Polifonia
PERiÓDiCo Do PRogRama DE PÓs-gRaDuação
Em EstuDos DE linguagEm-mEstRaDo
númERo 17 – 2009 – issn 0104-687X
Polifonia CuiaBÁ EDufmt nº 17 P. 1-257 2009 issn 0104-687X
EstuDos linguístiCos
Reitora
Maria Lúcia Cavalli Neder
Vice-Reitor
Francisco José Dutra Souto
Pró-Reitora Administrativa
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Pró-Reitora de Planejamento
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Pró-Reitora de Ensino de Graduação
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Pró-Reitora de Ensino de Pós-Graduação
Leny Caselli Anzai
Pró-Reitor de Pesquisa
Adnauer Tarquínio Daltro
Pró-Reitor de Vivência Acadêmica e Social
Luis Fabrício Cirillo de Carvalho
Diretora do Instituto de Linguagens
Rosângela Cálix Coelho da Costa
Coordenadora do Mestrado em Estudos de Linguagem
Cláudia Graziano Paes de Barros
Coordenadora da Editora Universitária
Elizabeth Madureira Siqueira
Conselho Editorial
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Diana Boxer – University of Florida Elias Alves de Andrade – UFMT Enid de Abreu Dobránsky – USF Franceli Aparecida da Silva Mello – UFMT Helena Nagamine Brandão – USP Lúcia Helena Vendrúsculo Possari – UFMT Ludmila de Lima Brandão – UFMT
Manoel Mourivaldo Santiago Almeida – USP Marcos Antônio Moura Vieira – UFMT Maria Inês Pagliarini Cox – UFMT Maria Rosa Petroni – UFMT Marilda C. Cavalcanti – UNICAMP Mário Cezar Silva Leite – UFMT
Nancy H. Hornberger – University Of Pennsylvania Piers Armstrong – Dartmouth College
Rhina Landos Martinez André – UFMT Roberto Leiser Baronas – UFSCAR Simone de Jesus Padilha – UFMT Sônia Aparecida Lopes Benites – UEM Stella Maris Bortoni – UnB
Vera Lúcia Menezes de O. e Paiva – UFMG
Editores Executivos
Célia Maria Domingues da Rocha Reis Maria Inês Pagliarini Cox
Maria Rosa Petroni Organizadores
Ana Antônia de Assis-Peterson Maria Inês Pagliarini Cox Maria Rosa Petroni
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
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EstuDos linguístiCos
univERsiDaDE fEDERal DE mato gRosso
Av. Fernando Corrêa da Costa, 2367
Bairro Boa Esperança – Campus Universitário Gabriel Novis Neves CEP: 78.060-900 – Cuiabá-MT – Brasil
Fones: 0XX-65-3615.8408 – Fax: 3615.8413
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Periódico do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem – Mestrado
Instituto de Linguagens
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Ficha Catalográfica - Biblioteca Central
Polifonia. Periódico do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Lin-guagem - Mestrado [do] Instituto de Linguagens, Universidade Federal de Mato Grosso - Ano 17. nº 17. (2009). Cuiabá: Editora Universitária, V. I; 22,5 cm 257p.
Semestral
I. Universidade Federal de Mato Grosso ISSN 0104-687x Capa, Editoração e Projeto Gráfico:
Candida Bitencourt Haesbaert
Av. Fernando Corrêa da Costa, 2.367 – Boa Esperança Coxipó da Ponte – CEP: 78.060-900 – Cuiabá, MT Fone: (65) 3615 8322 – fax: (65) 3615 8325 [email protected]
SUMÁRIO
NOTA DAS EDITORAS
MEMÓRIA DOS CAMINHOS DO GELCO ... 1
Denize Elena Garcia da Silva
ARTIGOS
O ESTATUTO DA PREPOSIÇÃO COM EM
CONSTRUÇÕES COM ALTERNÂNCIA SINTÁTICA ...9
Heloisa Maria M. L. Salles Rozana Reigota Naves
TERMINOLOGIA APLICADA: PERCURSOS
INTERDISCIPLINARES ... 29
Maria Aparecida Barbosa
TERMINOLOGIA JURÍDICA DO MEIO AMBIENTE:
AMOSTRA DE VERBETES ... 45
Marieta Prata de Lima Dias
O PROCESSO DE PREDICAÇÃO DAS UNIDADES
TERMINOLÓGICAS COMPLEXAS DA
ENGENHARIA CIVIL ... 59
Cleide Lemes da Silva Cruz
ESTUDOS LINGUÍSTICOS NO/DO MATO GROSSO –
O FALAR CUIABANO EM EVIDÊNCIA ... 75
Maria Inês Pagliarini Cox
ESTUDOS DA LÍNGUA CHIQUITANO DO BRASIL:
TRAJETÓRIA E PERSPECTIVAS ... 91
Áurea Cavalcante Santana Ema Marta Dunck-Cintra
ANÁLISE DO DISCURSO: REALIDADES E
PERSPECTIVAS ... 111
Nara Maria Fiel de Quevedo Sgarbi
REFLEXÕES TEÓRICAS E EPISTEMOLÓGICAS EM
TORNO DA ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA ... 125
Viviane Melo Resende
REALISMO CRÍTICO E ANÁLISE DE DISCURSO
CRÍTICA: REFLEXÕES INTERDISCIPLINARES
PARA A FORMAÇÃO DO EDUCADOR DE
LÍNGUAS EM PROCESSO DE EMANCIPAÇÃO E
TRANSFORMAÇÃO SOCIAL ... 141
Solange Maria de Barros Barra Papa
OS MODOS DE SUBJETIVAÇÃO DOS
MORADORES DE RUA NA CIDADE DE
CÁCERES-MT ... 155
Olimpia Maluf-Souza
FORMAÇÃO TECNOLÓGICA DO PROFESSOR
EM UMA SOCIEDADE DIGITAL: DESAFIOS E
PERSPECTIVAS
... 165
Maria Cristina Lima Paniago LopesO TEXTO E AS PRÁTICAS TEXTUAIS E
DISCURSIVAS PRESENTES EM UMA DISCIPLINA
NA MODALIDADE A DISTÂNCIA ... 175
Arlinda Cantero Dorsa
ENSINO DE LÍNGUAS NA EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL: OS CONFLITOS HISTÓRICOS
E OS DESAFIOS EM SALA DE AULA ... 189
EDUCAÇÃO INDÍGENA EM CONTEXTOS URBANOS
DOS MUNICÍPIOS DE BARRA DO GARÇAS,
PONTAL DO ARAGUAIA E ARAGARÇAS:
DESAFIOS DE NOVOS TEMPOS ...
203
Marly Augusta Lopes MagalhãesENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS NA REDE
PÚBLICA DO ESTADO DE MATO GROSSO:
A REALIDADE DOS OBJETIVOS ATRAVÉS
DO CURRÍCULO ...215
Sergio Flores Pedroso
PRÁTICAS DE LINGUAGEM E(M) FORMAÇÃO
DO PROFESSOR DE LÍNGUA MATERNA ... 225
Maria Rosa Petroni
“EU AMO A LÍNGUA PORTUGUESA!”:
O DISCURSO DE USUÁRIOS DO ORKUT ... 239
Dánie Marcelo de Jesus
INSTRUÇÕES AOS AUTORES PARA PUBLICAÇÃO
DE ARTIGOS NO PERIÓDICO POLIFONIA ... 255
CONTENTS
EDITORS’ NOTE
MEMORIES OF GELCO’S PATHS... 1
Denize Elena Garcia da Silva
ARTICLES
THE STATUTE OF THE PREPOSITION WITH
IN CONSTRUCTIONS WITH SYNTACTIC
ALTERNATION ... 9
Heloisa Maria M. L. Salles Rozana Reigota Naves
APPLIED TERMINOLOGY: INTERDISCIPLINARY
PATHS ... 29
Maria Aparecida Barbosa
JURIDICAL TERMINOLOGY OF THE
ENVIRONMENT: A SAMPLE OF ENTRIES ... 45
Marieta Prata de Lima Dias
THE PROCESS OF PREDICATION OF THE
COMPLEX TERMINOLOGICAL UNITS OF CIVIL
ENGINEERING ... 59
Cleide Lemes da Silva Cruz
LINGUISTIC STUDIES IN/OF MATO GROSSO –
THE CUIABANO DIALECT IN EVIDENCE ... 75
STUDIES OF THE CHIQUITANO LANGUAGE
IN BRASIL: TRAJECTORY AND PERSPECTIVES .. 91
Áurea Cavalcante Santana Ema Marta Dunck-Cintra
DISCOURSE ANALYSIS: REALITIES AND
PROSPECTS
... 111
Nara Maria Fiel de Quevedo SgarbiTHEORETICAL AND EPISTEMOLOGICAL
REFLECTIONS ON CRITICAL DISCOURSE
ANALYSIS ... 125
Viviane Melo Resende
CRITICAL REALISM AND CRITICAL DISCOURSE
ANALYSIS: INTERDISCIPLNARY REFLECTIONS
FOR LANGUAGE TEACHER EDUCATION IN
PROCESS OF EMANCIPATION AND SOCIAL
TRANSFORMATION ... 141
Solange Maria de Barros Barra Papa
PROCESSES OF SUBJECTIVITIES OF STREET
DWELLERS IN THE CITY OF CÁCERES,
MATO GROSSO ... 155
Olimpia Maluf-Souza
TECHNOLOGICAL FORMATION OF TEACHERS
IN A DIGITAL SOCIETY: CHALLENGES AND
PERSPECTIVE
S
... 165
Maria Cristina Lima Paniago LopesTHE TEXT AND THE TEXTUAL AND DISCURSIVE
PRACTICES PRESENT IN A DISCIPLINE OF A
DISTANCE LEARNING COURSE ... 175
Arlinda Cantero Dorsa
THE TEACHING OF LANGUAGES IN THE
VOCATIONAL EDUCATION: THE HISTORICAL
CONFLICTS AND THE CLASSROOM
CHALLENGES ... 189
Sueli Correia Lemes Valezi
INDIGENOUS EDUCATION IN URBAN CONTEXTS OF
THE CITIES OF BARRA DO GARÇAS,
PONTAL DO ARAGUAIA E ARAGRAÇAS:
CHALLENGING NEW TIMES ... 203
Marly Augusta Lopes Magalhães
TEACHING OF FOREIGN LANGUAGES IN THE
PUBLIC SCHOOL SYSTEM OF THE STATE OF
MATO GROSSO: THE REALITY OF THE
OBJECTIVES THROUGH THE CURRICULUM ... 215
Sergio Flores Pedroso
LANGUAGE PRACTICES AND/IN THE TEACHER
EDUCATION OF THE BRAZILIAN PORTUGUESE
TEACHER ... 225
Maria Rosa Petroni
“I LOVE PORTUGUESE LANGUAGE!”:
THE DISCOURSE OF ORKUT USERS ... 239
Dánie Marcelo de Jesus
INSTRUCTIONS FOR AUTHORS TO SUBMIT A
PAPER TO THE JOURNAL POLIFONIA ... 255
APRESENTAÇÃO
Entre os dias 4 e 7 de novembro de 2008, realizamos na Universidade Federal de Mato Grosso, na cidade de Cuiabá-MT, o IV Encontro Nacional do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste – GELCO. Criado em outubro de 2000, o GELCO congrega pesquisadores e professores que atuam na área de Letras e Linguística na região centro-oeste do Brasil. Como entidade regional, o GELCO conta com uma rede de associados que se estende desde Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, até Goiás e o Distrito Federal, incluindo o estado de Tocantins.
Como associação científica, o GELCO tem buscado abrir um espaço político para: o fomento e a expansão da pes-quisa linguística por meio de projetos interinstitucionais; a divulgação e a circulação dos conhecimentos produzidos na região de modo a perfilar a vocação da área de Letras e Linguística do centro-oeste no cenário nacional; a promoção de intercâmbio acadêmico entre seus associados e pesqui-sadores, filiados a outras sociedades científicas, nacionais ou estrangeiras; a atuação protagonista no aperfeiçoamento dos cursos de Letras, tendo em vista a formação competente de professores de línguas para o ensino básico, sob a orien-tação da LDB, assim como dos parâmetros e orientações ministeriais em vigor; o suporte a jovens pesquisadores hispano-americanos para participação em programas de pesquisa linguística no centro-oeste, ligados a instituições públicas de pós-graduação; o apoio à pesquisa das línguas indígenas no centro-oeste, bem como à política de educa-ção para os povos indígenas, com ênfase aos programas de revitalização das línguas indígenas.
Linguagens: desafios contemporâneos foi o tema escolhido
para articular as discussões que tiveram lugar nas inúmeras atividades acadêmicas e artísticas que compuseram o pro-grama desta IV edição do GELCO. Nesta Polifonia, reunimos trabalhos apresentados em conferências e mesas durante o evento, com o intuito de compartilhar nossas discussões com parceiros do centro-oeste e de outras regiões brasileiras que não estiveram conosco em novembro de 2008.
Célia Maria Domingues da Rocha Reis Maria Inês Pagliarini Cox Maria Rosa Petroni
MEMÓRIA DOS CAMINHOS DO GELCO
Denize Elena Garcia da Silva1Colocar em pauta os caminhos do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste, situá-lo sócio-historicamente, sobretudo em termos de uma espécie de inclusão social no cenário acadêmico brasileiro, remete-nos ao campo de uma política de identidade. O termo inclusão, tão utilizado na atualidade, significa “ter direito a ter direitos”, o que pressupõe a meu ver uma relação próxima ao conceito de identidade.
Assim esta apresentação resgatará um momento espe-cial, qual seja, o surgimento de uma sociedade acadêmico-científica no Centro-Oeste do Brasil. O GELCO nasceu diante do fato de professores e pesquisadores que vivemos nessas “paragens brasileiras”, assumirmos, de modo cons-ciente, uma identidade coerente com a imensidade de bens culturais, de variedades dialetais, com uma diversidade linguística (num olhar sobre as línguas indígenas) e, sobre-tudo, com a necessidade de sermos conhecidos pelos outros. Nas palavras do estudioso Calhoun (1994, p. 9-10):
Não temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas em que alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós e eles, não seja esta-belecida... Sempre [segundo Calhoun], o autoconheci-mento – invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa parecer uma descoberta – nunca está totalmente dissociado da necessidade de ser conhecido, de modo específico, pelos outros.
No contexto dessas ideias nasceu a associação. Criado na Universidade de Brasília, em 11 de outubro de 2000, durante o I Encontro de Professores de Letras do Brasil Central, o GELCO passou a congregar profissionais e estu-dantes da grande área das Letras, envolvendo Literaturas, bem como Linguística Teórica, Linguística Aplicada e Ensino de Línguas.
1 A autora, Professora Associada II da Universidade de Brasília (UnB), é fundadora e conselheira honorária do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste (GELCO).
Como entidade regional, o GELCO contou, de início, com uma rede de associados que se estendia desde os Estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, até Goiás e o Distri-to Federal, incluindo o Estado de Tocantins desmembrado para o norte. Desde então vem ganhando adeptos de ou-tras regiões brasileiras, graças ao contato com associações nacionais e até mesmo internacionais. Devo ressaltar que a necessidade de sermos conhecidos de modo específico, de marcarmos nossa identidade, encontrou eco e respaldo também nas agências de fomento.
A propósito, ao discutir a questão da identidade e sig-nificado na sociedade em rede, Manuel Castells (1999, p. 24), em seu livro O poder da identidade, sugere que a cons-trução social da identidade sempre ocorre em um contexto marcado por relações de poder. Nessa perspectiva, propõe o autor uma distinção entre três formas e origens de cons-trução de identidades: a legitimadora, a de resistência e a de projeto. Enquanto a identidade legitimadora envolve instituições dominantes da sociedade visando à expansão e racionalização de sua dominação no que concerne aos atores sociais, a identidade de resistência surge como decorrência de condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, o que implica o surgimento de trincheiras de resistência e sobrevivência de seus integrantes. Mas é no ter-ceiro tipo de identidade que podemos contextualizar o escopo do GELCO, uma vez que a identidade de projeto, resultante da utilização de material cultural, permite a construção de uma nova identidade capaz de redefinir uma posição na sociedade e, em condições propícias, transformá-la.
O I GELCO, realizado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, no mês de outubro de 2001, representou oficialmente a voz do Centro-Oeste no espaço acadêmico brasileiro, quando recebemos então apoio de instituições de ensino superior, bem como duas aprovações do projeto com apoio financeiro do CNPq e da Capes. Nesse primeiro evento, foram discutidos os avanços, bem como os desafios do ensino, da pesquisa e dos cursos de pós-graduação na região Centro-Oeste voltados para os estudos da linguagem.
Como não poderia deixar de ser, o regionalismo de Ma-noel de Barros, maior expoente vivo da poesia brasileira, ensinou-nos, enquanto linguistas, ao lado de colegas pro-fessores de línguas e literaturas, a admirar a paisagem de cor local matizada por versos que carregam pormenores do dialeto pantaneiro. Manoel de Barros (1999), em um de seus poemas, registra o seguinte: “Não tenho bens de acontecimentos. O que não sei fazer desconto nas palavras. Entesouro frases”. Se traçarmos um paralelo de nosso lado profissional com o poeta, tecemos conhecimentos, embora nem sempre eles se transformem em bens de acontecimen-tos, tampouco bens de produção tecnológica. Na realidade, fazemos muito e não inventamos nada, uma vez que na maioria das vezes trabalhamos ou com a gramática da lín-gua, ou com a tecnologia da palavra, ou com mecanismos interdiscursivos que nos permitem apontar e interpretar a relação texto e contexto. Não obstante, ao fazermos uma descrição linguística, um estudo lexicográfico, uma interpre-tação de textos literários, repetidos, ou textos de uso único, pragmáticos, ao ensinarmos línguas e literaturas, podemos transformar nossa realidade. Se por um lado, garimpando a cor local, surge o homem-matéria de literatura, por outro surgem os que pesquisam as línguas na sua interiorida-de, na gramática, e os que, labutando nas instâncias do discurso, ensinamos que a língua é um contrato social. Mas a noção de regionalismo vem agregada ao aspecto da identidade. Por isso, evocar Manoel de Barros implica dar força à voz do Centro-Oeste brasileiro.
Ao discutir o regionalismo e a cultura local de Mato Grosso do Sul, Maria Adélia Menegazzo (2003, p. 161) afirma em seu artigo que “[...] num primeiro momento, o regionalismo pode ser visto como marca de exclusão, afinal, encontramo-nos fora do eixo cultural brasileiro”. Mas, continua a autora, “[...] se pensarmos na profusão de fronteiras nacionais e internacionais que compõem nosso entorno, diremos, parafraseando Mario de Andrade (1972, p. 16), que somos, por definição, uma região formada por ‘acrescentamento muito mais que por evolução natural’”. Nesse sentido, o caráter plural não só da cultura sul-mato-grossense, mas dos Estados de Mato Grosso, Goiás e do
Distrito Federal tem muita riqueza para mostrar e contar. E o GELCO, em seu primeiro evento, foi a prova disso, como se encontra registrado em três coletâneas: 1 livro – Estudos de linguagem – e dois volumes especiais da Revista Papéis, da Editora da UFMS, somando 97 artigos que represen-tam, em sua maioria, publicações de trabalhos voltados para linguística, literaturas, descrição e ensino de línguas, todos assinados por professores e estudantes no papel de pesquisadores sensíveis à construção social de uma nova realidade brasileira.
O II GELCO realizado na Universidade Federal de Goiás, na cidade de Goiânia, no período de 8 a 10 de outubro de 2003, consolidou as metas traçadas pela associação, sobre-tudo no que concerne ao fortalecimento de uma consciência acadêmico-científica voltada para valores étnicos, raciais e culturais. Naquela ocasião tive a oportunidade de lançar, por um lado, um desafio aos participantes do evento para a necessidade de implementação de linhas de pesquisa que refletissem a cor local. Por outro lado, a escolha do tema central do evento – Integração Linguística, Étnica e Cultu-ral – significou uma homenagem às nações indígenas e, ao mesmo tempo, um alerta com relação à própria situação dos povos indígenas no Brasil, cujas línguas somam hoje 180 somente, das 1.500 que eram faladas antes da coloni-zação. O desafio, naquele momento, implicava a necessidade de se levar a cabo pesquisas voltadas para a diversidade linguística e cultural, considerando-se não só o português, mas também as línguas faladas pelas nações indígenas. Lembro-me que frisei a existência de uma realidade que é uma constante entre nós. Trata-se da variação e mudança nos usos linguísticos, fenômenos que vêm sempre ligados a processos sociais, atrelados, por sua vez, a fatores étnicos, raciais e culturais. Foi assim que, durante três dias, através de 4 conferências plenárias, 72 apresentações em mesas-redondas, 180 apresentações em sessões coordenadas, 258 apresentações em sessões individuais e 53 apresentações em painéis, o GELCO abriu espaços para momentos de intercâmbio de conhecimentos e experiências entre pesqui-sadores não só do Centro-Oeste, mas das outras regiões do Brasil. Os procedimentos metodológicos que viabilizaram
os debates, envolveram palestras de especialistas das áreas de linguística, línguas e literaturas, cujos temas, além de refletirem os avanços em estudos das respectivas linhas de pesquisa, permitiram a reflexão e o diálogo sobre questões ligadas à pesquisa em linguagem, bem como ao ensino de línguas e literatura. Posso afirmar que, durante aqueles três dias, tivemos a consolidação da nossa identidade de projetos no cenário brasileiro e, com isso, o nosso “direito a ter direitos” futuros, sobretudo junto às agências de fomen-tos. O II GELCO representou para muitos uma estação de partida, ou até mesmo de passagem, para novos caminhos de pesquisa.
Entre os conferencistas do II GELCO que nos brindaram com sua participação, destaco três nomes: Ingedore Koch, Silvia Lúcia Bingonjal Braggio e Lucia Maria Pinheiro Loba-to. A primeira, Ingedore Koch, está sempre a nos ensinar, pelos caminhos da Linguística Textual, que usar uma língua significa realizar ações. Trata-se, aqui, de ações conjuntas. Nas palavras de Koch (2006, p. 37):
[...] as ações verbais são ações conjuntas, já que usar a linguagem é sempre engajar-se em alguma ação em que ela é o próprio lugar onde a ação acontece, necessariamente em coordenação com os outros. Essas ações não são simples realizações au-tônomas de sujeitos livres e iguais. São ações que se desenrolam em contextos sociais, com finalidades sociais e com papéis distribuídos socialmente. Foi nessa perspectiva que, durante três dias, o GEL-CO permitiu-nos reunir participantes com ações verbais, muitas das quais resultaram ações conjuntas com vistas a uma identidade de projetos no coração do Centro-Oeste brasileiro.
Entre as necessidades a serem contempladas em futu-ros projetos de pesquisa, destacou-se a urgência de ações conjuntas para aqueles voltados para as línguas indígenas. Passo a falar agora em nome e no nome de Silvia Braggio (2006) que, de maneira veemente, denunciou uma realidade ameaçadora, qual seja, a morte e extinção de muitas línguas indígenas no mundo e, de modo específico, no Brasil. De
acordo com os dados apresentados por Braggio, somente sete línguas contam com mais de 10.000 falantes. Embora em quase todos os Estados brasileiros haja povos indígenas, a proporção de indígenas por grupo é muito baixa, haja vista que o número de línguas com menos de 101 falantes cobre quase um terço do total de línguas. Acrescente-se a isso a seguinte realidade: pequenas comunidades têm menos resistência às forças tecnológicas e socioeconômicas, o que implica o fato de o tamanho de um grupo representar um forte fator de desaparecimento de uma língua indígena. Faço minha uma pergunta de Silvia Braggio: “Por que manter essas línguas vivas?”
As respostas encontradas por Braggio são muitas e vão desde a necessidade de impedir o rompimento da transmis-são da herança cultural, que se dá principalmente através da língua, até a perda das chaves para a sobrevivência psi-cológica, social e física, uma vez que a língua constitui uma forte marca de identidade cultural. Mas, sobretudo, como uma forma de homenagem, valho-me do que nos deixou Lucia Lobato (2006) em conferência proferida no II GELCO assim intitulada: “Sobre a questão da influência ameríndia na formação do português do Brasil”. Para a nossa grande cientista, que continua viva entre nós através de seu lega-do de pesquisa, tal influência pode ter ocorrilega-do devilega-do ao fato de a aprendizagem do português ter-se realizado em idade adulta, durante três séculos, na condição de segunda língua. Na explicação de Lobato, os pontos de convergên-cia destacados entre as línguas ameríndias e o português do Brasil representam pontos de divergência estrutural,
na atualidade, entre o português brasileiro e o português europeu. Lucia Lobato, além de nos deixar um estudo que evidencia a importância das línguas indígenas na formação do português do Brasil, sugere que novas linhas de pes-quisa desenvolvam estudos voltados para a influência das línguas africanas. E esta foi uma das razões que inspirou o tema central do III GELCO: Línguas e culturas: caminhos
convergentes.
Cumprindo seu propósito de realizar ações conjuntas e na busca de caminhos convergentes, o GELCO hospedou o I Colóquio da ALED (Associação Latino-Americana de
Estudos do Discurso) no Brasil, assim como o II Simpósio de Língua de Sinais e Bilinguismo, momentos que ocupa-ram o espaço desses três dias, enriquecidos por debates e reflexões que têm norteado os caminhos futuros do GELCO como associação científica com forte presença no cenário acadêmico brasileiro. A 3ª. edição do GELCO aconteceu na Universidade de Brasília, através de 24 conferências e cerca de 150 apresentações em mesas-redondas, sessões coordenadas e individuais, além de 20 minicursos e 40 apresentações em painéis. O triplo evento concretizou uma vez mais o escopo central da Associação, qual seja, o de proporcionar intercâmbio de conhecimentos e experiências entre pesquisadores, docentes e estudantes já não só do Centro-Oeste, mas também do Distrito Federal, com outras regiões do Brasil.
O GELCO, em sua 4ª. edição, juntamente com o VII Seminário de Linguagens, incentivou apresentações de trabalhos de pesquisa voltados para a comunicação que perpassa mundos virtuais no ciberespaço, ao mesmo tempo em que contou com “a reaproximação de práticas interse-mióticas e, sobretudo, práticas entressaberes”, unindo, de forma magistral, grupos de trabalho voltados para língua portuguesa, literatura, teorias da gramática, línguas es-trangeiras, educação musical e informática entre outros. E, mais uma vez, mãos acadêmicas, movidas pela força histó-rica dos bandeirantes e fortalecidas pelo labor da docência e da pesquisa, prepararam com esmero o tema central do duplo evento.
Assim é que Linguagem: desafios contemporâneos, mais que um tema, nomeou um congresso cujos participantes discutiram, na Universidade Federal de Mato Grosso, na cidade de Cuiabá (MT), desde estudos sobre “diversidade linguística”, “cultura, memória e identidade”, passando pela “análise de discurso e práticas sociais”, até “línguas indígenas e educação bilíngue”, além de “literatura e outras linguagens”, como a musical e a da informática. Enfim, mais que grupos temáticos conjugados com minicursos, os organizadores prepararam terreno fértil e proporcionaram efetivamente um plantio, durante três dias, de “práticas entre saberes”, razão pela qual todos colhemos trabalhos
advindos de frutos intelectuais, adoçados pela busca de linguagens que semeiam o saber e a paz.
Referências
ANDRADE, M. de. Literatura nacional. In: ANDRADE, M. de.
O empalhador de passarinho. São Paulo: Martins Fontes/IN,
1972. p. 167.
BARROS, Manoel. Para encontrar o azul eu uso pássaros. Campo
Grande: Saber Sampaio Soares, 1999.
BRAGGIO, S. L. Línguas indígenas ameaçadas: documentação, tipologias sociolingüísticas. In: SILVA, D. E. (Org.). Língua, gramática e discurso. Goiânia: Cânone Editora; GELCO, 2006.
p. 43-53.
CALHOUN, C. (Org.). Social theory and the politics of identity.
Oxford: Blackwell, 1994.
CASTELLS, M. O poder da identidade. Tradução Klauss Brandini
Gerhardt. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1999.
LOBATO, L. M. P. Sobre a questão da influência ameríndia na formação do português do Brasil. In: SILVA, D. E. (Org.). Língua, gramática e discurso. Goiânia: Cânone Editora; GELCO, 2006.
p. 54-86.
KOCH, I. G. V. Lingüística textual hoje: questões e perspectivas. In: SILVA, D. E. (Org.). Língua, gramática e discurso. Goiânia:
Cânone Editora; GELCO, 2006. p. 21-42.
MENEGAZZO, M. A. Regionalismo: local da cultura/cultura local. In: SILVA. D. E. G. et al. (Orgs.). Estudos de linguagem:
inter-relações e perspectivas. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2003. p.159-166.
O ESTATUTO DA PREPOSIÇÃO COM EM
CONSTRUÇÕES COM ALTERNÂNCIA SINTÁTICA
Heloisa Maria M. L. Salles1 Rozana Reigota Naves2 RESUMO: O presente estudo examina construções em que a
preposição COM introduz um argumento realizado com o papel temático de Instrumento. Verifica-se que os predicados rele-vantes admitem mapeamento sintático em que o argumento interpretado como instrumento ocorre em diferentes funções sintáticas: ora como sujeito ou argumento oblíquo (no caso dos causativos e dos psicológicos), ora como complemento direto ou indireto (no caso dos locativos). Adotando-se uma abor-dagem em termos da estrutura léxico-conceitual dos verbos, postula-se que a preposição COM constitui marcador grama-tical do estatuto argumental do sintagma que introduz.
PALAVRAS-CHAVE: Alternância Instrumental,
Copredica-ção, Núcleo Aplicativo
THE STATUTE OF THE PREPOSITION WITH IN CONSTRUCTIONS WITH SYNTACTIC ALTERNATION ABSTRACT: In this paper we analyse certain constructions
containing the preposition WITH that introduces an argument that is interpreted as the thematic role of Instrument. We observe that in these predicates the argument with the Instrument thematic role can be mapped into different syntactic positions: either as the subject or oblique internal argument position (in the case of causatives and psychological predicates); either as the direct or the indirect complement position (in the case of locative predicates).Taking an approach based on the conceptual-lexical structure of these verbs, we propose that the preposition WITH is a grammatical marker of the argumentative statute of the constituent it introduces.
KEYWORDS: Instrumental Alternation, Co-predication,
Applicative Head
1 Docente e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), com doutorado em Linguística pela University of Wales (1997) e pós-doutorado pela University of Leiden (2007).
2 Docente e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), com doutorado em Linguística pela Universidade de Brasília (2005).
Introdução
Neste estudo examinam-se construções em que a pre-posição COM introduz um argumento realizado com papel temático de Instrumento3, seja no campo denotativo (físico, material) – representado em (1) e (2) –, seja no campo me-tafórico (abstrato, psicológico) – representado em (3). (1) a. A Maria bordou o vestido com lantejoulas. (2) b. A Maria abriu a porta com a chave.
(3) c. O João preocupa a Maria com esse tipo de compor-tamento.
Um fato a respeito dessas construções é que elas admi-tem a alternância sintática entre o constituinte introduzido pela preposição COM e outro constituinte – o objeto, no caso de (1), e o sujeito, no caso de (2) e (3) –, como demonstrado a seguir:
(4) a. A Maria bordou o vestido com lantejoulas. [altern. locativa]
b. A Maria bordou lantejoulas no vestido. (5) a. A Maria abriu a porta com a chave.
[altern. instrumental] b. A chave abriu a porta.
(6) a. O João preocupa a Maria com esse tipo de comporta-mento.
b. Esse tipo de comportamento preocupa a Maria. Acresce-se a esse fato o de que as construções em (5) e (6) ainda admitem uma estrutura intransitiva, em que o argumento interpretado como Tema aparece na posição de sujeito, como ilustram os dados em (7c) e (8c):
(7) a. A Maria abriu a porta com a chave. [altern. causativo-incoativa]
b. A chave abriu a porta.
c. A porta abriu (com a chave).
(8) a. O João preocupa a Maria com esse tipo de comporta-mento.
b. Esse tipo de comportamento preocupa a Maria. [altern. psicológica]
c. A Maria se preocupa (com esse tipo de comportamento). Contrastam, com os dados em (7), as construções em (9). A sentença (9a) se constrói exatamente como (7a), com um sujeito Agente, um objeto Tema e um sintagma Instru-mento, introduzido pela preposição COM. Apesar disso, não admite a alternância instrumental (9b), nem a alternância causativo-incoativa (9c):
(9) a. O João pintou a casa com um rolo. b. *Um rolo pintou a casa.
c. *A casa pintou (com um rolo).
Esse contraste se verifica com outros verbos, em que ou todas as alternâncias são possíveis, ou somente a estrutura transitiva com sintagma Instrumento é gramatical (cf. (10)-(11) versus (12)-(13)):
(10) a. O João quebrou a vidraça com uma picareta. b. A picareta quebrou a vidraça.
c. A vidraça quebrou (com a picareta).
(11) a. O charlatão curou o doente com aquele placebo. b. Aquele placebo curou o doente.
c. O doente se curou4.
(12) a. O Pedro cortou a torta com uma faca. b. *Uma faca cortou a torta.
c. *A torta cortou.
(13) a. A Maria varreu o tapete com a vassoura de piaçava. b. *A vassoura de piaçava varreu o tapete.
c. *O tapete varreu.
Partindo do pressuposto de que a estrutura semântico-lexical dos verbos fornece as informações relevantes para a projeção dos argumentos na sintaxe, pretende-se investigar neste trabalho as seguintes hipóteses:
(i) O sintagma introduzido pela preposição COM nos predicados exemplificados acima tem diferentes
es-4 Considera-se, para efeitos deste trabalho, que a manifestação fonológica (ou não) do pronome se (antipassivo)
tatutos sintáticos em cada grupo de verbos: no grupo que admite as alternâncias, existe uma relação entre o Agente e o Instrumento, a qual se define pela noção de fusão/fissão de papéis temáticos e (opcionalmente) por uma relação de correferencialidade e é mapeada na sintaxe por um mecanismo de copredicação com o verbo, o que propicia a alternância dos dois argumen-tos na posição de sujeito; no grupo que não admite as alternâncias, o sintagma introduzido por COM é projetado por um núcleo lexical e denota a função Instrumento selecionada pelo verbo, sendo sua ma-nifestação independente do argumento externo na configuração transitiva.
(ii) A alternância instrumental e a alternância causativo-incoativa ocorrem com predicados que não selecionam a noção de instrumento em sua estrutura léxico-conceitual ou, inversamente, a presença de traços na estrutura léxico-conceitual do verbo que remeta à noção de instrumento impede a manifestação da variante inco-ativa – essa generalização será retomada e modificada. Um corolário dessa hipótese é o de que a manifestação da variante incoativa pressupõe a realização do predi-cado independentemente de um instrumento – o que corresponde à possibilidade de denotar a causação independentemente de uma causa externa.
Será proposto que, no caso dos predicados do primei-ro grupo, em que ocorrem as alternâncias instrumental e causativo-incoativa, o sintagma Instrumento se vincula estruturalmente ao argumento Agente, os quais são reali-zados por um núcleo funcional aplicativo que introduz dois argumentos considerados argumentos “aplicados” ao predi-cado – havendo a possibilidade de esse núcleo ser realizado como um aplicativo alto ou baixo afetando, respectivamente, a posição de sujeito ou de objeto (direto). Já no caso dos predicados que não alternam, o sintagma Instrumento é se-lecionado pelo verbo, sendo projetado como um argumento independentemente do argumento externo.
O trabalho está desenvolvido da seguinte maneira: na seção 1, discutimos as propriedades sintáticas e semânticas dos predicados que participam das alternâncias, buscando
explicar o contraste de gramaticalidade explicitado pelos dados de (10) a (13) acima; na seção 2, apresentamos a proposta do modelo teórico construcional de fusão/fissão de argumentos, como suporte para a nossa proposta de que Agente e Instrumento se vinculam como argumentos aplicados dos predicados que admitem as alternâncias; na seção 3, desenvolvemos uma proposta de análise para os predicados em foco, em termos das noções de copredicação e de núcleo aplicativo; por fim, na última seção, apresen-tamos as nossas considerações finais e procuramos esten-der a proposta para a alternância locativa, sugerindo que se estabelecem as mesmas relações de copredicação e de fusão/fissão de argumentos, mas implementadas em ter-mos de um núcleo aplicativo baixo, já que os argumentos envolvidos nessa alternância estão contidos internamente ao predicado.
1. Propriedades léxico-conceituais dos
predicados em foco
Foi apresentado na Introdução que um certo grupo de predicados, em que ocorre a projeção de um sintagma Instrumento, participa da alternância instrumental e da alternância causativo-incoativa (cf. dados em (7) repetidos abaixo como (14)).
(14) a. A Maria abriu a porta com a chave. b. A chave abriu a porta.
c. A porta abriu (com a chave).
Tais predicados podem ser caracterizados pela seguin-te observação descritiva: A inseguin-terpretação do Instrumento não é obrigatória, como se depreende de Maria abriu a
porta/A porta abriu – embora em A chave abriu a porta o
argumento na posição de sujeito, sendo um Instrumento, pressuponha um Agente (implícito). Em outras palavras, se o sintagma [COM...] não fosse projetado em (14a), poderia haver uma interpretação em que a Maria tivesse aberto a porta involuntariamente ou mesmo voluntariamente, mas sem se utilizar de um instrumento específico (simplesmente virando a maçaneta, por exemplo). E em (14c), obtém-se a interpretação de que a porta teria aberto por si mesma, ou
a de que uma causa externa (não volitiva), não explicitada, teria feito a porta abrir. O mesmo acontece com os dados (10) e (11) acima.
Essa observação não se aplica, entretanto, aos predi-cados que não admitem as alternâncias instrumental e causativo-incoativa (os dados estão repetidos em (15)): (15) a. O João pintou a casa com um rolo.
b. *Um rolo pintou a casa. c. *A casa pintou (com um rolo).
Nesses casos, a interpretação do Instrumento é obri-gatória, mesmo que ele não esteja manifesto na sentença: Assim, em O João pintou a casa, pressupõe-se que o Agente tenha se utilizado de um instrumento próprio para esse tipo de pintura, que é possivelmente diferente do instrumento apropriado para a pintura de telas, por exemplo. O mesmo vale para os dados (12)-(13): ainda que não se explicite lexicalmente o Instrumento, sabe-se que o Pedro deve ter se utilizado de um para cortar a torta e que a Maria deve também ter se utilizado de algo para varrer o tapete.
Com esse contraste, é possível definir condições para a ocorrência da variante incoativa em termos da presença/ ausência de traços selecionais no verbo para a função Ins-trumento: a ausência de traços selecionais para o argumen-to Instrumenargumen-to no verbo é condição para a manifestação da variante incoativa – somente nesse caso é possível construir a denotação independentemente da Causa/Causador; inver-samente, na presença de traços lexicais para Instrumento, a variante incoativa é bloqueada.
1.1. Sobre a interpretação obrigatória (ou não) de
Instrumento
A observação de que, com verbos como pintar, a noção de instrumento é obrigatoriamente realizada nos traços lexicais do verbo, mesmo quando não está manifesta nas construções por meio de um sintagma instrumental, con-trariamente ao que ocorre com verbos como abrir, pode ser analisada sob uma perspectiva semântica e sob uma perspectiva morfológica.
Com relação à perspectiva semântica, identifica-se que, nos predicados que têm a noção de instrumento representa-da em sua estrutura léxico-conceitual, a manifestação desse argumento produz obrigatoriamente uma leitura de lista: (16) O João pintou a casa com um rolo, não com um pincel,
nem com spray.
Nos casos em que o verbo não apresenta em sua estru-tura léxico-semântica traços que introduzem uma variável de Instrumento, supõe-se que a presença do Instrumen-to é determinada por faInstrumen-tores independentes: assume-se, conforme sugerido, que o argumento Causa/Causador é introduzido por um morfema aplicativo, realizado como um operador do tipo COM, estando sua manifestação associada à presença de uma causa externa. Em (17), a ausência do sintagma Instrumento resulta em ambiguidade quanto ao caráter intencional ou não da causa, o que remete à noção de causa interna vs. causa externa: em João quebrou a
vidraça, a causa pode ter origem intencional ou acidental,
enquanto em João quebrou a vidraça com a picareta, so-mente a interpretação de causa intencional está disponível, e seu corolário, que é a interpretação de causa externa. Nesse sentido, pode-se dizer que o sintagma COM é sele-cionado na relação com o argumento Causa/Causador e não na relação com o predicado. Nesse caso, o argumento que realiza a função de Instrumento também corresponde a uma leitura de lista.
(17) O João quebrou a vidraça com uma picareta.
Com relação à perspectiva morfológica, verifica-se que um conjunto significativo de verbos que apresentam a noção de instrumento codificada em suas propriedades lexicais são denominais, formados a partir do nome do instrumen-to: escovar, encerar, ensaboar, filtrar, lixar, pentear, regar,
rastelar. Verbos denominais, ao serem formados por nomes
que denotam instrumentos, deveriam confirmar a hipótese de se articularem com argumentos introduzidos por COM, uma vez que, do ponto de vista interpretativo, apresentam uma especificação quanto ao tipo de instrumento. É o que ocorre com escovar, por exemplo, em que as alternâncias instrumental e causativo-incoativa não ocorrem:
(18) a. O funcionário escovou o terno com a escova de plástico.
b. *A escova de plástico escovou o terno. c. *O terno escovou.
No entanto outros verbos denominais trazem questões adicionais para a discussão, as quais parecem entrar em conflito com o que acabamos de dizer – embora o conflito seja aparente. É o caso dos dados a seguir, em que se supõe a formação enfeitar [prover X COM enfeite] e envenenar [prover X COM veneno], adotando-se uma versão de Hale e Keyser (1993; 2002) para a formação de denominais: (19) a. Os comerciantes enfeitaram as lojas com arranjos
de Natal.
b. Os arranjos de Natal enfeitaram as lojas. c. As lojas *(se) enfeitaram.
(20) a. O João envenenou o gato com o cianureto. b. O cianureto envenenou o gato.
c. O gato *(se) envenenou.
De acordo com o contraste estabelecido até aqui, os dados se alinham com aqueles em que o argumento Instru-mento pode ser realizado na posição de sujeito – note-se o paralelo com os dados em (10) e (11). Dado o processo de formação denominal e considerando-se a análise anterior quanto à presença dos traços lexicais (de Instrumento) no verbo, a expectativa seria a de que tais formas bloque-assem a variante incoativa e a realização do Instrumento na posição de sujeito da variante transitiva (alternância instrumental).
A conclusão imediata é a de que verbos denominais apontam para um contraste interno, definido em termos da possibilidade de o nominal de que são formados ser um instrumento capaz de entrar, ou não, na estrutura léxico-semântica do predicado como introdutores da variável que seleciona o argumento Causa/Causador. Nesse aspecto,
escovar distingue-se de enfeitar, em relação ao papel dos
nominais escova e enfeite: o segundo, mas não o primeiro, representa um nominal que corresponde a um instrumen-to com propriedades de desempenhar o papel temático de
Causa/Causador. De fato, enfeite, diferentemente de escova, denota uma entidade que apresenta propriedades semân-ticas tais que permitem que o próprio nominal receba uma interpretação de Causa/Causador – embora um agente (implícito) esteja presente.
A discussão sobre a formação dos denominais (cf. o de-bate construcionista vs. lexicalista), entretanto, desvia o foco da presente análise que se limita, neste ponto, a dizer que os verbos denominais, precisamente por apresentarem em sua formação um nome que denota o instrumento, admitem a possibilidade de gerar elementos para os dois grupos de verbos – para os que admitem as alternâncias e para os que não as admitem. Diferentemente, no caso dos predicados não-denominais como pintar/cortar, em que não há espe-cificação quanto à natureza semântica do instrumento na estrutura morfológica do predicado, mas que apresentam, em sua estrutura léxico-conceitual, uma variável (a qual é inespecificada) que liga um argumento interpretado como Instrumento, a generalização se sustenta quanto à impos-sibilidade de participar das alternâncias, estando excluída a interpretação em que o Instrumento é interpretado como Causa/Causador. Nesse caso, o argumento Instrumento é introduzido na configuração preposicional e manifesta uma interpretação de lista. Com essa análise, a relação entre o argumento interpretado como Causa/Causador e o nome que participa da formação do verbo denominal é definida, composicionalmente, na configuração sintática que postu-lamos estar acessível, desde que condições formais sejam acionadas, as quais, como antecipamos, estão relacionadas à manifestação do núcleo funcional aplicativo introduzido por COM, questão essa que será retomada.
Em suma, essas evidências levam à conclusão de que a noção de instrumento está necessariamente presente na es-trutura léxico-conceitual dos predicados que não alternam, mas não está presente na estrutura léxico-conceitual dos predicados que alternam. É, portanto, a presença do papel temático Instrumento na estrutura argumental de certos verbos que impõe restrições à alternância instrumental (em maior ou menor grau) e à alternância causativo-incoativa desses predicados.
1.2. Estendendo a discussão para os predicados
psicológicos
Vimos que, no caso dos predicados causativos em que se verificam as alternâncias instrumental e causativo-incoati-va, os argumentos Agente-Instrumento são mapeados por meio de um núcleo funcional aplicado ao predicado – numa estrutura de copredicação a ser explicitada na seção 3. Nes-te ponto, explora-se a possibilidade de que tal análise seja estendida aos verbos psicológicos, em que se constata um tipo de alternância semelhante ao da alternância causativa (cf. dados em (8), repetidos em (21) abaixo, com adaptações para a discussão que se coloca nesta seção):
(21) a. O João preocupa a Maria com o seu comportamento. b. O comportamento do João preocupa a Maria.
c. A Maria se preocupa (com o comportamento do João). A alternância psicológica propriamente dita é aquela que se observa nas sentenças (21b) e (21c), em que o argumento Experienciador (a Maria) ora se apresenta como objeto ora como sujeito. Quando o Experienciador é sintaticamente o objeto, o argumento sujeito recebe o papel temático de Causador (CROFT, 1993; PESETSKY, 1995). O fato é que esse argumento Causador pode ocorrer de forma disjunta, como ilustrado em (21a), em que o sintagma [COM...] apre-senta uma relação com o sintagma sujeito, considerada aqui como sendo uma leitura instrumental de tipo metafórico, abstrato (o próprio comportamento é “utilizado” por João para preocupar a Maria). Dado que os predicados psico-lógicos admitem as alternâncias instrumental (cf. (21b)) e causativo-incoativa (cf. (21c)), considera-se que eles se comportam como os verbos da classe de abrir, descritos acima, ou seja, os verbos da classe de preocupar não te-riam a noção de instrumento como parte da sua estrutura léxico-conceitual.
Com respeito especificamente à relação Agente-Instru-mento, a estrutura (21a), com o argumento Causador (o
João) associado a um sintagma Instrumento (com o seu com-portamento) fornece uma evidência estrutural importante
entre o sintagma Instrumento e o argumento sujeito. Os dados em (22) exemplificam essa propriedade:
(22) a. O Joãoi preocupa a Maria com o seui comportamento. b. *O Joãoi preocupa a Mariaj com o seuj comportamento. c. *O João preocupa a Maria com o comportamento do
Pedro5.
A exigência de correferência entre o sintagma Instru-mento e o arguInstru-mento sujeito não se aplica aos predicados que não alternam (aqueles em que o Instrumento faz parte da estrutura argumental dos verbos), como se observa em (23) e (24):
(23) a. O Joãoi pintou o filho com o seui pincel. b. O João pintou o filhoj com o seuj pincel.
(24) a. O Joãoi envenenou a Maria com os seusi comprimidos. b. O João envenenou a Mariaj com os seusj comprimidos.
O contraste entre (22), de um lado, e (23)-(24), de outro lado, permite concluir que os sintagmas Instrumento des-ses predicados possuem estatutos distintos com relação à projeção sintática em que ocorrem. Em particular, consi-dera-se que a configuração em que é projetado o sintagma introduzido pela preposição COM na estrutura com o verbo psicológico propicia a ligação anafórica ilustrada em (22).
2. Uma hipótese para o mapeamento de
argumentos em diferentes posições
sintáticas: fusão/fissão de argumentos
A análise que será proposta para os predicados em ques-tão se baseia fortemente na noção de composicionalidade da semântica da sentença. Segundo esse tipo de abordagem, a interpretação das sentenças depende fortemente das relações entre os itens lexicais e suas estruturas léxico-conceituais. Em termos nocionais, para dar conta da
dis-5 Essa sentença poderia ser considerada gramatical na interpretação de que o João causa preocupação em Maria ao, por exemplo, contar a ela sobre o comportamento do Pedro. Entretanto, se a interpretação for essa, é o comportamento do Pedro que efetivamente causa preocupação em Maria. Na interpretação de que é o João que causa preocupação em Maria, pressupõe-se a elipse de parte do sintagma Instrumento (O Joãoi preocupa a Maria com (o seui relato sobre) o comportamento do Pedro), em que se observa a correferência
tinção, demonstrada anteriormente, de que o Instrumento ora se configura como uma variável prevista na estrutura léxico-conceitual dos verbos, bloqueando a alternância sin-tática, ora se associa ao argumento Agente, possibilitando o mapeamento ou do Agente ou do próprio Instrumento na posição de sujeito da sentença, adota-se, neste trabalho, a noção de fusão/fissão de argumentos utilizada nos modelos construcionais da teoria gramatical.
O termo fusão é empregado nessa teoria como referên-cia ao mecanismo pelo qual os falantes inferem relações de correferência entre os argumentos da construção e os papéis temáticos dos participantes, atribuídos pelo verbo. Os papéis temáticos são, nesse sentido, instâncias mais específicas dos argumentos. Goldberg (1995 apud MICHAELIS e RUPPE-NHOFER, 2001, p. 41) propõe que a fusão de argumentos seja restringida pela Condição de Participante Compartilhado, de acordo com a qual pelo menos um argumento da construção tem de ser fundido a um papel temático do verbo.
A ideia central de que este trabalho se valerá para im-plementar uma proposta de análise das construções com alternância instrumental é a de que um único argumento (em termos das posições previstas na estrutura léxico-conceitual dos verbos) pode ser projetado como dois sin-tagmas interdependentes (correferentes, em sentido lato), na estrutura sintática. Daí a utilização do termo fissão, associado ao termo fusão.
Sendo assim, em predicados do tipo abrir (causativo) e
preocupar (psicológico), projeta-se um núcleo aplicativo na
posição de sujeito (como será implementado na próxima seção), contendo os argumentos Agente/Causador e Ins-trumento, o que estaria contemplado na noção teórica de fusão dos argumentos.
3. Uma análise em termos de copredicação
Nesta seção, passamos a discutir o mapeamento sintático da projeção introduzida pelo núcleo dito aplicativo, o qual, por hipótese, introduz (até) dois argumentos na projeção do predicado. A aplicação dos argumentos ao predicado pode ser definida em termos de um processo de copredicação, a
que se associa a noção de atribuição de composicional de papel temático.
A noção de atribuição composicional de papel temático foi usada na literatura primordialmente na caracterização da relação entre o verbo e a preposição em configurações de objeto indireto. É assim que construções do tipo promise
NP-PP são caracterizadas em Chomsky (1981, p. 93): “[…]
each lexical element alpha assigns a theta role to every NP or clause in its complement (if there are any) including NP in PP linked to alpha, in which case the theta role will be de-termined compositionally by alpha and the P head of PP”.
Outras abordagens consideram o papel semântico e sin-tático da preposição. Marantz (1984), por exemplo, discute a interpretação de instrumentais, em configurações como em (25), em oposição a (26), assumindo como basicamente correta a afirmação de Dick Carter (apud MARANTZ, 1984, p. 17) de que, no par (25a-26a), “[...] it is wrong to look at the preposition ‘with’ as assigning some instrumental role inherently associated with the preposition”, considerando que é o predicado introduzido por unlock que atribui o papel temático de instrumento ao sintagma a key.
(25) a. Elmer unlocked the porcupine’s cage with a key. b. Elmer examined the inscription with the magnifying
glass.
(26) a. A key unlocked the porcupine.
b. *The magnificent glass examined the inscription.
O contraste em (25) e (26) é tomado como evidência sintática para a afirmação de que o papel semântico de instrumento varia dependendo do tipo de verbo com que o sintagma ocorre. Marantz (1984) distingue a atribuição de um papel semântico a um constituinte do fato de esse constituinte ocorrer como um argumento de um predicado: argumentos diretos de predicados têm seu papel temático atribuído pelo próprio predicado, enquanto argumentos indiretos não recebem seu papel temático do predicado que os toma como argumentos. Marantz propõe então que as preposições sejam definidas como uma categoria lexical que pode funcionar como um núcleo de PP ou como um atribui-dor de papel temático, sem uma estrutura argumental.
A noção de atribuição composicional de papel temático e seu correlato sintático, tal como apresentado por Marantz (1984), recebeu diferentes tratamentos teóricos. Um as-pecto convergente nas análises é o reconhecimento de que existem argumentos que são introduzidos na configuração por meio de preposição – o chamado argumento oblíquo – cujas propriedades sintáticas remetem à discussão quanto à assimetria complemento e adjunto. Entre os casos que se enquadram nessa situação, constam os chamados ar-gumentos benefactivos e os instrumentais. Na presente análise, adota-se a noção de copredicação para caracterizar a situação em que o argumento (oblíquo) é selecionado por um predicado (WECHSLER, 1995).
Em particular, propõe-se que o sintagma Instrumento ocorre em duas configurações sintáticas distintas, as quais interagem com a manifestação da chamada alternância ins-trumental e causativo-incoativa: (i) a configuração introduzida por um núcleo lexical – a preposição [COM] –, com estrutura argumental própria, caso em que ocorre como modificador do predicado; (ii) a configuração introduzida por um núcleo funcional – o núcleo aplicativo [COM] – em que são projetados dois argumentos – o Agente e o Instrumento –, cuja mani-festação, pelas características formais do núcleo aplicativo, admite a possibilidade de realização simultânea ou alternada deles mesmos. A manifestação do processo em (ii) possui dois correlatos que são a noção de fusão/fissão de papéis temáti-cos, discutida na seção anterior, e a noção de copredicação. A postulação do núcleo aplicativo, por sua vez, vem asso-ciada à tradição que investiga a presença do chamado morfe-ma aplicativo em línguas como o chichewa, da família Banto. Na presença do morfema aplicativo no verbo/predicado, além do objeto direto do verbo, é possível realizar um argumento adicional como um sintagma nominal, associado ao papel temático de Meta – conforme ilustrado em (27), em oposição a (28), em que o argumento interpretado como Meta ocorre em uma configuração oblíqua. Os exemplos a seguir são do chichewa e foram retirados de Baker (1988, p. 229):
(27) Ndi-na-tumiz-ir-a mfumu chipanda cha mowa 1s-PAST-send-APPL-ASP chefe calabash of beer ‘I sent the chief a calabash of beer’
(28) Ndi-na-tumiz-a chipanda cha mowa kwa mfumu 1s-PAST-send-ASP calabash of beer to chief
‘I sent a calabash of beer to the chief’
Tais dados remetem particularmente à presença do chamado argumento benefactivo e sua relação com a ques-tão da alternância dativa, recorrentemente discutida na literatura. Conforme referido anteriormente, a distribuição do argumento benefactivo tem sido associada à noção de copredicação.
Em estudos recentes, o morfema aplicativo tem sido analisado como um recurso de ampliação de valência, o que explica a referência ao(s) argumento(s) que introduz como argumento(s) aplicado(s). Na presente abordagem, assume-se uma perspectiva construcionista, em que os papéis temáticos se depreendem da relação entre os núcleos sintáticos determinados pela projeção da raiz do predicado, e os núcleos aplicativos são inseridos como itens funcionais em termos de propriedades definidas na configuração sintá-tica do predicado (HALE e KEYSER, 1993; 2002; MARANTZ, 1993; PILKKÄNEN, 2002; BORER, 2005).
Em particular, no que se refere à alternância instrumen-tal, propõe-se uma configuração como em (29) para a projeção do núcleo aplicativo COM e seus argumentos. A projeção do núcleo aplicativo COM é realizada na projeção do predicado
abrir como um núcleo aplicativo alto, em uma configuração de
adjunção, a qual, por hipótese, corresponde ao mapeamento sintático da relação de copredicação (cf. (30)).
(29) AplP
^
João Apl’
^
COM a picareta
(30) [TP João [T’ abriu [VP [AplP (João) [Apl’ COM [a picareta]]] [VP
(abriu) [DP a porta]]]]]
A realização do núcleo aplicativo alto na projeção do predicado, tal como ilustrada em (30), encontra-se em dis-tribuição complementar com a realização do argumento
Instrumento introduzido pelo núcleo lexical COM, nos casos em que tal configuração liga uma variável associada ao ins-trumento introduzido pelo predicado, a qual é interpretada em uma leitura de lista, conforme mencionado na seção 1. Ficam em aberto os detalhes da implementação técnica da configuração em (30), mas ressalta-se que a ordem pode ser obtida mediante movimento remanescente do VP para uma configuração acima do núcleo aplicativo.
Na configuração em (30), o argumento interno do pre-dicado abrir é licenciado in situ, recebendo caso acusativo inerente, enquanto os argumentos da projeção do núcleo aplicativo estão disponíveis para ocorrer na posição sintática associada ao caso nominativo – o que pode ser realizado seja pelo argumento Agente, seja pelo argumento Instru-mento. Propõe-se que, nessa configuração, manifesta-se a fusão/fissão de argumentos que dá origem às duas va-riantes da alternância instrumental, cabendo determinar as condições que levam à ocorrência da variante com um dos argumentos apenas. Em particular, cabe determinar o estatuto do argumento Agente, apagado na variante com o instrumento na posição de sujeito, mas realizado implici-tamente, como se depreende do fato de que a presença do argumento Instrumento impõe a leitura de causação por uma causa externa. Considera-se que a implementação des-sas propriedades na sintaxe permitirá captar a assimetria observada nos dados a seguir, em relação à ocorrência da voz passiva, por exemplo:
(31) a. João viu Pedro com o binóculo.
b. Pedro foi visto por João (com um binóculo). (32) a. João abriu a porta com uma chave.
b. A porta foi aberta por João (com uma chave). c. A chave abriu a porta.
d. A porta foi aberta (*pela chave)/(com a chave).
Considerações finais e extensão da proposta à
alternância locativa
O presente estudo examinou o estatuto da preposição COM em construções com alternância sintática, conside-rando-se particularmente o sintagma com papel temático
de Instrumento. Na discussão, partiu-se dos contextos de alternância instrumental e de alternância causativo-inco-ativa, propondo-se que a manifestação das alternâncias é determinada pela ausência, no predicado, de propriedades léxico-conceituais associadas à ocorrência do papel temático de Instrumento. Um correlato dessa restrição é a possibi-lidade de o predicado projetar a variante incoativa, a que se associa (necessariamente) a noção de causa interna. A presença do argumento interpretado como Instrumento é então obtida por um processo de copredicação, mediante a realização de um núcleo aplicativo (alto) na projeção do predicado.
Nesse sentido, postulou-se que o sintagma COM ocor-re em duas configurações: (i) como um núcleo funcional aplicativo (alto), em que se realizam os argumentos Agente e Instrumento; (ii) como um núcleo lexical que introduz o argumento Instrumento, o qual liga uma variável introdu-zida pelas propriedades léxico-conceituais do predicado, a que se associa uma leitura de lista.
A análise foi então estendida para os predicados psico-lógicos. Mediante a identificação de semelhanças sintáticas em relação à manifestação da alternância psicológica e à distribuição do argumento introduzido pela preposição COM nesses predicados, concluiu-se que a variante cau-sativa desses predicados pode ser analisada em termos de uma configuração de copredicação, envolvendo o predicado psicológico e um núcleo aplicativo. Tal análise se confirma por fenômenos de ligação anafórica, em que se verifica a orientação obrigatória para o Agente, o que sugere que a anáfora e o antecedente encontram-se em uma configuração sintática fixa, a qual, por hipótese, corresponde à projeção do núcleo aplicativo.
Muitas questões permanecem em aberto, notadamen-te no que se refere à implementação técnica da estrutura sintática associada ao núcleo aplicativo. Neste ponto, esta pesquisa se limita a reter os contrastes empíricos como um ponto de partida na investigação da hipótese de trabalho, em que se supõe a possibilidade de distinguir dois tipos de configuração associados à realização sintática do papel temático de Instrumento introduzido pela preposição COM.
Ainda em relação a tal configuração, resta mencionar o caso da alternância locativa, apresentada na introdução (cf. (1)), no contraste com os demais tipos de alternância, para a qual se sugere que seja também analisada em termos da presença de um núcleo aplicativo, nesse caso em realização sintática baixa, na projeção interna do VP. Nesse aspecto, tal caso se alinha com a chamada alternância dativa, para a qual existe, na literatura, tratamento teórico em termos da presença de um núcleo aplicativo baixo (MORAIS, 2006). Esse caso fica para investigação futura.
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TERMINOLOGIA APLICADA:
PERCURSOS INTERDISCIPLINARES
Maria Aparecida Barbosa1 RESUMO: Este é um estudo sobre as relações entre a
inter-disciplinaridade e a especificidade de objeto das disciplinas que se ocupam da palavra. Em função de uma renovada tipologia dos universos de discurso, assinala a necessidade de consolidação de disciplinas como a Terminologia Aplicada e a Etno-terminologia; destaca os processos de banalização, vulgarização, popularização de linguagens especializadas, enquanto importantes mecanismos de circulação e difusão do conhecimento; enfatiza a adequação dos discursos a di-ferentes grupos de destinatários, a comunicação entre espe-cialistas e não espeespe-cialistas, os distintos níveis de linguagem envolvidos e algumas decorrências transdisciplinares.
PALAVRAS-CHAVE: Etno-terminologia, Léxico,Terminologia
Aplicada
APPLIED TERMINOLOGY:
INTERDISCIPLINARY PATHS
ABSTRACT: This is a study about the relationship between
the interdisciplinarity and the specificity of the disciplines that deal with words. As a consequence of a renewed typology of the universes of discourse, it points out the need of consolidation of disciplines such as Applied Terminology and Ethno-terminology; it is also points out the process of banalization, vulgarization, and popularization of specialized languages that are important mechanisms of circulation and diffusion of knowledge; it emphasizes the discourse adequacy to different groups of addressees, the communication between specialists and non-specialists, the distinct language levels involved and some transdisciplinary results.
KEYWORDS: Ethno-terminology, Lexicon, Applied
Terminology
1 Professora Titular do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.