XI Semana de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação - SEPesq Centro Universitário Ritter dos Reis
XI Semana de Extensão, Pesquisa e Pós-Graduação SEPesq – 19 a 23 de outubro de 2015
O Caminho do Apartamento Moderno no Brasil Vivian K.Levy
Mestranda em Arquitetura e Urbanismo Unirriter
[email protected] Resumo
Este artigo trata da evolução, do caminho que a tipologia do edifício de apartamentos moderno cursou para consolidar-se no Brasil. Segundo Aldo Rossi
1“tipologia é a idéia de um elemento que desempenha um papel próprio na constituição da forma e que é uma constante”.No Brasil o percorreu um complexo processo de transformações, verticalizando-se no início do século XX, até que, no final da década de 1930, consolidou-se no seu padrão moderno -o edifício de apartamentos -como moradia das classes média e alta. Assumiu o significado de bem morar e de morar de forma moderna, o morar moderno.
Nem sempre morar em apartamentos significou o status que atingiu a partir da década de 30. O apartamento na história e os modos de morar em apartamentos no Brasil percorreram um trajeto cheio de acontecimentos que acompanha o processo de desenvolvimento da sociedade brasileira. Lemos
2fala que na Europa, o apartamento cumpriu o papel de solução para as classes baixas, enquanto no Brasil, cumpriu um papel diferente, nasceu para classe média e media alta. Este processo não foi hegemônico, iniciou-se no eixo Rio – São Paulo e depois atingiu as outras grandes cidades brasileiras.
1 Introdução
A revolução industrial foi uma importante alavanca para a idéia de arquitetura moderna, forneceu novos métodos construtivos e preconizou novas formas. Neste período foi criada uma divisão entre engenharia e arquitetura. Novas tipologias advindas da necessidade de uma sociedade industrial como estações ferroviárias e arranha-céus, que não tinham precedentes históricos, tinham que ser construídos, o que intensificou a crise do uso da tradição. Este estudo propõe-se a entender o caminho percorrido no Brasil para o
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ROSSI, Aldo. 1995, pg 77
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LEMOS, 1976, p. 158.
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estabelecimento desta nova tipologia, o arranha-céus, mais especificamente o edifício de apartamentos moderno.
Para discorrer sobre o tema a que esse artigo se propõe é preciso entender o significado da palavra apartamento: Apartamento, conforme Lemos e Corona
3, vem da palavra que significa ato ou efeito de apartar e, em arquitetura, é usada para designar elementos de separação como, por exemplo, cercas, muro, divisórias, ou então elementos separados como as unidades de moradia em prédios de habitação coletiva. Daí a expressão, “prédios de apartamentos”.
Quando falamos em apartamento, duas características são fundamentais para a sua delimitação enquanto espaço conceitual, o coletivo e a privacidade, que embora aparentemente contraditórios são essenciais para o entendimento do “morar em apartamento”. O coletivo com relação à habitação em conjunto, de vários núcleos familiares em uma mesma edificação, em um mesmo abrigo é o que caracteriza o morar coletivamente pois, embora isolados, várias famiíias convivem de maneira muito próxima.
Simultâneamente, essa coexistência é igualmente privativa, cada núcleo possui o seu habitat estabelecido, com seus limites físicos, seus costumes e suas rotinas.
Alguns aspectos formais também são de grande importância como o princípio da verticalidade e da repetição de unidades, característica esta que otimiza a construção desta tipologia.
A história de edifícios altos no Brasil inicia-se no início do século XX mas tem origem no século XIX, época de vastas transformações sociais, políticas e econômicas. A luta pela abolição da escravatura e proclamação da República, o crescimento das atividades terciárias (capital financeiro, exportação e importação) , a atração de migrantes através
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Lemos, A.C e Corona E. Dicionário da arquitetura brasileira. Edart-São Paulo Livraria Editora, 1972
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do êxodo rural e imigrantes que vinham de outros países tentar a sorte no Brasil, são alguns dos fatores desta transformação. O início da industrialização é outro grande determinante que definiu os números acentuados da concentração urbana que precisava habitar, principalmente no eixo no Rio São Paulo.
2. Capítulo 1
A história da moradia no século XIX no Brasil traz , como ponto de partida, as habitações populares coletivas e insalubres surgidas a partir do processo de urbanização e industrialização que já citamos anteriormente. As transformações que ocorreram no espaço urbano e na habitação, tem uma sequência de tipos arquitetônicos claramente definidos, que se começa com as estalagens, os cortiços, as casas-de-cômodos e a as vilas.
Posteriormente, início do século XX, inicia-se o processo de verticalização, com o surgimento do edifício de apartamentos que é o objeto de nosso trabalho.
A partir do início do século XX o setor imobiliário se expandiu com a construção de prédios comerciais no centro e residenciais nos bairros e subúrbios. Em alguns bairros onde se instalaram indústrias localizaram-se vilas operárias de fábricas. A expansão dos sistemas de infra-estrutura e dos serviços urbanos valorizaram e consolidaram as áreas residenciais.
Uma emergente camada social de maior poder aquisitivo passou a requisitar estes bairros e estas moradias. O padrão arquitetônico das casas diversificou-se, incorporando avanços tecnológicos e adequando-se aos novos moradores: as camadas médias.
A busca de melhor aproveitamento do terreno fez aumentar a altura das construções e o
número de unidades habitacionais: surgiram sobrados de três ou quatro pavimentos e
formas intermediárias entre as vilas e os edifícios de apartamentos, chamadas de casas
coletivas de apartamentos mas edificadas de forma tradicional. No entanto, precisava-se
cada vez mais de moradias, dar maior aproveitamento aos lotes; a verticalização tornou-se
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imperativa. Os padrões construtivos utilizados até então não contemplavam a técnica necessária para este novo empreendimento.
Ao contrário do que ocorreu em outros países em que a verticalização surgia como solução técnica necessária para a questão da habitação social, no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde inicia-se este processo no Brasil, o edifício de apartamentos surge como a moradia das ascendentes classes médias, com o status do bom gosto, do luxo, da distinção e do moderno.
O cenário urbano escolhido para a construção dos novos edifícios no Rio de Janeiro foram os trechos modernos da capital federal: num dos extremos da Avenida Central e em Copacabana. Em São Paulo a verticalização inicia-se no mesmo periodo, na zona central da cidade, mas voltada para os edifícios comerciais. A partir da metade dos anos 30 é que o processo de verticalização em São Paulo, assume um caráter residencial e passa a ocupar os bairros próximos ao Centro. Um exemplo significativo é o bairro de Higienópolis, onde os palacetes começaram a dar lugar aos edifícios de apartamento, o que foi decisivo para a elite paulistana aceitar a moradia coletiva.
Foi nesta conjuntura dos anos 1930, no Rio e em São Paulo, que o edifício de apartamentos trouxe à tona uma discussão sobre um modelo de cidade que deixava sua matriz européia para vincular-se ao domínio do capital americano e à sua imagem: o arranha-céu. O edifício de apartamentos, neste momento, veiculava a imagem de progresso e avanço técnico, gerando uma rentabilidade bem superior à das habitações horizontais de aluguel construídas até então, inclusive por permitir a sobreposição de unidades numa mesma gleba, em vários pisos.
Segundo Regina Meyer
4“o crescimento vertical e a organização de novas funções criou simbólica e concretamente um papel diferenciado, prestigioso e dominante para o centro da metrópole”. Desta forma Meyer esclarece que a tecnologia esteve totalmente comprometida
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Meyer, Regina. 1977 pg 82
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com o crescimento vertical e que o arranha-céu atestava a intensidade da atividade industrial, criava novas relações de uso do solo urbano e alterava estruturalmente a metrópole, ilustrando a capacidade tecnológica e produtiva da sociedade como um todo. Em meados dos anos 1930, a cidade de São Paulo já era considerada uma metrópole, com uma verticalização consolidada na área central e em franco processo de expansão em bairros circunvizinhos.
A partir das décadas de 1940/50, houve uma volta de parte da população de baixa renda a habitar coletivamente nos edifícios de apartamentos que integravam os conjuntos habitacionais mas não vamos aprofundar aqui este assunto.
O público que passou a habitar os apartamentos modernos era elitizado, houve a necessidade de fazer ajustes nos modos de morar. Tudo era novo, o espaço e a tecnologia, em um grupo social que tinha a intenção de acompanhar o movimento dos tempos modernos. Acomodar-se a essas alterações exigia esforços, tanto dos moradores como de quem projetava e construia os edificios.
Segundo Lemos
5uma diferença significativa entre o apartamento europeu e o brasileiro era em relação ao zoneamento dos edifícios de apartamentos, começando pelos acessos e continuando pelas circulações verticais e horizontais até chegar ao espaço interno, as separações entre as classes serventes e servidas.
As habitações coletivas do Velho Mundo mostram a ausência de zoneamento interno nos a partamentos, zoneamento tão do nosso agrado que sempre procura diferenciar as circulações verticais das horizontais, separar o caminhamento da empregada, do fornecedor, do percurso do
“nobre” do proprietário, e agrupar os quartos e banheiros em zona íntima.
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LEMOS, 1976, p. 141.
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