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Subjetividade, solidariedade e trabalho: a construção dos sentidos do trabalho no contexto da economia solidária

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Academic year: 2018

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CENTRO DE HUMANIDADES DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

CLARISSA DE FATIMA NOBRE CARVALHO

SUBJETIVIDADE, SOLIDARIEDADE E TRABALHO: A

CONSTRUÇÃO DOS SENTIDOS DO TRABALHO NO CONTEXTO DA

ECONOMIA SOLIDÁRIA

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SUBJETIVIDADE, SOLIDARIEDADE E TRABALHO: A CONSTRUÇÃO DOS SENTIDOS DO TRABALHO NO CONTEXTO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA

Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para a obtenção do título de mestre em Psicologia.

Linha de Pesquisa: Processos de mediação: trabalho, atividade e interação social

Orientador: Prof. Dr. Cássio Adriano Braz de Aquino

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[email protected]

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará

Biblioteca de Ciências Humanas

C322

Carvalho, Clarissa de Fátima Nobre

Subjetividade, Solidariedade e Trabalho: A construção dos sentidos do trabalho no contexto da Economia Solidária/ Clarissa de Fátima Nobre Carvalho. – 2011. 80 f; enc.; 30 cm.

Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Departamento de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia.

Área de Concentração: Psicologia

Orientação: Prof. Dr. Cássio Adriano Braz de Aquino

1. Psicologia Social. 2. Economia social. 3. Trabalho – psicologia 4. Trabalho – aspectos sociais I. Título.

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SUBJETIVIDADE, SOLIDARIEDADE E TRABALHO: A CONSTRUÇÃO DOS SENTIDOS DO TRABALHO NO CONTEXTO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA

Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para a obtenção do título de mestre em Psicologia. Linha de Pesquisa: Processos de mediação: trabalho, atividade e interação social.

Aprovada em ____/____/____

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________________ Prof. Dr. Cássio Adriano Braz de Aquino

Universidade Federal do Ceará

______________________________________________________________ Profa. Dra. Veriana de Fátima Rodrigues Colaço

Universidade Federal do Ceará

______________________________________________________________ Prof. Dr. João Bosco Feitosa dos Santos

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“O homem se humilha, se castram seus sonhos Seu sonho é sua vida, e a vida é o trabalho E sem seu trabalho o homem não tem honra E sem sua honra, se morre, se mata Não dá pra ser feliz”.

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Ao Prof. Dr. Cássio Adriano Braz de Aquino, meu estimado orientador, fonte de inspiração acadêmica e profissional. Obrigada por acreditar e conduzir este trabalho, pela liberdade, pela paciência e pela confiança.

À Prof. Fátima Sena, que me introduziu na temática da Economia Solidária e me proporcionou inúmeros aprendizados.

À Prof. Veriana Colaço e ao Prof. Bosco Feitosa, pela disponibilidade em ler, avaliar e contribuir com este trabalho, e a todos os professores do curso de Psicologia da UFC por suas imensuráveis contribuições em minha formação.

Aos colegas do mestrado, pela troca de conhecimentos e experiências, especialmente à Larissa, pelo carinho e boas energias.

Ao Hélder Hamilton, pela atenção e disponibilidade, fundamentais neste percurso. Aos meus pais, Clicério e Lindomah, por investir em minha formação e pelo apoio em todos os momentos.

Às minhas irmãs Amanda e Beatriz, tão queridas, pelo carinho, torcida e companheirismo.

Ao meu namorado Rafael, por compreender os períodos de ausência e estar ao meu lado em toda esta trajetória, do processo seletivo à conclusão da dissertação.

Aos membros de empreendimentos solidários que participaram desta pesquisa e confiaram a mim suas histórias

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O mundo do trabalho contemporâneo é perpassado por um cenário de profundas metamorfoses, exemplificado pela mudança nas relações laborais, cada vez mais dinâmicas e competitivas; no mercado de trabalho, onde se proliferam as terceirizações, subcontratações, desemprego; e nos modos de organização e produção, centrados predominantemente, no capital. Entre as estratégias de enfrentamento dos modelos de precarização laboral e alternativas de geração de renda, chama a atenção a proliferação das organizações solidárias, que se pautam em valores bastante distintos daqueles mais difundidos na sociedade atual, tais como cooperação, ajuda mútua, tomada de decisões democráticas. Esta especificidade motivou a realização desta pesquisa, a qual teve como objetivo geral compreender os sentidos atribuídos ao trabalho por membros de empreendimentos pautados nos princípios da Economia Solidária. A pesquisa foi realizada a partir da percepção dos próprios trabalhadores associados sobre esta realidade laboral e teve por pressupostos teóricos as ideias apresentadas por autores como Antunes (1995), Castel (2005), Singer (2002) e Vygostky (2001). A metodologia utilizada para a consecução dos objetivos propostos seguiu o referencial qualitativo, e a coleta dos dados foi realizada por meio de entrevistas individuais semiestruturadas. O material discursivo colhido, por sua vez, foi analisado tomando por base a Análise de Conteúdo proposta por Bardin (1977). Os dados analisados apontaram que a inserção nesses empreendimentos provoca um impacto positivo nos sentidos atribuídos ao trabalho, embora permaneçam referências à noção do trabalho com carteira assinada como garantia dos direitos e proteções a ele associados.

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exemplified by the change in labor relations, increasingly dynamic and competitive, labor market, which spread into the outsourcing, subcontracting, and modes of organization and production, predominantly centered in the capital. Among the coping strategies of the models of precarious employment and alternative income generation, draws attention to the proliferation of solidarity organizations, which are based on values very different from those most widely used in today's society, such as cooperation, mutual aid, democratic decision-making. This specificity motivated this research, which aimed to understand the general meanings attributed to work by members of enterprises based on the principles of Solidarity Economy. The research was conducted from the standpoint of the workers associated themselves and had the theoretical ideas presented by authors such as Antunes (2000), Castel (2005), Singer (2002) and Vygotsky (2001). The methodology for achieving goals followed the referential quality and data collection was conducted through individual interviews. The discursive material collected, in turn, was analyzed based on Content Analysis proposed by Bardin (1977). The data analyzed showed that inserting these projects brings a positive impact on the meanings attributed to work, while remaining references to the notion of working with a formal contract as a guarantee of rights and labor protections.

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CFB – Constituição Federal Brasileira CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas

CONAES – Conferência Nacional de Economia Solidária FBES – Fórum Brasileiro de Economia Solidária

FGTS – Fundo de Garantia do Tempo de Serviço

MPOG - Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão MTE - Ministério do Trabalho e Emprego

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1. INTRODUÇÃO...10

2. A COMPREENSÃO DO TRABALHO E SEU PAPEL NA CONSTRUÇÃO DO HOMEM...14

2.1. Estrutura da Atividade em Leontiév... 14

2.2. A constituição do psiquismo para Vygotsky...17

2.3. Correlações entre a Teoria da Atividade e a Psicologia Histórico-Cultural: o trabalho como categoria fundante do sujeito...20

2.4. Evolução social do trabalho...22

2.4.1. Das sociedades primitivas à sociedade industrial ...22

2.4.2. Sociedade pós-industrial: o mundo do trabalho contemporâneo...24

2.5. Trabalho, precarização laboral e exclusão social...26

3. MUNDO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO E NOVAS FORMAS DE ORGANIZAÇÃO LABORAL ...31

3.1. Terceiro Setor...32

3.2. Economia Social...34

3.3. Economia Popular...35

3.4. Economia Solidária... ...36

3.4.1. Histórico / Conceituação ...36

3.4.2. Polêmica que envolve a articulação dos termos “economia” e “solidariedade...38

3.4.3. Caracterização das iniciativas...30

3.5. A Economia Solidária no Brasil: desafios e paradoxos...41

4. PROBLEMATIZANDO O IMPACTO DA INSERÇÃO EM EMPREENDIMENTOS SOLIDÁRIOS NA SUBJETIVDADE DO TRABALHADOR...44

4.1. Transformações no mundo do trabalho e subjetividade...44

4.2. Significado e sentidos do trabalho...45

4.3. Método...48

5. ANÁLISE DOS DADOS ...54

5.1. Caracterização dos empreendimentos solidários...54

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5.5. Significados atribuídos ao trabalho: dimensão afetiva...66

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS...72

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...75

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1. INTRODUÇÃO

O interesse acerca da psicologia do trabalho foi despertado em virtude de minha primeira experiência profissional, aos 16 anos, como monitora de um curso de inglês na cidade de Fortaleza-CE. A modificação subjetiva trazida pela experiência (maior autoestima, realização subjetiva vinculada ao trabalho e maior reconhecimento social) me direcionou a prestar vestibular para o curso de Psicologia, influenciada pelo interesse específico na temática relacionada à subjetividade e trabalho.

No curso de Psicologia da UFC, tive a oportunidade de estagiar do NUTRA – Núcleo de Psicologia do Trabalho - o qual me possibilitou atuar diretamente com a temática nas vertentes do ensino, da pesquisa e da extensão universitária. Dentre os projetos em que atuei, destaco um realizado em parceria com Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS/Governo Federal). O projeto, intitulado “Alinhavando Sonhos e Construindo Realidades”, propunha-se a qualificar profissionalmente 50 mulheres/mães beneficiárias do Programa Bolsa Família, promovendo cursos de modelagem e corte e costura, moda íntima, pintura em tecidos, customização de roupas, empreendedorismo e gerenciamento, economia solidária, entre outros, objetivando a criação de grupos produtivos e a inclusão social produtiva das beneficiárias.

Por meio do projeto, entrei em contato com os princípios da Economia Solidária, que se destaca ao pautar suas bases em valores distintos daqueles mais difundidos na sociedade capitalista - tais como cooperação, ajuda mútua, tomada de decisões democráticas, e solidariedade nas fases de produção, comercialização e divisão dos ganhos.

No contexto capitalista marcado pelo individualismo nas relações, especialmente no período contemporâneo, há surpresa nessas iniciativas em que a perspectiva solidária também se efetiva pelo auxílio a pessoas em situação de vulnerabilidade.

No Brasil, os empreendimentos econômicos são reconhecidos como solidários a partir das características e dos princípios norteadores preconizados durante a II Conferência Nacional de Economia Solidária (CONAES), ocorrida no mês de junho de 2010, quatro anos após a realização da I Conferência, a qual contemplou a participação de organizações produtivas, movimentos sociais, entidades e instituições públicas e privadas no intuito de viabilizar e fortalecer a efetivação de uma Política Nacional de Economia Solidária.

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participantes ou sócios são trabalhadores do meio urbano ou rural; realizar atividades de natureza econômica, socioambiental e cultural, que devem ser as razões primordiais da existência da organização; ser uma organização autogerida, efetivada por meio da administração transparente e democrática, soberania da assembléia e singularidade do voto dos trabalhadores; e ser uma organização permanente, considerando tanto os empreendimentos que estão em funcionamento quanto aqueles que estão em processo de implantação, desde que o grupo esteja constituído e as atividades econômicas definidas.

Dentre os princípios norteadores instituídos, destacamos a garantia de adesão livre e voluntária de seus membros; a administração democrática e participativa; a prática da produção, do beneficiamento, da comercialização ou da prestação de serviço de forma coletiva; o exercício e a demonstração da transparência na gestão dos recursos e na justa distribuição dos resultados; a prática de preços justos, de acordo com os princípios do Comércio Justo e Solidário; o respeito à equidade de gênero, raça, etnia e geração; e a promoção da solidariedade e da sustentabilidade ambiental.

Foi concebido ainda que os empreendimentos econômicos solidários podem assumir diferentes formas societárias (como cooperativas, associações, redes solidárias etc.), desde que contemplem os aspectos acima destacados.

Dos fatores que antecedem a construção de uma iniciativa solidária, destaca-se a vulnerabilidade social e econômica e a articulação com outros indivíduos que enfrentam uma situação semelhante. A este respeito, Singer (2002) salienta que, embora a motivação tenha como base uma estratégia de sobrevivência por parte dos trabalhadores, a articulação coletiva acaba ganhando uma dimensão organizativa mais ampla e um aspecto de movimento social.

Esta especificidade nos estimulou a aprofundar e a investigar este tema, partindo dos seguintes questionamentos: como de fato se constituem as iniciativas de Economia Solidária, e qual o papel que ocupam na sociedade contemporânea? E que impactos estas organizações provocam na subjetividade dos trabalhadores nela engajados?

A relevância da investigação se faz na medida em que a Economia Solidária, em suas premissas, sugere uma mudança de paradigmas – do capitalista ao solidário – nas relações tanto de trabalho quanto de produção.

Para o estudo, tomamos por referência as teorias propostas por Leontiév (1990) e Vygotsky (1998; 2001), uma vez que as conclusões de ambos repousam na centralidade do trabalho na constituição do psiquismo humano e nos processos de subjetivação do homem.

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condição de humanização resultam das complexas relações ocorridas no contexto em que está inserido e das quais participa ativamente. A ênfase nas ações como motores do desenvolvimento, assim, salienta a relevância que a atividade assume também em sua teoria. Contudo, o que é destacado por Vygotsky não é o conceito de atividade propriamente, mas sim o de ação mediada.

Para o autor, a mediação da atividade é compreendida tomando por referência o papel dos signos enquanto instrumentos psicológicos produzidos socialmente e utilizados nas relações. Enquanto Leontiév considera que a constituição do psiquismo ocorreria por meio da interiorização das ações, ou seja, da transformação gradual das ações exteriores em processos interiores, intelectuais, Vygotsky pontua que o que é tornado próprio pelo sujeito é a significação da atividade.

Alicerçada nesta perspectiva, a pesquisa foi realizada a partir da percepção dos próprios trabalhadores associados sobre sua realidade laboral. Por meio do sentido atribuído às suas experiências nesse contexto específico, buscamos elucidar a maneira pela qual os mesmos compreendem e apreendem essa inserção, o sentido pessoal atribuído aos empreendimentos solidários e a dimensão subjetiva que perpassa a atuação nestas iniciativas.

Seguindo estes propósitos, estabelecemos como objetivo geral de nosso estudo

compreender os sentidos atribuídos ao trabalho por membros de empreendimentos pautados nos princípios da Economia Solidária.

A sistematização da dissertação foi realizada inicialmente com um resgate do referencial teórico, qual seja, a Teoria da Atividade proposta por Leontiév e o desenvolvimento do psiquismo tal como proposto por Vygotsky.

Posteriormente, realizamos um aporte ao mundo do trabalho contemporâneo, explanando sobre as principais transformações em curso. Salientamos, também, os principais efeitos da crise no mundo do trabalho, especialmente no tocante à problemática da precarização laboral e exclusão social.

Adiante, tecemos uma diferenciação entre os termos Terceiro Setor, Economia Social, Economia Popular e Economia Solidária, esclarecendo cada um deles para, assim, elucidar as confusões terminológicas que os envolvem. Sobre a Economia Solidária, ressaltamos a polêmica que envolve a junção dos termos economia e solidariedade, que, por sua histórica dissociação, são tidos como contraditórios.

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também, as conceituações utilizadas para o estudo dos significados e sentidos do trabalho e indicamos o aporte metodológico utilizado na pesquisa. Ainda neste capítulo, apresentamos as categorias utilizadas para a análise e discussão dos dados.

A metodologia utilizada para a consecução dos objetivos propostos seguiu o referencial qualitativo. A coleta dos dados foi realizada por meio de entrevistas individuais. O material discursivo colhido, por sua vez, foi analisado tomando por base a Análise de Conteúdo proposta por Bardin (1977).

O quinto capítulo contempla a análise das entrevistas, no qual objetivamos apreender os sentidos atribuídos ao trabalho pelos sujeitos entrevistados e tecemos considerações sobre as significações relatadas em face do contexto histórico no qual foram produzidas.

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2. A COMPREENSÃO DO TRABALHO E SEU PAPEL NA

CONSTRUÇÃO DO HOMEM

2.1. A Estrutura da Atividade em Leontiév

Em “O Desenvolvimento do Psiquismo”, Leontiév (1990, p. 76) afirma que “a hominização dos antepassados animais do homem se deve ao aparecimento do trabalho, e sobre esta base, da sociedade”. Para o autor, o processo de hominização e o desenvolvimento da consciência humana têm origem na atividade prática - o trabalho. Essa ideia é desenvolvida por ele a partir da diferenciação entre ontogênese animal e a ontogênese humana e da relação entre a estrutura da atividade e a estrutura da consciência

Em relação à ontogênese animal, o autor concebe que a atividade animal é sempre realizada tendo por fim um motivo biológico e instintivo, ou é decorrente do esforço que o animal emprega para se adaptar e sobreviver no meio em que vive - utilizando, para tanto, o conjunto de faculdades que herdou de sua espécie. Na ação de um animal de abater uma presa estará subjacente a satisfação da fome, por exemplo. Ele afirma ainda que

[...] não há atividade animal que não responda a qualquer necessidade estritamente biológica, que não seja provocada por um agente com uma significação biológica para o animal (a de um objeto que satisfaz tão ou tal necessidade). (LEONTIÉV, 1990, p. 82).

Visto que o motivo sempre guarda relação direta com a atividade desenvolvida, podemos afirmar que na atividade animal o objeto da atividade (o seu fim) confunde-se sempre com seu motivo biológico (aquilo para o qual se dirige a atividade, como a satisfação da fome). Na atividade humana, por conseguinte, não há essa relação imediata entre o motivo e o objeto da atividade, surgindo uma outra e mais complexa estrutura de atividade.

Leontiév propõe uma intrínseca correlação entre a estrutura da atividade e da consciência a partir da análise de fenômenos naquela imbricados, tais como a mediação de instrumentos, seu caráter social e coletivo e a diferença que o conceito de atividade guarda com o de ação.

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satisfação da necessidade biológica e sua conclusão há um elemento mediatizador: o instrumento.

Marx afirma juntamente com Engels que “os homens começam a distinguir-se dos animais assim que começam a produzir seus meios de vida.” (MARX, 2002a, p. 15)

A produção de instrumentos denota a capacidade de abstração do individuo, bem como a capacidade de executar ações dirigidas conscientemente. É a partir deste fenômeno que se percebe que o homem ultrapassou o processo de simples adaptação ao meio e passou a intervir no mesmo de maneira a satisfazer suas necessidades. Leontiév (1990, p. 88) afirma ainda que “é o instrumento o portador da primeira abstração consciente e racional, da primeira generalização consciente e racional.”

A mesma ideia é trazida por Luria (1975 apud ÁLAVRO et al., 1996, p. 63, tradução livre), que afirma que

A fabricação de ferramentas de trabalho constituiu a primeira forma de atividade consciente e o principal indicador do salto antropológico da história natural dos animais para a história cultural humana.

Ainda que um animal venha a fazer uso de um instrumento, ele só encontrará a possibilidade de realização de uma atividade instintiva, como aproximar um fruto de si. O animal não poderá criar novas operações com o referido instrumento. Dessa forma, Leontiév (1990, p. 81) afirma que “por mais complexa que seja a atividade instrumental dos animais, ela não tem o caráter de processo social, não é realizada coletivamente e não determina as relações de comunicação entre os seres que a efetuam”.

Já o instrumento produzido e utilizado pelo homem constitui-se num objeto social. Ele é resultado da atividade imediata de quem o produziu, mas guarda em si o trabalho desenvolvido na produção de instrumentos semelhantes por outras gerações.

Durante essa história, o instrumento vai sofrendo transformações e aperfeiçoamentos por exigência da atividade social. Portanto, os produtos culturais resultantes do processo de objetivação são sempre sínteses da atividade humana. Daí que, ao se apropriar de um produto cultural, o indivíduo está se relacionando com a história social. (DUARTE, 2004, p. 4).

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Em suas pesquisas, Leontiév concluiu que o trabalho humano é uma atividade originariamente social, marcada pela cooperação entre indivíduos e pela divisão das operações de trabalho. Para explicar essa estrutura, o autor traz como exemplo a ideia de um grupo social em que haveria uma sistemática divisão de tarefas: uns seriam os caçadores, outros se responsabilizariam pela conservação do fogo. No grupo dos caçadores, por sua vez, haveria também uma divisão de operações: os abatedores e outros que teriam a missão de assustar a presa, fazendo-a migrar para o local em que os batedores estariam escondidos.

Se analisada isoladamente, a ação do individuo que assusta e afugenta a presa parece desprovida de sentido. O que conecta sua ação (afugentar) com o motivo desta (obter alimento)? A resposta está nas próprias ralações sociais existentes entre ele e o restante do grupo. Essa ação faz parte de um conjunto de atividade social, e só existe como integrante do todo maior.

A partir da exemplificação utilizada por Leontiév, fica clara a distinção entre ação e atividade. Na primeira, o objeto ao qual se dirige e o motivo que a impulsiona não coincidem, só adquirindo sentido enquanto parte constitutiva de um processo mais amplo que é a atividade. O sentido, por sua vez, se dá no seio de uma relação social estabelecida. Com isso, entende-se que atividade humana, a partir de seu surgimento, tem como característica ser orientada para um fim social. O sujeito que age tem a possibilidade de refletir psiquicamente a relação que há entre motivo e objeto. Dessa forma, originariamente, o trabalho não é vazio de sentido para o sujeito. (LEONTIÉV, 1990).

Por meio dessas compreensões, Leontiév denomina objetivação o processo por meio do qual a atividade dos seres humanos transfere-se para os produtos dessa atividade. O que antes seriam apenas faculdades e idealizações humanas passam a ser, depois do processo de objetivação, características pertencentes ao produto dessa atividade. A objetivação antecede o processo de apropriação desses produtos e práticas culturais, o qual consistiria numa gradativa internalização das ações a partir da transmissão da experiência social por meio das relações entre os homens.

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2.2. A constituição do psiquismo para Vygotsky

Vygotsky propõe que a atividade prática – compreendendo o manejo de instrumentos e a interação social em um contexto cultural determinado – está na raiz da formação e desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. (GÓIS, 2005).

Os conceitos de instrumento e trabalho são apropriados por Vygotsky seguindo a concepção de Engels, que os compreende como meios pelo qual o homem transforma a natureza e, ao fazê-lo, transforma a si mesmo. “A especialização da mão implica o instrumento, e o instrumento implica a atividade humana específica, a reação transformadora do homem sobre a natureza”. (ENGELS, 1940 apud VYGOTSKY, 1998, p.32). Por conseguinte, Vygotsky estende a concepção da interação homem-ambiente pelo uso de instrumentos ao uso de signos.

Discorrendo sobre a internalização das funções psicológicas superiores - consciência, pensamento e linguagem – a partir de estudos realizados com crianças, Vygotsky afirma que “o signo age como um instrumento da atividade psicológica de maneira análoga ao papel de um instrumento no trabalho”. (VYGOTSKY, 1998, p. 70) Essa analogia, entretanto, não implica que os conceitos sejam similares.

O eixo central para compreender as noções de instrumento e signo se refere à ideia de mediação, de forma que a analogia e semelhança primordial entre tais conceitos refere-se à função mediadora que os caracteriza.

A principal diferença entre signo e instrumento consiste nas diferentes maneiras que estes orientam o comportamento humano. Os instrumentos são ferramentas mediadoras da cultura e constituem um meio pela qual a atividade humana é dirigida para o controle e domínio da natureza. Esta intervenção produz novas relações com o meio, e uma nova organização do comportamento. Assim, a função do instrumento é servir como condutor da influência humana sobre o objeto da atividade; ele é orientado externamente e deve necessariamente levar a mudanças nos objetos. A orientação do comportamento humano, aí, pauta-se para fora, no ambiente.

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signo, a função deve ser, eminentemente, de modificação interna. Apenas o homem é capaz de constituir signo, internalizar. (VYGOTSKY, 1998).

Em termos da relação que as duas noções mantêm, o autor sustenta que existe uma ligação recíproca e necessária entre elas, de modo que só se pode falar de funções psicológicas superiores, em referência à combinação entre o instrumento e o signo nas atividades psicológicas. A relação sujeito-objeto, nessa perspectiva, não é de interação, mas dialética.

O último ponto de convergência entre os dois conceitos apresentados pelo autor trata da ligação real de seus desenvolvimentos na filogênese e ontogênese. “O controle da natureza e o controle do comportamento estão mutuamente ligados, assim como a alteração provocada pelo homem sobre a natureza altera a própria natureza do homem.” (VYGOTSKY, 1998, p. 73).

Esta noção é reiterada por Góis (2005, p. 81), que afirma:

Podemos dizer que a atividade é um processo pelo qual se realizam as transformações recíprocas entre sujeito e objeto. Nela ocorre, simultaneamente a passagem do objeto real à sua forma de representação mental (imagem e símbolo) e a passagem desta ao mundo objetivo na forma de atividade prática consciente. [...] No processo de transformação de real e ideal (e vice-versa), o ser humano se apropria da realidade e se transforma através desta para, a seguir, transformá-la e novamente apropriar-se dela e assim transformar-se.

Na obra de Vygotsky, a mediação da mente e da consciência aparece como questão central. Os signos são produto da ação do próprio ser humano, decorrendo da própria história da humanidade. A internalização dos signos, nesse sentido, é o que institui a natureza eminentemente social do psiquismo.

Vygotsky chama de internalização a reconstrução interna de uma atividade externa. O autor define o processo de internalizara partir de uma série de transformações, a saber: uma operação que inicialmente representa uma atividade externa é reconstruída e passa a ocorrer internamente; um processo interpessoal é transformado num processo intrapessoal, que por sua vez é resultado de uma longa série de eventos ocorridos durante o desenvolvimento mental.

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psicológicos; não no sentido de “cópia” do meio externo, mas como reflexão interna, já que a internalização tem caráter transformador (daí a ideia de reconstrução).

Vygotsky (1988) acredita que a internalização de formas culturais de comportamento envolve a reconstrução da atividade psicológica tendo como base as operações com signos, e é este processo que constitui o aspecto característico da psicologia humana.

Para este autor, que postula a origem social da inteligência, a aprendizagem acontece inicialmente de forma interpsíquica, isto é, no coletivo, para posteriormente processar-se uma construção intrapsíquica.

Partindo-se do pressuposto de que a aprendizagem é construída pelas interações do sujeito com outros indivíduos, estas interações sociais seriam as principais desencadeadoras do aprendizado. O processo de mediação se estabelece quando duas ou mais pessoas cooperam em uma atividade (interpessoal), possibilitando uma reelaboração (intrapessoal). (VYGOTSKY, 1998).

O psiquismo é constituído a partir de duas categorias fundamentais, a atividade e a consciência. O homem histórico insere-se em um contexto social por meio de sua atividade que é, ao mesmo tempo, definida por essa inserção e definidora dela. Ou seja, a forma como a sociedade se organiza dentro de relações sociais determinadas define a atividade de cada individuo.

Por sua vez, a consciência só pode ser abordada em sua relação dialética com a atividade. A consciência representa a realidade conhecida, vivida, experenciada e modificada pela atividade; por isso, inclui representações e emoções, significados e sentidos.

Por ser um processo dialético, a relação atividade/consciência constitui-se através de mediações. São mediações nesse processo as relações sociais, a linguagem, a ideologia, as relações sociais. Nesse viés, Zanella (2004, p. 128) afirma que “só há sujeito porque constituído em contextos sociais, os quais, por sua vez, resultam da ação concreta de homens que coletivamente organizam o seu próprio viver.”

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2.3. Correlações entre a Teoria da Atividade e a Psicologia Histórico-Cultural: o trabalho como categoria fundante do sujeito

As diferenças e convergências entre Vygotsky e Leontiév, teóricos soviéticos contemporâneos, vêm sendo discutidas por diversos autores (DUARTE, 2004; ZANELLA, 2004). Não procuraremos abordar aqui tais aspectos, mas apontar a contribuição de ambos na referência ao papel da atividade na constituição do sujeito.

Zinchenko (apud ZANELLA, 2004, p. 130) assinala que:

[...] para a psicologia histórico-cultural, o problema central foi e continua sendo a mediação da mente e da consciência. Para a teoria psicológica da atividade, o problema central era a orientação-objeto em ambas as atividades, interna e externa. É claro que na teoria psicológica da atividade a questão da mediação também apareceu, mas enquanto que para Vygotsky a consciência era mediada pela cultura, para Leontiév a mente e a consciência eram mediadas por ferramentas e objetos.

Sobre tal aspecto, Zanella (2004, p. 130) prontamente questiona:“Mas o que são ferramentas e objetos senão a própria cultura humana objetivada?”. A questão da mediação cultural é posta pelos dois autores, embora Vygotsky amplie sua centralidade na formação do psiquismo.

Na concepção histórico-cultural, a atividade é um conceito-chave, explicativo do processo de mediação. Por meio da atividade, o homem entra em contato com objetos e fenômenos do meio e transforma-os, constituindo também a si mesmo nesse processo. Enquanto que Leontiév refere-se ao desenvolvimento da atividade psíquica como forma peculiar de atividade humana, o eixo central da obra de Vygotsky é o da ação mediada. (ZANELLA, 2004).

A principal convergência entre os dois teóricos repousa no fato de que os conceitos de atividade/ação utilizados por ambos estão diretamente relacionados ao conceito de trabalho humano, tal como proposto na teoria marxista.

A célebre analogia de Marx entre a abelha e arquiteto sintetiza sua conclusão de que é através da transformação do mundo de maneira consciente e orientada que o homem se constitui como sujeito.

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tempo, seu próprio fim, claramente conhecido, o qual constitui a lei determinante do seu modo de agir e ao qual tem de subordinar a sua vontade. (MARX, 2002b, p. 211-212).

Para Marx, o trabalho é uma atividade que distingue o ser social do ser natural, a formação do sujeito enquanto ser histórico, social e cultural. Ele abarca três importantes aspectos: a de ser uma atividade consciente dirigida por um fim previamente estabelecido, de ser mediatizado por instrumentos e de se materializar em um produto social. (DUARTE, 2004).

Como vimos anteriormente, tais aspectos estão presentes nas construções de Vygotsky e Leontiév, sendo essenciais no desenvolvimento de suas pesquisas e teorias. O último aspecto salienta que o produto final da atividade não é mais um objeto inteiramente natural, mas um produto que é uma objetivação da atividade e do pensamento do ser humano. O processo dessa produção objetiva o ser humano e ao mesmo tempo o subjetiva, no sentindo de que o resultado da atividade é tanto a produção de uma realidade humanizada quanto a humanização do sujeito que a empreende.

Sob este enfoque, Góis (2005, p. 78) salienta que “a atividade humana é a condição mediatizadora pelo qual se realiza o processo de hominização (filogênese e ontogênese), humanização (sociogênese) e construção do sujeito (microgênese)”.

Problematizar sobre o papel atribuído à atividade na constituição do psiquismo pelos dois autores contribui significativamente para inferir sobre as bases de compreensão do trabalho como categoria constituinte do sujeito.

Por meio da bibliografia levantada, percebemos que o trabalho, tanto nas formulações do materialismo histórico-dialético quanto nas teorias propostas por Vygotsky e Leontiév, é a forma originária da atividade humana, sendo compreendido como uma ação consciente, transformadora da natureza, que por sua vez transforma o sujeito que nela atua.

É a ação sobre o meio de maneira consciente e orientada que possibilita a passagem do ser meramente biológico ao ser social, possibilitando a hominização e humanização do sujeito.

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Dessa forma, podemos afirmar que foi a atividade prática - o trabalho – que impulsionou a passagem do agir instintivo à consciência. A transformação de objetos naturais desencadeadas por necessidades sociais confere o caráter teleológico do trabalho, resultado de uma atividade previamente idealizada e conscientemente orientada. Com isso, a consciência humana deixa de ser uma mera adaptação ao ambiente e passa a desenvolver-se, constituir-se e intervir na realidade de forma ativa e dinâmica.

A superação pelo trabalho das barreiras impostas pela natureza e a conseqüente constituição da consciência humana confere a importância deste na constituição da vida social dos homens. Nesse sentido, temos por desdobramento a conclusão que é o trabalho a categoria fundante e constituinte do ser social.

Cientes de que o presente estudo ainda possui um caráter preliminar, acreditamos, não obstante, que essa premissa sobre o trabalho possui uma importante implicação em diversos campos de pesquisa da psicologia, uma vez que a centralidade do trabalho para o sujeito (por vezes atribuída exclusivamente ao contexto histórico no qual se insere) está diretamente relacionada ao papel por este ocupado na constituição do psiquismo.

2.4. Evolução social do trabalho

Visto que a atividade humana é perpassada pelas relações sociais desde sua origem, o trabalho, bem como a forma de compreendê-lo, seguirá as condições sócio-históricas na qual se inserem os indivíduos (BORGES; YAMAMOTO, 2004).

Para a melhor compreensão das formas de trabalho na sociedade contemporânea, teceremos um breve aporte da história social do trabalho a partir da discussão trazida por Albornoz (2000).

2.4.1. Das sociedades primitivas à sociedade industrial

O trabalho no primeiro estágio da economia isolada e extrativista é apenas um esforço para complementar o trabalho da natureza. Na sua condição originária, o trabalho deriva de necessidades naturais (fome, sede etc), mas realiza-se na interação entre homens ou entre homens e a natureza.

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instalando-se as relações de desigualdade. A noção de propriedade presta-se também a polêmicas éticas porque se separa do trabalho, a ponto de estabelecer a desapropriação de quem trabalha pelo suposto de direito da propriedade do ocioso (a exemplo dos feudos).

Do trabalho sobre a terra se origina a riqueza que vai possibilitar o desenvolvimento do trabalho artesanal, a produção de manufaturas. O comércio intensifica-se, e a primitiva troca entre espécies passa a ser mediada pela moeda.

Posteriormente, a aplicação da ciência à produção, ocasionando o desenvolvimento de novas tecnologias, assim como a expansão capitalista, gerou o que se chamou de Revolução Industrial. Os estágios de desenvolvimento da tecnologia apontados por Albornoz (2005) são: invenção da maquina a vapor (séc. XVII); uso da eletricidade (séc. XIX); desenvolvimento do computador, automação e robótica (séc. XX).

Ao processo moderno de industrialização das economias nacionais – sendo esta uma realidade internacional – correspondem alguns fenômenos que lhe são associados, como crescimento demográfico (graças a conquistas na área da saúde, como controle de epidemias, redução da mortalidade infantil, saneamento básico); urbanização (devido à concentração de indústrias na cidade e promessa de um trabalho menos arriscado e dependente da natureza, como o labor no campo); separação entre local de trabalho e moradia; engajamento das mulheres da indústria (não que estas já não trabalhassem, mas o trabalho na indústria as afasta da casa e da família); especialização da produção.

Este último é possivelmente o mais danoso, pois tira do trabalhador o alcance de seu trabalho, uma vez que este não se reconhece no produto que ajudou a produzir nem vê o conjunto do processo produtivo. A indústria engendra assim mecanismos de alienação do trabalhador, a saber: o produtor não detém, não possui e nem domina a matéria-prima e os meios de produção; produtor e produto final encontram-se separados; há um corte entre produtor e consumidor.

A sociedade industrial engendra assim um processo de alienação e descaracterização do trabalho.

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eliminar a intencionalidade e as capacidades cognitivas, está tentando descaracterizar o trabalho em sua própria condição central.

Assim, o que deveria constituir-se na forma de realização do individuo reduz-se à única possibilidade de sobrevivência. A força de trabalho torna-se uma mercadoria. Antunes (1995) reitera que como resultante do trabalho na sociedade capitalista tem-se a desrealização do ser social. O resultado do processo de trabalho, o produto, aparece junto ao trabalhador como um ser alheio.

2.4.2. Sociedade pós-industrial: o mundo do trabalho contemporâneo

Os modos de subjetivação engendrados nas relações de trabalho assumem características singulares com as metamorfoses do mundo do trabalho contemporâneo. (ANTUNES, 2005).

As mudanças na estrutura produtiva trazidas pelo desenvolvimento tecnológico, avanço da automação, robótica e telecomunicações contribuíram para a desproletarização do trabalho fabril - redução significativa do contingente de operários industriais. A inserção laboral dentro do padrão de emprego formalizado, alicerçado em formas tradicionais de assalariamento, identidades ocupacionais e de classe dá lugar à predominância de postos de trabalho flexíveis, observada nos trabalhos parciais, temporários, subcontratações e terceirizações que, de modo geral, expressam a realidade de precarização laboral

As modificações no mercado de trabalho, por sua vez, são evidenciadas pelo crescimento do setor de serviços, alargamento de segmentos pouco estruturados, trabalhadores por conta própria, sem carteira assinada, empregos temporários ou part-time, perda de qualidade nos postos de trabalho, como baixa remuneração, ausência de direitos trabalhistas e previdenciários, pouca representação sindical ou política, entre outros.

Os padrões tayloristas / fordistas vêm sendo substituídos por novos padrões na busca de produtividade, de inspiração essencialmente toyotista. Tal padrão traz em seu discurso a necessidade de um novo tipo de trabalhador, que deve ser mais qualificado,

polivalente (acumulando funções), com capacidade de trabalhar em equipe e exercer administração conjunta (colocando o coletivo acima do individual, aumentando a pressão e rivalidade no ambiente de trabalho).

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A alta qualificação do trabalho que realizam se converte numa armadilha cada vez mais exigente aos trabalhadores. Isto ocorre devido ao sistema de organização capitalista pós-fordista em que se exige não somente que cumpram sua tarefa, mas que dediquem ativamente à produção e à resolução dos problemas que ela acarreta, o que demanda uma disponibilidade temporal e intelectual sem limites e gera um processo simbiótico entre a esfera privada e pública, facilitado pelas recentes possibilidades da tecnologia da comunicação.

Essa realidade evidencia um dos paradoxos do mundo do trabalho contemporâneo: ao mesmo tempo em que se dissemina a ideia do trabalho como cada vez menos necessário para a produção, com redução crescente dos postos e das oportunidades de emprego, percebe-se que este se torna cada vez mais exigente para os trabalhadores.

Tal situação, amplamente vivenciada, contrapõe-se à tese que afirma que a redução dos postos de emprego indicaria a perda de centralidade do trabalho na vida das pessoas. Ao contrário, ela demonstra a expansão das múltiplas formas de exploração do trabalho, inclusive fora dos espaços e dos horários outrora reservados exclusivamente para o labor.

Sorj (2000) afirma que o aumento da flexibilidade do trabalho, ao invés de diminuir sua centralidade, difundiu sua presença para inúmeras esferas da vida que anteriormente eram vistas como separadas do mesmo. Como exemplo, o autor aponta que a necessidade de garantir suas próprias condições de empregabilidade vem levando os sujeitos a transformar suas múltiplas redes de sociabilidade, como amigos, familiares e vizinhos, em fontes permanentes de informação sobre o mercado e oportunidades de trabalho. Também assinala que o tempo livre (compreendido como tempo de liberdade do sujeito e muitas vezes tomado simplificadamente como tempo de não-trabalho) é, na maior parte das vezes, utilizado pelos sujeitos para qualificação profissional, como um meio de garantir sua própria empregabilidade, num jogo perverso de qualificação que faz confundir a qualificação permanente com a qualificação insuficiente para atender as demandas do mercado e que geram o fenômeno apontado por Castillo (2003) de cursilhismo, onde muitos trabalhadores se lançam em acumular formações, muitas vezes desconexas, que poucas vezes ampliam suas possibilidades de inserção laboral.

Sobre essa questão, Antunes (2005, p. 97) coloca que:

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Em seus estudos, Antunes (2005) corrobora com a afirmação de que o desenvolvimento tecnocientífico está diretamente imbricado com a exploração intensificada da força de trabalho.

No interior das organizações, este modelo é implementado de forma sutil, culminando em práticas e discursos ambivalentes, a saber: enquanto os gestores continuam a evocar os trabalhadores como estratégicos, crescem os processos permanentes de racionalização de custos, com redução de pessoal e busca constante de flexibilidade por meio de contratos de trabalho temporários e terceirização. Essa dubiedade também aparece nas políticas e práticas de administração de recursos humanos, visto que na medida em que são exigidas do trabalhador atitudes individualistas que garantam sua qualificação e empregabilidade, são cobradas, simultaneamente, atitudes coletivistas para trabalhar em equipe, exercer administração conjunta, comprometimento e adesão à cultura de competitividade e qualidade das empresas. (BEAUJOLIN, 1998 apud DAVEL; VERGARA, 2001)

A atual conjuntura faz com que os próprios sindicatos tenham de mudar suas pautas de reivindicação. Se antes a questão econômico-salarial era prioritária, com ênfase na redução da jornada e na exigência de melhores condições de trabalho, hoje é a garantia do emprego e as estratégias de combate ao desemprego que assumem o primeiro plano (RAMALHO; SANTANA, 2009).

Não obstante, frente a complexificação e à heterogeneidade da classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 1995), permanece a dúvida se os sindicatos serão ou não capazes de representar os interesses de todos os trabalhadores.

2.5. Trabalho, precarização laboral e exclusão social

O processo de precarização do trabalho observado em todo mundo deriva de diversos fenômenos. Conforme aponta Aquino (2005, p. 84):

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Castel (1997) também compreende que o processo de precarização está diretamente relacionado com a evolução do capitalismo moderno, regido por exigências econômicas que consolidaram essa tendência. O autor chega a afirmar, inclusive, que a maioria das categorias trabalhistas teriam “la precariedad como destino” (p. 98)

Para Tomás (2001), a precarização laboral é um fenômeno essencialmente transversal, uma vez que abarca diversas categorias de trabalhadores, e também multidimensional, em virtude da diversidade de formas de debilitação que atingem os modos de inserção e estruturação dos vínculos laborais.

Dentre os aspectos que a caracterizam, o autor destaca a descontinuidade do trabalho, a deficiente ou nula capacidade de negociação dos contratos, a ausência de proteção trabalhista ou previdenciária, as precárias condições de trabalho, a baixa remuneração e a instabilidade no emprego, de forma geral.

Frente a essa conjuntura, Castel (1997) afirma que estamos vivenciando uma nova questão social, caracterizada por três aspectos marcantes: a precarização laboral; a consolidação da instabilidade dos trabalhadores (outrora estáveis em seus postos de trabalho) e a instalação de um déficit de oportunidades de trabalho, com crescente desemprego. Note-se que estes três aspectos representam a solidificação do movimento inverso àquele conquistado pela sociedade salarial.

Tal circunstância, característica do cenário de metamorfoses do mundo do trabalho contemporâneo, tem como consequências mais explícitas o crescimento do desemprego e da pobreza; o enfraquecimento político das relações de trabalho; a redução do papel do Estado e ampliação do modelo neoliberal de gestão e o crescimento das desigualdades sociais. Chama a atenção também o aumento da massa de excluídos, quais sejam, aqueles em situação permanente de vulnerabilidade social e econômica.

O termo ‘exclusão social’ é historicamente perpassado por uma série de confusões terminológicas. No livro “Metamorfoses da questão social” (1997), Castel salienta as armadilhas da utilização indiscriminada do conceito.

A heterogeneidade dos seus usos é o erro mais frequente. São tidos como

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Essa armadilha leva a um impasse na reflexão, uma vez que negligencia os processos sociais que geraram cada situação, e também na ação, pois categorizando e isolando os grupos em populações específicas criam-se meios de responsabilização também específicos. Frente a isso, o autor defende que a noção de exclusão só deve ser utilizada nos termos específicos do que se é excluído, sob o risco de ser empregada como um conceito puramente negativo que designa a falta.

Outro erro frequente é a articulação quase intrínseca da noção de exclusão com a dimensão específica da pobreza, quando esse conceito, na realidade, destaca-se justamente por sua multidimensionalidade. A vulnerabilidade econômica é apenas uma delas.

Dentre essas dimensões, Tomás (2001) destaca a social (referente aos processos de marginalização, segregação, desvinculação de redes sociais de apoio e proteção); cultural (imigração, discriminação étnica, analfabetismo e baixa instrução); econômica (baixa renda, endividamento, ausência de acesso a crédito); e pessoal (violência e maus tratos, alienação, fatalismo, frágil estrutura psíquica e motivacional).

Essas múltiplas dimensões reiteram a necessidade de empregar o termo apenas em relação específica ao que se é excluído, evitando as armadilhas que, ao generalizar o conceito, ocultam seus processos constituintes e suas possibilidades de modificação.

Não obstante aos riscos proporcionados pelo emprego equivocado, Tezanos, 1999 apud TOMÁS, 2001) destaca que a vantagem da utilização do conceito exclusão social é que este permite situar a análise da atual questão social na perspectiva dos processos sociais concretos ligados ao trabalho, sendo este entendido como mecanismo fundamental de inserção social.

O autor acredita que a exclusão deve ser compreendida a partir de um contexto histórico determinado, ou seja, como um efeito perverso e negativo de uma dinâmica econômica capitalista e de decisões políticas que optam por negligenciar o papel do Estado como provedor de condições mínimas de bem-estar social. Também defende a importância de articular a noção de exclusão social com a de cidadania, estando estas diretamente relacionadas.

Analisando tal situação, Tezanos (1999 apud TOMÁS, 2001) afirma que os excluídos são aqueles privados dos direitos sociais e de oportunidades, principalmente de um posto de trabalho, que os permita viver com dignidade.

(31)

Esse estado de crise da sociedade salarial é também problematizado por Gorz (1998), que utiliza como eixo central de análise o fato de que o capital já não precisa, e precisará cada vez menos do trabalho de todos. Essa conjuntura já pode ser observada a partir da crescente diminuição da figura emblemática do trabalhador fixo, estável, sendo a condição mais comumente encontrada a do trabalhador com vínculos temporários, que ora trabalha, ora não.

Tal situação, não obstante, é perpassada por mais um paradoxo: ao mesmo tempo em que o sistema tende a diminuir consideravelmente o trabalho, a ideologia “trabalho-valor” nunca foi tão exaltada. É sobre o trabalho que continuam a repousar os direitos sociais, a cidadania, o laço social. Com isso, o próprio sistema restaura formas de dominação que impelem a lutar para obter uma forma de trabalho que ele próprio vem abolindo.

Frente a esse contexto, Gorz propõe rupturas que superariam, ou abrandariam, os efeitos mais nocivos dessa crise.

A este título, sugere que se procure desconectar o trabalho do “direito a ter direitos”, tanto individuais quanto sociais. O atual sistema, conforme também aponta Castel (1997), tende a associar os direitos ao posto de trabalho em si, e não ao sujeito, à pessoa do trabalhador. A manutenção de tal situação, segundo o autor, acaba por fazer coro à estratégia de poder do capital: precarizar e individualizar as relações de trabalho, já que todos continuam a desejar imperiosamente aquilo que as empresas só concederão a alguns.

Visto que a sociedade industrial / salarial propiciou uma identificação direta entre trabalho e emprego assalariado, e entre estes e os direitos sociais, é fato que a crise no mercado de trabalho, com a significativa redução das possibilidades de inserção laboral dentro dos padrões de emprego formal, muitas vezes é vivenciada pelos sujeitos como fracasso individual, como uma incapacidade pessoal e coletiva de ser útil de produtivo.

Conforme aponta Aquino (2005, p. 89):

A sensação de incompetência para ajustar-se às demandas do mercado é estimulada pela mídia atendendo a própria lógica da ideologia neoliberal, que ao fomentar o discurso da flexibilidade individualizou as responsabilidades do trabalhador, ‘dessocializando’ sua própria construção subjetiva (como se isso fosse possível).

(32)

Esse complexo processo de transformação vem acarretando mudanças desafiadoras, e efeitos ainda não totalmente elucidados. As alterações ocorrem no campo das políticas estatais, nas relações de trabalho, nas formas de organização das classes trabalhadoras e também nas formas de inserção laboral (ou novas estratégias de sobrevivência) frente ao modelo econômico que se impõe.

Neste cenário, temos observado a proliferação de iniciativas e práticas socioeconômicas diversas, como cooperativas, organizações populares e economia solidária, inscritas na dinâmica das chamadas novas formas de solidariedade.

Mas como se constituem essas incitativas? Sob que tipo de relações sócio-econômicas estão alicerçadas? Que papel elas desempenham dentro do mundo do trabalho contemporâneo?

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3. MUNDO DO TRABALHO CONTEMPORÂNEO E NOVAS FORMAS

DE ORGANIZAÇÃO LABORAL

A transformação acelerada da economia mundial no curso de políticas neoliberais e as transformações no mundo do trabalho engendram complexas mudanças. Tratar desse processo implica falar nas transformações das relações de trabalho, nas transformações das formas de organização das classes trabalhadoras (organizações sindicais, partidárias, associações) e também das estratégias e alternativas populares desenvolvidas frente ao modelo econômico que se impõe. Sobre este fenômeno na economia contemporânea, Gaiger (2008, p. 27) afirma que:

Contrariando as expectativas de uma integração e uniformização progressiva do tecido social, em decorrência de um desenvolvimento econômico que viria cedo ou tarde, processos de fragmentação e exclusão social se impuseram, nas últimas duas décadas, com virulência insuspeita e efeitos dramáticos. Enormes contingentes, alijados do mercado de trabalho e abandonados pelas políticas sociais em recuo, viram-se compelidos a criar suas próprias oportunidades de trabalho e sobrevivência. Expandiu-se o setor informal, multiplicaram-se os pequenos negócios, resgataram-se, por outro lado, práticas de entre-ajuda e cresceu o interesse pela ideia de dar as mãos e fazer, da união de forças, o caminho de uma nova alternativa.

O desenvolvimento de iniciativas e práticas socioeconômicas diversas, inscritas nas dinâmicas da Economia Solidária e Economia Popular, muitas vezes é confundida com a Economia Informal. Esta última, de acordo com Razeto (1998, p. 13):

[...] se localiza no nível da sobrevivência, no nível das necessidades imediatas e, muitas vezes, passageira, enquanto durar a crise para o indivíduo, enquanto ele não encontra lugar no mercado de trabalho. A Economia Informal pode ou não se transformar em Economia Popular.

De fato, há uma confusão terminológica não apenas entre estes termos, mas também em relação às noções de Terceiro Setor, Economia Social, Economia Solidária e Economia Popular. França (2002) acredita que isto ocorre devido à incipiente divulgação dessas práticas, além da escassez de pesquisas envolvendo a temática nos espaços acadêmicos.

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ocupam um lugar de produção e distribuição de riquezas; de geração de emprego e renda. As diferenças, por sua vez, não estão claras.

O questionamento sobre as diferenças entre os termos implica compreender os contextos sociopolíticos em que emergiram, juntamente com o papel que desempenham (ou se propõe a desempenhar) na sociedade. Nesse sentido, buscaremos tecer considerações sobre cada um dos termos, esclarecendo sua especificidade e diferenciando-os dos demais.

3.1. Terceiro Setor

Terceiro Setor é uma terminologia que engloba as iniciativas privadas de utilidade pública com origem na sociedade civil. Tais inciativas não possuem vínculo direto com o Primeiro Setor (Público, o Estado) e o Segundo Setor (Privado, o Mercado). Muitas vezes é considerado como um setor à parte, que se posicionaria frente à incapacidade do Estado e do mercado de satisfazer necessidades e demandas da população.

Sua origem parte da tradição anglo-saxônica focada na ideia de filantropia. Ele é caracterizado fundamentalmente por organizações sem fins-lucrativos, as quais devem apresentar cinco aspectos essenciais (SALAMON; ANHEIER, 1992 apud FRANÇA, 2002):

1. São formalmente constituídas, ou seja, abrangem alguma forma de institucionalização, legal ou não;

2. São privadas, não-governamentais;

3. São independentes; possuem gestão própria, não sendo controladas externamente;

4. Sem fins lucrativos ou distribuiçao de lucros entre seus dirigentes; 5. Devem comportar algum nível de participação voluntária.

Sobre estes aspectos, França (2002) acrescenta que tais organizações não devem ser confessionais (vinculadas a movimentos religiosos) nem políticas (no sentido de estarem diretamente ligadas a partidos políticos).

Essas especificações vêm sofrendo críticas, especialmente em relação ao terceiro setor latino-americano, que é bastante heterogêneo. Ao desconsiderar as iniciativas não-institucionalizadas, desconsidera-se também um amplo leque de experiências que desempenham importantes trabalhos junto à população, visto que muitas se encontram na informalidade.

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(BRASIL, 2004), foram identificadas mais de 500 mil instituiçoes no Terceiro Setor. Aplicando-se os critérios definidos por Salamon e Anheier, este número é reduzido para 276 mil.

Há uma polêmica ainda concernente sobre quais seriam os contornos do Terceiro Setor, visto que suas organizações utilizam recursos do Estado e do mercado.

Outra controvérsia que perpassa este segmento é o fato de seu desenvolvimento estar diretamente atrelado à redução do Estado na promoção de políticas sociais. Algumas análises críticas têm identificado no Terceiro Setor o predomínio de uma concepção neoliberal, cujo pressuposto básico seria a desobrigação do Estado como agente responsável pela promoção de políticas sociais, com a ênfase na esfera da iniciativa não-governamental como eficiente para consecução desses objetivos. Dessa forma, haveria uma desresponsabilização do Estado de seu papel promotor das políticas públicas básicas, com a transferência dessa responsabilidade para a sociedade civil.

Para Gohn (2000), as entidades do Terceiro Setor atuam onde o Estado deveria atuar. A autora questiona se essa atuação não representa uma forma de desencargo estatal diante dos problemas sociais atendidos por essas entidades, as quais acabam substituindo o Estado e, de certa forma, prejudicando as pressões sociais que possivelmente levariam à criação de políticas de obrigação orgânica do poder público. Isso não ocorrendo, os grupos sociais atendidos por essas instituições sempre estarão sujeitos à instabilidade causada pela interrupção ou não-continuidade dos projetos em que estão inseridos.

Violin (2008) também acredita que o Estado, ao deixar de prestar diretamente os serviços sociais, repassando-os para o Terceiro Setor, abstém-se de realizar uma política social universal, compulsória e gratuita, com alcance nacional e regional. Ele acrescenta que o Terceiro Setor realiza apenas ações pontuais, segmentadas, setorializadas, incapazes de cobrir suficientemente as demandas sociais.

Em relação a tais questionamentos, acreditamos que a discussão mostra-se muito pertinente, especialmente no que concerne à delegação das responsabilidades do Estado. Todavia, ponderamos se, frente cenário de transformações em curso, as políticas sociais seriam responsabilidade exclusiva do Estado ou constituiriam uma responsabilidade conjunta do Estado e da sociedade civil, incluindo a atuação dos indivíduos, das organizações não-governamentais, das entidades e grupos de assistência social.

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3.2. Economia Social

O desenvolvimento dos termos Economia Social e Economia Solidária está relacionado ao movimento associativista operário na Europa da primeira metade do século XIX. Como afirma França (2002, p. 11), tal movimento:

Foi traduzido numa dinâmica de resistência popular, fazendo emergir um grande número de experiências solidárias largamente influenciadas pelo ideário da ajuda mútua (o mutualismo), da cooperação e da associação. Isso, precisamente em razão do fato de que a afirmação da utopia de um mercado auto-regulado nesse momento histórico gerou um debate político sobre a economia ou as condições do agir econômico.

Tais iniciativas, que propunham um modelo de transformação social que não passava pela tomada de poder político via Estado, mas sim pela multiplicação de experiências contra-hegemônicas àquela de como se operava a economia, também foram chamadas de

socialismo utópico.

As experiências geradas nessa economia social emergente se apresentavam não somente como alternativas em termos de organização do trabalho (então dominado pelo trabalho assalariado), mas traziam “uma dimensão social e uma dimensão econômica sob um fundo de luta política.” (FRANÇA, 2002, p. 12), visto que a égide de suas reivindicações repousava no direito ao trabalho.

Importante ressaltar que foram as experiências associativistas da primeira metade do século XIX que, ao apresentar a noção de mutualismo e de socorro mútuo, contribuíram para o estabelecimento e disseminação da noção de proteção social em diversos paises. A partir desses movimentos iniciados no seio da sociedade, o Poder Público passou a assumir a Proteção Social como responsabilidade sua. (No Brasil, o sistema de proteção social é constituído pela Seguridade Social, a qual abrange Saúde, Assistência e Previdência Social).

Este exemplo nos remete à significativa importância dessas iniciativas: a capacidade que têm de contribuir com a construção de novos modos de regulação social, visto que foram capazes de gerar formas inéditas de ação pública.

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Essa fragmentação da economia social deu lugar a uma economia social institucionalizada. Na França, por exemplo, atualmente são chamados de organizações de economia social grandes bancos, hospitais ou cooperativas cujo funcionamento é semelhante ao de uma empresa privada.

O movimento de economia solidária também foi enfraquecido, só voltando a ressurgir anos mais tarde.

3.3. Economia Popular

O conceito de Economia Popular costuma receber a mesma conotação que o de Economia Solidária, mas possui sua especificidade. Fundamentando esta prática, Nuñez 1993 apud BARCELLOS, 2000, p. 32) nos traz que:

A Economia Popular e sua expressão associativa e autogestionária, origina-se, por um lado, rompendo com as relações capitalistas de produção no interior das empresas capitalistas, como projeto autogestionário dos trabalhadores, mas por outro lado cultiva a si mesma conformando-se no interior de uma economia mercantil simples, associando-se entre eles para escalar e competir na economia em seu conjunto.

A economia popular refere-se a um espaço produção e desenvolvimento de atividades econômicas alicerçadas numa base comunitária. É no tecido comunitário e nas práticas de reciprocidade que os membros encontram os meios necessários para a realização das atividades. (FRANÇA, 2002).

A associação dos trabalhadores no objetivo de satisfazer suas demandas ocorre na lógica do capital. Razeto (1990) sugere que o nível de engajamento nessas inciativas está relacionado a três aspectos: estratégia de sobrevivência, quando a atividade realizada pelo grupo é apenas emergencial e transitória, motivada pela necessidade de satisfação de necessidade materiais básicas; estratégia de subsistência, quando a atividade permite a satisfação das necessidades por um período de tempo estável, sem, contudo, apresentar possiblidades de crescimento e desenvolvimento; estratégia de vida, quando os indivíduos optam por desempenhar a atividade permanentemente, compreendendo-a como mais satisfatória do que outras alternativas possíveis.

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Devido à dimensão comunitária de suas ações, as iniciativas de economia popular, em alguns casos, articula-se com o Poder Público. Um dos exemplos mais vivienciados é o mutirão, no qual a organização popular articula-se para a execução e concretização de projetos habitacionais.

3.4. Economia Solidária

3.4.1. Histórico / Conceituação

A análise do trabalho na sociedade brasileira necessariamente evidencia a questão da marginalidade, da pobreza e da vulnerabilidade social. A incipiente erradicação da miséria, os índices reduzidos de escolaridade e a excessiva concentração de renda, lamentavelmente, caracterizam o Brasil. Mesmo em períodos de crescimento econômico que apontam melhoras nos indicadores sociais, a desigualdade e o acesso diferenciado aos serviços e garantias sociais se mantêm constantes (GAIGER, 2008).

A superação dessa problemática requer soluções estruturais, contínuas e progressivas. Uma das possibilidades que vem se apresentando de maneira viável é o incentivo ao protagonismo das populações em situação de vulnerabilidade, o que tende a assegurar, ainda que minimamente, que a ação seja mais sustentável e eficaz do que outras ações assistencialistas ou de curto prazo.

As experiências de Economia Solidária sinalizam esse protagonismo desde o seu surgimento, na década de 80. Ancoradas na escassez de oportunidades do mercado de trabalho formalizado, na ineficiência de políticas compensatórias e na luta pela sobrevivência:

[...] essas experiências inovaram ao buscarem soluções coletivas de iniciativa própria para demandas cujo atendimento se buscava anteriormente por meio de pressões de massa que acionassem a capacidade provedora do Estado. (GAIGER, 2008, p 09).

O termo Economia Solidária refere-se a organizações e unidades econômicas caracterizadas pela autogestão, tomada de decisões democráticas, cooperação, mutualismo e, principalmente, a presença da solidariedade como elemento articulador dos processos de produção, consumo e divisão dos ganhos.

Referências

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