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Resumo. 1. Introdução

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Academic year: 2021

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Resumo

1. Introdução

A relação entre humanos e cães é já muito antiga podendo ter originado há mais de 100,000 anos atrás (Vilà et al., 1997) na Euroásia (Druzhkova et al., 2013). Os cães evoluíram de uma espécie primitiva de lobo que já não existe atualmente (Wayne

et al., 2015). A cooperação entre humanos e lobos trouxe grandes benefícios e levou

ao desenvolvimento de capacidades extraordinárias de comunicação entre ambas as espécies (Jensen et al., 2016). Atualmente o cão faz parte da família humana e é mantidos principalmente como animal de companhia (Hedges, 2014). Curiosamente, da mesma forma que os humanos sofrem de determinadas doenças, como a obesidade e diabetes, consequência de um estilo de vida caçador-coletor durante milhares de anos, também o cão moderno sofre dos mesmos problemas (Jensen et al., 2016). Infelizmente a relação Homem - Cão nem sempre é perfeita e um dos principais problemas é a agressividade canina (Bamberger & Houpt, 2006). Todos os anos, cerca de 4,5 milhões de pessoas são mordidas, o que, para alem de constituir um perigo para a saúde pública, também deteriora a relação humano-animal e resulta no abandono e eutanásia de muitos destes animais (Sueda & Malamed, 2014). Apesar das sérias consequências resultantes deste problema, há ainda um número limitado de estudos dedicados a este tema e muitos dos que existem apresentam vieses ou não apresentam grupos de controlo (Casey et al., 2014).

O termo “agressividade” descreve um conjunto de comportamentos sem definir a sua causa ou motivação, desta forma, a agressividade não é uma característica da personalidade mas sim a uma resposta ao estado emocional do animal (Bowen & Heath, 2005). Um cão, antes de morder, exibe vários comportamentos de ameaça como ladrar e/ou rosnar ou até mesmo comportamentos de submissão ou evitamento, tornando a agressividade canina previsível e evitável. Infelizmente, muitas pessoas não conhecem ou não interpretam correctamente estes sinais, o que pode resultar ou podem até mesmo provocar o cão escalando a situação e levando a que o cão passe da ameaça à dentada canina (Bowen & Heath, 2005). Quando um cão se encontra numa situação de conflito, na qual perceciona algo como potencial ameaça, começa por

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exibir sinais subtis de apaziguamento ou evitamento, como virar o corpo e a cabeça, lamber os lábios, bocejar, etc. Se o alvo deixar de ser considerado uma ameaça, por exemplo, por ter alterado o seu comportamento ou por se ter distanciado, o cão poderá cessar por completo a exibição de comportamentos de conflito. Mas se tal não acontecer, a exibição de comportamentos irá escalar, inicialmente para ameaças, até finalizar na mordedura, tal como descrito na na “Ladder of agression” (Horwitz & Mills, 2009; Hedges, 2014). O conhecimento e correta interpretação do comportamento canino são são de extrema importância na prevenção da dentada canina (Horwitz & Mills, 2009).

Contudo, frequentemente, a agressividade canina está associada com alterações comportamentais do animal. Segundo a escola francesa de comportamento, a sociopatia, o síndrome HSHA e a fobia, são as alterações comportamentais que, com maior frequência, surgem associadas a um quadro de agressividade. (Pageat, 1998).

A escola classifica a fobia segundo a sua origem, em ontogénica ou adquirida. A fobia ontogénica surge em animais que, enquanto cachorros, se desenvolveram num ambiente hipoestimulante e que, por isso, quando chegam à fase adulta, todos os novos estímulos provocam respostas de medo (Pageat, 1998). A fobia adquirida surge em cães que experienciaram um evento traumático, numa situação em que não podiam evitar ou escapar a determinado estimulo. Sempre que esse estímulo se apresenta o cão vai exibir uma resposta de medo intensa. Numa primeira fase, o estímulo é bem definido mas, com o tempo, pode ocorrer generalização para outros estímulos, que estejam de certa forma relacionados com o estímulo inicial (Béata et

al., 2015).

O síndrome de Hipersensibilidade e Hiperactividade (HSHA) é outro dos problemas comportamentais frequentemente associado a agressividade canina (Béata

et al., 2015). É caracterizado por uma reação exagerada a múltiplos estímulos, mesmo

que de baixa intensidade (hipersensibilidade), na qual o animal reage de forma incontrolável e com níveis de atividade excessivos (hiperactividade). Este síndrome surge devido à separação precoce da progenitora ou se a própria progenitora já apresentava este síndrome (Béata et al., 2015). Esta alteração comportamental leva muitas vezes a agressividade por irritação, ansiedade e comportamentos estereotipados (Béata et al., 2015).

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A sociopatia é o síndrome mais frequentemente, está associada a agressividade canina e resulta de um problema no grupo social Homem-Cão (Béata et al., 2015). Este problema ocorre quando a organização hierárquica do grupo não se encontra bem definida ou quando o tutor envia mensagens ambíguas (por vezes comportando-se de forma submissa e outras como líder), o que causa instabilidade no grupo e leva ao conflito (Béata et al., 2015). Nestas situações o cão tenta assumir o papel de líder do grupo, através da exibição de vários comportamentos: comportamentos não agressivos (comportamento destrutivo, marcação hierárquica, vigiar o grupo, etc.) e agressivos (agressividade em torno da comida e quando é manipulado ou tocado (Béata et al., 2015). Alcançar e manter o papel de líder causa stresse e ansiedade que, com o tempo, pode levar ao aparecimento de alterações de comportamento, como fobia e permanente estado de alerta (Béata et al., 2015). Nas suas fases inicias, quando ocorre agressão, esta é precedida de ameaças e seguida de apaziguamento. No entanto, com o tempo as mordidas passam a ser instrumentalizadas (sem ameaça) e a fase de apaziguamento começa a desaparecer, aumentando o perigo que o cão representa (Pageat, 1998).

São vários os fatores que influenciam o desenvolvimento do comportamento agressivo, tanto a nível genético, como ambiental (Miklosi, 2014). A influência genética pode estar relacionada com diferenças na acção de certos neurotransmissores.

Uma concentração reduzida de GABA, neurotransmissor inibitório, poderá levar ao aparecimento de reações de medo exacerbadas enquanto níveis elevados de dopamina estão associados a hiperactividade. Níveis baixos de serotonina estão associados a um aumento do comportamento impulsivo, com consequente aumento de comportamento agressivo. Esta alteração foi observada num estudo efetuado em cães da raça Cocker Spaniel, no qual se verificou que os cães agressivos possuem níveis mais baixos de serotonina (Landsberg, 2015).

A influência do ambiente pode começar mesmo antes do cachorro nascer, no período pré-natal. A forma como decorre todo o período de desenvolvimento e crescimento até à fase adulta, está directamente relacionada com o aparecimento de problemas comportamentais, nomeadamente agressividade. Por exemplo, a separação precoce da progenitora provoca uma resposta de stresse profunda, predispondo o

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cachorro a desenvolver medos, ansiedade e comportamentos agressivos (Le Brech et

al., 2016). A falta de uma socialização adequada, que inclui a exposição controlada a

vários estímulos, está associada a problemas de agressividade e de medos no cão adulto (Landsberg, 2015). Ao longo de toda a sua vida, o comportamento do animal vai sendo moldado pelas suas experiências. Uma boa comunicação entre o cão e o tutor, a promoção de estados emocionais positivos e o abandono de técnicas de treino aversivas, são pontos-chave no desenvolvimento de uma relação saudável entre o animal e o humano (Landsberg, 2015). Além disso, o treino baseado em reforço positivo, proporciona um ambiente controlado e previsível, que beneficia os cães, especialmente os mais ansiosos (Le Brech et al., 2016). A saúde tem também um papel importante no desenvolvimento de comportamentos agressivos, uma vez que cães com problemas dolorosos podem ser mais agressivos e exibirem menos sinais de ameaça antes da mordida. Condições dolorosas e crónicas estão também associadas a alterações no sistema nervosos central, como a redução da actividade da serotonina, facilitando a exibição de comportamentos agressivos (Le Brech et al., 2016).

Objetivos

Este estudo retrospetivo tem como principais objetivos analisar e caracterizar situações de agressividade em relação ao perfil da vítima (faixa etária e familiaridade com a vítima) e perfil comportamental do cão agressor, e identificar as situações de maior risco, de acordo com a sequência e previsibilidade da agressão, frequência dos episódios (agressividade sistemática ou ocasional) e necessidade de assistência médica).

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2. Materiais e métodos

2.1. População de estudo

Dados de registos clínicos de consultas de comportamento, que decorreram no período de 2002 a 2007, na clinica veterinária Ocres, em Avignon, França. Os casos foram selecionados de acordo com os seguintes critérios:

Critérios de não inclusão: Cães sem história de agressividade dirigida a humanos.

Critérios de inclusão: Cães com história de agressividade dirigida a humanos.

Critérios de exclusão: Cães com história de agressividade dirigida a humanos mas com registos clínicos incompletos.

Definição de agressividade

Neste estudo, a definição de agressividade inclui:

 Ameaças: O cão rosna ou ladra de forma ameaçadora.

 Ameaça e mordida: O cão inicialmente exibe comportamentos de ameaça e progride para a mordida.

 Mordida directa: O cão morde sem que a vítima tenha identificado sinais prévios de ameaça

2.2. Recolha de dados

Os dados dos registos clínicos foram recolhidos recorrendo a dois questionários:

Questionário de informação geral

O questionário de informação geral recolhe informação detalhada sobre o cão: características gerais do animal; ambiente físico e social; grau de socialização; actividades diárias e nutrição; treino de obediência; historial médico; fases de

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desenvolvimento e perfil comportamental (classificação em 3 categorias: assertivo, fóbico e ausência de autocontrolo.

Questionário sobre situações de agressão

O questionário sobre situações de agressão recolhe informação detalhada sobre todas as situações de agressividade nas quais o cão esteve envolvido r. Está dividido em 6 secções: perfil da vítima; descrição da agressão; capacidade de prever a agressão; frequência da agressividade; necessidade de assistência médica da vítima; medidas de correcção aplicadas ao cão.

2.3. Análise de dados

As situações de agressão foram esquematizadas usando o Triggering Aggression Situation Scheme (TASS). Os dados recolhidos através dos dois questionários foram usados para classificar cada ramificação do TASS.

Versão adaptada do Triggering Aggression Situation Scheme

O TASS foi criado pelo Dr. Emmanuel Gaultier de forma a estudar a agressividade canina, caracterizando situações de agressão. O esquema segue uma organização de árvore hierárquica, começando com uma caracterização mais abrangente, que se subdivide em situações progressivamente mais específicas.

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3. Resultados

3.1. População

Dos 71 registos clínicos, dois não foram incluídos por não apresentarem história de agressividade dirigida a humanos e dez foram excluídos por não terem informação suficiente. No total, foram analisados os registos clínicos de 59 cães.

Dos 59 cães analisados, 15 eram fêmeas (10 esterilizadas e 5 inteiras), 43 eram machos (3 esterilizados, 37 inteiros e 3 sem informação) e 1 animal não tinha informação sobre o sexo. Relativamente à idade dos indivíduos, 49 cães eram adultos, 7 eram juvenis, 2 eram cachorros e 1 não tinha informação sobre a idade. Nove cães eram de porte pequeno (menos de 10Kg), 16 de porte médio (10 a 25Kg), 21 de grande porte (25 a 40Kg) e 9 gigantes (mais de 40Kg). A maioria dos cães (41) tinha um estilo de vida misto, 8 viviam exclusivamente no exterior e 10 viviam exclusivamente no interior.

3.2. Situações de agressão

Nos registos clínicos dos 59 cães incluídos no estudo foram identificadas 167 situações de agressão. As situações de agressão foram descritas utilizando o TASS.

 Interage com o cão. Em 110 de 167 situações de agressão (66%), as vítimas tentaram interagir com o cão agressor, com (tocar, agarrar, etc.) ou sem contacto físico (verbalmente ou através de gestos)

o Interacção física. Em 69 de 110 situações de agressão (63%), a vítima tentou interagir com o cão agressor através de contacto físico, como tocar, agarrar, bater, estender a mão, dar um beijo, etc.

 Contacto positivo. Em 33 de 69 situações de agressão (48%), a vítima interagiu fisicamente com o cão, de forma carinhosa, como dar um beijo, um abraço, fazer festas, etc.

 Manipulações forçadas. Em 30 de 69 situações de agressão (43%), a vítima estava a manipular o cão, forçando-o a estar quieto, a empurrá-lo, puxá-lo, etc.

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 Castigo físico. Em 6 de 69 situações de agressão (9%), a vítima estava a punir fisicamente o cão agressor, batendo-lhe com a mão ou com um objecto.

o Interacção não física. Em 41 de 110 situações de agressão (37%), a vítima estava a interagir com o cão, verbalmente ou com gestos.

 Tocar num objecto em posse do cão. Em 14 de 41 situações de agressão (34%), a vítima tentou interagir com um objecto, como um brinquedo ou com alimento que se encontrava na posse do cão

 Dar uma ordem. Em 16 de 41 situações de agressão (39%), a vítima deu um comando através de gestos, por forma a interromper um comportamento, para fazer o animal mover-se ou para alterar o seu comportamento

 Castigo verbal. Em 9 de 41 situações de agressão (22%), a vítima estava a repreender verbalmente o cão agressor.

 Fixar o olhar. Em 2 de 41 situações de agressão (5%), a vítima fixou o olhar nos olhos do cão.

 Não interage com o cão. Em 57 de 167 situações de agressão (34%), a vítima não se tinha apercebido da presença do cão ou não lhe estava a prestar atenção

o Em proximidade do cão. Em 17 de 57 situações de agressão (30%), a vítima encontrava-se próxima do cão, ou no seu território

o Deslocar-se perto do cão. Em 25 de 57 situações de agressão (44%), a vítima estava a deslocar-se perto do cão, sem se aperceber da sua presença ou sem estar a prestar-lhe atenção.

o Entrar ou sair de um sítio. Em 15 de 57 situações de agressão (26%), a vítima estava a entrar ou sair de uma casa, de uma divisão, ou de locais específicos, como um carro

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3.3. Faixa etária da vítima

Caracterização das situações desencadeadoras de agressão de acordo com a faixa etária da vítima:

 Adultos e adolescentes: Em 137 das 167 situações de agressão (82%), as vítimas tinham 12 ou mais anos de idade.

 Crianças: Em 30 das 167 situações de agressão (18%), as vítimas tinham menos de 12 anos de idade

3.4. Familiaridade entre a vítima e o cão

Caracterização das situações desencadeadoras de agressão de acordo com a familiaridade da vítima ao cão

 Familiar: Em 115 de 167 situações de agressão (69%), as vítimas co-habitavam com o cão agressor.

 Conhecido: Em 15 de 167 situações de agressão (9%), as vítimas eram conhecidas do cão agressor mas não faziam parte do seu grupo social.

 Desconhecido: Em 37 de 167 situações de agressão (22%), as vítimas eram desconhecidas do cão agressor.

3.5. Sequência da agressão

Caracterização das situações desencadeadoras de agressão de acordo com o tipo de agressão

 Ameaça. Em 87 das 167 situações de agressão (52%), o cão ameaçou a vítima através de vocalizações como grunhidos, rosnar, ladrar de forma ameaçadora ou/e com comportamentos de ameaça como mostrar os dentes, eriçar o pelo etc.  Ameaça seguida de mordida. Em 15 das 167 situações de agressão (9%), o cão

agressor exibiu comportamentos de ameaça e antes de morder a vítima

 Mordida directa. Em 65 das 167 situações de agressão (39%), a vítima não identificou sinais de ameaça previamente à mordida

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3.6. Previsibilidade da agressão

Caracterização das situações desencadeadoras de agressão de acordo a sua previsibilidade segundo a percepção da vítima:

 Impossível. Em 92 de 167 situações de agressão (55%), a vítima não conseguiu prever a agressão do cão.

 Possível devido a uma ameaça. Em 11 das 167 situações de agressão (7%), a vítima previu a agressão porque esta foi precedida por comportamentos de ameaça  Possível devido a repetição. Em 64 de 167 situações de agressão (38%), a vítima

previu a agressão, porque o cão já tinha exibido comportamentos agressivos nesta situação.

3.7. Agressão sistemática ou ocasional

Caracterização das situações desencadeadoras de agressão de acordo o seu padrão de ocorrência.

 Agressão única. 95 das 167 situações de agressão (57%), ocorreram apenas uma vez.

 Agressão ocasional. 12 das 167 situações de agressão (7%), ocorreram ocasionalmente, ou seja, o cão nem sempre exibe comportamentos agressivos nesta situação.

 Agressão sistemática. 60 das 167 situações de agressão (36%), ocorrem sistematicamente, ou seja, perante esta o cão reage sempre com agressividade.

3.8. Necessidade de assistência médica

Caracterização das situações desencadeadoras de agressão de acordo com a necessidade de assistência médica por parte da vítima:

 Sem mordida. Em 87 de 167 situações de agressão (52%), o cão ameaçou a vítima, não ocorrendo mordida e, portanto, sem ocorrência de lesão.

 Sem tratamento. Em 43 das 167 situações de agressão (26%), a vítima foi mordida sem que tenha havido perfuração de pele e, portanto, sem ocorrência de lesão.  Tratamento local. Em 22 das 167 situações de agressão (13%), a vítima foi

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 Urgência. Em 15 das 167 situações de agressão (9%), a vítima foi mordida gravemente, com necessidade de tratamento cirúrgico.

3.9. Perfil comportamental do cão agressor

Caracterização das situações desencadeadoras de agressão de acordo com o perfil comportamental do cão agressor:

 Assertivo (A). Em 78 das 167 situações de agressão (47%), o cão foi caracterizado como assertivo ou distúrbio sociopático.

 Ausência de autocontrolo (LSC). Em 18 das 167 situações de agressão (11%), o cão foi caracterizado como tendo falta de autocontrolo ou com distúrbio de Hipersensibilidade e Hiperatividade.

 Fóbico (F). Em 17 das 167 situações de agressão (10%), o cão foi caracterizado como sendo fóbico.

 A / LSC. Em 16 das 167 situações de agressão (10%), o cão foi caracterizado como assertivo e com falta de autocontrolo.

 A / F. Em 9 das 167 situações de agressão (5%), o cão foi caracterizado como assertivo e fóbico.

 F / LSC. Em 2 das 167 situações de agressão (1%), o cão foi caracterizado como fóbico e com falta de autocontrolo.

 A / F / LSC. Em 2 das 167 situações de agressão (1%), o cão foi caracterizado com os 3 perfis: assertivo, falta de autocontrolo e fóbico.

 Sem perfil. Em 25 das 167 situações de agressão (15%), as características do cão agressor não se enquadravam com nenhum dos 3 perfis comportamentais.

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4. Discussão

4.1. Caracterização da amostra

4.1.1. Sexo e estatuto sexual

São vários os autores que encontraram uma maior prevalência de casos de agressividade em machos (Palacio et al., 2005; Bamberger & Houpt., 2006; Fatjo et

al., 2007; Hsu & Sun, 2010; Martínez et al., 2011; Polo et al., 2015). Os resultados

obtidos neste estudo são semelhantes aos encontrados na literatura: 72,9% cos cães agressores eram machos (n=43). Alguns autores afirmam ainda que machos inteiros são mais agressivos que machos esterilizados e fêmeas inteiras são menos agressivas que fêmeas esterilizadas (Palacio et al., 2005; Polo et al., 2015) enquanto outros autores referem que a esterilização não tem qualquer efeito sobre a agressividade (Hsu & Sun, 2010; Martínez et al., 2011). Neste estudo, os resultados obtidos são semelhantes aos de Palacio et al., (2005) e Polo et al., (2015) com uma maior proporção de machos inteiros (n=37; 62,7%) relativamente a machos esterilizados (n=3; 5%) e de fêmeas esterilizadas (n=10; 17%) relativamente a fêmeas inteiras (n=5; 8,5%). Estes resultados parecem reforçar a ideia que a testosterona tem um papel activo na agressividade canina como proposto por Overall (2013) uma vez que a maioria dos ataques foram desencadeados por machos inteiros e fêmeas esterilizadas.

4.1.2. Faixa etária

A exibição de comportamentos agressivos tende a aumentar com a idade do animal (Hsu & Sun, 2010; Martínez et al., 2011), o que se confirma neste estudo, visto que a maioria dos cães agressores eram adultos (n=49; 93%). Fatjo et al., (2007), refere que a idade média de manifestação de agressividade é aos 3,29 anos, valor semelhante ao encontrado neste estudo, de 3,17 anos de idade. Overall & Love, (2001), observaram que a chegada da maturidade social (que habitualmente ocorre entre os 18 e 24 meses de idade), pode estar relacionada com a exibição de comportamentos agressivos. Bamberger & Houpt (2006), referem que a aprendizagem também pode estar envolvida e que, portanto, quanto mais velho for o animal, maior a probabilidade de ter experienciado situações, nas quais poderá ter aprendido que a melhor estratégia

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consiste na exibição de comportamentos agressivos. Contudo, Palacio et al., (2005), referem que cães de qualquer idade podem demonstrar comportamentos agressivos e que a idade não é um factor de risco na agressividade. Neste estudo, os cães adultos foram predominantes, contudo este grupo etário é muito abrangente e não houve diferenciação entre cães seniores e adultos. Seria também interessante compreender se a agressividade surge com a chegada da maturidade social como referido por Overall & Love (2001) ou se é devido, principalmente, à aprendizagem, como referido por Bamberger & Houpt (2006).

4.1.3. Tamanho

Cães de porte pequeno têm sido referidos por vários autores, como mais agressivos que cães de maior tamanho (Guy et al., 2001; Duffy et al., 2008; Arhant et

al., 2010; Martínez et al., 2011; Polo et al., 2015). Os resultados obtidos neste estudo

não refletem esta associação: a maioria dos cães agressores eram de médio ou grande porte de porte médio (n=37; 62,6%) e apenas 15% (n=9) eram de porte pequeno. Uma vez que a amostra foi recolhida numa clínica de referência em medicina do comportamento é possível que esta sobre representação de cães de maior porte esteja relacionada com uma maior percepção de perigo pelo tutor que, por isso, está mais motivados a procurar ajuda (Guy et al., 2001; Duffy et al., 2008). Por outro lado, o local de recolha da amostra também poderá ter influência no tipo de animais que se apresentam à consulta. Coustellet, é uma zona rural, na qual as habitações mais comuns são moradias e quintas. Este estilo de vida h poderá encorajar a aquisição de cães para guarda e/ou proteção, que habitualmente são grande porte, o que poderá levar a uma sub-representação de cães de porte pequeno. Em estudos futuros, seria interessante comparar as características de cães agressivos provenientes de zonas rurais e de zonas urbanas e explorar e explorar de que forma o porte está relacionado com a agressividade.

4.1.4. Estilo de vida

Cães que vivem em habitações com quintal surgem em números elevados em casos de agressividade (Hsu & Sun, 2010). Guy et al., (2001), refere que cães com pouco acesso ao exterior (menos de 3h por semana) e cães que vivem no exterior,

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confinados a uma trela, estão associados a um aumento do risco de dentada. Neste estudo, a maioria dos cães agressores tinha um estilo de vida misto (n=41; 69%), seguidos de cães sem acesso ao exterior (n=10; 17%) e, por último, cães de exterior (n=8; 13%). Como referido anteriormente, a Clínica estava localizada numa zona rural, o que pode explicar o número elevado de cães com estilo de vida misto. Por outro lado, cães com acesso ao exterior podem ter sido adquiridos para guarda e protecção e, por isso, estimulados a exibir comportamentos agressivos (Hsu & Sun 2010). Esses cães estão também mais expostos a cães e pessoas estranhas que passem perto da propriedade, o que pode estimular uma resposta de agressiva para protecção do território e, por isso, estimular a agressividade dirigida a outros cães e também a pessoas (Hsu & Sun, 2010).

4.2. Identificar situações de risco

É de extrema importância que as pessoas tenham a capacidade de identificar o potencial risco de diferentes situações de agressão (Casey et al., 2014). O cão geralmente aprende a responder de forma agressiva a situações específicas, podendo exibir comportamentos agressivos numa situação mas não serem “perigosos” noutros contextos (Casey et al., 2014). Neste estudo, determinadas situações surgiram com maior frequência. Sessenta e seis porcento das agressões ocorreram quando a vítima tentou interagir com o cão (110/167) principalmente em interações físicas de caráter positivo 33/ 69; 48%) e manipulações forçadas (30/69; 43%). Polo et al., (2015) obtiveram resultados semelhantes nos seus estudos, referindo que muitos dos ataques ocorrem principalmente quando a vítima tenta interagir com o cão. Esta interacção pode ser percepcionada pelo animal como uma ameaça à qual não consegue escapar, levando-o a exibir comportamentos agressivos como mecanismo de auto preservação. Em trinta e quatro porcento dos ataques (57 /167) a vítima não tentou interagir com o cão. No estudo de Palacio et al., (2005), os autores referem que, situações em que a vítima considerou não ter provocado o cão, deveriam ser cuidadosamente analisadas, uma vez que determinados gestos ou acções podem ser interpretadas pelo cão como ameaça. Neste estudo muitas destas agressões ocorreram quando a vítima estava a deslocar-se perto do cão (25/57; 44%). Estas situações poderiam ser analisadas em pormenor, por forma a determinar que acções antecederam o episódio da agressão.

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De forma a identificar as situações de maior risco, cada situação foi caracterizada relativamente a: sequência da agressão; necessidade de assistência médica, previsibilidade e padrão repetitivo da agressão. Desta forma, situações que registaram um número de mordidas, com maior necessidade de assistência médica e menor capacidade da vítima prever foram consideradas as de maior risco.

Cinco situações foram identificadas como sendo as de maior risco: “contacto

positivo”, “manipulações forçadas”, “entrar ou sair de um sítio”, “deslocar-se perto do cão” e “agarrar um objecto que se encontra em posse do cão”.

4.2.1. Sequência da agressão

Em termos de sequência de agressão, Guy et al., (2001) refere que existe uma maior prevalência de ameaças que mordidas. Neste estudo, registaram-se 87 (52%) situações com ameaça, 15 (9%) com ameaça seguida de mordida e 65 (39%) com mordida directa Este resultado pode estar relacionado com o facto da amostra ser proveniente de uma clínica de referência em problemas de comportamento, à qual os tutores recorrem, habitualmente, quando a situação já é mais grave. Adicionalmente, os tutores podem apenas referir, durante as consultas, as situações mais marcantes que tendem a ser as que envolvem dentadas e portanto omitir as situações de ameaça. Por outro lado, pode existir falha na identificação do comportamento de ameaça que precede a mordida. Neste estudo, foi identificado um maior número de mordidas em situações em que a vítima não tentou interagir com o cão agressor (35/ de 57), seja por mordidas directas (32/57), ou ameaça e mordida (n=3/57).

Quando a vítima tentou interagir com o cão ocorreram mais mordidas em situações de interacção física (34/69), correspondendo a 28 mordidas directas e 6 de ameaça seguida de mordida. Este resultado pode sugerir que o contacto físico pode ser percepcionado como mais ameaçador, resultando numa escalada rápida na “Ladder of Agression” e, portanto, num maior proporção de mordidas.

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Palacio et al., (2005) refere, no seu estudo, que 50% das dentadas caninas deixam marcas permanente e 10% necessitam de cirurgia. Neste estudo, cinquenta e dois porcento das situações analisadas foram ameaças sem ocorrência de mordida (n=87). Nos casos em que ocorreram mordidas (n=80), quarenta e três (54%) não provocaram lesões na pele, 22 (28%) causaram lesões mas não necessidade de cuidados médicos e quinze (19%) foram graves, necessitando de cuidados médicos. Analisando as situações de mordida, é importante salientar as situações que necessitaram de maiores cuidados médicos foram: “contacto positivo”, “Manipulações forçadas”, “agarrar um

objecto que se encontra em posse do cão” e “deslocar-se perto do cão”. Na situação,

“contacto positivo”, de 16 mordidas registadas, 4 provocaram lesões (25%) e 6 (37,5%) necessitaram de cuidados médicos. Esta situação é particularmente perigosa devido à proximidade da vítima e ao facto de esta expor zonas frágeis do corpo, como por exemplo a face. Na situação “Manipulações forçadas”, 5 delas causaram lesões (28%) e 3 (17%) foram Consideradas graves. Este tipo de interacção pode induzir dor, medo ou stresse no cão, e, por isso, desencadear uma resposta agressiva. Foi identificado um menor número de mordidas em situações em que a vítima não interage de forma física, excepto na situação “agarrar um objecto que se encontra em

posse do cão”, na qual 29% (n=4) causaram lesões, sem necessidade de cuidados

médicos. De entre as situações em que a vítima não tenta interagir com o cão, a situação “deslocar-se perto do cão”, foi identificada como a mais perigosa, com 11 mordidas, 8 causaram lesões (72%) e metade delas (n=4) eram urgências médicas. Este resultado necessita de uma análise mais cuidada uma vez que “deslocar-se perto

do cão” é um termo demasiado abrangente. É importante compreender de que forma a

vítima passou pelo cão (a correr, a andar, etc.), em que local, (perto ou no território do animal), etc.

4.2.3. Previsibilidade e caracter repetitivo da agressão

A maioria dos ataques foram interpretados pela vítima como impossíveis de prever (n=92; 55%), principalmente porque o cão nunca tinha sido agressivo naquela situação (n=95). Quando a situação foi considerada previsível, deveu-se, principalmente, ao facto do cão já ter agredido anteriormente naquele contexto (n=64; 38%) e não porque a vítima conseguiu identificar sinais de ameaça (n=11; 6,6%).

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Quase todas as situações foram consideradas impossíveis de prever excepto “castigo verbal”, na qual 78% (n=7) das agressões foram consideradas previsíveis devido a repetição. Isto sugere q que o método de correcção utilizado pelos tutores desencadeia uma resposta agressiva por parte do cão. Horwitz & Mills, (2009) reforçam esta ideia, referindo que todas as formas de punição são ineficazes como método de treino. Foram identificadas outras situações com caracter repetitivo como “entrar ou sair de um sítio” (n=8; 53%) e “em proximidade do cão” (n=7; 41%). Estas duas situações também apresentaram grande incidência de agressões sistemáticas, (n=7;46% e n=7; 41%). As agressões de carater sistemático podem ter uma componente de aprendizagem. Palacio et al., (2005) refere que, cães que atacam de forma sistemática podem, eventualmente, estar envolvidos num ataque fatal e, por isso, requerem atenção especial.

4.3. Perfil da vítima

4.3.1. Familiaridade entre a vítima e o cão

Na amostra em estudo, 69% das vítimas eram membros da família do cão agressor (n=115) São vários os autores que referem os membros da família como as principais vítimas da agressão canina (Overall & Love, 2001; Palacio et al., 2005; Bamberger & Houpt., 2006; Fatjo et al., 2007). Em parte, isto poderá estar relacionado com o facto de a vítima e o cão coabitarem o mesmo espaço e por isso, haver maior probabilidade de uma agressão ocorrer (Palacio et al., 2005). Além disso, donos de cães agressivos podem evitar expor pessoas desconhecidas aos seus cães, devido ao receio de ocorrer um ataque (Casey et al., 2014). Hsu & Sun (2010) também referem que agressões a membros da família podem ser menos toleradas do que agressões a estranhos. A agressividade dirigida a pessoas desconhecidas pode estar sub-representada, uma vez que este comportamento pode ser estimulado pelos próprios donos, com o intuito que o seu cão exerça funções de guarda (Hsu & sun, 2010). Pelos motivos referidos, neste trabalho era esperado encontrar um maior número de agressões a membros da família Verificou-se existir maior incidência de agressão dirigida a pessoas desconhecidas em situações em que a vítima não tenta interagir com o cão agressor (24/33): “deslocar-se perto do cão” e “entrar ou sair de

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agressividade estes contextos pode ser indicativa de proteção e defesa do território (Hsu & Sun, 2010). Casey et al., (2014) obtiveram resultados semelhantes referindo que, situações como “entrar dentro da casa”, podem estar relacionadas com uma maior incidência de agressividade dirigida a pessoas desconhecidas, à semelhança da situação “entrar ou sair de um sítio”, analisada neste estudo.

4.3.2. Faixa etária da vítima

São vários os estudos que referem as crianças como as principais vítimas da agressividade canina (Overall & Love, 2001; Palacio et al., 2005). Contudo, neste estudo, à semelhança do estudo de Fatjo et al., (2007), a maioria das agressões foi dirigida a adultos e adolescentes e apenas 18% (30/167) foram direcionadas a crianças. Vários estudos indicam que as agressões a crianças são potencialmente mais perigosas, pois os ataques são habitualmente dirigidos à face, pescoço e a cabeça. Como tal, é importante identificar as situações com maior incidência de agressão a crianças (Overall & Love, 2001; Palacio et al.,2005; Keuster et al., 2006). Neste estudo foram identificadas as seguintes situações: “Contacto positivo” 8/33 (24%); “deslocar-se

perto do cão” 5/25 (20%); “agarrar um objecto em posse do cão” 4/14 (29%) e “em proximidade do cão” 8/17 (47%). Sendo que as primeiras três situações já foram

anteriormente referidas neste estudo como situações de grande perigo.

A maior parte dos ataques a crianças ocorre em casa, especialmente em situações em que as crianças são deixadas sem supervisão (Keuster et al., 2006). Contudo, um estudo de Patronek et al., (2013), refere que a maioria dos ataques fatais ocorrem principalmente quando as crianças interagem com um cão desconhecido, que não está acompanhado pelo seu tutor. Muitas vezes o tutor interpreta a interação do seu cão com uma criança como brincadeira, quando na verdade a motivação para o comportamento é outra. Além disso, existe a tendência para assumir que, se o cão é amigável com os membros da família também o será para as crianças (Patronek et al., 2013). Por outro lado, as crianças são inexperientes e curiosas, o que poderá resultar em brincadeiras inapropriadas ou comportamentos e gestos que são vistos como ameaça pelo cão (Overall & Love, 2001; Palacio et al., 2005). Também tendem a ser descoordenadas e apresentar um comportamento imprevisível, com várias mudanças, seja na sua postura ou na sua comunicação verbal, especialmente quando excitadas (Overall & Love, 2001). Os gritos e vozes estridentes também podem ser

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interpretados pelo cão como vocalizações de presa (Overall & Love, 2001). Brincadeiras, ou outras situações com grande agitação e excitação, entre pessoas e cães podem, por vezes, desencadear falhas de comunicação com consequências desastrosas, especialmente quando há crianças envolvidas. (Overall & Love, 2001). Um estudo por Keuster et al., (2006), refere que 67 em 100 mordidas a crianças poderiam ter sido evitadas se, tanto os pais como as crianças, tivessem sido educados em prevenção da dentada canina. Isto reforça a importância dos programas de prevenção e do papel que, tanto pediatras como veterinários, devem desempenhar na educação da dentada canina (Keuster et al., 2006). Num estudo por Lakestani & Donaldson (2015), foi demonstrado que ensinar crianças em idade pré-escolar a reconhecer o estado emocional dos cães e a identificar situações perigosas, é eficaz na diminuição de agressões a crianças, sublinhando assim a importância da educação na prevenção da dentada canina.

4.4. Perfil comportamental do cão agressor

Em 85% (n=142) das situações analisadas, o cão agressor foi caracterizado com, pelo menos um de 3 perfis comportamentais (fóbico, assertivo e falta de autocontrolo). Martinez et al., (2011) obteve resultados semelhantes referindo que 92% dos cães com historial de agressões tinham problemas comportamentais e que, portanto, estes estão associados a comportamentos agressivos, não devendo por isso ser menosprezados pelos donos. O perfil assertivo (A) (n=48; 47%) foi predominante, sendo este resultado semelhante ao obtido por Fatjo et al., (2007) que refere que as agressões dirigidas a pessoas estão primariamente relacionadas com conflitos sociais. Bamberger & Houpt (2006) também referem que a exibição de comportamentos de agressivos está relacionada com dominância e medo. No nosso estudo, foram identificadas 17 (10%) agressões por medo e 18 (11%) agressões por falta de autocontrolo. Vários cães foram diagnosticados com 2 tipos de perfil comportamental (n=27; 16%) e dois cães foram diagnosticados com 3 (1%). Cães diagnosticados com mais do que um perfil comportamental foram considerados como tendo comorbilidade e identificados em 29 de 167 situações de agressão (17%). Bamberger & Houpt (2006), obtiveram resultados semelhantes: 55,4% dos cães agressores foram diagnosticados com 1 problema comportamental, 26% com 2 e 18,6% com 3 ou mais. Analisando as situações de agressão constatamos que, em situações de contacto físico,

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a maioria está associada ao perfil assertivo e ao perfil fóbico (22%), especialmente quando são considerados os cães com comorbilidade . Outra situação, na qual se verificou uma elevada incidência do perfil fóbico (34%), foi “entrar ou sair de um

sítio”. Em relação ao perfil com falta de autocontrolo (LSC), ocorreram mais

incidentes em situações em que a vítima não tentou interagir com o cão (n=18) ou em situações como “dar uma ordem” (n=5) e “castigo verbal”.

4.5. Limitações e reflexões sobre o estudo

Analisar situações com a ferramenta TASS demonstrou que diferentes situações desencadeadoras de agressão têm diferentes características.

A informação contida neste estudo, nomeadamente os dados recolhidos no GIQ, poderá ser explorada com mais pormenor em futuros estudos com amostras de maior dimensão.

A necessidade de uma amostra maior para um projecto tão ambicioso foi evidente uma vez que poderia tornar os resultados mais precisos e expandir o TASS em situações também elas mais precisas.

A classificação utilizada neste estudo de problemas comportamentais é uma classificação simplificada e baseada na escola francesa de medicina do comportamento. Em futuros estudos seria interessante aplicar definições de outras escolas, (como a Anglo-saxónica), de forma a comparar os resultados obtidos.

O TASS demonstra potencial como ferramenta auxiliar de diagnóstico, uma vez que, ao identificar e caracterizar as situações de agressão de um indivíduo, será possível inferir o seu perfil comportamental. Por outro lado, poderá também ser usado na prevenção de agressões, permitindo prever quais são as situações com maior probabilidade de ocorrer, a partir de informação sobre o perfil comportamental do cão.

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5. Conclusão

A agressividade canina, continua a ser um tema moderno e importante, uma vez que põe em causa o bem-estar do animal e a relação homem-cão, tendo, por vezes, consequências fatais para ambas as espécies e por isso quanto melhor entendermos a agressão canina, melhor a podemos evitar e melhor será a relação entre as espécies.

Neste estudo foram identificadas cinco situações de agressão particularmente perigosas: "contacto positivo", "manipulações forçadas", "entrar ou sair de um sítio", "deslocar-se perto do cão" e “agarrar um objecto que se encontra em posse do cão”. A maioria dos comportamentos agressivos foi dirigida a membros da família, adultos ou adolescentes. Houve uma maior incidência de agressões a crianças nos seguintes contextos: “contacto positivo”, “agarrar um objecto que se encontra em posse do

cão”, "deslocar-se perto do cão" e "em proximidade do cão".

Em relação ao perfil comportamental do cão agressor, os cães assertivos foram predominantes em todas as situações analisadas, no entanto, em situações de "contato

físico" e "entrar ou sair de um sítio" houve uma maior incidência de cães fóbicos. O

perfil falta de autocontrolo foi mais evidente em situações em que a vítima não tentou interagir com o cão ou quando houve interação sem contacto físico (dar uma ordem ou castigo verbal).

A análise de situações de agressão através do TASS demonstrou que diferentes situações desencadeadoras têm características diferentes e que os resultados obtidos podem ser utilizados em programas de prevenção da dentada canina e no diagnóstico de perfis comportamentais.

Neste estudo foi utilizada uma versão adaptada e mais simplificada do TASS, no entanto, recorrendo a uma maior casuística de casos de agressividade, é possível utilizar ou mesmo expandir a versão original, de forma a obter situações de agressão cada vez mais específicas e bem definidas. Em suma, o TASS é uma ferramenta com bastante utilidade, não só em futuras pesquisas, mas também para ser usada em ambiente clinico, de forma a prevenir e diagnosticar problemas relacionados com a agressividade canina.

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