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Acesso universal no Brasil. Cenário atual, conquistas, desafios e perspectivas 2010

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Academic year: 2021

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Ministério da Saúde do Brasil  Secretaria de Vigilância em Saúde  Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais 

 

 

 

 

 

 

Acesso universal no Brasil 

Cenário atual, conquistas, desafios e perspectivas 

2010 

   

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Ficha Técnica 

 

A  autoria  institucional  deste  documento  é  da  Comissão  Nacional  de  DST,  Aids  e  Hepatites  Virais – CNAIDS    Coordenação‐Geral:   Dirceu Bartolomeu Greco, Diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais    Organização:   Ângela Pires Pinto e Gustav Liliequist    Redação do relatório:   Ângela Pires Pinto, Fernando Seffner e Gerson Fernando Pereira    Equipe do Ministério da Saúde envolvida na coleta de dados:  Alessandro Ricardo Cunha, Ana Roberta Pati Pascom, Carlos Passarelli, Ellen Zita Ayer, Ivo  Brito, Juliana Machado Givisiez, Juliana Vallini, Karim Sakita, Lilian Amaral Inocêncio, Marcelo  Araújo de Feitas, Rachel Baccarini, Tania Cristina Gimenes Ferreira, Rogério Luiz Scapini, Valdir  Pinto.  Composição da CNAIDS (2010):  Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV (Ronildo Lima Silva)  Rede de Jovens e Adolescentes Vivendo com HIV/Aids  Movimento de Cidadãs Posithivas (Simone Aparecida Bitencourt)  Articulação de ONG/Aids da Região Centro‐Oeste (Rosa Mari Guimaraes Godinho e Raimundo  Nonato Lima)  Articulação de ONG/Aids da Região Nordeste (Elias Nobre Almeida e José Raimundo Falcão de  Carvalho)  Articulação de ONG/Aids da Região Norte (Antônio Ernandes Marques da Costa e Silvanio  Coelho Mota)  Articulação de ONG/Aids da Região Sudeste (José Roberto Pereiro e Hélia Mara de Deus;  Roberto Pereira e Sueli Alves Barbosa Camisasca)  Articulação de ONG/Aids da Região Sul (Paulo Cesar Nascimento e Annelise Schmitz)  Hepatites Virais – HVB/HVC (Regina Maria Lancellotti e José Wilter Ferreira Ibiapina)  CUT (José Carlos Bueno do Prado e Rosemeire do Carmo Rodrigues)  CENAIDS (Cristiane José e Marta Carvalho)  CONIC (Yara Monteiro e Tânia Maria Vieira Sampaio)  Ministério da Saúde (Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais)   Ministério da Saúde (Helder Teixeira Melo e Liana Guiterres Ribeiro)   Comissão de Gestão (Maricélia Morais Macedo)  Comissão de Gestão (Mariúva Valentin Chaves da Silva)  Ministério da Educação (Luiz Roberto Rodrigues Martins e Maria de Fátima Malheiro)  Ministério da Defesa (Contra Almirante José Luiz de Medeiros Amarante Júnior)   

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Ministério do Trabalho e Emprego (Fernando Donato Vasconcelos e Rinaldo Marinho Costa  Lima)  Secretaria Especial de Direitos Humanos – SEDH (Lena Vânia Carneiro Peres e Lidiane Ferreira  Gonçalves)  Secretaria de Políticas para Mulheres – SEPM (Kátia Guimarães e Elizabeth Saar)  Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Aldo da Costa Azevedo e Iza Cristina Justino)  Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde – CONASS (Nereu Henrique Mansano e  Maria Clara Gianna Garcia Ribeiro)  Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde – CONASEMS  (Denise Rinehart, Maria  Cristina Abbate)  Associação Brasileira de Enfermagem – ABEN (Jussara Gue Martini)  Conselho Federal de Enfermagem – CONFEM (Solange Maria Miranda Silva  Conselho Federal de Medicina ‐ CFM (Ana Maria)  Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO (Paulo César Giraldo e Silvana  Marie Quintana)  Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis ‐ SBDST (Newton Sérgio de  Carvalho e Angélica Espinosa Barbosa Miranda)  Sociedade Brasileira de Medicina Tropical ‐ SBMT (Maria Aparecida Shikanai Yasuda e Gustavo  Adolfo Sierra Romero)  Sociedade Brasileira de Infectologia ‐ SBI (Érico Antônio Gomes de Arruda e Unaí Tupinanbás)  Sociedade Brasileira de Dermatologia (Ermerson Lima)  Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ (Mariza Morgado e Valdiléia Veloso)  Conselho de Psicologia (Monalisa Barros)  Fundação Alfredo da Matta (Adele Schwartz Benzaken)  Sociedade Brasileira de Hepatologia (Carlos Eduardo Brandão Melo e Mario Guimarães Pessoa)    Membros natos:  Euclides Ayres de Castilho   Elza Berquó   

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Sumário 

Siglas e acrônimos  Apresentação    Introdução    1. Epidemiologia e serviços    1.1. Cenário epidemiológico brasileiro    1.2. Organização de serviços de atenção às DST/aids    2. O acesso universal     2.1. Prevenção e diagnóstico    2.2. Prevenção da transmissão vertical do HIV e sífilis     2.3. Tratamento antirretroviral    2.4. Integralidade do cuidado    3. Síntese    3.1. Pontos fortes, conquistas    3.2. Desafios    3.3. Perspectivas    4. Bibliografia consultada e fontes    5. Anexo: Planilha de Dados Epidemiológicos, Brasil 2010, acesso universal (em separado)       

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Siglas e acrônimos 

AIH – Autorização de Internação Hospitalar  ARV – Antirretroviral  APAC – Autorização de Procedimentos Ambulatoriais de Alta Complexidade/Custo  BPO – Boletim de Produção Ambulatorial  CAMS – Comissão Nacional de Articulação com Movimentos Sociais  CENAIDS – Conselho Empresarial Nacional para prevenção ao HIV/Aids  CNAIDS – Comissão Nacional de DST e Aids  COGE – Comissão de Gestão das Ações em DST/Aids  CTA – Centro de Testagem e Aconselhamento  DATASUS – Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde ‐ SUS  DST – Doenças Sexualmente Transmissíveis  ENONG – Encontro Nacional de Organizações Não Governamentais que trabalham com aids  HSH – Homens que fazem Sexo com Homens  LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais  MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome  MEC – Ministério da Educação  MONITORAIDS – Sistema de Monitoramento de Indicadores do Departamento de DST, Aids e  Hepatites Virais  MRG – Médicos de Referência em Genotipagem  MS – Ministério da Saúde  NOAS – Norma Operacional da Assistência à Saúde  ODM – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio  OMS – Organização Mundial da Saúde  ONG – Organizações Não Governamentais  OPAS – Organização Pan‐Americana da Saúde  PVHA – Pessoas Vivendo com HIV e Aids  QUALIAIDS – Avaliação e Monitoramento da Qualidade da Assistência Ambulatorial em Aids  no SUS   RDS – Respondent Driven Sampling  SAE – Serviço de Atendimento Especializado  SEDH – Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República  SES – Secretaria Estadual de Saúde  SICLOM – Sistema de Controle Logístico de Medicamentos  SIM – Sistema de Informação de Mortalidade  SINAN – Sistema de Informação de Agravos de Notificação  SISCEL – Sistema de Controle de Exames Laboratoriais  SMS – Secretaria Municipal de Saúde  SPM – Secretaria de Políticas para as Mulheres  SUS – Sistema Único de Saúde  SVS – Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde  TARV – Terapia antirretroviral  UDI – Usuário de Drogas Injetáveis  UDM – Unidades Dispensadoras de Medicamentos  UNAIDS – Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids  UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância 

UNITAID  –  Central  Internacional  de  Compra  de  Medicamentos  para  Aids,  Tuberculose  e  Malária 

   

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Apresentação 

 

A autoria institucional deste documento é compartilhada entre o Departamento de DST, Aids e  Hepatites  Virais/SVS/MS  e  a  Comissão  Nacional  de  DST,  Aids  e  Hepatites  Virais  ‐  CNAIDS,  atendendo à solicitação do UNAIDS1, que busca ampliar as oportunidades de acesso universal  em nível global. 

O presente relatório aborda o acesso universal no Brasil no campo da aids, em sintonia com a  estruturação  e  princípios  que  regem  o  SUS  ‐  Sistema  Único  de  Saúde,  bem  como  com  as  disposições  da  Constituição  Federal  de  1988,  que  assegura  a  saúde  como  direito  de  todos  e  dever do Estado. Seus objetivos são: a) fornecer um mapa do alcance do acesso universal no  país, com ênfase na disponibilidade de tratamento antirretroviral, acompanhado do panorama  histórico da evolução dessa demanda, a partir de bases de dados correntes do sistema público  de  saúde,  em  estreita  relação  com  o  panorama  epidemiológico  da  epidemia.  Também  estão  apresentados  os  dados  de  acesso  universal  nas  áreas  de  prevenção,  diagnóstico  precoce,  transmissão  vertical  e  qualidade  de  vida  das  Pessoas  Vivendo  com  HIV/Aids;  b)  propiciar  análise  do  acesso  universal  no  país,  identificando  as  conquistas  obtidas  e,  em  particular,  discutindo os desafios e os pontos críticos, em uma perspectiva de futuro que mira o ano de  2015.  A  novidade  deste  documento,  em  relação  ao  publicado  no  país  sobre  o  tema,  está  na  síntese  atualizada  das  informações  e  na  apresentação  argumentada  dos  desafios  e  pontos  críticos que a ampliação do acesso universal traz ao Brasil.  

O  processo  de  consulta  nacional  para  a  produção  deste  documento  permitiu  dialogar  com  membros das ONG/Aids, Pessoas Vivendo com HIV/Aids e com setores de governo. O tema foi  objeto  de  discussão  e  análise  na  pauta  da  CNAIDS  em  duas  ocasiões.  De  modo  intenso,  a  produção  deste  documento  aproveita  o  forte  processo  de  participação,  envolvimento  da  sociedade  civil  e  consulta  que  marcou  a  produção  do  Relatório  UNGASS  Brasil  2010,  recentemente  concluído,  e  no  qual  o  acesso  universal  é  um  importante  tópico  abordado.  Impressões e posições sobre os desafios para a ampliação do acesso universal foram também  colhidas  durante  a  realização  do  VII  Congresso  Brasileiro  de  Prevenção  das  DST  e  Aids,  que  ocorreu  em  junho  de  2010  em  Brasília2,  bem  como  a  partir  de  articulações  com  os  representantes da CAMS e da COGE.  

Inicialmente,  o  documento  apresenta  o  cenário  epidemiológico  atual  e  a  organização  dos  serviços no país. Em seguida, detalha, em alguns itens, os principais temas que dizem respeito  ao acesso universal: prevenção, diagnóstico, prevenção da transmissão vertical do HIV e sífilis,  tratamento, qualidade de vida e qualidade da atenção em saúde. 

 

Finalmente,  é  apresentada  uma  síntese,  com  os  pontos  fortes,  conquistas,  desafios  e  perspectivas. A consulta ao anexo possibilitará encontrar o conjunto de indicadores no tema.        

1 A solicitação, bem como seu cronograma de execução, está explicitada no documento “Accounting for 

Universal  Access:  The  2010  Reviews  ‐  Information  note  #1”,  com  data  de  29  de  março  de  2010, 

disponível em <www.unaids.org>. Acesso em 2 de maio de 2010. 

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Introdução 

Desde  o  início  da  epidemia,  o  governo  brasileiro  estabeleceu  um  sério  compromisso  com  a  promoção  do  acesso  universal  à  prevenção,  diagnóstico  e  tratamento.  Em  2001,  o  Brasil  somou‐se  aos  países  membros  das  Nações  Unidas  e  firmou  a  Declaração  de  Compromisso  sobre  HIV  e  Aids,  que  estabeleceu  compromissos  em  várias  áreas  do  enfrentamento  da  epidemia.  Em  2006,  o  país  renovou  seu  compromisso  junto  à  comunidade  internacional,  participando ativamente da elaboração da Declaração Política que enfatizou a importância da  promoção do acesso universal até 2010.  

Desde  então,  o  país  tem  envidado  esforços  nas  três  esferas  de  gestão  (federal,  estadual  e  municipal) para garantir o acesso universal das ações em DST/aids. Nesse sentido, é necessário  ressaltar alguns aspectos que o país considera importantes. No que diz respeito à prevenção e  ao  diagnóstico,  o  país  considera  que  a  promoção  do  acesso  universal  não  está  restrita  à  divulgação  de  informação  e  da  utilização  de  estratégias  de  comunicação,  mas  inclui  a  disponibilidade  de  todos  os  insumos  necessários  (dentre  eles,  preservativos  femininos  e  masculinos, gel lubrificante e insumos para testagem). No que tange ao tratamento, o acesso  universal  envolve  mais  do  que  medicamentos,  pois  implica  disponibilidade  de  exames,  consultas,  acompanhamento  e  cuidados.  Ademais, havendo  a  disponibilidade  de  todos  esses  insumos,  a  experiência  brasileira  indica  a  necessidade  da  promoção  dos  direitos  humanos  e  participação  das  populações  vulneráveis  à  epidemia  na  elaboração,  implementação,  monitoramento e avaliação dos programas e ações. 

Os dados que serão apresentados a seguir demonstram a complexidade da resposta brasileira,  bem  como  os  desafios  que  exigem  do  país  soluções  e  estratégias  focalizadas.  Assegurar  o  acesso universal em um país de dimensões continentais como o Brasil implica um mosaico de  enfrentamentos  e  a  necessidade  de  parcerias  locais.  É  por  isso  que,  neste  momento,  o  país  renova  seu  compromisso  com  a  promoção  do  acesso  universal  e  reafirma  a  importância  de  uma  agenda  internacional  integrada,  pautada  no  respeito  aos  direitos  humanos  e  que  contemple as necessidades atuais. 

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1. Epidemiologia e serviços 

 

1.1. Cenário epidemiológico brasileiro 

 

De  acordo  com  as  estimativas  nacionais,  630  mil  indivíduos  de  15  a  49  anos  vivem  com  o  HIV/aids  no  Brasil.  A  taxa  de  prevalência  da  infecção  pelo  HIV,  no  país,  nessa  faixa  etária,  mantém‐se estável em aproximadamente 0,6% desde 2004, sendo 0,4% entre as mulheres e  0,8%  entre  os  homens.  Essas  estimativas  são  obtidas  por  meio  do  Estudo  Sentinela  Parturiente,  que  também  estima  a  prevalência  da  sífilis  (1,6%)  e  avalia  a  qualidade  da  assistência  durante  o  pré‐natal  e  o  parto,  em  toda  a  rede  pública  do  país.  Ressalta‐se  que  a  população  de  parturientes  é  monitorada  desde  a  década  de  1990,  por  apresentar  taxa  de  prevalência do HIV semelhante à da população geral feminina. Para as mulheres jovens de 15 a  24  anos,  por  sua  vez,  a  taxa  de  prevalência  do  HIV  estimada  em  2006  foi  semelhante  à  encontrada em 2004, em torno de 0,28% (SZWARCWALD, 2008). 

O  Brasil  também  realiza  pesquisas  periódicas  com  Conscritos  das  Forças  Armadas,  jovens  do  sexo  masculino  com  idades  entre  17  a  20  anos,  que  se  apresentam  de  forma  obrigatória  ao  serviço  militar.  Essa  população  é  bastante  heterogênea  em  relação  às  características  socioeconômicas e representa os jovens dessa faixa etária no país. Os objetivos principais são  conhecer  a  soroprevalência  do  HIV  e  da  sífilis  entre  esses  jovens  e  o  comportamento  em  relação  aos  riscos  de  transmissão  do  HIV  e  outras  DST.  A  taxa  de  prevalência  do  HIV  nessa  população  foi  estimada,  em  2007,  em  0,12%,  e  a  de  sífilis,  por  sua  vez,  em  0,5%  (SZWARCWALD, 2005, 2007).  

Em  relação  aos  subgrupos  populacionais  de  risco  acrescido,  estudos  realizados  em  dez  municípios  brasileiros  (Manaus,  Recife,  Salvador,  Belo  Horizonte,  Rio  de  Janeiro,  Santos,  Curitiba, Itajaí, Campo Grande e Brasília), entre 2008 e 2009, estimaram taxas de prevalência  de HIV de 5,9% entre usuários de drogas ilícitas (UD) (BASTOS, 2009), de 10,5% entre homens  que  fazem  sexo  com  homens  (HSH)  (KERR,  2009)  e  de  5,1%  entre  mulheres  profissionais  do  sexo (SZWARCWALD, 2009). 

De 1980 a junho de 2009, 544.846 casos de aids foram notificados ao Ministério da Saúde. Em  média, de 2000 a 2008 foram identificados cerca de 35 mil novos casos por ano. Quanto à taxa  de  incidência  de  aids  nos  últimos  anos,  observa‐se  tendência  de  estabilização,  embora  em  patamares elevados e, em 2008, o país registrou 18,2 casos por 100.000 habitantes. Diferenças  regionais  são  observadas  com  declínio  da  taxa  de  incidência  nas  regiões  Sudeste  e  Centro‐ Oeste, e aumento nas regiões Norte, Nordeste e Sul, no período de 2000 a 2008 (Gráfico 1). A  Região  Sudeste  concentra  o  maior  percentual  de  casos  identificados  no  país,  com  59,3%;  a  Região Sul possui 19,2% dos casos; a Nordeste, 11,9%; a Centro‐Oeste, 5,7%; e a Norte, 3,9%.   

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Gráfico 1: Taxa de incidência de aids(1) (por 100.000 habitantes), segundo região de  residência e ano de diagnóstico. Brasil, 1998 a 2008  0 5 10 15 20 25 30 35 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Ano de diagnóstico T a x a de i n c id ênc ia

Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste

 

FONTE: MS/SVS/Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. 

POPULAÇÃO:  MS/SE/DATASUS,  em  <www.datasus.gov.br>  no  menu  informações  em  saúde  >  Demográficas e socioeconômicas, acessado em 20/10/2009. 

NOTA: (1) Casos notificados no SINAN e registrados no SISCEL/SICLOM até 30/06/2009 e no SIM de 2000  a 2008. Dados preliminares para os últimos cinco anos. 

 

No  Gráfico  2  observam‐se  as  taxas  de  incidência  de  aids  por  sexo.  Entre  homens,  a  taxa  de  incidência foi de 22,3 casos por 100.000 habitantes e, entre as mulheres, de 14,2 por 100.000  habitantes, em 2008. Em ambos os sexos percebe‐se queda nas taxas a partir de 2002. Quanto  à razão de sexo (M:F), houve diminuição acentuada do início da epidemia aos dias atuais: em  1986, a razão era de 15,1:1 e, a partir de 2002, a razão de sexo estabilizou‐se em 1,5:1.  Entretanto, chama atenção a faixa etária de 13 a 19 anos, na qual o número de casos de aids é  maior entre as meninas, sendo essa inversão observada desde 1998, com 0,8:1 (Gráfico 3).  Gráfico  2.  Taxa  de  incidência  de  aids(1)  (por  100.000  hab.)  segundo  sexo,  por  ano  de  diagnóstico e razão de sexo. Brasil, 1986 a 2008  15 ,1 9 ,0 6 ,5 6,05 ,4 4,7 3 ,9 3,5 3,2 2,72 ,4 2 ,0 1,9 1,8 1,7 1,6 1,5 1,5 1,5 1,4 1,5 1,5 1,5 0 5 10 15 20 25 30 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 Ano de diagnóstico T a x a de i n c idê nc ia

Masculino Feminino Razão de sexo

 

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POPULAÇÃO:  MS/SE/DATASUS,  em  <www.datasus.gov.br>  no  menu  informações  em  saúde  >  Demográficas e socioeconômicas, acessado em 20/10/2009.  NOTA: (1) Casos notificados no SINAN e registrados no SISCEL/SICLOM até 30/06/2009 e no SIM de 2000  a 2008. Dados preliminares para os últimos cinco anos.    Gráfico 3. Razão de sexo (M:F) dos casos de aids(1) segundo ano de diagnóstico. Brasil, 1986 a  2008  0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 198 6 198 7 198 8 198 9 199 0 199 1 199 2 199 3 199 4 199 5 199 6 199 7 199 8 199 9 200 0 200 1 200 2 200 3 200 4 200 5 200 6 200 7 200 8 Ano de diagnóstico Raz ão de s e x o 13 a 19 anos Total   FONTE: MS/SVS/Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.   NOTA: (1) Casos notificados no SINAN e registrados no SISCEL/SICLOM até 30/06/2009 e no SIM de 2000  a 2008. Dados preliminares para os últimos cinco anos.    Desde o início da epidemia, predomina a forma de transmissão sexual entre mulheres, sendo  que, em 2008, esse percentual foi de 97%. Entre indivíduos adultos do sexo masculino houve  aumento na proporção de casos de aids em heterossexuais, que passou de 30,3%, em 1998,  para 45,2%, em 2008 (Gráfico 4). Observa‐se tendência de estabilização na proporção de casos  de aids entre HSH a partir do ano 2000, em todas as faixas etárias, à exceção da faixa de 13 a  24 anos. Nessa faixa etária, verifica‐se aumento na proporção de casos de aids, que passou de  35%, em 2000, para 42,7%, em 2008 (Gráfico 5).  Na categoria de exposição sanguínea, verifica‐se acentuada queda na proporção de casos de  aids entre usuários de drogas injetáveis (UDI). A proporção de casos caiu de 16,3%, em 1998,  para 4,9%, em 2008.   

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Gráfico 4. Distribuição percentual de casos de aids(1) em homens de 13 anos e mais de idade,  segundo categoria de exposição por ano de diagnóstico. Brasil, 1991 a 2008  0% 20% 40% 60% 80% 100% 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 Ano de diagnóstico

HSH Heterossexual UDI Hemofílico Transfusão Transmissão vertical Ignorado

  FONTE: MS/SVS/Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.  NOTA: (1) Casos notificados no SINAN até 30/06/2009. Dados preliminares para os últimos cinco anos.    Gráfico 5. Distribuição percentual de casos de aids(1) em homens de 13 a 24 anos de idade,  segundo categoria de exposição por ano de diagnóstico. Brasil, 1991 a 2008  0% 20% 40% 60% 80% 100% 199 1 199 2 199 3 199 4 199 5 199 6 199 7 199 8 199 9 200 0 200 1 200 2 200 3 200 4 200 5 200 6 200 7 200 8

HSH Heterossexual UDI Hemofílico Transfusão Transmissão vertical Ignorado

  FONTE: MS/SVS/Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.  NOTA: (1) Casos notificados no SINAN até 30/06/2009. Dados preliminares para os últimos cinco anos.    Uma vez que a transmissão vertical representa a forma de transmissão de quase a totalidade  de casos entre menores de cinco anos de idade, a taxa de incidência de aids nessa faixa etária  vem sendo utilizada no país como proxy da taxa de transmissão vertical do HIV. No período de  1998 a 2008, houve redução de 49% na incidência de casos de aids em crianças menores de  cinco anos, passando de 5,9 por 100.000 habitantes, em 1998, para 3,0, em 2008. 

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Quanto  à  mortalidade  por  aids,  o  país  vem  registrando  média  de  11.000  óbitos  por  ano  na  última década. O coeficiente de mortalidade variou de 9,6 por 100.000 habitantes, em 1996,  para 6,0, em 2006, e se mantém estável nesse patamar desde então. 

A  análise por região  demonstra  que  o  coeficiente de  mortalidade  aumentou nas  regiões  Sul,  Norte  e  Nordeste;  apresentou  tendência  de  estabilização  na  Centro‐Oeste;  e  diminuiu  na  Sudeste (Gráfico 6).     Gráfico 6. Coeficiente de mortalidade por aids (por 100.000 habitantes) padronizado por  idade(1), segundo região de residência e ano do óbito. Brasil, 1996 a 2008  0,0 2,0 4,0 6,0 8,0 10,0 12,0 14,0 16,0 18,0 1 996 1 997 1 998 1 999 2 000 2 001 2 002 2 003 2 004 2 005 2 006 2 007 2 008 Ano do óbito C o e fic ie n te d e mo rt a lid a d e

Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste

 

FONTE: Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM 

NOTA: (1) Utilização do método direto, tomando por base a população brasileira. 

POPULAÇÃO:  MS/SE/DATASUS,  em  <www.datasus.gov.br>  no  menu  informações  em  saúde  >  Demográficas e socioeconômicas, acessado em 20/10/2009. Dados preliminares para 2008. 

 

Nos  últimos  anos,  observa‐se  também  aumento  na  sobrevida  de  pacientes  com  aids.  A  probabilidade de sobrevida em crianças, aos 60 meses após o diagnóstico, que era de 58,3%,  dentre aquelas diagnosticadas em 1995 e 1996 (MATIDA, 2007), passou para 86,3% entre as  diagnosticadas  em  1999  e  2002  (MATIDA,  2009).  Em  relação  aos  adultos,  a  mediana  de  sobrevida  de  pacientes  diagnosticados  com  aids  entre  1982  e  1989  era  de  5,1  meses  (CHEQUER,  1992),  passando  para  58  meses  em  pacientes  diagnosticados  em  1995  e  1996  (MARINS  JR,  2003).  Em  estudo  recente  com  pacientes  diagnosticados  em  1998  e  1999,  a  mediana de sobrevida ultrapassou 108 meses (GUIBU, 2008).  

Atualmente, no Brasil, 194 mil pacientes estão em terapia antirretroviral (TARV) e quase 35 mil  pacientes  iniciaram  a  terapia  em  2008.  Desses,  98,7%  continuavam  em  tratamento  após  12  meses  do  início.  A  consulta  ao  Anexo  1  –  “Planilha  de  Dados  Epidemiológicos  Brasil  2010  acesso universal”, permite visualizar os dados de forma condensada e ordenada. 

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Com  relação  às  demais  doenças  sexualmente  transmissíveis,  o  Brasil  notifica  casos  de  sífilis  congênita desde 1986 e de sífilis em gestante desde 2005. 

De  1996 até  junho de  2009  foram notificados  no  Brasil  55.124  casos de  Sífilis  Congênita. No  ano de 2008 forma notificados 5.506 casos novos da doença em menores de 1 ano de idade  com taxa de incidência de  1,9/1.000 nascidos vivos. A Região Norte registra 4.897 casos (9%);  a Nordeste, 16.585 (30%); a Sudeste, 25.916 (475); a Sul, 3.716 (75); e a Centro‐Oeste, 4.010  (7%).  No  período  de  1996  a  2008,  o  número  de  óbitos  por  sífilis  congênita  no  Brasil  foi  de  1.229,  sendo  113  (9%)  na  Região  Norte,  415  (34%)  no  Nordeste,  536  (44%)  no  Sudeste,  124  (10%) no Sul e 41 (3%) no Centro‐Oeste.  De 2005 a 2009, foram diagnosticados um total de 19.608 casos de sífilis em gestantes. No ano  de 2008, especificamente, diagnosticaram‐se 6.955 casos novos, com taxa de detecção de 2,4  por 1.000 nascidos vivos.  

1.2. Organização de serviços de atenção às DST/aids 

 

O  Sistema  Único  de  Saúde  (SUS),  criado  no  Brasil  em  1988  com  a  promulgação  da  nova  Constituição  Federal,  tornou  o acesso à  saúde direito  de  todos e dever  do  Estado,  garantido  mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros  agravos  e  ao  acesso  universal  igualitário  às  ações  e  serviços  para  sua  promoção,  proteção  e  recuperação. Os princípios básicos do SUS são a universalidade, a equidade e a integralidade.  O SUS se organiza de forma descentralizada, com as ações articuladas entre as três esferas da  Federação: União, Estados e Municípios.   A resposta brasileira à epidemia de aids está fundamentada na estruturação das ações como  parte do SUS, dentro de uma noção de saúde como direito de todos. Essa noção se ancora nos  direitos humanos, assegurada pelo SUS e pela mobilização permanente da sociedade civil para  sua  efetiva  implantação,  permitindo  estruturar  um  programa  de  acesso  universal  ao  tratamento  antirretroviral.  Do  ponto  de  vista  político  e  programático,  essa  é  a  característica  mais  importante  da  resposta  brasileira  à  aids.  Para  que  a  resposta  brasileira  à  aids  seja  eficiente, duradoura, capaz de manter‐se e inovar, deve‐se atentar para o cuidado à saúde em  todas as suas dimensões e contar com um sistema de saúde pública bem estruturado. 

Para  a  construção  da  resposta  nacional  à  epidemia  de  aids  e  outros  agravos  de  transmissão  sexual, o Brasil tem como referências estratégicas: a) a participação dos movimentos sociais e  comunitários no controle social e na defesa dos direitos humanos das pessoas que vivem com  HIV; b) as ações combinadas entre prevenção, assistência e tratamento, que buscam atender  as  necessidades  de  saúde  da  população  e  de  grupos  vulneráveis,  para  assegurar  a  sustentabilidade do acesso universal aos medicamentos, diagnóstico e insumos de prevenção;  e c) a descentralização das ações, em sintonia com os processos de construção do modelo de  atenção do SUS. 

A  participação  dos  movimentos  sociais  tem  sua  origem  na  luta  contra  o  preconceito  e  o  estigma  e  constitui‐se  referência  singular  da  resposta  brasileira.  No  início  da  epidemia,  os  movimentos sociais de gays, de profissionais do sexo, de hemofílicos e de usuários de drogas  injetáveis,  populações  que  se  encontravam  mais  afetadas  pela  epidemia,  protagonizaram  as  primeiras  grandes  mobilizações  e  ações  de  prevenção.  É  essa  iniciativa  que  consolida  o 

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surgimento  das  primeiras  organizações  de  base  comunitária  e  redes  nacionais,  como,  por  exemplo, o surgimento da rede GAPA (Grupo de Apoio e Prevenção à Aids) em muitos estados,  o Grupo pela Vida em São Paulo e a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) no Rio  de  Janeiro.  Em  1989,  na  Conferência  Mundial  de  Aids  realizada  em  Montreal,  no  Canadá,  os  movimentos  sociais  se  organizaram  em  uma  coalizão  internacional  e  se  apresentaram  como  força  política,  reivindicando  seu  reconhecimento  como  parte  da  resposta  à  epidemia.  O  resultado  repercutiu  internamente  no  país  e  deu  origem  ao  primeiro  Encontro  Nacional  de  Organizações Não Governamentais que trabalham com HIV e Aids (ENONG). A participação da  sociedade civil na luta contra a aids traz reflexos positivos na ampliação do acesso universal.  A  relação  entre  os  movimentos  sociais  e  o  setor  saúde  está  voltada  para  a  construção  de  consensos técnicos e políticos desde o surgimento dos primeiros casos de aids, na década de  80 do século passado, e continua até os dias de hoje. Não há como dissociar essa trajetória do  processo de democratização do país e da luta pela reforma sanitária, em toda a sua extensão e  contradições. A democratização tão almejada não transcorreu de forma a suprir as demandas  latentes  em  uma  sociedade  marcada  por  contrastes  e  desigualdades  sociais.  Deficiências  do  processo  democrático  se  evidenciaram  ao  longo  do  processo  de  construção  da  reforma  do  setor saúde e ainda continuam presentes no conflito federativo, sobretudo no que concerne à  descentralização  e  ao  financiamento  do  sistema  de  saúde  do  país.  Esses  déficits  também  se  verificam no debate atual sobre o campo de prática da prevenção ao HIV/aids no país, entre os  quais  estão  os  temas  relacionados  à  sustentabilidade  e  manutenção  da  política  de  acesso  universal  ao  tratamento,  a  descentralização  das  ações  para  estados  e  municípios  e  os  novos  arranjos políticos na relação entre movimento social e coordenações de DST e aids. 

Nesse  contexto,  a  organização  de  uma  rede  de  assistência  de  referência  teve  um  papel  histórico  no  manejo  clínico  da  infecção  pelo  HIV,  com  grande  impacto  na  sobrevida  dos  pacientes.  A  partir  dos  anos  90,  com  a  interiorização  da  epidemia,  o  número  de  serviços  ambulatoriais especializados em DST/aids no SUS (denominados SAE – Serviço de Atendimento  Especializado) cresceu de forma significativa, passando de 33 serviços em 1996 para 540 em  2001.  No  final  de  2007,  esse  número  era  de  636. Hoje,  são  737  SAE  em  todas  as  regiões  do  país.  Esses  serviços  estão  situados  em  policlínicas  municipais  ou  estaduais,  hospitais  de  referência,  unidades  básicas  de  saúde,  clínicas  de  DST,  ambulatórios  especializados  em  DST/aids  e  outros.  Sua  complexidade,  número  de  pacientes  atendidos  e  perfil  técnico  e  administrativo  são  heterogêneos  nos  diferentes  estados  e  municípios,  dentro  de  estruturas  organizacionais, operacionais e institucionais diversas.  

Além dos serviços ambulatoriais,  a rede  de assistência  em  aids  é  constituída atualmente  por  675 Unidades Dispensadoras de Medicamentos,  434 hospitais de referência, 79 hospitais‐dia e   54 unidades de atendimento domiciliar terapêutico, em um total de 1.310 serviços. 

Em 2002, com a Lei nº 2.313, o processo de descentralização no SUS se concretiza também no  Programa  de  Aids,  com  o  repasse  de  recursos  para  incentivo  por  mecanismo  fundo  a  fundo,  para que estados e municípios desenvolvam ações voltadas ao enfrentamento da expansão da  epidemia.  Esse  repasse  foi  baseado  em  estudos  epidemiológicos  que  definiram  quais  os  municípios  a  receber  o  incentivo  para  ações  de  prevenção  e  assistência,  além  de  todos  os  estados da federação. 

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2. O acesso universal  

 

2.1. Prevenção e diagnóstico 

  O Brasil busca a promoção do acesso da população aos insumos de prevenção, com especial  destaque para o preservativo masculino, preservativo feminino e gel lubrificante, a partir das  necessidades  de  cada  estado.  Em  2008,  foi  realizada  uma  distribuição  de  preservativos  masculinos da ordem de 410 milhões de unidades, e em 2009 teve lugar a maior distribuição  de  preservativos  masculinos  da  história  do  país,  perfazendo  466,5  milhões  de  unidades  distribuídas. Em 2008, foram distribuídas 3 milhões de unidades de preservativos femininos e,  em 2009, 2,06 milhões. Em 2008 distribuíram‐se 1,8 milhões de unidades de gel lubrificante,  montante que, em 2009, foi ampliado para 2,17 milhões.  

 

Em outubro de 2008, foi lançado o 1º lote de preservativos masculinos da Fábrica de Xapuri,  estado  do  Acre  –  primeira  fábrica  estatal  de  preservativos  do  país,  inaugurada  em  2007.  A  produção atual da fábrica é de 8 milhões de unidades/mês e atende a 100% das necessidades  da região Norte do país. 

 

Para ampliação do acesso aos insumos de prevenção, em 2009, o Ministério da Saúde divulgou  recomendações  aos  estados  para  distribuição  dos  preservativos  masculinos  na  rede  de  serviços  de  saúde  do  SUS,  estimulando  o  acesso  direto  dos  usuários,  sem  necessidade  de  cadastro anterior ou identificação (Nota Técnica nº 13/2009/GAB/PN‐DST‐AIDS/SVS/MS, de 15  de janeiro de 2009).  

Desde  2007,  o  Plano  Nacional de  Enfrentamento da  Epidemia de Aids  e  das DST  entre  Gays,  outros  HSH  e  Travestis,  desenhado  no  contexto  do  Programa  Brasil  sem  Homofobia  –  que  envolve um grande conjunto de ações para a garantia de cidadania e direitos dessa população,  no quadro dos Direitos Humanos – estabelece diretrizes e ações na temática. Em 2008 e 2009,  foram realizados encontros e oficinas de trabalho nos estados, que resultaram na elaboração 

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de  Planos  Estaduais.  Atualmente,  25  estados  possuem  planos  formalizados,  disponíveis  na  internet (<www.aids.gov.br>).     Destaca‐se o trabalho intersetorial na área de prevenção e a parceria com outras áreas além  da saúde, como direitos humanos, educação, justiça e movimento social. Alguns dos avanços  obtidos foram: o lançamento da Política de Atenção à Saúde da População LGBT; a realização  de  uma  campanha  sobre  identidade  e  respeito  para  a  promoção  dos  direitos  e  redução  de  vulnerabilidades das travestis; a ampliação do apoio a ações de prevenção durante as ações de  visibilidade LGBT (“Paradas do Orgulho LGBT”); a implementação de projetos em rede para o  fortalecimento de ações de advocacy por organizações de gays e travestis.    Lançado em 2007, o Plano Integrado de Enfrentamento da Feminização da Epidemia de DST e  Aids teve importantes desdobramentos no biênio 2008/2009. A partir de oficinas de trabalho  nos  estados,  foram  elaborados  os  Planos  Estaduais  de  Enfrentamento  da  Feminização  da  Epidemia  de  DST  e  Aids.  Ampliou‐se  o  número  de  estados  com  seus  planos  específicos  elaborados, de cinco, em 2007, para 26, em 2009, visando atender às necessidades locais de  enfrentamento da feminização da epidemia. 

 

Em  2009,  a  partir  da  articulação  com  movimentos  sociais  de  mulheres,  o  Plano  foi  revisto,  resultando  na  redefinição  das  metas  e  na  inclusão  de  quatro  agendas  afirmativas  para  segmentos  mais  vulneráveis:  mulheres  vivendo  com  HIV/aids;  prostitutas  e  profissionais  do  sexo;  lésbicas  e  outras  mulheres  que  fazem  sexo  com  mulheres;  e  mulheres  vivenciando  a  transexualidade. 

 

A agenda de trabalho fortaleceu a parceria intra e intersetorial, notadamente com a Secretaria  Especial  de  Políticas  para  as  Mulheres  (SPM)  e  a  Área  Técnica  de  Saúde  da  Mulher  do  Ministério  da  Saúde,  que  contemplam  ações  relacionadas  à  violência  e  outras  já  pactuadas  com diversos atores sociais, ações nas quais, agora, as questões de aids estão incluídas.   

Algumas  das  ações  derivadas  das  prioridades  definidas  no  Plano  são:  o  apoio  ao  projeto  de  fortalecimento  de  redes  nacionais  de  prostitutas  e  de  mulheres  vivendo  com  HIV/aids;  a  realização da Consulta Nacional sobre DST, Aids, Direitos Humanos e Prostituição, ocorrida em  fevereiro de 2008; e o desenvolvimento de uma Campanha de Prevenção vinculada ao Projeto  Bolsa Família (projeto que destina benefícios sociais à população de baixa renda). 

 

Ambos  os  planos  de  prevenção  das  DST/aids  para  populações  específicas  foram  objeto  de  avaliação no VIII Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids3. A partir das opiniões de  gestores  e  membros  da  sociedade  civil,  foram  discutidas  as  conexões  HIV/aids  e  trabalho;  políticas  de  direitos  sexuais  e  reprodutivos;  criminalização  do  HIV/aids;  e  prevenção  e  assistência em contexto de gestão, na interface com os planos para populações específicas.  Os referidos planos e suas conexões com o tema dos direitos humanos também foram objeto  de análise durante o VI Fórum UNGASS‐Aids. A reunião, que teve a presença de representantes  do  governo  e  da  sociedade  civil  dos  vários  estados  do  país,  resultou  em  uma  declaração  política  que  afirma  que  “os  Direitos  Sexuais  e  Reprodutivos  são  reconhecidos  como  valores  democráticos e estão na agenda política em vários contextos nacionais e internacionais. Essa 

      

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agenda, por sua vez, pode servir de vínculo entre demandas de diferentes movimentos sociais,  tendo sido especificamente destacado os movimentos de Aids, Mulheres e LGBT.”4  

No que diz respeito aos adolescentes e jovens, o projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE)  se mantém como uma referência para a área de saúde e prevenção das DST/aids no ambiente  escolar.  No  período,  o  projeto  experimentou  importante  ampliação,  com  a  criação  do  Programa Saúde nas Escolas (PSE). Trata‐se de um programa governamental sob a gestão dos  Ministérios  da  Educação  e  Saúde,  criado  por  decreto  presidencial  em  2007,  que  integra  as  diversas ações em saúde no ambiente escolar e promove o fortalecimento da articulação entre  escola e serviços de atenção em saúde.    Com relação à redução de danos, um grande avanço obtido foi o fortalecimento da integração  entre as Áreas Técnicas de Saúde Mental e de DST, Aids e Hepatites Virais para a elaboração e  implementação de ações em estados e municípios. Em 2008, foi elaborado conjuntamente um  material didático e informativo para a atuação de redutores de danos, com a participação da  sociedade  civil.  No  ano  seguinte,  2009,  lançou‐se  uma  seleção  pública  integrada  de  projetos  para  a  sociedade  civil  e  serviços  de  saúde,  com  o  objetivo  de  ampliar  o  acesso  à  saúde  das  pessoas que usam álcool e outras drogas, melhorar o atendimento oferecido a elas pelo SUS,  fortalecer  as  ações  comunitárias  dos  redutores  de  danos  junto  a  esses  usuários  e  ampliar  a  articulação das ações entre as áreas programáticas e entre governo e sociedade civil. 

 

Em  1998,  foi  criado  no  Brasil  o  CENAIDS5,  que  visa  mobilizar  o  setor  empresarial  no  enfrentamento  da  epidemia  de  HIV/aids.  Como  aprovação  da  recomendação  200  da  Organização  Internacional  do  Trabalho  sobre  HIV  e  Aids  no  mundo  do  trabalho,  está  sendo  construída  uma  rede  intersindical  de  trabalhadores  para  prevenção  da  aids,  em  articulação  com o Ministério do Trabalho. 

 

Pode‐se dizer que o desafio da prevenção, hoje, está na consolidação de proposta que atenda  às necessidades de superar as desigualdades regionais no que concerne ao acesso aos insumos  e qualidade da atenção, bem como no aperfeiçoamento do processo de descentralização que  assegure  a  sustentabilidade  das  ações  no  âmbito  local  e  a  expansão  da  cobertura  das  ações  para populações mais vulneráveis, respondendo às características que a epidemia assume em  cada local e em cada subgrupo populacional.  

No  que  diz  respeito  ao  acesso  universal  ao  diagnóstico,  o  Brasil  adotou  as  seguintes  estratégias:    • Descentralização das ações de testagem;   • Estruturação das redes laboratoriais de testagem e acompanhamento;   • Incentivo político à testagem;  • Mobilização social de incentivo à procura do diagnóstico precoce pela população;  • Elaboração de normas e protocolos nacionais;  • Articulação com a sociedade civil organizada;         

4  VI  Fórum  UNGASS‐AIDS  Brasil  –  Carta  de  Pernambuco,  Recife,  maio  de  2010,  disponível  em 

<www.gestos.org.br>. Acesso em 26 de setembro de 2010. 

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• Garantia  dos  recursos  financeiros  com  a  pactuação  entre  as  esferas  de  gestão  para  aquisição dos testes diagnósticos; 

• Incremento financeiro para compromissos específicos, como a redução da transmissão  vertical.  

 

A  testagem  é  ofertada  pelos  serviços  de  saúde,  não  é  compulsória  e  pode  ser  anônima,  quando  solicitado  pelo  usuário.  Ampliou‐se  em  mais  de  dez  vezes  a  oferta  pública  de  testes  diagnósticos  na  última  década.  Em  1999,  efetuaram‐se  440.215  testes  imunoenzimáticos  de  triagem para o HIV. Já em 2008, 4.659.610 desses testes foram realizados. 

Os  Centros  de  Testagem  e  Aconselhamento  são  serviços  estruturados  para  acolhimento  principalmente de populações mais vulneráveis à infecção, prevenção e diagnóstico do HIV e  outras  doenças  sexualmente  transmissíveis.  Unidades  Básicas  de  Saúde,  policlínicas  e  ambulatórios de especialidades, serviços de atendimento ao pré‐natal e outros, também são  responsáveis por percentual importante de exames de diagnóstico. Esse perfil é heterogêneo,  dependendo do estado e município, e da forma como o gestor estabelece os serviços e pactua  os fluxos de referência e contrarreferência. 

O  diagnóstico  é  realizado  por  duas  tecnologias  principais  que  são  o  teste  rápido  e  o  teste  ELISA, posteriormente encaminhados para exames confirmatórios. O teste rápido é fornecido  integralmente  pelo Ministério da  Saúde,  de  acordo com  a  demanda  dos  estados.  A partir de  2006, um forte incentivo foi direcionado aos estados para que estabelecessem suas estratégias  de  testagem  com  teste  rápido,  inicialmente  para  populações  de  difícil  acesso,  com  posterior  expansão para os CTA em geral. O teste Elisa é utilizado nos serviços e ressarcido pelo SUS por  meio  das  APAC,  AIH  e  BPO  (instrumentos  para  registro  e  ressarcimento  de  pagamento  de  procedimentos  e  insumos  para  atenção  de  média  e  alta  complexidade).  Portanto,  o  Sistema  Único de Saúde fornece os fundamentos normativos, técnicos e operacionais para a efetivação  do diagnóstico do HIV no Brasil. 

Na revisão mais recente do instrumento normativo do algoritmo de testagem para a realização  do  diagnóstico  da  infecção  pelo  HIV,  obteve‐se  como  resultado  maior  flexibilidade  quanto  à  escolha  das  metodologias  de  coleta  e  testagem,  inclusão  de  metodologias  mais  modernas,  redução  do  número  de  etapas  e  agilidade  na  entrega  do  resultado,  sem  a  perda  da  confiabilidade e qualidade do diagnóstico, gerando, com isso, um aumento na capacidade de  atendimento dos laboratórios, além da economia financeira. O novo documento também abre,  pela primeira vez, a possibilidade de se realizar testes com sangue seco, utilizando a coleta em  papel  filtro;  a  vantagem  é  que  essa  metodologia  permite  o  envio  de  material  pelo  correio,  levando  os  meios  diagnósticos  dos  centros  urbanos  aos  locais  mais  distantes,  onde  não  há  capacidade laboratorial disponível. 

 

Também  representa  um  avanço  importante  a  atualização,  em  2009,  das  normas  para  o  diagnóstico  da  infecção  pelo  HIV,  com  a  inclusão  de  uma  nova  metodologia  que  utiliza  a  biologia molecular para auxiliar o diagnóstico precoce em crianças antes de 18 meses, nascidas  de  mães  positivas  para  o  HIV.  Essa  técnica  poderá  ser  utilizada  também  nas  gestantes  com  sorologias indeterminadas no pré‐natal, a fim de minimizar o risco da transmissão vertical do  HIV. No protocolo anterior, o diagnóstico era finalizado após 12 meses de acompanhamento  da criança. 

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Visando a sustentabilidade das ações de diagnóstico e tratamento relacionados ao HIV, o Brasil  tem investido na utilização de testes rápidos. Duas marcas de testes rápidos são fabricadas por  laboratórios  farmacêuticos  nacionais,  vinculados  a  instituições  de  pesquisa,  cuja  produção  é  integralmente adquirida pelo Ministério da Saúde. As ações de implantação dos testes rápidos  nos  serviços  de  saúde  iniciaram‐se  em  2004,  quando  foram  distribuídos  150  mil  testes.  Somadas  às  mobilizações  utilizando  testes  rápidos,  essas  ações  de  implantação  foram  evoluindo e a distribuição aumentou ano após ano. Em 2009, foram distribuídos para todo o  Brasil 2.446.380 testes rápidos, 28% a mais do que no ano anterior. 

 

Com  o  teste  rápido,  o  Ministério  da  Saúde  desenvolveu  a  Campanha  “Fique  Sabendo”,  que  tem como objetivo a mobilização social para oportunizar o diagnóstico da infecção pelo HIV e  sífilis.  O  diagnóstico  precoce  e  as  informações  sobre  prevenção,  associados  ao  encaminhamento  para  tratamento  e  acompanhamento,  são  os  principais  pontos  desenvolvidos nessas mobilizações. 

 

A implantação do teste rápido anti‐HIV tem sido uma experiência importante para facilitar o  acesso  ao  diagnóstico,  de  maneira  eficaz  e  precoce,  por  segmentos  mais  vulneráveis  da  população,  como  homens  que  fazem  sexo  com  homens,  usuários  de  drogas  injetáveis,  profissionais  do  sexo,  moradores  ribeirinhos,  índios,  gestantes,  segmentos  populacionais  de  baixa renda, caminhoneiros, garimpeiros e pessoas privadas de liberdade. Além disso, atua‐se  no  diagnóstico  das  coinfecções,  como  a  tuberculose,  que  tem  grande  impacto  na  morbi‐ mortalidade dos pacientes com aids.        

2.2. Prevenção da transmissão vertical do HIV e sífilis 

 

As  ações  de  prevenção  da  transmissão  vertical  (TV)  do  HIV  e  da  sífilis  são  realizadas  pelo  Ministério da Saúde desde meados da década de 90, com a assinatura, pelo governo brasileiro,  do compromisso de eliminação da Sífilis Congênita nas Américas e com a introdução da terapia  antirretroviral em gestantes infectadas pelo HIV e crianças expostas, a partir dos resultados do  Protocolo  ACTG  076.  Entretanto,  tais  ações  sofreram  forte  impulso  com  a  instituição,  pela  Portaria nº 2.104/GM, de 19 de novembro de 2002, do Projeto Nascer‐Maternidades, que teve  como foco a ampliação da utilização de diversos insumos de profilaxia da transmissão vertical  do  HIV  e  sífilis  por  parte  de  maternidades  localizadas  em  municípios  considerados  epidemiologicamente  prioritários.  Os  insumos  disponibilizados  incluem  testes  rápidos  para  o  HIV,  testes  para  sífilis,  antirretrovirais  (para  parturientes  e  crianças  expostas),  inibidores  de  lactação (estradiol e cabergolina) e fórmula infantil. Atualmente, todos os insumos utilizados  para  a  prevenção  da  transmissão  vertical  do  HIV  e  da  sífilis  são  financiados  pelo  Governo  Brasileiro. 

Em  2007,  o  Ministério  da  Saúde  lançou  o  “Plano  Operacional  para  Redução  da  Transmissão  Vertical do HIV e da Sífilis”, com aporte financeiro para os estados, com o objetivo de ampliar  para 100% a cobertura de testagem para o HIV e sífilis no pré‐natal. O plano apresenta metas  escalonadas  e  regionalizadas  de  redução  da  transmissão  vertical  desses  agravos.  De  fato,  observa‐se que, desde a década de 90, os esforços de governos federal, estaduais e municipais 

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na  prevenção  da  transmissão  vertical  do  HIV  e  da  sífilis  contribuiu  substancialmente  para  a  diminuição paulatina de casos aids em crianças de 0 a 5 anos (a taxa de incidência, que era de  5,9/100.000  habitantes  em  1998,  caiu  para  1,3/100.000  habitantes  em  2008).  Apesar  disso,  muitos desafios ainda se apresentam atualmente. 

O processo de descentralização das ações de saúde, ocorrido no Brasil a partir da década de  90,  definiu  diferentes  papeis  para  governos  federal,  estaduais  e  municipais.  Em  relação  às  ações de enfrentamento da transmissão vertical do HIV, o governo federal é responsável por  adquirir  os  ARV  e  testes  rápidos  e  distribuí‐los  aos  estados.  Estes  são  responsáveis  pela  logística  de  distribuição  desses  insumos  aos  seus  municípios.  Já  o  inibidor  farmacológico  de  lactação, a cabergolina, deve ser adquirido pelas maternidades e faturado no Sistema Único de  Saúde. A aquisição e distribuição da fórmula infantil são de responsabilidade estadual. Há um  recurso específico para aquisição de fórmula infantil visando a cobertura de todas as crianças  expostas ao HIV até os seis meses de vida. O montante de recursos a serem utilizados por cada  estado na aquisição de fórmula infantil foi primeiramente definido na Portaria nº 1.071, de 09  de  julho  de  2003,  e  depois  revisado  na  Portaria  nº  2.802,  de  18  de  novembro  de  2008.  Do  ponto de vista da organização das ações, o governo federal é responsável pela elaboração de  diretrizes  técnicas  e  operacionais;  os  estados,  pela  gestão  junto  aos  municípios  para  a  implementação  de  tais  diretrizes;  e  os  municípios,  pela  execução  das  ações  propriamente  ditas. 

Como resposta aos desafios apresentados, o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, em  parceria  com  o  UNICEF  e  com  o  apoio  da  OPAS,  desenvolveu  o  plano  denominado  “Qualificação  das  Linhas  de  Cuidado  da  Transmissão  Vertical  do  HIV  e  Sífilis  nos  estados  do  Semi‐Árido  e  Amazônia  Legal”.  Como  pode  ser  observado  em  seu  título,  priorizaram‐se  os  estados  das  regiões  Norte  e  Nordeste,  as  quais  apresentam,  até  o  momento,  menor  efetividade  nas  ações  de  enfrentamento  da  transmissão  vertical,  considerando  as  desigualdades regionais brasileiras. O objetivo do plano é a organização das linhas de cuidado  da  transmissão  vertical  do  HIV  e  sífilis  por  meio  da  ampliação  da  rede  especializada  de  maternidades  e  do  SAE  para  que  realizem  o  acompanhamento  pré‐natal  e  pediátrico  em  municípios  de  interior  e  por  meio  da  ampliação  da  atuação  da  Atenção  Básica  nos  estados.  Dessa  forma,  desenvolveu‐se  um  trabalho  com  gestores  de  estados  e  municípios  visando  a  organização de diferentes serviços para realização de ações de enfrentamento à transmissão  vertical, dentro de uma perspectiva de linhas de cuidado, de maneira coordenada.  

Considerando as linhas de cuidado da transmissão vertical do HIV e da sífilis e as atribuições de  cada  um  de  seus  pontos,  e  tendo  em  vista  a  necessidade  de  organização  de  serviços  de  referência (serviços de atenção especializada e maternidades) para gestantes infectadas pelo  HIV fora da capital, onde esses serviços geralmente se concentram, a implementação do plano  é planejada de modo a estabelecer municípios que serão referências regionais dentro de cada  estado para a prevenção da transmissão vertical do HIV e sífilis (denominados municípios de  fase 1 no Plano). Nos demais municípios do estado, estratégias deverão ser focadas no sentido  de intensificar as ações de prevenção da transmissão vertical do HIV e da sífilis nas Unidades  Básicas de Saúde (denominados municípios de fase 2 no Plano).  

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Uma  vez  identificado  o  interesse  de  um  estado  na  implementação  desse  plano,  os  gestores  (governador, secretários de saúde) são convidados para uma reunião de articulação, em que o  plano  é  apresentado  e  os  gestores  se  comprometem  a  trabalhar  para  a  implementação  do  plano.  Dessa  forma,  garante‐se  que,  ao  planejar  as  ações  com  os  profissionais  de  saúde  e  gerentes  de  serviços,  se  tenha  um  compromisso  previamente  assumido  pelos  gestores  para  implementação do plano.  

Assim,  após  articulação  com  gestores,  é  realizada  uma  reunião  de  planejamento  de  implementação  do  plano  no  estado  envolvendo  os  municípios  de  fase  1.  O  momento  mais  importante dessas reuniões é, sem dúvida, quando os responsáveis por cada ponto das linhas  de cuidado da transmissão vertical do HIV e da sífilis planejam suas ações de implementação  do plano  de  maneira  coordenada.  Esta  forma  de  planejamento  integrado  é,  certamente,  um  dos pontos fortes deste plano.   

2.3. Tratamento antirretroviral 

    Na década de 1990, o Brasil foi pioneiro, entre os países em desenvolvimento, a adotar uma  política  pública  de  acesso  universal  ao  tratamento  antirretroviral.  O  Ministério  da  Saúde  adquire  os  medicamentos  antirretrovirais  de  forma  centralizada,  respaldado  na  Lei  nº  9.313/96.  Os  medicamentos  para  as  infecções  oportunistas  são  adquiridos  pelos  estados,  de  acordo com pactuações estabelecidas entre as três esferas de governo que compõem o SUS.   

Aproximadamente 200.000 indivíduos HIV+ estão em tratamento gratuito na rede pública de  saúde brasileira,  o  que  representa  um  elevado  percentual  dos  pacientes  diagnosticados  com  HIV  e  elegíveis  para  o  tratamento.  Os  medicamentos  antirretrovirais  estão  disponíveis  gratuitamente na rede pública de saúde, que supre também pacientes da rede privada.   

 A necessidade de normatização de condutas diante de questões complexas e controversas no  âmbito da terapêutica antirretroviral levou o Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais a  constituir  grupos  de  trabalho  para  discussão  e  elaboração  de  documentos  que  refletissem  o  Consenso Nacional a propósito do tema. Assim, foi constituído, em 1996, o Comitê Assessor de  Terapia Antirretroviral para Adultos Infectados pelo HIV e, a partir de 2005, o Comitê Assessor  de Terapia Antirretroviral para Crianças e Adolescentes Infectados pelo HIV. Também em 2005,  foi  estabelecido  o  Comitê  Assessor  de  Terapia  Antirretroviral  para  Gestantes  Infectadas  pelo  HIV,  anteriormente  parte  do  Comitê  para  Adultos.  Os  três  comitês  assessores  têm  representantes da sociedade civil e das sociedades médicas. 

 

Os comitês, sob coordenação do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, trabalham na  perspectiva  do  uso  racional  dos  medicamentos  e  do  alinhamento  técnico‐científico  às  premissas da política de acesso universal a antirretrovirais no Brasil. 

 

Atualmente,  o  elenco  nacional  de  antirretrovirais  é  composto  por  19  princípios  ativos,  disponibilizados  em  32  apresentações  comerciais  para  uso  adulto  e  pediátrico.  Em  2009,  o  Departamento  começou  a  discutir  questões  como  custo‐efetividade,  no  intuito  de  embasar  cada vez mais a decisão da inclusão ou não de novas drogas ao elenco disponível. 

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Os  mais  recentes  medicamentos  antirretrovirais  incorporados  para  uso  no  país  foram:  enfuvirtida (2005, inibidor de fusão), darunavir (2008, inibidor de protease) e raltegravir (2009,  inibidor de integrase). Em dezembro de 2008, 70% dos pacientes utilizavam medicamentos de  primeira  linha  (segundo  a  definição  da  OMS),  sendo  que  47,8%  obedeciam  ao  esquema  efavirenz, lamivudina e zidovudina (EFZ+3TC+AZT), recomendado no país como primeira opção  de esquema. 

MEDICAMENTOS ANTIRRETROVIRAIS (Brasil, 2010) 

NACIONAIS  IMPORTADOS  Didanosina (ddI) Pó para Solução Oral  Abacavir (ABC) 300mg  Efavirenz (EFZ) 600mg  Abacavir (ABC) Solução Oral  Estavudina (d4T) 30mg  Atazanavir (ATV) 200mg  Estavudina (d4T) Pó para Solução Oral  Atazanavir (ATV) 300mg  Indinavir (IDV) 400mg  Darunavir (DRV) 300mg  Lamivudina (3TC) 150mg  Didanosina (ddI) EC 250mg  Lamivudina (3TC) Solução Oral  Didanosina (ddI) EC 400mg  Efavirenz (EFZ) 200mg  Nevirapina (NVP) 200mg  Efavirenz (EFZ) Solução Oral  Enfuvirtida (T‐20) (Kit)  Saquinavir (SQV) 200mg  Fosamprenavir (FPV) 700mg  Fosamprenavir (FPV) Solução Oral  Zidovudina (AZT) 100mg  Lopinavir/ritonavir (LPV/r) Comprimido  Lopinavir/ritonavir (LPV/r) Solução Oral   Zidovudina (AZT) 300mg + Lamivudina (3TC) 150mg  Lopinavir/ritonavir (LPV/r) Solução Oral (Baby dose)  Nevirapina (NVP) Suspensão Oral  Zidovudina (AZT) Solução Injetável  Raltegravir 400mg  Ritonavir (RTV) 100mg  Zidovudina (AZT) Solução Oral  Tenofovir (TDF) 300mg  Fonte: Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais 

Aproximadamente  15%  dos  pacientes  em  TARV  utilizam  medicamentos  de  segunda  linha,  incluindo  as  alternativas  com  inibidores  da  protease.  O  Brasil  possui,  dentre  a  população  de  Pessoas Vivendo com HIV/Aids, indivíduos multiexperimentados em terapia ARV; destes, 3,5%   utilizam medicação de terceira linha. Em caso de indicação de terceira linha, existem Câmaras  Técnicas  nos estados para  avalizar a decisão  final.  Esses  pacientes  necessitam, portanto, dos  mais recentes ARV ou de novas classes para compor esquemas potentes em supressão viral.  Tais opções terapêuticas são avaliadas por médicos de referência em genotipagem (MRG) nas  diferentes regiões do país, os quais atuam como referência aos médicos assistentes, sugerindo  os esquemas de resgate.  

 

Para  o  gerenciamento  da dispensação  de  antirretrovirais,  o  Sistema  de  Controle  Logístico  de  Medicamentos  (SICLOM)  foi  concebido,  em  1997,  com  o  objetivo  de  analisar  e  controlar  as  prescrições médicas de acordo com as recomendações técnicas do Ministério da Saúde, bem  como controlar as distribuições, dispensações e estoque dos medicamentos para o tratamento  da aids na Rede Pública de Saúde. 

 

Todo  manejo  das  Pessoas  que  Vivem  com  HIV/Aids  é  orientado  por  protocolos  clínicos  elaborados  por  comitês  de  especialistas  e  fundamentados  com  base  em  evidências.  As  recomendações de terapia são amplamente divulgadas para os profissionais médicos por meio  de  seminários,  oficinas  e,  recentemente,  por  cursos  à  distancia,  no  intuito  de  expandir  seu 

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Anualmente,  as  recomendações  são  atualizadas.  Foram  revistos,  recentemente,  os  critérios  para  início  de  tratamento,  passando  a  ser  recomendado  o  início  da  TARV  com  contagem  de  linfócitos  CD4  <  350  céls./mm³.  Esses  comitês  são  também  responsáveis  pela  indicação  de  incorporação de novos antirretrovirais no SUS. Essa incorporação é, em seguida, avaliada por  câmara  técnica  do  Ministério  da  Saúde.  Em  2008,  foi  incorporado  o  darunavir  e  em  2009  o  raltegravir.  Em  2010,  mais  uma  droga,  a  etravirina,  foi  incorporada  ao  elenco  de  antirretrovirais.  A  prerrogativa  do  uso  de  drogas  de  terceira  linha  possibilita  o  resgate  adequado  e  efetivo  dos  pacientes  multiexperimentados,  trazendo  aumento  da  sobrevida  e  melhora da qualidade de vida desses pacientes.  

Toda esta discussão tem conexões com o tema do patenteamento e da propriedade intelectual  dos medicamentos. Muitos países, antes do Acordo TRIPS, não admitiam em suas legislações, o  patenteamento  de  produtos  e  processos  farmacêuticos.  A  legislação  brasileira,  por  exemplo,  desde seu período colonial protege direitos de propriedade intelectual, mas há que se ressaltar  que  de  1971  a  1996  não  se  permitia  o  patenteamento  relativo  a  medicamentos.  O  entendimento  era  que  esses  bens  não  deveriam  ser  alvo  de  monopólio  por  sua  importância  social.  Com  a  implementação  do  Acordo  TRIPS,  cujo  objetivo  é  uniformizar  as  normas  referentes  a  propriedade  intelectual  com  intuito  de  fixar  princípios  e  regras  gerais  com  a  finalidade  de  que  os  signatários  compatibilizem  suas  legislações  nacionais  a  esse  Acordo,  houve  a  obrigatoriedade  de  que  produtos  e  processos  farmacêuticos  fossem  patenteados.  Como  o  Brasil  é  Membro  da  Organização  Mundial  do  Comércio  e,  conseqüentemente,  signatário  do  Acordo  TRIPS,  a  Lei  9276/96,  trouxe  as  adequações  para  que  a  legislação  brasileira estivesse em conformidade com as novas exigências internacionais. 

Essa  nova  realidade  fez  com  que  muitos  países,  principalmente  em  desenvolvimento,  passassem  a  discutir  a  relação  entre  preços  dos  medicamentos,  os  monopólios  concedidos  pelo  Estado  e  os  princípios  sociais  que  devem  reger  as  políticas  de  saúde  e  acesso  aos  medicamentos.  Os  países  passaram  a  perceber  que  as  patentes,  em  alguma  medida,  comprometiam ou dificultavam a execução de algumas políticas governamentais no combate a  doenças graves, que geralmente têm alto custo de tratamento e impactam de maneira efetiva  o  acesso  aos  medicamentos.  Depois  de  alguns  anos  da  implementação  do  Acordo  TRIPS,  os  países em desenvolvimento demonstraram a necessidade de adequação do Acordo à realidade  dos Estados no que concerne à saúde pública. A Rodada Ministerial de Doha foi a primeira vez  que um tema social foi inserido em uma negociação comercial de maneira tão expressiva. Com  a  Declaração  de  Doha  relativa  ao  TRIPS  e  saúde,  reconheceu‐se  o  impacto  das  patentes  nos  preços  dos  medicamentos  e,  consequentemente,  no  acesso  da  população  a  esses  bens  diferenciados. 

Nessa  Declaração,  reconheceu‐se que o Acordo  TRIPS  não  impede nem deve  impedir que  os  Membros adotem medidas de proteção à saúde pública e que pode e deve ser interpretado de  forma a apoiar o direito dos países Membros da OMC a proteger a saúde pública, além de, em  particular, promover o acesso a medicamentos para todos. Esse entendimento da Organização  Mundial  do  Comércio  está  em  absoluta  conformidade  com  o  preceito  de  que  a  saúde  é  um  direito  humano  fundamental.  Há  que  se  ressaltar,  ainda,  que  atualmente  a  saúde  não  é  entendida como agravo simplesmente, mas está relacionada a uma condição de bem‐estar. Os 

Referências

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