diários da
QUA
REN
TENA
PÉ DE CARAMBOLA Vicente Serroni
02
DELIVERY E DRIVE-THRU Graziela Delalibera
05
MULTIDÃO SEM NOME Ubirathan do Brasil
08
DÍARIO DA QUARENTENA Guilherme Lopes
10
DIÁRIO DA QUARENTENA Isabela Volpi Rodrigues
12
PROCESSO CRIATIVO E RESILIÊNCIA Florence Manoel
14
DE UM DIA DA QUARENTENA Priscila Topdjian
17
ENSAIO SOBRE LUTO Marcela Guimarães
21
AMOR DE FILHO,
REMÉDIO PARA QUALQUER VÍRUS Ayla Farias
23
A LUA EM QUARENTENA Merli Maria Garcia Diniz
26
LEMBRANÇAS João Victor Guirado
29
QUANDO A MORTE SAIU DE FÉRIAS Diego Geovani
31
DIÁRIO DA QUARENTENA Mayara Ísis
34
DE VOLTA PRA CASA
OU O MENINO E O CAMALEÃ Daniel G. Rodrigues
38
MINHA QUARENTENA Jacíra Polizero
41
AFASTAMENTO SOCIAL Raul Marques
45
LEMBRANÇAS DE
QUARENTENA N• 03 Paulo H. de Oliveira
47
UM LAMPEJO EPIFÂNICO Eudes Q. de O. Júnior
49
20/05/2020, 3:00 DA MADRUGADA Ivan Reis
53
DIÁRIO DA QUARENTENA Regina Garbellini
55
ETERNO Váldir César
57
PEQUENOS POEMAS PARA
ATRAVESSAR O FIM DO MUNDO Mariana Reis
61
LUGAR DA QUARENTENA Elísio Faria
63
LEMBRANÇAS DE UM FUTURO
01
O mundo todo parou. Fomos parados.
Nunca ficamos tanto tempo em casa.
Quarentena. Um misto de emoções
nos toma. Cada um lidou como pode, lida
ainda como pode. Muitas reflexões.
É nesse contexto que nasce o “Diários da
Quarentena”, uma coletânea de textos, nos
diversos gêneros, com escritores da cidade e
região, de diferentes idades e momentos
de vida, que se derramaram em
palavras e lirismo.
Cada autor interpretou a realidade
e traduziu em substantivos, verbos e
adjetivos, sua experiência destes tempos
tão ímpares. Esperamos que seja
uma leitura cativante e que
produza reverberações!
Boa leitura!
02
Pé de
Carambola
03
Antes do isolamento, da quarentena, o pé de carambola no fundo do quintal de casa fazia despencar diariamente muitas folhas, flores e frutos cobrindo quase que por inteiro o chão deste pequeno
espaço de casa. Não sei se por preguiça; desmazelo ou por não dar muita importância para a caramboleira, a verdade é que depois de alguns dias o lixo que se formava dava para encher um saco de cem litros. Confesso que aquilo me dava muito trabalho, primeiro
porque os frutos não eram comestíveis devido a uma praga que fazia com que eles ficassem bichados. O acúmulo deles no chão exalava um cheiro nada agradável e um líquido pegajoso marcava todo o piso. Era preciso depois do recolhimento de tudo, lavar e esfregar todo o local, um trabalho estafante muitas vezes
acompanhado de xingamentos ao pobre pé de carambola. Mais bravo ficava ainda quando tinha que carregar até lá fora aquele saco pesado contendo tudo que havia recolhido. Sempre que me colocava a fazer a limpeza a ideia de erradicar aquela árvore vinha à cabeça; cheguei até a combinar com um jardineiro o serviço, mas declinei dessa intenção.
Mas essa insatisfação com a caramboleira quando eu menos
esperava teve uma reviravolta com a chegada do isolamento. A quarentena que implacavelmente me faz ficar em casa por longos
dias porque com esse vírus não se brinca impôs várias atividades. No começo me peguei a fazer uma série de coisas, ler; tocar violão;
assistir os vários jornais da TV; ir para o notebook pesquisar na internet; acompanhar algumas minisséries, coisas pra tomar meu tempo. O celular então mais do que nunca pra mim tornou-se um bem necessário, acessar as redes sociais e os grupos do whatsapp é quase que uma obrigação nessa quarentena, uma das formas pra rever a família e os amigos.
Quando falo em reviravolta é que em meio a tudo isso apareceu
também uma prazerosa ocupação para se fazer e ela tinha a ver com o pé de carambola! O que antes era sacrifício, agora era deleite na quarentena, limpar tudo aquilo virou rotina pra quem procura o
que fazer. Todo dia ao acordar vou até a porta de vidro que separa a sala do quintal para observar se a caramboleira fez o serviço
durante a noite, derrubando tudo que tinha direito. Olha que ironia, ao ver o chão forrado com os pertences dela, pequenos galhos; flores, folhas e frutos, abro um sorriso de satisfação, não reclamo mais e nem xingo.
Tudo fica ainda fica mais bonito com a chegada de um bando de maritacas fazendo um alvoroço barulhento e pousando no
04
Além da beleza desses pássaros, da alegria que provocam com suas cantorias, a presença das maritacas é um reforço a mais para que
meu trabalho esteja garantido. Elas adoram os frutos ainda verdes e com seus bicos tiram vários pedaços, muitos deles são perdidos e o destino é mesmo o chão. Fazem uma sujeira danada, todo dia
acompanho com satisfação essa festa da natureza.
Depois da debandada dos pássaros é chegada a hora da limpeza,
buscar o saco de lixo; a pá e empunhar a vassoura. Fone de ouvido, uma boa música e feliz da vida me ponho a exercer mais essa
ocupação na quarentena e assim passar o tempo. Após a limpeza e o lixo recolhido é hora de carregar o saco até lá fora para que os
funcionários do condomínio o recolham. Essa atividade virou rotina nessa quarentena, é realizada em horário planejado, isto porque ao completá-la encontro sempre brincando na rua do condomínio um bando, desta vez não de maritacas é claro, mas de crianças alegres e felizes na companhia dos pais. Recebo alguns cumprimentos,
retribuo e adentro o portão do corredor que me leva pra dentro de casa. Lavo as mãos ali no tanque que fica na área de serviço; uma toalha no varal seca as minhas mãos. Sinto que todo aquele
trabalho realizado na parte da manhã me fez bem e vai me ajudar a encarar o restante do dia do meu isolamento.
Delivery e
Drive-thru
Graziela
Delalibera
06
Passava do meio-dia quando o motoboy lhe entregou o marmitex na calçada. Na cozinha apertada nos fundos da loja, ela comeu com gosto a bisteca de porco sequinha. Era dia de virado à paulista. No prato onde serviu o conteúdo da marmita, além do arroz com feijão, havia ovo frito meio mole do jeito que gosta, linguiça, couve e um pouco de farinha de mandioca torrada. Lembrou-se do doce de leite preparado no fim de semana, guardado na geladeira de casa. Seria uma boa sobremesa agora, pensou com seus botões. Espichou-se na cadeira e tentou driblar o sono. Após servir café num copinho plástico, caminhou em direção à rua. Com cuidado, para não queimar as pontas dos dedos no líquido quente. Em frente à loja, ajeitou o copinho no beiral da janela e protegeu-se do vento para acender o cigarro. Deu a primeira tragada e começou a observar o que faziam os motoristas enquanto aguardavam a abertura do farol. Algumas horas mais tarde, ao saber que a loja ficaria fechada por conta da quarentena, ela quase surtou. Das suas mais de seis décadas de vida, ao menos duas contabiliza no interior daquela loja. É o ganha-pão do qual não pôde abrir mão mesmo quando a aposentadoria chegou. Única funcionária do estabelecimento, lá imaginava ter seus parcos momentos de sossego longe das tarefas domésticas: do cozinhar, limpar, cuidar, passar, esfregar. Do eterno preparo da comida para o companheiro e os netos, da interminável lavagem da roupa e do quintal, da infindável limpeza da sujeira dos cachorros. Naquele mesmo dia, à noite, depois de lavar a louça do jantar, teimou ao telefone com a irmã que a nova doença haveria de ser nada demais. O que ela mais queria era manter a sua rotina! “Ah, vá...” falou desdenhando do vírus, entre uma tragada e outra no cigarro. Com uma semana em casa, porém, o rumo da conversa diária ao telefone com a irmã já era bem diferente: “Ai, como é bom ter tempo pra cuidar das minhas plantas, de fazer o almoço, passar um café e fumar meu cigarro sossegada... Outro dia até dei uma cochilada à tarde...” O que ela não havia sonhado durante seu cochilo vespertino é que, bem
07
Logo no primeiro dia de volta à sua velha rotina,
surpreendeu-se antes de abrir as portas do
estabelecimento. O patrão mandara pintar uns novos
escritos na fachada, com umas estrangeirices:
Atendemos delivery e drive-thru.
Ainda na calçada, deu um passo atrás para enxergar
melhor e entender o que lhe esperava. Resignada,
preferiu ficar ali parada. Segurando pelos elásticos,
tirou a máscara do rosto e a guardou em um saquinho
que levava dentro da bolsa. Então, acendeu um
cigarro antes de começar sua jornada.
08
Multidão
sem nome
“Eu tinha muitas coisas para fazer, que tomavam muito tempo. E, mesmo assim, resolvi escrever um livro” — a escritora respondeu a mais uma pergunta do entrevistador.
Era mentira, como tudo o que lhe contou posteriormente. Seu primeiro romance foi escrito durante a quarentena. Naquele tempo estranho de pessoas presas e amedrontadas. Mas ela queria afastar de seus pensamentos tais circunstâncias.
Já não podia acreditar que a humanidade tivesse passado por isso dias atrás e que ela havia sobrevivido! Até a luz do sol tocava sua pele com mais entusiasmo agora.
Concluiu que mergulhar no processo criativo havia sido uma alternativa à sensação de estar vivendo uma distopia.
Heloísa escreveu seus “Diários da Quarentena”, que deram origem ao livro, pois estava perplexa diante da raridade da vida, que parecia mais curta apesar dos dias longos.
Sua imaturidade literária não a impediu de buscar a eternidade por meio de um trabalho de qualidade questionável. Ainda que não publicasse ou não agradasse os críticos, tinha muito a dizer às pessoas com as quais tinha afinidade.
Por isso, escreveu sobre a tristeza de ver o inverno se aproximar em meio à pandemia, trazendo mais frio e escuridão aos corações aflitos.
Queria dizer aos seus pais que sentia falta dos abraços, adiados devido ao risco de contaminação. Queria contar aos seus dois irmãos que as divergências eram pequenas perto do que realmente importava: a admiração e o afeto que nutria por cada um.
E dizer que, na distância, paradoxalmente, os amigos se tornaram mais próximos: mais do que compartilhar risos, vivenciavam angústias semelhantes e confortavam uns aos outros.
Depois de publicar, percebeu que não havia dito nada disso. Na verdade, seu romance abordava muito mais os seus próprios costumes, narrados em terceira pessoa. E entre seus hábitos, as manias que desenvolveu durante a quarentena.
Além dos momentos de escrita, lia mais durante o isolamento. Foi nesse período que conheceu “O Último Poema”, de Manuel Bandeira, e entendeu que o poeta estava sempre se despedindo. Que as pessoas estão sempre se despedindo...
Despedia-se, com frequência, por WhatsApp. Para o reencontro, uma distância incalculável. ...
Entretanto, a melancolia chegou ao fim: o riso ultrapassou o silêncio. Já podia caminhar pelas ruas e sentir o vento tocar em seu rosto. Novamente, reunia-se com amigos para compor e tornou-se um pouco mais
sensível às canções alheias.
E conseguiu, finalmente, marcar um café com um sujeito que era objeto de sua curiosidade. ...
Depois da entrevista, seguiu para sua casa, onde almoçou sozinha, como fazia todos os dias há mais de duas décadas. Porém, não ficou muito tempo usufruindo de si mesma.
Recebeu a visita dos pais e pôde ter a alegria de abraçá-los pela terceira vez após a pandemia.
Nesse momento, tudo era motivo de gratidão: até mesmo o mau humor crônico do pai, que demonstrava estar mais saudável do que nunca enquanto reclamava de aborrecimentos cotidianos.
E a mãe novamente se sentia forte e pronta para aproveitar a vida perto daqueles que amava: era comovente constatar sua vitalidade.
...
Heloísa ressignificou o ócio para lidar com a acidez dos dias por meio de seus “Diários da Quarentena” e dessa forma continuou ganhando novas qualidades apesar do isolamento e vendo sua literatura evoluir. E a necessidade de resistir, que antes flutuava, criou raízes em seu coração.
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09
Não sei que horas são dentro de mim, e/ou,
muito menos lá fora. Pensei apenas abrir a janela,
pessoas não passam alí. Porque me deixaram
sozinho nessa cidade que nem parece uma cidade?
Pensei em construir uma horta, produzir algumas
mudas, talvez seja divertido, mas, não recebo
visitas, queria alguém falando coisas, qualquer
tipo de coisa no quintal. Meu rádio chiado soa
triste, silencioso como um raio que não cai. A
janela está aberta. Finjo estar na janela fitando
alguém levando crianças pra escola e observando
a fonte luminosa na praça da matriz.
As avenidas, os semáforos estão órfãos e há tantas
pessoas caminhando dentro de mim.
Guilherme
Lopes
10
Diário da
Le Pendu.
o doente acorda, os lábios azeitados. o enfermeiro pensa baixinho uma ave maria. o velho aspira rarefeito os orifícios. o enfermeiro abre uma frestinha da janela. o doente repara o enfermeiro. o doente, parece meu filho, o enfermeiro, eu?, o doente, não, só as mãos. o filho limpa o nariz do pai. o doente, mais quanto tempo isso, o enfermeiro, só mais um pouco e te deixo quieto, o doente, vai embora e deixa tuas mãos. o enfermeiro vai inteiro, uma cruz invisível no peito do doente. o doente sozinho: lembra porra nenhuma. o enfermeiro descarta as luvas, memórias inventadas, subsolo do doente. o doente na frestinha fria do sol. o sol cresce no poente errado, rasteja a Belém pra nascer.
La Roue de Fortune.
no mercado, de um em um, estiram as mãos pro álcool. entram reclamando depois. a de dentro vai mais ágil, caixa um, caixa dois. próximo. um sem sapato, de barrilzinho na mão, as pontas do dente pretas. caixa um, passa no balcão. caixa um, algo mais? duas moedas de real, notinha fiscal direto pro lixo. caixa dois, de canto de olho, testemunha. caixa um responde, telepata. entre caixa alfa e caixa ômega, o primeiro e o último, o princípio e fim. os passos em erosão saem pela frente. senta na pracinha, uma roda de esterco, cachacinha em mãos. a máscara fica de lado. os pés se enfiam no barro, suicidam-se. voltam à raízes, arborecidos: caixa um, caixa dois, anunciai os paralelos da extinção.
L'Hermite.
de fora do prédio, olha os acesos, a colmeia interditada. sobe igual mosca, apelando à escada pela lâmpada. chega de máscara mole, deixa no banho o modelo empregatício. cabem nos pingos a cozinha industrial. cabe o cheiro ressentido do dia, o cheiro embebido. desaparece a casca, troca o ventre despolpado. toma, comprei pra você, é de quê, amendoim. os vãos sem dente regozijam. vem, dá beijo. deitam na cama os dois, encosta nas pernas dele. um ronco fininho de criança a acorda depois, a hora pela metade, a noite esvaziando de dentro pra fora. escorre luz quieta do seu rosto, percebe, esfregando os olhos. é assim que o mundo acaba, num ruído assim, tão baixinho?
12
Isabela
Volpi
Rodrigues
Diário da
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A quarentena para o bem e para o mal, inflama ainda mais o que as pessoas já são. É um período em que você tem a oportunidade de enxergar quem se preocupa com o mundo e quem não. Nunca pensaríamos que um vírus poderia “acabar” com o afeto:
abraços, beijos e carinho. A gente só dá valor quando perde mesmo.
Não foram somente 40 dias, foram muitas 24 horas multiplicadas por ansiedade, medo, preocupação, agonia; quem diria que
iríamos ter vontade de fazer uma chamada de voz novamente, afinal.
Um lado bom a pandemia tem, ela nos permitiu que olhássemos para dentro e refletindo pudemos perceber o quanto não damos valor para o que temos em casa, o valor que as pessoas têm para cada um e que cada pessoa é importante para alguém,
para o mundo.
O lado ruim, foi que infelizmente com essa reflexão, alguns ficaram nos mesmos lugares onde estavam e continuaram disseminando egoísmo, ódio e outras formas de desdém.
Por mais que milhares tentassem convencer da união, outros
‘importantes’ continuaram a dizer não. Esse período nos mostrou muita empatia, solidariedade e que a cultura importa muito.
Infelizmente algumas contradições viriam.
A gente fica se perguntando do clichê mesmo, “Aonde esse mundo vai parar com tanto ódio ao invés de compaixão?”,
quando vamos perceber que realmente não vivemos sozinhos, que as coisas que mais importam são as que vem do coração?
A ganância, o poder, o status já se infiltrou na sociedade há anos, quem ensinou vocês a saírem dos nossos planos? De igualdade, de lutar pelos outros, de sermos humanos!
No dicionário o significado de Humanidade é: sentimento de bondade, benevolência, em relação aos semelhantes, ou de
compaixão, piedade, em relação aos desfavorecidos. Quem não está se portando assim e achando que foi ‘escolhido’?
Tudo o que somos e o que o mundo é, vem de muitos anos, e a vida é assim, mas quando percebemos que há algo errado, temos que tentar mudar. Saber que o mundo está errado não basta. Aja, converse, ensine, sinta. Sejamos melhores para nós mesmos
e para o mundo.
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Processo Criativo e
Resiliência
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“Eu tinha muitas coisas para fazer, que tomavam muito tempo. E, mesmo assim, resolvi escrever um livro” — a escritora respondeu a mais uma pergunta do entrevistador. Era mentira, como tudo o que lhe contou posteriormente. Seu
primeiro romance foi escrito durante a quarentena. Naquele tempo estranho de pessoas presas e amedrontadas. Mas ela queria afastar de seus pensamentos tais circunstâncias. Já não podia acreditar que a humanidade tivesse passado por isso dias atrás e que ela havia sobrevivido! Até a luz do sol tocava sua pele com mais entusiasmo agora. Concluiu que mergulhar no processo criativo havia sido uma
alternativa à sensação de estar vivendo uma distopia. Heloísa escreveu seus “Diários da Quarentena”, que deram origem ao livro, pois estava perplexa diante da raridade da vida, que parecia mais curta apesar dos dias longos. Sua imaturidade literária não a impediu de buscar a eternidade por meio de um trabalho de qualidade questionável. Ainda que não publicasse ou não agradasse os críticos, tinha muito a dizer às pessoas com as quais tinha afinidade. Por isso, escreveu sobre a tristeza de ver o inverno se aproximar
em meio à pandemia, trazendo mais frio e escuridão aos corações aflitos. Queria dizer aos seus pais que sentia falta dos abraços, adiados
devido ao risco de contaminação. Queria contar aos seus dois irmãos que as divergências eram pequenas perto do que realmente importava: a admiração e o afeto que nutria por cada um. E dizer que, na distância, paradoxalmente, os amigos se tornaram mais próximos: mais do que compartilhar risos, vivenciavam angústias semelhantes e confortavam uns aos outros. Depois de publicar, percebeu que não havia dito nada disso. Na
verdade, seu romance abordava muito mais os seus próprios costumes, narrados em terceira pessoa. E entre seus hábitos, as manias que desenvolveu durante a quarentena. Além dos momentos de escrita, lia mais durante o isolamento. Foi nesse período que conheceu “O Último Poema”, de Manuel Bandeira, e entendeu que o poeta estava sempre se despedindo. Que as pessoas estão sempre se despedindo... Despedia-se, com frequência, por WhatsApp. Para o reencontro,
uma distância incalculável. ...
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Entretanto, a melancolia chegou ao fim: o riso ultrapassou o silêncio. Já podia caminhar pelas ruas e sentir o vento tocar em seu rosto. Novamente, reunia-se com amigos para compor e tornou-se um pouco mais sensível às canções alheias. E conseguiu, finalmente, marcar um café com um sujeito que era
objeto de sua curiosidade. ... Depois da entrevista, seguiu para sua casa, onde almoçou sozinha, como fazia todos os dias há mais de duas décadas. Porém, não ficou muito tempo usufruindo de si mesma. Recebeu a visita dos pais e pôde ter a alegria de abraçá-los pela
terceira vez após a pandemia. Nesse momento, tudo era motivo de gratidão: até mesmo o mau
humor crônico do pai, que demonstrava estar mais saudável do que nunca enquanto reclamava de aborrecimentos cotidianos.
E a mãe novamente se sentia forte e pronta para aproveitar a vida perto daqueles que amava: era comovente constatar sua vitalidade.
... Heloísa ressignificou o ócio para lidar com a acidez dos dias por
meio de seus “Diários da Quarentena” e dessa forma continuou ganhando novas qualidades apesar do isolamento e vendo sua literatura evoluir. E a necessidade de resistir, que antes flutuava, criou raízes em
seu coração.
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De um dia
da quarentena
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Não adianta torcer para o ano passar rápido, a ordem agora é sobreviver.
(Sobreviver, aliás, é uma tática nossa).
Acordei, você já percebeu, mas não recomendo.
Olho para o quarto, para os óculos, para os jornais impressos em cima da escrivaninha e pergunto-me, enojando-me: “Para quê? Para que tanta perna, meu Deus?”.
Vontade de fugir do Brasil só pra ver se o entendo mais de longe. Aqui, daqui mesmo, fica tudo perto demais.
Quem é que vê, de verdade, a própria mão, quando há louça e latas de molho de tomate para lavar?
***
Quatro pratos, duas panelas (uma grande e uma média), um
escorredor de macarrão, seis copos, duas colheres, um pegador, quatro facas e cinco garfos.
***
Ponho-me a lavar a louça que Eva deixou desde que foi expulsa do Paraíso.
Enquanto aspiro o cheiro de maçã, uma gata marrom olha-me
da janela do vizinho, soberba em sua afável condescendência para com minha espécie. Poucos minutos depois, a danada
cochila gostoso.
(É chegada a hora de levar o lixo).
Caminho até o portão de saída e avisto o zelador, que está sem máscara.
Lembro-me da obra: “Existencialismo é um humanismo”.
Distancio-me. Disfarço-me. Coloco uma árvore entre mim e ele. O saco de lixo pesa 12 quilos sobre meus ombros.
Prometo não calcular as dores do mundo.
(A impossibilidade de romper a distância com um soco). Meus amigos morrendo aos montes sem que eu
possa defendê-los.
Evoco a memória de minha mãe... Não a vejo desde março. Adentro noutro espaço.
19
Convoco cenas familiares, tardes nas varandas, rostos e telas infantis: a exposição de artes plásticas do meu sobrinho de 5 anos.
(Um ano se passou).
Na memória, tudo parece melhor.
Hoje é mais um dia que se transformou num chão de pedras sobrepondo-se.
Volto para casa. Chamo outro dia do passado e chega uma rua. Já andei por tantos lugares, conheci tanta gente, mas o que
poderei dizer acerca do tempo que houve além do tempo em que vivo?
Tenho a poesia ao meu lado. Ela me apresenta um território de outras palavras, outras narrativas, galhos de um tempo que só recolho quando o faço meu.
Canto um nome, mas atende um espirro na parede.
Disponho uma narrativa, um diário sobre a pandemia, mas atravesso linha a linha o fracasso da criação.
Ligo a TV e as reportagens ilustram meu desejo de desistir.
Talvez pelo peso do que não me aconteceu nesses 30 anos, pelo erro de sobreviver enquanto outros morrem. Não sei, não sei mais nada!
(A vida, você há de concordar, descontinuou). Que horas são agora?
“É o tempo em que a mediocridade violenta galgou o direito de se escancarar como nunca e de se festejar a si mesma”.
O Estado carrega nos porões um rinoceronte cansado e infatigáveis operadores de caldeiras... Enquanto os desavisados, de verde e
amarelo, medem força cantando sua ópera no convés.
Estamos num país que se arma dia a dia, mano a mano, piso a piso.
Eis tudo: uma sombra que é projeção de outra sombra.
Uma aproximação da lente parece colocar-me diante do que nem existe mais.
20
Sinto saudades de minha mãe. Sinto saudades
de tudo que ameaçou ser.
(Quando foi que caiu dentro de mim um tempo
que me desconhece?).
Ia arrancar a folha do calendário da geladeira,
mas o dia 31 de maio de 2020 ainda
não terminou.
Marcela
Guimarães
21
Ensaio
Eu viro a câmera pra mim no intuito de me enxergar, me entender melhor. Eu enquadro meu rosto meus movimentos na expectativa de encontrar neles alguma resposta, um
conforto para os conflitos internos. Historicamente não temos esse costume de nos observar Nos enxergamos como um ser complexo, repleto de camadas sem medo de parecermos muito emotivas,
raivosas ou fracas. Eu exponho minha vulnerabilidade a fim de entender
qual é a sua qual é a dela qual é a minha. Eu escrevo, apago Penso, coreógrafo Recuo e me desfaço no movimento Em um momento me perco e não sei se me acho. Me convenço de que pressa não tenho Que é pra respeitar o tempo da dor O agir dela em mim No meu espaço e onde mais for preciso. Eu abri a porta pra ela e ela aqui tem estado.
23
Amor de Filho,
remédio para
qualquer Vírus
“Eu tinha muitas coisas para fazer, que tomavam muito tempo. E, mesmo assim, resolvi escrever um livro” — a escritora respondeu a mais uma pergunta do entrevistador.
Era mentira, como tudo o que lhe contou posteriormente. Seu primeiro romance foi escrito durante a quarentena. Naquele tempo estranho de pessoas presas e amedrontadas. Mas ela queria afastar de seus pensamentos tais circunstâncias.
Já não podia acreditar que a humanidade tivesse passado por isso dias atrás e que ela havia sobrevivido! Até a luz do sol tocava sua pele com mais entusiasmo agora.
Concluiu que mergulhar no processo criativo havia sido uma alternativa à sensação de estar vivendo uma distopia.
Heloísa escreveu seus “Diários da Quarentena”, que deram origem ao livro, pois estava perplexa diante da raridade da vida, que parecia mais curta apesar dos dias longos.
Sua imaturidade literária não a impediu de buscar a eternidade por meio de um trabalho de qualidade questionável. Ainda que não publicasse ou não agradasse os críticos, tinha muito a dizer às pessoas com as quais tinha afinidade.
Por isso, escreveu sobre a tristeza de ver o inverno se aproximar em meio à pandemia, trazendo mais frio e escuridão aos corações aflitos.
Queria dizer aos seus pais que sentia falta dos abraços, adiados devido ao risco de contaminação. Queria contar aos seus dois irmãos que as divergências eram pequenas perto do que realmente importava: a admiração e o afeto que nutria por cada um.
E dizer que, na distância, paradoxalmente, os amigos se tornaram mais próximos: mais do que compartilhar risos, vivenciavam angústias semelhantes e confortavam uns aos outros.
Depois de publicar, percebeu que não havia dito nada disso. Na verdade, seu romance abordava muito mais os seus próprios costumes, narrados em terceira pessoa. E entre seus hábitos, as manias que desenvolveu durante a quarentena.
Além dos momentos de escrita, lia mais durante o isolamento. Foi nesse período que conheceu “O Último Poema”, de Manuel Bandeira, e entendeu que o poeta estava sempre se despedindo. Que as pessoas estão sempre se despedindo...
Despedia-se, com frequência, por WhatsApp. Para o reencontro, uma distância incalculável. ...
Entretanto, a melancolia chegou ao fim: o riso ultrapassou o silêncio. Já podia caminhar pelas ruas e sentir o vento tocar em seu rosto. Novamente, reunia-se com amigos para compor e tornou-se um pouco mais
sensível às canções alheias.
E conseguiu, finalmente, marcar um café com um sujeito que era objeto de sua curiosidade. ...
Depois da entrevista, seguiu para sua casa, onde almoçou sozinha, como fazia todos os dias há mais de duas décadas. Porém, não ficou muito tempo usufruindo de si mesma.
Recebeu a visita dos pais e pôde ter a alegria de abraçá-los pela terceira vez após a pandemia.
Nesse momento, tudo era motivo de gratidão: até mesmo o mau humor crônico do pai, que demonstrava estar mais saudável do que nunca enquanto reclamava de aborrecimentos cotidianos.
E a mãe novamente se sentia forte e pronta para aproveitar a vida perto daqueles que amava: era comovente constatar sua vitalidade.
...
Heloísa ressignificou o ócio para lidar com a acidez dos dias por meio de seus “Diários da Quarentena” e dessa forma continuou ganhando novas qualidades apesar do isolamento e vendo sua literatura evoluir. E a necessidade de resistir, que antes flutuava, criou raízes em seu coração.
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Quase 11 anos depois, e cá estou eu em um novo puerpério. Sem a ação enlouquecedora dos hormônios, é fato, porém com a
intensidade que marca aquele período em que mãe e filho são um só, dia e noite, noite e dia, entrelaçados em medos, noites em claro, exaustão, dores, fraldas, mamá, golfadas e cólicas.
Não que o dia a dia de uma mãe permita muitos planejamentos – já que, em se tratando de criança, tudo pode mudar num
piscar de olhos – mas, desta vez, o puerpério imposto pela
pandemia nos isola e é um infinito não saber, uma sucessão de dias incertos. Dias estes, nos quais tudo foi colocado à prova pelo vírus: meu negócio, meu trabalho, minhas relações, o sustento, meu autocuidado, o cuidado com os que amo e até o meu olhar sempre alegre diante da vida.
Sem rotina, sem certeza, sem previsão, somos nós dois, só nós
dois. Sem rede de apoio e de afeto, sem as presenças que tornam a vida mais fácil e leve.
Assim, desde o dia 16 de março, me tornei a única para encenar todos os papéis no palco diário da vida do meu filho. E ele, o único espectador dos dias sem roteiro nem direção que se
tornaram minha rotina.
Tudo ao redor da maternidade é um caos, sempre! Permeado por sobrecarga, cansaço e culpa, muita. E agora, com o caos
generalizado, nós dois estamos nos conhecendo de novo.
Estamos nos conhecendo profunda e intensamente. Não somos a agenda que temos a cumprir, nem as atividades sociais, nem as obrigatoriedades da rotina. Somos mãe e filho, em modo
sobrevivência.
E como naquelas primeiras semanas após 20 de junho de 2009, está tudo bagunçado, porém é uma via de mão dupla, somos dois, é uma troca. Agora, não é somente ele que depende
exclusivamente de mim: eu também dependo dele.
Desde as tarefas domésticas, que são integralmente nossas, ao acesso à plataforma “Zoom” para a reunião remota da escola. Dependo do seu sorriso de bom dia todas as manhãs e dos ovos mexidos deliciosos que ele faz para o nosso café. Dependo dos sons que saem do quarto dele enquanto interpreta suas
brincadeiras. Dependo também do silêncio que ele faz quando estou ao telefone em mais uma conversa difícil.
Dependo da sua impaciência e dos questionamentos sobre o novo modelo adotado para o dia a dia escolar e até dos seus
“Eu tinha muitas coisas para fazer, que tomavam muito tempo. E, mesmo assim, resolvi escrever um livro” — a escritora respondeu a mais uma pergunta do entrevistador.
Era mentira, como tudo o que lhe contou posteriormente. Seu primeiro romance foi escrito durante a quarentena. Naquele tempo estranho de pessoas presas e amedrontadas. Mas ela queria afastar de seus pensamentos tais circunstâncias.
Já não podia acreditar que a humanidade tivesse passado por isso dias atrás e que ela havia sobrevivido! Até a luz do sol tocava sua pele com mais entusiasmo agora.
Concluiu que mergulhar no processo criativo havia sido uma alternativa à sensação de estar vivendo uma distopia.
Heloísa escreveu seus “Diários da Quarentena”, que deram origem ao livro, pois estava perplexa diante da raridade da vida, que parecia mais curta apesar dos dias longos.
Sua imaturidade literária não a impediu de buscar a eternidade por meio de um trabalho de qualidade questionável. Ainda que não publicasse ou não agradasse os críticos, tinha muito a dizer às pessoas com as quais tinha afinidade.
Por isso, escreveu sobre a tristeza de ver o inverno se aproximar em meio à pandemia, trazendo mais frio e escuridão aos corações aflitos.
Queria dizer aos seus pais que sentia falta dos abraços, adiados devido ao risco de contaminação. Queria contar aos seus dois irmãos que as divergências eram pequenas perto do que realmente importava: a admiração e o afeto que nutria por cada um.
E dizer que, na distância, paradoxalmente, os amigos se tornaram mais próximos: mais do que compartilhar risos, vivenciavam angústias semelhantes e confortavam uns aos outros.
Depois de publicar, percebeu que não havia dito nada disso. Na verdade, seu romance abordava muito mais os seus próprios costumes, narrados em terceira pessoa. E entre seus hábitos, as manias que desenvolveu durante a quarentena.
Além dos momentos de escrita, lia mais durante o isolamento. Foi nesse período que conheceu “O Último Poema”, de Manuel Bandeira, e entendeu que o poeta estava sempre se despedindo. Que as pessoas estão sempre se despedindo...
Despedia-se, com frequência, por WhatsApp. Para o reencontro, uma distância incalculável. ...
Entretanto, a melancolia chegou ao fim: o riso ultrapassou o silêncio. Já podia caminhar pelas ruas e sentir o vento tocar em seu rosto. Novamente, reunia-se com amigos para compor e tornou-se um pouco mais
sensível às canções alheias.
E conseguiu, finalmente, marcar um café com um sujeito que era objeto de sua curiosidade. ...
Depois da entrevista, seguiu para sua casa, onde almoçou sozinha, como fazia todos os dias há mais de duas décadas. Porém, não ficou muito tempo usufruindo de si mesma.
Recebeu a visita dos pais e pôde ter a alegria de abraçá-los pela terceira vez após a pandemia.
Nesse momento, tudo era motivo de gratidão: até mesmo o mau humor crônico do pai, que demonstrava estar mais saudável do que nunca enquanto reclamava de aborrecimentos cotidianos.
E a mãe novamente se sentia forte e pronta para aproveitar a vida perto daqueles que amava: era comovente constatar sua vitalidade.
...
Heloísa ressignificou o ócio para lidar com a acidez dos dias por meio de seus “Diários da Quarentena” e dessa forma continuou ganhando novas qualidades apesar do isolamento e vendo sua literatura evoluir. E a necessidade de resistir, que antes flutuava, criou raízes em seu coração.
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Dependo das suas perguntas intermináveis, da sua busca pelo entendimento dos fatos, que geralmente aliviam o meu
emaranhado interior.
Dependo do mundo que ele me apresenta nos filmes que me
mostra, nas músicas que toca, nas bandas que ouve e nos vídeos que vê sobre teorias que o desafiam, instigam.
Dependo do olhar infantil dele diante das atrocidades cometidas pelos adultos, que nos tiram a paz e nos colocam em risco. Eu preciso ser abastecida diariamente pela sensibilidade dele em meio a tanta injustiça.
Dependo da sua pequena mão segurando a minha em frente à TV, quando o coração aperta e as lágrimas não se contêm mais nos olhos, escorrendo em choro pela incerteza do amanhã.
Como o beijo de mãe, que tem o poder de sarar dores interiores ou ralados de joelho, o beijo de um filho tem o poder de nos curar, inteirinhas, e relativizar angústias, agonias, culpas. Amor de filho regenera corpo e alma. Junta nossos pedaços, para nos tornar aptas a viver mais um dia, mais uma fase, mais uma
semana, mais um ano...
Só uma coisa não mudou neste puerpério. Continuo sentindo medo e encarando algumas noites em claro. E aí, mais do que nunca, repito para mim mesma o velho mantra ensinado para as mães de primeira viagem: “Vai passar...”
Vai sim, vai passar!
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A Lua em
Quarentena
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Tento através das palavras gravar as emoções que tem acometido meu cotidiano ultimamente, sem lograr êxito. Pelo quadrilátero transparente de minha janela, percebo o luar que lá fora enfeita a noite e não ouso desenhar com letras o quarto-crescente irisado pairando sobre a cidade. Minha vidraça aprisiona a lua que me aprisiona e sou naquele momento, reduzida à mera testemunha visual de uma natureza morta. Em outras ocasiões, imediatamente estaria compondo pela escrita, o poema que a vida me oferecia. Não agora. Empaco como criança birrenta e não há jeito de grafar minhas percepções. Insisto e reinicio riscos e rabiscos para tentar contar sobre minha condição de afastamento e desencanto com o momento ora vivenciado. Nada acontece. Abandono minha incursão pela literatura e deixo
descansar meus escritos, para quem sabe, ficarem mais apetitosos. Pois é. Deixei-os de lado, com certo desprezo, como se apartado
deles, fosse possível melhorar meu mau humor. Cozinhei-os em banho Maria. Foi então que dei para vigiar o céu. Parece coisa de gente maluca,
cismada ou de quem não tem nada para fazer. Mas, não é bem assim, não. Faz um mês mais ou menos que me deu essa doideira. E olhem que começou quando ainda não era lua cheia. É que de acordo com a sabedoria popular, durante o plenilúnio ficam aguçadas as loucuras e bizarrices das pessoas. No entanto, era só um tímido quarto-crescente. Foi num sábado de uma tarde triste e cinzenta que se descortinou a minha frente, o sol, querendo furar a cortina de fumaça que se impunha vigorosamente à paisagem. E foi aí que a coisa pegou, que me pus a cuidar dos dias, a velar as noites e a pajear as tardes. Comecei examinando o horizonte logo de manhãzinha. Dia após dia. Nada. Não contente dei início a perscrutar a noite. Noite após noite. Tenho sondado também os entardeceres. Os pores-do-sol que sempre foram vermelhos, exuberantes, parecem-me agora melancólicos, como se lhes faltasse alento para manterem suas escandalosas incandescências. Há uma névoa gris em nossos corações a atrapalhar a explosão crepuscular enquanto a tarde se faz noite. E é essa desconcertante incerteza dos dias, que nos fragiliza e nos revela a obscena desigualdade social e que faz aflorar em nós, a solidariedade, contrapondo-se à insignificância dos valores materiais, pois demonstrado está que, de certa forma, nos igualamos no medo, na solidão e na incerteza que essa pandemia nos trouxe.
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E essa vigilância insistente e insana, tem sido na esperança de encontrar uma única nuvenzinha, prenunciando pelo menos, um ligeiro chuvisqueiro. Em minhas fantasias, o aguaceiro lava as tardes, a cidade e exaure a pandemia, dando resolução ao nosso enclausuramento, enquanto a natureza nos observa do lado de fora. Natureza esta, que tem demonstrado o seu nervosismo, devolvendo-nos o calor do dia em vento frio da noite. E era só
um tímido quarto-crescente, ocasião em que tudo principiou. Nessas minhas incursões de astrologia, eis que num domingo à
noite dei de cara novamente com luminosa lua, adornada por grande círculo, projetando as cores do arco-íris quase dentro da minha sala. Mesmo assim, nada descrevi sobre minha visão. Ignorei-a. No entanto, na manhã ainda escura de hoje, deparo-me novamente com a dita cuja me desafiando. Esplendorosa no azul do amanhecer, em sua plenitude.
Sou pega de surpresa. Invade a casa e meus sentidos, sem as formalidades legais, em
versão 3D, a visão esplendorosa de uma lua cheia, redonda, prateada, imensa, brincando contra um incrível fundo anil.
Equilibra-se perfeitamente, entre dois edifícios Ficou por lá bailando a minha frente, exibida como ela só, na
certeza de que não seria desconhecida. Intrometida como sempre. Não resisti ao seu encanto e eis-me aqui a rasgar-lhe elogios merecidos. Abusada cúmplice das noites e amanheceres de isolamento, ofereceu-me o contraponto para que minha alma restabelecesse sentires que andava a ignorar. Entre riscos, rabiscos e sentimentos desencontrados, minhas
emoções cravadas por insistentes desencantos, finalmente desabrocharam. A indiscreta lua por testemunha.
Há tanto para ver para aqueles que sabem onde e quando abrir os olhos.
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Lembranças
Lembranças
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Joana d’Arc Garcia Diniz Guirado Onde estarão
Dorvalina e Encarnação? Vivem outras vidas
Sem ser aquela Que eu conhecia? Fizeram parte da
Minha infância Querida Como dizia Castro Alves Era isso?
Onde andarão? Será que vivem Em alto escalão? No céu, não sei, No mar talvez? Onde andarão
Repito sempre isso Porque não sei
Queria, gostaria de saber Por que tanta importância Às pessoas tão simples
Pra vocês?
Por que as mãos
Sustentaram tanto peso Junto aos braços,
Que trabalharam Incansavelmente Na lida do trabalho,
Na roupa estendida, No fogão areado
Nas panelas lavadas Nos pratos quebrados
Pela pressa do dia-a-dia Onde andarão
Dorvalina e Encarnação Luci que areava
Os meninos
Pra ir à escola
Passava o pente fino
Literalmente pra ver se Não tinha piolhos!
Onde andarão, nas Nuvens, nos céus Nos aviões,
Que transportam Alegrias e tristezas Também
Pergunta incessante
Com uma única Resposta Moram no meu coração
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Quando a
Morte saiu
de Férias
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Imagina a loucura! Deu no jornal! Ninguém mais morre, ninguém vai óbito! O âncora do telejornal no maior entusiasmo, os doentes tiveram curas instantâneas, os acidentados novinhos em folha! Todo mundo agora é imortal! Deu no jornal! E agora podemos viver o perigo, podemos ser radicais, e fazer as mais emocionantes loucuras! Deu no jornal! O apresentador disse bem assim: - É oficial, nada mais acaba, nossa vida não tem fim! As pessoas agora querem voar, aceleram seu carros na maior velocidade, bebem, fumam e brigam por qualquer motivo, e ninguém morre! A vida é infinita! Deu no jornal! Doenças? Que nada! Com esse corpo ninguém se mete, afinal, somos imortais, sem fim! Fechem os cemitérios, ninguém mais pisa lá, celebremos a vida! Festas, comidas, e bebam, mas bebam para deixar qualquer deus com inveja, afinal, deu no jornal. Ninguém morre mais! Mas por trás de todo regozijo existia uma luz, que se apagava a cada dia, a cada ação sem freio que eles tomavam, afinal, tinha dado no jornal, ninguém mais vai partir. Os anseios da juventude cessaram agora a apatia já tomava conta, os velhos não tinham mais o merecido descanso, era tudo vazio, a máscara de felicidade estava em ruinas, viver de perigo não era mais tão divertido, eles escolheriam dessa vez morrer,
caso tivessem a oportunidade. Viver de perigo já não satisfazia, agora viam que a necessidade
do início e do fim era necessário, o ciclos renovando, a dita normalidade reinando, queriam a morte de volta, batendo a sua porta, mas deu no jornal, o repórter falou, ninguém mais morreria. Foi quando alguém teve ideia - Vamos protestar! Não podemos mais nos deixar levar por essa vida sem limites, temos que voltar a morrer – e ainda brincou – Não aguento mais minha sogra! Fazendo todos que estavam deslumbrados com a promessa de
ocupar o vazio rirem, e gritar palavras de ordem, ou caos, dependia de quem via aquilo. Saíram para as ruas, faixa, placas, até gente com fantasia da morte tinha e gritavam e pediam a volta da morte, como um entidade, adoravam agora o Deus morte, que teria que vir ceifar a vida de quem merecia, mas que não fosse alguém próximo, podia ser aquele vizinho chato, ou aquele artista que gostava de simplesmente não morrer.
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E lá de cima o anjo da morte absorto com a cena, eles não gostaram do presente, queria a morte, esqueceram de estar e queriam somente fazer, chamou seus anjos conselheiro e questionou, devemos tirar esse dom dessas pessoas? E quem quisesse continuar a vida? Seus anjos discutiram por um bom tempo e chegaram a conclusão, vamos deixar a morte entre eles novamente! E como num apertar de botão o anjo voltou à ativa, as pessoas
caíram como peças de xadrez uma a uma, o inflamador dos protestos, o artista que queria aproveitar a vida, doentes e quem quer que fosse, sem distinção de querer, poder, raça, ou
religião. E pouco a pouco as pessoas foram notando, que o problema não era morrer, mas saber viver, aproveitar cada instante como se fosse o último, mesmo que não fosse, olhar para os olhos dos pais, mães e filhos e sentir o momento, o passar do tempo com as mãos e se sentiam culpadas, elas escolheram ser erráticas, egoístas e agora teriam que arcar com a consequência funesta da morte inadiável.
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Mayara
Ísis
Diário da
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minha cabeça ainda pesa no dia mais um desse registro, que não
começou em março, mas exauriu com mais força e mesmo alvo. ontem eu arrastava a cabeça pela casa com o peso substantivo concreto do que abriga meu peito.
a analogia que me chegava eram das bolas enormes arrastadas por prisioneiros e escravizados, onde, no agora, isso são nossas cabeças.a sensação não se equivale ao mote, mas não chega vã. minha cabeça dói e não nascem palavras. gestação longa e difícil... não se pari a quase morte. as horas passam. soube que era segunda quando me convenci a tocar alto o padê musical de jussara.
na tela, uma mão se estende. a pandemia fez alargar a saudade, mas não desfaz os tratados ancestrais. o que finda são os vínculos e coisas sem substância, elas e apenas elas ficam muito mais frágeis e difíceis de se sustentar. no fundo, a gente finge se enganar, mas a dor não engana e a gente sabe quem sabe entoar e cuidar dos nossos lamentos e honrar nossas vitórias. se antes não soubera, agora é tempo quem diz.
a preta mulher que do outro lado diz, vem não por acaso, e o fardo que há também lá, não finda, mas se divide e encanta. da seca das palavras, o cuidado e afeto se umedece. na colheita das conexões, ela manifesta: “despeja isso”. não são essas as sensações dessa solitude?! não eis aqui minha carne preta, senão abatida, tentando decompor a morte?
deste contato, parte do peso absurdo se decodifica e mais uma vez a imagem recorrente na angústia, água represada. há tempos, eu sei que meu silêncio é barragem do que não pôde desaguar. minha cabeça dói em cada trincado que os dias fazem e mais uma vez o açude
não quer conter.
ao intervalo da digital prosa goteja dos meus olhos o efeito, tem gente que não se pretende chave, mas elucida parte do mistério. coincidência é pacto de antes.
ao final da tarde ainda gesto palavras, nutrida de raiva, medo, angústia, cuidado, afeto e saudade. não sei falar, não sei dizer, mas compreendo. ainda não há linguagem suficiente. no meu ventre ORIentação as
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em(poça)da em parte da minha letargia, assisti pelo dia todo os ecos do ontem que agora se faz anteontem. o que irrompeu pelas ruas foi a
continuidade da fumaça. não daquele fogo (mas também) que alastrou à milhares de corpos pretos daqui. a fumaça de revolta que rompe agora o isolamento é fogo de justiça que há tanto queima dentro. no diário da contagem dos corpos pretos não houve hiato. nunca houve intermitência, espera “não atira”.
no domingo, as águas de uma barragem estourada pelo esgotamento do racismo que não aguarda para depois do vírus. em quarentena, João
Pedro foi morto pelo estado, doente tão antes do agora. em risco
pandêmico multiplicado, pelas encruzas se lançaram a sorte e desespero quem sempre esteve a sua própria sorte e desespero. a negra onda que inunda ruas quer estancar sangue. não se louva a quase morte. se não é a bala, é o vírus, a fome, o descaso, a depressão, e mesmo envolta em
todas minhas “comodidades” eu não esqueço que à maioria daqueles em que isso tudo vem pela mesma porta, eu sei... eles se parecem comigo. eu não espero pelo normal, quando acabar a quarentena os meus ainda serão pretos. eu não quero que os meus sejam nenhuma dessas
estatísticas e como disse a Jacy “eu não quero ser um nome no cartaz de uma manifestação, eu quero ficar viva”. não há bandeira branca que se erga que não recolha corpos pretos e não tremule o racismo.
no final da noite do ontem, outro contato, agora com quem não veste minha pele, nem tenta, há afeto, mas não se busca simetria. de uma
sentença elaborada durante a conversa, o gatilho do momento exato em que estive olhando um fragmento de dor no museu afro em são paulo. o artefato era a mordaça de ferro, naquela sala de vozes, dor, foi nela em que eu me demorei por mais tempo. o silenciamento de tantos ontens, me pesava ainda ontem. na mimesis do tempo, eu podia, mas não
conseguia falar.
antes de dormir, no twitter, casa da bolha pandêmica, e bem antes, da esperança e dos dejetos, um post de Joel, aquele mesmo que se faz voz, abrigo e luta por e entre os nossos e estampou milhares de matérias
sobre a onda dominical. na foto do tweet, seu filho e o agradecimento de uma bolsa de estudos ganho na escola do menino. no dia mais um
depois da onda dominal, em plena pandemia, que eu não esqueça, eu vi um pai preto feliz por seu filho e um pouco mais aliviado, como ele
mesmo disse pela “forma de me ajudar e apoiar na luta em defesa de vidas negras!”
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hoje a cabeça doeu um pouco menos, mas ainda é ontem e anteontem, só que agora aqueles não se importam com nossas vidas pintaram redes sociais de preto. o antirracismo ganhou outra palavra, talvez amanhã não haja mais mortes, não seja mais vitimismo, não seja mais só uma
brincadeira, e até as vidas pretas importem enquanto vivas. talvez depois de hoje ou quando tudo voltar ao normal, em algum fim de semana, os meninos João Pedro, possam passear no parque.
eu vou rezar pra esse domingo chover o suficiente pra que não escorra mais sangue. e antes que eu me esqueça! estamos em meio a duas
pandemias, é o vírus do covid e sempre foi o do ódio; cuide dos seus,
passe álcool nas mãos, encha também seu copo, tenha afeto, reze, lute e se guarde. porque por hora, todo dia é o fim do mundo, mas não acaba. 02/06/2020
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De volta
pra casa
ou
O menino e o
camaleão
À
Irene Araújo
Corrêa,
in memorian
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A lua inteira agora É um manto negro Oh! Oh! O fim das vozes no meu rádio Oh! Oh! São quatro ciclos No escuro deserto do céu... . Moro dentro do corpo desta mulher que é um homem, mas eu sou um menino.
Ela tem 56 anos. Ele tem 47. Eu tenho 15. Na tela da smart tv, o camaleão canta essa canção tão azul e fria. É maio de 2020 e o mundo todo está em prisão domiciliar. Viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiixxeeeeeeeeeee! A tevê tá desligada, cara, tá ligado? Como é que tô ouvindo essa música e vendo o camaleão? Não! É um elfo! Você tá falando comigo, que da hora, cara, cantando pra mim! Quero um machado pra quebrar o gelo Oh! Oh! Quero acordar do sonho agora mesmo Oh! Oh!
Quero uma chance de tentar viver sem dor... . Eu que mando neste corpo, ela sabe, ele também, eles querem que eu ganhe, porque só eu sou real. Só quero correr na praia com uma yorkinha que se chama “Adorável”! Não quero saber de tanta morte e do monstro comandando o navio! Cara, vai afundar e eu tô com tanto medo, morando neste corpo, sendo a alma dele. O homem disse pra mulher que sou eu que mando, não no navio, na casa e no corpo. Eles são eu e querem ser só eu, me falaram. Huuuum! Elfo de asas? Elfo de asas é o quê? Anjo! Arcanjo! Arcanjo arcangélico sideral! Hahahahahahaha! Uma gripinha tá matando tanta gente! Arcanjo, é você, dentro da minha cabeça? São dez bilhões de neurônios na minha cabeça, são dez bilhões, dez bilhões! O nome da gripinha é feio que nem de filme de vírus e apocalipse, é Covid-19. Um vírus UK, do Reino Unido? Coronavírus! Arcanjo, é você ou são os dez bilhões de
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Sempre estar lá e ver ele voltar Não era mais o mesmo mas estava em seu lugar... Sempre estar lá e ver ele voltar O tolo teme a noite como a noite vai temer o fogo... Vou chorar sem medo, vou lembrar do tempo De onde eu via o mundo azul... Hum! Hum! Hum! Hum! Hum!.. . A Terra é redonda, redondinha, Monstro burrão! E tem menos de dez bilhões de pessoas na cabeça dela, né? Mas nenhuminha pode morrer porque você é muito mau e burro!
A trajetória escapa o risco nu Uh! Uh! As nuvens queimam o céu nariz azul Uh! Uh! Desculpe estranho, eu voltei mais puro do céu... A lua o lado escuro é sempre igual Al! Al! No espaço a solidão é tão normal Al! Al! Desculpe estranho eu voltei mais puro do céu... Sempre estar lá e ver ele voltar Não era mais o mesmo mas estava em seu lugar... . Se os etês vierem me buscar, não será abdução, será resgate, Arcanjo!
Peraí... já tô indo!
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Minha
Quarentena
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NOTÍCIAS CHEGANDO DE TODOS OS LADOS DE QUE A TAL GRIPE JÁ
ESTAVA NO BRASIL. Notícias chegando de que a COVID-19 chegou a Rio Preto. E notícias chegando de que começava uma
QUARENTENA. Portas fechando, idosos, principalmente, ficar em casa. Todos ficarmos em casa.
Mensagem no celular: avisamos que sua consulta foi cancelada, não vamos atender por esses dias, assim que nos organizarmos a gente remarca. Obrigada.
Mensagem no celular: avisamos que sua sessão de pilates foi cancelada, não vamos atender nessa semana, estamos reunidos para ver como melhor atender, em breve faremos contato.
Agradecemos a compreensão. Obrigada.
Mensagem no interfone: por enquanto não haverá terço no salão do condomínio, está proibido ajuntamento de pessoas. Obrigada. Mensagem no celular: não haverá Grupo de Oração nessa
terça-feira, não podemos nos reunir. Obrigada.
E mais: não haverá missa, lojas não abrirão, melhor não ficar doente para não sobrecarregar hospitais, não podemos receber visitas, não podemos visitar, voos cancelados, transporte público restrito.
E mais: filas distanciadas para pagar contas, filas com marcação para comprar comida, feiras canceladas temporariamente,
marcação de lugar na farmácia, restaurantes fechados.
E mais: aqueles dois eventos que estavam marcados, em minha agenda, lá longe: cancelados.
ENGAVETEI a agenda. Ficou sem sentido abri-la: só páginas em branco.
Percebi que o armário começou a ficar muito organizado: as roupas todas lá: lavadas, passadas, arrumadinhas, sem uso. Só mesmo duas bermudas e umas quatro camisetas continuam no batente. ESQUECI o armário.
Passam os dias. E os NÚMEROS ficaram mais evidentes que todas as outras coisas. Esquecemos a PRIMAVERA, que estava se
despedindo. A primavera esqueceu de si. Somente uma de minhas orquídeas floriu. Ninguém viu o VERÃO, que passou
inteirinho sem nada se falar sobre ele. Não teve praia, prainha, festas nos clubes, eventos sertanejos...
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cadê tudo? CANCELADO! Entramos no OUTONO e nem sei se tem folhas caindo. Mas vi que o sol está carruncudo, emburrado. Só tenho visto informações sobre NÚMEROS. Números de tristezas. Números em hospitais, cemitérios, despedidas, ajudas, gastos, compras, e máscaras, e EPIs, e respiradores e números...
números...números: quantos se foram, quantos ainda irão,
quantos se salvarão... vou me apegar a esses, por favor: salvem todos, todos, todos!
E passam os dias: interfone toca: O Sr. José veio se despedir. Ele que tem 70 anos, vinte deles aqui conosco, estava afastado, mas as filhas pediram prá ele aproveitar a sua aposentadoria, pois agora já tem um bisneto. E quem vai cuidar do nosso jardim, das nossas lindas primaveras, da linda horta aqui do prédio? Quem vai dar bom dia com aquele sorriso sempre tão amável, gentil e tímido? E a festa do sr. José? Não pode! Não pode???
Então vou descer para entregar uma carta e me despedir. Descer de máscara, ok? No elevador só pessoas do mesmo apartamento. Senhor José, aqui está uma cartinha de carinho, estamos
ARQUIVANDO temporariamente o seu bolo, o seu presente, o seu abraço, tudo arquivado até um dia que vamos ligar para o
senhor vir aqui receber tudo. Por enquanto só essas palavras da carta. Mesmo porque também as minhas lágrimas e meu sorriso estão GUARDADOS atrás da máscara.
A tal gripe tem um efeito DEVASTADOR de ENGAVETAMENTO,
ARQUIVO, ESQUECIMENTO, DISTANCIAMENTO, AUSÊNCIA, DESPEDIDA, INCERTEZAS, SOFRIMENTOS, ADIAMENTOS, CASAS VAZIAS, SEM IR E VIR, SEM BEIJO, SEM ABRAÇO, SEM APERTO DE MÃO...MUITO APERTO NO CORAÇÃO...SOLIDÃO...e SAUDADE.
Saudade de como era tudo até o início da primavera. Saudade de conversar, de ouvir vozes, de me misturar no calçadão, de esbarrar pelos corredores do supermercado. Saudade de depois. Chega logo depois.
No início foi assustador. Mas, foi-se dando um jeito, wattsapp para tudo: pilates por chamada de vídeo, terço por chamada de vídeo, grupo de oração com reunião on line, compras on line: receber, lavar, higienizar...
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Voltar ao Índice
Mas, “eu quero crer no amanhã”. Eu ESPERO e
CONFIO no efeito QUARENTENA. Haverá o
entendimento, haverá o aproveitamento.
Mas, “EU QUERO CRER NO AMANHÔ... Quero ver o
INVERNO chegar. Frio é chatooooo! Imagine! Mas
eu acho o frio chato. Agora não acho. Amo o
frio. Quero desengavetar uma blusa de lã. Entrar
no elevador lotado de vizinhos, chegar até a
rua. Quero tremer de frio, quero sentir o vento
geladinho no rosto...sem máscara. Quero andar
na rua batendo queixo. Quero respirar, respirar,
respirar...muito ar, por favor! Ah...quero cortar
e tingir os cabelos...
Quero festejar com bolo, refri e presentes, no
salão do condomínio, a merecida aposentadoria
do Sr. José!
“PORQUE ELE VIVE, TEMOR NÃO HÁ!
EU POSSO CRER NO AMANHÃ!”
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Afastamento
Social
I Tranco a porta da rua antes de ingressar no mundo
que estou construindo. Nele, não há convenção social, lei injusta, métrica ou meta exorbitante. O projeto é viver livre. II Procuro nas gavetas o espírito de menino. Mas só encontro máscaras e quinquilharias. III Li em um livro antigo: a borboleta só pode ser extraída pela Natureza após a lagarta aceitar seu propósito. Aceitei o que sou: bem menos do que imaginei. IV O silêncio é mais devastador do que uma rajada de palavras disparadas em escala industrial por uma potente máquina acionada por teclado de celular. V No meu pequeno mundo, sou chefe de estado de um governo imaginário, sou cavalo em disparada pela América do Sul, sou uma parte invisível do altiplano, sou barco sem destino no meio da tempestade, sou apenas o que tenho, eu mesmo. VI E, nesse encontro diário com as múltiplas facetas e limitações, um dia irei renascer por inteiro. Para enfrentar a cidade que (ainda) me pertence.