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IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 12.796/13: UM ESTUDO SOBRE AS DIFICULDADES ENFRENTADAS POR DOCENTES E PEDAGOGOS/AS NA AVALIAÇÃO DE ALUNOS/AS DE UMA ESCOLA PÚBLICA DE EDUCAÇÃO INFANTIL DE UBERLÂNDIA-MG

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UNIVERSIDADE DE UBERABA

PRÓ-REITORIA DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO E EXTENSÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO: FORMAÇÃO DOCENTE PARA A EDUCAÇÃO BÁSICA

MESTRADO PROFISSIONAL

LAZARA DA PIEDADE RODRIGUES REGATIERI

IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 12.796/13: UM ESTUDO SOBRE AS DIFICULDADES ENFRENTADAS POR DOCENTES E PEDAGOGOS/AS NA AVALIAÇÃO DE

ALUNOS/AS DE UMA ESCOLA PÚBLICA DE EDUCAÇÃO INFANTIL DE UBERLÂNDIA-MG

UBERLÂNDIA-MG 2019

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LAZARA DA PIEDADE RODRIGUES REGATIERI

IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 12.796/13: UM ESTUDO SOBRE AS DIFICULDADES ENFRENTADAS POR DOCENTES E PEDAGOGOS/AS NA AVALIAÇÃO DE

ALUNOS/AS DE UMA ESCOLA PÚBLICA DE EDUCAÇÃO INFANTIL DE UBERLÂNDIA-MG

Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado Profissional em Educação, da Universidade de Uberaba, como requisito para obtenção do Título de Mestre. Linha de Pesquisa: Práticas Docentes para a Educação Básica

Orientadora: Prof.ª Dra. Gercina Santana Novais

UBERLÂNDIA-MG 2019

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iv DEDICATÓRIA

Ao tio Alípio Barbosa Lucas (in memoriam), meu exemplo de amor, caridade, fé, sabedoria, humildade e paciência. Um amigo e conselheiro na vida pessoal e um grande incentivador aos estudos e à vida profissional. Com certeza, hoje ele celebra esta minha conquista. Valeu tio!

Ao meu marido Walter, meus filhos Gustavo, Bruno e Lucas, à minha nora Glenda e meus netos, Miguel e Yuri. Vocês são os amores da minha vida e razão de minhas maiores alegrias!

Às professoras e pedagogas participantes desta pesquisa e a todos/as os/as profissionais da educação infantil que estão comprometidos com uma educação pública, laica, gratuita e de qualidade socialmente referenciada.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus pela vida, pela família maravilhosa que tenho e por ter me permitido realizar mais esse sonho. OBRIGADA!

À minha querida orientadora, Professora Gercina Santana Novais pela competência, humanizadora e dedicação amorosa. À Minha “Paulo Freire de saias”, obrigada por ser tão sincera, paciente e por acreditar em mim, sempre incentivando e chamando-me à razão quando nos momentos de impulso e aflição, me esquecia da condição de ensinante e aprendente, incompleta, mas, potencialmente capaz.

Aos membros da banca examinadora, o professor Tiago Zanquêta de Souza e a professora Olenir Maria Mendes, que prontamente aceitaram participar desse importante momento, mesmo com tantos compromissos.

A todos os/os amigos/as, obrigada pelo convívio, amizade e apoio demonstrados. Desculpem-me pelas ausências.

Ao tio Alípio Barbosa Lucas (in memoriam), que incentivou-me desde a adolescência a estudar, a perseverar e a não desistir nunca dos meus sonhos. Você faz muita falta...

À minha Sogra Maria José Balieiro Regatieri (in memoriam), amiga especial e grande incentivadora em vida. Saudades!

À minha família, tios/as, primos/as, afilhados/as e sobrinhos/as que me ampararam e compreenderam o meu isolamento nesses dois anos.

Ao meu pai Adão, à Martha (madrasta) e ao Marcus, que me apoiaram e sempre me deram força, compreendendo meu afastamento e torcendo pelo meu sucesso. Obrigada, amo vocês! À minha adorável mãe Inez (Nena), meu exemplo de amor, dedicação, humildade e fé. Sempre rezando por mim, te amo! Ao Jairo (padrasto) e meus irmãos maternos Heloisa, Jairinho, Cristina e Marcelo. Desculpem-me pelas ausências, amo vocês!

À minha tia Conceição (minha irmã), que me apoiou incondicionalmente nos momentos mais difíceis de sua vida. Gratidão eterna!

Ao meu marido, “paixão”, que me fez ousar em mudar o conto da Moça Tecelã. Nem ele me prendeu na torre mais alta e nem eu o desfiz na tecedura do tapete. Seguramos juntos e firmemente a lançadeira e construímos a trajetória, sempre unidos. Obrigada amor, por cuidar de mim e da minha saúde, pela força, pela paciência nas ausências, pela ajuda e pelos lanchinhos-surpresa que me davam energia para continuar. TE AMO! TE AMO!

Aos meus amados filhos Gustavo, Bruno e Lucas e minha nora Glenda pelo apoio incondicional. E os netos mais lindos do mundo: Miguel e Yuri. AMO VOCÊS!

A todos/as que, de forma direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho, o meu muito obrigada!

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vi EPÍGRAFE

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca, faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o colérico Posídon te intimidem; eles no teu caminho jamais encontrarão se altivo for teu pensamento,

se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar. Nem Lestrigões nem os Ciclopes,

nem o bravio Posídon hás de ver,

se tu mesmo não os levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti. Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir:

madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais de toda espécie, quanto houver de aromas deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina para aprender, para aprender dos doutos. Tem todo o tempo Ítaca na mente. Estás predestinado a ali chegar Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada e fundares na ilha velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca.

Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso não lhe cumpre dar-te. Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu. Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, terás compreendido o sentido de Ítaca.

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vii RESUMO

Este texto apresenta os resultados de uma investigação sobre as possibilidades e dificuldades para implementar avaliação na educação infantil e as possíveis propostas para a superação dessas dificuldades no contexto de implementação da Lei 12796/13, vinculada à linha de pesquisa Práticas Docentes para a Educação Básica / Programa de Mestrado Profissional em Educação da Universidade de Uberaba. Propôs uma abordagem descritiva-diagnóstica de realidade que buscou a informação diretamente com a população a ser pesquisada e contemplou revisão de literatura, pesquisa de campo e análise de documentos, cuja produção de dados foi a análise documental e entrevistas semiestruturadas. O objetivo primário constituiu-se em contribuir para as reflexões sobre as dificuldades enfrentadas a partir da aprovação da referida Lei pelos/as professores/as na avaliação e sistematização das formas de registro do avaliado na educação infantil de uma escola pública municipal de Uberlândia/MG. Como objetivos secundários: a) Analisar quais são as concepções e as práticas de avaliação adotadas pelos/as docentes e pedagogas. B) Identificar as formas de registros sobre os/as alunos/as implementadas pelos/as professores/as e pedagogas. C) Identificar e analisar as dificuldades enfrentadas pelos/as professores/as na sistematização das formas de registro e avaliação para as aprendizagens. D) Elaborar um Caderno de Reflexões sobre avaliação na educação infantil, com base nas demandas identificadas no contexto das dificuldades para se avaliar. Os/as participantes da pesquisa foram professores/as e pedagogos/as atuantes em uma escola pública de Uberlândia-MG que atende crianças na faixa etária entre 4 e 5 anos de idade. O estudo foi realizado entre fevereiro e julho de 2019. A Base teórica que ancorou a investigação: Bogdan e Biklen (1994), Cellard (2008), Tim May (2004), Lakatos (2003) e Minayo (1994) contemplou enfoques, métodos e técnicas de pesquisa; Franco (2008) e Bardin (1977) sobre análise de conteúdo; Hoffman (2015), Barbosa e Horn(2008), Villas Boas(2007),

Luckesi (2002), Fernandes (2006;2008) e Mendes (2014) a respeito de avaliação formativa e avaliação na educação infantil. Os resultados mostraram que as professoras consideram o procedimento da observação como fundamental no processo de acompanhamento da criança e o papel do/a docente como mediador/a nos processos de desenvolvimento e aprendizagem. Tecem críticas aos roteiros padronizados de avaliação e apresentam dúvidas sobre o que avaliar, como avaliar e por que avaliar. Evidenciam dificuldades significativas em relação à fundamentação teórica sobre avaliação na educação infantil, processos avaliativos, aprendizagem e desenvolvimento infantil, bem como na organização e sistematização dos registros e no uso de procedimentos avaliativos e terminologias a serem utilizadas. Demonstram dificuldade na elaboração da avaliação com registros, na forma de relatar e uma relutância em falar sobre a criança avaliada. Evidenciam o resquício de avaliação tradicional punitiva, evidenciada quando manifestam receio de escreverem sobre o observado acerca do/da aprendente. Preocupam-se em como elas mesmas serão avaliadas pela comunidade escolar. Os termos e as expressões apropriadas são motivos de aflição e questionamentos éticos. Nesse sentido, os resultados evidenciaram as demandas das professoras e pedagogas por orientações teóricas e práticas de forma a ajudá-las a enfrentar dificuldades para implementar avaliação na educação infantil como especifica a Lei 12796/13. Propuseram um guia/caderno que as apoiassem na organização e sistematização das observações e dos registros realizados com e sobre as crianças, assim como orientações sobre procedimentos e terminologias apropriadas a serem usadas na elaboração do relatório descritivo. Espera-se que esta pesquisa contribua para reflexões sobre as dificuldades enfrentadas pelos/as docentes e pedagogos/as ao realizar avaliação na educação infantil no contexto de implementação da Lei 12796/13.

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viii ABSTRACT

This paper presents the results of a research on the possibilities and difficulties to implement assessment in early childhood education and the possible proposals for overcoming these difficulties in the context of the implementation of Law 12796/1, linked to Teaching Practices researches for Elementary Education / Professional Masters Program in Education from Uberaba University It proposed a descriptive-diagnostic approach to reality that sought information directly from the population to be researched and included literature review, field research and document analysis, whose data production was document analysis and semi-structured interviews. Primary objective was to contribute to the reflections on the difficulties faced from the approval of the referred Law by the teachers in the evaluation and systematization of the forms of registration of the evaluated in the kindergarten of a municipal public school in Uberlândia / MG. As secondary objectives: a) Analyze the conceptions and evaluation practices adopted by teachers and pedagogues. B) Identify the forms of student records implemented by teachers and pedagogues. C) Identify and analyze the difficulties faced by teachers in the systematization of forms of registration and assessment for learning. D) Create a Booklet of Reflections on childhood education evaluation based on identified demands among the difficulties to evaluate. The research participants were teachers and educators working in a public school in Uberlândia-MG that serves children between the ages of 4 and 5 years old. The study was conducted between February and July 2019. The theoretical basis that anchored the research: Bogdan and Biklen (1994), Cellard (2008), Tim May (2004), Lakatos (2003) and Minayo (1994) included approaches, methods and research techniques; Franco (2008) and Bardin (1977) on content analysis; Hoffman (2015), Barbosa and Horn (2008), Villas Boas (2007), Luckesi (2002), Fernandes (2006;2008) and Mendes (2014) regarding formative assessment and assessment in early childhood education. The results showed that the teachers consider the observation procedure as fundamental in the process of monitoring the child and the role of the teacher as a mediator in the development and learning processes. They criticize standardized assessment scripts and have questions about what to evaluate, how to evaluate, and why to evaluate. They show significant difficulties in relation to the theoretical foundation on evaluation in early childhood education, evaluation processes, learning and child development, as well as the organization and systematization of records and the use of evaluation procedures and terminologies to be used. They demonstrate difficulty in preparing the assessment with records, how to report and a reluctance to talk about the evaluated child. They show the remnant of traditional punitive assessment, evidenced when they express fear of writing about what was observed about the learner. They worry about how they themselves will be evaluated by the school community. Appropriate terms and expressions are grounds for distress and ethical questions. In this sense, the results evidenced the demands of teachers and pedagogues for theoretical and practical orientations in order to help them face difficulties to implement evaluation in early childhood education as specified by Law 12796/13. They proposed a guide to support them in organizing and systematizing observations and records made with and about children, as well as guidance on appropriate procedures and terminologies to be used in the preparation of the descriptive report. This research is expected to contribute to reflections on the difficulties faced by teachers and educators when conducting assessment in early childhood education in the context of the implementation of Law 12796/13.

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LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

BNCC - Base Nacional Comum Curricular

CEMEPE - Centro Municipal de Estudos e Projetos Educacionais Julieta Diniz CIE - Circular Interna Educação

CONAE - Conferência Nacional de Educação

DCNEI - Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente

EB - Educação Básica EI - Educação Infantil EF - Ensino Fundamental

EMEI - Escola Municipal de Educação Infantil FUNDEB - Fundo Nacional da Educação

LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases para a Educação MEC - Ministério da Educação e Cultura

NADH - Núcleo de Apoio às Diferenças Humanas NINF - Núcleo das Infâncias

PNE - Plano Nacional de Educação SME - Secretaria Municipal Educação

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Infraestrutura e quadro de pessoal da EMEI Tecelã 93

Quadro 2 - Quem são as professoras e pedagogas entrevistadas: idade, sexo,

raça/cor, classe social, religião, formação inicial e continuada, instituição formadora e

anos de docência. 247

Quadro 3 - Análise do PPP da EMEI Tecelã (Temáticas definidas a priori) 248

Quadro 4 - Relatórios descritivos elaborados professores sobre os alunos. (Temáticas

definidas a priori) 249

Quadro 5 - Entrevistas com as professoras (Temáticas definidas a priori) 250

Quadro 6 - Entrevistas com as professoras. (temáticas que surgiram a partir da

leitura dos registros escritos das entrevistas) 251

Quadro 7 - Entrevistas com pedagogas (Temáticas definidas a priori) 252

Quadro 8 - Entrevistas com pedagogas (Temáticas que surgiram a partir da leitura

dos registros escritos das entrevistas)

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xi SUMÁRIO

I INTRODUÇÃO

1.1 CAMINHOS PERCORRIDOS NA EXPERIÊNCIA DE VIVER E FORMAR-SE PESQUISADORA

1.1.1 A ida para a cidade 1.1.2 Ginásio e casamento

1.1.3 Retornando ao campo educacional 1.1.4 A mudança da terra natal

1.1.5 Profissionalização e retomada aos estudos

1.2 Do tema à escolha das questões orientadoras e objetivos do projeto de investigação sobre avaliação na educação infantil

1.2.1 Outros elementos do contexto de produção e da composição da justificativa do projeto de pesquisa

II CAMINHOS METODOLÓGICOS 2.1 Análise documental

2.1.1 Entrevista Semiestruturada 2.2 O Local da Pesquisa

2.2.1 A escolha da EMEI Tecelã

2.3 Os participantes e os critérios de inclusão e exclusão

III POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL: conquistas e Retrocessos

3.1 Infâncias, educação infantil e avaliação

3.2 A educação infantil no Brasil: direito fundamental das crianças

3.3 Entrecruzando passado e presente: buscando compreensões sobre a educação infantil

IV TEORIAS E PRÁTICAS AVALIATIVAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL 4.1 Diálogos sobre a Avaliação: seu papel, sentidos e significados

4.1.2 Avaliação no contexto das infâncias

4.1.3 O paradigma formativo e mediador da avaliação na educação infantil

15 15 21 22 25 26 29 37 38 41 42 45 46 54 55 57 58 62 75 79 80 83 85

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V LENDO, ANALISANDO E INTERPRETANDO DOCUMENTOS: buscando compreensões sobre avaliação na educação infantil

5.1 Projeto Político Pedagógico/PPP: elemento constituinte do ensino e da aprendizagem

5.2. Concepções, práticas avaliativas e as formas de registros sobre os/as alunos/as no PPP da EMEI Tecelã

5.2.1 Práticas avaliativas e formas de registro

5.2.2 Projetos/planejamentos: sinais de procedimentos avaliativos

5.3 A Lei nº 12.796/2013 e a obrigatoriedade de matrícula aos quatro anos de idade nas instituições de educação infantil

5.4 Base Nacional Comum Curricular BNCC/20017

5.5 Orientações para implementação da lei nº 12.796/2013 na Rede Municipal de Educação de Uberlândia MG

5.5.1 Formulários de relatórios do processo de construção do conhecimento da criança

5.5.2 Orientação nº. 01/junho de 2015 da Superintendência Regional de Ensino- Uberlândia/SRE/UDIA

5.5.3 Orientação nº. 01/novembro de 2015 da Secretaria Municipal de Educação/SME/UDIA

5.6 O Plano de Ação Referência da Educação Infantil (Versão Preliminar) -2018 5.7 Relatório Descritivo do Desenvolvimento e Aprendizagem da Criança

5.7.1 Análise dos relatórios elaborados pelas professoras sobre os/as alunos/as 5.7.2 Estrutura e conteúdo do relatório entregue pelas professoras

5.7.3 Concepções de avaliação

5.7.4 Práticas avaliativas, formas de registro e dificuldades evidenciadas na avaliação para as aprendizagens

5.7.5 Desenvolvimento e aprendizagem

VI ESCUTA, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DAS NARRATIVAS DAS PROFESSORAS E PEDAGOGAS

6.1 Retratos dos sujeitos participantes da pesquisa

6.1.1 Narrativas das professoras e docência na educação infantil

91 91 98 100 101 104 106 109 110 111 113 117 121 124 124 131 132 134 139 141 142

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6.1.2 As bases teóricas que fundamentam as práticas das professoras entrevistadas

6.1.3 Formação inicial das professoras entrevistadas: disciplina educação infantil e seus significados para as práticas de avaliar nessa modalidade de ensino

6.1.4.1 Disciplina avaliação na educação infantil e seus significados para as práticas de avaliar

6.1.5 Importância da formação continuada para a prática docente: a visão das professoras entrevistadas

6.1.6 Narrativas sobre as crianças, concepções e práticas de avaliação adotadas pelas professoras entrevistadas

6.1.6.1 Concepção de avaliação

6.1.6.2 Relatos sobre práticas avaliativas e as formas diversificadas de registros inseridas nos planos/planejamentos de aula

6.1.7 Participação dos pais e de outros responsáveis no processo de construção da aprendizagem e desenvolvimento dos/as alunos/as

6.1.8 Dificuldades para ensinar e sistematização das formas de registro e avaliação para as aprendizagens em contexto de aplicação da Lei 12796/13

6.1.9 Propostas para superar dificuldades de avaliar na educação infantil e exigências contidas na Lei 12.796/13

6. 2 Retratos de pedagogas e narrativas sobre avaliação 6.2.1 As pedagogas: formação e atuação na educação infantil

6.2.2 Educação infantil e avaliação na formação inicial das Pedagogas 6.2.3 A temática avaliação na formação inicial das pedagogas entrevistadas 6.2.4 Atuação profissional das pedagogas entrevistadas e as concepções e práticas de avaliação adotadas

6.2.4.1 Concepção de avaliação

6.2.5 Participação dos pais, mães e de outros responsáveis no processo de construção da aprendizagem e desenvolvimento dos/as alunos/as

6.2.6 Dificuldades para orientar professoras sobre formas de registro e avaliação para as aprendizagens em contexto de aplicação da Lei12796/13

6.2.7 Propostas para superar as dificuldades de avaliar na educação infantil e exigências contidas na 12.796/13

6.2.8 Entrecruzando as análises dos dados

156 159 161 166 169 172 176 182 185 191 194 194 198 199 200 205 208 209 213 214

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xiv V CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS

APÊNDICE A - Roteiro da entrevista semiestruturada com professores/as

participantes da pesquisa

APÊNDICE B - Roteiro da entrevista semiestruturada com pedagogos/as

participantes da pesquisa

APÊNDICE C - Termo de consentimento livre e esclarecido - professor/a APENDICE D - Termo de consentimento livre e esclarecido - pedagogo/a

APÊNDICE E - Termo de autorização para realização de

pesquisa-Diretoras/diretores

APÊNDICE F - Termo de compromisso da equipe executora

APÊNDICE G - Ofício - solicitação de autorização para realização de pesquisa -

S.M.E. Uberlândia-MG

APÊNDICE H - Modelos de quadros de análises elaborados pela pesquisadora, para

serem preenchidos durante a leitura dos documentos e das entrevistas com professoras e pedagogas participantes das pesquisas

APÊNDICE I- Avaliação na educação infantil no ordenamento legal

APÊNDICE J - CADERNO DE REFLEXÕES: AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO

INFANTIL

ANEXO A - Termo de liberação para pesquisa envolvendo seres humanos -

Plataforma Brasil

ANEXO B - Orientação nº. 01/junho de 2015 da Superintendência Regional de

Ensino- Uberlândia/SRE/UDIA

ANEXO C - Orientação nº. 01/novembro de 2015 da Secretaria Municipal de

Educação/SME/UDIA

ANEXO D - Orientação de fevereiro de 2016 da Secretaria Municipal de

Educação/SME/UDIA

ANEXO E - Memorando nº 2282/2017 da Secretaria Municipal de

Educação-SME/CIE-circular

ANEXO F - Relatórios descritivos elaborados pelas professoras participantes da

pesquisa 217 221 234 236 238 240 242 244 245 247 254 258 295 296 316 334 338 342

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I

INTRODUÇÃO

1.1 CAMINHOS PERCORRIDOS NA EXPERIÊNCIA DE VIVER E FORMAR-SE PESQUISADORA

A Moça Tecelã

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. [...]. (MARINA COLASANTI, 2001, p. 9)1.

No conto de fadas moderno, “A Moça Tecelã”, Marina Colasanti (2001) narra a história de uma moça que usa seu tear para expressar sentimentos e com as cores das linhas ela tece a vida e seus humores, constrói elementos da natureza, concede vida aos seres e aos sonhos. Ao fazer isso, torna-se dona do seu destino.

Mas, o que a história “A Moça Tecelã” tem a ver com minha história? Tentarei desenrolar essa trama no decorrer desta narrativa, iniciando por justificar o encantamento instantâneo que esse conto provocou-me quando o ouvi pela primeira vez, o que ele representa e como a leitura dessa obra se transformou em uma “experiência,” “expondo-me” como sujeita. Para Larrosa (2002, p.21), “As palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que pensamos, o que percebemos ou o que sentimos são mais do que simplesmente palavras”. Sendo assim, justifico essa escolha, a princípio estranha, e talvez sem sentido para outrem, mas dotada de significado para mim. “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”. (LARROSA, 2002, p.21).

1Marina Colasanti nasceu em 1937 na cidade de Asmara, capital da Eritreia. Residiu posteriormente em Trípoli, na Líbia, mudou-se para Itália e, em 1948, transferiu-se com a família para o Brasil, onde vive até hoje na cidade do Rio de Janeiro. Na literatura infantil, seus “contos de fadas” ganharam destaque: preservando os elementos próprios das narrativas que remetem o leitor à Idade Média e equilibrando com maestria os gêneros narrativo e lírico, Marina discute sobre temas atuais, como o consumismo desenfreado, a inveja, o egoísmo e as relações humanas. Disponível em:

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Marina Colasanti cria uma personagem que não espera. A moça tecelã constrói no tear sua própria história. Ouso, então, como a moça tecelã da Marina, valer-me da lançadeira e tecer com fios multicores minha história. História de menina criança, de filha, de menina adolescente, de menina moça casada, do lar, menina mãe, mulher, funcionária pública, universitária, educadora/professora, pesquisadora... Enfim, será que são histórias diferentes? Ou são tramas de uma mesma história com nuances diferentes?

Walter Benjamim (1984) enfatiza que ao narrar uma história puxamos o fio de outra e, ao mesmo tempo, produzimos uma renovada visão da história. Para ele,

O narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer a um acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. (BENJAMIN,1985, p.221).

Nesse sentido, recorro ao acervo de minhas “reminiscências” (BENJAMIN, 1985) para tecer esta narrativa de vida, entremeando os caminhos percorridos na aventura para apresentar a minha “Experiência de viver e Formar-me Pesquisadora” para os desconhecidos olhos que passarão, a partir daqui, a fazer parte de minha história.

Eu não estou só. Se narro a minha história desfio, também, a de outros e outras que entrelaçaram até aqui seus fios e suas “tramas” à minha. “[...] Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias. Nada lhe faltava.” (COLASANTI, 2001, p. 12).

Quando leio esse fragmento do conto ouço minha vó tecendo... Sim, a vó Pitita (Luzia), tão lindinha e baixinha, mas, tão brava, forte e guerreira, além de todos os seus afazeres do lar, era tecelã. Tecia cobertas que nos aqueciam no inverno, que naquele tempo era bem mais frio, pois na década de 1970, período em que as mudanças climáticas, provocadas pelo crescente aumento das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e seus impactos ambientais, ainda não eram uma realidade tão gritante. Na época, em que a maioria das mulheres da minha família eram “donas de casa ou do lar”, ela ia além, tinha seu ofício: o de tecelã. E eu também me envolvia, seja para separar para ela as linhas em latinhas de extrato de tomate, quando da organização da trama a ser tecida, seja quando, numa arte de menina, aventurei-me fazendo do

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tecido armado no tear, um pula-pula. É claro que a vara de assa-peixe2 “cantou bonito”. Nunca mais repeti o feito.

Morávamos com meus avós numa localidade rural denominada Fazenda da Tolda, de propriedade de meu “avô-pai”, Geraldo Bilico. Era localizada nas proximidades da cidade de Três Marias, em Minas Gerais. Hoje grande parte dessas terras cedeu lugar ao plantio de eucaliptos, da empresa Gerdau Florestal (antes PAINS Florestal), que se dedica à produção de carvão vegetal, seguindo uma tendência mercadológica capitalista de desmatamento para atender ao mercado consumista.

Éramos eu e minha amada mãe Inês (Nena), meu exemplo de humildade e generosidade, que havia se casado novamente e morava perto, minha “avó-mãe”, minhas tias/irmãs: Conceição, Lourdes e Helena, outros tios/as e primos/as, que moravam nas proximidades, mas dentro das terras da fazenda. Meu avô Bilico, apesar de seu jeito bravo e sério, era muito amoroso e compreensivo. Eu era orgulhosamente sua pequena companheira nos afazeres da fazenda e nas campeadas, atividade que eu adorava por dois motivos: primeiro, achava as tarefas domésticas definidas para as mulheres muito mais chatas que as dos homens; segundo, parávamos em lugares já conhecidos por ele para colhermos frutos do cerrado. Meus preferidos eram a mangaba, araticum e o araçá. Minha avó, guia espiritual da família, comandava todos/as na reza diária do terço às 18 horas em volta do oratório, o que sempre dava um sono! Mas logo despertava para as brincadeiras no terreiro antes que escurecesse totalmente, era quando começavam as “estórias” de assombração. Morria de medo de umas contadas pelo carvoeiro Hilário. Havia também os passeios à noite em fazendas vizinhas para o terço, um truco e conversas nostálgicas em volta da fornalha. As crianças ficavam no terreiro em volta da fogueira fazendo traquinagens e ouvindo os “causos”. Duas lembranças fortes dessa época retratam nossa participação social na região: a festa religiosa de Nossa Senhora da Abadia, que acontecia anualmente, na qual meu avô era o organizador/festeiro. Saíamos totalmente da rotina em

2[Bot.] Assa-peixe é o nome popular de uma planta da família das Asteráceas , que ocorre em todo o Brasil. É um subarbusto com até 2 metros de altura, ramos cilíndricos e que produz flores lilás. É considerada uma planta daninha, muito prejudicial para as pastagens. Atrai muitasabelhas e suas folhas são comestíveis. Também é chamada de: assa-peixe-branco, chamarrita, cambará-branco, cambará-Guaçu. Disponível em: < https://www.dicionarioinformal.com.br › assa-peixe. > Acesso em: 30 de mai. 2018.

Nome científico: Vernonia polyanthes Less (Asteraceae), conhecida popularmente como "assa-peixe", é uma planta típica da Mata Atlântica e é empregada na medicina popular para o tratamento de pneumonia, bronquite, cálculo renal, malária e febre. Levantamento etnofarmacológico apontou também o uso dessa espécie no tratamento de afecções gástricas. [...], sendo a V. polyanthes utilizada em larga escala na medicina caseira, torna-se de fácil acesso à população por torna-ser amplamente distribuída em quatorna-se todo o território brasileiro. Alves, Lucas Ferenzini 1987- A474p Propagação vegetativa de assa-peixe (Vernonia polyanthes (Spreng.) Less.): estaquia caulinar e miniestaquia / Lucas Ferenzini Alves - Botucatu: [s.n.], 2018 70 p.: il., grafs., tabs. .<Disponível em:https://repositorio.unesp.br › bitstream › handle › ferenzini_la_dr_botfca1>. Acesso em: 25 de Ago. 2019.

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ocasião dessa festa, eu adorava. O outro evento marcante era a folia de Reis3, muito respeitada e admirada por meus avós.

Assim passei minha infância com muito amor, rodeada por minha mãe e meus avós. Ambiente que talvez tenha contribuído para não sentir tanto a ausência de meu pai biológico, que vim a conhecer e conviver só a partir dos nove anos. Estranhava a diferença na configuração familiar dos primos/as com seus pais e mães por perto, mas não sofria por isso.

Um fato acontecido nessa época sempre me acompanhou. São as narrativas da família que dão veracidade ao acontecido, visto que eu não me lembro. Vou chamá-lo de o “Episódio do leite”. Uma das minhas tarefas na lida da fazenda era levar uma pequena leiteira para a casa da tia Leonor, que morava próxima à casa central. Eu gostava da incumbência, pois tinha oportunidade de brincar com as/os primas/os que lá residiam. Numa dessas idas, já bem próxima do destino, começou uma chuva e meu primeiro impulso foi proteger o leite para que não se “molhasse”. Então, virei rapidamente o balde de boca para baixo, e é claro: o leite entornou completamente. Infringi inocentemente a força da gravidade e Isaac Newton que me perdoe, mas tinha apenas 5 ou 6 anos. Segundo os relatos contei todo o ocorrido e quais eram minhas intenções e a linha de pensamento. Este fato virou lenda na família, tema de inúmeras conversas, piadas e risadas nas rodas entre os/as primos/as queridos/as, isso até hoje. Tento incessantemente argumentar em minha defesa e na defesa de como a criança constrói conhecimento. Em vão, pois não acharam atraente trazer para nossas rodas, Piaget (1970), Vygotsky (1981)4 para abordar as concepções de desenvolvimento e construção de conhecimento pelas crianças em situações de interação com o meio. Argumento que o conhecimento não se constitui em cópia da realidade,

3Folia de Reis-Chamada ainda de Reisado ou Festa de Santo Reis. Aprovado o seu reconhecimento em 06/01/2017 pelo Conselho Estadual de Patrimônio de Minas Gerais, como patrimônio cultural imaterial do estado. Manifestação cultural e festiva, celebrada anualmente por católicos, ocorre geralmente no dia 6 de janeiro. Esta data, na tradição cristã, marca o aniversário da visita dos três reis magos ao recém-nascido Jesus Cristo. Belchior, Gaspar e Baltazar, convertidos em santos pela Igreja Católica, teriam saído do Oriente se guiando por uma estrela e levavam três presentes: ouro, incenso e mirra. Para os devotos, a data da chegada dos reis magos ao destino final é quando se encerram os festejos natalinos, que começam quatro domingos antes do 25 de dezembro, dia atribuído ao nascimento de Jesus Cristo. Em cada local, há também particularidades, como encenações dos reis magos, desfiles, danças, repertórios, comidas típicas, instrumentos utilizados e roupas. Minas Gerais é um dos estados onde a Folia de Reis mais se faz presente, resguardando uma tradição de aproximadamente 300 anos. Disponível em:

<Http://agenciabrasil.ebc.com.br/cultura/noticia/2017-01/folia-de-reis-e-declarada-patrimonio-cultural-imaterial-de-minas-gerais->. Acesso em: 30 de mai. 2018.

4Piaget e Vygotsky concebem a criança como um ser ativo, atento, que constantemente cria hipóteses sobre o seu ambiente. Porém, concebem o processo de desenvolvimento da criança de maneira diferente. Piaget, privilegia a maturação biológica e defende que os fatores internos preponderam sobre os externos, postula que o desenvolvimento segue uma sequência fixa e universal de estágios.; Vygotsky, salienta que o ambiente social a cultura em que a criança vive varia, portanto interfere no desenvolvimento. Neste sentido, não se pode aceitar uma visão única, universal, de desenvolvimento humano. LA TAILLE, Y; OLIVEIRA, M. K; DANTAS, H.Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.

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mas sim, fruto de um intenso trabalho de criação, significação e ressignificação. Compreender, conhecer e reconhecer o jeito particular das crianças serem e estarem no mundo é o grande desafio. As crianças, a partir das interações com as outras pessoas e com o meio em que vivem, ao se esforçarem para compreendê-lo e se expressarem, utilizando as mais diferentes linguagens, levantam hipóteses originais sobre aquilo que buscam desvendar, constroem o conhecimento. Pautando nos autores mencionados, principalmente em Vygotsky, vi-me defendida, embasada, assim como vislumbro ao fazer um esforço para compreender meus/minhas alunos/as hoje. Não foi uma ação boba e desprovida de inteligência, mas uma sujeita se constituindo como tal, em formação, no percurso de construção do real, processo de aprendizagem e desenvolvimento. As formulações desenvolvidas por Vygotsky se tornariam fundamentais na constituição de educadora/professora de educação infantil que hoje sou.

Assim, continuei seguindo em frente na construção e busca do conhecimento. A curiosidade e a ânsia de aprender eram tantas e os recursos pedagógicos tão escassos, que eu esperava ansiosa a chegada da mala de pano costurada pela avó, onde eram trazidos da cidade de Três Marias, não livros, mas latas de óleo “Heloisa”, caixas de amido “Maizena”, extrato de tomate “Elefante”, caixas de fósforo ‘Olho”, sardinha da “Peixe”, o creme dental “Close -up”, o achocolatado “Toddy”, o perfume “Rastro”, a pilha “Ray-o-vac” o vinho “Cinzano” a aguardente “Pitu”- que eu, como uma boa mineira, fui descobrir anos depois que daria deliciosas caipirinhas. Havia outros tesouros que vinham da cidade, pacotes que em minha ingenuidade de criança e de contexto cultural, idolatrava, desconhecendo a verdadeira preciosidade que tínhamos e plantávamos para nossa subsistência. Considerava o que vinha da cidade o que tinha de melhor no mundo e as possibilidades de tentar escrever e conhecer as letras que os rótulos me proporcionavam, que embora não soubesse ainda o que significavam, eles já me apontavam outras realidades. Um mundo novo e distante de minha realidade de menina do campo. Queria ser professora e tudo que dava para aproveitar para reproduzir aquelas maravilhas eu me apropriava para repetir as aulas compartilhadas com as primas e primos do meu convívio. Era papel de pão amassado, pedaços de tábuas de madeira, o carvão tirado diretamente da fornalha, tudo era aproveitado e “reutilizado, (3Rs)5”, claro que eu ainda

5Também conhecido como os 3 Rs da sustentabilidade (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), são ações práticas que visam estabelecer uma relação mais harmônica entre consumidor e Meio Ambiente. Adotando estas práticas, é possível diminuir o custo de vida (reduzir gastos, economizar), além de favorecer o desenvolvimento sustentável (desenvolvimento econômico com respeito e proteção ao meio ambiente). Disponível em: <https://www.suapesquisa.com/ecologiasaude/reduzir_reutilizar_reciclar.htm> Acesso em:

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não conhecia o conceito de educação ambiental, que tornou-se lei somente em 27 de abril de 1999, a Lei N° 9.795/99.

Meu primeiro contato com um espaço “oficialmente instituído para ensino” se deu numa sala improvisada na capela da Tolda, na zona rural. A professora, minha tia Dora, possuía o primeiro grau completo e era responsável pela formação de todos/as em idade escolar na época. Portanto, uma sala multisseriada, um “arremedo de escola e não escola propriamente dita” (FONSECA, 1989, p.20). Mesmo sendo uma escola autorizada pelas instâncias oficiais da época, o suporte material e pedagógico era muito precário e escasso e a professora se desdobrava para atender uma sala tão diversa em idade e saberes, embora o contexto cultural e social fosse muito parecido. Cassia Ferri (1994), em sua dissertação de mestrado intitulada “Classes Multisseriadas: que espaço escolar é esse?”, afirma que no Brasil essa prática é “Um paliativo” (desde a época do Império!) que se faz presente no cenário educativo atual, definindo exatamente todo o significado dessa realidade.

Uma escola, uma sala de aula, um professor, alunos, de 1ª a 4ª série. Sem merendeira, diretora, orientadora, vigia, laboratório, sala de vídeo... Tão somente quatro paredes, um armário com o mínimo de material, quadro de giz, crianças tímidas, com o olhar atento, deslumbradas com a possibilidade de aprender coisas novas, um professor com a tarefa de ensinar e a sensação de que o que sabe não serve para aquela realidade, de que não sabe trabalhar com a diversidade do grupo. (FERRI, 1994, p.11).

A distância para a escola não era pouca, assim como em várias unidades de ensino distribuídas na zona rural deste Brasil afora. Íamos com um grupo de primos/as e me recordo muito da Vânia e nossos lanchinhos que eram coisas simples do dia a dia. Nada comprado em supermercado ou lanchonetes como hoje. Eram naturais, ameixas de queijo em calda, frutas do quintal, leite com farinha no vidro de suco Maguary, (a farinha inchava e ficava cremosa) uma delícia. Tinha rapadura, queijo e também as frutas que apanhávamos pelo caminho. Ir para a escola era uma aventura, principalmente a passagem por uma reta bem comprida de areia que tinha um pé de pequi enorme, onde segundo a lenda da região era mal-assombrado. Passávamos por ele como um foguete e nunca vimos nada.

Um belo dia a escola na capela fechou as portas, não lembro o motivo. E a ida para a cidade foi inevitável.

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1.1.1 A ida para a cidade

A vinda definitiva para a cidade apresentou-se cheia de novidades, dentre elas a televisão que nos hipnotizava. Em preto e branco com uma tela de acrílico colorido que meu avô comprou de mascates que passavam pela cidade, ao ser colocada sobre a tela a aparência era de que a televisão fosse em cores, era o que havia de mais moderno em nossa cidade. Por sermos uns dos poucos a ter televisão no bairro e muito sociáveis, nossa casa se enchia como se fosse um cinema para assistirmos as novelas e programas da época, transmitidos pelos únicos canais que recebíamos: TV TUPI e Rede Globo. As tardes eram encantadas, mas a televisão também trouxe tristeza, lembro da notícia da morte do meu ídolo Elvis Presley em 16 de agosto de 1977, época em que eu tinha 11 anos. Chorei à exaustão e fui consolada por minha prima Lucinha.

O fato marcante nesse período foi finalmente conhecer meu pai Adão (quando nasci já havia se distanciado de nós). Ele era uma pessoa extraordinária que, por circunstância do destino, não conseguiu dar continuidade ao casamento com minha mãe. Fato que causou grande sofrimento aos dois, só conseguindo se refazerem afetivamente anos depois. Ambos encontraram pessoas especiais pelas quais tenho enorme afeição e respeito e também uma penca de irmãos/as. Nosso encontro se deu quando eu tinha 09 anos de idade, no ano de 1975. Mérito para meu tio Alípio e tia “Ção”, que foram os mediadores da aproximação.

Não posso deixar de entremear lãs suaves, porém fortes em minha trama para registrar a participação do meu tio Alípio em minha vida e de toda a família e também de inúmeros desconhecidos. Alípio Barbosa Lucas, um desses seres que aparecem na Terra de vez em quando, nos enche de esperança, nos contagiam com amor, bondade, sabedoria e vão seguindo, de acordo com suas próprias palavras, “devagarinho para o encontro da Mãe Terra”, nos deixando marcas tão profundas, como se estivéssemos órfãos. (LUCAS, 2017).

Retomando o fôlego e as palavras, não me lembro de ter tido dificuldades de aprendizagem e nem de adaptação à nova rotina na escola urbana, porém, um acontecimento foi de grande relevância na minha trajetória de vida no período compreendido entre a 1ª e a 4ª séries do ensino fundamental: a professora da 2ª série, Dona Lazarina, que desconfiou que eu tinha problemas de audição. Sua suspeita foi comprovada por exames médicos que constataram uma perda auditiva total do ouvido esquerdo. Fato que me levou a compreender porque, às vezes, entedia as palavras de forma diferente e em muitas ocasiões fui chamada a atenção por ser tão desatenta/distraída.

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Essa constatação, a partir da observação de uma professora atenta e envolvida com seus/suas alunos/as, num tempo em que nem se discutia o paradigma educacional da inclusão escolar, que hoje tentamos adotar, tornou-me mais atenta em sala de aula ao lidar com as diferenças. Trago traços dessa tessitura, tecida por outras mãos, mas que contribuíram na constituição da “imagem e autoimagens” (ARROYO, 2013) da professora que sou hoje. A maneira que fui olhada e percebida pela minha professora reflete na maneira que olho e percebo meu aluno e minha aluna, na maneira que olho e percebo meu “ofício de mestra”.

1.1.2 Ginásio e casamento

O ginasial6 na Escola Estadual José Ermírio de Morais transcorreu de maneira relativamente tranquila e normal, embora fossem “tempos” de Educação Física e Educação Moral e Cívica, que segundo Zotti (2004, p.19), juntamente com a Educação Religiosa, “cumpriam um papel importantíssimo na reprodução dos valores subjacentes aos interesses dos militares e da classe dominante da época”. Sobre essa questão, o decreto n. 58.130 de 31/03/1966, art.22, definia que a Educação Física tinha por objetivo “aproveitar e dirigir as forças do indivíduo – físicas, morais, intelectuais e sociais – de maneira a utilizá-las na sua totalidade, e neutralizar, na medida do possível, as condições negativas do educando e do meio”. (BRASIL, 1966, p.95).

A educação física era um meio de controle do estudante, um meio de enquadrá-lo nas regras ditatoriais, uma forma de disciplinar a criança e o jovem. [...] A intenção era a de enquadrar o indivíduo em uma sociedade harmônica, baseada no lema “Deus, Pátria e Família”, com ênfase nos papéis individuais como meio de progresso e bem-estar de todos. (ZOTTI, 2004, p.19).

Tínhamos a obrigatoriedade de ficarmos enfileirados/as todos os dias para cantar o hino nacional e um acontecimento me vem à memória, quando em uma dessas manhãs um professor, engajado nos movimentos de resistência (na época eu não tinha consciência disto), fez uma crítica aos versos do “Hino Nacional”, mais especificamente à estrofe “deitado

6 “[...] a Reforma de Capanema, através do Decreto-lei Nº 4.244 de 09/04/1942, foi mantido a divisão do ensino secundário em dois ciclos, porém houve mudança em sua nomenclatura e duração, sendo o primeiro ciclo, ginasial, com duração de quatro anos, oferecendo uma formação geral, e o segundo ciclo, chamado colegial, subdividido em duas modalidades: o curso clássico e o curso científico, ambos com duração de três anos, visando a preparação do aluno para ingressar no Ensino Superior, além dos cursos normal e profissional, com o objetivo de preparar para o mercado de trabalho.” Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2013/2013_uenp_ped_artig o_luciane_dias.pdf. Acesso em 12. set. 2019.

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eternamente em berço esplêndido”, desaprovando também outras passagens do hino e destacando que nosso Brasil não estava assim tão bem quanto os “poderosos” queriam nos fazer acreditar. Olhares assustados e inquietação foram generalizados, mas nós, adolescentes, vibramos diante do professor corajoso e animado, seu nome era Manuel Castelo Branco. Professor que viria, anos depois, a ser vereador representando o Partido dos Trabalhadores - PT, tornando-se, também, prefeito da cidade pelo mesmo partido.

Hoje reflito que ele teve sorte por não ter sofrido repressão, talvez por já se assinalar, naquele momento, o renascimento da esperança de novos tempos. Resultante, segundo Zotti (2004), dos movimentos sociais ligados a demandas historicamente reprimidas que exigiam mudanças. Era um período de esperanças e anseios por democracia que despontava na direção de consolidar um processo de ampliação dos direitos sociais e de cidadania social tão oprimida no regime militar que se findava. Eu passava por esses tempos de forma ingênua, feliz e despreocupada, tecendo amizades, sem muitas pretensões, como se tivesse o mundo aos meus pés. “Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado”. (COLASANTI, 2001, p.9).

Ao término da 8ª série (hoje nono ano do Ensino Fundamental), com 16 para 17 anos, a lançadeira, em traços, precisos desenhou numa tarde quente e ensolarada, subindo a Rua Matozinhos, o formoso rapaz loiro e alto, lindo! Imagem tão bem bordada que até hoje me lembro de cada detalhe. Um desconhecido que nunca vira antes na cidade, prendeu-me. Walter, “Paixão”, dois anos depois se tornaria meu amado marido e pai dos meus três lindos filhos, avô de nossos belos netinhos.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato, engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio do ponto dos sapatos, quando bateram à porta. Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida. [...]. (COLASANTI, 2001, p.10).

As coisas aconteceram muito rapidamente e num descuido de jovens apaixonados, um ano depois engravidei. Na época um “bafão” na família. Meu pai me apoiou, mas não gostou nem um pouco. Ainda era muito arraigado nele, e em parte da família, a ideia de que moça de respeito não engravidava antes de se casar e nossa relação ficou estremecida um bom tempo.

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“Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para

aumentar ainda mais a sua felicidade. [...]”. (COLASANTI, 2001, p.10)

Apesar de tudo, e de todos/as, nossa alegria foi instantânea e amamos aquele filho desde o primeiro minuto. E cheios de planos começamos a bordar em cores de “arco-íris” nosso futuro com o lindo Gustavo (amigão, pacotinho, pessoinha) que chegaria. “E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar [...]” (COLASANTI, 2001, p. 13).

As circunstâncias da minha gravidez, a possibilidade de perder a liberdade e a autonomia há tão pouco tempo conquistada foram demais para meu amado e passamos a ter dificuldades, as dúvidas tomaram conta do que antes parecia certo. A minha maneira de ser decidida, diferentemente da maioria das meninas de 18 anos, pensando a frente do meu tempo, foi decisiva. Não concebia espaço para a dúvida. Para mim ou era sim ou não. Diante de sua dúvida devolvi os seus pertences que estavam comigo, desejei-lhe felicidades, disse adeus e desmanchei o traçado da bela figura que pouco tempo atrás tanto havia me encantado. Estava magoada. “E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo. [...]”. (COLASANTI, 2001, p. 14).

Magoada, teci decidida um muro nos separando e fiz novos planos para meu futuro apenas com meu filho. Nesse tempo, estudei para concurso do banco do Brasil, influenciada pelo tio Alípio e a novidade foi o curso de datilografia em máquina portátil Olivetti. Eu nem conhecia informática nesse tempo, pois o “boom” dos computadores7 no Brasil foi em meados da década de 1980. Segundo Evangelista (2012), para nossa geração “era sinal de entrada na vida adulta ter um curso de datilografia,” para mim seria também ter um filho.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira. [...]. (COLASANTI, 2001, p. 13).

Assim, estudando e organizando o quarto para a chegada de meu filho me ocupei e nesse ínterim passaram-se seis meses. Ido o tempo e com ele as mágoas, eis que o cavaleiro bate à porta novamente e com ele, após longa conversa, retornam os sonhos e planos.

7Em 29 de Outubro de 1984 foi sancionada a Lei nº 7.232 que estabelecia os princípios, objetivos e diretrizes da Política Nacional de Informática, estava criada a reserva de mercado de informática no Brasil.

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Decidimos pelo casamento. Gustavo, já com quaro meses de vida, nos braços da apaixonada vovó Zezé, é um dos convidados presentes em 10 de agosto de 1985. O local da cerimônia, uma pequena capela na vila residencial da Cia Mineira de Metais (Grupo VOTORANTIN), mesma vila onde passei a morar até o início de 1989, na casa nº 10.

1.1.3 Retornando ao campo educacional

Retomei os estudos no ano de 1986, 1º ano do 2º grau8 (hoje Ensino Médio) e fiz a opção por cursar o magistério. Não havia muitas opções, pois na cidade a oferta era apenas de dois cursos: Contabilidade e Magistério. Na minha turma só havia mulheres e a turma de Contabilidade, uma participação de ambos os gêneros, predominando masculino. É evidente a representação histórica da maioria feminina no exercício da profissão docente. Vianna (2013, p.164) apresenta essa discussão destacando que no Brasil “a maciça presença de mulheres no magistério do ensino primário refere-se a um longo processo que tem início durante o século XIX com as escolas de improviso, que não mantinham vínculos com o Estado”. Argumenta ainda que:

Essa característica se mantém ao longo dos séculos XX e XXI, acompanhada de intensas alterações econômicas, demográficas, sociais, culturais e políticas. A configuração desse processo que culmina com a constatação de uma maioria absoluta de mulheres no magistério na década de 1990 relaciona-se, ainda que indiretamente, com a dinâmica do mercado de trabalho e, nela a divisão sexual do trabalho e a configuração das chamadas profissões femininas. (VIANNA, 2013, p.165).

Foi um tempo tranquilo, conseguia desempenhar bem as funções de mãe, esposa e estudante. Assim, o curso de Magistério transcorria sem grandes percalços. Mas uma professora fez uma grande diferença e contribuiu de forma marcante na formação das bases da docente que hoje sou. Rosângela de Sá, diferentemente das outras docentes, a maioria oriunda da cidade, era recém-chegada do Rio de Janeiro (esposa de tenente da aeronáutica transferido para a base localizada em Três Marias), ingressa como professora de didática no colégio José

8Em 1971, com a Lei nº 5.692/71, o ensino brasileiro passou a se estruturar em três níveis: o Ensino de 1o grau (com oito anos de duração); o Ensino de 2o grau, compulsoriamente profissionalizante (com três anos de duração para os que não pretendessem obter o diploma de técnico e com duração de quatro anos para os que desejassem obtê-lo) e o Ensino de 3o grau de nível universitário. Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9.394/1996 institui apenas dois níveis de ensino: a Educação Básica – compreendendo a Educação Infantil (creches e pré-escolas); o Ensino Fundamental (com duração de oito anos) e o Ensino Médio, correspondente ao antigo 2o grau sem caráter estritamente profissionalizante (com duração de três anos) – e a Educação Superior, de nível universitário.

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Ermírio de Morais, onde eu estudava, suas ideias eram inovadoras e logo se tornou nossa professora preferida.

Rosângela nos apresentou Paulo Freire e “Pedagogia do Oprimido” (FREIRE, 1981). Frequentemente ela ia para o Rio de Janeiro e comprou exemplares para todos/as e por isso não tínhamos como escapar deste debate alegando falta de recurso. Confesso que tive muita dificuldade na primeira leitura das obras de Freire. Não sei se foi devido às poucas leituras na área da educação e também porque nunca havia ouvido falar desse “sujeito”, lia e não entendia o que significavam suas palavras. Conceitos como educação bancária, sujeito cognoscente, pedagogia emancipatória do oprimido e dialogicidade eram amontoados de palavras que me travavam, parecia coisa de outro mundo. E era um mundo diferente que Paulo Freire queria, defendia, destacando a importância e a necessidade de uma pedagogia dialógica, emancipatória do oprimido, em oposição à pedagogia da classe dominante. Opunha-se ferozmente à educação tradicional bancária, instrumento de opressão que nos engessa e não contribui para a libertação e transformação dos sujeitos em autores de sua própria história, por meio das práxis como unificação entre ação e reflexão e ação. (FREIRE, 1997). Ao entender, encantou-me entrar nessa trama.

Conclui o curso ao final do ano de 1988, possuía agora o 2º Grau com Habilitação em Magistério de 1ª grau a 4ª série. Só tinha uma certeza: queria ser professora, mas o sentimento de “incompletude”, “inacabamento” era muito maior do que naturalmente deveria ser. Seria só isso? Estava preparada para assumir uma sala de aula? A resposta, mesmo sem entrar em exercício, foi não. Essa foi a primeira vez que me inquietei percebendo que os cursos de formação inicial de professores/as não nos preparavam realmente para o exercício da profissão.

1.1.4 A mudança da terra natal

Não tive a oportunidade de exercer a profissão e adiei o sonho. No início do ano de 1989 meu marido recebeu uma proposta de trabalho melhor e em outra cidade. Estava com 22 anos, grávida do meu segundo filho Bruno, meu “Cachinhos de ouro”, que nasceu no dia de santo Antônio, 13 de junho de 1989. “Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer [...]”. (COLASANTI, 2001, p. 13).

A saída de minha terra natal demarcou um período de grande transformação em minha vida. Dor, sofrimento, alegria e crescimento. Enfim, o peso do distanciamento cada vez maior

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de minha família se complementava à responsabilidade da vinda do meu 3º filho, não planejado, mas muito amado. Chegava ao mundo no dia 13 de fevereiro de 1991, o “bocão da Royal”, Lucas, meu cantor preferido.

Mudamos nesse período para a cidade de Itaguaí, R.J, onde meu marido iria trabalhar na CIA Mercantil e Industrial Ingá, empresa que ficava na ilha da Madeira, nas proximidades de Itaguaí. Quanto a mim, dediquei-me aos cuidados das crianças e da casa. Mas não bastava, queria ganhar meus trocados como estava acostumada desde solteira e comecei a fazer cursos de culinária. Tornei-me uma confeiteira de bolos para festas, fornecendo quitandas mineiras que eram muito apreciadas pelas cariocas, minhas vizinhas e amigas. Consegui ficar perto de meus filhos e me realizar como profissional, parcialmente.

O primeiro ano foi muito difícil, sozinha, em uma cidade estranha com três crianças pequenas, mudamos para uma casa muito grande cheia de problemas e com fama de mal-assombrada. Era muito engraçado e estranho ver a reação das pessoas quando falávamos nosso endereço. Como éramos de “fora”, só fomos saber desta fama já morando nela. Após nossa mudança para a Rua Imaculada Conceição as coisas ficaram melhores. A rua era ocupada em quase sua totalidade pela mesma família, pessoas carinhosas e amigas. Fizemos amizade com todas as pessoas e foi como se estivesse num pedacinho da minha terra novamente. As crianças brincavam na rua, realizamos novenas de natal nas casas com celebração de encerramento coletiva. Fechamos e enfeitamos toda a rua para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, quando o Brasil foi para a final contra a Itália. Numa única decisão de Copas do Mundo sem gols e com o placar de 0x0 a decisão foi para os pênaltis, nos quais o Brasil ganhou por 3x2, conquistando, após 24 anos, o tetracampeonato mundial com um futebol defensivo, que segundo as críticas da época, não empolgou.

Nessa rua também passei por uma provação terrível com meu filho Lucas, que teve uma pneumonia que se agravou e corremos um risco grave de perdê-lo. Foi fundamental o apoio dos/as vizinhos/as, da Solange Bebber, amiga gaúcha de Marau/ RS, a ajuda inestimável da querida Veraneide (minha ajudante de Crateús, CE, que nunca mais tive notícias, pois, perdi o contato). Considero nossa estadia em Itaguaí como um período de grande aprendizado e amadurecimento. Passamos por um processo de transformação que nos fortaleceu e deu sustentação para enfrentar as adversidades, tanto na vida íntima familiar, como profissional.

Em 1997, a CIA Ingá entrou em falência deixando vários funcionários sem emprego de um dia para outro, meu marido foi um deles. Segundo Lopes (2013), além da onda de desemprego ocasionada por seu fechamento repentino, a empresa também abandonou milhares de metros cúbicos de efluentes líquidos, que formavam um verdadeiro lago tóxico na

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Baía de Sepetiba/RJ. Em decorrência desse fato, e sem nenhum vínculo a nos prender naquele estado, decidimos voltar para Minas Gerais.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela. [...]. (COLASANTI, 2001, p. 14).

Felizmente, vi-me retornando a Minas Gerais, mais precisamente para cidade de Patos de Minas e a alegria foi imensa, estava em casa de novo! Nessa época continuei a atividade informal de vendas de quitandas e meu marido de vendas de joias. Morava a poucos quilômetros da minha mãe e de meu pai, a vida era tranquila e boa. Mas a alegria do retorno para Minas foi quebrada em 28 de março de 1998, quando de forma trágica, minha prima Vânia, se afogou na represa de Três Marias e nos deixou prematuramente aos 32 anos. Nunca mais olhei aquele lago como antes, suas águas, que não são as mesmas, eu sei, presenciaram o último suspiro daquela que foi tão importante amiga, prima, comadre. Três primas em primeiro grau que cresceram muito unidas, eu Lazara, Vânia e Lazara Eliana. Extraordinárias amigas, além dos laços de sangue, a afinidade entre nós era genuína. Da mesma idade, com pequenas diferenças nos meses, compartilhávamos tudo desde a mais tenra idade. Os sonhos, as esperanças, as roupas, as confidências... éramos exemplo de amizade e inseparáveis. Quisera eu poder mudar as cores dessa trama, mas a lançadeira incansável em seus movimentos, às vezes, cria vida própria e nos surpreende com traçados nem sempre do nosso agrado. Seguimos em frente, nos acalmamos e a saudade... Ah! A saudade segue com a gente. “Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. [...]” (COLASANTI, 2001, p. 12).

Um desses movimentos que nos agradam teceu-se para nós outro panorama direcionando nossa mudança para Uberlândia, cidade onde já residia há alguns anos minha tia Conceição e Tio Alípio. Já existia em meu íntimo uma vontade grande de vir para essa cidade. A partir de um presente de meu pai e tendo a opção de escolhermos onde comprar nossa casa, escolhi Uberlândia. Meu pai, residindo então em São Gonçalo do Abaeté, não gostou muito. Diante dos argumentos de que seria o melhor, visto que as crianças cresciam rápido e logo precisariam ir para a faculdade, ele concordou. Mudamos em outubro de 1998. A adaptação foi instantânea e lembrei-me de um ditado popular muito repetido por meu pai: “pedra que

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muito rola não cria limo”, senti pela primeira vez, em muitos anos, que havia encontrado o lugar para criar limo.

1.1.5 Profissionalização e retomada aos estudos

A perspectiva de estabilidade na cidade de Uberlândia se revelou promissora, meu marido mudou de ramo, passou em concurso, fez faculdade, especialização. Nossos filhos estudaram e conseguiram ingressar na primeira seletiva na Universidade Federal-UFU (é certo que uns ainda não concluíram, mas tenho fé). Meus planos se concretizavam como o previsto e pela primeira vez meu pai assumiu que eu tinha razão. “Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre. [...]”. (COLASANTI, 2001, p. 13).

É claro que o meu marido não me trancafiou numa torre, embora ele tenha resistido muito quanto à vontade que eu tinha de continuar os estudos e minha vida profissional. Voltei a pensar na possibilidade de resgatar meu sonho de ser professora. Agora que as crianças estavam maiores e a cidade favorecia, parecia ser possível retornar. Seguindo a corrente de conquistas, realizei em 2003 o concurso para Educador Infantil9, sendo aprovada.

Logo que comecei a atuar, percebi que seria preciso retomar com os estudos, afinal quatorze anos fora desse contexto trazem dificuldades e lacunas indiscutíveis. Voltei aos bancos da escola, já com 37 anos de idade. Estava feliz como a adolescente de outrora. Ingressei no curso de Pedagogia da Faculdade Católica de Uberlândia FCU, hoje Pontífice Universidade Católica de Uberlândia/PUC Uberlândia, curso que concluí em 2007. A sensação de outrora havia voltado, a alegria da realização pessoal, professora licenciada em nível superior, conquista que por um longo período considerei que jamais alcançaria.

Na mesma proporção que o curso de pedagogia me trouxe possibilidades de avanço e reflexão sobre a prática com crianças de 0 a 6 anos (atualmente 0 a 5 anos) trouxe também de volta as mesmas inquietações da época do magistério, no 2º grau. A faculdade de Pedagogia também me deixara com um sentimento de insegurança quanto a preparar realmente o/a professor/a para atuar em sala de aula.

Ocupar o cargo de educadora infantil colocou-me frente a dois desafios no campo pedagógico e profissional: a identidade da educadora infantil e suas funções e a valorização profissional.

9 Ensino Médio, na modalidade normal; - ou Curso Normal Superior ou Pedagogia. Ensino Médio, na modalidade normal, é o equivalente ao Magistério.

Referências

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