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O Globo 12/10/2011 Artigo
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O estado está sob ameaça
Francisco Dornelles (PP-RJ)
É fato notório que o petróleo pertence à União. Que a sua exploração
também é monopólio da União e que pode ser feita através de
autorização ou concessão.
A Constituição assegura, entretanto, aos estados e municípios,
participarem do resultado da exploração de petróleo no seu território,
plataforma continental, mar territorial ou zona econômica exclusiva, ou
receberem compensação financeira por essa exploração.
A Constituição centralizou a propriedade do bem e descentralizou o
resultado de sua exploração.
Em julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) — mandado de
segurança nº 24.312 de 2003 — o ministro Nelson Jobim afirmou, ao
analisar o § 1º do art. 20 da Constituição, que durante o processo
constituinte foi decidido não permitir a incidência do ICMS sobre
petróleo no estado de origem — isto é, no estado produtor — e por essa
razão, para contrabalançar, decidiu-se também dar a esses estados e
municípios uma compensação financeira — royalty e participação
especial — que ficou consagrada no mencionado dispositivo
constitucional.
No mesmo julgamento, o STF decidiu, com fundamento no relatório da
ministra Ellen Gracie, que a participação e a compensação aos estados e
municípios no resultado da exploração de petróleo são receitas
originárias destes últimos entes federativos.
Com base na Constituição, bem como na lei 9.478/97 e no decreto
2.705/98, que fixaram o percentual de royalties e de participação
especial devido aos estados pela exploração do petróleo, o Estado do
Rio de Janeiro, no contexto de negociação com a União, vinculou essa
receita ao pagamento da dívida do estado com a União. Destinou,
também, 5% ao fundo estadual de conservação ambiental, transferindo
o restante para a capitalização do Rio Previdência — fundo único da
previdência social do estado.
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O Globo 12/10/2011 Artigo
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A supressão dos recursos oriundos de royalties e de participação
especial de áreas já licitadas retiraria, portanto, do Estado do Rio de
Janeiro recursos já comprometidos contratualmente com a União, com
base na legislação vigente
na data de assinatura do contrato de renegociação da dívida, bem como
da capitalização do Rio Previdência. Tal situação levaria o estado à
completa
insolvência, o que permitiria, inclusive, que o Tesouro Nacional
sequestrasse o caixa do estado para garantir o pagamento em dia da
dívida renegociada.
No campo financeiro, é importante indicar que a Receita Federal
arrecadou para a União no território do Rio de Janeiro em 2010 o
montante de 118 bilhões de reais e transferiu ao estado, a título de
fundo de participação, cerca de 600 milhões, ou seja, 0,5% do valor
arrecadado. Isso significa que, dos 118 bilhões de reais arrecadados no
Rio de Janeiro, mais de 117 bilhões foram transferidos para fora do
estado.
Pelo fato do ICMS do petróleo não ser arrecadado no estado de
produção, mas nos estados de destino, o Rio de Janeiro deixa de
arrecadar aproximadamente 4 bilhões de reais por ano.
No momento em que se discute a modificação das regras de distribuição
dos recursos dos royalties e da participação especial, é importante
considerar se é possível retirar do Estado do Rio de Janeiro, em relação
a campos já licitados, receita que o Supremo Tribunal Federal
reconhece como sendo receita originária sua, e com base na qual foi
firmado com a União um contrato de renegociação de sua dívida
interna, bem como a capitalização do fundo de previdência do Estado.
Guerra federativa?
Autor(es): Lindbergh Farias O Globo - 05/10/2011
As descobertas de petróleo na camada pré-sal representam uma grande conquista do povo brasileiro. A alteração no marco regulatório do petróleo, porém, pode mergulhar o Brasil numa indesejada guerra federativa. Estados não produtores possuem o legítimo direito de pleitear uma maior participação nessa riqueza. Mas a conta não pode ser paga pelos Estados produtores.
Comparações internacionais apontam o Brasil como um dos países que menos tributam o petróleo. A forma que eu e os senadores Dornelles, Delcídio Amaral e Ricardo Ferraço encontramos foi restabelecer o equilíbrio da participação especial (o "imposto de renda" sobre os poços em atividade), atualizando as tabelas previstas no Decreto 2.705/1998. A fórmula adotada ignorou a rentabilidade. Quando a participação especial foi instituída, o preço do barril do petróleo era de US$15; hoje custa cerca de US$100. Além disso, apenas 18, de 298 poços, pagam esse imposto. A receita adicional seria destinada aos estados e municípios não produtores. Outra saída seria a elevação de zero para 10% nas alíquotas de exportação de petróleo e derivados.
Estados produtores e não produtores não devem digladiar-se enquanto a União
concentra poderes. Em 2008, por exemplo, 54% das receitas arrecadadas ficaram com a União, 27% com os estados e 19% com os municípios. A Petrobras, que pertence à União, tem visto seus lucros crescerem acentuadamente, saltando de R$13,5 bilhões em 2002 para R$35,2 bilhões em 2010. No mesmo período, a carga tributária da empresa caiu de 2,95% para 2,3% do PIB.
O Estado do Rio, em particular, já é penalizado por não recolher ICMS do petróleo, que é cobrado nos estados destinatários. Deixamos de receber cerca de R$8,5 bilhões. Além disso, somos um dos que menos recebem recursos do Fundo de Participação dos
Estados (FPE): a cota do Rio é de 1,5%, bem abaixo de Minas Gerais (4,4%), Pernambuco (6,9%) e Bahia (9,3%).
O Brasil precisa saber que o Rio de Janeiro não está nadando em dinheiro. Somando-se todas as receitas (ICMS, FPE e royalties), o Rio de Janeiro tem a segunda menor do Brasil, quando comparada com o seu PIB (atrás apenas do DF).
O Rio está começando a se reerguer depois de um período longo de problemas.
Precisamos dar seguimento à política de pacificação, ampliando as UPPs e contratando novos policiais. Nos próximos anos teremos a Rio+20, a Copa do Mundo e as
Olimpíadas. Tirar dinheiro do Rio de Janeiro agora é comprometer todas essas ações, o que representará uma derrota para o Brasil em um momento em que os olhos do mundo estão voltados para nós.
guerra federativa não interessa a ninguém. O pré-sal é nosso passaporte para o futuro, e não pode ser o pomo da discórdia. A correção no decreto que dispõe sobre a
participação especial ou a taxação das exportações de petróleo resolve o impasse, atende aos estados não produtores e não onera a União.
http://bit.ly/ogbuRF
Petroleiras pagam pouco
Autor(es): Regis Fichtner O Globo - 06/10/2011
O presidente da Petrobras se insurgiu contra a proposta de atualização do valor pago pelas petroleiras a título de participação especial com dois argumentos: o de que as petroleiras já pagam muito e o de que haveria quebra de contrato, pois os critérios de fixação dos valores teriam sido estabelecidos nos contratos de concessão.
As petroleiras pagam muito pouco de participações governamentais em comparação à maioria dos países produtores de petróleo. A tabela de incidência da participação especial foi feita quando o petróleo valia US$18. Como a participação especial incide apenas sobre o campo de petróleo que dê extraordinário lucro, no momento da criação da tabela se levou em conta esse baixo valor para se estabelecer que apenas o campo que produzisse grande quantidade de petróleo deveria pagar, criando-se uma tabela progressiva de alíquotas conforme o aumento da produção. Só que, com o barril de petróleo a US$90, campos que não davam lucro em 1998 hoje dão resultados fantásticos e estão imunes ao pagamento da participação especial. Para se ter uma ideia, dos 304 campos de petróleo em produção, só 18 pagam participação especial. Em relação a 286 campos, as petroleiras embolsam o lucro excedente sem dar um centavo ao Poder Público.
Os contratos de concessão dos campos de petróleo não fixam os parâmetros de produção para incidência da participação especial nem as alíquotas. Eles se limitam a dizer que a participação especial será paga conforme o Decreto nº 2.705/1978. A alteração do decreto para a atualização dos parâmetros de incidência da participação especial não significa quebra de contrato. Não faz sentido que as petroleiras mantenham para si o lucro extraordinário do aumento do preço do petróleo sem compartilhá-lo com o Poder Público - configurando enriquecimento sem causa. Estados Unidos e Inglaterra aumentaram as alíquotas das participações governamentais e não se viu reação de petroleiras.
A Petrobras teve uma série de benesses no novo marco regulatório. Recebeu o direito de explorar no mínimo 30% de todos os campos do pré-sal a serem licitados, fazendo com que as petroleiras tenham que adotá-la como parceira. A Petrobras recebeu, sem
licitação, o direito de explorar o campo de Libra com a isenção do pagamento da participação especial. Além disso, as petroleiras são beneficiárias de um sistema de
desoneração tributária, o Repetro, mediante o qual gozam de isenções fiscais.
O presidente da Petrobras apresentou os valores das participações governamentais na exploração do petróleo. Não apresentou, porém, os números da desoneração tributária das petroleiras em detrimento do Poder Público e os números do extraordinário lucro que estão tendo com a exploração de campos de petróleo no Brasil. As petroleiras pagam pouco, sim, a título de participações governamentais em comparação com o extraordinário lucro dos campos de petróleo que exploram. Compartilhar parte desse lucro com a União, os estados e municípios é medida de justiça fiscal.
Os estados e municípios não produtores estão exigindo receitas imediatas do petróleo. A preservação dos atuais parâmetros de lucro das petroleiras não pode ser tão importante a ponto de se permitir o início de uma guerra federativa, com consequências
imprevisíveis. Quem em sã consciência escolheria quebrar o Estado do Rio de Janeiro e os seus municípios para atendê-los, em vez de compartilhar com o poder público um pedaço do extraordinário lucro das petroleiras? O lucro das petroleiras não pode estar acima do bem-estar dos 20 milhões de habitantes dos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo.