VIII
TROMBOEMBOLISMO VENOSO
Diana Taissa Sampaio Marinho
Dinarte César Sampaio Marinho
Ricardo Luiz Oliveira Alves
1. INTRODUÇÃO
Tromboembolismo venoso (TEV) é o termo comumente emprega-do para designar ambas as eventualidades (Trombose Venosa Profunda - TVP e Embolia Pulmonar - TEP) indistintamente.
A obtenção de dados epidemiológicos dos eventos tromboembólicos é um desafi o, em função das difi culdades de confi rmação diagnóstica, fi cando sempre a impressão de que nem todos os casos são computados. Com esta ressalva em mente, os estudos, em média, mostram uma inci-dência de eventos tromboembólicos de 71 casos por 100.000 habitantes por ano, dos quais dois terços constituem-se apenas de TVP e um terço de TEP associado.
O TEV é responsável por aproximadamente 10% dos óbitos hospi-talares. Além disso, o risco de TVP aumenta cerca de oito vezes em pa-cientes internados. Dessa forma, sem profi laxia adequada, 40-60% dos pacientes cirúrgicos e clínicos de alto risco desenvolvem TVP.
Quase todos os pacientes hospitalizados têm pelo menos um fator de risco para TEV e cerca de 40% têm três ou mais fatores de risco. Somente cerca de 1/3 dos pacientes hospitalizados com fatores de risco para desenvolver trombose recebem profi laxia adequada.
Com a introdução dos métodos adequados de profi laxia, há uma re-dução de 50% na incidência de TEV.
2. FATORES DE RISCO
A trombose intravascular ocorre quando um ou mais dos três com-ponentes da chamada tríade de Virchow encontra-se alterado: Estase venosa, dano do endotélio vascular, estado de hipercoagulabilidade.
Diversas condições clínicas, hereditárias ou adquiridas, atuam sobre a tríade de Virchow e constituem os fatores de risco para os eventos tromboembólicos de acordo com as especifi cações a seguir.
Fatores de risco relacionados à TEV
Adquiridos Hereditários
Idade avançada Defi ciência de antitrombina III
Obesidade Defi ciência de proteína C e S
Imobilização prolongada Protrombina mutante 20210-A
Neoplasias Fator V Leiden
Gravidez/puerpério Hiper-homocisteinemia
Reposição hormonal Disfi brinogenemia
Cirurgia/trauma Anticoagulante lúpico
Síndrome nefrótica Anti-cardiolipina
3. PROFILAXIA
Em pacientes cirúrgicos, a chance de desenvolvimento de trombo-embolismo venoso (TEV) depende da idade do paciente, tipo de cirur-gia e da presença de fatores de risco associados.
Fluxograma 13: Estratifi cação do risco de TEV [5]
Risco alto
P
o
rte médio e alto
Ar tr oplastia de joelho Ar tr oplastia de qua dr il F ratura de quadr il Oncológic a curativa T rauma r aquimedular P olitrauma de TV P Endoscópic a L apar oscópic a S uperficial (mama, plástic a, dermatológic a) Of talmológic a O utra* R ISC O AL T O Contr aindic aç ão ? P rofilaxia R ISC O I N T E RME DIÁR IO R ISC O B AIX O Métodos f ísicos Deambulaç ão Q uimiopr
ofilaxia não indic
ada * Cir urgias menor es e que não a carr etem interna çã o pr olo ngada e/ou r estr iç ão da mobilidade: cir urgias de c abeç a e pescoço para condições benignas, pr ocedimentos ginecológicos e ur ológicos simples, co mo r etir
ada de cisto ovar
iano ou r essecç ão transur etral de pr óstata, cir urgias or topédic as de ombr os e membr os super ior es, cir urgias de membr os infer ior es distais ao joelho , ar tr oscopia de joelho
, biópsia pulmonar a céu aber
to , pr ocedimentos vascular es não co mplic ados, etc. P equeno por te co m dur aç ão < 60’ e internaç ão < 2 dias ≥ 60 anos 41-59 anos ≤ 40 anos F ator es de r isco para T E V? F ator es de r isco para T E V?
Seguem especifi cações da estratifi cação de risco:
Estratifi cação de risco tromboembólico e profi laxia recomendada [2] RISCO PROFILAXIA
Baixo <10% Deambulação precoce.
Profi laxia medicamentosa não indicada.
Intermediário 10-40%
Heparina não fracionada (HNF) 5000UI 12/12 Horas; enoxaparina 20mg 1x ao dia; dalteparina 2500UI 1x ao dia; nadroparina 1900-3800UI 1x ao dia; ou fraxiparina 2850UI 1x ao dia
Alto 40-80%
HNF 5000 UI 8/8 horas; enoxaparina 40mg 1x Ao dia; dalteparina 5000UI 1x ao dia; nadroparina 2850UI-5700 UI 1 x ao dia; ou fraxiparina 2850UI 1x ao dia
3.1. Contraindicações a profi laxia
Absolutas Hipersensibilidade às heparinas; Plaquetopenia induzida por heparina; Sangramento ativo.
Relativas
Cirurgia intracraniana ou ocular recente; Coleta de LCR nas últimas 24 horas;
Diátese hemorrágica (plaquetopenia ou INR>1,5); Hipertensão arterial não controlada (>180x110 mmHg); Insufi ciência renal (clearence < 30 mL/ min);
Úlcera péptica.
3.2. Profi laxia com métodos mecânicos
Tipos Dispositivos mecânicos de compressão pneumática intermitente; Bombas plantares.
Indicações
Risco de TEV aumentado com contraindicação à profi laxia medicamentosa;
Alto risco: associação dos dois métodos (heparina e mecânico).
Contraindicações Fratura exposta;
Infecção ou úlcera em membros inferiores;
Insufi ciência arterial periférica de membros inferiores; Insufi ciência cardíaca grave.
3.3. Duração
A profi laxia deve ser mantida por 7 a 10 dias mesmo que o paciente tenha alta ou volte a deambular;
Artroplastia e fratura do quadril: 4-5 semanas; Artroplastia do joelho: pelo menos 10 dias; Oncológica: 3-4 semanas;
Trauma: ate a recuperação. Demais: 7-10 dias.
4. DIAGNÓSTICO
4.1.
Apresentação clínica da TVP
Sinal de Homan; Sinal de Bandeira e Sinal de Bancroft; Edema de membros inferiores (uni ou bilateral);
Assimetria entre as circunferências das panturrilhas/tornozelos; Eritema e/ou dolorimento local;
Cordão varicoso palpável.
A seguir, especifi cações da probabilidade clínica de TVP.
Probabilidade clínica de TVP
CRITÉRIOS CLÍNICOS PONTOS
Câncer ativo 1
Paralisia, paresia ou imobilização de membros 1 Acamado por >3 meses ou cirurgia de grande porte nos últimos 3 meses 1 Empastamento localizado, ao longo do sistema venoso profundo 1
Edema da perna inteira 1
Edena de panturrilha 3cm maior que lado assintomático (medido 10
cm abaixo da tuberosidade da tíbia) 1
Edema confi nado a perna sintomática 1
Veias superfi ciais colaterais (não varicosas) 1 Diagnóstico alternativo pelo menos tão provável quanto TVP -2
PROBABILIDADE CLÍNICA TOTAL
Baixa 0
Intermediária 1-2 Alta 3-8
4.2. Apresentação clínica do TEP
Dispneia aguda; Infarto pulmonar: Geralmente com dor torácica, hemoptise auto-limitada. Mais frequente em idosos com doença cardíaca de base; Cor pulmonale agudo (TEP maciço): Síncope, instabilidade
he-modinâmica e falência cardíaca;
Seguem abaixo especifi cações da probabilidade clínica de TEP,
Probabilidade clínica de TEP
SCORE DE WELLS PONTOS
Evento prévio de TEV 1,5
FC >100 bpm 1,5
Cirurgia recente ou imobilização 1,5
Sinais clínicos de TVP 3,0
Diagnósticos alternativos menos prováveis do que TEP 3,0 Hemoptise 1,0 Câncer 1,0
PROBABILIDADE CLÍNICA TOTAL
Baixa 0-1 Intermediária 2-6 Alta 7-12,5
4.3. Exames complementares
D-dímero (método ELISA)
Exceto quando a probabilidade clínica é alta (pode estar ele-vado em pós-operatório, trauma, sepse, neoplasia e infarto do miocárdio). Importante para excluir TEV. Mas quando positivo não confi rma.
F luxog rama 14 : Algor itmo de diadiagnódtico de T V P P robabilidade pr é-teste (escor e de W ells) Alta Nã o Baixa ou moderada Si m P acientes hospitaliz ados (independente da pr obabilida de pr é-teste)
Já pode iniciar hepar
iniz aç ão Ida USG - Doppler Si m N o rmal: r epetir dentr o de 5-8 dias. Considerar v enografia Cir urgia de A normal: confirma T V P Cir urgia de > 500: faz er USG - Doppler Nã o N o rmal: ex clui N o rmal: r
epetir USG dentr
o de 5-8 dias se pr obabilidade modera da e desc ar tar T VP se pr obabilidade baixa Cir urgia de Iniciar inv estigaç ão co m D-dímer o Si m
F luxog rama 15 : Algor itmo de diagnóstico de T E P S uspeita c línic a de T E P P robabilidade c línic a baixa/moder ad a P robabilidade c línic a alta D-Dímer o (E L ISA) Consider ar início de tratamento N egativ o D-Dímer o (E L ISA) R aio-X tórax T E P exc luído A normal N o rmal A ngio-T C ou Angiografia Indif er ente Cintilografia N o rmal P robabilidade clínic a alta N ão tratar T E P pr esente T ratar Indeterminado Inv estigar N o rmal Alta pr obabilidade Indeterminado N ão tratar T ratar Inv estigar
Gasometria
Hipoxemia (PaO
2<80mmHg), hipocapnia (PaCO2<33mmHg)
e alcalose respiratória (pH>7,45).
Eletrocardiograma
Padrão S1Q3T3 (S proeminente em D1 e presença de Q e in-versão de onda T em D3);
Sobrecarga de ventrículo direito.
Radiografi a de tórax (PA e perfi l)
Sinal de Westermark: diminuição do fl uxo sanguíneo (oligoe-mia);
Corcova de Hamptom: imagem hipotransparente em forma de cunha sobre o diafragma (infarto pulmonar);
Sinal de Palla: ingurgitamento da artéria pulmonar; Derrame pleural.
USG com doppler
Exame de melhor custo-benefício. Excelente acurácia para os casos proximais. Em pacientes sintomáticos pode ser a investi-gação inicial.
Angio-TC
Negativa exclui TEP exceto quando a probabilidade clínica pré-teste é alta, situação em que a investigação deve prosseguir.
Arteriografi a
Exame padrão-ouro, porém invasivo. Utilizado em casos em que a investigação mostrou-se inconclusiva, formas graves, com instabilidade hemodinâmica, mas com contraindicação para
trombolíticos, pela possibilidade de realização de trombectomia por cateter.
5. TRATAMENTO
5.1. Heparinização plena
Heparina não fracionada, IV, 80UI/kg em bolus seguida por 18UI/Kg/hora de manutenção em bomba de infusão contínu-a(BIC);
Heparina de baixo peso molecular, SC, 1mg/kg 12/12h ou 1,5mg/kg em tomada única diária não excedendo 180mg/dia.
5.2. Objetivos
Atingir TTPa de 60 a 80 segundos (1,5 a 2,5 vezes o valor basal); Dosar TTPa de 6/6h;
Checar plaquetas entre os dias 3 e 5;
Suspender heparina após 4 ou 5 dias de terapia combinada com warfarin se objetivo atingido;
Diluição padrão: 50UI/mL de SF 0,9%. Fórmula para ajuste da BIC para esta diluição:
Velocidade de infusão (ml/h) = Dose de heparina desejada (UI/kg/h) x Peso (Kg) / 50
Iniciar warfarin 5mg/dia. Objetivo: atingir INR entre 2,5-3. Dosar TAP diariamente.
5.3. Duração
Fator de risco reversível: TEV proximal: 6 meses; TEV distal: 3 meses;
Fator de risco não reversível: 12 meses ou a vida toda.
5.4. Tromboembolismo Pulmonar (TEP)
Medidas iniciais
Suporte ventilatório: Hipoxemia deve ser tratada com oxigenio-terapia por máscara e se necessário com ventilação mecânica; Reanimação hemodinâmica: Pacientes hipotensos devem ser
tratados inicialmente com cristaloides e se necessário com ami-nas vasoativas.
Trombolíticos
Indicações Instabilidade hemodinâmica (indicação formal); Disfunção de ventrículo direito (considerar); Má oxigenação persistente (considerar). Contraindicações
Hemorragia ativa; Patologia intracraniana; Cirurgia intracraniana prévia;
Cirurgia prévia com menos de 01 semana. Dose do trombolítico
Estreptoquinase: dose inicial de 250.000 UI IV em 30 min, seguida de infusão IV contínua de 100.000 UI/h por 24h. RtPA (ativador do plasminogêneo tipo tecidual
recombi-nante): 100 mg IV em 2h.
Cirurgia (embolectomia)
Indicações TEP maciço com contraindicação ao trombolítico;
Não resposta a trombólise e permanência da instabilidade hemodinâmica.
LEITURA COMPLEMENTAR
Rizzatti EG, Franco RF. Tratamento do tromboembolismo venoso. Medicina, Ribeirão Preto. 2001;34:269-75.
Geerts WH, Bergqvist D, Pineo GF, Heit JA, Samama CM, Lassen MR, Colwell CW; American College of Chest Physicians. Prevention of venous thromboembolism: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines (8th Edition). Chest. 2008 Jun;133(6 Suppl):381S-453S.
O’Connor MB, O’Sullivan E, Ni Laoire A, Buckley C, Bastaki H, Walsh M, Jaff ar NA, Ni Shuilleabhain M. A re-audit of prevention of venous thromboembolic disease in medical and surgical hospital patients in a single university teaching hospital. Ir J Med Sci. 2012 Mar;181(1):159-60.
Geerts WH, Pineo GF, Heit JA, Bergqvist D, Lassen MR, Colwell CW, et al. Prevention of Venous Th romboembolism: Th e Seventh ACCP Conference on Antithrombotic and Th rombolytic Th erapy. Chest. 2004;126:338-400.
Qaseem A, Snow V, Barry P, Hornbake ER, Tobolic T, Ireland B, et al. Current Diagnosis of Venous Th romboembolism in Primary Care: A Clinical Practice Guideline from the American Academy of Family Physicians and the American College of Physicians. Ann Fam Med. 2007;5:57-62.