aSanta Casa de Misericórdia de Maceió – Maceió (AL), Brasil.
bUniversidade Federal de Alagoas – Maceió (AL), Brasil.
Dados para correspondência
Marcus Vinicius Palmeira Oliveira – Rua Antônio Gerbase, 82 – Pitanguinha – CEP: 57052-160 – Maceió (AL), Brasil – E-mail: [email protected] Recebido em: 22/01/2018. Aceito em: 13/03/2018
DOI: 10.5327/Z2447-211520181800001
POlIfARMáCIA e MeDICAMeNtOs POteNCIAlMeNte INAPROPRIADOs eM
IDOsOs ADMItIDOs eM uM hOsPItAl teRCIáRIO
Polypharmacy and the use of potentially inappropriate medications among aged inpatients
Marcus Vinicius Palmeira Oliveira
a, David Costa Buarque
a,bresuMo
OBJETIVO: No Brasil, 70% dos idosos possuem ao menos uma patologia crônica e, destes, 60% usam mais de 4 medicamentos regularmente, constituindo a polifarmácia. Medicamentos potencialmente inapropriados (MPI) são utilizados por 40% dessa população. Tanto a polifarmácia quanto os MPI estão associados a desfechos negativos, como maior frequência de interação medicamentosa, quedas, fragilidade, desnutrição e, em alguns casos, mortalidade. MÉTODO: Estudo transversal retrospectivo em que foram incluídos idosos internados por motivo clínico no hospital da Santa Casa de Misericórdia de Maceió (SCMM) entre março de 2015 e fevereiro de 2016. Foi avaliada a presença de polifarmácia e MPI, correlacionando-os com outras variáveis de interesse. RESULTADOS: Foram analisados 456 prontuários eletrônicos de pacientes com idade média de 83 anos, sendo 71,3%
do sexo feminino. O índice de comorbidade de Charlson (ICC) médio foi de 2,38, sendo demência a morbidade mais prevalente (36,6%). Polifarmácia esteve presente em 56,5% dos pacientes e 46,4% tinham ao menos um MPI, sendo mais frequente o uso de antipsicóticos (46,2%), seguidos por benzodiazepínicos (33%). Interação medicamentosa foi detectada em 53,5% dos pacientes. A presença de polifarmácia se correlacionou com MPI (p < 0,001). Além disso, polifarmácia e MPI se correlacionaram com interação medicamentosa (p < 0,01), pior funcionalidade (p < 0,01) e maior ICC (p = 0,015). CONCLUSÃO: Na população estudada, a presença de polifarmácia foi de 56,5% e a de MPI, 46,5%. Ambas se correlacionaram positivamente com a presença de interação medicamentosa, pior funcionalidade e maior ICC.
PALAVRAS-CHAVE: saúde do idoso; prescrição inadequada; polimedicação.
aBstract
OBJECTIVE: In Brazil, 70% of older adults have at least one chronic disease and, of these, 60% use more than four medications regularly, characterizing polypharmacy. Potentially inappropriate medications (PIMs) are used by 40% of this population.
Both polypharmacy and PIM use are associated with negative outcomes, such as increased frequency of drug interactions, falls, frailty, malnutrition, and in some cases, death. METHOD: This was a cross-sectional study with retrospective data collection of all older patients admitted for clinical reasons to a tertiary care hospital in Brazil from March 2015 to February 2016.
We evaluated patients for the presence of polypharmacy and PIM use, correlating these findings with other variables of interest.
RESULTS: The medical records of 456 patients were analyzed. Mean patient age was 83 years, and 71.3% were women.
The mean Charlson comorbidity index (CCI) was 2.38, and dementia was the most prevalent comorbidity (36.6%). Polypharmacy was present in 56.5% of patients, and 46.4% of them used at least one PIM. Antipsychotics were the most frequently used PIM (46.2%), followed by benzodiazepines (33.0%). Drug interactions were detected in 53.5% of patients. The presence of polypharmacy was associated with the use of PIMs (p < 0.001). Additionally, both polypharmacy and PIM use were associated with drug interactions (p < 0.01), poorer functional status (p < 0.01), and higher CCI (p = 0.015). CONCLUSION: In this study population, the prevalence of polypharmacy was 56.5%, and 46.5% of cases included the use of PIMs. Both conditions were associated with drug interactions, poorer functional status, and higher CCI.
KEYWORDS: health of the elderly; inappropriate prescribing; polypharmacy.
introdução
Nas últimas décadas, o fenômeno do envelhecimento populacional vem se destacando e, junto com ele, a elevação da prevalência de doenças crônicas e limitação funcional.
Uma em cada 9 pessoas no mundo tem 60 anos de idade ou mais, estimando-se a proporção de 1 em cada 5 por volta do ano de 2050.1 No Brasil, 70% dos idosos possuem ao menos uma patologia crônica que necessita de tratamento farma- cológico regular e 60% utilizam mais de 4 medicamentos regularmente,2 constituindo para a maioria dos autores o conceito de polifarmácia.3,4
O manejo medicamentoso do idoso é parte primor- dial do cuidado geriátrico. Prescrever é o processo final do atendimento e o ato que diferencia o profissional médico.
Torna-se um processo de extrema complexidade, pois inclui:
1. escolher a melhor droga;
2. determinar a posologia para cada caso;
3. acompanhar a eficácia;
4. acompanhar os efeitos adversos em cada prescrição.5 A prescrição de um medicamento potencialmente inapro- priado (MPI) pode acarretar um evento adverso evitável, tra- zendo graves consequências ao paciente. Um MPI é aquele que apresenta risco significativo de evento adverso relacionado ao uso do fármaco, quando existe evidência de medicação alter- nativa igual ou mais efetiva.6,7 No idoso, a possibilidade desses eventos é ainda maior e qualquer novo sintoma deve ser atri- buído a uma droga nova prescrita até que se prove o contrá- rio.8 Além disso, o uso de MPI está associado ao aumento do risco de hospitalização e mortalidade, tornando-se um rele- vante problema de saúde para essa população.7
Outro grande desafio é que os testes realizados para libera- ção de novos medicamentos geralmente excluem pessoas idosas, fazendo com que as doses aprovadas para adultos jovens possam não ser apropriadas para idades mais avançadas. Além disso, as alterações fisiológicas relacionadas à idade modificam a far- macocinética e a farmacodinâmica dos medicamentos, assim como déficits sensitivos e cognitivos (mais prevalentes nos pacientes idosos) dificultam seu manejo adequado.5,8,9
Diante dessa problemática, grupos de especialistas volta- ram-se para o estudo dos efeitos nocivos de medicamentos em idosos, sendo os mais conhecidos os critérios de Beers,10 Screening Tool of Older Person’s Prescriptions (STOPP),11 Screening Tool to Alert Doctors to Right Treatment (START)12 e Fit for the Aged (FORTA).13 Entre eles, destaca-se American Geriatrics Society 2015 Beers Criteria Update Expert Panel,10 que desenvolveu uma lista de medicamentos potencialmente deletérios para idosos, considerando-se grau de evidência e força de recomendação para o uso de cada droga.
Apesar do aumento da preocupação com a prescrição médica, sobretudo MPI, e a visão mais especializada do paciente idoso, todos os dias são pesquisados novos princípios ativos, tornando cada vez mais complexo o manejo medicamentoso nessa faixa etária, acarretando elevado risco iatrogênico.
O objetivo deste estudo foi avaliar a prevalência de MPI e polifarmácia em pacientes admitidos em um hospital ter- ciário, correlacionando-a com variáveis de interesse, para posterior elaboração de um perfil de características gerais relacionadas a essas condições.
MÉtodos Desenho do estudo
Trata-se de um estudo transversal retrospectivo, em que foram incluídos os registros dos pacientes idosos (a partir de 60 anos) internados por motivo clínico no hospital da Santa Casa de Misericórdia de Maceió (SCMM) no período de março de 2015 a fevereiro de 2016. Foram excluídos pacientes reinternados no mesmo período e aqueles cujos prontuários não tinham registro adequado das variáveis necessárias para o estudo. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) (CAAE: 56764616.5.0000.5011/
número do parecer: 1.685.590)
Coleta de dados
A coleta dos dados foi realizada através da consulta de prontuários eletrônicos do hospital da SCMM, utilizando- se ficha própria. Foram avaliadas as variáveis idade (em anos completos), duração do internamento (em dias), funciona- lidade (grau de dependência quanto a atividades básicas de vida), índice de comorbidade de Charlson — ICC14 (que prevê prognóstico e mortalidade de indivíduos no período de um ano), número de medicamentos em uso, presença de polifar- mácia7 (cinco ou mais medicamentos em uso), presença de MPI (utilizando-se critério de Beers) e presença de interação medicamentosa (utilizando-se banco de dados do módulo Drug Interaction, Aplicativo Medscape para Android Copyright 2015 Web MD, LLC).
Análise dos dados
Os dados foram tabulados na plataforma on-line Google Docs e analisados posteriormente no programa estatístico SPSS 16.0, sendo divididos quanto ao uso ou ausência de MPI e à presença ou ausência de polifarmácia para compa- ração das variáveis de interesse. Foram utilizados os testes do χ2 e t de Student para análise estatística, a depender do tipo
de variável, e considerada diferença estatisticamente signifi- cativa entre grupos quando p < 0,05.
resultados
Foram analisados 606 prontuários dos pacientes inter- nados no período considerado. Foram excluídos 150 pron- tuários (123 reinternações e 27 internamentos com dados insuficientes), totalizando 456 internações validadas para análise. Os pacientes tinham idade média de 83 (± 8,24) anos, sendo 71,3% do sexo feminino. A maioria (62,3%) possuía algum grau de dependência funcional, sendo 27,4%
totalmente dependentes para atividades básicas de vida diá- ria (ABVD). O tempo médio de permanência hospitalar foi de 20 dias, com mediana de 13 dias, sendo que a maior parte dos pacientes permaneceu internada por um período entre 7 e 14 dias (31,6%), conforme exposto na Tabela 1.
Quanto à gravidade dos pacientes, o ICC médio foi de 2,38, sendo que 41,4% deles se encontravam no intervalo entre 1 e 2, que corresponde à mortalidade de 26% em 1 ano.14 Entre as morbidades mais prevalentes, estiveram: demência (36,6%), diabetes com lesão de órgão-alvo (29,8%) e doença cerebrovascular (20%), conforme explicitado na Tabela 1.
A prevalência de polifarmácia foi de 56,5%. O número de medicamentos utilizados variou de 0 a 17 fármacos no momento do internamento, com média de 5,69 e mediana de 5 medicamentos por paciente (Tabela 2).
Entre os indivíduos estudados, 46,5% utilizavam ao menos um MPI no momento do internamento, sendo que 11,6% faziam uso de dois MPI e 4,6% utilizavam três ou mais. A classe de MPI mais utilizada foi a de antipsicóti- cos (46,2%). Foi observado que, para 53,5% dos pacientes, a prescrição ambulatorial apresentava algum tipo de interação medicamentosa (Tabela 2), condição que aumenta propor- cionalmente ao número de fármacos utilizados.
Não foi encontrada diferença de sexo ou idade entre ido- sos que utilizavam MPI de forma regular. O uso de MPI, na amostra estudada, correlacionou-se com maior dependência para ABVD, presença de polifarmácia e interação medicamen- tosa, além de maiores valores de ICC (Tabela 3). De modo semelhante, a presença de polifarmácia também se correla- cionou com pior funcionalidade, maior ICC, uso de MPI e interação medicamentosa (Tabela 4).
discussão
Diante dos resultados apresentados, observamos uma ele- vada prevalência de polifarmácia e uso de MPI na amostra estudada, evidenciando a suscetibilidade dos idosos a essas
Prontuários analisados 456
Idade (média ± DP) 83 ± 8,24
Sexo
Feminino 325 (71,3%)
Masculino 121 (28,7%)
Funcionalidade
Dependência total para ABVD 125 (27,4%) Dependência parcial para ABVD 159 (34,9%) Independência para ABVD 172 (37,7%) Tempo de internação (média ± DP) 20 ± 22,8
< 7 dias 105 (23%)
7–14 dias 144 (31,6%)
15–21 dias 71 (15,6%)
22–30 dias 59 (13%)
> 30 dias 76 (16,7%)
ICC (média ± DP/mediana) 2,38 ± 2/2
0 80 (17,5%)
1 e 2 189 (41,4%)
3 e 4 128 (28,1%)
> 4 59 (13%)
Comorbidades
Demência 167 (36,6%)
Diabetes com lesão de órgão-alvo 136 (29,8%)
Doença cerebrovascular 91 (20%)
Insuficiência cardíaca 53 (11,6%) Doença pulmonar obstrutiva crônica 52 (11,4%) Doença vascular periférica 52 (11,4%) Infarto agudo do miocárdio 43 (9,4%)
Outras morbidades 122 (26,9%)
Desfecho da internação
Alta 380 (83,3%)
Óbito 76 (17,7%)
Tabela 1 Características da amostra estudada.
DP: desvio padrão;ABVD: atividades básicas de vida diária;
ICC: índice de cormobidade de Charlson.
condições. Por se tratar de idosos internados, lidamos com uma população mais comprometida, com elevada média de idade e comorbidades (41% com ICC maior ou igual 3), o que pode justificar o alto grau de limitação funcional encon- trado, assim como a elevada média de permanência hospitalar, o que está de acordo com a literatura disponível.15
Do total da amostra, 56,5% dos pacientes utilizavam pelo menos 5 medicamentos e 14,4% eram usuários crônicos
Tabela 2 Análise da amostra estudada quanto a polifarmácia, uso de medicações inapropriadas e interação medicamentosa.
DP: desvio padrão; AINEs: anti-inflamatórios não esteroides.
Polifarmácia N (%) 258 (56,5%)
Medicamentos em uso (média ± DP) 5,6 ± 3,4
0 20 (4,4%)
1–4 178 (39,1%)
5–9 192 (42,1%)
Mais que 10 66 (14,4%)
Uso de medicação inapropriada 212 (46,5%) Principais fármacos inapropriados
Antipsicóticos 98 (46,2%)
Benzodiazepínicos 70 (33%)
Antiarrítmicos 21 (10%)
Antidepressivos tricíclicos 18 (8,4%)
AINEs 11 (5,1%)
Hipnóticos não benzodiazepínicos 11 (5,1%) Interação medicamentosa 244 (53,5%) Desfecho
Alta 380 (83,3%)
Óbito 76 (17,7%)
Tabela 3 Comparação entre grupos de pacientes que utilizavam ou não medicamento potencialmente inapropriado no momento da admissão de acordo com sexo, idade, funcionalidade, índice de comorbidade de Charlson, polifarmácia (uso de cinco ou mais medicamentos), interação medicamentosa, tempo de internação e desfecho.
MPI: medicamentos potencialmente inapropriados; DP: desvio padrão; ateste do χ2; bteste t de Student; ABVD: atividades básicas de vida diária; ICC: índice de cormobidade de Charlson.
Variáveis Presença de MPI N = 212
Ausência de MPI
N = 244 Valor p Idade (média ± DP) 82,6 ± 7,6 83,2 ± 8,7 0,42b Sexo
Feminino 145 (44,6%) 180 (55,4%)
0,23a Masculino 67 (51,1%) 64 (48,9%)
Funcionalidade Dependência
total para ABVD 70 (56%) 55 (44%)
< 0,001a Dependência
parcial para ABVD
82 (51,6%) 77 (48,4%)
Independência
para ABVD 60 (34,9%) 112 (65,1%) ICC (média ± DP) 2,62 ± 2,1 2,16 ± 1,85
0,015b
0 30 (37,5%) 50 (62,5%)
1–2 88 (46,6%) 101 (53,4%)
3–4 61 (47,6%) 67 (52,4%)
> 4 33 (56%) 26 (44%)
Polifarmácia 146 (56,5%) 112 (43,5%) < 0,001a Interação
medicamentosa 153 (62,7%) 91 (37,3%) < 0,001a Tempo de
internação
(média, DP) 18,3 ± 18,4 21,6 ± 26,11
0,11b
< 7 dias 50 (47,1%) 56 (53,9%) 7–14 dias 70 (48,6%) 74 (51,4%) 15–21 dias 34 (47,9%) 37 (52,1%) 22–30 dias 27 (45,8%) 32 (54,2%)
> 30 dias 31 (40,8%) 45 (59,2%) Desfecho
Alta 181 (47,6%) 199 (52,4%)
0,275a
Óbito 31 (40,8%) 45 (59,2%)
de 10 ou mais fármacos (hiperpolifarmácia). Além da pre- valência de polifarmácia, a média de medicamentos utili- zados pelos pacientes avaliados foi semelhante à de outros estudos pelo mundo. Nos Estados Unidos, cerca de 60%
dos idosos usam polifarmácia e 20%, hiperpolifarmácia.16 Mizokami et al.17 encontraram uma média de 4,9 medi- camentos por idoso hospitalizado. Hubbard et al.18 ava- liaram 1.216 idosos admitidos em 11 hospitais australia- nos e, no momento da admissão, encontraram 23,8% dos pacientes em uso de hiperpolifarmácia, associando essa condição com presença de dor, dispneia e declínio funcio- nal durante o internamento. Em outro estudo, conduzido por Rosted et al.19 em pacientes internados num hospital terciário, 62% da amostra utilizava polifarmácia e 20%, hiperpolifarmácia, encontrando relação direta com a pre- sença de fragilidade e risco de readmissão hospitalar em 14 dias 5 vezes maior que entre idosos que utilizavam até 4 medicamentos. Estudo com metodologia semelhante foi conduzido por Nobili et al.,20 encontrando prevalência de 51,9% de polifarmácia em 1.332 idosos admitidos num hospital italiano. Já considerando pacientes ambulato- riais, Qato et al.21 analisaram 2.976 pacientes nos Estados Unidos e encontraram prevalência de 73% de idosos em uso de 5 ou mais fármacos diariamente.
Apesar de a literatura reforçar que a polifarmácia resulta em desfechos negativos para idosos, a média de medicamen- tos utilizados tanto em ambiente hospitalar quanto na comu- nidade ainda é bastante elevada em todo o mundo. Isso se
Variáveis Presença de polifarmácia
N = 258
Ausência de polifarmácia
N = 198 Valor p Idade (média ± DP) 82,6 ± 7,8 83,4 ± 8,6 0,42 b Sexo
Feminino 182 (56,0%) 143 (44,0%)
0,694a Masculino 76 (58,0%) 55 (42%)
Funcionalidade Dependência
total para ABVD 71 (56,8%) 54 (43,2%)
0,01a Dependência
parcial para ABVD
107 (67,3%) 52 (32,7%)
Independência
para ABVD 80 (46,5%) 92 (53,5%) ICC (média ± DP) 2,9 ± 2,0 1,7 ± 1,7
< 0,001b
0 24 (30%) 56 (70%)
1–2 95 (50,3%) 94 (49,7%)
3–4 96 (75%) 32 (25%)
> 4 43 (72,8%) 16 (27,2%)
Uso de MPI 146 (68,9%) 66 (31,1%) < 0,001a Interação
medicamentosa 203 (83,2%) 41 (16,8%) < 0,001a Tempo de
internação
(média ± DP) 21 ± 25,88 18,84 ± 18,06
0,28b
< 7 dias 56 (52,8%) 50 (47,2%) 7–14 dias 88 (61,1%) 56 (38,9%) 15–21 dias 38 (53,5%) 33 (46,5%) 22–30 dias 32 (54,2%) 27 (45,8%)
> 30 dias 44 (57,9%) 32 (42,1%) Desfecho
Alta 219 (57,6%) 161 (42,4%)
0,314a
Óbito 39 (51,3%) 37 (48,7%)
Tabela 4 Comparação entre grupos de pacientes que utilizavam ou não polifarmácia (cinco ou mais medicamentos) no momento da admissão de acordo com idade, sexo, funcionalidade, índice de comorbidade de Charlson, medicamentos potencialmente inapropriados, tempo de internação e desfecho.
DP: desvio padrão; ateste do χ2; bteste t de Student; ABVD: atividades básicas de vida diária; ICC: índice de cormobidade de Charlson;
MPI: medicamentos potencialmente inapropriados.
deve, possivelmente, ao aumento da prevalência de doenças crônico-degenerativas com o envelhecimento, dificultando tratamentos não farmacológicos exclusivos ou a suspensão de medicamentos essenciais. Cabe ao médico estar sempre
atento ao uso de medicamentos com benefício comprovado, utilizando as melhores evidências científicas disponíveis.20
A prevalência encontrada de MPI também foi elevada, sendo os antipsicóticos a classe mais prescrita, de modo semelhante à literatura disponível.22,23 Num trabalho brasi- leiro conduzido por Martins et al.,24 realizado com 621 ido- sos da cidade de Viçosa, Minas Gerais, foi encontrada uma prevalência de 43,8% de MPI. Estudando 667 idosos inter- nados num hospital universitário americano, Bahat et al.22 encontraram prevalência de 40% de MPI, e dentre os mais prescritos também estavam os antipsicóticos, seguidos por suplementos vitamínicos, aspirina e anticolinérgicos. Já numa revisão sistemática de 778 artigos que utilizaram os princi- pais critérios de identificação de MPI disponíveis (BEERS, STOPP, START), os benzodiazepínicos, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), antipsicóticos e anti-histamínicos foram as principais classes prescritas.23
O uso de MPI nos pacientes avaliados teve relação estatis- ticamente significativa com pior status funcional, polifarmácia e presença de demência (p < 0,001), não havendo diferença entre os sexos. No caso dos benzodiazepínicos, houve relação estatística com a presença de polifarmácia (p = 0,04), sendo mais prescritos em associação com essa condição. A obser- vação foi semelhante à de Vidal et al.,25 que encontraram as mesmas relações descritas, diferindo apenas por associar o sexo feminino com maior risco de prescrição de psicotrópi- cos entre idosos internados.
A predominância dos antipsicóticos dentre os MPI pode ser explicada pelo elevado número de pacientes com demên- cia e, consequentemente, sintomas neuropsiquiátricos e com- portamentais. O benefício do controle de tais sintomas pode se sobressair aos riscos da utilização desses fármacos, apesar de tal prática não encontrar respaldo na literatura. Apesar de os benzodiazepínicos serem associados a maior risco de quedas e declínio cognitivo, eles sempre aparecem entre os MPI mais prescritos,23,25-27 assim como os AINEs,23,26 que são relacionados a comprometimento gástrico, cardiovascu- lar e renal, o que demonstra uma prática preocupante pelo elevado risco iatrogênico.
Apesar da observação de que os idosos que utilizavam MPI tinham pior status funcional (p < 0,01), não há como definir a relação causa-consequência,23,25 sobretudo devido às limitações metodológicas da pesquisa. A presença de multi- morbidades22 está associada como fator de risco para uso de MPI na literatura, o que também ocorre neste trabalho, no qual quem faz uso de MPI tem maior valor médio de ICC (2,62/p = 0,015). Demência foi a única morbidade que, iso- ladamente, se relacionou estatisticamente com uso de MPI no presente estudo (p = 0,01), provavelmente pela grande
associação dessa condição ao uso de antipsicóticos. Em outros trabalhos também é associada à polifarmácia e ao maior risco de interação medicamentosa.8 Diabetes28 e doença renal crô- nica26 também estão relacionadas com MPI, apesar de esse não ser um achado deste trabalho.
Como observado em outros estudos,24,22 o número de MPI foi maior nos pacientes com polifarmácia (p < 0,01) e vice- versa. Esse fato se deve, provavelmente, à maior probabilidade de encontrar MPI quanto maior for o número de medicamen- tos utilizados, como no estudo de Weng et al.,29 que encon- traram risco 5,4 vezes maior de uso de MPI em pacientes que utilizavam 5 ou mais drogas em comparação aos pacien- tes que utilizavam menos de 2 medicamentos. Outro achado significativo foi a maior taxa de interação medicamentosa no grupo de pacientes que utilizavam ao menos uma droga ina- propriada (p < 0,001), assim como descrito na literatura.8,30
Diante das limitações metodológicas deste estudo (obser- vacionais e transversais), não é possível estabelecer riscos objetivos associados às condições estudadas em algumas das
variáveis analisadas, porém observa-se uma tendência de significância dos achados, dada a semelhança dos resultados com vários outros estudos da literatura.
conclusão
Na população estudada, a presença de polifarmácia foi de 56,5% e a de MPI, 46,5%. Ambos associaram-se à presença de interação medicamentosa, pior funcionalidade e maior ICC. Os MPI mais frequentes foram os antipsicóticos e os benzodiazepínicos. Dessa forma, é de extrema importância a vigilância da equipe de saúde quanto à polifarmácia e ao uso de MPI em idosos, sobretudo naqueles com as caracte- rísticas relacionadas nesta pesquisa, de modo a minimizar o risco de iatrogenia.
conFlito de interesses
Os autores declaram não haver conflito de interesses.
reFerÊncias
1. United Nations Population Fund, HelpAge International. Ageing in the Twenty-First Century: A Celebration and A Challenge. Executive summary. Nova York/Londres; 2012.
2. Ramos LR, Tavares NU, Bertoldi AD, Farias MR, Oliveira MA, Luiza VL, et al. Polypharmacy and Polymorbidity in Older Adults in Brazil:
a public health challenge. Rev Saúde Pública. 2016 Dec;50(Suppl 2):9s. DOI: 10.1590/S1518-8787.2016050006145
3. Gnjidic D, Hilmer SN, Blyth FM, Naganathan V, Waite L, Seibel MJ, et al. Polypharmacy cutoff and outcomes: five or more medicines were used to identify community-dwelling older men at risk of different adverse outcomes. J Clin Epidemiol. 2012;65:989-95. https://doi.
org/10.1016/j.jclinepi.2012.02.018
4. Lu WH, Wen YW, Chen LK, Hsiao FY. Effect of polypharmacy, potentially inappropriate medications and anticholinergic burden on clinical outcomes: a retrospective cohort study. CMAJ. 2015;187:E130-7.
https://doi.org/10.1503/cmaj.141219
5. Milton JC, Hill-Smith I, Jackson SHD. Prescribing for older people.
BMJ. 2008 Mar;336(7644):606-9. https://doi.org/10.1136/
bmj.39503.424653.80
6. Opondo D, Eslami S, Visscher S, Rooij SE, Verheij R, Korevaar JC, et al.
Inappropriateness of medication prescriptions to elderly patients in the primary care setting: a systematic review. PLoS One. 2012;7(8):e43617.
https://doi.org/10.1371/journal.pone.0043617
7. Oliveira MA, Amorim WW, Oliveira CRB, Coqueiro HL, Gusmao LC, Passos LC. Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Geriatr Gerontol Aging. 2016;10(4):168- 81. DOI: 10.5327/Z2447-211520161600054
8. Ferreira F, Diniz JSV, Medeiros-Souza P, Freitas MPD, Camargos EF, Kusano LTE, et al. Potential drug interactions among elderly with dementia. Geriatr Gerontol Aging. 2015;9(1):21-5.
9. Parsons C. Polypharmacy and inappropriate medication use in patients with dementia: an underresearched problem. Ther Adv Drug Saf. 2017 Jan;8(1):31-46. DOI: 10.1177/2042098616670798
10. By the American Geriatrics Society 2015 Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2015 Updated Beers Criteria for Potentially Inappropriate Medication Use in Older Adults. J Am Geriatr Soc. 2015;63:2227-46. https://doi.org/10.1111/jgs.13702
11. Hamilton H, Gallagher P, Ryan C, Byrne S, O’Mahony D. Potentially inappropriate medications defined by STOPP criteria and the risk of adverse drug events in older hospitalized patients. Arch Intern Med.
2011;171:1013-9. https://doi.org/10.1001/archinternmed.2011.215
12. Gallagher P, Ryan C, Byrne S, Kennedy J, O’Mahony D. STOPP (Screening Tool of Older Person’s Prescriptions) and START (Screening Tool to Alert doctors to Right Treatment). Consensus validation. Int J Clin Pharmacol Ther. 2008;46:72-83.
13. Kuhn-Thiel AM, Weiß C, Wehling M, FORTA authors/expert panel members. Consensus validation of the FORTA (Fit For The Aged) List: a clinical tool for increasing the appropriateness of pharmacotherapy in the elderly. Drugs Aging. 2014;31(2):131-40. https://doi.org/10.1007/
s40266-013-0146-0
14. Charlson ME, Szatrowski TP, Peterson J, Gold J. Validation of a combined comorbidity index. J Clin Epidemiol. 1994;47:1245-51.
15. Beard JR, Officer A, de Carvalho IA, Sadana R, Pot AM, Michel JP, et al.
The World report on ageing and health: a policy framework for healthy ageing. The Lancet. 2016;387(10033):2145-54. https://doi.
org/10.1016/S0140-6736(15)00516-4
16. Rocchiccioli JT, Sanford J, Caplinger B. Polymedicine and aging.
Enhancing older adult care through advanced practitioners. GNPs and elder care pharmacists can help provide optimal pharmaceutical care. J Gerontol Nurs. 2007 Jul;33(7):19-24.
17. Mizokami F, Koide Y, Noro T, Furuta K. Polypharmacy with common diseases in hospitalized elderly patients. Am J Geriatr Pharmacother.
2012 Apr;10(2):123-8. DOI: 10.1016/j.amjopharm.2012.02.003
18. Hubbard RE, Peel NM, Scott IA, Martin JH, Smith A, Pillans PI, et al.
Polypharmacy among inpatients aged 70 years or older in Australia.
Med J Aust. 2015 Apr 20;202(7):373-7. DOI: 10.5694/mja13.00172
19. Rosted E, Schultz M, Sanders S. Frailty and polypharmacy in elderly patients are associated with a high readmission risk. Dan Med J.
2016 Sep;63(9). pii: A5274.
20. Nobili A, Licata G, Salerno F, Pasina L, Tettamanti M, Franchi C, et al.
Polypharmacy, length of hospital stay, and in-hospital mortality among elderly patients in internal medicine wards. The REPOSI study. Eur J Clin Pharmacol. 2011 May;67(5):507-19. DOI: 10.1007/s00228- 010-0977-0
21. Qato DM, Alexander GC, Conti RM, Johnson M, Schumm P, Lindau ST.
Use of prescription and over-the-counter medications and dietary supplements among older adults in the United States. JAMA. 2008 Dec 24;300(24):2867-78. DOI: 10.1001/jama.2008.892
22. Bahat G, Bay I, Tufan A, Tufan F, Kilic C, Karan MA. Prevalence of potentially inappropriate prescribing among older adults: A comparison of the Beers 2012 and Screening Tool of Older Person’s Prescriptions criteria version 2. Geriatr Gerontol Int. 2017 Sep;17(9):1245-51. DOI:
10.1111/ggi.12850
23. Lucchetti G, Lucchetti AL. Inappropriate prescribing in older persons:
A systematic review of medications available in different criteria. Arch Gerontol Geriatr. 2017;68:55-61. DOI: 10.1016/j.archger.2016.09.003
24. Martins GA, Acurcio FA, Franceschini S do C, Priore SE, Ribeiro AQ. Use of potentially inappropriate medications in the elderly in Viçosa, Minas Gerais State, Brazil: a population-based survey. Cad Saúde Pública.
2015 Nov;31(11):2401-12. DOI: 10.1590/0102-311X00128214
25. Vidal X, Agustí A, Vallano A, Formiga F, Moyano AF, García J, et al. Elderly patients treated with psychotropic medicines admitted to hospital:
associated characteristics and inappropriate use. Eur J Clin Pharmacol.
2016 Jun;72(6):755-64. DOI: 10.1007/s00228-016-2032-2
26. Cojutti P, Arnoldo L, Cattani G, Brusaferro S, Pea F. Polytherapy and the risk of potentially inappropriate prescriptions (PIPs) among elderly and very elderly patients in three different settings (hospital, community, long-term care facilities) of the Friuli Venezia Giulia region, Italy: are the very elderly at higher risk of PIPs? Pharmacoepidemiol Drug Saf.
2016 Sep;25(9):1070-8. DOI: 10.1002/pds.4026
27. Morgan SG, Weymann D, Pratt B2, Smolina K, Gladstone EJ, Raymond C, et al. Sex differences in the risk of receiving potentially inappropriate prescriptions among older adults. Age Ageing. 2016 Jul;45(4):535-42.
DOI: 10.1093/ageing/afw074
28. Formiga F, Vidal X, Agustí A, Chivite D, Rosón B, Barbé J, et al. Inappropriate prescribing in elderly people with diabetes admitted to hospital. Diabet Med. 2016 May;33(5):655-62. DOI: 10.1111/dme.12894
29. Weng MC, Tsai CF, Sheu KL, Lee YT, Lee HC, Tzeng SL, et al. The impact of number of drugs prescribed on the risk of potentially inappropriate medication among outpatient older adults with chronic diseases. QJM.
2013 Nov;106(11):1009-15. https://doi.org/10.1093/qjmed/hct141
30. Alkan A, Yaşar A, Karcı E, Köksoy EB2, Ürün M, Şenler FÇ, et al. Severe drug interactions and potentially inappropriate medication usage in elderly cancer patients. Support Care Cancer. 2017 Jan;25(1):229-36.
https://doi.org/10.1007/s00520-016-3409-6