A relação entre mototurismo e motoclubes e o perfil dos
praticantes
The relationship between motortouring and motorcycle clubs and the practitioner’s profile
Mônica Dias Segura [email protected] Orientador: Brenno Vitorino Costa
RESUMO: Este artigo traça um básico perfil do mototurista frequentador de motoclubes, seus costumes, imagem, atividades, e preferências acerca da prática do mototurismo, contribuindo para a bibliografia no Brasil por ser ainda um assunto pouco abordado no país e a apresentando sua importância para o turismo. Para tal, contou-se com informações obtidas diretamente de praticantes de mototurismo e pesquisas bibliográficas e In loco, resultando assim na identificação de uma parte importante do mercado turístico que apresenta considerável expansão no país. Palavras-chave: Turismo; motociclismo; mototurismo; motoclubes.
ABSTRACT: This article provides a basic profile of the motortourism practitioner who is a frequenter of motorcycle clubs, their customs, image, activities, and preferences about the practice of motortourism, contributing to the literature in Brazil, that still a subject rarely addressed in the country and presenting its importance for tourism. For this purpose, based on information obtained directly from practitioners of motortourism and literature searches and in loco, resulting in the identification of an important part of the tourism market that presents considerable expansion in the country.
Introdução
O presente artigo foca em identificar a relação entre motociclismo e mototurismo, explicar o que são os motoclubes, identificar o perfil do praticante integrante de motoclubes, apresentar sua importância para Turismo e como esta prática vem tomando proporções cada vez maiores em território brasileiro, contribuindo desta forma para a bibliografia acerca do assunto no país.
Segundo Lynda Walker (2011) o mototurista é a pessoa que une a afinidade por motocicletas ao gosto por longas viagens, em sua maioria independentes, onde o indivíduo por sua vez pode ou não fazer parte de um motoclube.
Discute-se aqui a relação transporte e mototurismo, uma vez que dentro da prática, o transporte deixa de ser uma prestação de serviço e passa a ser principal motivo da viagem.
Por ser um mercado em potencial expansão, uma vez que novos praticantes aparecem todo o dia devido as facilidades encontradas hoje na indústria brasileira para a aquisição de transportes como a motocicleta, torna-se essencial que estudos e pesquisas complementem e solidifiquem o mototurismo dentro da ciência turística. Para que a haja uma compreensão mais abrangente acerca do assunto, são listadas neste artigo definições sobre a prática turística do motociclismo e suas características, suas características e diferenças. Mencionam-se brevemente os tipos de motociclismo esportivo, uma vez que o mototurismo no Brasil originou-se do Motocross e também por serem as duas vertentes grandes responsáveis pela movimentação do mercado mototurístico, não se afastando do foco de explicação acerca dos motoclubes.
Devido ao pouco tempo e verba disponíveis para realização das pesquisas, focou-se em entrevistar integrantes de motoclubes e praticantes de mototurismo nas cidades de Guarulhos e São Paulo que aceitaram conceder informações sobre costumes e preferências acerca da pratica, bem como abrir espaço em suas confraternizações para aplicação de questionários. Demais informações como definições e conceitos foram resultados de pesquisa bibliográfica, em sua maioria estrangeira.
1. Mototurismo
Ao pensar-se em turismo, o que vem primordialmente à cabeça de um turista são os serviços, como transporte, hospedagem e alimentação. Em suma, o transporte será o responsável por seu deslocamento até o ponto desejado, ou destinação final, que por sua vez aparece como foco principal na maioria dos estudos e publicações turísticos.
De acordo com Page (1998, p.27) o transporte turístico:
[...] pode ser tido como a atividade meio que interliga a origem de uma viagem turística a um determinado destino (e vice-versa), que interliga vários destinos turísticos entre si (primários e secundários) ou que faz com que os visitantes se desloquem dentro de um mesmo destino primário ou secundário.
Porém, afastando-se da definição colocada por Page e deixando de lado o conceito de “serviço”, observam-se situações onde o transporte em si é a principal motivação, causa e foco da viagem, tornando fatores como conforto e rapidez em objetivos secundários.
A destinação é normalmente o aspecto central de uma viagem de lazer, mas em alguns casos o transporte pode se tornar a principal causa de uma viagem ou excursão. Para alguns Motociclistas, pilotar é um hobby e o uso da motocicleta para chegar à destinação é o principal motivo da viagem, sendo o destino final um ponto secundário. (WALKER et al., 2011, p. 146). Embora o mototurismo seja muito praticado em países da América do Norte tais como Canadá e Estados Unidos, nos últimos anos tem tido um crescimento considerável no Brasil conforme os dados apresentados pela Associação Brasileira dos fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo): o Brasil é o quinto maior produtor de motocicletas no mundo, e nos últimos 10 anos, o mercado motociclístico brasileiro apresentou um crescimento considerável de 332%1, onde 19% dos consumidores de motocicletas utilizam o
1
- ABRACICLO. Motocicletas: Frota Circulante de Manaus cresce 523% em 10 anos. .Net, São
Paulo, [2012]. Disponível em:
<http://abraciclo.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=728:motocicletas-frota-circulante-de-manaus-cresce-523-em-10-anos&catid=55:releases-de-2011>. Acesso em: 03 abr. 2012.
veículo para lazer. Embora esta porcentagem signifique uma fatia menor em relação ao total de consumidores, não se pode ignorar o fato de que este sub-segmento já toma um quinto do mercado e está cada vez mais presente na vida de indivíduos brasileiros.
Apesar do crescimento deste sub-segmento turístico, se a bibliografia já era escassa no mundo (WALKER, 2011), no Brasil é praticamente nula, limitando-se a relatórios de índices de acidentes, catálogos de vendas e simples relatos sobre viagens efetuadas por praticantes em revistas, fóruns e blogs de internet, nada formalizado ou oficializado.
O mototurismo no Brasil teve origem em 1970 com a chegada do Motocross (HAAS, 2011) e desde então a prática mototurística tem tomado um sentido de estilo de vida também para os praticantes do esporte, sem ignorar que a maioria dos esportistas é também responsável pela vertente turística da prática, motivando, movimentando ou exercendo-a.
Segundo um relatório desenvolvido pela Tourism Company em Ontário, o mototurismo (ou “On-Road Motorcycle Touring”, em inglês) é definido como a prática do motociclismo por viajantes que se utilizam estradas pavimentadas para suas viagens, diferentemente do “Off Road riding” (“fora da estrada” em português) onde a principal característica está em pilotar sobre trilhas pouco utilizadas ou praticar diversas modalidades de motociclismo esportivo, onde as mais conhecidas no Brasil são: MotoCross: Motovelocidade Enduro F.I.M. Enduro Regularidade Rally Cross Country Velocross
Trial Supermoto Arenacross Freestyle Minicross Supercross 1.1 Os tipos de mototurismo
O relatório realizado pela Tourism Company de Ontario aponta a existência de três tipos de Mototurismo, definidos da seguinte forma:
Mototurismo independente: os indivíduos praticam sozinhos, em casal ou em grupos, e que usualmente fazem uso da pesquisa boca-a-boca ou da internet para programar suas viagens e descobrirem novos lugares para visitar. É o principal tipo de mototurismo praticado e o maior motivo da viagem é o simples fato de pilotar a motocicleta na estrada, podendo ser em um período de meio dia (passeio ou excursão), um final de semana, alguns dias ou uma longa viagem2. O planejamento desta viagem pode começar no próprio dia da viagem quando se encontram para sair, marcando sinais para avisar as paradas no caso de grupos pequenos e combinando locais como pontos de encontro ao longo do caminho no caso dos grupos maiores, mas normalmente é planejado com antecedência e muita pesquisa de preços e locais a serem visitados. Este grupo também se utiliza muito de fóruns sobre mototurismo disponíveis na internet para formação de grupos e roteiros independentes bem como o contato com os clubes de motocicleta, mais conhecidos como motoclubes.
Viagens guiadas: como o nome já diz são lideradas por um guia que poderá levar a novos caminhos e experiências desconhecidos pelo grupo ou indivíduo, e são muito procurados por aqueles que não têm tempo de fazer uma pesquisa sobre alguma
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Tourism Company. Understanding and Attracting the On-Road Motorcycle Tourism Market to
Northern Ontario. The Strategic Tourism Development and Marketing Partnership for Northern
localidade ou que desejam expandir o conhecimento acerca do trajeto escolhido, bem como se iniciar na prática. É mais praticado por aqueles que pretendem tomar conhecimento acerca do âmbito esportivo da prática.
No Brasil já existem empresas que oferecem este tipo de serviço, como a Harley Tours, que dentro do mototurismo “on-road” promove viagens internacionais guiadas e está sediada em Curitiba. A maioria das empresas, entretanto, está direcionada para pessoas que desejam conhecer ou experimentar o motociclismo “off-road” ou esportivo, como por exemplo, as empresas Fr Mototurismo, sediada no Rio Grande do Norte, e a Dr. Moto Brazil, sediada em São Paulo, que possuem diversos roteiros com variadas destinações.
1.1.3 Mototurismo esportivos e de eventos: Por fim o relatório apresenta o mototurismo direcionado a esportes e grandes eventos, ou seja, aquele direcionado a pessoas que participam de manifestações esportivas ou não, onde normalmente há uma grande concentração de expositores e vendedores do meio motociclístico. No Brasil pode-se apontar como exemplo destes eventos o Salão Duas Rodas, que acontece a cada dois anos em São Paulo e que traz diversos vendedores, peças, roupas, capacetes, motocicletas, dentre outros. A edição 2011, conforme a página G1 (2011), contou com 445 expositores e mais de 255 mil visitantes, dos quais 25 mil de fora da cidade. Estes deixaram no município cerca de R$ 80 milhões.
Dados e números como estes apontam para o potencial econômico que o mototurismo pode trazer de diversos modos ao mercado turístico e não somente ao setor industrial. Muitas empresas turísticas percebem este potencial e investem de forma direta neste sub-segmento, o que evidencia a importância de estudos e pesquisas mais profundos sobre as necessidades e expectativas deste turista.
2. Mototurista – os adeptos à prática do mototurismo
Em entrevista com praticantes de mototurismo identificou-se que há certa tendência da maioria dos adeptos ao mototurismo em deixar claro sua relação com as motocicletas por meio da denominação motociclista, enquanto procuram abster-se da designação de motoqueiro. Embora sejam apenas terminologias sociais e sem um embasamento teórico, estes praticantes se auto intitulam como motociclistas por
defenderem o “lema” de respeitar para ser respeitado (que é o intuito realmente o intuito de uma parte dos praticantes). Assim sendo, existe uma parcela dos praticantes que zelam pela segurança no trânsito e a pilotagem consciente, evidenciados pela atitude de diversos grupos e entidades de motociclistas que oferecem cursos (gratuitos ou não) para que esta conscientização faça parte do dia-a-dia de todos os praticantes, como o 3Centro Educacional de Transito Honda (CETH) e a Federação dos motoclubes de São Paulo, que oferecem estes cursos periodicamente para aqueles habilitados que tiverem o interesse de fazê-lo.
Para o praticante existem diversas regras de doutrina que fazem dele um motociclista e as melhores designações para os indivíduos que não têm respeito às leis de transito , ao contrário dos praticantes descritos acima, é infrator.
O piloto consciente utiliza a motocicleta para lazer, trabalho ou locomoção cotidiana, e contribui diariamente para um transito livre de acidentes e infrações. Por outro lado existem aqueles que não demonstram respeito pelo trânsito e seus demais transeuntes, dão preferência pelo mínimo tempo gasto no trajeto a percorrer, o que implica no desrespeito pelas regras e demais cidadãos no transito assim como, por exemplo, o dinheiro gasto com a motocicleta, contribuindo para a pirataria e contrabando de peças, afetando economia e qualidade de vida dos demais cidadãos. Isso é evidenciado pelo número de acidentes no estado de São Paulo, 1.384 óbitos em acidentes motociclísticos no ano de 2009, e são jovens entre 18 e 29 anos de idade (Fundação SEADE, 2011), e não devem ser definidos ou denominados como nada além de infratores do trânsito, onde dentro desta definição encontram-se também uma margem de mototuristas que infligem leis de transito. A principal pretensão do motociclista é transformar o trânsito em um local hospitaleiro e seguro para todos os que o integram4, dando origem assim ao
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FEDERAÇÃO DOS MOTOCLUBES DE SÃO PAULO. Curso da F.M.C. Disponível em: <http://www.federacaomc.org.br/cursos.php>. Acesso em: 25 mar. 2012.
4 O Moto Clube Pegasus, por exemplo, lançou uma campanha chamada “Dê seta e salve uma vida”,
com a finalidade de movimentar motoristas de carros e pilotos de motocicletas a terem um compromisso com a segurança dos demais participantes do trânsito. Essa campanha é apoiada pela Policia Militar de São Paulo, e embora não seja reconhecida sociamente como deveria, evidencia a preocupação dos praticantes e dos motoclubes em fazer do trânsito um local mais seguro para todos.
motociclismo – pilotagem e utilização consciente da motocicleta. Ou seja, o mototurista é um motociclista que efetua viagens fora de seu entorno periodicamente (WALKER, 2011).
Atualmente, muitas pessoas procuram novas formas de entretenimento e lazer, abrindo espaço para atividades alternativas e transformando práticas como o mototurismo em estilo de vida.
Apontado antes como pessoa em “crise de meia idade” ou que procurava sensações de risco, o mototurista começa a deixar esta imagem de lado, apresentando um novo perfil ao longo dos anos. Segundo Walker (2011), o fato de que pilotar uma motocicleta requere maior nível de habilidade, torna a atividade mais atraente aos praticantes, ao contrário das atividades de lazer mais comuns onde o atrativo neste aspecto é o “fazer nada”, o ócio e o “não esforçar-se”, bem como procurar conforto sempre, seja na hospedagem ou no próprio transporte. Além do mais, o Mototurista eventualmente escolhe estradas menos convencionais, que nem sempre os levarão ao destino final de forma rápida e fácil, intensificando o tempo e experiência que adquirem sobre a motocicleta.
Segundo o relatório da Tourism Company, o perfil deste turista pelo mundo pode ser definido por homens com idade acima de 40 anos, de renda média-alta e alta, com bom status social e formação profissional 5. Salvo é claro por exceções que vêm aumentando, como por exemplo, a entrada de muitas mulheres e jovens neste grupo, conforme visto durante pesquisa em confraternizações de motoclubes, fator este possível por conta da facilidade cada vez maior que o mercado oferece para a compra de motocicletas, bem como (pré) conceitos que vêm caindo ao longo dos anos.
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Tourism Company. Understanding and Attracting the On-Road Motorcycle Tourism Market to
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3. Os motoclubes
Por ser uma pratica que atrai diversas pessoas com gostos, expectativas e paixões em comum, o mototurismo deu origem aos clubes de motocicleta, ou, motoclubes. Os motoclubes são grupos de pessoas e adeptos que têm em comum o amor por motocicletas e motociclismo, que decidem defender uma insígnia e um nome, símbolos do clube (integração ao estilo de vida). São entidades em geral sem fins lucrativos, com CNPJ cadastrado e são pautados por hierarquias, doutrinas e regras, todas definidas por um conselho interno e integradas ao dia a dia de cada membro, onde o descumprimento ou desrespeito poderá acarretar em punições ou expulsão. A hierarquia normalmente possui diversos cargos de responsabilidade, tais como Assembleia Geral, Conselho Deliberativo, Presidente do Motoclube, Secretário, Tesoureiro, comissões de Eventos e Publicidade, dentre outros. Cada motoclube tem sua hierarquia, bem como regras e doutrinas, que podem variar conforme a índole do grupo ou determinação do presidente (como por exemplo, os grupos estritamente compostos por homens ou por mulheres).
Não se sabe ao certo quando e onde começaram os clubes de motocicletas, mas os primeiros registros datam do início da década de 1930 no exterior, em conta do final da 2ª Guerra Mundial.
Os motoclubes são uma das principais imagens do mototurismo pelo mundo, e provavelmente por isso ainda haja muito preconceito em relação aos motociclistas (WALKER, 2011), pois no início sua reputação não era bem vista, em parte por conta de motoclubes de “Foras da lei” que faziam arruaças pelas cidades onde passavam denegrindo a imagem dos clubes. Além disso, graças à cobertura de mídia e de Hollywood, por muito tempo foram veiculadas mentiras e noticias um tanto sensacionalistas envolvendo estes indivíduos, projetando uma imagem sobre motoclubes e motociclistas que passaria a tomar conta do senso de muitas pessoas (WALKER et al, 2011). Um exemplo é o filme “O selvagem” de 1953, estrelado por Marlon Brando, onde ao invés de clubes, os integrantes fazem parte de gangues e aterrorizam cidades pacatas com seu mau comportamento. Até hoje, pode-se observar que esta fama persiste, como na série Sons of Anarchy (2008 – FX Networks), também impregnado pela imagem de gangue fora da lei. O mesmo aconteceu também em livros como Hell’s Angels, escrito pelo jornalista Hunter S.
Thompson em 1967, que retrata uma jornada de um ano de convivência nos EUA com um dos grupos de motociclistas mais famosos no mundo, e que na época causou grande impacto por conta das cenas e situações relatadas pelo autor, contribuindo assim para uma generalização do mau conceito sobre os motociclistas e clubes. Assim, identifica-se que este preconceito é resultante não somente de infratores de transito, como também de uma imagem passada já a muitas décadas de forma sensacionalista sobre os integrantes de motoclubes.
Afora imagens e conceitos, motoclubes também são responsáveis pela realização de diversos tipos de eventos, em sua maioria beneficentes, que podem ocorrer na forma de conferência, reunião, exposições, etc. Entre os principais motivos destes eventos estão a coleta de alimentos e roupas que são doadas para entidades de apoio às pessoas carentes ou às cidades que sofreram desastres naturais. Segundo o Secretário de Patrimônio do motoclube Irmãos do Asfalto (GRU) “Pica Pau”, o próprio motoclube, por exemplo, prefere levar estas doações até a cidade designada, a fim de que todo o material adquirido chegue em segurança à sua destinação final.
Desta forma, observa-se que há uma movimentação muito grande e espontânea por parte dos clubes e seus integrantes em desenvolver causas sociais que tem como intenção ajudar a sociedade da maneira que for possível, seja por doações a necessitados, pelo consumo turístico nas cidades, como comprar algo artesanal apenas por saber que esta renda auxiliará na economia de um autóctone, ou pela criação de campanhas de segurança no trânsito.
O tipo mais comum de evento nos clubes é o encontro, que acontece em geral semanalmente com um ponto de encontro já reservado para esta causa, local este que pode ser alugado, cedido ou comprado pelo motoclube e que recebe diversos visitantes, que vão desde os próprios integrantes até adeptos e simpatizantes deste grupo. Nestes encontros é comum a confraternização entre todos os presentes no espaço com música, comida e bebida, e onde também podem ser planejadas as viagens dos grupos e divulgados recados sobre datas de eventos e reuniões.
Os clubes também desenvolvem reuniões, as quais somente os integrantes do Moto Clube em questão poderão participar, para definir coisas e assuntos que somente dizem respeito a eles, bem como eventos maiores, que normalmente se baseiam na
comemoração do aniversário de um motoclube ou mais, onde se adquirem os “prêmios”, que são lembranças trocadas pelos motoclubes presentes no evento a fim de demonstrarem sua consideração, amizade e respeito uns pelos outros.
Quando da viagem do grupo a determinada localidade, é comum que o encontro seja efetuado em um motoclube local ou em algum estabelecimento escolhido pelos viajantes, sendo os grupos reconhecidos por meio de coletes com seus nomes, insígnias, brasões e logotipo (TOURISM COMPANY DE ONTARIO, 2006).
Durante a pesquisa in loco, foi identificado que a principal pretensão dos presidentes dos motoclubes enquanto líderes dos grupos não é de comandar nem ser superior ou ter subalternos para mandar, mas sim em ser um ponto de apoio para seus colegas, também chamados por muitas vezes de família, prezando por este sentido de amizade e confiança sempre presentes neste grupo, procurando manter a ordem e resolverem eventuais problemas da melhor forma possível. Passar seus valores para as próximas gerações dentro do motoclube também é muito importante, pois destes novos indivíduos é que perdurará ou não o real sentido e iniciativas de cada motoclube.
No país existem milhares de motoclubes espalhados por todos os estados, e muitos não são oficializados, o que dificulta imensamente a obtenção de dados numéricos acerca dos clubes. Embora muitas organizações como a Federação dos motoclubes de São Paulo e a Associação Brasileira de Motociclistas (Abram) por meio da Liga Nacional de Motoclubes tentem obter o maior número possível de cadastrados para efetuar este controle, muitos não o fazem.
4. Resultados da pesquisa
De forma superficial em relação ao numero de motoclubes e praticantes estimados no Brasil, devido ao pouco tempo e à falta de verba para uma pesquisa maior e mais detalhada, apresenta-se aqui uma pesquisa feita com integrantes mototuristas de cinco motoclubes nas cidades de Guarulhos e São Paulo, a fim de coletar dados para tentar traçar um perfil destes indivíduos. Também foi efetuada entrevista com quatro presidentes, um fundador, dois diretores e um Secretário de patrimônio dos Seguintes motoclubes: Iron Motorcycles MC – “Rocha” (Presidente); Pré Histórico MC – “Clayton” (Presidente) e “Tom” (Fundador); Jaguar do asfalto MC – “Nego
Bala” (Presidente); Pegasus MC – “Nogueira” (Presidente); Irmãos do Asfalto – “Toninha” (Diretora de Marketing) e “Pica-Pau” (Secretário de Patrimônio); Dorme Suju’s MC – “Ramiro” (Diretor Social). Em contato com diversos motoclubes das duas cidades, estes foram os que se dispuseram a conceder entrevistas e aplicação de questionários durante os encontros, o que forneceu informações de grande valor para este artigo.
Efetuou-se uma pesquisa no mês de abril de 2012 com 110 mototuristas (pessoas que viajam ao menos uma vez por mês, entre eles pilotos e acompanhantes) que estavam presentes em encontros de motoclubes para identificar o perfil do praticante neste meio.
Os motoclubes visitados foram: Jaguar do Asfalto – Facção Guarulhos, Pré Histórico motoclube, Pegasus motoclube, Irmãos do Asfalto motoclube – Facção Guarulhos e o Dorme Suju’s motoclube.
Sobre estes dados é necessário levar-se em conta que cada motoclube, assim como possui uma doutrina, também possui preferências diferentes um do outro. Logo, os resultados se baseiam no número de pessoas entrevistadas para esta pesquisa em específico, com a finalidade de traçar um perfil dos mototuristas integrantes de motoclubes nas cidades de Guarulhos e de São Paulo, não podendo ser considerada como uma pesquisa generalizadora sobre todos os praticantes de mototurismo ou de todos os integrantes de motoclubes do país, já que cada motoclube pode divergir em número de integrantes, em preferências por meios de hospedagem, em tipos de motocicletas utilizadas, para dizer o mínimo. Para que houvesse apenas uma noção para a generalização sobre estes fatores seria necessário efetuar pesquisa com um numero maior de motoclubes dispostos apenas por São Paulo, que são centenas, exigindo mais tempo, mão de obra e capital, indisponíveis então para a realização deste artigo.
Do número de entrevistados, a principal faixa etária identificada com um total de 30% foi de 40 a 49 anos, seguida pela faixa etária de 30 a 39 anos com um total de 28%, onde 27% eram mulheres e 73% homens, evidenciando que embora um quarto dos integrantes seja feminino os adeptos de sexo masculinos ainda predominam nos motoclubes.
Gráfico 1: Faixa etária dos entrevistados 16% 28% 30% 25% 1% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% De 20 a 29 De 30 a 39 De 40 a 49 De 50 a 59 De 60 a 65 Idade
Perguntou-se aos entrevistados se eles possuíam motocicleta própria e a resposta obtida foi positiva em 72% do total de onde apenas 13% são mulheres, ou seja, mais de 60% das mulheres mototuristas não possuem motocicleta própria. Isso evidencia que as mulheres são frequentemente acompanhantes de um motociclista, e isso foi confirmado por outra pergunta do questionário, em que se apurou que 40% das mulheres que praticam mototurismo se iniciaram na prática por conta do cônjuge ser motociclista. Desta forma observa-se que o mototurismo não age somente como uma escolha de vida própria, mas acaba tomando um sentido familiar e hereditário, podendo ser passado de geração em geração, como no caso dos que começaram a andar de motocicleta pelo incentivo familiar de pais, tios ou irmãos.
Em 63% dos casos, os praticantes utilizam a motocicleta estritamente para lazer, seguidos de 32% que a utilizam conjuntamente para os fins de lazer e trabalho, onde as principais atividades de lazer identificadas foram estritamente viagens ou viagens e eventos conjuntamente.
Gráfico 2: Principais atividades de lazer desenvolvidas
Principais atividades de lazer desenvolvidas
0% 80% 5% 15% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Trilhas Viagens Eventos Viagens e eventos
Dentre as principais atividades de lazer desenvolvidas, 80% dos entrevistados utilizam a motocicleta estritamente para viagens, o que mostra a grande preferência pela pratica turística. Do total de entrevistados, em relação à frequência com que praticam estas viagens 64% viajam ao menos uma vez no mês.
O principal meio de hospedagem utilizado pelos mototuristas entrevistados foi o acampamento, com um percentual de 56%, seguido em 27% pela utilização de pousadas, 10% ficam em hotéis, 5% não utilizam meios de hospedagem definidos, a maioria deste percentual passa a noite acordados nos encontros, e apenas 1% utilizam casa própria ou casa de amigos. Com isto podemos verificar uma tendência aventureira por parte dos praticantes.
Gráfico 3: Principal meio de hospedagem utilizado
Principal meio de hospedagem utilizado
10% 27% 56% 1% 1% 5% Hotel Pousada Acampamento Casa de amigos Casa própria Outros
As viagens mais comuns não costumam ultrapassar a faixa dos R$150,00 dispendidos com todos os fatores envolvidos, como hospedagem, refeições e gasolina, 34% dos entrevistados têm um gasto nesta faixa; 29% têm um gasto entre R$300,00 e R$500,00.
Com relação à renda pessoal mensal, pode-se ver no gráfico abaixo que mais da metade dos entrevistados (55%) ganha mais de quatro salários mínimos.
Gráfico 4: Renda Pessoal mensal
5% 14% 10% 10% 27% 26% 2% 6% 0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% Menor que R$622,00 De R$623,00 a R$1244,00 De R$1245,00 a R$1867,00 De R$1868,00 a R$ 2190,00 De R$2491,00 a R$3735,00 De R$3736,00 a R$5602,00 De R$5603,00 a R$8091,00 Não quis responder
Em relação aos estudos, 50% dos entrevistados possuem apenas o segundo grau de escolaridade completo; 27% possuem ensino superior e 5% tem pós-graduação. Assim, pode-se dizer que o poder aquisitivo destes indivíduos não está diretamente nem completamente relacionado ao seu grau de instrução.
Perguntou-se aos entrevistados se acreditavam haver falta de incentivo social e público para a maior segurança e respeito do motociclista no trânsito atual, e a resposta de 93% foi positiva. Em entrevista com os presidentes dos motoclubes foi informado que, principalmente em cidades como São Paulo, o trânsito para os motociclistas mostra-se pouco receptivo e o setor público não parece mobilizar-se diante do número cada vez mais crescente da frota de motocicletas no país. Muitos dos entrevistados acreditam que a atenção social está voltada muitas vezes aos problemas errados, apenas reparando de tempos em tempos os problemas maiores, ao invés de apresentar soluções reais e eficazes, e tendem a solucionar problemas de urgência aparentemente inferior.
Grande parte dos motociclistas entrevistados revoltam-se com a falta de interesse com o qual o trânsito motociclístico é tratado e a discriminação que sofrem em consequência das ações dos infratores de trânsito, quer seja por falta de punições devidas, quer seja pela falta de explicação sobre a diferença entre “Infrator” e “motociclista”, que parece generalizar o conceito dos demais cidadãos, prejudicando assim os pilotos conscientes e interessados nestas melhorias, seja no modo como são recebidos nas localidades, seja pelo modo como são tratados no trânsito diário ou durante uma de suas viagens.
A pesquisa também evidenciou a independência turística que estes grupos adotam, pois normalmente não procuram utilizar-se de guias ou mapas, procuram saber tudo por conta própria e encontrar seus caminhos sozinhos. Estão prontos para qualquer tipo de eventualidade ao longo da viagem, pois afinal de contas, o principal foco de tudo é estar sobre a motocicleta, e o resto é considerado um “bônus”.
Considerações finais
Pode-se dizer que há um círculo virtuoso no que diz respeito ao uso da motocicleta no Brasil, afinal a produção de motocicletas é crescente e as pessoas têm cada vez mais acesso e mais facilidade para adquirir este meio de transporte. E, além dos números, percebe-se um crescimento de práticas diversas de atividades com as motocicletas, dentre elas o mototurismo.
Ao longo de todo este artigo foi mencionado o que é o mototurismo, quem são seus praticantes, seu perfil, desde quando começaram, enfim, uma infinidade de dados técnicos que ajudam na compreensão deste indivíduo.
Mesmo com o aumento cada vez maior de adeptos e consumidores do meio motociclístico, o setor público parece não dar a atenção devida aos problemas presentes em grandes metrópoles nos dias de hoje, como São Paulo, onde se evidencia diariamente as dificuldades e perigos de trânsito, e embora a frota motociclística venha aumentando consideravelmente a cada ano, ideias como passagens ou túneis para motocicletas, que minimizariam estes fatores, parecem não receber os devidos estudos, incentivos e investimentos.·.
O Mototurista não parece ser muito exigente, fazendo do Mototurismo uma boa fonte de renda, por exemplo, para pequenas cidades que estejam interessadas em
públicos de fácil acesso e “conquista”, uma vez que sua preferência de hospedagem está em pousadas e acampamentos e refeições sem muita sofisticação, não exigindo assim muita infraestrutura, estudo e investimento gastronômico, procuram certo acesso e convivência com a cultura local, ou seja, hospitalidade e receptividade local, e o mais importante de tudo, um local seguro para suas motocicletas.
Existem diversas vertentes de mototuristas pelo mundo entre os esportistas, os independentes, os guiados, entre outros, mas os que foram aqui discutidos (integrantes de motoclubes) têm grande senso filantrópico, sem deixar de a liberdade que tanto prezam, chegando até a trazer de volta elementos de tempos passados do Turismo, como quando viajantes chegavam a uma localidade e eram recebidos com abrigo, refeição e hospitalidade dos autóctones de uma cidade, mesmo que fossem desconhecidos, e voltando para suas cidades com novos amigos e experiências que poderão ser usufruídas futuramente em novas viagens. Quase como uma totalidade dos entrevistados, quando questionados sobre o sentido que a motocicleta traz para suas vidas não hesitaram em responder: liberdade, amizade e amor. Estes turistas já têm o que mais procuram na estrada, com suas motocicletas atendendo a praticamente todos os seus anseios. Muitos se sentem parte da paisagem, da natureza, do mundo, e dizem que quando pilotam suas motocicletas, lembram-se de como é estar vivo. O mercado apenas precisa auxiliar para que sejam mais bem recebidos, complementando suas expectativas e experiências com a finalidade de torná-las inesquecíveis com bons serviços e receber de volta toda experiência e exemplo que eles podem oferecer.
Se houver hospitalidade, eles sempre voltarão, e enquanto houver liberdade e duas rodas eles terão um bom motivo para seguir em frente, portanto, compreende-se que dificilmente um mototurista deixará de ser um mototurista, e isso os torna um público fiel e de investimento oportuno a longo prazo.
Referências
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Paulo, [2012]. Disponível em:
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ABRAM – ASSOCIAÇAO BRASILEIRA DE MOTOCICLISTAS. Liga Nacional de
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DIAS, M. Entrevista concedida por “Pica Pau”, integrante do Moto Clube Irmãos do Asfalto em 02 jun. 2012.
DIAS, M. Entrevista concedida por “Nogueira”, presidente do Moto Clube Pegasus em 01 jun. 2012.
Anexos:
Questionário
Entrevistador: ____________________________________________________________ Data: _____________________________________ 1. Qual local de sua residência permanente?
Cidade: _____________________ Bairro:____________________
2. Qual sua idade? __________________ 3. Sexo
( ) Masculino ( ) Feminino 4. Possui motocicleta? ( ) Sim ( ) Não 5. Se sim, qual o modelo e cilindrada?
__________________________________________________________ 6. Qual o principal uso de sua motocicleta?
( ) Lazer ( ) Trabalho
( ) Competições esportivas – Qual? ____________________________ ( ) Outros: _______________________________________________ 7. Se você respondeu “Lazer” na ultima questão, quais as principais atividades que você realiza com a motocicleta?
( ) Trilhas ( ) Viagens ( ) Visitas à parentes ( ) Participar de eventos ( )
8. Se você respondeu “competições esportivas” na questão número sete, você realiza viagens somente para participar de uma competição esportiva ou assistir a uma?
( ) Participar ( ) Assistir 9. Você faz parte de algum Motoclube?
( ) Não ( ) Sim Qual? __________________________ 10. Com que freqüência participa de eventos de Motoclubes? ( ) Mais de uma vez por semana
( ) Semanalmente ( ) Mensalmente ( ) Esporadicamente
11. Costuma realizar as viagens pilotando a motocicleta, ou costuma acompanhar o piloto?
( ) Piloto ( ) Acompanhante
12. Com que frequência você realiza viagens com a motocicleta? ( ) Mais de uma vez por semana
( ) Apenas aos finais de semana ( ) Ao menos uma vez por mês
( ) Feriados ou finais de semana prolongados ( ) Anualmente
13. Em média quanto gasta numa viagem enquanto piloto da moto? _______________________________________________________ 14. E enquanto acompanhante?
_______________________________________________________ 15. Qual o meio de hospedagem usualmente utilizado em uma viagem? ( ) Resort
( ) Hotel ou Flat ( ) Pousada ( ) Camping
( ) Casa de amigos e parentes ( ) Casa própria
( ) Casa alugada
( ) Outros: _____________________________
16. Em relação aos principais fatores envolvidos em uma viagem, com uma nota de 1 a 5, onde 1 seria de baixíssima importância e 5 de extrema importância, classifique o que mais se encaixa em suas pretensões: ( 1 ) ( 2 ) ( 3 ) ( 4 ) ( 5 ) Limpeza pública ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Segurança pública ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Telefone / Internet ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Sinalização turística ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Rodovias e estradas ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Restaurantes/Gastronomia ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Alojamento/Hospedagem ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) História/Cultura local ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Diversão noturna ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Guias de turismo ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Informação turística ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Hospitalidade ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Compras/Centros comerciais ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Divulgação de eventos ( ) ( ) ( ) ( ) ( ) Sinalização do evento ( ) ( ) ( ) ( ) ( )
17. Qual seu grau de instrução?
( ) Sem instrução / primeiro grau incompleto ( ) Primeiro grau completo
( ) Segundo grau completo ( ) Universitário completo ( ) Pós-Graduação completa 18. Profissão?
__________________________________________________________ 18. Qual sua renda?
Pessoal: _________________ Familiar: _________________
19. Quantas pessoas dependem desta renda familiar? ______________ 20. Você acha que falta incentivo social para a pilotagem consciente no Trânsito dos dias de hoje?
SIM ( ) NÂO ( )
21. Com quantos anos você começou a pilotar? _______________
22. Por que surgiu a necessidade de começar a usar a motocicleta? ( ) Curiosidade
( ) Trabalho ( ) Incentivo familiar
( ) Outros __________________
23. Defina por favor, em duas palavras sua relação com a motocicleta e o sentido que ela tem em sua vida.