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Constru¸ c˜ ao do corpo dos n´ umeros reais via cortes de Dedekind

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Academic year: 2021

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Universidade Federal da Para´ıba

Centro de Ciˆ encias Exatas e da Natureza Programa de P´ os–Gradua¸ c˜ ao em Matem´ atica

Mestrado em Matem´ atica

Constru¸ c˜ ao do corpo dos n´ umeros reais via cortes de Dedekind

Valmir Her´ aclito Nascimento Xavier

Jo˜ ao Pessoa – PB

Agosto de 2017

(2)

Universidade Federal da Para´ıba Centro de Ciˆ encias Exatas e da Natureza Programa de P´ os–Gradua¸ c˜ ao em Matem´ atica

Mestrado em Matem´ atica

Constru¸ c˜ ao do corpo dos n´ umeros reais via cortes de Dedekind

por

Valmir Her´ aclito Nascimento Xavier

sob a orienta¸c˜ao do

Profa. Dra. Miriam da Silva Pereira

Jo˜ ao Pessoa – PB

Agosto de 2017

(3)

X3c Xavier, Valmir Heráclito Nascimento.

Construção do corpo dos números reais via cortes de Dedekind / Valmir Heráclito Nascimento Xavier. - João Pessoa, 2017.

52 f. : il.

Orientação: Miriam da Silva Pereira.

Dissertação (Mestrado) - UFPB/CCEN.

1. Matemática. 2. Cortes de Dedekind. 3. Equação polinomial - Números racionais. I. Pereira, Miriam da Silva. II. Título.

UFPB/BC

Catalogação na publicação Seção de Catalogação e Classificação

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(5)

A Deus e aos meus pais

(6)

Agradecimentos

A Deus por me ter dado a oportunidade de ter participado do curso de mestrado na UFPB.

Aos meus pais, por estarem incondicionalmente ao meu lado no inicial de meus estudos.

A minha esposa Walquiria por estar ao meu lado nos momentos mais dif´ıcil desta` jornada.

Aos professores da equipe PROFMAT/UFPB, em especial aos meus orientadores Professor Doutor Flank Bezerra e a Professora Doutora Miriam Pereira, por alem de abra¸carem e orientarem minha pesquisa, deram um curso a parte sobre como digitar no LATEX.

Aos meus colegas, pelos momentos agrad´aveis como o caf´e que o Mailson trazia de Cajazeira e ainda chegava quentinho, como as discuss˜oes intermin´aveis com o “curiti- ano” Rˆomulo pelas bolachas horr´ıveis que o mesmo trazia e ainda queria que a gente comece, assim como os companheiros de estrada Gustavo, Osvaldo e Adim. entre ou- tros momento e colegas que me falha a mem´oria, por´em muito marcante neste jornada da minha vida, abra¸cos a todos.

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Resumo

Neste trabalho, apresentamos a no¸c˜ao de cortes de Dedekind motivados pelo es- tudo da equa¸c˜ao polinomial x2 = 2 no corpo dos n´umeros racionais. Introduzimos as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao, multiplica¸c˜ao entre cortes, bem como, a no¸c˜ao de valor absoluto e uma rela¸c˜ao de ordem entre cortes. Provamos que o conjunto dos cortes de Dedekind munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao possui estrutura de corpo ordenado.

Apresentamos a constru¸c˜ao do corpo dos n´umeros reais explorando o fato de que o corpo dos cortes de Dedekind ´e ordenado e completo.

Palavras-chave: corpo dos n´umeros racionais, corpo dos n´umeros reais, cortes de Dedeking, corpos alg´ebricos.

(8)

Abstract

In this work, we present the notion of Dedekind cuts motivated by the study of the polynomial equation x2 = 2 in the fields of rational numbers. We introduce the operations of addition and multiplication between cuts, as well as the notion of abso- lute value and order relation between cuts. We prove that the set of Dedekind cuts equippaded with the operations of addition and multiplication is an ordered field. We present the construction of the field of the real numbers by exploring the fact that the field of the Dedekind cuts are ordered and complete.

Keywords: field of the ractional numbers, field of the real numbers, Dedekind cuts, algebraic fields.

(9)

Sum´ ario

Introdu¸c˜ao 1

1 Corpos alg´ebricos abstratos 4

1.1 Preliminares . . . 4 1.2 Planificando o problema do cubo . . . 9

2 Cortes de Dedekind 14

2.1 Defini¸c˜oes b´asicas . . . 14 2.2 Rela¸c˜ao de ordem . . . 19 2.3 Opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre cortes de Dedekind . . . 21

3 O corpo dos n´umeros reais 32

3.1 Corpo ordenado completo . . . 32

Referˆencias Bibliogr´aficas 42

(10)

Nota¸ c˜ oes

A seguir, listamos algumas nota¸c˜oes utilizadas neste trabalho.

• N: Denota o conjunto dos n´umeros naturais; saber, N={1,2,3, . . . , n, . . .};

• Z: Denota o conjunto dos n´umeros inteiros;

• n!: Denota o fatorial de um n´umero inteiro n˜ao negativo n; a saber, 0! := 1 e n! :=n(n−1)(n−2)· · ·2·1;

• Q: Denota o conjunto dos n´umeros racionais n˜ao positivos;

• Q: Denota o conjunto dos n´umeros racionais negativos;

• Q+: Denota o conjunto dos n´umeros racionais n˜ao negativos;

• Q+: Denota o conjunto dos n´umeros racionais positivos;

• Q: Denota o corpo dos n´umeros racionais;

• R: Denota o corpo dos n´umeros reais;

• K: Denota um corpo alg´ebrico qualquer;

• A+B: Denota o conjunto {a+b;a ∈A, b∈B}, onde A, B ⊂Q;

• A·B: Denota o conjunto {a·b;a∈A, b∈B}, ondeA, B ⊂Q;

• (A·B)+: Denota o conjunto {a·b;a∈A, b∈B, a≥0, b≥0}, onde A, B ⊂Q;

• (A, B): Denota um corte de Dedekind;

• r: Denota o corte de Dedekind (Ar, Br), onde r ∈ Q, Ar = {x ∈ Q;x < r}

e Br ={x∈Q;r≤x};

• C : Denota o conjunto de todos os cortes de Dedekind;

• X\Y: Denota o completar do conjunto Y em rela¸c˜ao ao conjunto X.

(11)

Introdu¸ c˜ ao

E sabido que com os axiomas de Peano podemos introduzir na literatura o con-´ junto dos n´umeros naturais, e usando rela¸c˜oes de equivalˆencia sobre o conjunto dos n´umeros naturais podemos introduzir o conjunto dos n´umeros inteiros. Por conse- guinte, usando rela¸c˜oes equivalˆencia sobre o conjunto dos n´umeros inteiros podemos introduzir o conjunto dos n´umeros racionais. Uma vez conhecida a no¸c˜ao de corpo abstrato arquimediano e ordenado, podemos constatar que o conjunto dos n´umeros ra- cionais munido das opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre n´umeros racionais, possui estrutura de corpo arquimediano e ordenado. Para mais detalhes, veja [2] e [4].

Explorando o corpo dos n´umeros racionais, estudamos a equa¸c˜aox2−2 = 0 e somos levados aos conjuntos de aproxima¸c˜oesF, por falta, eE das aproxima¸c˜oes por excesso da solu¸c˜ao da equa¸c˜ao x2−2 = 0, onde

F ={1; 1,4; 1,41; 1,414; 1,4142;. . .}e

E ={2; 1,5; 1,42; 1,415; 1,4143;. . .}. (1) Provamos que n˜ao existe elemento m´aximo em F, nem elemento m´ınimo em E, e por conseguinte, provaremos que os seguintes conjuntos

X ={x∈Q;x≥0 e x2 <2} e

Y =Q\X ={y ∈Q;y >0 ou y2 >2}

(2)

s˜ao tais que X n˜ao possui elemento m´aximo em Q, nem Y elemento m´ınimo em Q. Estes fatos, nos motivaram a definir os chamados cortes de Dedekind, nome em ho- menagem ao matem´atico alem˜ao Julius Wilhelm Richard Dedekind (Braunschweig, 6 de outubro de 1831 – Braunschweig, 12 de fevereiro de 1916) aluno de doutorado do matem´atico tamb´em alem˜ao Carl Friedrich Gauss2; a saber, um corte de Dedekind ´e um par ordenado (A, B) de conjuntos de n´umeros racionais satisfazendo as seguintes condi¸c˜oes:

(i) Os conjuntos A e B s˜ao ambos n˜ao vazios tais queA∪B =Q;

2T´ıtulo da tese de doutorado: Uber die Theorie der Eulerschen Integrale¨ (1852), veja [7].

(12)

(ii) Todo elemento deA ´e estritamente menor que todo elemento de B;

(iii) O conjunto A n˜ao possui elemento m´aximo.

Consta na literatura que a motiva¸c˜ao do Dedekind para a introdu¸c˜ao dos cortes se d´a pela preocupa¸c˜ao do mesmo em deixar clara a ideia de n´umero irracional, para mais detalhes veja [6]. Por exemplo, a an´alise sobre os conjuntos E eF em (1), e X eY em (2), nos leva considerar o corte de Dedekind (A, B), onde

A ={x∈Q;x2 <2 ou x≤0} e B ={x∈Q;x2 >2 e x >0}.

Veremos que (A, B) de fato ´e um corte de Dedekind no Cap´ıtulo 2 deste trabalho, e este corte nos levar´a a conceber o que hoje entendemos como o n´umero real √

2. A t´ıtulo de motiva¸c˜ao, adiantamos que o cortes de Dedekind do tipo (Ar, Br), onde r∈Q, e

Ar ={x∈Q;x < r} e Br ={x∈Q;x≥r}.

nos levar´a a conceber o que hoje entendemos como o n´umero real do tipo racional. O corte de Dedekind (A, B), onde

A=Q\B e B =n

x∈Q;

n

X

k=0

1

k! < xpara todo n∈N o

nos levar´a a conceber o que hoje entendemos como o n´umero real e. O corte de Dedekind (A, B), onde

A=Q\B e B =n

x∈Q; existe n ∈N tal que 4

m

X

k=1

(−1)k+1 1

2k−1 < x para todom ∈N, m ≥no nos levar´a a conceber o que hoje entendemos como o n´umero real π para maiores detalhes veja o Cap´ıtulo 2 deste trabalho.

No que decorrer do trabalho daremos exemplos de cortes de Dedekind, definiremos uma opera¸c˜ao adi¸c˜ao e uma opera¸c˜ao entre cortes de Dedekind, e provaremos que o conjunto dos cortes munido destas duas opera¸c˜oes possui estrutura de corpo alg´ebrico.

Em seguida, definiremos uma rela¸c˜ao de ordem total entre os cortes e provaremos que o corpo dos cortes de Dedekind possui estrutura de corpo ordenado, e finalmente provaremos que o corpo dos cortes ´e completo. A partir da´ı, veremos que somos levados

(13)

a existˆencia do que hoje entendemos como o corpo dos n´umeros reais e ao apelo intuitivo geom´etrico que temos sobre este ´ultimo corpo. Para a execu¸c˜ao deste projeto seguimos [1], [2], [4] e [5].

O nosso trabalho est´a dividido em trˆes cap´ıtulos, a saber:

No Cap´ıtulo 1 iniciamos relembrando a defini¸c˜ao de corpos alg´ebricos abstratos, cor- pos ordenados e corpos ordenados completos. Tamb´em estudamos a equa¸c˜ao alg´ebrica x2−2 = 0 sobre o corpo dos n´umeros racionais.

No Cap´ıtulo 2 introduzimos o conceito de cortes de Dedekind, munimos o conjunto dos cortes de Dedekind de uma opera¸c˜ao de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao, al´em de uma rela¸c˜ao de ordem total.

Finalmente, no Cap´ıtulo 3 provamos que o conjunto dos cortes de Dedekind munido das opera¸c˜ao de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao definidas no Cap´ıtulo 2 possui estrutura de corpo alg´ebrico, terminamos este cap´ıtulo provando que o corpo dos cortes de Dedekind possui estrutura de corpo ordenado completo e introduzindo o corpo dos n´umeros reais.

(14)

Cap´ıtulo 1

Corpos alg´ ebricos abstratos

Neste cap´ıtulo, introduzimos a no¸c˜ao de corpos alg´ebricos abstratos, corpos ordena- dos e corpos ordenados completos. Tamb´em estudamos a equa¸c˜aox2 = 2 sob a ´otica do corpo dos n´umeros racionais. As principais referˆencias para a elabora¸c˜ao deste cap´ıtulo do trabalho foram [1] e [3].

1.1 Preliminares

Defini¸c˜ao 1.1. Seja K um conjunto n˜ao vazio. Um corpo alg´ebrico ´e um conjunto n˜ao vazio K munido de duas opera¸c˜oes + :K×K → K e · : K×K → K, chamadas respectivamente deadi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao, tais que para todosa, b, c∈K, as seguintes propriedades s˜ao v´alidas:

(i) a+b =b+a;

(ii) a+ (b+c) = (a+b) +c;

(iii) Existe um elemento em Kdenotado por 0, tal que 0 +a=a+ 0 = a, para todo a ∈K. O elemento 0 ´e chamado o zero deK;

(iv) Existe −a ∈ K tal que a+ (−a) = −a+a = 0. O elemento −a ´e chamado o sim´etrico aditivo de a;

(v) a·b=b·a;

(vi) (a·b)·c=a·(b·c);

(vii) a·(b+c) = a·b+a·c;

(viii) Existe um elemento em K denotado por 1 tal que 1·a =a para todo a ∈K. O elemento 1 ´e chamado unidade de K;

(15)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

(ix) Para todo a 6= 0 em K existe um elemento a−1 ∈ K, denominado inverso multi- plicativo de a tal que a·a−1 =a−1·a= 1.

Quando a estrutura matem´atica constitu´ıda de um conjuntoKmunidos das opera¸c˜oes + :K×K→ K e · :K×K→ K for um corpo alg´ebrico, eventualmente, fazemos re- ferˆencia a este corpo simplesmente por K e o elemento a· b, desde que a, b ∈ K, ´e denotado, simplesmente porab.

Observa¸c˜ao 1.1. Seja qual for o corpo K, observamos que existe um ´unico elemento emKcom a propriedade do elemento 0 definido no item (iii) da Defini¸c˜ao 1.1. De fato, se existirem 00 e 000 elementos de K com a propriedade do item (iii) da Defini¸c˜ao 1.1, devemos ter

00 = 00+ 000= 000,

onde a primeira igualdade ´e v´alida porque 000 satisfaz o item (iii) da Defini¸c˜ao 1.1, e a segunda igualdade ´e v´alida porque 00 satisfaz o item (iii) da Defini¸c˜ao 1.1.

Observa¸c˜ao 1.2. Existe um ´unico elemento em K com a propriedade do sim´etrico aditivo de um elemento a∈K. De fato, sejam (−a) e (−a) dois elementos de Kcom a propriedade do item (iv) da Defini¸c˜ao 1.1, tais que a+ (−a) = 0 e a+ (−a) = 0.

Temos, ent˜ao:

(−a) = (−a) + 0 = (−a) + [a+ (−a)] = [(−a) +a] + (−a) = 0 + (−a) = (−a).

Onde a primeira igualdade ´e valida, pois satisfaz o item (iii) da Defini¸c˜ao 1.1, na passagem da segunda igualdade para a terceira utilizamos o item (ii) da Defini¸c˜ao 1.1, e a ultima igualdade ´e v´alida porque satisfaz o item (iii) da Defini¸c˜ao 1.1. Logo o elemento sim´etrico aditivo ´e ´unico, como quer´ıamos mostrar.

Observa¸c˜ao 1.3. Existe um ´unico elemento emKcom a propriedade de ser a unidade deK. De fato, se existirem 10 e 100 elementos deK com a propriedade do item (viii) da Defini¸c˜ao 1.1, devemos ter

10 = 10100 = 100

onde a primeira igualdade ´e v´alida porque 100 satisfaz o item (viii) da Defini¸c˜ao 1.1, e a segunda igualdade ´e v´alida porque 10 satisfaz o item (viii) da Defini¸c˜ao 1.1.

Observa¸c˜ao 1.4. Para cada a ∈ K diferente de 0 existe um ´unico inverso multipli- cativo. De fato, Seja a ∈ K, a 6= 0 e a−1, a−1 ∈ K tais que aa−1 = 1 e aa−1 = 1.

Assim,

aa−1 =aa−1 ⇒(aa−1)a−1 = (aa−1 )a−1 ⇒a−1 = (aa−1)a−1 =a−1 .

(16)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

Exemplo 1.1. Sejam K = Q, + e · munido com as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre n´umeros racionais. Nestas condi¸c˜oes Q´e um corpo.

No exemplo acima, vimos que o conjunto dos n´umeros racionais munido das opera¸c˜oes usuais de adia¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre n´umeros racionais constituem um corpo alg´ebrico,

´e interessante notar que podemos considerar o conjunto dos n´umeros racionais contido em qualquer corpo alg´ebrico K, basta considerarmos a identifica¸c˜ao: a unidade de um corpo K ser´a identificado com o n´umero 1, a soma da unidade do corpo K com ela mesma ser´a identificado com o n´umero 2, a soma da unidade do corpo K com o elemento do corpoKidentificado com n´umero 2 ser´a identificado com o n´umero 3, e se- guindo com este argumento, podemos identificar um subconjunto deKcom o conjunto dos inteiros positivos. Continuando, o elemento chamado o zero deK ser´a identificado com o zero e se considerarmos o sim´etrico aditivo dos elementos deKidentificamos com os inteiros positivos, podemos concluir que um subconjunto deKpode ser identificado com o conjunto dos inteiros, e portanto, seja qual for o corpoK, temos:

Z⊂K.

Finalmente, considerando o sim´etrico aditivo e inverso multiplicativo de todo elemento a ∈ Z ⊂ K diferente de 0, a soma e multiplica¸c˜ao de dois qualquer destes elementos, bem como os elementos deZ, podemos admitir que, seja qual for o corpo K, temos:

Q⊂K.

Mais precisamos, podemos provar o seguinte resultado. Embora n˜ao faremos a prova na integra aqui o argumento acima nos d´a uma dire¸c˜ao de como esta deve ser feita.

Teorema 1.1. Existe uma fun¸c˜ao injetora j : Q −→ K tal que para todos r, s ∈ Q temos

(a) j(r+s) =j(r) +j(s);

(b) j(−r) =−j(r);

(c) j(rs) = j(r)j(s).

Exemplo 1.2. SejamK=Q[i] ={a+ib;a, b∈Q, i2 =−1}, + e·as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre os elementos deQ[i]; a saber, para todosa+ib, c+id∈ Q[i], definimos

(a+ib) + (c+id) :=a+c+i(b+d) e

(a+ib)·(c+id) := (ac−bd) +i(ad+cb).

(17)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

Exemplo 1.3. Sejam K=Q[x] ={anxn+an−1xn−1+· · ·+a1x+a0;ai ∈Q, n∈N}, + e·as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre os elementos deQ[x]; a saber, para todosanxn+an−1xn−1+· · ·+a1x+a0, bmxm+bm−1xm−1+· · ·+b1x+b0 ∈Q[x]

com m6n, definimos

(anxn+an−1xn−1+· · ·+a1x+a0) + (bmxm+bm−1xm−1+· · ·+b1x+b0)

:= (0 +bn)xn+· · ·+ (am+bm)xm+ (am−1+bm−1)xm−1+· · ·+ (a1+b1)x+ (a0+b0) e

(anxn+an−1xn−1+· · ·+a1x+a0)·(bmxm+bm−1xm−1+· · ·+b1x+b0) :=cm+nxm+n+cm+n−1xm+n−1+· · ·+c1x+c0,

onde

c0 =a0b0

c1 =a0b1+a1b0

c2 =a0b2+a1b1+a2b0

c3 =a0b3+a1b2+a2b1+a3b0 ...

ck =a0bk+a1bk−1+· · ·+akb0,k = 1,2,3, . . . , m

cm+1 =a1bm+a2bm−1+· · ·+anbm−n+1,cm+2 =a2bm+a3bm−2+· · ·+anbm−n+2,. . . , cm+n =anbm.

Observamos que para cada termo da soma que gera ck, a soma do ´ındice de a com o

´ındice de b sempre fornece o mesmo resultado dek.

Defini¸c˜ao 1.2. Seja K um corpo alg´ebrico. Dizemos que K ´e um corpo ordenado quando existir um conjuntoP ⊂K,chamado o conjunto dos elementos positivos deK, tal que as seguintes condi¸c˜oes s˜ao satisfeitas:

(P1) A soma e o produto de elementos positivos s˜ao positivos, ou seja, x, y ∈P ⇒x+y∈P e xy∈P.

(P2) Dado x∈K, exatamente uma das trˆes alternativas seguintes ocorre:

ou x= 0, oux∈P, ou −x∈P.

(18)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

Assim, se indicarmos com −P o conjunto dos elementos −x, onde x ∈ P, temos K = P ∪(−P)∪ {0}, sendo os conjuntos P,−P e {0} dois a dois disjuntos. Os elementos de−P s˜ao chamados elementos negativos do corpo.

Observa¸c˜ao 1.5. Em um corpo ordenado, se a 6= 0 ent˜ao a2 ∈ P.Com efeito, sendo a 6= 0, ou a ∈ P ou −a ∈ P. No primeiro caso a2 = aa ∈ P. No segundo caso a2 = (−a)(−a)∈P.Em particular, em um corpo ordenado 1 = 1·1 ´e sempre positivo.

Assim −1 ∈ −P. portanto, em um corpo ordenado −1 n˜ao ´e quadrado de elemento algum.

Exemplo 1.4. O conjunto dos n´umeros racionais munido das opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre n´umeros racionais ´e um corpo ordenado, no qual o conjunto P ´e formado pelos n´umeros racionais pq tais que pq ∈N. Intuitivamente, isto significa que os inteiros p eq possuem o mesmo sinal.

No que segue, sempre que o corpoKfor ordenado, o conjunto P ser´a denotado por {x∈K; 0< x},e denotamos

0≤x⇔0< x oux= 0.

Defini¸c˜ao 1.3. Um conjuntoX ⊂Kdizemos queX´e limitado superiormente, quando existe algumb∈Ktal quex≤bpara todox∈X.Neste caso, diremos queb´e uma cota superior deX, analogamente, diremos que o conjuntoX ⊂K´e limitado inferiormente, quando existe a ∈ K tal que a ≤ x para todo x ∈ X, o n´umero a chamaremos ent˜ao uma cota inferior deX.

Defini¸c˜ao 1.4. Sejam K um corpo ordenado e X ⊂ K um conjunto limitado superi- ormente. Um elemento b ∈ K chama-se supremo do conjunto X quando b ´e a menor das cotas superiores de X em K.

Assim, para queb∈Kseja supremo de um conjuntoX ⊂K,´e necess´ario e suficiente que sejam satisfeitas as duas condi¸c˜oes abaixo:

(S1) Para todo x∈X,tem-se x≤b;

(S2) Se c∈K ´e tal que c≤x para todo x∈X, ent˜ao c≤b.

Analogamente, um elemento a∈ K chama-se ´ınfimo de um conjunto Y ⊂K, limitado inferiormente, quandoa´e a maior das cotas inferiores deK.Para quea ∈Kseja ´ınfimo deY ⊂K´e necess´ario e suficiente que as condi¸c˜oes abaixo sejam satisfeitas:

(I1) Para todo y∈Y tem-sey ≤a;

(I2) Se c∈K ´e tal que c≤y para todo y∈Y, ent˜aoc≤a.

(19)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

Resulta da defini¸c˜ao que, em um corpo ordenado completo, todo conjunto n˜ao vazio, limitado inferiormente, X ⊂K, possui ´ınfimo. Com efeito, dado Y seja X =−Y, isto

´e, X = {−y;y ∈ Y}. Ent˜ao, X ´e n˜ao vazio e limitado superiormente; logo existe a=supX. Como se vˆe facilmente, tem-se −a=inf Y. De fato, seja a =sup X, existe x ∈ X tal que a ≥ x ent˜ao −a ≤ −x, para todo −x ∈ −X. Ent˜ao −a ´e uma cota inferior para o conjunto −X, queremos mostrar que −a ´e a maior das cotas inferiores de −X, como a = sup X dado > 0 tal que a− > x para todo x ∈ X, temos que

−a+ <−x para todo−x∈ −X. Logo −a=inf(−X), ent˜ao: −sup X =inf Y.

Defini¸c˜ao 1.5. Seja K um corpo ordenado. Dizemos que K ´e completo quando todo subconjunto n˜ao-vazio, limitado superiormente X ⊂K possui supremo em K.

1.2 Planificando o problema do cubo

O seguinte problema nos motivar´a a definir no pr´oximo cap´ıtulo os cortes de Dede- kind, e estes ser˜ao utilizados no futuro para explicarmos a origem dos n´umeros reais.

Suponhamos que o corpo dos n´umeros racionais seja o maior, no sentido da inclus˜ao, conjunto num´erico conhecido. Vamos calcular a medida do lado de um quadrado, cuja

´

area seja o dobro da ´area de um quadrado conhecido.

Consideramos um quadrado de lado a e seja x o lado do quadrado que se deseja determinar. Podemos traduzir matematicamente o problema com a equa¸c˜ao

x2 = 2a2.

Sem perda de generalidade, suponhamos que a = 1 e fixaremos nossa aten¸c˜ao na equa¸c˜ao

x2 = 2. (1.1)

Afirmamos que a equa¸c˜ao (1.1) n˜ao possui solu¸c˜aoxemQ, isto ´e, n˜ao existe racional x solu¸c˜ao de (1.1). De fato, se existisse um racional x = pq com q 6= 0 e o m´aximo divisor comum dep eq ´e igual a um, logop eq s˜ao primos entre si tal que

p2 = 2q2.

Ent˜ao, p2 ´e par, isto ´e, p = 2m, m ∈ Z. Consequentemente, 4m2 = 2q2 ou q2 = 2m2, isto implica que q2 ´e par, isto ´e, q par. Portanto, p e q s˜ao pares o que conduz a uma contradi¸c˜ao pois, por hip´otese, eles s˜ao primos entre si.

Vamos analisar a (1.1) sob outro ponto de vista. Come¸caremos obtendo apro- xima¸c˜oes racionais da solu¸c˜ao x de (1.1). Denominamos raiz quadrada de 2, a menos

(20)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

de uma unidade, por falta, ao maior n´umero inteiro n tal que

n2 <2<(n+ 1)2. (1.2) O n´umeron+ 1 ´e denominado de raiz quadrada de 2, a menos de uma unidade, por excesso, ´e claro que n= 1 em (1.2), implica que a solu¸c˜ao de (1.1) satisfaz: 1 < x <2.

A seguir, fazemos aproxima¸c˜oes decimais da solu¸c˜ao x de (1.1), que se encontra entre 1 e 2. Denominamos raiz quadrada de 2 a menos de 101 por falta, ao maior n´umero inteiro de d´ecimos cujo quadrado ´e menor do que 2, isto equivale a

n 10

2

<2<

n+ 1 10

2

.

O n´umero n+110 ´e a raiz quadrada de 2 por excesso a menos de um d´ecimo. Para o c´alculo desta aproxima¸c˜ao dividimos o segmento de reta [1, 2] em 10 partes iguais por meio dos pontos:

1; 1,1; 1,2; 1,3; 1,4; 1,5; 1,6; 1,7; 1,8; 1,9; 2.

Obtemos

(1,4)2 <2<(1,5)2.

Assim, 1,4 ´e a solu¸c˜ao aproximada de (1.1) a menos de 101 por falta e 1,5 por excesso. Logo, a solu¸c˜aox da Equa¸c˜ao (1.1) encontra-se no segmento de extremos 1,4 e 1,5.

Para obtermos das solu¸c˜oes aproximadas de (1.1) a menos de 1012 por falta e por excesso, dividimos o segmento de reta [1,4; 1,5] em dez partes iguais por meio dos pontos:

1,4; 1,41; 1,42; 1,43; 1,44; 1,45; 1,46; 1,47; 1,48; 1,49; 1,5.

Procedemos como no caso anterior e obtemos:

(1,41)2 <2<(1,42)2.

Isto ´e, 1,41 ´e a solu¸c˜ao de (1.1) a menos de 1001 por falta e 1,42 por excesso. Logo, a solu¸c˜aoxda Equa¸c˜ao (1.1) encontra-se no intervalo da reta de extremos 1,41 e 1,42.

Continuando o processo, de modo an´alogo aos casos acima, encontramos as solu¸c˜oes aproximadas a menos de

1 103, 1

104, . . . , 1 10n.

Constru´ımos os conjuntos de aproxima¸c˜oesF, por falta e E, das aproxima¸c˜oes por

(21)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

excesso da solu¸c˜ao da Equa¸c˜ao (1.1). Assim

F ={1; 1,4; 1,41; 1,414; 1,4142;. . .} (1.3) e

E ={2; 1,5; 1,42; 1,415; 1,4143;. . .}. (1.4) Os quadrados dos n´umeros deF s˜ao menores que 2 e os deE s˜ao maiores. De modo geral, os n´umeros deF s˜ao da forma: 1, a1a2. . . ane os deE, da forma, 1, a1a2. . . a(n+1), sendoai um algarismo de 0 a 9. Portanto,

1, a1a2. . . an. . . < x <1, a1a2. . . a(n+1). . . .

Representamos porxn os elementos deF e porynos elementos de E, temosxn−yn=

1

10n e xn< yn para todon = 1,2, . . . .

Proposi¸c˜ao 1.2. Dadoδ= 101k, k= 1,2, . . . ,existemx∈F ey∈E tais quey−x < δ.

Demonstra¸c˜ao. De fato, seja n ∈ Z, tal que 101n < 101k. Logo, quaisquer xn ∈ F e yn ∈E, e comn > k s˜ao tais queyn−xn< δ

Proposi¸c˜ao 1.3. Para cada δ = 101k, k inteiro positivo, existem x ∈ F, y ∈ E , tais que 2x2 <2δ ey2 < δ.

Demonstra¸c˜ao. Como na Proposi¸c˜ao 1.4, dadoδ= 101k existem x∈F ey∈E tais que yx < δ4. Sendo x ey tais que 1< xe y <2, obtemos y+x <4 e

y2−x2 = (y−x)(y+x)<4(y−x)< δ.

De x∈F e y∈E resulta que x2 <2 e 2< y2. Logo, adicionando e subtraindo 2 `a desigualdade acima, encontramos 2y2+ 2x2 < δ, isto ´e 2y2 < δ e 2x2 < δ.

Proposi¸c˜ao 1.4. Consideramos os conjuntos E e F definidos como em (1.3) e (1.4).

Ent˜ao n˜ao existe elemento m´aximo emF nem elemento m´ınimo emE.

Demonstra¸c˜ao. De fato, para cadax∈F, aproxima¸c˜ao por falta da solu¸c˜ao da equa¸c˜ao x2 = 2, existe uma aproxima¸c˜ao x < x1 ainda por falta. O mesmo acontece com a classe E das aproxima¸c˜oes por excesso da solu¸c˜ao da equa¸c˜aox2 = 2.

Motivado pelos resultados obtidos acima conclu´ımos que n˜ao existe solu¸c˜ao racional para a Equa¸c˜ao (1.1). Se consideramos os conjuntos

X ={x∈Q;x≥0 e x2 <2}

(22)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

e

Y =Q\X ={y∈Q;y >0 ou y2 >2}.

Comox >2 o que implicax2 >4 e por conseguinte x /∈X, conclu´ımos que X ⊂[0; 2], logo X ´e um conjunto limitado de n´umeros racionais. Por outro lado, Y ⊂ (0,+∞), de modo que Y ´e limitado inferiormente. Mostraremos agora que n˜ao existem sup X nem inf Y em Q. (´E claro que existe inf X = 0, pois 0 ´e o menor elemento de X).

Para isto, estabelecemos os seguintes fatos:

A) O conjunto X n˜ao possui elemento m´aximo. Com efeito, dado x ∈ X (isto,

´e dado um n´umero racional n˜ao negativo cujo quadrado ´e inferior a 2), tomamos um n´umero racional r < 1 tal que 0 < r < 2−x2x+12. Afirmamos que x+r ainda pertence a X.Com efeito, der <1 segue-ser2 < r.da outra desigualdade que rsatisfaz, segue-se r(2x+ 1)<2−x2. Ent˜ao,

(x+ 2)2 =x2+ 2rx+r2 < x2+ 2rx+r=x2+r(2x+ 1)< x2+ 2−x2 = 2.

Assim, dado qualquerx∈X, existe um n´umero maior, x+r∈X.

B) O conjunto Y n˜ao possui elemento m´ınimo. De fato, dado qualquer y ∈ Y, temosy >0 ey2 >2.Logo podemos obter um n´umero racional rtal que 0< r < y22y−2. Ent˜ao 2ry < y2 −2 logo (y−r)2 = y2−2ry+r2 > y2 −2ry > 2. Notemos tamb´em que r < y2y1, donde r < y, isto ´e, y−r ´e positivo. Assim, dado y ∈ Y arbitr´ario, podemos obter y−r∈Y, y−r < y.

C) Se x ∈ X e y ∈ Y, ent˜ao x < y. com efeito, tem-se x2 < 2 < y2 e, portanto, x2 < y2.Comoxeys˜ao ambos positivos, conclui-sex < y.(A rigor, poderia serx= 0, mas, neste caso, a conclus˜aoa < y ´e ´obvia.)

Usando os fatosA,B e Cmostremos que, entre os n´umeros racionais, n˜ao existem sup X nem inf Y.

Suponhamos, primeiro, que existisse a = sup X. seria for¸cosamente a > 0. N˜ao poderia ser a2 < 2 porque isto obrigaria a ∈ X e, ent˜ao, a seria elemento m´aximo de X,que n˜ao existe, porA t˜ao pouco poderia sera2 <2,porque isto fariaa∈Y. Como, em virtude de B, Y n˜ao possui elemento m´ınimo, existiria b ∈Y, com b < a. Usando C, concluir´ıamos que x < b < a para todox∈X, o que contradiz ser a=sup X.

Assim, se existira=sup X,ent˜aoa2 = 2,mas nenhum n´umero racional existe com esta propriedade, de onde conclu´ımos que emQ o conjunto X n˜ao possui supremo.

Um racioc´ınio inteiramente an´alogo, baseado nos fatos A,B e C, mostraria que o n´umero b =inf Y, se existir, deve satisfazer b2 = 2, e portanto, Y n˜ao tem ´ınfimo em Q.

Ao mesmo tempo, estes argumentos mostram que, se existir um corpo no qual todo

(23)

1. Corpos alg´ebricos abstratos

conjunto n˜ao vazio limitado superiormente possua supremo, existir´a, nesse dito corpo, a = sup X, cujo quadrado, n˜ao podendo ser menor nem maior do que 2, dever´a ser igual a 2, e escrevemosa=√

2.

Observa¸c˜ao 1.6. Note que se p ´e um n´umero primo, ent˜ao podemos considerar a equa¸c˜ao

x2 =p. (1.5)

Usando um argumento an´alogo ao aplicado `a equa¸c˜ao (1.1) podemos concluir que a equa¸c˜ao (1.5) tamb´em n˜ao admite solu¸c˜ao no corpo dos n´umeros racionais.

(24)

Cap´ıtulo 2

Cortes de Dedekind

Neste cap´ıtulo, introduzimos a no¸c˜ao de cortes de Dedekind, uma rela¸c˜ao de ordem entre cortes de Dedekind e uma opera¸c˜ao de adi¸c˜ao e uma opera¸c˜ao de multiplica¸c˜ao entre cortes de Dedekind.

2.1 Defini¸ c˜ oes b´ asicas

Defini¸c˜ao 2.1. Um corte de Dedekind ´e um par ordenado (A, B) de conjuntos de n´umeros racionais satisfazendo as seguintes condi¸c˜oes:

(D1) Os conjuntos A e B s˜ao ambos n˜ao vazios tais queA∪B =Q; (D2) Todo elemento deA ´e estritamente menor que todo elemento de B;

(D3) O conjunto A n˜ao possui elemento m´aximo.

Dado um corte de Dedekind (A, B), o conjunto A ´e comumente denominado de conjunto minorante do corte e o conjunto B ´e comumente denominado de conjunto majorante do corte. Os elementos do conjunto minorante de um corte ser˜ao chamados de elementos minorante do corte de Dedekind, e os elementos do conjunto majorante de um corte de elementos majorantes do corte de Dedekind.

Defini¸c˜ao 2.2. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind. Dizemos que (A, B) ´e igual (D, E) se, e somente se, o conjunto minorante de (A, B) for igual ao conjunto minorante de (D, E), isto ´e,

(A, B) = (D, E)⇔A=D.

Defini¸c˜ao 2.3. Um corte (A, B) no qual o conjunto majorante n˜ao tem elemento m´ınimo e o conjunto minorante n˜ao tem elemento m´aximo em Q denomina-se um corte irracional.

(25)

2. Cortes de Dedekind

Exemplo 2.1. Consideremos os conjuntos

A={x∈Q;x2 <2 ou x≤0}

e

B ={x∈Q;x2 >2 e x >0}.

O par ordenado (A, B) ´e um corte de Dedekind. De fato, A e B s˜ao conjuntos n˜ao vazios e A∪B =Q, isto ´e, vale a condi¸c˜ao (D1) da Defini¸c˜ao 2.1. Agora, provemos a condi¸c˜ao(D2) da Defini¸c˜ao 2.1, ou seja, todo elemento de A ´e estritamente menor que todo elemento de B, pois se a ∈ A e b ∈ B, logo a2 < 2 ou a ≤ 0, e 2 < b2 e 0 < b.

Ent˜ao

a2 <2< b2 ⇒a2 < b2 ⇒ |a|< b⇒ −b < a < b,

e portanto, a < b. Finalmente, provemos a condi¸c˜ao (D3) da Defini¸c˜ao 2.1 note que o conjuntoA n˜ao tem elemento m´aximo, isto ´e, sex∈A, ent˜ao existey, y∈A, tal que x < y. De fato, seja x = pq, e considere y = np+1nq ∈ A, onde n ´e um inteiro positivo com que satisfaz a propriedade definida abaixo:

(np+ 1)2

n2q2 <2⇔n2p2+ 2np+ 1<2n2q2

⇔(p2−2q2)n2+ 2np+ 1<0

⇔n= −2p±p

(2p)2−4(p2−2q2)1 2(p2−2q2) <0

⇔n= −2p±p

4p2−4p2+ 8q2 2(p2−2q2) <0

⇔n= −2p±2q√ 2 2(p2−2q2) <0

⇔n= −p±q√ 2 p2−2q2 <0.

Notemos que y ∈ A, isto ´e, 0 ≤ y, y ∈ Q e y2 < 2. De fato, como x = pq ∈ A, temos, que p2 − 2q2 < 0. Logo, a desigualdade ´e verificada sempre que tomarmos n > max{−p+q

2 p2−2q2 ,−p−q

2 p2−2q2 }.

Proposi¸c˜ao 2.1. A sequˆencia de n´umeros racionais cujo termo geral ´e dado por Pn

k=0 1

k! para n ∈N´e convergence. Al´em disso, seu limite n˜ao ´e n´umero racional.

Demonstra¸c˜ao. A convergˆencia da sequˆencia cujo termo geral ´e dado porPn k=0

1 k! segue do fato de que para todok ≥4, temos

2k ≤k!

(26)

2. Cortes de Dedekind

para todon ≥4 (isto pode ser provado usando o Princ´ıpio de Indu¸c˜ao Finita) e

n

X

k=4

1 k! ≤

n

X

k=4

1 2k

o que implica, que a sequˆencia cujo termo geral ´e dado por Pn k=4

1

k! para n ∈ N ´e mon´otona e limitada, e portanto, convergente, e assim ´e a sequˆencia cujo termo geral ´e dado porPn

k=0 1

k!. No que segue, denotaremos o limite desta sequˆencia por e, e assim, podemos usar tamb´em a nota¸c˜ao

e=

X

k=0

1 k!.

Para concluir a prova da proposi¸c˜ao, suponha por absurdo que e seja um n´umero racional; a saber, e = mn, onde m e n 6= 0 s˜ao n´umeros inteiros e o m´aximo divisor comum entrem e n ´e igual a 1. Note que

m n =

1 + 1 1! + 1

2!+· · ·+ 1 n!

+ 1

(n+ 1)! +· · · e assim

0< m n −

1 + 1 1!+ 1

2!+· · ·+ 1 n!

= 1

(n+ 1)!+ 1

(n+ 2)! +· · ·=

X

j=n+1

1 j!

Por outro lado,

X

j=n+1

1

j! = 1

(n+ 1)! + 1

(n+ 2)! + 1

(n+ 3)! +· · ·

= 1 n!

1

(n+ 1) + 1

(n+ 1)(n+ 2)

+· · ·

≤ 1 n!

1

(n+ 1) + 1

(n+ 1)2 + 1 (n+ 1)3

+· · ·

< 1 n

1 n!

Com isso, obtemos 0< m

n − 1 + 1

1!+ 1

2!+· · ·+ 1 n!

< 1 n

1 n!

e portanto

0< n!m

n −1− 1 1!− 1

2!− · · · − 1 n!

< 1 n ≤1,

(27)

2. Cortes de Dedekind

mas isto ´e um absurdo porque n!m

n −1− 1 1!− 1

2!− · · · − 1 n!

= (n−1)!(m−n)!−n!− · · · −1∈Z.

Exemplo 2.2. Consideremos os conjuntos A=Q\B e

B =n x∈Q;

n

X

k=0

1

k! < x para todon ∈N o

.

O par ordenado (A, B) ´e um corte de Dedekind. De fato, A e B s˜ao conjuntos n˜ao vazios e A∪B =Q, isto ´e, vale a condi¸c˜ao (D1) da Defini¸c˜ao 2.1. Agora, provemos a condi¸c˜ao(D2) da Defini¸c˜ao 2.1, ou seja, todo elemento de A ´e estritamente menor que todo elemento deB, pois se a ∈A e b ∈A, ent˜ao para todo n ∈N

a <

n

X

k=0

1 k! < b.

Finalmente, provemos a condi¸c˜ao(D3) da Defini¸c˜ao 2.1. Se o conjunto A possu´ısse elemento m´aximo este deveria ser o limite da sequˆencia de n´umeros racionais cujo termo geral ´e dado por Pn

k=0 1

k!, mas isto ´e absurdo porque este limite embora exista n˜ao ´e um n´umero racional como provamos na Proposi¸c˜ao 2.1.

Observa¸c˜ao 2.1. Assumindo que que a sequˆencia de n´umeros racionais cujo termo geral ´e dado por 4Pm

k=1(−1)k+12k−11 para n ∈ N ´e convergente, bem como provar que o limite desta sequˆencia n˜ao ´e um n´umero racional (usando a teoria das s´eries de n´umeros reais e a teoria de integra¸c˜ao a Riemann n˜ao ´e dif´ıcil de provar esta afirma¸c˜ao).

A rigor, seria interessante n˜ao fazer estas suposi¸c˜oes e sim demonstrar estes fato, mas at´e onde sabemos n˜ao h´a provas para a convergˆencia da sequˆencia de n´umeros racionais cujo termo geral ´e dado por 4Pm

k=1(−1)k+12k−11 , nem da irracionalidade de seu limite usando argumentos que n˜ao dependam da existˆencia de um corpo alg´ebrico que tenha estritamente o corpo dos n´umeros racionais. Feito isto, se consideramos os conjuntos

A=Q\B

(28)

2. Cortes de Dedekind

e B =n

x∈Q; existe n∈Ntal que 4

m

X

k=1

(−1)k+1 1

2k−1 < xpara todom∈N, m≥no ent˜ao o par ordenado (A, B) ´e um corte de Dedekind, e isto pode ser constado usando um argumento similar ao usado no Exemplo 2.2.

Observa¸c˜ao 2.2. O corte (A, B) dado no Exemplo 2.1 ´e um corte irracional. De maneira geral, sep´e um n´umero primo, ent˜ao (D, E), onde

D={x∈Q;x2 < p oux≥0}, e

E ={x∈Q;x2 > p e x >0}

´e um exemplo de corte irracional.

Defini¸c˜ao 2.4. Um corte (A, B) no qual o conjunto majorante tem elemento m´ınimo denomina-se umcorte racional.

Exemplo 2.3. Seja r um n´umero racional. Consideramos os conjuntos Ar={x∈Q;x < r}

e

Br ={x∈Q;r ≤x}.

O par ordenado (Ar, Br) ´e um corte de Dedekind, o qual ser´a denotado porr. De fato, a condi¸c˜ao (D1) da Defini¸c˜ao 2.1 ´e verificada, pois ´e claro que Ar e Br s˜ao conjuntos n˜ao vazios. Dado um n´umero racional arbitr´ario x, temos x ∈ Ar ou x ∈ Br, logo Ar∪Br =Q.

Sejam a ∈ Ar e b ∈ Br, temos a < r e r ≤ b, portanto a < b, logo vemos que a condi¸c˜ao (D2) da Defini¸c˜ao 2.1 ´e satisfeita. O mesmo ocorre com a condi¸c˜ao (D3) da Defini¸c˜ao 2.1 pois o conjunto Ar n˜ao tem elemento m´aximo, onde se a ∈ Ar, ent˜ao a < a+r2 < r e a+r2 ∈Ar.

Observamos que, todo corte racional (A, B) ´e determinado por um n´umero racional.

De fato, seja r = min(B), provaremos r = (A, B). Conforme a Defini¸c˜ao 2.2, ´e suficiente mostrar que Ar =A. Seja x∈Ar, ent˜aox∈Q e x < r, j´a que, (A, B) ´e um corte de Dedekind, devemos terx∈A.Reciprocamente, se x∈A,uma vez que (A, B)

´e um corte de Dedekind, pela condi¸c˜ao (D2) da defini¸c˜ao 2.1 devemos ter x < r, logo x∈Ar.

(29)

2. Cortes de Dedekind

2.2 Rela¸ c˜ ao de ordem

A partir deste momento, denotamos por C o conjunto de todos os cortes de Dede- kind.

Defini¸c˜ao 2.5. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind. Dizemos que (A, B) ´e menor do que (D, E) e escrevemos (A, B)<(D, E),quando D\A6=∅.

Exemplo 2.4. Vamos mostrar que o corte de Dedekind 3 ´e menor do que o corte 5. De fato

3 = (A3, B3), onde A3 ={x∈Q;x <3}, e

5 = (A5, B5), onde A5 ={x∈Q;x <5}, o que implica que

A5\A3 ={x∈Q;x <5}\{x∈Q;x <3} 6=∅.

Logo, como quer´ıamos demostrar 3 <5.

Exemplo 2.5. Vamos mostrar que o corte 2 ´e menor do que o corte (A, B) dado no Exemplo 2.1. De fato

A2\A={x∈Q;x <2}\{x∈Q+;x2 <2 ou x≤0}={x∈Q; 0< x2 <2} 6=∅ Logo, como quer´ıamos demostrar (A, B)<2, onde (A, B) ´e dado no Exemplo 2.1.

Exemplo 2.6. Seja r um n´umero racional positivo. Vamos mostrar que 0 ´e menor do que o corter. De fato,

Ar\A0 ={x∈Q;x < r}\{x∈Q;x <0}={x∈Q; 0≤x < r} 6=∅ Logo, como quer´ıamos demostrar 0 < r.

Defini¸c˜ao 2.6. Um corte de Dedekind (A, B) ´e chamado corte positivo se 0 = (A0, B0) < (A, B). Agora, se (A, B) ∈ C ´e tal que (A, B) < 0, o corte (A, B) ´e chamado corte negativo.

Teorema 2.2. (Tricotomia) Dados (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind. Apenas uma, e somente uma, das afirma¸c˜oes a seguir ´e verdadeira

ou (A, B) = (D, E) ou (A, B)<(D, E) ou (D, E)<(A, B).

(30)

2. Cortes de Dedekind

Demonstra¸c˜ao. Note que, se (A, B) = (D, E),ent˜ao pela Defini¸c˜ao 2.2 A=D, e assim A\D = ∅ e D\A = ∅ o que impossibilita (A, B) < (D, E) e (D, E) < (A, B) de ocorrerem.

Suponhamos agora que as possibilidades (A, B) <(D, E) e (D, E)< (A, B) ocor- ram simultaneamente, ent˜ao D\A = ∅ e A\D, logo existem d ∈ D\A e a ∈ A\D, e consequentemente d∈De a /∈D, o que implica d < a,logo se a∈A e d /∈A, o que ´e absurdo.

Logo, conclu´ımos que no m´aximo uma das trˆes possibilidade ocorre. Finalmente, provaremos agora que uma delas necessariamente ocorre. Sabemos que

ou (A, B) = (D, E) ou (A, B)6= (D, E).

No caso em que (A, B) = (D, E) nada a provar. Agora, se (A, B)6= (D, E),ent˜ao pela Defini¸c˜ao 2.2, devemos ter A6=D, o que implica que ou A\D6=∅ ou D\A6=∅.

SeA\D6=∅ ent˜ao (D, E)<(A, B) e se D\A6=∅ ent˜ao (A, B)<(D, E).

Defini¸c˜ao 2.7. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind. Dizemos que (A, B) ´e menor ou igual ao (D, E) e escrevemos (A, B)≤ (D, E), quando (A, B) < (D, E) ou (A, B) = (D, E).

Proposi¸c˜ao 2.3. Sejam (A, B),(D, E) e (F, G) cortes de Dedekind. A rela¸c˜ao ‘menor ou igual a’ satisfaz as seguintes propriedades:

(i) (A, B)≤(A, B);

(ii) Se (A, B)≤(D, E) e (D, E)≤(A, B), ent˜ao (A, B) = (D, E);

(iii) Se (A, B)≤(D, E) e (D, E)≤(F, G),ent˜ao (A, B)≤(F, G).

Demonstra¸c˜ao. (i) Seja (A, B) ∈ C j´a que A = A temos (A, B) = (A, B) e, portanto, (A, B)≤(A, B);

(ii) Sejam(A, B),(D, E) ∈ C com (A, B) ≤ (D, E) e (D, E) ≤ (A, B). Se fosse (A, B)6= (D, E),pelo Teorema 2.2 dever´ıamos ter ou (A, B)<(D, E),ou

(D, E) < (A, B), caso (A, B) < (D, E) fosse a ´unica afirma¸c˜ao verdadeira, con- cluir´ıamos que (D, E)<(A, B) e (A, B) = (D, E) s˜ao falsas, logo, n˜ao valeria

(D, E) ≤ (A, B), o que ´e um absurdo. O mesmo argumento pode ser usado caso ad- mit´ıssemos que (D, E)<(A, B) fosse a ´unica afirma¸c˜ao verdadeira.

Logo, (A, B) = (D, E);

(iii) Sejam (A, B) ≤ (D, E) e (D, E) ≤ (F, G). Se fosse (F, G)< (A, B), ter´ıamos A\F 6= ∅, ou seja, existiria a ∈ A e a /∈ F. Por conseguinte poder´ıamos concluir

(31)

2. Cortes de Dedekind

que: se a ∈ D, ent˜ao D\F 6= ∅, logo (F, G) < (D, E), o que contraria o fato de que (D, E)≤(F, G).

Por outro lado, se a /∈D, ent˜ao A\D6=∅, logo (D, E)<(A, B),o que contraria o fato de que (A, B)≤(D, E).Logo, (A, B)≤(F, G).

Teorema 2.4. O conjunto dos cortes de Dedekind da forma (An, Bn) com n ∈ N ´e ilimitado superiormente em C.

Demonstra¸c˜ao. De fato, suponha por absurdo que o conjunto dos cortes de Dedekind da forma (An, Bn) comn ∈N´e limitado superiormente, isto ´e, existe um corte (A, B)∈ C tal que para todon ∈N

(An, Bn)≤(A, B).

Isto implica que,A\An6=∅para todo n∈N, ou seja, existe a∈Q tal que a≥n para todon ∈N, mas isto ´e absurdo.

2.3 Opera¸ c˜ oes de adi¸ c˜ ao e multiplica¸ c˜ ao entre cor- tes de Dedekind

Nesta se¸c˜ao, definimos no conjunto de todos os cortes de Dedekind, opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao, que v˜ao dar ao conjunto C a estrutura de corpo.

Teorema 2.5. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind. O par ordenado de subcon- juntos de Q definido por

(F, G) = (A, B) + (D, E) := (A+D,(A+D)c), onde

A+D={a+d;a∈A e d∈D}

e

(A+D)c=Q\(A+D)

´e um corte de Dedekind.

Demonstra¸c˜ao. Mostraremos que (F, G) satisfaz as trˆes condi¸c˜oes da Defini¸c˜ao 2.1.

J´a queA∪B =D∪E =QeA6=∅, B 6=∅, D 6=∅eE 6=∅,devemos terA+D6=∅.

Sejam b ∈ B e e ∈ E, ent˜ao b+e ∈ B +E. Notemos que para todo a ∈ A e d ∈ D, temosa < bed < e,portanto para todoa+d∈A+D,o que implica ema+d < b+e, logo b+e /∈A+Do que implica que b+e∈(A+D)c.

(32)

2. Cortes de Dedekind

Al´em disso, (A+D)∪(A+D)c=Q.E, portanto, a condi¸c˜ao (D1) da Defini¸c˜ao 2.1

´e v´alida, e o argumento usado acima tamb´em garante que a condi¸c˜ao (D2) da Defini¸c˜ao 2.1 ´e valida. Finalmente, j´a que os conjuntos Ae D n˜ao possuem elementos m´aximos, o conjuntoA+D={a+d;a ∈A, d∈D}tamb´em n˜ao possui elemento m´aximo, logo satisfazendo a condi¸c˜ao (D3) da Defini¸c˜ao 2.1.

Defini¸c˜ao 2.8. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind n˜ao negativos. Definiremos a adi¸c˜ao (A, B) + (D, E) como sendo o corte de Dedekind (F, G) definido no Teorema 2.5.

Exemplo 2.7. Neste exemplo vamos mostrar que a adi¸c˜ao dos cortes de Dedekind 2 e 5 ´e igual ao corte de Dedekind 7. De fato, como

2 = (A2, B2) onde A2 ={x∈Q;x <2}

e

5 = (A5, B5) onde A5 ={x∈Q;x <5}

somando os conjuntos A2 e A5, obtemos o conjunto A7, e j´a que Q\A7 =B7 obtemos a igualdade de cortes (A2, B2) + (A5, B5) = (A7, B7) em outras palavras, temos

2+ 5 = (A7, B7) = 7, poisAcr =Br.

Mais geralmente, temos

Exemplo 2.8. Dadosr es n´umeros racionais, ent˜ao r+s =s+r = (r+s). De fato,

Ar+As ={x∈Q;x < r}+{x∈Q;x < s}={x∈Q;x < r+s}=Ar+s. e

As+Ar ={x∈Q;x < s}+{x∈Q;x < r}={x∈Q;x < s+r =r+s}=Ar+s. Em particular, conclu´ımos que o corte 0 = (A0, B0) ´e um elemento neutro da adi¸c˜ao.

Teorema 2.6. Sejam (A, B), (D, E) e (F, G) cortes de Dedekind. As seguintes pro- priedades s˜ao v´alidas.

(33)

2. Cortes de Dedekind

(i) (Comutatividade) (A, B) + (D, E) = (D, E) + (A, B);

(ii) (Associatividade) [(A, B) + (D, E)] + (F, G) = (D, E) + [(A, B) + (F, G)].

(iii) (Existˆencia e unicidade do elemento neutro da adi¸c˜ao) O corte 0 = (A0, B0) ´e o ´unico corte tal que

0+ (A, B) = (A, B) + 0 = (A, B).

Demonstra¸c˜ao. Prova do item (i). Basta notar que

(A, B) + (D, E) = ({a+d;a∈A ed∈D},{a+d;a∈A e d∈D}c)

= ({d+a;a∈A ed∈D},{d+a;a∈A e d∈D}c)

= (D, E) + (A, B).

Prova do item (ii). Basta notar que

(A, B) + (D, E) = ({a+d;a∈A ed∈D},{a+d;a∈A e d∈D}c) e

[(A, B) + (D, E)] + (F, G)

= ({(a+d) +f;a∈A, d∈D e f ∈F},{(a+d) +f;a ∈A, d ∈De f ∈F}c)

= ({a+ (d+f);a∈A, d∈D e f ∈F},{a+ (d+f);a ∈A, d ∈De f ∈F}c)

= (D, E) + [(A, B) + (F, G)]

e isto encerra a demonstra¸c˜ao.

Prova do item (iii). Basta notar que o elemento neutro da adi¸c˜ao ´e ´unico, para isto suponha que (O, U) ´e um elemento da adi¸c˜ao, ent˜ao usando o Exemplo 2.8 temos

(O, U) = 0+ (O, U) = (O, U) + 0 = 0.

Defini¸c˜ao 2.9. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind n˜ao negativos. Definiremos a multiplica¸c˜ao entre os cortes (A, B) e (D, E) da seguinte forma

(A, B)·(D, E) = ((A·D)+∪Q,[(A·D)+∪Q]c), onde

(A·D)+ ={ad;a ∈A, d∈D, a≥0, d≥0},

(34)

2. Cortes de Dedekind

e

Q={r∈Q; r <0}.

Exemplo 2.9. Vamos mostrar neste exemplo a seguinte multiplica¸c˜ao entre cortes de Dedekind

2·3 = 6 como 2 = (A2, B2) e 3 = (A3, B3) temos que:

(A2·A3)+∪Q ={r ∈Q; r <0 ou r <6}=A6 ⇒2·3 = (A6, B6) = 6. Teorema 2.7. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind n˜ao negativos. O par orde- nado de subconjuntos de Q definido por

(F, G) = (A, B)·(D, E) := ((A·D)+∪Q,[(A·D)+∪Q]c), onde

(A·D)+ ={a·d;a∈A, d∈D, a≥0, d≥0} e Q={r∈Q;r <0}

e

[(A·D)+∪Q]c=Q\[(A·D)+∪Q]

´e um corte de Dedekind.

Demonstra¸c˜ao. (i) Primeiramente, provaremos a propriedadeD1 da Defini¸c˜ao 2.1, que F = (A·D)+∪Q eG= [(A·D)+∪Q]c s˜ao conjuntos n˜ao vazios eF ∪G=Q.

Notemos queF 6=∅,porque Q 6=∅ e al´em disso,

G= [(A·D)+∪Q]c= (A·D)c+∩(Q)c = (A·D)c+∩ {r∈Q; 0≤r}.

Sendo 0 ≤ (A, B) e 0 ≤ (D, E), temos que A\A0 6= ∅ ou A = A0 e D\A0 6= ∅ ou D=A0,logo existema ∈Qcom 0≤aed∈Qcom 0 ≤disto ´e, 0≤ad. SendoB 6=∅ eE 6=∅, tomamos b∈B e c∈E e notemos que bc∈B·E ⊂(A·D)c.

Al´em disso, se escolhermos b∈B com 0≤a < be 0≤d < e(devido a propriedade D2 da Defini¸c˜ao 2.1) devemos ter 0≤be, e portanto

be∈(A·D)c+∩ {r∈Q; 0≤r}=G, e assim G6=∅.

Finalmente F ∪G= [(A·D)+∪Q]∪[(A·D)+∪Q]c=Q.

(35)

2. Cortes de Dedekind

(ii) provaremos a propriedade D2 da Defini¸c˜ao 2.1. Sejamf ∈(A·D)+∪Q =F eg ∈[(A·D)+∪Q]c=G,devemos provar que para todo f ∈F e g ∈Gdevemos ter f < g.

Notamos que g ∈[(A·D)+∪Q]c = (A·D)c+∩ {r ∈Q; r ≥0}. Se f ∈Qe f <0, sendog ∈Q e g ≥0, temos f < g.

Por outro lado, se f ∈ (A·D)+, ent˜ao f = ad, onde a ∈ A e d ∈ D, e sendo g ∈ (A·D)c+, ent˜ao g = be, onde b ∈ Ac = B ou e ∈ Ec = D. Da´ı pela defini¸c˜ao 2.1, em um corte de dedekind (A, B) temos que para todo a ∈ A e b ∈ B temos que a < b, o mesmo para o corte de Dedekind (D, E) para todo d ∈ D e e ∈ E, temos que ad < be com ad ∈F e be∈ G para o corte de Dedekind (F, G). Ent˜ao para todo elementof ∈F ´e menor que g ∈G, ou seja f < g.

(iii) Agora provaremos a propriedade (D3) da Defini¸c˜ao 2.1, que o conjunto F = (A·D)+ ∪Q n˜ao possui elemento m´aximo. Suponha, por absurdo que o conjunto F tenha um elemento m´aximo m. Note que o m n˜ao pertence a Q pois qualquer elementox∈Q ´e estritamente negativo e, como os elementos deA e Ds˜ao positivos segue que qualquerf ∈(A·D)+ tambem ´e positivo e, portanto, x < f.

Logo, se m existir temos que m ∈(A·D)+. Assim, existem a∈A e d∈D tal que m = ad. Afirma¸c˜ao, a deve ser o elemento m´aximo de A (caso an´alogo para d ∈ D).

Suponhamos que existaa0 ∈A tal que a < a0. Ent˜ao tomando d ∈D temos ad < a0d, isto ´e, m < a0d, o que ´e uma contradi¸c˜ao com o fato de m ser elemento m´aximo de (A·D)+.

Defini¸c˜ao 2.10. Sejam (A, B) e (D, E) cortes de Dedekind n˜ao negativos. Definimos a multiplica¸c˜ao (A, B)·(D, E),ou simplesmente (A, B)(D, E),como sendo o corte (F, G) definido no Teorema 2.7.

Exemplo 2.10. Veremos neste exemplo a seguinte multiplica¸c˜ao entre cortes de De- dekind,

2·4 = 8

como 2 = (A2, B2) e 4 = (A4, B4) pela Defini¸c˜ao 2.9 temos

(A2·A4)+ ={ab; a∈A2, b∈B4, a≥0, b≥0} ∪Q =A8

e comoB8 =Ac8 logo temos que :

2·4 = (A2, B2)(A4, B4) = (A8, B8) = 8.

Observa¸c˜ao 2.3. Para definir multiplica¸c˜ao entre cortes de Dedekind, que contˆem

(36)

2. Cortes de Dedekind

fatores negativos, introduzimos a no¸c˜ao de valor absoluto de um corte de Dedekind, similar `a defini¸c˜ao de m´odulo de um n´umero inteiro.

Proposi¸c˜ao 2.8. Seja (A, B) um corte de Dedekind. Consideramos equa¸c˜ao

X+ (A, B) = 0, onde 0 = (A0, B0). (2.1) Ent˜ao, existe um ´unico corte de Dedekind (D, E) que ´e solu¸c˜ao da equa¸c˜ao (2.1), onde

D:={r∈Q;−r /∈A e −r n˜ao ´e cota superior m´ınima de A}

e

E =Dc.

No que segue, o corte de Dedekind (D, E) ser´a denotado por −(A, B).

Demonstra¸c˜ao. Inicialmente, vamos provar que (D, E) ´e um corte de Dedekind. De fato, para condi¸c˜ao (D1) da Defini¸c˜ao 2.1 note que comoAeB s˜ao conjuntos n˜ao vazios segue que existem racionaisr, stais quer∈Ae s6∈A, isto ´e−r6∈D e−s∈D. Logo DeE s˜ao n˜ao vazios e D∪E =Q. Agora, sejam r∈Dee∈E. Ent˜ao, −r∈B e n˜ao

´e cota superior m´ınima de A e −e ∈ A. Como (A, B) ´e um corte obtemos −e < −r, isto ´e,r < e donde segue a Propriedade (D2) da Defini¸c˜ao 2.1.

Para a propriedade (D3) da Defini¸c˜ao 2.1 seja d ∈ D vamos mostrar que existe s ∈D tal que d < s. Como −d ´e cota superior de A mas n˜ao ´e m´ınima, ent˜ao existe t ∈ Q, −t < −d, tal que −t ´e cota superior de A e, portanto, −t /∈ A. Seja s = r+t2 , assim −t < −s < −r, de modo que −s ´e cota superior de A mas n˜ao ´e m´ınima, logo s∈D er < s,.

Vamos provar agora que o corte (D, E) ´e solu¸c˜ao da equa¸c˜ao (2.1). De fato A+D={r∈Q;r <0}=A0,

pois−r ∈B para todor∈D e a <−r para todosa ∈A er ∈D. Portanto, (A, B) + (D, E) = (A0, B0) = 0.

Finalmente, vamos provar que (D, E) ´e a ´unica solu¸c˜ao da equa¸c˜ao (2.1). Supo-

(37)

2. Cortes de Dedekind

nhamos que (D0, E0) tamb´em ´e solu¸c˜ao da equa¸c˜ao (2.1), assim (D0, E0) = (D0, E0) + 0

= (D0, E0) + [(D, E) + (A, B)] =

= (D0, E0) + [(A, B) + (D, E)] =

= [(D0, E0) + (A, B)] + (D, E) =

= 0+ (D, E)

= (D, E).

e isto encerra a demonstra¸c˜ao.

Lema 2.9. Se (A, B) ´e um corte de Dedekind negativo, ent˜ao−(A, B) ´e um corte de Dedekind positivo, isto ´e, 0 <−(A, B).

Demonstra¸c˜ao. Seja (D, E) = −(A, B). Se (A, B) ´e um corte de Dedekind negativo, ent˜ao A0\A 6= ∅, ou seja, existe a < 0 com a /∈ A. Para constatar que D\A0 6= ∅, basta notar que a = −(−a) ∈ B e que existe em B elemento menor do que a (caso contr´ario, a seria elemento m´ınimo deB), isto implica que −a ∈ D e −a > 0. Logo, 0 <(D, E).

Observa¸c˜ao 2.4. E s´´ abido que a soma de cortes de Dedekind ´e um corte de Dedekind, por simplicidade de nota¸c˜ao, se (A, B) e (D, E) forem cortes de Dedekind, denotaremos a soma (A, B) + [−(D, E)] simplesmente por (A, B)−(D, E). Desta forma, usando o Teorema 2.6, temos

−(A, B) + (D, E) = (D, E) + [−(A, B)] = (D, E)−(A, B).

Defini¸c˜ao 2.11. A cada corte de Dedekind (A, B) associamos um corte de Dedekind

|(A, B)| que chamamos valor absoluto de (A, B), definido por

|(A, B)|=

(A, B), se 0 ≤(A, B),

−(A, B), se (A, B)<0.

Com isso, usando o Lemma 2.9 podemos concluir que o corte valor absoluto ´e sempre um corte n˜ao negativo.

Exemplo 2.11. Vejamos que

|2|= 2,

porque 2 = (A2, B2), onde A2 = {x ∈ Q;x < 2} e 0 = (A0, B0), com

Referências

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