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Jornal de popularização científica

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Academic year: 2021

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O Corpo Página 1 04.08.2013

ISSN: 2236-8221

Edição n. 29 Vitória da Conquista, 28.02.2014

[email protected] http://www.marcadefantasia.com/o-corpo-e-discurso.htm O corpo é discurso

Nesta edição, O Corpo é discurso apresenta o GPELD - Grupo de Pesquisa em Linguagem e Discurso. Além disso, O Corpo traz uma entrevista com Adilson Ventura, professor do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, um artigo de Karoline Machado e Regina Baracuhy, da Universidade Federal da Paraíba, um artigo de George Lima, da Universidade do Estado da Bahia, um artigo de Edgley Freire Tavares e Francisco Paulo da Silva, da Universidade do Estado do Rio Gran-de do Norte e notícias ligadas ao universo acadêmico e da Análise do Discurso, no Brasil.

ISSN: 2236-8221

EXPEDIENTE DE O CORPO

Editores

Nilton Milanez Tyrone Chaves Filho

Organizador

Tyrone Chaves Filho

Editoração eletrônica

(MARCA DE FANTASIA) Henrique Magalhães

CONSELHO EDITORIAL Dr. Elmo José dos Santos

(UFBA) Dra. Flávia Zanutto

(UEM) Dra. Ivânia Neves

(UFPA)

Dra. Ivone Tavares Lucena (UFPB)

Dra. Mônica da Silva Cruz (UFMA) Dr. Nilton Milanez

(UESB) Dra. Simone Hashiguti

(UFU))

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práticas diversas e dentro do próprio discurso. Os trabalhos que o Grupo de Pesquisa em Linguagem e Discurso de-senvolve buscam as noções de discurso e sua articulação com os conceitos de memória e identidades, escavam genea-logias de discursos, avaliam a circula-ção e as interpretações de certos dize-res, em diferentes perspectivas e mate-rialidades. A cidade, documentos ofici-ais, artigos jornalísticos, propagandas, mapas são avaliados como produções históricas e políticas, na medida em que a linguagem constitui práticas.

OBJETIVOS

O GPELD constitui-se em um espaço de estudos, elaboração de projetos de pes-quisa e extensão universitária, com o objetivo de promover o fortalecimento do processo de ensino-aprendizagem dos discentes e docentes. Objetiva, den-tre outras coisas, estabelecer interlocu-ção com outros pesquisadores e grupos de pesquisa visando ao aprimoramento dos interesses teóricos e metodológicos do grupo. A principal linha de pesquisa – Discurso, história e memória – tem co-mo objetivo estudar processos de leitu-ra que concebem o texto como um ele-mento atravessado pela História, pelo social, pelo ideológico, e vê o leitor como um sujeito produtor de sentidos, instau-rado em um contexto também histórico, social, ideológico.

AS REUNIÕES

As reuniões do grupo acontecem quin-zenalmente. Os textos são pré-selecionados para leitura. Atualmente o GPELD está lendo Arqueologia do Saber, de Michel Foucault.

PRODUÇÃO

Em 2012 o GPELD promoveu o I Seminá-rio Linguagens, Discursos e Identida-des, em âmbito nacional. O Seminário contou com a presença das professo-ras Maria do Rosário Gregolin (UNESP), na conferência de abertura, e Luzia Neide Coriolano (UEC), na segunda con-ferência. Atualmente, o grupo está rea-lizando o I Ciclo de Estudos do Discur-so: Foucault e a Arqueologia. O Grupo realiza outras atividades como partici-pação em congressos nacionais e in-ternacionais, publicações em periódi-cos, anais de congressos (conferir o Currículo Lattes dos integrantes). Em 2013, o GPELD promoveu a publicação do livro “Messias de papel: a constru-ção discursiva da candidata Roseana Sarney (2009-2010) pelos editoriais de O Estado do Maranhão”, resultado da dissertação de mestrado de um de seus membros. Maiores informações sobre o Grupo, acesse gpeldufma.blogspot.com.br

*****

O GRUPO

O GPELD foi formado em 2008 e reúne professores pesquisadores e alunos dos cursos de Letras e Turismo de diversas instituições. As atividades visam a levar os pesquisadores a debaterem temas concernentes a suas áreas de atuação, fomentar conhecimentos e divulgar re-sultados entre a comunidade acadêmica. As linhas de pesquisa são: a) ensino e aprendizagem de línguas; b) estudos lin-guísticos e culturais; c) literatura e ou-tros saberes; d) discurso, história e me-mória; e) patrimônio, cultura e represen-tações identitárias. Um dos eixos temáti-cos do Grupo são as discussões sobre a relação entre discursos e a construção das identidades locais, na atualidade. No GPELD, os processos discursivos que instauram identidades são avaliados em lugares como o da cultura, em suas am-plas manifestações, patrimônio, educa-ção, turismo, literatura, etc., pois se en-tende que os conceitos são formados por

GPELD - Grupo de Pesquisa em

Linguagem e Discurso

HISTÓRICO

O Grupo de Pesquisa em Linguagem e Discurso do Maranhão (GPELD), do Depar-tamento de Letras, da Universidade Fede-ral do Maranhão é certificado pelo CNPq e integra o Núcleo de Estudos e Pesquisa em Linguagem, Cultura e Identidade-NEPLiCI. O GPELD é coordenado pelas professoras Ilza Galvão Cutrim (líder) e Mônica da Silva Cruz. Os debates promo-vidos pelo Grupo objetivam verificar, na relação entre língua, história e memória, como os discursos e as identidades ir-rompem em diferentes épocas (FOUCAULT, 2008), configurando olhares que se movimentam nas linhas sinuosas da história, instaurando identidades e silenciando memórias, pelo controle de sentidos e heterogeneidades que se ma-terializam em várias e distintas vozes.

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O Corpo entrevista Adilson Ventura

Adilson Ventura da Silva é professor do curso de Letras e do Programa de Pós-graduação em Linguística da Uni-versidade Estadual do Sudoeste da Bahia, UESB,

campus

de Vitória da Conquista, Bahia. Mineiro de Guaxupé, Adilson é doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, onde pesquisou “o sentido da palavra poesia nas ciências da lingua-gem”. Pesquisador da área de Semân-tica e poeta nas horas vagas (nem tão vagas assim), Adilson concedeu uma pequena entrevista ao Corpos

so-bre sua formação, e a poesia. Além disso, trazemos, também, um poema de sua autoria.

*****

O Corpo: Sabemos que no seu

mes-trado e depois no doutorado, o senhor trabalhou com poesia dentro dos estu-dos da linguagem. O senhor poderia nos explicar como esses trabalhos se desenvolveram?

Adilson Ventura: O que motivou estas

pesquisas foi uma questão posta pelo semanticista Eduardo Guimarães em uma aula em que ele retoma Ducrot (linguista francês), para quem tudo na língua é argumentação, menos a poe-sia. Partindo disso, fui estudar o pen-samento de Ducrot para tentar enten-der o porquê dessa posição. Depois, no doutorado, ampliei a questão, devi-do a pouca produção de estudevi-dos lin-guísticos envolvendo alguma questão relacionada à Literatura. Assim fui

observar em alguns estudiosos da lin-guagem o modo como tratam a poesia. Este estudo mostrou uma grande diver-gência, pois alguns estudiosos conside-ram a poesia um lugar privilegiado para

os estudos linguísticos, enquanto ou-tros não levam em conta a poesia. Este estudo me permitiu observar que a poesia é um lugar importante para es-tudar a linguagem, além, é claro, de ter me permitido trabalhar com duas coi-sas que gosto ao mesmo tempo.

O Corpo: Como se dá o processo

criativo dos seus poemas? Racional e meticuloso, como um linguista, ou, co-mo os românticos, fruto da inspiração?

Adilson Ventura: Bom, quanto ao meu

processo criativo, costumo dizer que é

muito maluco. Ele começa com uma inspiração, de preferência nos lugares mais inusitados (por isso o hábito de andar com um bloquinho e uma caneta). Quando não tenho como anotar (como, às vezes, em meio a uma aula), fico repetindo e memorizando até poder escrever. As inspirações geralmente começam a partir de alguma imagem que vejo ou senão com a combinação de alguns sons.

O Corpo: Quais são as suas

princi-pais referências literárias brasileiras e internacionais?

Adilson Ventura: Gosto muito de

sem-pre conhecer novos escritores (não no sentido de serem novos, mas de que eu ainda não conhecia). Mas sempre volto a alguns autores, principalmente Carlos Drummond de Andrade e, principalmen-te, Fernando Pessoa.

O Corpo: Como o senhor visualiza o

panorama da poesia no Brasil hoje?

Adilson Ventura: Essa é uma questão

realmente complicada, pois, no Brasil, temos vários e vários poetas novos. Porém, há a necessidade de se ter mais espaços para circulação de poesias e assim se conquistar mais leitores o que, por sua vez, criará mais espaço e incentivo de mais bons poetas aparece-rem. Ou seja, apesar de sempre surgir muitos poetas, temos que quebrar este círculo vicioso para que a poesia tenha mais espaço. *****

“tudo na

lín-gua é

argumen-tação, menos a

poesia”

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Sinto-me caído em um sonho de Buñuel

com paisagens delirantes de Salvador Dali

esqueço meu nome e grito contente com um transeunte cadáver

que recorta a minha sombra e derrete relógios

e destrói o tempo

Uma mariposa nasce e formigas constroem túneis

fico sem minha mão e brigo comigo ao ver

minhas atitudes meus desejos minha paralisia

Não suporto o desprezo mas corro para a rua e caio

minhas roupas foram jogadas fora e uma multidão se formou

Não quero mais nada repinto sons e as cores voltam

Acordei, é certo, mas o que vale tudo isso

despisto meu desejo e componho uma canção

faço dessa religião um novo (des)compasso

O cansaço chegou: viva!

Mortos podres pobres mortos podres que invadem sonhos alheios

(des)enterraram uma caixa que estava bem

Estacionada no fundo de um inconsciente bem (in)(e)estável

Coveiro distraído que não protege seus pertences

Resistência!

Gosto de palavras de ordem por sua específica (in)utilidade

e que fica ecoando em gritos em gritos em gritos...

não reconheço meu (auto)retrato elitizado

pois já não são meus olhos que sorriem

Te vi correndo na praia esperando a próxima onda

que se aproxima com a primavera entre os dentes

enchentes!

Cheio de esperanças vazias joguei fora meus sentimentos

e rompi um lacre (in)desejável

e morri arrastado por um louco instável que se encontrou consigo mesmo

Uma música constante toca no ar

e perdi minha boca minha voz

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CORPO, MEMÓRIA E IMAGEM: CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS PARA O SUEJEITO MULHER NO DISCURSO

TURÍSTICO OFICIAL BRASILEIRO

Karoline Machado¹

Regina Baracuhy²

Introdução

A identidade é uma construção discursiva, que adquire sentido por meio de sistemas simbólicos (WOODWARD, 2008). Então, nesse clima de Copa do Mun-do no Brasil, muito se discute acerca des-ses vários símbolos que compõem a identi-dade do país. Seriam eles o futebol, o car-naval, o samba e a bunda da brasileira?

A exposição do corpo seminu da mulher está em evidência na mídia, seja na televisão, internet e em revistas, jornais e outdoors, encontramos em toda parte. Podemos visualizá-lo em propagandas, novelas, filmes e reportagens. Os meios de comunicação de massa exercem uma fun-ção central, no sentido de dar ainda mais vazão aos discursos que repetem inces-santemente essa adoração ao corpo.

As propagandas turísticas bra-sileiras oficiais – cujo órgão do governo responsável pela promoção, marketing e apoio à comercialização dos destinos, ser-viços e produtos turísticos do Brasil é a EMBRATUR – seguem a mesma tendência de “espetacularização” do corpo propaga-da pela mídia, principalmente nas campa-nhas que circularam nas décadas de 1970 e 1980, ou seja, mesmo com toda a diversi-dade de imagens presentes nessas propa-gandas, algumas regularidades discursivas chamam a atenção, e uma delas, senão a principal, diz respeito à superexposição da imagem de corpos seminus de mulheres.

Dessa forma, ao fixar uma imagem estere-otipada da mulher brasileira no discurso turístico oficial, podemos dizer que a EM-BRATUR contribuiu na construção de uma identidade do Brasil e da brasileira pauta-da em estereótipos e silenciamentos.

A Análise do Discurso (AD) é o aporte utilizado para a fundamentação teórica deste texto, pois nos proporciona a base para compreendermos “o modo como um objeto simbólico produz sentidos, não a partir de um mero gesto de decodificação, mas como um procedimento que desvenda a historicidade contida na lingua-gem” (FERREIRA, 2003, p. 202). Utilizamos os Estudos Culturais para tratar da identi-dade e o conceito de corpo enquanto su-perfície de inscrição dos acontecimentos (FOUCAULT, 2012).

Para a AD, os sentidos não es-tão impregnados nas palavras, a transpa-rência é um efeito de sentido, posto que os sentidos são constitutivamente opacos (PÊCHEUX & FUCHS, 1990). Desse modo, os ruídos, as ambiguidades, as faltas, o duplo sentido não são considerados “erros”, mas inerentes à linguagem do sujeito. Vale res-saltar que os sentidos jamais podem ser apreendidos em sua totalidade, sempre podem ser outros, sempre podem derivar, porque são históricos. “Os sentidos nunca se dão em definitivo; existem sempre aber-turas por onde é possível o movimento da contradição, do deslocamento e da polêmi-ca” (GREGOLIN, 2001, p. 61).

Corpo, memória e imagem

Na terceira época da AD, Pêcheux reformulou o conceito de Discurso para estrutura (materialidade linguística) e acontecimento (dimensão sócio-histórica) (PÊCHEUX, 2012). Por isso, para analisar-mos um dado discurso, precisaanalisar-mos antes compreender em que momento histórico, ele teve as condições de possibilidade para sua irrupção.

Para analisarmos o processo de construção identitária do sujeito mulher no discurso da propaganda turística oficial, é imprescindível recuperarmos os aconteci-mentos que incidiram sobre o discurso turístico no momento de sua realização, pois, durante mudanças econômicas e sociais pode-se haver uma crise de identi-dade e, então, entra o papel das promo-ções de marketing na construção de novas identidades (WOODWARD, 2000).

Nosso recorte temporal é o do final da década de 1970, porque foi um período de profundas transformações sócio-históricas vivenciadas no Brasil, um período de “crise de identidade”, como denominou Woodward, quando tivemos o fim da ditadura militar e da censura, as eleições diretas, a abertura do comércio aos produtos estrangeiros, o acesso à internet; período que representou uma abertura e uma transformação social nos modos de pensar e dizer a sexualidade da mulher; e foi neste período também que o Brasil despontou como um dos principais destinos de turismo sexual do mundo.

Desde o início, quando a EMBRA-TUR foi criada, em 1966, ano que marca também o início da promoção turística oficial do país e da preocupação de se construir uma identidade brasileira no

1 Mestranda do Programa de

Pós-graduação em Linguística (PROLING) da Universidade Federal da Paraíba.

2 Professora Doutora da Universidade Federal da Paraíba.

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exterior, houve um elemento que se so-bressaía no discurso das primeiras pro-pagandas turísticas oficiais: o corpo da mulher brasileira. Isso se deve ao fato da EMBRATUR querer lançar ‘O Carnaval do Brasil’ no exterior (ALFONSO, 2006).

Com o objetivo de ilustrarmos as reflexões levantadas nesse texto, fa-remos uma breve análise da figura 1, a seguir. Essa propaganda da EMBRATUR faz parte da campanha “Brasileiro:

des-cubra o Brasil”, veiculada na revista

Veja, ao longo do ano de 1976. Algumas regularidades são perceptíveis nessa campanha: deparamo-nos com imagens de um país rico em diversidade natural e cultural, e, em meio a imagens de pontos turísticos brasileiros, surge o corpo bronzeado e seminu de uma mulher, com toda a sensualidade tropical, remetendo à memória de enunciados extraídos de discursos outros, do apelo sexual e do convite à sedução.Seu rosto quase não é visto, o destaque é o corpo. Essa materi-alidade imagética se articula à materiali-dade linguística, logo abaixo da imagem, “Garota de Ipanema, Itapuã, Camboriú

e Guarapari”, ou seja, temos o corpo

enquanto objeto de representação (FOUCAULT, 1999), simbolizando não só a garota de Ipanema, mas as brasileiras como um todo.

Os enunciados “Descubra o

Bra-sil”, acima, e “Descobrir o Brasil de re-pente virou moda”, ao lado, remetem à

memória discursiva da descoberta do Bra-sil, do colonizador e do selvagem, do índio nu, da índia como “objeto” dos seus coloni-zadores etc. Se por um lado, as imagens adquirem legitimidade porque remetem a uma memória histórica (WOODWARD, 2008); por outro lado reiteram estereóti-pos e preconceitos, ratificando a constru-ção identitária da mulher como objeto de consumo e do Brasil como o país do hedo-nismo, do turismo sexual.

Dando um efeito de fim

Como a representação da mu-lher nas campanhas remetia ao consumo do sexo, então questionamos qual era o produto que a propaganda destinava-se a vender: o destino turístico ou o sexo? No caso do Brasil, esse discurso culminou com o agravamento de outro segmento de turismo, o turismo sexual, caracterizado como crime.

No entanto, a regularização discursiva “é sempre suscetível de ruir sob o peso do acontecimento no-vo” (GREGOLIN, 2001, p. 73) e, na contra-mão de toda essa acentuada exposição do corpo da mulher na mídia, hoje, utilizando-se do discurso do politicamente correto, os órgãos oficiais trabalham no reposicio-namento da imagem do Brasil, como forma de coibir esse tipo de crime, interditando o

corpo seminu no discurso turístico brasi-leiro e estabelecendo, assim, uma nova ordem discursiva para o corpo do sujeito mulher.

Referências

ALFONSO, Louise Prado. EMBRATUR: for-madora de imagens da nação brasileira. 139f. Dissertação (Mestrado em Antropolo-gia Social)-Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp, Campinas: SP, 2006. FERREIRA, Maria Cristina Leandro. Nas trilhas do discurso: a propósito de leitura, sentido e interpretação. In: ORLANDI, Eni Puccinelli. (org.) A leitura e os leitores. 2 ed. Campinas, SP: Pontes, 2003. pp. 201-208.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 25 ed. São Paulo: Graal, 2012.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nasci-mento da prisão. Tradução de Raquel Ra-malhete. 20 ed. Petrópolis: Editora Vozes, 1999.

GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise. Sentido, sujeito e memória: com o que sonha nossa vã autoria? In: GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise; BARONAS, Roberto Leiser, (orgs.). Análise do

dis-curso: as materialidades do sentido. São

Carlos, SP: Claraluz, 2001. pp. 60-78. PÊCHEUX, Michel; FUCHS, C. A propósito da análise automática do discurso: atualiza-ção e perspectivas (1975). In: GADET, Fran-çoise; HAK, Tony. (orgs.). Por uma análise

automática do discurso: uma introdução

à obra de Michel Pêcheux. Tradução de Bethania S. Marlani et al. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1990. pp. 163-171. PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Tradução de Eni Puccinelli Orlandi. 6 ed. Campinas, SP: Pontes Edito-res, 2012.

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferen-ça: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e

diferença: a perspectiva dos estudos

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SEMIOSES DA MORTE EM MORTE E VIDA SEVERINA

George Lima¹

A pesquisa que originou este texto visou compreender processos se-mióticos entre linguagens, mais precisa-mente entender a inter-relação entre o poema dramático Morte e Vida Severina, escrito por João Cabral de Melo Neto, e o desenho animado homônimo, dirigido por Afonso Serpa, o que configura este texto como uma versão adaptada e resumida das informações gerais que compõem a investigação original.

Inicialmente na construção dessa pesquisa, a intensão de nosso trabalho fora entender processos tradutológicos entre o poema dramático e o desenho ani-mado. Entretanto, este objetivo inicial não se tornou suficiente para suprir o fôlego que fundamentava nossa inquietação pro-vocada pela percepção dessas linguagens ao compará-las, pois ainda existia a sensa-ção de haver algum fator determinante que afetava de forma singular a leitura de cada obra; e que esse aspecto não se justi-ficava apenas pela simples e tão só razão de serem dois dispositivos diferentes (literário-poético e fílmico-animado).

Levando em conta essa nossa

abordagem, aprofundamos nossas leituras nas vertentes teóricas que fundamentam todo o tratado metodológico desenvolvido por Júlio Plaza (2010), mais precisamente a Semiótica criada pelo cientista-lógico-filosofo norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), que, assim sendo, lapi-daram nossos aparelhos perceptivos dian-te das linguagens que nos propusemos analisar. Tais estudos fizeram com que obtivéssemos uma visão mais precisa so-bre os motivos que nos deixaram inquietos durante nossas observações iniciais e, consequentemente, identificamos o fenô-meno que nos propusemos analisar: a pre-sença marcante e essencial dos signos que representam a morte tanto no poema dra-mático quanto no desenho animado.

Nesse processo analítico-evolutivo, nasceu nossa proposta de traba-lho monográfico, isto é, o objetivo que fun-ciona como coluna vertebral desta pesqui-sa é investigar em que medida os signos que representam a morte no desenho ani-mado Morte e Vida Severina modificam os significados da morte em contraposição ao poema dramático homônimo.

Morte e Vida Severina é uma

das obras mais conhecida de João Cabral

de Melo Neto, que conta o trajeto do prota-gonista Severino. Este personagem é um retirante que sai do interior de Pernambu-co em busca de Pernambu-condições melhores de vida e de morte na capital pernambucana (Recife - PE), tendo como guia o rio Capi-baribe. No percorrer dessa jornada, o reti-rante se depara frequentemente com a presença da morte. Esta aparição da mor-te aconmor-tece de vários modos tanto no poe-ma quanto no desenho anipoe-mado, como foi possível ver em nossas análises.

A morte foi e é um signo muito utilizado em práticas artísticas durante a história da arte nas diversas sociedades. Conceitualmente, ela não se limita apenas à ideia corriqueira de que é o fim da vida. Nossa analise mostra esta evidência. Não é por acaso que muitos estudiosos proferem a ideia de que a morte se trata de um fe-nômeno de caráter obscuro, tendo em vista o tratamento altamente filosófico e místico que é dado a ela, o que não é nosso objetivo. Desse modo, inicialmente falamos a respeito daquilo que está sendo levado em conta no processo de representação observado por nós, isto é, a morte enquan-to fenômeno condicionado à percepção e à utilização em dispositivos sígnicos.

1 Graduando em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia.

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Essa nossa preocupação em tra-zer à tona a morte como objeto vulnerável a representação antecedeu nossas anali-ses, mostrando algumas características fenomênicas que estiveram/estão/ estarão sujeitas a determinar os signos que representam a morte no poema e, também, no desenho animado em análise. Tais observações cumpriram a necessida-de necessida-de vermos essas características nas dimensões qualitativa, existencial e cultu-ral, que, assim sendo e em certa medida, constituem a morte ipso facto.

Logo em seguida, no segundo momento de nossa pesquisa, vimos de maneira monádica como a morte de fato foi representada no poema dramático e no desenho animado, ou seja, considerando-os singularmente em suas estruturas se-mióticas, sem compará-los. Estas nossas observações proporcionaram vermos o modo como a morte (objeto representado) mantém relação com os signos que a re-presentam.

Mais precisamente, nossos exa-mes contribuíram na constatação de que os paradigmas representacionais que po-tencializam o poema dramático cabralino enquanto representamen da morte são aspectos essencialmente e predominante-mente icônicos e indiciais; embora haver também uma constatação de

representa-ção simbólica. Estas observações mostram que o poema tenta criar imagens a respei-to da morte, valendo-se das relações de semelhança e de conexões particulares com aquilo que representa. Cabe aqui ci-tarmos o visualismo como característica estilística das obras produzidas por João Cabral de Melo Neto, referenciado por Braulio Tavares (apud MELO NETO, 2010, p. 7) e Massaud Moisés (2008, p. 321), e, tam-bém, os aspectos pitorescos e imagéticos mencionados por Alfredo Bosi (2006, p. 502), que em certa medida corroboram com essas nossas observações.

Nas analises que fizemos do de-senho animado, verificamos que a matriz fundamentadora dos representamens da morte é regida essencialmente por signos

simbólicos, isto é, foi evidenciado por nós que os signos da morte no desenho anima-do estão condicionaanima-dos a agir segunanima-do regras interpretativas norteadas por valo-res ideológicos. Isto foi comprovado pelo modo como são encarnadas as cores (preto e branco), os elementos usados na personificação da morte, os fenômenos culturais – cruz, ausência, alma, caveira, esqueleto, entre outros –, o modo como são montados os enquadramentos que estruturam os cenários e as maneiras em que as câmeras se movimentam e mantêm determinados níveis do anglo observacio-nal.

Como tínhamos examinado, tais observações do poema e do desenho ani-mado Morte e Vida Severina mostraram que já nos paradigmas de representação da morte há diferenças, modificando a natureza dos signos icônicos e indiciais no poema em signos regidos por signos habi-tuais, convencionais e culturais no dese-nho animado. Estas constatações funciona-ram como informações cruciais no supri-mento de nosso objetivo central no pre-sente trabalho, pois, levando em conta a premissa estipulada por Peirce (2010) de que o significado é a característica objeti-va do signo, pressupomos que os significa-dos são modificasignifica-dos devido justamente ao devir ou ação do signo.

“Essa nossa preocupa-ção em trazer à tona a

morte como objeto vulnerável a

represen-tação antecedeu nos-sas análises, mostran-do algumas caracterís-ticas fenomênicas que

estive-ram/estão/estarão su-jeitas a determinar os

signos que represen-tam a morte no poe-ma e, também, no

de-senho animado em análise.”

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Examinando os significados obje-tivados pelos signos que representam a morte, tanto no poema dramático como também no desenho animado, percebe-mos o modo como estas significações estão condicionadas aos paradigmas de representação da morte em cada uma dessas linguagens, materializando, assim, nosso pressuposto da premissa peirciana apontado no parágrafo anterior.

Deste modo, considerando as instâncias que compõem o método da tradução intersemiótica, chegamos à conclusão de que na medida em que a versão áudio visual do poema cabralino encarna em sua estrutura signos motiva-dos por valores convencionais, predeter-minados por um ou vários sistemas cultu-rais, são modificados os significados quando o comparamos com o poema dra-mático cabralino, tendo em vista que o poema possui natureza representativa

diversificada do desenho animado, isto é, o poema apenas simula características e aponta vertigens de existência da morte.

Futuros trabalhos como este podem ser desenvolvidos no objetivo de delinear se há ou não equivalência de sig-nificação entre uma obra original e sua recriação, pois, além de serem fenômenos constantes nas práticas artísticas, possi-bilitam categorizar os possíveis interpre-tantes já predeterminados nos signos que arquitetam o material em análise e, tam-bém, delinear possíveis impactos causados pelas linguagens em algum público vigente (recepção das obras).

Referências:

ARIÈS, Philippe. História da morte no

Ocidente: da Idade Média aos nossos dias.

Tradução Priscila Viana de Siqueira. Ed. Especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

BOSI, Alfredo. João Cabral de Melo Neto. In: História concisa da literatura brasilei-ra. 43ª ed. São Paulo: Cultrix, 2006. p. 502

-506.

BOWKER, John Westerdale. Os sentidos da

morte. Tradução I. F. L. Ferreira. São

Pau-lo: Paulus, 1955.

MARANHÃO, José Luiz de Souza. O que é

morte. 4ª ed. São Paulo: Brasiliense,

2003. (Coleção primeiros passos, 150). MARTIN, Marcel. A linguagem

cinemato-gráfica. São Paulo: Brasiliense, 2003.

MELO NETO, João Cabral de. Morte e Vida

Severina e outros poemas. Rio de

Ja-neiro: Objetiva, 2007.

MOISÉS, Massaud. João Cabral de Melo Neto. In: História da literatura brasilei-ra: volume III – Modernismo. 6ª ed. São

Paulo: Cultrix, 2008. p. 316-324.

MORTE E VIDA SEVERINA EM DESENHO ANIMADO. Direção: Afonso Serpa.

Produ-ção: Alexandre Fishgold; Mario Lellis; Ro-ger Burdino; Maurício Fonteles. Roteiro: Afonso Serpa. OZI escola de informática, 2010. 1 DVD (56 min), son., color. Baseado no poema dramático ―Morte e Vida Severina‖ de João Cabral de Melo Neto. PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Estudos; 46).

PLAZA, Julio. Tradução Intersemiótica. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. (Estudos; 93).

SANTAELLA, Lucia. Teoria geral dos

sig-nos: como as linguagens significam as

coisas. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

“o poema apenas

simula

caracterís-ticas e aponta

ver-tigens de

existên-cia da morte”

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DISCURSO, REGULARIDADE E EFEITO DE REAL EM UM FOLHETO DE LITERATURA DE CORDEL

Edgley Freire Tavares¹ Francisco Paulo da Silva² Atualmente a prática de Análise

do Discurso vive, digamos, uma virada semiológico histórica que representa um esforço teórico em contemplar no gesto descritivo-interpretativo materialidades discursivas verbais e não verbais. Inserido nesse contexto epistemológico, o GEDUERN – Grupo de Estudos do Discurso da Univer-sidade do Estado do Rio Grande do Norte vem desenvolvendo reflexões em relação à produção de uma memória discursiva so-bre o passado da cidade de Mossoró, na-quilo que podemos chamar de formação e funcionamento de um Discurso da Resis-tência. E isso, de um ponto de vista arque-ogenealógico (FOUCAULT, 2007, 2008) significa dizer que na cidade de Mossoró um conjunto de enunciados tematiza a passagem do cangaceiro Lampião, sua invasão e o modo como a cidade o teria combatido, no ano de 1927. Olhando para esse arquivo de dizibilidades e visibilidades nosso gesto de leitura procura entender

as correlações, as retomadas e transforma-ções que essa narrativa vem apresentando, sem perder de vista as determinações soci-ais, cultursoci-ais, econômicas e políticas impli-cadas no funcionamento dessa discursivida-de.

Do nosso lugar de pesquisa, a com-preensão dessa produção discursiva só se torna possível “colocando em jogo o estatu-to social da memória como condição de seu funcionamento discursivo.” (PÊCHEUX, 2011, p.142). Assim, visando sempre dar ao traba-lho de leitura o primado do interdiscurso, nosso objetivo neste ensaio é problematizar o modo como uma memória discursiva da Resistência se materializa e que efeitos ela produz num exemplar de literatura de cor-del. Para tanto, enquanto fragmento dessa discursividade, situemos inicialmente do folheto de cordel a ser analisado, de autoria de Antônio Francisco, a ilustração da capa,

E coloquemos uma questão: Que regularidades discursivas podem ser observadas na relação desse enunciado da literatura de cordel com outras enun-ciabilidades nessa formação discursiva e quais os efeitos de tais correlações no funcionamento de uma memória discursi-va da Resistência de Mossoró ao bando de Lampião? Em sua estrutura e aconte-cimento, o cordel de Antônio Francisco só pode ser percebido enquanto discurso em sua relação com outros dizeres, já ditos ou coisas a dizer. Ou seja, levando em conta a heterogeneidade constitutiva de todo discurso, já que “não há enuncia-do em geral, enunciaenuncia-do livre, neutro e independente; mas sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou de um conjunto.” (FOUCAULT, 2007, p.112). Na dispersão enunciativa que esse cordel faz parte devemos notar uma ordem, correlações, posicionamentos e trans-formações, em uma palavra, descrever no gesto de leitura aquilo que Michel Fou-cault chama de regularidade discursiva, uma tensão entre a repetição e a dife-rença no funcionamento dos enunciados. Duas coisas chamam a atenção na ilustração na capa do folhetim: a

pri-1 Doutorando em Estudos da Linguagem, pela Universidade Federal do Rio grande do Norte e professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

2 Doutor em Linguística pela Universida-de Estadual Paulista Julio Universida-de Mesquita Filho. Professor da Universidade do Esta-do Esta-do Rio Grande Esta-do Norte.

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meira aparece no título por um trabalho na sintaxe da língua, pois o sintagma nominal O ataque de Mossoró inverte outro, que por sua vez é central nessa discursividade: o ataque de Lampião. Essa mudança no núcleo do sintagma altera também a ideia de agente que aparece no título e inscreve no fio do discurso a historicidade do pre-sente, a heterogeneidade de posiciona-mentos em torno do acontecimento e o deslocamento de já ditos construídos a partir do fato de ter sido o bandido Lam-pião que atacou a cidade no ano de 1927, posição sustentada pela historiografia e pelo poder público local.

Assim, do ponto de vista discursi-vo, a determinação do núcleo do sintagma funciona como um mecanismo linguístico-discursivo que na historicidade desse enunciado representa para nós um movi-mento de ampliação e transformação, um efeito de polissemia na produção memori-alista da Resistência, algo que reforça a glorificação da cidade em relação aos ban-didos. Tal descontinuidade é reforçada na ilustração pelo modo como a representa-ção hegemônica da figura do cangaceiro e da estética do cangaço (chapéu, vestimen-ta, rifle, bornal e alpargatas típicos) dividir espaço com a figura de um motoqueiro, especificamente, um moto-taxi, que é uma particularidade do transporte público des-ta cidade do interior do Rio Grande do

Norte. Notemos que há uma tensão entre o repetível e a ruptura determinado a rari-dade desse enunciado em relação aos ou-tros nessa FD. A capa do cordel, nesse sentido, traz uma ruptura que se dá pelo traço anedótico, pois a figura do motoquei-ro só significa e causa humor relacionada à atualidade mossoroense.

Em seu movimento discursivo, o cordel analisado faz uma releitura do ata-que de Lampião, utilizando símbolos e re-presentações do presente, atualizando a narrativa que tematiza Mossoró como ter-ra da Resistência. Na leituter-ra desses efeitos de sentido possíveis consideramos o gêne-ro como operador de memória e neste cordel, a tensão entre passado e presente, realidade e ficção que deixam entrever que a memória não é um frasco sem exterior (PÊCHEUX, 1999).

Todo o cordel retextualiza a me-mória hegemônica da Resistência e seus modos de tematizar a cidade, os bandidos, o povo local e o próprio acontecimento. No início, a narrativa do cordel mostra Lam-pião no inferno, recebendo de lá um passe para viajar a qualquer lugar. Lampião es-colhe voltar para o Nordeste, seu xodó, e dar um novo susto na cidade de Mossoró. Vai encontrar uma Mossoró diferente, mo-dernizada. Em um dos trechos do cordel lemos: Lampião disse: - Maria, /Eu vou nem que seja só. /Nem que eu perca o outro olho, /Apanhe de fazer dó. /Só vou voltar quando eu me vingar de Mossoró. Por ser numa narrativa de cordel, essa volta de Lampião a Mossoró centra-se em efeitos de sentido humorísticos, que retomam e deslocam outros efeitos produzidos por outros discursos e práticas, mas mantém uma vontade de verdade, representar Lampião derrotado e enxotado pela cidade. Isso é reforçado noutra passagem mos-trando que, logo após entrarem na cidade, ainda de madrugada, Lampião e seu bando foram surpreendidos pela multidão que participava do Carna-Ilha, evento de pré-carnaval que se realiza na cidade. Aqui, Lampião aparece perdido do restante do bando: Chorou na Praça do CID, /Com sau-dades de Maria. /A última vez que ele a viu, / Maria Bonita ia, /Cantando ‘Che bom, bom, bom’ /Numa banda da Bahia.

“não há enunciado

em geral, enunciado

livre, neutro e

inde-pendente; mas

sem-pre um enunciado

fa-zendo parte de uma

série ou de um

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Como estas rupturas discursi-vas na materialidade verbo imagética desse cordel são possíveis? Trabalhemos com duas hipóteses: Primeiro, que “a determinação do gênero também faz parte do regime de enunciabilida-de.” (GREGOLIN, 2009, P.56), e que o funcionamento da toda discursividade se dá pela verossimilhança que produz efei-tos de real na narrativa (BARTHES, 2004), e não um espelhamento, posto que é crucial dissociar “o que é uma representação e o que ela representa”. (FOUCAULT, 2006, p.248). Assim, pensa-mos nesses efeitos de real produzidos pelo cordel como efeitos de sentido e que essa descontinuidade no modo como o cordel movimenta essa memória discur-siva, sobretudo com traços anedóticos, é um mecanismo de retextualização pró-prio ao funcionamento discursivo da memória, pois todo enunciado é sempre

a tensão entre um já construído (outras práticas discursivas e não-discursivas) e a forma de atualização dessa memória no fio ou na estrutura do discurso. Para finalizar, podemos apontar que o lugar desse cordel dentro de uma FD da Resistência é o lugar de um enunciado cujas astúcias evidenci-am o mecanismo de repetição e diferença, paráfrase e polissemia que vem ocorrendo nas formas e materialidades de expressão que se encarregam de autenticar diferen-tes efeitos de real e certas verdades so-bre o episódio da passagem do cangaço na cidade de Mossoró.

REFERÊNCIAS

BARTHES, R. O rumor da língua. São Pau-lo: Martins Fontes, 2004.

GREGOLIN, M.R. Linguagem e História: rela-ções entre a linguística e a análise do dis-curso. In: SANTOS, J.B.C. (org.). Sujeito e

subjetividades: discursividades

contem-porâneas. Uberlândia: EDUFU, 2009. FRANCISCO, A. O ataque de Mossoró ao

bando de Lampião. Mossoró: Coleção

Queima Bucha de Cordel, S/D.

FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. _____. Nietzsche, a Genealogia e a História. In: Ditos & Escritos II. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

_____. Isto não é um cachimbo. In: Ditos &

Escritos III. Rio de Janeiro: Forense

Uni-versitária, 2006.

PÊCHEUX, M. Leitura e memória: projeto de pesquisa. In: ORLANDI, E. P. (org.). Análise

de discurso: Michel Pêcheux. Campinas/

SP: Pontes Editores, 2011.

_____. Papel da memória. In: ACHARD, P. [et al.]. Papel da memória. Campina/SP: Pontes, 1999.

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Será realizado, no mês de março de 2014, o curso Cinema, Vídeo, Godard, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. O evento é mais uma atividade do Labedisco - Laboratório de Estudos do Discurso e do Corpo. O curso em tela tem como objetivo o estudo das articulações do dispositivo audiovisual a partir dos diálogos entre o cineasta Godard e os estu-dos foucaultianos. Godard será estudado a partir de filmes selecionaestu-dos e do livro “Cinema, Vídeo, Godard”, escrito por Philippe Dubois, considerando-se as problematizações em “A ordem do discurso”, de Michel Foucault. Para tanto, serão realizadas a releitura e discussão dessa obra. Serão, ao todo, sete encontros (carga horária de 30 horas). Em cada um deles o seu ministrante trabalhará com um texto-base e um debatedor fará as considerações introdutórias sobre a expo-sição, abrindo, depois, à intervenção do público com o intuito de ampliar os diálogos sobre os estudos discursivos na es-teira foucaultiana. O curso acolhe estudantes de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado com pesquisas em desenvolvi-mento. A atividade contempla as discussões do projeto “Memória e corpo no audiovisual” do Programa de Pós-Graduação em Memória, Linguagem e Sociedade e do projeto “Corpo e processos de subjetivação em materialidades verbais e não-verbais” do Programa de Pós-Graduação em Linguística, ambos na UESB. O curso está vinculado ao projeto de pesquisa “Materialidades do corpo e do horror” e ao projeto de extensão “Materialidades do discurso fílmico, do corpo e do horror”. Esta ação também faz parte do quadro de atividades no interior do Convênio de Intercâmbio entre a Sorbonne Nouvelle – Paris III e a UESB/Vitória da Conquista.

Programação

I Encontro

Data 14/03/2014, sexta-feira Local Labedisco

16h30 Exibição do filme Acossado, de Jean-Luc Godard, 1960 18h30 Apresentação e discussão de textos

Ministrante Msnda. Ceres Luz (PPGMLS/Capes) Debatedora Cecília Barros-Cairo (PPGMLS/Capes) Dialogador o público

Referências

DUBOIS, Philippe. Introdução. In:______. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 21-28. DUBOIS, Philippe. Máquinas de Imagens: uma questão de linha geral. In:______. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 31-68.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

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II Encontro

Data 17/04/2014, segunda-feira Local Labedisco

16h30 Exibição de Carmen, de Jean-Luc Godard, 1983. 18h30 Apresentação e discussão de textos

Ministrante Msndo. Tyrone Coutinho Filho (PPGLin/Capes) Debatedora Msnda. Jamille Santos (PPGLIN/UESB) Dialogador o público

Ministrantes: Nilton Milanez e Ceres Luz (PPGMLS/Capes) Dialogador: o público

Referências

DUBOIS, Philippe. Por uma estética da imagem de vídeo. In:______. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 69-96.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

III Encontro

Data 08/04/2014 terça-feira Local Labedisco

16h30 – Exibição de A Chinesa, de Jean-Luc Godard, 1967. 18h30 – Apresentação e discussão de textos

Ministrante Renata Maciel (PPGMLS/UESB) Debatedor Ciro Prates (PPGMLS/Capes) Dialogador o público

Referências

DUBOIS, Philippe. “O estado-vídeo”: uma forma que pensa. In:______. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 97-118.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

IV Encontro Data 10/04/ Local Labedisco

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18h30 – Apresentação e discussão de textos

Ministrante Dndo. Ciro Prates (PPGMLS/Capes)

Debatedor Msndo. Tyrone Chaves Coutinho (PPGLIN/UESB) Dialogador o público

Referências

DUBOIS, Philippe. A paixão, a dor e a graça: notas sobre o cinema e o vídeo dos anos 1977-1987. In:______. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 137-176.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

V Encontro Data 15/04/2014 Local Labedisco

16h30 – Exibição do filme Detetive, de Jean-Luc Godard, 1985. 18h30 – Apresentação e discussão de textos

Ministrantes Dndo. Ciro Prates (PPGMLS/Capes) Debatedora Msnda. Renata Maciel (PPGMLS/UESB) Dialogador o público

Referências

DUBOIS, Philippe. Vídeo e cinema: interferências, transformações, incorporações. In:______. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 177-250.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

VI Encontro Data 17/04/2014 Local Labedisco

16h30 – Exibição do filme Duas ou três coisas que eu sei dela, de Jean-Luc Godard, 1966. 18h30 – Apresentação e discussão de textos

Ministrante Aliúd Almeida (Cinema/ IC) Debatedor Daniel Teixeira (Direito/IC) Dialogador o público

Referências

DUBOIS, Philippe. Jean-Luc Godard: cinema e pintura, ida e volta. In:______. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 251-258.

DUBOIS, Philippe. Jean-Luc Godard: Jean-Luc Godard e a parte maldita da escrita. In:______. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 259-288.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

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VII Encontro Data 22/04/2014 Local Labedisco

16h30 – Exibição do filme Uma mulher é uma mulher, de Jean-Luc Godard, 1961. 18h30 – Apresentação e discussão de textos

Ministrante Ueslei Pereira (História/ IC)

Debatedora Bianca Oliveira (Comunicação social/IC) Dialogador o público

Referências

DUBOIS, Philippe. Os ensaios em vídeo de Jean-Luc Godard: o vídeo pensa o que o cinema cria. In:______. Cinema, vídeo, Godard. Trad. Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 289-312.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

Avaliação

O participante deve entregar relatório de cada encontro, baseado nos textos discutidos, bem como colaborar com os debates e dis-cussões ao final das exposições. Além disso, o participante deve prosseguir com comentários sobre os encontros na página do Labe-disco no Facebook (facebook.com/labeLabe-disco), fomentando a discussão após o encontro. Os relatórios receberão parecer evidencian-do os pontos discutievidencian-dos.

Inscrições

As inscrições podem ser feitas até o dia 05/03/2014 pessoalmente ou pelo e-mail do Labedisco ([email protected]). Para isto, requeremos para análise a submissão de: a) carta de interesse; b) projeto de pesquisa resumido sobre corpo e audiovisual (até 3 laudas); c) Lattes atualizado; d) histórico escolar. O curso é totalmente gratuito.

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Leitura do livro “A ordem do discurso”, de Michel Foucault.

Leitura do livro “Cinema, Vídeo, Godard”, de Philippe Dubois.

Dica de

O Corpo

Dica de

O Corpo

Reunindo nove ensaios, este livro aborda a questão do vídeo, sua natureza de imagem e seu lugar no mundo das produções visuais, particularmente em relação ao cinema. A primeira parte, "Vídeo e teoria das imagens", parte do vídeo para tentar abordá-lo em si mesmo, atribuindo-lhe um corpo estético específico, e considerando se ele pode ser uma arte em si, com linguagem própria. "Vídeo e cinema" aprofunda a questão central da relação do vídeo com o cinema, abordando o imaginário cinematográfico como ponto de parti-da para as experiências em vídeo. Vários cineastas utilizaram o vídeo para suas pesquisas fílmicas, como Antonioni, Wim Wenders, Coppola, entre ou-tros. Na terceira parte, "Jean-Luc Godard", a discussão centra-se a partir do exame detalhado do caso exemplar deste cineasta, que, como nenhum outro, problematizou com tanta insistência, profundidade e diversidade a "mutação das imagens".

A aula inaugural, que Foucault pronunciou ao assumir a cátedra vacante no Collège de France pela morte de Hyppolite, pode ser considerada um texto de ligação entre suas obras, datadas dos anos 60, como História da loucura, As palavras e as coisas, A arqueologia do saber, centradas predominantemente na análise das condições de possibilidade das ciências humanas, e as que se seguiram a maio de 68, como Vigiar e punir, voltados ao exame da microfisica do poder.

Foucault desvenda a relação entre as práticas discursivas e os poderes que as permeiam. Ao perceber os diversos procedimentos que cerceiam e con-trolam os discursos da sociedade, o autor comprova que "o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo que se luta, o poder de queremos nos apoderar".

Na segunda parte do texto, Foucault anuncia a direção em que prosseguirá suas investigações no decorrer dos cursos no Collège de France, apontando para o que denomina o "conjunto crítico" e o "conjunto genealógico" e lança o projeto de estudo das interdições que atingem o discurso da sexualidade. A este trabalho dedicará muitos anos, após a publicação do primeiro volume da História da sexualidade, em 1976: A vontade de saber (uso dos prazeres, vol.2, O cuidado de si, vol, 3, ambos de 1984).

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O Corpo é Discurso

é o primeiro jornal

eletrônico de

popularização

científica da Bahia.

Colaboradores

Popularização da Ciência

A pesquisa científica gera conhecimentos, tecnologias e inovações que

benefi-ciam toda a sociedade. No entanto, muitas pessoas não conseguem compreender a

linguagem utilizada pelos pesquisadores. Neste contexto, a grande mídia e as novas

tecnologias de comunicação cumprem o papel de facilitadores do acesso ao

conhe-cimento científico. Para contribuir com esse processo, em sintonia com o espírito

que anima o Comitê de Assessoramento de Divulgação Científica do CNPq, criamos

esta seção no portal do CNPq. Seja bem-vindo ao nosso espaço de popularização da

ciência e aproveite para conhecer as pesquisas dos cientistas brasileiros e os

bene-fícios provenientes do desenvolvimento científico-tecnológico.

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