Um breve estUdo da IntelIgIbIlIdade
no Contexto de World EnglishEs
ellen nogueira rodrigues1 Resumo: Este artigo objetiva realizar uma revisão da literatura sobre questões relacionadas à inteligibilidade dos falantes de inglês, destacando os fatores relacionados à pronúncia e aspectos fonológicos que influenciam/interferem na compreensão. Os estudos analisados fazem parte do campo de estudo World Englishes, no qual a inteligibilidade dos falantes é analisada em encontros conversacionais entre nativos e não nativos, juntamente com as in-terações entre falantes não nativos de inglês. A literatura aponta a proeminência dos fatores suprassegmentais para a compreensão entre os falantes de inglês, relacionados a aspectos prosódicos da pronunciação (como a velocidade da fala, acentuação e entonação), além de indicar outros fatores linguísticos, como a escolha lexical e aspectos discursivos, significati-vos para a compreensibilidade. Portanto, este estudo investiga os fatores que contribuem para inteligibilidade entre falantes da língua inglesa, apontando avanços sobre a noção da compreensão na pronunciação, as limitações da literatura e algumas diretrizes para o ensi-no de pronunciação.
Palavras-chave: Inteligibilidade; World Englishes; Pronunciação
a brIef stUdy of IntellIgIbIlIty In the
Context of World englIshes
abstract: This article attempts to give an overview of the literature relating to issues of in-telligibility of English speakers, emphasizing the phonological and pronunciation aspects that influence and hinder comprehension. The analysed studies are part of the field of World
Englishes, where the intelligibility of the speakers is explored in conversational encounters
of native and non-native speakers, such as the interactions between non-native English speakers. Literature points out the prominence of the suprasegemental aspects for the comprehension of English speakers in conversation, related to the prosodic aspects of the pronunciation. For instance, the speed of the speech, stress, and intonation. Other linguistic factors also are significant for comprehensibility, comprising lexical choice and discursive dimensions. Thus, the study investigates the factors which contribute for intelligibility be-tween English speakers, pinpointing advances on comprehension of pronunciation, limita-tions of literature, and some guidelines for teaching pronunciation.
Keywords: Intelligibility; World Englishes; Pronunciation
1 Doutoranda em Educação e Mestre em Linguistica Aplicada pela Andrews University (EUA). Email: ellen_ [email protected].
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Introdução
De acordo com o Modelo de Três Círculos Concêntricos de Kachru (1986),2
a difusão do inglês no círculo exterior e de expansão desenvolveu um fenômeno sui
generis, no qual o número de falantes de inglês como língua franca ultrapassa a quanti-dade de falantes nativos (CRYSTAL, 1997; GRADOLL, 1997). Essa mudança implica uma reconsideração da proeminência do modelo de um falante nativo e seu domínio exclusivo do inglês, a fim de se buscar uma visão pluralística do inglês que inclui todas as suas variedades. Desse modo, o inglês considerado padrão não é mais exclusividade dos falantes nativos, devido ao fato de falantes não nativos serem também donos e con-tribuírem para a padronização do inglês. Como Widdowson (1994, p. 187) ressalta, o inglês padrão “serve um grande conjunto de diferentes comunidades e seus propósitos institucionais, e estes transcendem fronteiras tradicionais culturais e comunais”. O in-glês não está mais limitado a uma comunidade de falantes nativos, porque outras varie-dades de inglês não nativo desenvolvidas devido à colonização emergiram, adaptando a cultura local e seus valores, formando por direito uma variedade própria de inglês. Além disso, o inglês é utilizado como língua franca (LF) em muitas trocas linguísticas multi-culturais entre falantes não nativos de inglês. Portanto, considerável atenção tem sido
dada ao domínio da língua inglesa no campo de estudos sobre World Englishes (Ingleses
do Mundo), o qual advoga que todos os que falam a língua inglesa também são donos dela (WIDDOWSON, 1994; RAJAPOPALAN, 2004).
O inglês como uma língua mundial tem crescido exponencialmente, não somente pelo seu prestígio, mas também pelo seu poder estratégico de influenciar os campos da tecnologia, academia, economia, mídia de massa e o entretenimento (KIRKPATRICK, 2007). Ademais, para muitos países ex-colonizados, o inglês é utilizado como meio de instrução e língua nacional, e consequentemente ele tem se tornado um veículo prevalen-te de comunicação entre comunidades de fala inglesa em encontros comercias multina-cional. Essa linguagem de contato usado entre falantes não nativos é definida por House (apud JENKINS, 2006, p. 74) como “interações entre membros de duas ou mais diferen-tes línguas e culturas em inglês, para o qual nenhum deles a língua materna é o inglês”. Essa língua de contato constitui o que se chama Língua Franca Internacional (LFI) ou
Inglês como Língua Internacional (ILI)3.
A literatura em World Englishes (WE) busca priorizar questões que vão além do
mero estudo do círculo interior caracterizado por perspectivas norteamericana e britâ-nica, promovendo outras variedades de inglês. Além de investigar questões filosóficas
2 O Modelo de Três Círculos Concêntricos (Tripartite Model of English Speakers) descrito por Kachru (1985)
identifica a função que o inglês desempenha nos países do mundo, classificando-os como círculo interno, externo, e em expansão. O círculo interno corresponde a países como Inglaterra e Estados Unidos. O círculo externo diz respeito a países que passaram por períodos de colonização e criaram suas próprias variedades de inglês, tais como Blangladesh, Gana e Filipinas. O circulo em expansão está relacionado a países que falam o inglês como língua estrangeira, tais como Brasil, China e Egito.
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e ideológicas que perpassam a expansão do inglês, existe uma ênfase em “todos os aspectos sobre o surgimento, gramática, sociolinguística, questões ideológicas, litera-turas criativas e o ensino e aprendizado de WE” (KACHRU, 2005). Os pesquisadores têm reivindicado a legitimação e o reconhecimento de variedades de inglês não nativo, questionando o privilégio predominante das variedades nativas como modelos de inglês como não sendo mais funcionais (KACHRU, 1996; SEIDLHOFER, 2001). De acordo com essa perspectiva, o falante de inglês não nativo não deve basear-se em uma profi-ciência nativa inatingível, mas na adequada habilidade de se comunicar de uma maneira que seja inteligível entre os falantes.
Este fenômeno sem precedentes de uma língua veicular ser usada entre duas va-riedades de inglês, seja do círculo interno, externo ou em expansão, não somente entre duas línguas particulares (MAURANEN, 2003; SEIDLHOFER, 2004), transforma a noção de inteligibilidade em um componente crucial para a comunicação entre falantes de língua inglesa. Portanto, este trabalho busca realizar uma revisão da literatura sobre questões relacionadas à inteligibilidade dos falantes de Inglês. O estudo analisa aspec-tos relacionados à pronúncia e fatores fonológicos que influenciam e interferem na compreensão, quando falantes nativos e não nativos se comunicam, juntamente com as interações entre falantes não nativos de inglês.
a concepção de inteligibilidade no campo do World Englishes
No campo do World Englishes, fatores relacionados à LF e inteligibilidade nas interações têm sido explorados com certa frequência. Ainda assim, a literatura tem se centralizado nos círculos internos e nas percepções dos nativos de inglês em relação aos falantes de inglês do círculo externo e de extensão (JENKINS, 2002). Embora, não haja consenso sobre a definição do termo inteligibilidade, o conceito tridimensio-nal de Smith e Nelson (1985) é o mais aceito. Os autores consideram: (1) a Inteligibi-lidade como a habiInteligibi-lidade de reconhecer palavras e sentenças, (2) a Compreensão para entender o significado, e (3) a Interpretabilidade no qual o falante é capaz de captar a intenção das palavras do falante. A literatura tem focado nos dois primeiros aspectos, enquanto mínima atenção é dada ao último aspecto.
A concepção de inteligibilidade está relacionada à produção de “inteligível […] e apropriada interpretação do inglês” (NELSON, 1995, p. 274). A literatura faz um distinção clara entre “aspectos da forma,” abrangendo o reconhecimento formal ou a decodificação de palavras e sentenças, e aspectos do significado, variavelmente des-critos como compreensibilidade, entendimento, ou comunicabilidade’ (JENKINS, 2000). Field (2005, p. 370) também indica a existência de dois princípios competi-tivos: um relacionado ao princípio do falante nativo, que advoga uma pronunciação precisa e similar aos falantes nativo de inglês; e o princípio da inteligibilidade, que “considera que estudantes simplesmente precisam ser entendidos”. A inteligibilidade como o foco de investigação tem promovido vários aspectos da pronunciação vistos
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como essenciais para gerar compreensão entre falantes da língua inglesa, sejam eles do círculo interior, exterior ou de extensão.
Inteligibilidade e percepções dos falantes nativos em relação aos falantes
não nativos
Ryan e Carranza (1975) apontam que falantes nativos tendem a menosprezar fa-lantes não nativos por conta de sua pronúncia. Portanto, julgamentos negativos e pre-conceituosos podem gerar interferência na compreensão. Ademais, Flege (1984) sugere que ouvintes são extremamente sensíveis a padrões de fala que diferem de sua própria comunidade de fala. De fato, ouvintes detectam o sotaque estrangeiro de uma língua que estes nem mesmo falam, e em conversas ordenadas de trás para frente (ESLING;
WONG, 1983). O estudo de Munro et al (2006) sobre a avaliação de falantes nativos de
cantonês, japonês, mandarim e inglês em relação a falantes não nativos de inglês de dife-rentes contextos geográficos, revela que não falantes de inglês tiveram padrões similares de classificação em inteligibilidade e sotaque independente do contexto. Por isso, estudos revelam que a fala em si é um indicador de percepção e julgamento do potencial de fala de uma segunda língua. Não é coincidência que a pronunciação tem recebido destacada atenção nos estudos sobre inteligibilidade, e tentativas são feitas para isolar os fatores da pronunciação que mais contribuem para um bom nível de inteligibilidade na comunicação. Todavia, existem poucas pesquisas conclusivas e confirmações empíricas sobre o papel da pronúncia a este respeito. Por outro lado, pesquisadores têm enfatizado que a fala de uma segunda língua é avaliada em suas variadas dimensões parcialmente indepen-dente (MUNRO & DERWING, 2001; DERWING & MUNRO, 1997), e que o sotaque e a inteligibilidade são concebidos como duas entidades diferentes. Munro & Derwing (1995) exploram a percepção de falantes nativos sobre a produção de fala de não nativos. Através da escala Likert, concluiu-se que falantes nativos podem adequadamente perceber sotaque moderado e pesado, muito embora os falantes nativos transcrevam adequada-mente a fala do não nativo. Portanto, os estudos têm indicado que o sotaque estrangeiro e a noção de inteligibilidade não são a mesma coisa, pois um falante pode ter um sotaque carregado e ser totalmente compreendido. Este estudo também ajuda a esclarecer que a avaliação “é realizada com atenção à natureza multidimensional da fala do aprendiz, ao invés de um simples foco no sotaque” (MUNRO; DERWING, 1995, p.286).
Estudos que visam os vários aspectos da pronunciação de forma a encontrar os elementos primordiais para a compreensão, têm investigado os efeitos que a prosódia e as variáveis relacionadas contribuem para a compreensão do nativo sobre a produção de fala do não nativo de inglês. Os resultados evidenciam o predomínio dos aspectos supras-segmentais (diapasão, intensidade, acento e velocidade do som) para o entendimento e interação efetiva dos falantes não nativos e nativos, independente de sua primeira língua (ANDERSON-HSIEH et al 1992; MUNRO; DERWING, 2002). Anderson-Hsieh et al (1992) solicitaram que falantes nativos avaliassem a pronúncia de onze grupos de lín-guas com relação aos desvios segmentais, prosódicos, e de estrutura silábica. Em suma,
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verificou-se que a variável prosódica tem o efeito mais robusto nas percepções de desvio e compreensibilidade da fala.
Consistente com estes resultados, Kang (2009) selecionou cinquenta e oito alunos norteamericanos de graduação para avaliarem elementos suprassegmentais (diapasão, in-tensidade, acento, e velocidade do som). A pesquisa revelou que a intensidade do som e o acento da palavra contribuem para a atribuição de uma fala com sotaque, enquanto que a velocidade da fala melhor descreve e prediz a compreensão. Como se pode observar, com-ponentes suprassegmentais afetam categorias perceptuais diferentes com relação à noção de sotaque e compreensão. Com isso, devido aos padrões de velocidade da fala e pausas prolongadas, a compreensão foi afetada significantemente, fazendo com que a velocidade da fala do não nativo seja a causa de 35% dos valores relacionados à compreensão.
Quando os falantes não nativos falam mais devagar do que a normalidade, como Munro e Derwing (1998) notam no caso de falantes não nativos de mandarim, os falantes nativos não avaliam o sotaque e compreensibilidade positivamente. Por outro lado, quan-do falantes não nativos aumentam a velocidade de fala além quan-do normal para os nativos, há um prejuízo de inteligibilidade por parte dos nativos (DERWING; MUNRO 1997). Desse modo, Munro e Derwing (2001) salientam que um menor nível de compreensão é atingido quando falantes não nativos falam mais rápido ou mais devagar, em relação à velocidade comum das interações.
Além da velocidade de fala, a literatura ressalta os padrões de entonação como um importante aspecto que afeta a compreensão. De acordo com Benrabah (1997), quando os padrões de entonação estão distorcidos, afetando o prolongamento das sílabas, a capa-cidade de compreensão é debilitada. Além disso, Adams e Munro (1977) destacam que a diferença entre nativos e não nativos não está na duração das vogais tônicas, mas no alon-gamento das vogais não tônicas. Anderson (apud Chela-Flores, 2001) também aponta que a diferença entre nativos e não nativos está na maneira com que os intervalos inter-acento são realizados de forma mais alongada e um grande número de acentos nas palavras são acrescentados pelos não nativos.
Com uma metodologia diversificada, Gallego (1990) solicitou que alunos de gra-duação pausassem as falas gravadas de professores internacionais quando percebessem transtornos na comunicação. Quando as dificuldades de comunicação foram analisadas, especialistas perceberam que as incompreensões ocorreram devido a erros de pronúncia normalmente relacionadas ao excesso de palavras acentuadas. Com isso, a noção do acen-to primário (WATANABE, 1988), que em discursos em inglês serve para enfatizar infor-mações novas ou contrastantes, tem sido consideravelmente estudada (BROWN, 1983). Pesquisas apontam que o falante não nativo utiliza o acento primário em todas as palavras e a entonação é usada de modo divergente. Por exemplo, o estudo de Wennerstrom (1994) evidencia que, em contraste com falantes nativos, falantes não nativos de diversos con-textos usam diferentes movimentos de entonação para acentuar uma nova informação .
Tyler et al. (1988) também indicam que palavras chinesas e coreanas nas sentenças são acentuadas de forma semelhante. Por outro lado, na esfera do húngaro como segunda língua, Kormos e Denes (2004), observaram que os padrões de acentuação se tornam
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mais semelhantes ao falante nativo. Consequentemente, estudantes em estágio avançado da segunda língua utilizam palavras mais acentuadas em um minuto do que os de nível intermediário. Contudo, Kang (2010) sugere a necessidade de futuros estudos nessa área, visto que a associação entre a produção de acentuação e a inteligibilidade ainda não está claramente estabelecida.
Com relação às pausas que são feitas durante a produção de fala, poucos estudos mostram efeitos sobre a inteligibilidade e o sotaque. No entanto, pesquisadores revelam que a duração das pausas de falantes não nativos predizem a avaliação de acentuação na fala (TROFIMOVICH; BAKER, 2006). Recentemente, as pesquisas indicam que a maior quantidade de pausas estimula a compreensibilidade e, até certo ponto, causa percepções positivas da fala (KANG et al 2010). A entonação é outro fator relacionado a aspectos su-prasegmentais, que tende a desempenhar efeitos positivos na compreensão. Contudo este fator depende em grande medida da língua materna. Pickering (2001) comparou a escolha tonal de professores internacionais chineses e norte-americanos, e os resultados demons-traram que a estrutura tonal dos chineses contribuiu para as dificuldades de compreensão do falante nativo, e motivaram reações negativas, tais como desinteresse e antipatia. Em-bora a maioria dos estudos empíricos indique os componentes suprassegmentais como o elemento mais importante para inteligibilidade, as pesquisas apontam que estes compo-nentes geram 50% da avaliação sobre a compreensibilidade (Kang, 2010). Entretanto, não existe nenhum método consistente e indicação conclusiva com relação aos elementos que determinam uma pronúncia inteligível.
No entanto, os estudos também indicam o papel dos aspectos segmentais na com-preensão (KOSTER; KOET, 1993; FAYER; KRASINSKI, 1987). Com relação aos efei-tos que os elemenefei-tos segmentais (vogais e consonantes) têm na produção e compreensão, Gisom (1970) argumenta que a produção de consoantes em Inglês é mais importante para a compreensão dos falantes nativos do que as vogais. Suenobu, Kanzaki e Yamane (1992) analisaram a avaliação de quarenta e oito nativos sobre não nativos, e os resultados indicaram que os erros consonantais, e não as vogais, são os mais obstrutivos para a com-preensão. O estudo também revela que quando o contexto da conversação de não nativos era revelado aos ouvintes nativos, estes eles entendiam praticamente todo o significado da conversação, ao passo que a inteligibilidade do falante não nativo era afetada quando o os ouvintes nativos não conheciam o contexto da conversação.
Por outro lado, outros estudos ressaltam que as vogais são mais essenciais para in-teligibilidade que as consonantes. Schairer (2007) aponta que, em uma hierarquia de erros, a vogal está no topo, o que demonstra que as vogais são essenciais para a compreensão. Contudo, os aspectos segmentais relacionados às vogais parecem indicar maior incidência de interferência na compreensão. Como se pode observar, os resultados ainda não são claros a este respeito, devido ao papel multidimensional de ambos os fatores suprasseg-mentais e segsuprasseg-mentais sobre a inteligibilidade. Pesquisas adicionais precisam ser realizadas para consolidar as conclusões.
Outra tentativa dos estudos em inteligibilidade é comparação da pronunciação com o papel de outros elementos linguísticos para a compreensão. Em particular, Fayer and
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Krasinski (1987) examinaram as reações de falantes nativos de inglês e espanhol com relação aos falantes de Porto Rico em vários fatores, tais como gramática, entonação, pro-núncia e hesitação. O estudo indicou que entre as variáveis, a pronunciação e hesitação em ambos os grupos de falantes causaram um maior número de distração e estímulo negativo, afetando consideravelmente a compreensão. Similarmente, Gynan (1985) investigou a percepção de falantes nativos sobre a fala de hispânicos não nativos de inglês. A pesquisa revelou que, para os falantes nativos de inglês,os fatores fonológicos foram mais obstru-tivos para a compreensão que os fatores gramaticais. Em outro estudo, Politzer (1978) investigou a avaliação de falantes nativos de alemão em relação à fala de norteamericanos falantes de alemão como segunda língua. O estudo sugere que o vocabulário é o fator mais importante para a compreensão, seguido por gramática e pronúncia.
A pesquisa de Albrechtsen, Henriksen e Faerch (1980) também explorou as reações e os discursos de cento e cinquenta britânicos nativos sobre falantes não nativos. O estu-do concluiu que a frequência de erros em qualquer elemento linguístico é potencialmente relevante para intervir na compreensão, e foi encontrada evidência para apoiar a hipótese de que fatores discursivos significantemente afetam a compreensão. Entretanto, os dados revelam uma correlação estatisticamente pequena entre pronúncia, entonação, e compre-ensão. Como Munro e Derwing (2002) sugerem, a aparente inconsistência e oposição dos resultados em relação aos fatores que interferem a inteligibilidade dos falantes está associada à diferença da primeira língua dos participantes, juntamente com as diferentes metodologias usadas para obtenção dos dados. A este respeito, Rajadurai (2007, p. 89) argumenta que “estudos em inteligibilidade apontam severas limitações em termos das suposições adotadas, e precisam de procedimentos e, consequentemente, de rigidez e generalidade dos resultados”.
Portanto, pesquisas sobre a percepção e compreensão dos falantes nativos em rela-ção aos falantes não nativos necessitam ainda firmar conclusões acerca do papel específico da pronunciação. O crescente número de estudos em inteligibilidade tem proporcionado uma melhor compreensão do papel do sotaque, dos aspectos segmentais e suprasseg-mentais e dos padrões de acentuação e velocidade de fala. No entanto, outros estudos precisam ser realizados para explicar a complexidade dos elementos que determinam a compreensão. Ademais, futuros estudos devem ampliar as perspectivas das concepções de pronúncia, examinando os efeitos de outros fatores linguísticos, onde existe pouca evidência empírica.
Inteligibilidade e falantes não nativos das variedades de inglês
Com o avanço das variedades não nativas do inglês, a concepção de inteligibilidade tem se tornado central para comunicações multiculturais e o ensino de línguas. No pro-cesso de nativização, as variedades de inglês se acomodam aos valores da cultura local e ao sistema linguístico, ditando seu próprio padrão e sistematização. Essa realidade tem causado interesse na investigação da maneira pela qual falantes das variedades de inglês se comunicam. Jenkins (2000) examinou vários problemas de comunicação de conversas
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coletadas de pares falantes de inglês como segunda língua, no sentido de identificar ele-mentos da pronunciação que interferem na inteligibilidade. A autora sugeriu a existência
da chamada Lingua Franca Core (LFC) [Núcleo da Língua Franca], onde um conjunto de
elementos fonológicos compostos principalmente de aspectos segmentais, assim como elementos suprassegmentais, que promovem a inteligibilidade entre interações de falantes
não nativos de inglês. Os sons tais como th, /u/, /D/ e alguns alofones não são
conside-rados componentes importantes para a inteligibilidade (SEIDLHOFER, 2005).
Jenkins (2000) advoga o uso dessa abordagem no ensino de línguas, onde certos alofones e fonemas são eliminados, e somente o que interfere na inteligibilidade entre falantes não nativos de inglês é ensinado. Embora sua abordagem tenha sido criticada, Jenkins (2000) propõe uma abordagem que busca maximizar a compreensão em comu-nicação internacional, e promove elementos segmentais no ensino de pronunciação, que predominantemente se centra nos elementos suprassegmentais. Diferentemente das inte-rações entre nativos e não nativos nas quais os elementos suprassegmentais são cruciais para inteligibilidade, nas interações entre não nativos onde o inglês é usado como língua franca, os componentes suprassegmentais não são obstáculos para a compreensão da comunicação. Portanto, Jenkins não enfatiza elementos suprassegmentais em sua abor-dagem. Especialistas desaprovam sua concepção, devido ao fato de sua pesquisa se ba-sear em entrevistas que podem ou não ser precisas. Existe pouca evidência empírica de sustentação para justificar que os elementos suprassegmentais não são necessários para a inteligibilidade entre falantes não nativos de inglês.
A fim de analisar as percepções da fala de não nativos, particularmente no que diz respeito à modificação de elementos de acento lexical e qualidade da vogal, Field (2005) gravou acentos que mudavam para a esquerda ou direita e momentos onde a qualidade da vogal estava alterada. Os resultados indicaram que participantes podem interpretar as palavras de forma bem sucedida. Eles tiveram pouca dificuldade de reconhecer o acento e entender as vogais que não foram acentuadas. Portanto, Field sugere que sílabas não acen-tuadas são, em muitos casos, desnecessárias para a noção de inteligibilidade. No entanto, alguns estudos indicam uma ligação direta entre inteligibilidade e aspectos suprasseg-mentos. Anderson-Hsieh et al. (1994) investigou falantes de inglês nos países do círculo exterior e em expansão, e revela que os falantes em interação usam inapropriadamente tanto os componentes suprassegmentais quanto os segmentais, embora os componentes suprassegmentais também serviram para enfatizar informação e contrastes nos discursos. O estudo também revela que a falta de consciência suprassegmental teve um impacto mais negativo sobre a inteligibilidade.
Num estudo similar, Hahn (2004) modificou o primeiro acento em falantes de inglês do circulo de expansão em três formas: acento apropriado, incorreto e faltando o acento, onde falantes nativos avaliaram a compreensibilidade. Os resultados evidenciam uma correlação direta entre uso bem sucedido das suprassegmentais e inteligibilidade. Ademais, o uso inapropriado do primeiro acento é mais prejudicial para a inteligibilidade
do que o não uso dele. A este respeito, estudando a prosódia de professores internacio-nais, Pickering (2001) descobriu que alguns falantes do círculo em expansão utilizavam
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excessivamente uma entonação descendente no final da sentença, que produziu distância interpessoal desnecessária e percepções negativas. A investigação de Pickering sobre o relacionamento entre suprassegmentais e inteligibilidade em interações entre falantes não nativos de inglês oferece suporte para a conclusão de que aspectos suprassegmentais po-tencialmente aumentam a inteligibilidade entre falantes do círculo em expansão. Os com-ponentes suprassegmentais ajudam participantes a serem avaliados mais positivamente.
Para identificar elementos suprassegmentais específicos que afetam a inteligibili-dade, o estudo de Tyler, Jeffries e Davies (1988) solicitou juízes que avaliassem a fala de professores assistentes internacionais para observarem sua compreensão sobre o discur-so. Os professores usaram várias pausas, muitos acentos nas primeiras sílabas e formas inapropriadas de entonação, o que definitivamente interferiu a compreensão. Estudos também indicam que a instrução de componentes suprassegmentais na sala de aula pode elevar a inteligibilidade entre falantes de inglês. Derwing e Rossiter (2003) investigaram três grupos: o grupo de controle (que não recebeu nenhuma instrução), o grupo que foi ensinado sobre componentes suprassegmentais, e o grupo que foi ensinado sobre os elementos segmentais. Os resultados indicam que estudantes que receberam instruções relacionadas aos componentes suprassegmentais melhoraram sua inteligibilidade, enquan-to que nenhum aumenenquan-to ocorreu no grupo de controle, e uma pequena redução ocorreu na inteligibilidade do terceiro grupo.
Num estudo similar, Derwing, Munro, e Wiebe (1998) observaram os efeitos de três tipos de instrução (segmental, hábitos de fala, e fatores prosódicos sem nenhuma instrução) sobre o sotaque, compreensibilidade e a fluência dos falantes não nativos. Di-ferente do estudo acima, os grupos que receberam instrução desenvolveram compreen-sibilidade e a noção de acento, e aumentaram substancialmente compreencompreen-sibilidade e a fluência. Nesse sentido, McNerney e Mendelsohn (1992, p. 132) enfatizam que as aulas de pronúncia de inglês devem “focar primeiro e acima de tudo nos componentes suprasseg-mentais porque eles têm o maior impacto sobre a compreensibilidade da fala do apren-diz”. Em geral, a literatura indica os benefícios de uma instrução baseada em aspectos suprassegmentais, especialmente para o aperfeiçoamento do acento silábico e frasal.
Embora os pesquisadores do círculo exterior e em expansão do inglês tenham se concentrado principalmente nos efeitos da prosódia sobre a inteligibilidade, elementos específicos suprassegmentais e segmentais têm sido sugeridos como barreiras à inteligibi-lidade. A investigação realizada por Deterding (2005) analisou a avaliação de juízes com relação à fala em países do círculo exterior. Ouvintes singapurianos tiveram problemas ao lidarem com o th-frontal, t-glotal do inglês, vogais altas e arredondadas, o que obstrui a inteligibilidade dos falantes. Jenkins (2002) também investigou as dificuldades de comuni-cação e fonológicas em interações entre falantes não nativos de inglês. O estudo mostra que a causa de problemas de inteligibilidade está relacionados às consonantes, ao compri-mento da vogal, e à colocação do acento na silaba tônica. No entanto, seu corpus VOICE indicou também que o — s na terceira pessoa do singular no tempo presente pode ser omitido sem causar problemas ou perca de inteligibilidade (SEIDLHOFER, 2004). A intensidade do som nas formas gramaticais também não é importante para a
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dade (LEVIS, 1999). Outros estudos indicam que a entonação no foco da sentença é sig-nificante para uma comunicação inteligível, enquanto que a entonação final em algumas estruturas gramaticais não interfere a compreensão (PENNINGTON & ELLIS, 2000).
Seidlhofer (2001, p.149) salienta que os aspectos considerados típicos do inglês, por exemplo, “terceira pessoa — s, expressões, frases verbais, e expressões idiomáticas, […] não são essenciais para a compreensão mútua”. Ademais, Meierkord (2004) investi-gou as formas sintáticas produzidas por falantes não nativos durante vinte e duas horas de interação, concluindo que escolhas gramaticais sistemáticas e não sistemáticas não im-pediram a compreensão. Embora, o estudo indica que formas gramaticais não interferem na compreensão, a escolha lexical obstrui profundamente a compreensão da mensagem.
Embora a literatura noção de inteligibilidade foca principalmente nos aspectos suprasseg-mentais e outros elementos que são essenciais para a inteligibilidade entre falantes não nativos de inglês, estudos promissores têm examinado algumas estratégias empregadas por falantes de inglês como língua estrangeira para potencializar a comunicação. Meierkord (2000) examinou dados conversacionais de participantes de inglês como segunda língua, e ressalta que os falantes usaram estratégias para compreensão tais como: pausa, contextualização dos tópicos, repetições, e expressões formulaicas. Não obstante, outros pesquisadores interpretam estas estratégias como ausência de entendimento mútuo e solidariedade entre os falantes não nativos (HOUSE, 2002).
É importante ressaltar que poucos estudos têm explorado as variáveis relacionadas com o grau de familiaridade dos integrantes, do tópico, o contexto de fala, ou os interlocutores. Cutler, Dahan, & Van Donselaar (1997) indicam que o discurso desconhecido e inesperado afetam a habilidade do ouvinte de processar a fala. Estudos também analisam os efeitos do nível de cansaço (FIELD, 2003) e as interferências do ambiente (ROGERS, DALBY & NISHI,
2004) na compreensão. Em geral, estudos emergentes em World Englishes sobre a
inteligibili-dade têm crescido exponencialmente, discutindo componentes suprassegmentais, segmentais, formas gramaticais e elementos do discurso. Porém, investigações adicionais precisam ser re-alizadas para generalizar e elucidar diferentes resultados criados pelas diversas metodologias, e solidificar as conclusões do presente estudo.
Considerações finais
Com o reconhecimento de outras variedades do inglês, essa língua não está mais circunscrita a uma comunidade de falantes nativos. Desse modo, muitos estudos têm priorizado o papel da inteligibilidade no sucesso das trocas linguísticas, buscando enten-der particularmente os fatores linguísticos que afetam essa inteligibilidade. No entanto, a literatura ainda é emergente e poucas conclusões são validadas devido à inconsistência de dados e diferentes abordagens metodológicas. Ainda assim, resultados sugestivos têm demonstrado que a compreensão da fala de uma segunda língua está baseada em um nú-mero de elementos independentes, compondo uma natureza multidimensional. Estudos evidenciam que, em conversas entre falantes nativos e não nativos do inglês, o sotaque e a inteligibilidade são duas entidades distintas. A literatura indica a predominância de as-pectos suprassegmentais para o entendimento do falante nativo e o ensino do inglês. Por
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isso, a velocidade da fala, o acento da palavra e a entonação podem causar dificuldades de compreensão e o acento será avaliado negativamente.
Além disso, estudos relacionados ao círculo interno demonstram que os elemen-tos segmentais também contribuem para a compreensão. Com relação aos elemenelemen-tos segmentais, os resultados são ambivalentes, com a predominância das vogais sobre as consoantes. A literatura também revela que o vocabulário e aspectos discursivos contri-buem significantemente para a noção de inteligibilidade. Por outro lado, alguns estudos salientam que as estruturas gramaticais não afetam a compreensão.
Com relação ao círculo exterior e em expansão várias análises indicam que a falta de reconhecimento suprassegmental tem o efeito mais negativo sobre a inteligibilidade nas interações. Portanto, especialistas sugerem a conexão entre aspectos suprassegmen-tais, inteligibilidade e o estudo dos aspectos suprasegmentais no ensino de inglês. Investi-gações sobre inteligibilidade de fala apontam que elementos suprassegmentais tais como entonação, pausa, acento, e velocidade de fala, afetam na compreensão da comunicação.
No entanto, para países onde o inglês é caracterizado como círculo externo e de extensão, a gramática não é um elemento de obstáculo para a compreensão, mas a esco-lha lexical é um fator de impedimento, o que sugere a necessidade de o ensino de inglês como segunda língua focalizar mais a dimensão lexical. De forma geral, há um crescente interesse no conceito de inteligibilidade, especialmente no que diz respeito à noção de interferência dos aspectos suprassegmentais na inteligibilidade. Não obstante, os resulta-dos obtiresulta-dos ainda apresentam uma generalização limitada e, portanto, esturesulta-dos empíricos adicionais precisam ser realizados em relação ao papel da pronunciação e outros fatores linguísticos ligados à inteligibilidade entre os falantes.
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