud era paixonada ou mesmo desesperada.

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31 os dois primeiros ensaios21, esse estudo permitiu a ele defender que o homem Moisés, que

retirou os judeus do Egito, não era judeu, mas sim um general egípcio, já que, afinal, a circuncisão era uma prática egípcia e não judia. É somente muito depois que sua figura se fundiu com outra: a figura sacerdotal, religiosa, a de filho de Deus. Eis o ‘pai totêmico’: “todo pai é um filho”. Muito poderia ainda ser dito, mas farei isso em outro lugar. Note-se, neste momento, que o ‘pai’ está em questão como uma personagem que está na origem de toda a história do sujeito e que sua aparição tem efeitos reais (traumáticos) na vida dele.

Há aqui um ponto importante. O ‘pai totêmico’ se traduz, segundo Le Gaufey (1994, pp.66-67), no seguinte: o ‘pai é um filho’ que se tornou pai após ser assassinado e comido por seus irmãos. Trata-se de um mito em que os irmãos se digladiam com seu semelhante mais forte, o chefe da horda, “o pai”, o detentor das mulheres. O conflito é para tomar a(s) mulher(es) do próximo.

Na verdade, tal finalidade, escreve Le Gaufey em 1992, em si mesma leva a uma leitura psicológica do mito. Isto é, que o conflito é para tomar posse das mulheres. Essa leitura, enfatiza o autor, não diz nada do que acontece com o cadáver, que só após ser assassinado e comido pelos pares se torna o pai (morto). Voltarei a esse tema em outro capítulo. O que ressalto agora é que o pai é fruto de uma operação simbólica porque é mítica.

Com tudo isso, saliento a relevância de Lacan pôr em destaque e em pauta, logo na sessão inaugural de seu seminário sobre as psicoses, a existência, a importância e a função do registro ou ordem que chama de simbólico. Ao fazer isso, ao mesmo tempo em que levanta a problemática dos trabalhos a serem desenvolvidos no seminário, introduz não só a questão da necessária distinção dessa ordem em relação à ordem imaginária e real (ver logo abaixo). Ele também dá consequência ao reconhecimento de que o comportamento do homem é subvertido por uma estrutura já organizada, a da linguagem, e que lhe é anterior porque lhe é transmitida. Desse modo, põe em relevo que a descoberta do inconsciente por Freud desnuda igualmente que há uma opacidade da linguagem.22 Mais ainda, permite-lhe

21 Pois O homem Moisés e a religião monoteísta é uma composição de três ensaios escritos e publicados em

momentos diferentes. Ver a propósito Lemerér (1996).

22 ... o que distancia deveras a concepção freudiana de linguagem da psiquiátrica (cf. Pincerati, 2012,

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32

enfatizar que a experiência psicanalítica parte do fato de que a experiência imediata é inapreensível, porque está estruturada por algo de artificial, “que é, muito precisamente, a relação analítica, [...] tal como é constituída pela confissão pelo sujeito de algo que ele diz ao médico [...]”23 (ibid., p.9).

Nessa perspectiva, Lacan afirma, nesse dia 16 de novembro de 1955, que o problema da psicose e de sua linguagem não se reduz a sua incompreensibilidade ou a rupturas que nela se fazem ouvir.24 A incompreensão, pelo contrário, deve marcar o início de uma pesquisa. Portanto, deve ser levada a sério pelo psicanalista, que não deve se contentar com a simples constatação de desvios ou do delírio. A propósito, essa é justamente a crítica que Freud dirige aos psiquiatras, no seu caso Schreber (1911). É preciso, ele assevera, introduzir outra dimensão: a do homem na história. Essa dimensão é aquela a qual Lacan vincula o problema da alucinação e que a chama de “a história do sujeito no simbólico”25 (Lacan, 16/11/56 [1955-1956a], p.16), ainda que questione essa conjunção de termos, já que, diz ele, “toda a história é por definição simbólica”26 (ibid.). Eis a crítica de Freud:

O interesse sentido pelo psiquiatra militante em formações delirantes como estas exaure-se, geralmente, uma vez haja determinado o caráter dos produtos do delírio e feito uma estimativa de sua influência sobre a conduta geral do paciente; em seu caso, maravilhar-se não é o início da compreensão. O psicanalista, à luz de seu conhecimento das psiconeuroses, aborda o assunto com a suspeita de que mesmo estruturas de pensamento tão extraordinárias como estas, e tão afastadas de nossas modalidades comuns de pensar, derivam, todavia, dos mais gerais e compreensíveis impulsos da mente humana; e gostaria de descobrir os motivos de tal transformação, bem como a maneira pela qual ela se realizou. Com este objetivo em vista, desejará aprofundar-se mais nos pormenores do delírio e na história de seu desenvolvimento. (Freud, 1911b, p.28.)

{El interés del psiquiatra práctico por tales formaciones delirantes suele agotarse, en general, tras establecer él la operación del delirio y apreciar su influjo sobre la dirección que el paciente imprime a su vida; el asombro del psiquiatra no es el

23 “[...] qui est très précisément la relation analytique, [...] telle qu’elle est constitué par l’aveu par le sujet de

quelque chose qu’il vient dire au médecin, [...] et c’est à partir de là que tout s’élabore [...].” Cf. Lacan, 2002,

p.17.

24 Deve-se enfatizar que tanto Michel Foucault (1970, p.309) quanto Gilles Deleuze (1970, p.23), ao

analisarem o livro Le schizo et les langues do esquizofrênico Louis Wolfson (1970), também afirmaram que o problema da psicose e o de sua linguagem são inseparáveis de um “procedimento linguístico”.

25 “l’histoire du sujet dans le symbolique”. Cf. Lacan, 2002, p.22. 26

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comienzo de su entendimiento. El psicoanalista trae, de la noticia que tiene sobre las psiconeurosis, la conjetura de que aun formaciones de pensamiento tan extravagantes, tan apartadas del pensar ordinario de los hombres, se han originado en las mociones más universales y comprensibles de la vida anímica; le gustaría, por eso, conocer los motivos y los caminos de esa transformación. Con ese propósito ahondará de buena gana en la historia de desarrollo así como en los detalles del delirio.} (Id., 1911c, p.18.)27

Lacan diz, a partir disso, que o problema se mostra no fato de o psicótico ser invadido pela ordem simbólica e que essa invasão atinge o campo do imaginário. Isso quer dizer que, como destacado acima, não é o psicológico – o etológico – que determina os perturbadores fenômenos da linguagem na psicose. Pelo contrário, a psicose mostra que é a linguagem que perturba as relações do homem com a ordem imaginária e real, desde o momento em que ele nasce nela como tal. Isso permite a Lacan distinguir, nesse momento de elaboração, a ordem simbólica da imaginária e real dada à “natureza” dessa invasão:

[...] que diferença há entre alguma coisa que é da ordem simbólica daquela que é da ordem imaginária ou real? É que na ordem imaginária ou real temos sempre algo que seria mais ou menos alguma coisa como um limiar, uma margem; um mais ou menos; uma continuidade. Na ordem simbólica todo elemento vale enquanto oposto a um outro28. Para entrar, por exemplo, no campo da experiência em que iremos começar a nos introduzir, a de nosso psicótico, peguemos algo bem elementar. Um de nossos psicóticos nos conta em que

mundo estranho entrou há algum tempo. Tudo se tornou signo para ele. Ele

conta que não somente é espiado, observado, vigiado, falam, dizem, indicam, olham-no, piscam-lhe o olho, mas que isso pode ir bem mais longe. Isso pode

invadir [...], diremos, o campo dos objetos reais inanimados, inumanos.

{[...] quelle différence y a-t-il entre quelque chose qui est de l’ordre symbolique et quelque chose qui est de l’ordre imaginaire ou réel? C’est que dans l’ordre imaginaire ou réel nous avons toujours plus ou moins autour de quoi que ce soit qui soit un seuil, nous avons une marge, nous avons un plus ou moins, nous avons une continuité. Dans l’ordre symbolique, tout élément vaut en tant qu’opposé à un autre, pour entrer par exemple dans le champ de l’expérience où nous allons commencer de nous introduire, celle de notre psychotique, prenons quelque chose de tout à fait élémentaire. L’un de nous psychotique nous

raconte dans quel monde étrange il est entré depuis quelque temps, tout pour lui est devenu signe, non seulement quand il les raconte, il est épié,

27 A versão efetivamente utilizada aqui dos textos de Freud é a espanhola. Contudo, para evitar uma tradução

da tradução sempre disponibilizarei o trecho correspondente vertido ao português. Nesse caso, a preferência será dada à edição Standard brasileira, malgrado seus conhecidos problemas de tradução. Porém, trata-se de uma versão de amplo acesso. No caso do texto de Freud sobre Schreber, existe outra tradução disponível em nossa língua (cf. Freud, 1911a, pp.13-107). Contudo, por conta de alguns erros nada negligenciáveis, ela também deixa a desejar. Devo, por último, ainda dizer que, dada à importância desse último texto neste estudo, laço igualmente mão de suas versões francesa e alemã.

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observé, surveillé, on parle, on dit, on indique, on le regarde, on cligne de l’oeil,

mais cela peut aller beaucoup plus loin, cela peut envahir [...] nous dirons le champ des objets réels inanimés, nonhumains.} (Lacan, 16/11/15956

[1955-1956a], p.10; ênfase minha.)29

Nesse sentido, o que, para Lacan, Freud introduz de novo quando publica o comentário de sua leitura das Memórias de Schreber? Não se trata, ele afirma, da “trama da técnica”, mas de uma criação, de algo que é da ordem de um “começo absoluto” (cf. Lacan, 16/11/56 [1955-1956a], p.11). O que é? É que Freud faz uma “interpretação simbólica” do texto, do discurso impresso de Schreber (cf. ibid.) que – como se lê na epígrafe da

Apresentação deste trabalho – faz retornar uma linguagem silenciada até então. Isso não é

tudo, adverte Lacan, pois tal exercício de Freud no caso Schreber não consiste em apenas ler o delírio, mas também em dar peso em sua leitura a uma hipótese quanto ao que retorna na psicose: o cancelado, não o recalcado. Isso abre uma possibilidade de ler o delírio para mais além do campo das demências e chegar ao campo das loucuras em busca de seu mecanismo psíquico.

O próprio Freud, na verdade, no final da segunda subparte de seu texto, intitulada Tentativa de intepretação (cf. Freud, 1911c, pp.34-54), diz que sua interpretação o leva apenas a situar a psicose paranoica de Schreber no seio do complexo paterno. Ela não permite, entretanto, que se depreenda a particularidade da estrutura da paranoia; no original, “Struktur der Paranoia” (Freud, 1911d, p.9).

A ‘estrutura’ é referida à linguagem, que, na psicanálise, é ‘fala’ mais ‘língua’. Pois é o que Lacan enfatiza para seu auditório quando diz que a “intepretação simbólica” do delírio de Schreber por Freud, embora seja “sensacional”, não distingue neurose de psicose.

Quer dizer que a aplicação do método analítico não mostraria aqui nada mais que isto: que ela é efetivamente capaz, na ordem simbólica, de fazer uma leitura regular, mas inteiramente incapaz de dar conta de sua distinção e de sua originalidade. Está bem claro que, então, é inteiramente além disso que, sem dúvida, será uma vez mais demostrado pela leitura de Freud. É bem além disso que se colocam os problemas que constituirão o objeto de nosso estudo neste ano e que, também, justificarão que os tenhamos posto em nosso programa.

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{C’est-à-dire que l’application de la méthode analytique ne montrerait ici rien de plus que ceci: qu’elle est capable en effet dans l’ordre symbolique de faire une lecture égale, mais tout à fait incapable de rendre compte de leur distinction et de leur originalité. Il est bien clair que c’est donc tout à fait au-delà de cela qui sans doute sera une fois de plus démontré par la lecture de Freud, que c’est bien au-delà de cela que se posent les problèmes que vont faire l’objet de notre recherche de cette année, et qui vont aussi justifier que nous les ayons mis à notre programme.} (Lacan, 16/11/56 [1955-1956a], p.13.)30

É a partir de então que Lacan começa a enunciar que tais problemas concernem à delimitação de qual seja o mecanismo psíquico particular da psicose. Para tanto, atenta ao fato de que a alucinação implica um “retorno” que é distinto do retorno do recalcado, uma vez que o psicótico não admitiu – no processo de estruturação do infans em sujeito (falante) – em seu mundo simbólico algo referente à ameaça de castração e que ele não quer saber nada disso no sentido do recalcado (cf. ibid., pp.14-15).31 Diz isso com o objetivo de introduzir, em seu retorno a Freud, uma distinção da Verdrängung, do recalque, com relação à Verwerfung, que, nesse momento de seu ensino, traduz por rejet, “rejeição”, ou

retranchement, “imputação” ou “cerceamento”.

O próprio Freud indica o caminho a ser seguido, destacando que é nesse nível que se colocam os problemas. Aliás, ele mesmo escreve que sua “interpretação simbólica” não basta para estabelecer uma diferença entre neurose e psicose e que é preciso, para cumprir essa tarefa, buscar a particularidade do mecanismo de “formação do sintoma” e do “recalque” na paranoia. É o que se lê no princípio da terceira subparte de seu texto, chamada Sobre o mecanismo paranoico:

Estivemos até aqui lidando com o complexo paterno, elemento dominante no caso de Schreber, e com a fantasia de desejos em torno da qual a doença se centralizou. Mas, em tudo isso, nada existe de característico da enfermidade conhecida como paranoia, nada que não possa ser encontrado (e que não tenha sido, em verdade, encontrado) em outros tipos de neuroses. O caráter distintivo

da paranoia (ou da dementia paranoides (sic)) deve ser procurado alhures, a saber, na forma específica assumida pelos sintomas32; e esperamos descobrir que esta é determinada, não pela natureza dos próprios complexos, mas pelo mecanismo mediante o qual os sintomas são formados ou a repressão é ocasionada. (Freud, 1911b, p.67; ênfase minha.)

30 Cf. Lacan, 2002, p.19.

31 A partir do próximo capítulo, essa última operação bem como sua distinção na neurose e na psicose será

cada vez mais explorada.

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{Hasta aquí hemos tratado sobre el complejo paterno que gobierna al caso Schreber y sobre la fantasía central de deseo de la enfermedad contraída. Pero respecto de la paranoia como forma patológica no hay en todo esto nada característico, nada que no pudiéramos hallar, y en efecto hallamos, en otras neurosis. Tenemos que situar la especificidad de la paranoia (o demencia

paranoide) en algo diverso: en la particular forma de manifestarse los síntomas; y nuestra expectativa no consistirá en imputarla a los complejos, sino al mecanismo de la formación de síntoma o al de la represión.} (Freud,

1911c, p.55; ênfase minha.)

Recordemos, sucintamente, que, em sua “tentativa de interpretação”, Freud levanta a tese de que a paranoia consiste numa defesa relativa à fantasia de desejo homossexual que desencadeia um delírio de perseguição. A leitura de Freud, nessa subparte, permitiu-lhe identificar duas fases na evolução da psicose de Schreber. Na primeira, o perseguidor dele era seu médico Flechsig (cf. Freud, 1911c, p.45). Na segunda, Deus e o Sol (cf. ibid.). Deve-se assinalar que o Sol, diz Freud, “não é senão o símbolo sublimado do pai” (ibid., p.51); personagem que, aliás, Freud deduz habitar o delírio de Schreber, embora não seja nele nomeado (cf. Ibid., pp.47-54). De fato, a leitura de Freud deixa ver que a emergência da fantasia de desejo homossexual é a desencadeadora da psicose de Schreber e que (a alma de) Flechsig é, do começo ao fim, identificada pelo próprio Schreber como a responsável por seus infortúnios (cf. ibid., p.45 e p.64). No entanto, quando começa a ocorrer a substituição de Flechsig por Deus e Sol, tem início um processo de reconciliação que culmina na “cura”, isto é, na cessação das vozes e estabilização do delírio (cf. ibid.). Tal substituição possibilitou a reconciliação porque aquilo que causava horror e desencadeou uma catástrofe do mundo subjetivo, a fantasia de desejo homossexual dirigida à Flechsig, se transformou na sensação e na certeza inabalável de que ele, Schreber, era a mulher de Deus. Deve-se acrescentar que isso respondia, segundo Schreber, a propósitos superiores, divinos. Isto é, essa transformação consiste numa mudança de um delírio de perseguição num delírio de grandeza ou megalomaníaco.

Freud observa no delírio transformações no plano libidinal e narcísico. O sepultamento do mundo (subjetivo) deixa entrever que houve a retirada de investimentos libidinais da pessoa antes amada33 (cf. Freud, 1911c, p.65). Corresponde ao crepúsculo que

33

(37)

37 antecede o princípio, a gênese. É o momento do desencadeamento da psicose com

subsequente emergência do delírio de perseguição.34 Pôde, assim, afirmar que o sepultamento do mundo é a projeção da catástrofe interior (cf. ibid.).

Contudo, escreve Freud, com o sepultamento, o coro (as alucinações) ordena a reconstrução e o paranoico o reconstrói mediante o trabalho de seu delírio (cf. ibid., p.64). As vozes anunciam uma gênese a ser formulada na reconstrução. A reconstrução delirante é, assim, concebida como uma tentativa de cura, que se torna mais expressiva com a reconciliação, ou seja, com a atenuação do conflito na segunda fase do delírio quando comparece Deus, o Sol. As alucinações são, para Freud, os “sintomas” e a projeção corresponde ao processo de “formação do sintoma”. Elas dão notícias do processo do

Se o perseguidor Flechsig fora originalmente uma pessoa a quem Schreber amara, então também Deus

deveria ser simplesmente o reaparecimento de alguém mais que ele amara, e, provavelmente,

alguém de maior importância. [...] Seremos levados à conclusão de que esta outra pessoa deve ter

sido seu pai; isso torna ainda mais claro que Flechsig deve ter representado o irmão, que, esperamos,

pode ter sido mais velho que ele próprio. A fantasia feminina, que despertou uma oposição tão violenta no paciente, tinha assim suas raízes num anseio, intensificado até um tom erótico, pelo pai e pelo irmão. Esse sentimento, na medida em que se referia ao irmão, passou, por um processo de

transferência, para o médico, Flechsig; e, quando foi devolvido ao pai, chegou-se a uma estabilização do conflito. (Freud, 1911b, p.59; ênfase minha.)

{Si el perseguidor Flechsig fue antaño una persona amada, tampoco Dios es más que el retorno de

otra persona amada de parecido modo, pero probablemente más sustantiva. [...] Esa otra persona no puede ser sino el padre, con lo cual Flechsig es esforzado tanto más nítidamente hacia el papel del

hermano (confiamos en que sería mayor). La raíz de aquella fantasía femenina que desató tanta resistencia en el enfermo habría sido, entonces, la añoranza por padre y hermano, que alcanzó un

refuerzo erótico; de ellos, el segundo pasó por trasferencia al médico Flechsig, mientras que con su reconducción al primero se alcanzó una nivelación de la lucha.} (Freud, 1911c, p.47; ênfase minha.)

Lembremos aqui que “Deus é Pai”. Então a reconstrução delirante de Schreber realizaria um desejo transexual infantil em relação ao pai? Afinal, ser a mulher de Deus não realizaria o desejo e a fantasia sexual infantil de uma menina? O que se pode dizer é que uma resposta mais segura deve analisar rigorosamente os termos em questão.

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Voltarei a esse ponto mais a frente. Porém, convém recordar que no Manuscrito K lemos, a propósito, o seguinte:

O recalque ocorre depois que a respectiva lembrança [da cena sexual traumática na infância, aquela em que, como dito acima, Freud entrevia o pai] causou desprazer – não se sabe como. Contudo, nenhuma autocensura se forma, nem é posteriormente recalcada; e o desprazer gerado é atribuído a pessoas

que, de algum modo, se relacionam com o paciente, segundo a fórmula psíquica da projeção. O sintoma primário formado é a desconfiança (suscetibilidade a outras pessoas). Nesta, o que se passa é que a pessoa se recusa a crer na autocensura. (Freud, 1986d, pp.273-274; ênfase e o

colchetes são meus, o itálico é do autor.)

{[...] la represión acontece luego que este recuerdo, no se sabe cómo, ha desprendido displacer. Pero

no se forma ningún reproche luego reprimido, sino que el displacer que se genera es atribuido al

prójimo según el esquema psíquico de la proyección. Desconfianza (susceptibilidad hacia otros) es el síntoma primario formado. Así se deniega creencia a un eventual reproche.} (Freud, 1896c,

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