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VELOCIDADE E RESISTE NCIA NA CONSTRUC A O DO CORPO PERFORMER

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VELOCIDADE E RESISTÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DO CORPO PERFORMER

Carina Prina Carlan Universidade Luterana do Brasil

O presente estudo está vinculado ao campo dos Estudos Culturais em Educação, de vertente pós-estruturalista. Este trabalho apresenta um recorte de pesquisa mais ampla, que está sendo desenvolvida no doutorado, cujo objetivo é analisar como o corpo é educado para a corrida por meio de tecnologias de visibilidade e controle do movimento, bem como de exercícios sobre si feitos por seis corredores amadores de longas distâncias que estão em treinamento para provas de maratona. Neste artigo, o objetivo é analisar como se expõe um corpo em performance em postagens realizadas pelos participantes da pesquisa na rede social Instagram, no período compreendido entre junho de 2018 e março de 2019. O conceito de performance, nesta pesquisa, é sustentado em argumentos da autora Paula Sibilia. As análises mostram que as postagens dos corredores amadores mobilizam significados de corpo ativo, em performances que enfatizam o corpo em movimento, sobressaindo-se imagens que denotam, por um lado, velocidade corporal no ato de correr, e, por outro lado, a resistência, sinalizada nas métricas do percurso, nas imagens que remetem à dor e superação, representações associadas a experiência de quem corre que opera, também, a validação do esforço e do empenho.

Palavras- chaves: corpo; corrida; performance

1 Corrida como expertise

Treinar para um triatlo

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ou maratona na pior recessão da história do Brasil, na mais grave crise política, esse é um desafio maior que o triatlo ou maratona. Entretanto, como mostra o livro “On Managing Yourself”, publicado pela Harvard Business School, da Universidade de Harvard, a gestão de si mesmo é talvez um das maiores decisões empresarias que se pode tomar na vida. A maratona obriga você a focar, a limpar a agenda, a cuidar do sono, da alimentação – e abandonar tudo o que é desnecessário nessa vida. E tudo isso faz de você um empresário e um profissional muito focado.

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Triatlo é uma categoria esportiva que consiste na realização de três modalidades executadas na seguinte ordem:

natação, ciclismo e corrida.

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O texto em epígrafe foi extraído do artigo “Correr é o novo MBA” , publicado pelo publicitário Nizan Guanares no Jornal Folha de São Paulo em 14 de agosto de 2018

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e replicado em redes sociais por muitas pessoas, especialmente por atletas. Para entender o alcance do enunciado, seria relevante entender o lugar que ocupa o autor do texto. Os dados a seguir foram obtidos do site do O Globo

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e descrevem o estilo de vida do autor. Nizan Guanares é um dos publicitários e empresários mais bem sucedidos do Brasil. É sócio e co- fundador do Grupo ABC, que reúne dezoito empresas na área de comunicação e marketing.

Três anos antes da publicação do artigo “Correr é o novo MBA”, Guanaes já havia publicado um texto, também no Jornal Folha de São Paulo, argumentando que a corrida havia transformado sua vida: “Tinha 160 quilos caminhando a galope para 200. Fumava, comia e bebia em demasia, apesar do brutal histórico cardíaco-familiar”. Guanares descreve ainda outros elementos que seriam típicos dos considerados “workaholics”

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: muita atenção para carreira e quase nada de atenção para a saúde e vida pessoal; trabalhar “como um condenado”

e estar 100% disponível para as demandas profissionais é comumente bem visto para o mercado de trabalho. Ele avalia: “Passei a primeira parte de minha carreira cuidando só da carreira e esquecendo todas as outras dimensões da vida que, inclusive, refletem muito na vida profissional”. O ponto de vista de Guanares também tem sido bastante propagada entre pessoas exaustas de suas carreiras, que costumam encontrar pontos de fuga a fim de proporcionarem um certo equilíbrio em suas vidas e, como “surpresa”, observam que outras práticas além do trabalho, mesmo quando implicam em abdicar de horas de produção monetária, geram melhorias em seus desempenhos pessoais e profissionais.

No recorte a seguir, Guanares reforça o sentido de que a prática de atividade física, como forma de cuidado do corpo, tem sido comum entre empresários bem sucedidos:

Certa vez fui convidado por Bill Gates para falar de Brasil em evento global na sede da Microsoft, com presidente-executivo do mundo todo e do calibre de Warren Buffett e Jeff Bezos. Como o evento começava às 7h, às 5h, fui à academia do hotel e vi uma cena que me marcou para a vida: a imensa academia e sua piscina estavam lotadas. Todos os CEOs do mundo estavam

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Matéria completa disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nizanguanaes/2018/08/correr-e-o- novo-mba.shtml. Acesso em 08/06/2019.

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Disponível em https://blogs.oglobo.globo.com/pulso/post/como-corrida-transformou-vida-do-publicitario- nizan-guanaes-para-melhor.html. Acesso em 09/06/2019, acesso em 10 de maio de 2019

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Termo em inglês utilizado para se referir a pessoas viciadas em trabalho.

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ali, tomando a primeira e mais importante decisão empresarial do dia — cuidar da vida

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.

Guanares afirma que sua principal influencia para a mudança de estilo de vida, foi a leitura do livro mencionado anteriormente, “On Managing Yourself”, publicado em 2011, e indica ser este o melhor texto de auto-gestão já publicado. Atualmente, aos 61 anos e corredor, Guanares considera que sua produtividade aumentou significativamente desde que começou a correr e salienta outros aspectos que, para ele, constituiriam benefícios da atividade regular: “minha corrida diária me faz lembrar que a vida é boa, independente do câmbio”.

Os artigos de Nizan Guanares, assim como de outras personalidades consideradas bem sucedidas em suas carreiras profissionais –como o médico e apresentador de televisão Dráuzio Varela, por exemplo, que inclusive já publicou um livro chamado “Correr”

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onde relata sua experiência como corredor e maratonista iniciada após completar 50 anos de idade – imprimem e reforçam um caráter salvacionista à corrida e ao esporte , como práticas capazes de melhorar a saúde, a qualidade de vida, a aparência física e, de lambuja, otimizar as relações pessoais e o desempenho profissional. Percebe-se que, rapidamente, a corrida emerge não como prática de fuga do espaço produtivo, mas como prática inserida no processo de produção capitalista e orientada pela lógica de um sujeito que faz a gestão de si em todas as dimensões do viver. A corrida, convertida em antídoto para a sobrecarga de trabalho cotidiano, é representada por um viés funcional: vivemos atualmente num cenário economicamente instável, que demandaria uma produção frenética e eficiente, uma auto- gestão voltada para a canalização de nossas competências e forças vitais para o trabalho e para a construção de um bom currículo, e isso tornaria possível o crescimento de uma população workaholic, necessitada de espaços de visibilidade em um jogo concorrencial ao mesmo tempo que é estimulada a adotar hábitos saudáveis que possibilitem viver e produzir mais e melhor.

Também temos visto propagarem-se imagens – em programas televisivos, em revistas, jornais, em redes sociais – nas quais as pessoas narram as sagas de suas vidas,

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Disponível em https://blogs.oglobo.globo.com/pulso/post/como-corrida-transformou-vida-do-publicitario- nizan-guanaes-para-melhor.html. Acesso em 09/06/2019, acesso em 10 de maio de 2019.

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VARELA, Drauzio. Correr. O exercício, a cidade e o desafio da maratona. Ed. Cia das Letras. São Paulo,

2015.

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enfatizando os benefícios da prática de corrida. Especificamente nas redes sociais virtuais, é possível acompanhar perfis de renomados empresários e demais profissionais bem sucedidos que exibem aspectos de suas rotinas, compartilhando vídeos, textos e imagens que seriam indicativas de como os esportes mudaram e auxiliaram nas suas vidas e carreiras e como conseguem gerir a vida profissional, pessoal e ainda manter rotina esportiva.

Certamente, muitas outras razões contribuem para que a corrida seja vista atualmente como tarefa urgente , como algo a ser conquistado, exibido, compartilhado e performado , mas entendo que a emergência de espaços de propagação de narrativas de si – como as redes sociais - contribui efetivamente para a exibição de resultados.

Em alguns ambientes laborais a corrida tem sido tão valorizada que passa a constituir um elemento do currículo. Há profissionais que colocam suas conquistas esportivas no seu cartão de visitas para oferecem trabalhos como contadores, por exemplo. Nesse sentido, a corrida além de um prática esportiva que ajuda perder peso e a controlar os batimentos cardíacos, se torna um estilo de vida capaz de construir uma imagem vendável de si mesmo, como profissional. Ela seria a marca material de um perfil de sujeito que, através da dor, do sofrimento, do cansaço, da disciplina e da superação, conseguiria bons resultados que poderiam ser potencializados em diversos setores da vida. A corrida se torna um tipo de expertise digna de ser performada.

2. A maratona como performance de resistência

Segundo Sibilia (2015)

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a palavra performance surgiu para acolher as manifestações artísticas que ficaram sem um rótulo por serem híbridas. O termo acolheu a dança, o teatro, a poesia, a música as artes visuais e auditivas e possibilitou a realização de uma série de

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SIBILIA, Paula. Autenticidade e performance: a construção de si como personagem visível. Revista Fronteiras – Estudos Midiáticos. 17(3):353-364 setembro/dezembro 2015 Unisinos – doi:

10.4013/fem.2015.173.09

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experimentações ao longo do tempo, incluindo as novas tecnologias digitais que surgiram após os anos 1970, consolidando-se como sentido vinculado à prática artística.

Independente do tipo de manifestação artística, uma performance compreenderia algum tipo de exibição, exposição . Performance então, se tornou uma prática que permite que alguém ou grupo de pessoas execute algo com a finalidade de ser visto, analisado, aplaudido, julgado, analisado, etc. Atualmente o termo performance expandiu-se e é utilizada como sinônimo de desempenho em qualquer âmbito, e tem sido usualmente empregada em práticas profissionais e esportivas. Sibilia (2015) argumenta que há um culto excessivo à performance, do modo como ela é entendida no contemporâneo, ou seja, há uma urgência em que se exponha continuamente resultados obtidos nos diversos setores da vida, ao olhar do outro, o que consolidaria e validaria o desempenho .

As redes sociais permitem a construção de personagens e a escolha aquilo que se deseja exibir; elas permitem, acima de tudo, a auto exibição ao extremo: “ (...) ‘ser alguém’

equivale a interpretar um personagem, e se a vida tende a se parecer cada vez mais com uma narrativa midiática, isso ocorre porque costumamos sublinhar nossos gestos e ações ‘para aqueles que assistem’.” (SIBILIA, 2015, p. 355). Também a para a autora, a performance no contemporâneo está vinculada à construção do espetáculo de si mesmo, e permite que um sentido próprio de autenticidade seja performado, pois, em uma cultura que está a viver sob a ótica da visibilidade, não se bastaria ser ou fazer algo, seria preciso performar, mostrar o que se é e o que se faz (SIBILIA, 2015).

O termo performance não demorou a ser incorporado nas nomenclaturas utilizadas nos esportes, afinal, o esporte competitivo é sustentado por uma lógica classificatória baseada na obtenção de resultados qualificáveis que comprovados, fazem de alguém um vencedor. No esporte, o termo performance é utilizado para referir-se ao desempenho de um atleta, e está vinculado a um processo de evolução medido por números em que alguém ou muitas pessoas, observam os resultados obtidos e, assim, validam a prática executada. Para o psicólogo e professor Bendassolli (2004)

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a crença que o indivíduo deve assumir a responsabilidade integral pela sua própria vida é um dos fundamentos da cultura de negócios e, citando o sociólogo Alain Ehrengerg, salienta que o indivíduo hoje contaria com duas fontes de

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Bendassolli, Pedro. A cultura da performance. Fator Humano na Revista Gv Executivo, Vol 3, Edição

novembro de 2004 a janeiro de 2005.

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orientação e inspiração: a empresa e o esporte. Emerge, assim, um culto à performance que se associa a um novo tipo de cultura.

Na pesquisa de doutorado da qual se origina esse artigo, indaga-se sobre os significados de corpo produzidos, mobilizados e propagados tanto por meio de novos dispositivos de visibilidade do movimento, acoplados a relógios GPS utilizados para treino e para corrida, quanto por postagens em redes sociais que dão visibilidade à performance esportiva. Os dados numéricos emitidos pelos relógios GPS são muitas vezes compartilhados em redes sociais, pelos próprios usuários, de modo a comprovar e exibir resultados. Essas imagens são acompanhadas de uma série de outras, que destacam o estilo de vida de maratonistas que conciliam suas rotinas profissionais com a de corredores e tornam esse desdobramento possível.

A pesquisa, ainda em andamento, contempla a análise de dados gerados por seis atletas amadores de corrida de rua e praticantes de maratonas, ou seja que correm provas com distância de 42k195m, métrica oficial de uma maratona. Optou-se por analisar rotinas de atletas amadores, pois, eles conciliam o esporte com a vida profissional, uma vez que não tem no esporte uma fonte de renda,

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. Todos os participantes possuem inserção em redes sociais e optou-se por analisar a rede social Instagram, que atualmente é a mais popular entre eles e tem sido utilizada para compartilhamento de imagens e da rotina de treinos. Cinco, dos seis participantes já correram uma maratona ou mais.

Para o presente artigo foram selecionadas postagens feitas no Instagram pelos seis participantes da pesquisa no período compreendido entre de junho de 2018 e março de 2019. Considerando o conjunto de postagens, destacaram-se aquelas que davam ênfase ao desempenho esportivo de cada atleta.

Como já foi afirmado, a performance se efetiva e se realiza na sua exposição e exibição e parece hoje vinculada menos a um fazer artístico, e, mais, a um imperativo para a vida, por meio do qual os indivíduos são responsabilizados por sua empregabilidade, por exemplo, bem como pela autopromoção de suas habilidades e competências, nos mais variados âmbitos de ação da vida. A performance contemporânea poderia ser entendida como mola propulsora das múltiplas atuações na vida cotidiana. Todo o peso dessa definição recai

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Alguns desses atletas amadores recebem pequenos patrocínios, como apoio financeiro ou na forma de produtos

vinculados ao esporte, mas não possuem como renda principal a corrida.

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no polo receptor: no outro, aquele que olha ou assiste e, com esse gesto, tem o poder de conceder existência ao personagem que performa. Desse modo, acaba de ser delineado, aqui, outro ajuste importante na definição de que significa performar: consiste em fazer algo – ou, simplesmente, em ser ou parecer alguém – com a certeza de estar sendo observado (SIBILIA, 2015, P.350).

No caso da rede social Instagram, os perfis muito populares, com expressivo número de seguidores, passam a ser visados para a publicidade de certas marcas ou mercadorias – e podem receber, então, patrocínios para anuncia-las e estes são, então, chamados de digital influencers. O Instagram permite (como ocorre com outras redes sociais) que pessoas anônimas se tornem populares e famosas, e há aquelas que utilizam a publicidade como fonte de renda. Muitos dos perfis que se popularizam - como digital influencers, por exemplo - estão direcionados ao estilo de vida fitness. Nestes perfis, é comum encontrarmos imagens comparativas do corpo – um “antes” e um “depois” de aderir às práticas de vida ativa. Há uma profusão de imagens de corpos sarados, magros, bronzeados, apresentam-se recomendações de atividades físicas (e de como realizar), propagam-se receitas de comidas, suplementos alimentares, etc. Assim, por exemplo, corpos ativos exibidos e constituídos nestas redes podem ser aderentes às premissas de aprimoramento estético, mas também podem aderir a outras “verdades”, tais como a de necessário investimento em um corpo-tarefa, aberto ao aprimoramento e à melhoria do desempenho. No viés desta pesquisa, não são necessariamente os corpos esculpidos que atestam a vida ativa ou o alcance dos propósitos estabelecidos.

Também não são necessariamente corpos jovens, dedicados à tarefa de retardar o

envelhecimento. Contudo, quando o foco é o rendimento em algumas práticas esportivas, o

corpo esculpido não aparece, de modo geral, em primeiro plano nas imagens que tenho

observado nas redes sociais. O registro do esforço, do movimento, do treino parece estar

sendo exibido em números, em rotinas repetidas, em especial em perfis de atletas amadores,

possivelmente porque estes são responsáveis por construir uma vinculação capaz de legitimar

o lugar de atleta, ou seja, não são reconhecidos como atletas profissionais, não integram redes

oficiais e não estão vinculados a um órgão regulador que acompanha e divulga seus

resultados. Estes corpos são, ao que parece, exibidos por números e descritos por

procedimentos que implicam disciplina e persistência, são, em geral, acompanhados por um

grande número de seguidores.

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Podemos pensar, assim, que o corpo do atleta (ainda que este seja amador) se torna corpo público. Se a performance requer visibilidade, no contexto atual o compartilhamento de dados, informações, rotinas, resultados obtidos em treinos em modalidades esportivas parece colaborar para a produção de um lugar de sujeito atleta que diz respeito não apenas ao ato de realizar um esporte, mas de espetacularizar suas rotinas de treino e seus estilos de vida. . Exibir em redes sociais os resultados conquistados na realização do corpo-tarefa, através de esforço e disciplina, parece ter se tornado linguagem comum entre grupos de pessoas que almejam resultados semelhantes ou que se identificam com certo estilo de vida. Transformam- se, desse modo, os tipos de corpos que são produzidos no dia-a-dia, e gradativamente estes vão sendo adaptados para se tornarem compatíveis formas de ser e estar no mundo às quais os sujeitos aderem.

3. A corrida visível: modo como atletas amadores performam na rede social

Ao analisar os perfis no Instagram seis atletas participantes da pesquisa, foi levado em consideração, primeiramente o que estas pessoas desejam exibir, no tocante à prática esportiva, aos treinos e corridas de maratona. Sabendo-se que seriam encontradas postagens de diversas ordens e não apenas esportivas, procedeu-se então a uma seleção daquelas que correspondiam ao foco deste estudo. Em seguida, buscou-se analisar quais os tipos de imagens mais valorizadas em cada perfil, considerando também os textos pulicados que acompanham as imagens e, por fim, buscou-se destacar os pontos em comum que prevalecem entre os perfis dos seis participantes da pesquisa.

A atleta amadora de 32 anos que dedica sua rotina a estudar para concurso público,

alguns trabalhos como modelo, treinar corrida e manter sua vida social, apresenta diversas

publicações que dão destaque ao seu rosto (selfies), muitas imagens em que aparece correndo

sozinha ou com outras pessoas e algumas imagens com amigos e familiares, porém, a grande

maioria das publicações referem-se à corrida. O conjunto de imagens mostra sua preparação

para maratona, e, em uma delas a atleta está acompanhada por duas amigas, aparentemente ao

final de um treino longo de corrida, e o seguinte texto é colocado como legenda: “Longo de

30k pegado com essas aí!! Progressivo e encaixadinho! Valeu, gurias!”. Deste modo, ela

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registra o movimento empreendido em um treino com extensão de 30 quilômetros. Alguns dias após, ela participa de uma prova de corrida de rua de 5k, e publica uma imagem capturada durante a realização da prova e acompanhada da seguinte legenda: “Dá pra sofrer nos 42k, mas também nos 5k ! Tudo depende do quanto você se doa ou do seu objetivo, não é?! O texto dá visibilidade ao esforço demandado numa prova de rua, e, junto à imagem, colocam em relevo sua performance de forma a não desmerecer as pequenas distâncias, mas mostrando um corpo bem sucedido, alcançando os resultados esperados para aquele percurso.

No dia em que a atleta amadora corre uma Maratona, exibe-se em seu Instagram a imagem do troféu, acompanhada de um texto extenso que salienta o resultado: “Maratona Internacional de Porto Alegre: minha terceira maratona concluída em casa, com direito a RP (tempo oficial de 3:08:42). Quarta colocada no geral feminino de amadoras e segundo lugar geral na categoria! Se estou feliz? Caramba!!!!” O texto registra que a atleta já correu três maratonas, e que nesta, ela bateu seu RP (recorde pessoal na linguagem dos atletas), e também dá visibilidade ao tempo oficial e sua colocação, ou seja, a performance comprovada e registrada em números.

Outra atleta que participa desta pesquisa, mantem um perfil na rede social que destaca, sua performance na corrida, resultados em números, fotos em pódios, e também exibe atividades de crossfit

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, em imagens que mencionam o como acorda cedo para treinar e o quanto de força faz no treino de um determinado dia. Recursos interessantes são empregados, a exemplo de um quadro-negro com o treino escrito em giz e uma frase avaliativa: “forcinha de hoje”. Esta atleta tem 38 anos e é fisioterapeuta. Não há imagens no seu perfil da rede social que representem sua profissão ou sua rotina de trabalho. Muitas imagens postadas valorizam seu corpo moldado pelo crossfit e pela corrida, em outras ela aparece com amigos e, na maioria dos casos, aparece correndo. Não são inseridos muitos textos nas postagens, contudo, a performance se torna evidente através do grande número de imagens que valorizam seu corpo e os resultados de um bom desempenho esportivo. As legendas, bastante sucintas, geralmente estão acompanhadas no diminutivo, “voltinha de domingo”, “forcinha de

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Treinamento que une levantamento de peso olímpico, ginástica, atletismo e outras modalidades em atividades de alta intensidade. Criado por Greg Glassman, é uma marca registrada internacionalmente pela CrossFit Inc.

Disponível em: https://www.ativo.com/cross-training/noticias-cross-training/crossfit-o-que-e-como-treinar-

onde/. Acesso em 15 de junho de 2019.

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segunda”,

Corridinha e Treino Top !!”, “provinha suada e quentinha”, “palquinho dos 30k”, “sábado como a gente gosta: treininho e corridinha top!!!”. Tal escolha parece voltada a marcar o caráter cotidiano das atividades, o esforço corriqueiro e normal para a performance de uma atleta amadora.

Ela é jornalista, estudante de educação física e proprietária de uma academia, é ultramaratonista aos 42 anos, atleta experiente e bastante conhecida entre aqueles que correm maratonas, na região metropolitana de Porto Alegre. Já ocupou os lugares mais altos dos pódios das corridas do sul do Brasil. Para esta atleta, não parece ser necessário estar a

“provar” constantemente sua performance em redes sociais. Percebe-se, pelo teor de suas publicações, que ela deseja exibir uma imagem de quem atualmente não se importa com os resultados, mas, apenas, em manter-se na ativa fazendo o que gosta: correr. No perfil da rede social da atleta, prevalecem imagens em que ela aparece correndo, ou outras, de corrida em geral, algumas inclusive com o filho ou em momentos de lazer. As legendas costumam ser bastante otimistas e trazem mensagens de incentivo, o que produz uma representação de atleta bem humorada e com longa trajetória. “Que festa linda!!!” (foi como ela se referiu a uma imagem que divide o pódio de uma corrida com outras cinco mulheres). “da série: nos gostamos é do estrago” (onde aparece correndo em subida), “42 quilômetros, 195 metros e trocentos zilhões de terabytes de alegria e sorriso numa só imagem” (legenda que acompanha uma imagem antiga em que aparece cruzando a linha de chegada em primeiro lugar na maratona de Punta de Leste), “memórias de uma reles pangaré” (sobre uma imagem em que aparece acompanhada de todos troféus do título de campeã de uma tradicional ultramaratona do Rio Grande do Sul). Observa-se que a atleta mantem um perfil bastante nostálgico onde traz imagens antigas de suas melhores performances e publica imagens atuais que destacam seu contínuo e rotineiro esforço em manter-se sempre correndo independente dos resultados.

Outro participante deste estudo é atleta de 33 anos e também representante comercial,

dedica várias postagens em seu perfil da rede social à corrida, com exceção de algumas

imagens em que aparece junto de amigos e da esposa. Na descrição do seu perfil, ele lista

todas maratonas que já fez, acompanhadas do resultado, da cidade e do ano, ou seja, é como

ele deseja ser visto. O conjunto de postagens exibe um maratonista que começou a correr a

pouco tempo (a primeira maratona data o ano de 2015) e que já concluiu pelos menos quatro

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maratonas ao redor do mundo (Berlim, Chicago, Boston e Porto Alegre) e parece ser um perfil em ascensão, pois, com resultados progressivos. Além destes dados, o atleta disponibiliza o acesso a um link que direciona para um aplicativo no qual se pode acompanhar a rotina de treinos dele, bem como, ler seu desempenho e seus resultados. Com um perfil altamente performático, sobretudo em números que compravam e exibem seus resultados, ele publica imagens relacionadas a suas performances como corredor que destacam seu orgulho em estar conquistando tais resultados, como na imagem que aparece em frente a um ponto de turístico na cidade de Chicago, com a medalha da maratona recém concluída: “CHICAGO MARATHON 2018. PR 2:41:50 (Pace 3’49”/km) My fastest marathon! 7 maratonas, 7 recordes batidos! Só tenho a agradecer por essa curta, mas tão intensa trajetória de maratonista.” Nesta legenda, o atleta pontua que esse resultado é sua melhor marca pessoal, sendo a maratona mais rápida que ele já vez, comprada através de números que referem-se ao tempo total de prova e ao ritmo que ele correu por quilômetro (evidenciar o ritmo por quilômetro = pace é muito significativo entre corredores, pois, dá a real a ideia da velocidade que o atleta se manteve correndo).

Outro participante, atleta experiente de natação de 47 anos e ingressante na corrida, o empresário começou a correr no ano de 2018 e em quatro meses de treinamento fez sua primeira maratona motivado pelo desafio de percorrer 42k. Em seu perfil da rede social há muitas imagens que dão destaque ao seu desempenho esportivo em piscinas, que demonstram sua rotina de treinos e dá visibilidade ao esforço requerido de um atleta para em manter-se ativo. Há postagens em que salienta que acordou antes das quatro horas da manhã para meditar, por exemplo. Pai de três filhos que divide sua rotina de atleta com a família e o trabalho, ele publica também um expressivo número de imagens em que aparece acompanhado da esposa e dos filhos. Nas publicações que se referem à corrida, ele deixa claro que não é seu esporte de origem e que tampouco irá obter resultados significativos como na natação, contudo, justifica que a corrida, assim como todos os seus esforços diários, contribui para tirá-lo da sua zona de conforto em busca daquilo que ele menciona constantemente em suas legendas: “a busca pela sua melhor versão”.

Não sou corredor...Esta certeza faz com que eu busque na corrida meu

estado de desconforto, onde tenho que me esforçar muito para aprender com

meu corpo e com os outros, assim eu busco melhorar onde sou fraco e ruim ,

assim eu busco uma melhor versão , fazendo o meu melhor , mesmo que o

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resultado não tenha expressão para os outros , ele é fundamental no meu propósito.

A performance do atleta amador, está sendo exibida num contexto mais amplo, ou seja, não propriamente relacionada aos resultados obtidos na corrida, mas em sua rotina diária multi-esportiva, conciliada com sua vida social e profissional, sob o argumento de chegar na sua “melhor versão”.

Por fim, o atleta e profissional de Educação Física de 42 anos, é o mais “discreto”

entre os seis participantes da pesquisa. Em seu perfil na rede social, há poucas publicações, se comparado aos outros cinco atletas, e pouco enfatiza sua performance esportiva, priorizando imagens da família (esposa e filho) e da sua rotina como treinador de natação e de corrida.

Este atleta parece prevalecer uma certa “modéstia” em relação ao seu desempenho quanto atleta. É possível perceber que ele dedicou alguns anos de sua vida a outras prioridades (que não a praticar esportes) quando publica em 2018 uma imagem do kit que é entregue aos inscritos na trigésima quinta maratona de Porto Alegre e ele escreve na legenda: “9 anos depois”, ou seja, ele ficou 9 anos sem correr uma maratona.

De modo geral, a análise realizada das postagens exibidas nos perfis o Instagram de atletas amadores, constroem-se sentidos de corpo performer, constituído em treinos para corridas de longas distâncias, e, nesse sentido, se sobressai o caráter individual de uma atividade marcada por percursos solitários, por metas personalizadas, embora sempre em negociação com metas e com performances de outros corredores, ou seja, se o resultado é digno de ser exibido é porque ele possui um diferencial em relação a outros resultados. A representação da corrida como prática redentora se expressa, em particular, no modo como imagens e legendas promovem um corpo ativo, saudável e vigoroso, algo que poderia incentivar a prática esportiva e incentivar seguidores.

O evento da maratona, por sua vez, é exibido como experiência extrema, como

performance de um corpo no limite, que cumpre o percurso junto a uma multidão, ora como

ato solitário, regulado pelo ritmo individual no confronto com o de um corpo coletivo, ora

como acontecimento que requer negociação de metas de desempenho previamente

estabelecidas, em função de contingências do percurso, da ação de outros corredores e dos

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limites do próprio corpo. A performance do atleta amador que corre maratonas é construída a

partir de demonstrações de um corpo veloz e resistente.

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