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– PósGraduação em Letras Neolatinas

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Academic year: 2018

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Universidade Federal do Rio de Janeiro Faculdade de Letras

Dissertação de Mestrado

O processo tradutório e a construção do sujeito no discurso: estratégias de tradução de texto na área agrícola do espanhol para o português

Por

Duí Barroso Lima Farias

Orientadora: Profª. Drª. Ângela Mª da Silva Corrêa

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Duí Barroso Lima Farias

O processo tradutório e a construção do sujeito no discurso: estratégias de tradução de texto na área agrícola do espanhol para o português

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como quesito para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos – Opção: Língua Espanhola).

Orientadora: Profª. Drª. Angela Mª da Silva Corrêa.

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Duí Barroso Lima Farias

O processo tradutório e a construção do sujeito no discurso: estratégias de tradução de texto na área agrícola do espanhol para o português

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como quesito para a obtenção do título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos Linguísticos Neolatinos – Opção: Língua Espanhola), no âmbito do Convênio Minter entre o Programa de Letras Neolatinas e a Universidade Federal de Roraima.

Orientadora: Profa Dra. Ângela Mª da Silva Corrêa.

Aprovado em:

____________________________________________________________ Profa. Dra. Angela Maria da Silva Corrêa – Orientadora

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

____________________________________________________________ Profa. Dra. Maria Mercedes Riveiro Quintans Sebold

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

____________________________________________________________ Profa. Dra. Telma Cristina de Almeida Silva Pereira

Universidade Federal Fluminense – UFF

____________________________________________________________ Profa. Dra. Maria Aurora Consuelo Alfaro Lagorio

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (suplente)

____________________________________________________________ Profa. Dra. Aurora Maria Soares Neiva

Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (suplente)

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É a tradução que abre a janela para deixar a luz entrar; que quebra a casca, a fim de podermos comer a polpa; que abre a cortina, a fim de podermos olhar o lugar mais sagrado; que remove a tampa do poço, a fim de podermos tirar a água...

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AGRADECIMENTOS

A Deus, meu porto seguro, por Seu amor incondicional e pelo dom da vida. À Professora Doutora Angela Maria da Silva Corrêa, pela orientação preciosa, constante incentivo e apoio para a elaboração desta dissertação.

A todos os professores do programa de Pós- graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, e em especial aos que ministraram as disciplinas no MINTER UFRR/UFRJ em Letras Neolatinas.

Ao Reitor do Instituto Federal de Roraima e toda sua equipe de gestores e professores, pelo apoio, incentivo e atenção às solicitações feitas ao longo de minha pesquisa e ausências na Instituição.

Aos meus alunos do Curso de Letras e Literatura Hispânicas que compreenderam a rotina de ter uma professora pesquisadora.

À professora Doutora Déborah Freitas, pelo meu batizado na vida da pesquisa, pelo apoio e incentivo desde a graduação e discussões no PET LETRAS que foram de suma importância para meu crescimento intelectual.

Aos meus seis informantes professores e alunos que aceitaram a fornecer corpus para minha pesquisa.

A todos os amigos e familiares, pelo apoio e compreensão durante esta fase muito importante de minha vida.

Aos colegas do Curso de Mestrado, pelo incentivo e auxílio durante nossa caminhada juntos, em especial a Maria Francisca que sempre muito solícita se dispôs em auxiliar.

Aos meus queridos pais Francisco e Vera, ao meu irmão Tauan, sua esposa Rhosana e sobrinhos: Emily, Janaína, Ryan e João Lucca, pelo constante carinho, crédito, admiração, amizade sincera, ensinamentos e apoio.

Aos meus avós José, Adélia e Vera pelo apoio e palavras positivas durante esta caminhada acadêmica e pela confiança depositada em mim.

Ao meu esposo e companheiro Elson Farias, pelo amor, incentivo, por estar comigo em cada momento dessa trajetória, por toda dedicação e motivação para essa conquista.

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RESUMO

FARIAS, Duí Barroso Lima. O processo tradutório e a construção do sujeito no discurso: estratégias de tradução de texto na área agrícola do espanhol para o português. Dissertação (Mestrado em Letras Neolatinas) Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Universidade Federal de Roraima (MINTER).

Ao longo desta dissertação constatam-se as diferenças de comportamento de três professores que são engenheiros agrônomos e de três estudantes que são acadêmicos do Curso de Letras - Espanhol e Literatura Hispânica da mesma instituição de ensino, localizada no Estado de Roraima, região de fronteira com a Venezuela, diante de problemas encontrados ao traduzirem um texto específico da área agrícola do espanhol para o português. Através do uso da introspecção como instrumento de estudo do processo tradutório, correlacionam-se estratégias de resolução de problemas, estratégias globais e locais a que recorrem estes tradutores que são inexperientes na atividade tradutória. Também se observa o comportamento e a imagem construída deste grupo de informantes no momento em que realiza a tradução, a partir de uma abordagem discursiva instrumentalizada pela noção de ethos discursivo (Maingueneau, 2005, 2008). O objetivo é observar se as estratégias

se repetem e como elas configuram a construção de um ethos para cada um deles, considerando que cada grupo de informantes tem seu objetivo com a atividade tradutória. Logo, os tradutores docentes construíram um texto mais claro para seus alunos e durante a atividade revelaram um ethos de professor engenheiro agrônomo, em contrapartida, os tradutores discentes elaboraram um texto mais coeso e coerente, e construíram um ethos de aluno do curso de Letras- Espanhol.

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RESUMEN

A lo largo de este trabajo se comprueban las diferencias de comportamiento de tres profesores que son ingenieros agrónomos y de tres estudiantes del curso superior en Letras – Espanhol e Literatura Hispánica de la misma institución de enseñanza, ubicada en el estado Roraima, región fronteriza con Venezuela, frente a los problemas al traducir un texto especifico del área agrícola del español para el portugués. A través del uso de la introspección como instrumento de estudio del proceso traductor, se relacionan estrategias globales y locales a las cuales recurren estos traductores que no son expertos en la actividad traductoria. También se observa el comportamiento y la imagen construida de este grupo de informantes en el momento en que se realiza la traducción, a partir de un abordaje discursivo instrumentalizado por la noción de ethos discursivo (Maingueneau, 2005, 2008). El objetivo es verificar si las estrategias se repiten y como se configuran en la construcción de un ethos para cada uno de ellos, considerando que cada grupo de informantes tiene su objetivo con la actividad traductoria. Luego, los profesores traductores construyeron un texto más sencillo para sus alumnos y mostraron en su discurso un ethos de ingeniero agrónomo. Por otro lado, los alumnos traductores construyeron un texto más integrado y coherente, y mostraron en su discurso durante la actividad de traducción un ethos de alumno del Curso de Letras- Español.

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ABSTRACT

During this dissertation we can see the differences of behavior of the three teachers who are agronomist engineers and the behavior of the three students from Letters course – Spanish Language and Spanish Literature from the same teaching institution, located in the State of Roraima, border region with Venezuela, considering that one of them is placed in the country area and the other one is in the urban area of the Roraima State, in front of problems about the translation of a specific country zone text from Spanish into Portuguese. Through the use of the introspection as a tool of study of the translation process, there is a correlation with strategies of the resolution of the problems, global and local strategies to them these inexperienced translators resort to. We notice the behavior and the built image of this group of native speakers at the moment which they do the translation, starting of a instrumental discursive approach influenced by the notion of discursive ethos (MAINGUENEAU, 2005, 2008). The objective is to notice if the strategies repeat each other and how they combine the composition of an ethos to each one of them by considering which group of native speakers has its objective about the translation activity. Therefore, the translators teachers built a clearer text for their students during the activity and showed an ethos of teacher agronomist, however, translators students developed a more cohesive and coherent text, and built an ethos of student of the Letters-Spanish.

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ABREVIATURAS

QUADRO DE ABREVIATURAS UTILIZADAS NOS PROTOCOLOS VERBAIS

* itálico Fala do elicitador/ pesquisador

[tipos] Tudo o que é oralizado pelo tradutor

Negrito Texto produzido em português pelo

tradutor e escrito, constituindo a primeira versão de sua tradução.

Texto tachado Trecho do texto em português

modificado pelo tradutor posteriormente

CAIXA ALTA Leitura da palavra, frase e/ ou

expressão na língua original ( no caso espanhol)

CAIXA ALTA Re- leitura do texto traduzido

_____________ Longo período de leitura sem

interrupções

... Pausa

(???) Oralização incompreensível/ inaudível

DEMAIS ABREVIATURAS

ELE Espanhol Língua Estrangeira

PV Protocolo Verbal

LP

Texto em língua de partida (espanhol)

TLC Texto em língua de chegada

(português)

TLO Texto em língua de origem

TLT Texto em língua de tradução

Consulta ao dicionário

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Circuitos interno e externo que compõem o ato de linguagem 25

Figura 2 - Esquema comunicativo da tradução 29

Figura 3 - Processos discursivos do Ethos 33

LISTA DE QUADROS

Quadro 1- Estratégias comunicativas e cognitivas 39

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SUMÁRIO

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS ... 13

2. TRADUÇÃO: UM CAMINHO A SER PERCORRIDO ... 17

2.1. O PROCESSO DA LEITURA ... 17

2.2. SOBRE O PROCESSO TRADUTÁRIO ... 20

2.2.1. O texto ... 20

2.2.2. O percurso da atividade tradutória ... 22

2.2.3. O lugar do sujeito na teoria discursiva ... 24

2.2.4. Sobre a noção de contrato ... 26

2.3. ABORDAGEM COMUNICATIVA E DISCURSIVA DA TRADUÇÃO ... 27

2.4. PAPÉIS DOS SUJEITOS NA TRADUÇÃO ... 29

3. O ETHOS, UMA ESTRATÉGIA DO DISCURSO ... 31

3.1. ESTRATÉGIAS DO DISCURSO ... 35

4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 42

4.1. OS SUJEITOS DA PESQUISA ... 42

4.1.1 A tarefa ... 45

4.1.2 A metodologia introspectiva ... 46

5. ANÁLISE ... 48

5.1. ESTRATÉGIA GLOBAL ... 48

5.1.1. Tradutor Docente A ... 48

5.1.2. Tradutor Docente B ... 49

5.1.3. Tradutor Docente C ... 49

5.1.4. Tradutor Discente D ... 50

5.1.5. Tradutora Discente E ... 51

5.1.6. Tradutora Discente F ... 51

5.2. ESTRATÉGIAS LOCAIS ... 52

5.2.1. Estratégias de compreensão do TLP ... 52

5.2.1.1. Tradutor Docente A ... 53

5.2.1.2. Tradutor Docente B ... 54

5.2.1.3. Tradutor Docente C ... 54

5.2.1.4. Tradutor Discente D ... 55

5.2.1.5. Tradutora Discente E ... 57

5.2.1.6. Tradutora Discente F ... 58

5.2.2. Estratégias de tradução do TLP ... 59

(12)

5.2.2.2. Tradutor Docente B ... 60

5.2.2.3. Tradutor Docente C ... 60

5.2.2.4. Tradutor Discente D ... 61

5.2.2.5. Tradutora Discente E ... 62

5.2.2.6. Tradutora Discente F ... 62

5.2.3. Estratégias de Produção do TLC ... 63

5.2.3.1. Tradutor Docente A ... 63

5.2.3.2. Tradutor Docente B ……….……… 65

5.2.3.3. Tradutor Docente C ... 65

5.2.3.4. Tradutor Discente D ... 65

5.2.3.5. Tradutora Discente E ... 66

5.2.3.6. Tradutora Discente F ... 68

5.2.4. Outras questões de ethos como estratégia do discurso ... 68

5.2.4.1. Tradutor Docente A ... 68

5.2.4.2. Tradutora Discente D ... 69

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 72

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 76

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1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A presente dissertação tem como ponto de partida a análise das estratégias utilizadas no processo tradutório de textos técnicos da área agrícola no par linguístico espanhol português. No tocante à tradução, entendemos que vem sendo objeto de pesquisas e discussões, e ainda de críticas, ao longo dos séculos, e nesse sentido o papel do tradutor está sempre em destaque. A tradução é uma habilidade, um saber fazer, que, para quem traduz, consiste em saber percorrer o processo tradutório, sendo capaz de resolver os problemas que se apresentam ao longo desse processo. Assim, o conjunto de decisões conscientes e cuidadosamente tomadas na resolução de problemas é o que chamamos de estratégias (Pagano; Alves; Magalhães; 2010:19), que são utilizadas de diferentes maneiras por um tradutor experiente e por um inexperiente no processo tradutório. Ao tentarmos refletir sobre os mecanismos da tradução, estaremos lidando também com questões fundamentais sobre a natureza da linguagem, pois traduzir implica ao mesmo tempo um processo de compreensão e um processo de produção no âmbito da linguagem.

No espaço de interação de que participa o sujeito tradutor, com base na abordagem comunicativa proposta por Corrêa (1991, 2005), buscamos subsídios para entender o desempenho do tradutor dentro da totalidade deste processo, uma vez que, de acordo com a autora, o tradutor desempenha vários papéis: o de receptor do texto de partida, o de produtor e o de revisor do texto de chegada.

O interesse por esta pesquisa surgiu de observações em minha prática profissional. Sou professora de língua espanhola numa Instituição Federal de Ensino, mais especificamente numa escola com finalidade de formação técnica-agrícola, implantada há quatro anos, onde os alunos estudam em regime integral no período de quatro anos para adquirirem sua formação em técnico em agropecuária. Esta escola fica isolada da cidade, numa região de campo e de acesso aos alunos que residem nos municípios próximos ao sul do estado de Roraima [Cf. Anexo I]. Assim, desenvolvi a atividade de docência em aulas de língua espanhola de setembro de 2009 a janeiro de 2011, já que na escola era a única especialista da língua, pois a grande maioria dos docentes era de professores agrônomos que ministravam as mais variadas disciplinas específicas do curso.

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agrícolas em língua espanhola e buscavam ler e até traduzi-los para posteriormente usá-los em sala de aula ou em suas explicações como base teórica. Daí, dentro deste contexto, os professores solicitavam meu auxílio como especialista na língua para que pudessem entender e até mesmo traduzir estes textos.

Com o passar do tempo, percebi que, dentro desta realidade vivenciada, nos momentos em que eu estava presente colaborando com esses colegas, aconteciam alguns fenômenos: dentro daquele contexto informal, às vezes estávamos com objetivo de compreender uma palavra específica, um significado não encontrado nos dicionários, as relações dentro do texto que pudéssemos adequar a um entendimento global e coerente e que estes fatores poderiam ser mais bem analisados. Assim, o que buscávamos era que chegasse ao aluno um texto coeso e que tratasse de uma forma simples de expor uma técnica para cultivo, descrições de procedimentos, características de algum produto para utilizar na plantação, vindo da Venezuela, país fronteiriço do Estado de Roraima, e assim por diante. Ou melhor, os professores utilizavam estratégias para chegarem ao objetivo, de elaborar um texto traduzido e compreendido por eles para posteriormente poderem repassar para os alunos, ou de forma escrita ou até mesmo oral.

Com base nisso, surgiu minha pesquisa e então decidi observar melhor este grupo de professores (Agrônomos) durante a realização de uma atividade de tradução e ainda, compará-los a um outro grupo, formado por alunos de graduação do Curso de Licenciatura em Letras Espanhol e Literatura Hispânica do Instituto Federal de Roraima, Campus Boa Vista, para verificar as diferenças quanto às estratégias utilizadas na atividade tradutória e o que vinha à tona no momento em que traduziam o mesmo texto comum à área agrícola. Este segundo grupo é constituído por discentes do penúltimo semestre do Curso de Letras que possuem um leque de conhecimentos acerca da língua espanhola. A ideia era observar as estratégias e verificar como elas configuram a construção de um “ethos” para cada um deles, considerando que cada grupo de informantes tem seu próprio objetivo com a atividade tradutória.

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eles concebiam um leitor possível para aquela tradução ou não, partindo do pressuposto comunicativo de que, quando se elabora uma tradução, da mesma forma que ocorre quando se redige um texto, o sujeito comunicante tem em mente um determinado tipo de receptor e suas estratégias estariam subordinadas à imagem desse receptor.

Assim, o presente trabalho tem por objetivo contribuir para a reflexão sobre as estratégias utilizadas no ato tradutório para contornar os problemas encontrados que interrompem o fluxo da atividade. Partimos do princípio de que os professores possuem um conhecimento específico da área agrícola e adquiriram a língua espanhola informalmente, e que desenvolvem algumas habilidades nesta língua para que possam realizar a atividade de tradução proposta e, por outro lado, os alunos têm o hábito de ler textos de variados gêneros textuais na língua em questão e podem acionar variados conhecimentos: textual, lexical, morfológico e estrutural para realizar a tarefa proposta.

Para efeito da presente pesquisa, foi preciso escolher um texto que apresentasse uma estrutura predominantemente descritiva e informativa, por acreditar que esse modo de organização textual fosse mais familiar aos professores e aos alunos de graduação. A partir desse texto, foi feita a coleta de dados. Após o estudo de algumas técnicas introspectivas, optei pela técnica do protocolo verbal. Na verdade, a técnica escolhida é uma adaptação do protocolo verbal intitulada protocolo de pausa. Tal técnica consiste em solicitar aos sujeitos que verbalizem cada vez que tiverem seu ato tradutório interrompido, explicitando o motivo da interrupção e tentando buscar soluções para resolver os problemas, nos permitindo ter acesso a alguns dos processos cognitivos envolvidos na atividade de tradução.

Para coleta de dados através desta técnica, foi necessário gravar a atividade tradutória e, antes de cada seção de gravações, realizei perguntas através de questionários aos informantes, a fim de conhecer o perfil e um pouco da experiência de cada um ligada à tradução. O texto utilizado para a atividade de leitura e tradução foi retirado de um site específico da área agrícola que tinha como tema “Como armar tu propria huerta en casa”. De maneira didática e informativa, aborda passos para

uma pessoa fazer a horta em sua casa e as hortaliças que se adaptam a esse processo, bem como as associações de outros legumes e verduras.

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presente estudo está organizado em quatro capítulos, além da Introdução, da seção de Considerações Finais e dos Anexos. Inicio minha revisão da literatura no capítulo 2, onde busco reflexões sobre leitura e textos que são atividades iniciais da tradução, a partir de conceitos da Linguística Aplicada, e posteriormente, busco entender o processo tradutório através dos sujeitos da linguagem que participam da teoria do discurso com base em Charaudeau (1983, 2001, 2009), bem como, alguns conceitos de contrato de comunicação, e abordagem comunicativa da tradução proposta por Corrêa (1991, 2005).

No capítulo 3, discuto a noção de ethos discursivo, seguindo, principalmente, as propostas de Maingueneau (2005, 2008), e as definições e classificações das estratégias envolvidas na atividade tradutória.

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2. TRADUÇÃO: UM CAMINHO A SER PERCORRIDO

Neste capítulo, serão discutidos os conceitos teóricos que fundamentam a pesquisa voltada ao estudo do processo da tradução que tem como fase inicial a leitura e compreensão do texto original. Durante a atividade tradutória, entram em cena os sujeitos da linguagem, os contratos estabelecidos entre estes sujeitos e as estratégias utilizadas por eles para resolverem problemas. Enfatiza-se ainda, a abordagem comunicativa da tradução considerando o texto traduzido como resultado de todo um processo discursivo dentro de um contrato tradutório.

2.1. O PROCESSO DE LEITURA

A definição do que vem a ser o ato da leitura não pode ser dada de forma única, definitiva. Isso porque dependerá do enfoque que será dado a ela, isto é, se o enfoque é linguístico, psicológico, social, fenomenológico, dentre outros (cf. Leffa, 1996).

Segundo este autor, a leitura é um processo de representação. Essa ideia significa que a leitura está essencialmente ligada ao sentido da visão. Sendo assim, ler é olhar para algo e ver outra coisa que não seja apenas aquela que está sendo percebida pelos olhos. O que eles captam são imagens icônicas, representação simbólica. O que é visto são acontecimentos, fatos, realização.

Ler textos escritos não é uma atividade muito simples. Primeiro, pelo fato de ser uma habilidade aprendida e não adquirida, ao contrário da linguagem, que é adquirida conforme indicações de que o homem seja geneticamente pré-programado para isso (cf. Lyons, 1987: 26). Segundo, porque envolve uma série de problemas culturais, ideológicos, filosóficos e semânticos. A leitura deve ser entendida, então, como um processo ativo e dinâmico, pois o “texto tem um potencial de evocar significado, mas não tem significado em si mesmo” (MOOR et al., 2001, p. 160), o texto e o leitor são duas entidades físicas necessárias para que o processo possa ocorrer. Todavia, é a interação entre o texto e o leitor que constitui realmente a leitura.

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é realizada por meio da interação entre leitor e texto, mas porque ambos estão inseridos em um dado momento socio-histórico que determina a linguagem e o sentido. Podemos perceber, portanto, que a leitura é muito mais do que a simples ação de apropriação de significado: ela é uma atividade de recriação, de reconstrução de ideias, pois, de acordo com Kleiman (2004, p. 80), a leitura “pressupõe a figura do autor presente no texto através de marcas formais que atuam como pistas para a reconstrução do caminho que ele percorre durante a produção do texto”.

(...) leitura implica uma atividade de procura pelo leitor, no seu passado de lembranças e conhecimentos, daqueles que são relevantes à compreensão de um texto, que fornece pistas e sugere caminhos, mas que certamente não explicita tudo o que seria possível explicitar. (Kleiman: 1989, p. 27).

Assim, a leitura é um processo interativo, pois resulta da interação de diversos níveis de conhecimento: o conhecimento linguístico, o conhecimento textual e o conhecimento de mundo. O leitor constrói o sentido do texto a partir da ativação do conhecimento prévio, aquilo que ele já sabe, o conhecimento adquirido ao longo de sua vida, que está registrado na memória sendo o resultado de todas as suas experiências e saberes. Daí, a leitura passa a ser um processo interativo dos conhecimentos linguístico, textual e de mundo. De acordo com a autora (op.cit. p. 14) “O conhecimento linguístico desempenha um papel central no processamento do texto.” Dentro desta ideia, quando é lido um texto, a mente é ativada de modo instantâneo para construir significados a partir de agrupamentos de unidades lexicais e gramaticais, de modo que permitam a compreensão. O conhecimento textual faz parte do conhecimento prévio e desempenha um papel importante, pois consiste na compreensão da estrutura do texto, e a partir do momento em que é interpretado, o leitor passa a tecer as redes coesivas e a construir um sentido para a leitura. O outro tipo de conhecimento é o de mundo ou enciclopédico que resulta das vivências socioculturais que muito acrescentam ao processo de compreensão de um texto.

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pelos alunos têm a ver com hábito de considerar a leitura como uma atividade de decodificação da escrita, sem considerar a questão da comunicação.” Assim, de acordo com Kleiman (2004: 16), a atividade prazerosa de leitura se tornou “uma atividade árida e tortuosa de decifração de palavras”.

A concepção teórica na qual é baseado este trabalho é a de leitura interativa, onde há uma interação entre o leitor e o texto, ou seja, o leitor age sobre o texto e o texto age sobre o leitor. Nessa perspectiva, o sentido de um texto é construído na interação texto- sujeito, a leitura é uma atividade interativa de produção de sentidos.

A concepção de leitura interativa parte do pressuposto de que a leitura não é uma simples atividade de decodificação de itens linguísticos, mas, sim, um processo dinâmico de construção de sentidos, fundamentado na integração do conhecimento prévio que o leitor traz consigo com as formas linguísticas presentes no texto. Nessa perspectiva, o leitor deixa de ser um mero receptor de mensagens e assume o papel de coautor, já que a construção de sentidos na leitura ocorre na medida em que o leitor, para compreender a ideia do texto, deve desempenhar uma função ativa no processo, estabelecendo relações entre o seu conhecimento anterior e o conhecimento construído a partir da leitura.

Dentro do processo de leitura, o leitor procura pistas para entender o texto, e a partir de então formula suas hipóteses e depois as comprova ou não de acordo com entendimento do que foi lido. É, por isso, que se acentua a interação com o texto: entre o que o leitor já sabe e o que precisa saber, e ainda mais o que está ali. Logo, é bom que se tenha mobilidade de reformular as ideias em função das pistas presentes no texto, pois, para cada leitura está se construindo um novo texto.

Com o passar do tempo e a experiência adquirida pelo leitor, o mesmo passa a utilizar estratégias de leitura que são operações regulares para abordar um texto. Dentro dessa temática Kleiman (1989: 50), propõe que estratégias cognitivas são aquelas operações inconscientes do leitor, que ele utiliza para atingir algum objetivo de leitura; metacognitivas são as operações realizadas a partir do momento em que o leitor passa a refletir sobre o seu processo de compreensão e que tipos de aspectos serão utilizados para compreender o texto. Para a autora,é uma estratégia de controle e regulação do próprio conhecimento a partir de decisões tomadas após avaliação de nossa capacidade e das facetas envolvidas na resolução da tarefa.

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tradutório dois tipos de análises: a macrotextual e a microtextual. Na análise macrotextual, o leitor traz seu conhecimento prévio de mundo para ajudá-lo a processar cada parte do texto e fazer hipóteses sobre seu desenvolvimento. Na microtextual, o leitor analisa de perto os itens do texto, decodificando-os para construir um sentido global.

Assim, ao se deparar com um texto com o léxico conhecido, pode ser possível que o leitor estabeleça relações entre as palavras e os elementos significativos. Segundo Coracini (2002: 86), durante a leitura de um texto em língua estrangeira, os leitores tendem a se apoiar sobremaneira apenas nas palavras conhecidas, que podem ser cognatas, ou termos já aprendidos e assimilados, na tentativa de compreensão do texto. Buscam, com isso, colocar o texto dentro de um contexto para construção de significados.

2.2. SOBRE O PROCESSO TRADUTÓRIO

2.2.1. O TEXTO

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autora enfatiza que o leitor no ato da leitura faz uso do processamento visual, para a apreensão rápida da informação, para que assim alcance o objetivo pretendido e perceba, adivinhe palavras para a formulação de hipóteses.

Sabe-se que a atividade de tradução envolve como atividade inicial a leitura prévia de um texto em uma língua de partida, e que no decorrer do ato tradutório é construído um novo texto em uma língua de chegada.

Todo texto é único e é, ao mesmo tempo, a tradução de outro texto. Nenhum texto é completamente original porque a própria língua, em sua essência, já é uma tradução: em primeiro lugar, do mundo não-verbal e, em segundo, porque todo signo e toda frase é a tradução de outro signo e outra frase. Entretanto, esse argumento pode ser modificado sem perder sua validade: todos os textos são originais porque toda tradução é diferente. Toda tradução é, até certo ponto, uma criação, e, como tal, constitui um texto único. (Octavio Paz, apud ARROJO, 2007, p.11).

Este pensamento de Octavio Paz nos mostra que não existe um texto original e sim vários porque a cada atividade tradutória criamos um novo texto. Um tradutor desempenha a função de um sujeito que age sobre o texto, e dentro de sua atividade tradutória vem à tona a leitura, as reflexões, a ativação de seus conhecimentos, daí que o mesmo texto será interpretado por cada um de maneira diferente, sendo sempre um “original”.

O texto direciona o leitor na busca do sentido, pois o processo de compreensão vai suscitar a construção de um novo texto pelo leitor. O sentido do texto é construído, portanto, a cada leitura que se realiza. Nessa direção, situa-se Arrojo (2007:17), ao questionar a estabilidade do texto original e a própria autoridade do autor. Diz ela que o autor "pode visitar o seu texto como convidado e não como pai absoluto que possa controlar os destinos de sua prole". Considerando a leitura

como atividade produtora, através da qual o texto se realiza e atualiza, a autora atribui ao texto a imagem de um palimpsesto: "O texto que se apaga em cada comunidade cultural e em cada época para dar lugar a outra escritura do mesmo

texto"

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O texto é um tecido cheio de lacunas, repleto de não-ditos, e todavia esses

não-ditos são de tal modo não-ditos que ao leitor é dada a possibilidade de

colaborar, para preencher esses não-ditos.

Com base nestas palavras reforça–se a ideia de que o texto sozinho não é responsável pela construção do sentido, apontando para a figura do leitor, que participa de modo fundamental do processo de compreensão, quando colabora para preencher as lacunas deixadas pelo texto. E ainda, a partir de um viés da tradução, estas lacunas serão preenchidas com ativação de conhecimentos e objetivos do tradutor que antes de tudo é um leitor de um texto em uma língua, que passará para outra mantendo uma interpretação e uma adequação das palavras num determinado contexto. Passaremos a entender que percurso este sujeito elabora quando desenvolve o ato tradutório.

2.2.2. O PERCURSO DA ATIVIDADE TRADUTÓRIA

É a tradução que abre a janela para deixar a luz entrar; que quebra a casca, a fim de podermos comer a polpa; que abre a cortina, a fim de podermos olhar o lugar mais sagrado; que remove a tampa do poço a fim de podermos tirar a água...

John Milton1

A tradução vem sendo objeto de pesquisas, críticas e discussões acadêmicas, e nesse viés o papel do tradutor merece destaque no momento em que realiza sua atividade. Logo, tem-se em mente que traduzir é passar um texto de uma língua para outra, mantendo a fidelidade ao que o autor quis dizer, as relações com o texto original e suas várias interpretações. Nesse caso, sabemos que o texto traduzido será diferente do original apesar de ser produzido com base nele, pois cada um que traduz no momento em que reproduz a voz do autor sob sua visão, traz à tona diversos conhecimentos, pensamentos e escolhas próprias. No sentido formal da palavra, traduzir é ler, embora ler não seja necessariamente traduzir. Pois a

1

(23)

tradução implica a construção efetiva de um texto, ou seja, o ato de colocar no papel aquilo que se interpretou a partir do objetivo daquela leitura.

Toury (1980) em seu artigo In search of a theory of translation ressalta que o processo de tradução é diferente de outros processos semióticos em virtude da dupla natureza da entidade resultante, ou seja, “a entidade resultante de qualquer outra operação de transferência difira da entidade inicial do mesmo processo” (p.12), sendo que ambas entidades têm também que possuir algo em comum: o que será transferido e que ele denomina “invariante”. Logo, o autor denomina esta invariante na relação estabelecida entre dois textos: adequação, equivalência, correspondência. Outro ponto que também é importante levantar é quando, por exemplo, estar diante da atividade tradutória comparar os textos para “verificar se a tradução está situada em um ponto mais próximo do “polo-fonte” (“adequação”) ou do “polo-meta” (“aceitação”).

Na perspectiva de Jakobson2, o significado de um signo lingüístico não é mais que sua tradução por um outro signo que lhe pode ser substituído, melhor dizendo, um signo que seja desenvolvido de modo mais completo. Para tanto, propôs três espécies de tradução e sua classificação:

1. A tradução intralingual ou reformulação que consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros.

2. A tradução interlingual ou tradução propriamente dita que consiste na interpretação destes signos verbais por meio de alguma outra língua. 3. A tradução inter-semiótica ou transmutação que consiste na

interpretação destes signos por meio de sistemas de signos não verbais.

Eco (2007: 17) nos propõe a definição de que:

“traduzir quer dizer entender o sistema interno de uma língua, a estrutura de um texto dado nessa língua e construir um duplo sistema textual que, submetido a uma certa discrição, possa produzir efeitos análogos no leitor, tanto no plano semântico e sintático, quanto nos planos estilístico, métrico, fono-simbólico, e quanto aos efeitos passionais para os quais tendia o texto fonte.”

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(24)

Assim, significa dizer que toda tradução apresenta margens de infidelidade em relação a um núcleo de suposta fidelidade, mas que a decisão depende dos objetivos que o tradutor se coloca. E dentro deste contexto é válido ressaltar que a fidelidade ao texto traduzido tem a ver com a concepção de que a tradução é uma das formas de interpretação no momento em que o sujeito encontra a intenção do texto em relação à língua em que é expresso.

A concepção discursiva da tradução (Corrêa, 1991 e 2007; Delisle, 1984), aborda a existência de várias traduções fiéis e não somente uma, pois o tradutor é inicialmente o leitor de um texto de partida que, no caso de nosso trabalho, é em espanhol, sendo que sua tradução depende da leitura e interpretação que faz deste texto.

Considerando esta abordagem da tradução pretendemos entender, mediante a observação do comportamento tradutório dos informantes, como um texto de uma área específica (agrícola) é traduzido por tradutores inexperientes para o português mantendo um contrato comunicativo entre o Texto de Partida (que passarei a chamar TLP) em relação ao Texto de Chegada ( que passarei a chamar TLC).

2.2.3. O LUGAR DO SUJEITO NA TEORIA DISCURSIVA

A linguagem é própria do homem. Desde a antiguidade que os filósofos repetem o que vem sendo confirmado pelas ciências sociais através de suas análises e experimentos. É a linguagem que permite ao homem pensar e agir. (Charaudeau, 2009: 7).

Nesta concepção, a linguagem é constantemente construída dentro de uma sociedade através das práticas sociais, culturais, linguísticas, vivenciadas dentro de situações de comunicação. Trata-se de um sistema complexo no qual vários elementos se relacionam para que produzam sentido. Assim, durante estas trocas no âmbito da linguagem, participam sujeitos que, de acordo com o lugar em que se encontram, desempenham uma função.

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enunciador e sujeito destinatário) e como parceiros (sujeitos comunicantes e interpretantes). O ato de linguagem e os sujeitos serão assim representados:

Figura 1: Nesta figura podemos observar os circuitos interno e externo que compõem o ato de linguagem3.

Em relação ao discurso, Corrêa (1991: 9) retoma em sua tese, as relações existentes entre os participantes de um ato de comunicação. Entende-se então o ato de linguagem como o lugar de encontro imaginário entre o processo de produção e interpretação da linguagem que enfoca quatro sujeitos:

O Sujeito Comunicante produz uma mensagem e uma imagem de um Sujeito Destinatário que pode ser ou não a mesma que o Tu interpretante produz de si. O Sujeito Interpretante recebe o discurso do locutor (do Sujeito Comunicante), o interpreta e manifesta sua opinião sobre o que foi dito. E o Sujeito Enunciador é a imagem que o Tu interpretante faz sobre o sujeito comunicante, a partir do dizer produzido por este último, sendo, numa outra perspectiva, a imagem que o Eu Comunicante produz de si ao assumir a palavra.

Assim, a encenação do ato de linguagem resulta da combinação do Fazer e do Dizer. No circuito externo, encontram-se dois sujeitos sociais: Eu comunicante – responsável pela produção do discurso e Tu interpretante – responsável pela interpretação deste discurso. No circuito interno, encontram-se dois sujeitos

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discursivos: Eu enunciador – representa a imagem construída de si próprio e que o outro possui sobre ele e Tu destinatário– representa a imagem que o emissor faz sobre o Tu. Em relação ao esquema percebemos que, quando se trata de atos de linguagem integrantes do texto escrito, tanto o autor quanto o leitor desempenham papel fundamental no discurso.

2.4. SOBRE A NOÇÃO DE CONTRATO

Esta noção é importante para estabelecer as relações entre os sujeitos no ato da linguagem no interior de uma situação de comunicação, na qual o sujeito comunicante (EUc) fará o uso de contratos e estratégias (Charaudeau: 2009:56 ). A noção de contrato, central na teoria discursiva, pressupõe que os indivíduos pertencentes a um mesmo corpo de práticas sociais estejam suscetíveis de chegar a um acordo sobre as representações linguageiras destas práticas. E após estabelecer um contrato, este sujeito utiliza estratégias discursivas para organizar, perceber, persuadir o sujeito interpretante. Assim, o EUc espera ser compreendido pelo TUi ao traçar estratégias em seu processo de comunicação.

Conforme este autor, todo ato de linguagem realiza-se dentro de um tipo específico de relação contratual, implicitamente reconhecido pelos sujeitos, e que define, por um lado, aspectos ligados ao plano situacional, a identidade dos parceiros, seus objetivos, o assunto de que falam, em que circunstâncias materiais e, por outro, aspectos relativos ao plano comunicacional e discursivo, as maneiras de dizer e as estratégias discursivas pertinentes.

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Os contratos de comunicação funcionam como parâmetros, expectativas compartilhadas e mais ou menos institucionalizadas sobre o modo de funcionamento das situações de comunicação e sobre os discursos prováveis em cada tipo de situação. É importante ressaltar que essas expectativas referem-se, simultaneamente, às condições de produção e ao discurso produzido, ou seja, ao conjunto de componentes situacionais e linguísticos. Este contrato se define através da identidade dos sujeitos, objetivos, saberes pertinentes, circunstâncias materiais apropriadas para se produzir cada tipo de discurso (narrativo, argumentativo, persuasivo, descritivo, com um conjunto ou outro de recursos estilísticos, mais ou menos formal, etc.) e, inversamente, que tipo de discurso é adequado para que condições.

Assim, para que esse contrato se estabeleça, é necessário que o sujeito comunicante tenha seu direito de fala reconhecido pelo sujeito interpretante, e esse reconhecimento é conquistado pelo sujeito comunicante na medida em que ele consegue apresentar sua identidade, e sua motivação para falar de uma forma que possa ser considerada pertinente e adequada em relação às representações que o sujeito destinatário faz do mundo, e legítima no sentido de que o tema e a motivação de sua fala sejam vistos como adequados em relação a sua identidade individual e coletiva.

2.3. ABORDAGEM COMUNICATIVA E DISCURSIVA DA TRADUÇÃO

Na abordagem comunicativa da tradução4 considera-se o texto traduzido como resultado de todo um processo discursivo que põe em jogo contratos e estratégias. No momento da tradução, o tradutor participa de um contrato de comunicação. Há um momento em que ele assume o papel de leitor, e em outro, o papel de sujeito comunicante, e dentro deste processo transita por um espaço imaginário, construído entre a “sua” língua (língua materna) e a língua do outro (segunda língua ou língua estrangeira). Assim, este tradutor assume a posição de mediador entre duas línguas, duas culturas e duas situações de comunicação.

Corrêa (2007) em seu artigo “Uma abordagem discursiva da tradução”5 afirma que ao ler um texto assume-se uma função dentro de um contrato comunicativo.

4

Cf. CORRÊA, Ângela M.S. (2005) – pág . 221 - 229. 5

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Assim, qualquer um de nós ao ler um texto, assume imediatamente o papel de sujeito interpretante, daí dizer que todo ato de linguagem, quer para a instância de produção, quer para a instância de interpretação, é sobredeterminado por um contrato de comunicativo.6

Assim sendo, passamos a criar expectativas correspondentes às relações interpessoais que são interpretadas, ou seja, o reconhecimento entre o sujeito interpretante e seus correspondentes determinam diferentes “projetos de leitura” que o farão recorrer a diferentes estratégias comunicativas. Por isso, esta primeira fase é chamada de interpretativa, pois a autora afirma ainda que “contrariamente à crença dos aprendizes de língua estrangeira de que para se compreender um texto é necessário traduzi-lo, cabe afirmar que para se traduzir um texto é necessário, antes de mais nada, compreendê-lo” (Corrêa, 2007: 2).

A segunda fase deste processo é a produção do texto em língua de chegada. Neste processo, o sujeito assume o papel de mediador de um texto que será traduzido, onde o mesmo está ligado a dois diferentes contratos: o momento da leitura e o da escrita, que após serem realizados, tem-se como produto um texto interpretado e um novo texto produzido que tenha sentido. Logo, “os interpretantes do TLC esperam que este mantenha uma relação de equivalência semântica, pragmática e sociocultural com TLP”. (Ibidem).

É importante salientar, ainda, que dentro deste contrato tradutório, existe ainda um contrato de fidelidade, onde existem ligações estabelecidas entre o autor e o tradutor na produção deste texto. Corrêa (1991: 38-47), em sua tese de doutorado, defende que o tradutor atua não apenas como Sujeito Interpretante, mas também como sujeito analisante, onde seu compromisso vai além da leitura, pois necessita também de outros dados para relacionar e analisar o texto, a ativação de outros conhecimentos: histórico, social, econômico, cultural.

No momento em que é desenvolvida a atividade de tradução, logo vem à mente a noção de passar um texto de uma língua para outra. Assim, o tradutor é inicialmente o leitor do texto em língua de partida, e quase ao mesmo tempo, o produtor de um texto em língua de chegada. Assim, Corrêa (2005) propõe uma definição mais ampla que integra a diferença entre as línguas e o objetivo da

6

(29)

tradução: “traduzir é passar um texto de uma língua para outra, procurando manter no TLC o mesmo sentido do TLP”.

2.4. PAPÉIS DOS SUJEITOS NA TRADUÇÃO

Dentro do processo de comunicação, os papéis dos sujeitos passam a ser definidos pelo ato de linguagem. Abaixo, temos uma relação estabelecida entre o Sujeito – comunicante 1 (o autor do texto em língua original), e um Leitor 2 mediatizada pelo texto traduzido.

Esquema comunicativo da tradução:

Fazer situacional 1 Fazer situacional 2

Dizer 1 Dizer 2

TLO TLT

SC-1 Leitor 1 = SC-2 Leitor 2

Eu e-1 Tu d-1 Eue-2 Tu d-2

Relação Contratual Relação Contratual Contrato tradutório

Figura 2 - Essa imagem demonstra o duplo ato comunicativo no qual o tradutor está inserido durante o processo tradutório 7

O esquema comunicativo da tradução proposto acima, é descrito em Corrêa (2003: 222):

De um lado, temos a representação do ato de linguagem em que o tradutor assume o papel de Leitor- 1 e de outro, o ato de linguagem simultâneo em que o tradutor assume o papel de Sujeito Comunicante-2, produzindo um novo texto destinado a outros leitores, que na maioria das vezes não foram previstos pelo SC-1.

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Nesta concepção, o papel do tradutor é mediar culturas, línguas e situações de comunicação.

No tocante à presente pesquisa, o professor de agronomia, que é tradutor inexperiente, assume o papel de leitor de um texto técnico que logo após será utilizado em sala de aula, e paralelamente assume o papel de sujeito comunicante quando produz um texto para seus alunos. E em contrapartida, o aluno do curso de graduação, também tradutor inexperiente, participa de um ato tradutório para o qual não foi identificado antecipadamente seu possível leitor.

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3. O ETHOS, UMA ESTRATÉGIA DO DISCURSO

Com o objetivo de observar e refletir sobre as práticas discursivas e imagem que os tradutores constroem na atividade proposta de tradução, temos como base, neste capítulo, a discussão da noção de ethos, para depois passar ao estudo das estratégias discursivas e suas relações, estabelecendo qual é o papel atribuído a si e o lugar em que o sujeito se coloca na situação de comunicação.

Ethos- termo emprestado da retórica antiga, o ethos (em grego personagem) designa a imagem de si que o locutor constrói em seu discurso para exercer uma influência sobre seu alocutário. Essa noção foi retomada em ciências da linguagem, e, principalmente em análise do discurso, em que se refere às modalidades verbais da apresentação de si na interação verbal. (Ruth Amossy)8

Conforme Amossy (2011, p. 9). “Todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si.” Com base na visão da autora, a imagem que o sujeito constrói ao falar é fundamental na construção discursiva. O sujeito neste sentido pode valer-se de um universo de crenças e conhecimentos, além dos recursos linguísticos a que tem acesso. Dessa maneira, se consideramos a existência de uma imagem anterior ao discurso e se, durante o ato de linguagem, o sujeito é avaliado pelo outro em relação ao que diz e ao que é, os conhecimentos prévios e os estereótipos que são frutos das representações sociais contribuem de forma decisiva na construção dessa imagem. Isto porque ela é tomada segundo os modelos culturais, segundo o estoque de imagens de uma sociedade dada.

Assim, não é necessário que o locutor faça seu autorretrato e nem fale de si: através de sua competência linguística constrói sua própria imagem, pois no momento do discurso, lançam-se pistas acerca desta imagem: seu estilo, sua visão de mundo, seu conhecimento acerca de determinados assuntos, dentre outros, que permitirão aos ouvintes realizarem a construção da imagem do enunciador. Desse modo, não podemos dissociar a figura do enunciador e de seu coenunciador do meio institucional em que está inserido, pois não basta aos docentes e discentes

8

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construírem uma representação de si, é preciso que construam uma representação que se adeque à posição que ocupam.

O termo ethos vem do grego e significa “personagem”. Aristóteles, um dos primeiros a usar o termo, entende-o como sendo a imagem de si que o locutor constrói em seu discurso para exercer uma influência sobre seu alocutário (destinatário, co-enunciador). Maingueneau (2008: 13) afirma que

escrevendo sua Retórica, Aristóteles pretendia apresentar uma techné cujo objetivo não é examinar o que é persuasivo para tal ou qual indivíduo, mas para tal ou qual tipo de indivíduos. A prova pelo ethos consiste em causar boa impressão pela forma como se constrói o discurso, a dar uma imagem de si capaz de convencer o auditório, ganhando sua confiança.

Este conceito é utilizado em algumas perspectivas teóricas, entre elas a Retórica, a Pragmática e a Análise do Discurso (AD). Na perspectiva da AD, em especial nos trabalhos de Maingueneau (1995, 2005, 2011), o enunciador deve legitimar seu dizer; em seu discurso, ele se atribui uma posição institucional e marca sua relação a um saber. A palavra vem de alguém que, por meio dessa palavra, demonstra possuir determinadas características. Por meio do discurso, o enunciador faz sentir certo comportamento. Isto é, por meio do que o sujeito fala é que é revelada sua personalidade.

Assim, no dizer de Maingueneau (2005:98) “por meio da enunciação, revela-se a personalidade do enunciador”. Ao tratar dessa noção, este autor propõe um esquema, aqui reproduzido, para que se entenda a construção de um ethos efetivo. Participam desse processo as noções de ethos pré-discursivo, ethos discursivo, dividido entre ethos dito e ethos mostrado, e a de estereótipos sociais. O ethos dito é aquele através do qual o enunciador mostra diretamente suas características, dizendo ser essa ou aquela pessoa, ao passo que o ethos mostrado é aquele que não é dito diretamente pelo enunciador, mas é reconstituído através de pistas fornecidas por ele no seu discurso. Maingueneau (2005b, p.71) ainda observa: “se o ethos está crucialmente ligado ao ato de enunciação, não se pode negar, no

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A seguir, está o esquema:

Figura 3: Processos discursivos do ethos9

Originário da retórica antiga, tanto a de substrato grego quanto romano, o conceito de ethos nunca foi claro e unívoco: na obra de Aristóteles, por exemplo, o termo recebe diferentes tratamentos na Política e na Retórica. Para a retórica grega, os ethé eram entendidos como as propriedades que os oradores conferiam a si próprios no desenrolar de seu discurso em praça pública, a ágora. Tais propriedades se revelavam na maneira de falar peculiar a cada um dos oradores. Ao lado dos conceitos de logos e de pathos, o ethos era então tido como uma das formas de se obter persuasão, segundo a retórica aristotélica. Neste sentido, o ethos seria percebido pelo ouvinte através das escolhas efetuadas pelo orador a saber, escolhas lingüístico-discursivas e estilísticas (mais ou menos intencionais).

Nesta perspectiva, significa dizer que para que o ouvinte percebesse os ethé daquele que detinha a palavra era preciso que estivesse atento à natureza verbal de seu discurso, pois seria pelo discurso que o palestrante mostraria “sua personalidade […] através de sua maneira de se exprimir” (Maingueneau, 1995:138).

9

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Diante disso, Charaudeau (2005) defende ainda a posição de que a partir do momento em que o ethos está relacionado às representações sociais, ele pode estar ligado aos indivíduos e também a grupos, a ponto de refletir uma visão global. A partir disso é possível pensar em um ethos coletivo, concernente a um grupo e em um ethos individual, relacionado a um sujeito apenas.

Ao discorrer sobre essa questão, o autor citado ressalta que “o orador deve mostrar [seus traços de personalidade] ao auditório (pouco se importando com a sinceridade) para causar a boa impressão”. Isso porque o ethos está ligado às palavras, ao papel que constitui o discurso, não é propriedade única do locutor “é antes de tudo a imagem que reveste o interlocutor a partir do que o locutor diz” (p.115). E ainda, é o olhar do outro sobre aquele que fala e o olhar daquele que fala sobre como o outro o vê.

Assim, dentro da encenação linguageira onde os indivíduos participam e se constroem pelo seu discurso, são apresentados alguns ethé, dos quais destaco os seguintes:

1. O ethos de credibilidade: esta qualidade está ligada à identidade social do sujeito, se desenvolve de uma maneira que as pessoas acreditam que aquele sujeito é digno de crédito.

De maneira geral, um indivíduo pode ser julgado digno de crédito se houver condições de verificar que aquilo que ele diz corresponde sempre ao que ele pensa (condição de sinceridade ou de transparência), que ele tem meios de por em prática o que anuncia ou promete (condição de performance), e o que ele aplica ou anuncia é seguido de efeito (condição de eficácia). Charaudeau (2005: p.119)

2. O ethos de virtude: Neste caso, supõe que o sujeito demonstre sinceridade e fidelidade, construindo assim, uma imagem de honestidade pessoal. De maneira geral, o ethos de virtude vem acompanhado de uma atitude de respeito para com o outro.

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4. O ethos de Inteligência: Este faz parte dos ethé de identificação “na medida em que pode provocar a admiração e o respeito dos indivíduos por aquele que demonstra tê-lo e assim o faz aderir a ele”. Neste caso, o sentido da inteligência, considerada como um imaginário coletivo da maneira que um grupo social a valoriza. Aqui não se trata somente da maneira como ele fala e sim do que pode servir como aprendizado em sua trajetória.

O importante é entender que a noção de ethos não se aplica somente à oralidade, como na Retórica, na escrita também percebemos a voz e um corpo enunciativo que se manifesta criando uma entidade enunciativa. Nesse sentido, as noções e conceitos tratados aqui são aplicáveis à minha pesquisa ao propor uma análise a partir de um viés discursivo, ao observarmos os sujeitos enunciativos. O ethos pareceu-me, dentro das possibilidades trazidas pela Análise do Discurso, a

noção mais produtiva, já que busco entender como a identidade dos enunciadores focalizados é construída no momento em que desenvolvem uma atividade de tradução.

Após tais discussões, para complementar esta perspectiva discursiva, parece-me importante apresentar o conceito de estratégias, bem como sua categorização dentro dos estudos da linguagem.

3.1. ESTRATÉGIAS DO DISCURSO

Na Análise do Discurso, este termo tem diversos empregos e definições de acordo com a corrente de pesquisa. Dentre estas estão as seguintes:

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objetivo, uma situação de incerteza, um projeto de resolução do problema colocado pela incerteza e um cálculo. (Patrick Charaudeau10)

Para Charaudeau (2008), esta noção de estratégia está relacionada a um quadro contratual, assim, ele ressalta que correspondem a diferentes etapas a partir de diferentes objetivos: de legitimação, que visa afirmar a autoridade do sujeito, de credibilidade que visa conferir a seu discurso o valor de verdade, e a de captação que visa trazer o parceiro para o pensamento do sujeito falante.

Quando observarmos o processo de leitura, interpretação e produção de um texto, sempre vem à mente algumas dúvidas e questionamentos a que, ao longo do processo, vamos respondendo com base em nosso conhecimento prévio, de mundo, linguístico e cultural, e muitas vezes ainda temos que buscar tais respostas fora do texto, em outros meios de pesquisa para que haja compreensão. De acordo com ALVES (2010: 19), estratégias são “todas estas ações que realizamos, muitas delas de forma automática, semiconsciente, enquanto que as outras a partir de decisões conscientes e cuidadosamente tomadas que constituem resolução de problemas.”

Muitas vezes, no momento da atividade tradutória, nos deparamos com itens lexicais desconhecidos, estruturas sintáticas e até mesmo ambiguidades semânticas de difícil compreensão. Com isso, temos que parar e buscar uma explicação para entender aquela sequência ou parte de um texto, denominada de UT (Unidade de Tradução).

Assim, através destas estratégias passamos a atualizar as competências comunicativas e resolver os problemas encontrados no processo. Dentre os conhecimentos envolvidos no ato tradutório PAGANO (2010:39) destaca que “a necessidade, por parte do tradutor, de buscar em fontes de consultas externas informações que não possui é fato inquestionável no exercício da atividade tradutória”, pois, por mais experiente que seja o tradutor, terá que contar com pesquisas, leituras acerca de um determinado tema, dicionários monolíngues e bilíngues, outros textos, que possuam termos e expressões que possam servir na produção do TLC.

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Além disso, o tradutor também conta com estratégias de busca de elementos internos que servem de apoio, como o conhecimento de mundo, as relações que utilizamos: o que sabemos e aprendemos em nossa vida ou em certa área. As relações que fazemos com o que sabemos e as inferências são pontos cruciais no apoio interno de que dispomos. Assim, Alves (2010: 57) ressalta que:

O conhecimento de mundo é a somatória de todos estes conhecimentos e que podemos chamá-lo de pré-texto, ou seja, o ponto de onde partimos, com as informações de que já dispomos para processar informações novas que recebemos.

Outro tipo de estratégia é a de análise macrotextual, quando o leitor traz seu conhecimento de mundo para ajudá-lo a processar o texto. Já na análise microtextual, o leitor analisa de perto os itens do texto e a partir de então constrói um conhecimento global e examina os itens lexicais, as colocações na frase, as expressões idiomáticas, os tempos verbais dentre outros aspectos pertinentes de análise. Daí, no momento em que um tradutor se depara com um texto que deve ser traduzido de uma língua para outra, ele precisa desses conhecimentos para ter maior efeito contextual no que traduziu e estabelecer relações entre o TLP e o TLC. E estas relações são ativadas através dos conhecimentos citados e a partir da leitura, o tradutor busca aproximar mais os textos e manter a fidelidade à ideia do autor.

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detém nas globais. Diante disso, as autoras concordam com Lörscher (1991) que afirma que:

as estratégias de tradução têm como ponto de partida a consciência de um problema pelo sujeito, e como seu ponto de chegada uma solução (possivelmente preliminar) do problema ou da conscientização da impossibilidade de resolvê-lo num determinado momento. (Lörscher, 1991: 96- tradução de Corrêa e Neiva: 2000b: 36).

Para estas autoras, cada interrupção no fluxo tradutório é considerada como um problema, e a noção de problema não estaria relacionada apenas à insuficiência de conhecimentos, mas também à decisão do melhor caminho para traduzir aquela palavra ou ideia ali expressa, por exemplo.

As autoras postulam que, no processo tradutório, existem as estratégias de compreensão/ interpretação do texto de partida, que envolvem resolução de problemas de leitura de um determinado trecho em TLP, quando há por parte do tradutor desconhecimento de uma palavra, ou lhe falta conhecimento prévio de determinado assunto. Estas se distinguem das estratégias de produção no texto de chegada, onde os problemas que se apresentam relacionam-se com a aceitabilidade do TLC pelos possíveis leitores. Já as estratégias propriamente tradutórias, são aquelas que o tradutor utiliza ao encontrar dificuldades para construir relações de equivalência de um TLP para um TLC, ou seja, entre o que ele entendeu e a busca da melhor forma de expressá-lo.

Dentro das categorias de problemas, as autoras apontam alguns dentre os diversos que foram observados nos protocolos verbais, são eles: compreensão de texto de partida, produção de texto de chegada, ou seja, carentes de uma melhor revisão pelo tradutor, problemas essencialmente tradutórios, e outros como distração ou então quando desconsidera alguma palavra por não tê-la entendido. Dentro deste contexto, é válido ressaltar os conceitos de estratégias locais e globais: a primeira acontece quando o tradutor se depara com um problema num determinado segmento e o analisa, a segunda já é mais ampla e tem início desde o momento em que começa a atividade tradutória.

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ESTRATÉGIAS COMUNICATIVAS COGNITIVAS

De compreensão do TLO

De tradução do TLO

De produção do TLT De busca externa De busca interna De busca externa De busca interna De busca externa De busca interna De solu -ção De aba ndo no De solu ção De aba ndo no De solu ção De aba ndo no De solu ção De aba ndo no De solu ção De aba ndo no De solu ção De aba ndo no

Quadro 1: Estratégias comunicativas e cognitivas

As estratégias de compreensão do TLO envolvem a resolução de problemas de leitura de um determinado trecho, ao desconhecer uma palavra ou expressão, e ainda problemas que envolvam o conhecimento prévio do tradutor a partir de seu conhecimento de mundo nas duas línguas: de partida e de chegada.

As estratégias de tradução acontecem quando o tradutor encontra um problema e busca manter uma equivalência entre a expressão ou palavra na língua de partida e a melhor forma de expressá-lo na língua de chegada.

As estratégias de produção do TLT dizem respeito à resolução de problemas relativos à recepção do texto pelo público alvo. Trata-se portanto de um refinamento do texto traduzido.

Segundo Corrêa e Neiva (2000), os procedimentos técnicos seriam estratégias consolidadas, já automatizadas pelos tradutores experientes em seu processo tradutório. Assim sendo, é possível que muitas das estratégias utilizadas por tradutores inexperientes durante o processo tradutório produzam efeitos semelhantes ao uso consciente dos procedimentos técnicos.

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oblíqua, é aquela que não é literal, ou seja, quando vai traduzir um texto, o sujeito utiliza vários recursos que não são os mesmos do TLP.

Agora, com base nestes autores será exposto cada tipo de procedimento da tradução e suas especificidades:

 O empréstimo: é quando copiamos uma palavra da LP no texto da LT, e isto ocorre quando não encontramos correspondente na língua em que será traduzido. “O empréstimo é a manutenção do material textual da LO [Língua original] na LT [Língua de tradução]” (Barbosa. 1990 p. 26).

 O decalque: Enquanto o empréstimo é atrelado às palavras isoladas, o decalque passa ser observado nos sintagmas, que são unidades sintáticas formadas por um ou mais vocábulos formando orações. São utilizadas palavras da LT com a mesma estrutura e também com construções sintáticas diferentes. Já a tradução literal corresponde ao conceito da tradução direta.

A tradução oblíqua:

 A transposição consiste na mudança das categorias gramaticais ao se produzir o texto na LC.

 A modulação acontece quando o ponto de vista do tradutor é mudado através da mensagem, onde as línguas em questão no momento da tradução apresentam aspectos diferentes.

 A equivalência “é utilizada em casos onde as duas línguas em confronto dão conta da mesma situação através de meios estilísticos e estruturais totalmente diversos”. (ibdem. 29).

 A adaptação aplica-se onde a situação extralinguística não existe no universo cultural da LT, então tenta-se adaptar ao contexto.

Assim, a partir do momento em que está traduzindo um texto, ao utilizar diversos procedimentos para desenvolver uma atividade tradutória, cada sujeito ocupa um lugar no qual as relações entre locutor e interlocutor são estabelecidas, os contratos de comunicação são firmados e a cada momento o próprio sujeito se constrói dentro do discurso.

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Não existe um processo único, mas processos de compreensão que variam de acordo com diferentes situações, de diferentes usuários da língua, de diferentes tipos de discurso. (Van Dijk e Kintsch, 1983).

Assim, para traduzir um texto, intuitivamente, o tradutor utiliza estratégias e procedimentos. Algumas vezes, lança mão de dicionários bilíngues e monolíngues e avança na leitura do texto para tentar compreender determinado fragmento, retrocede outras vezes, visando uma melhor explicitação de seu texto na língua de chegada a um provável leitor virtual. Lörscher (1991) subordina a noção de estratégia à de resolução de problemas de tradução, no que é seguido pelas autoras Corrêa e Neiva, em seu artigo, já citado, datado de 2000.

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4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

metodología (Del gr. μέθοδος, método, y -logía). 1. f. Ciencia del método. 2.f. Conjunto de métodos que se siguen en una investigación científica o en una exposición doctrinal. (RAE, 2001).

Neste capítulo, apresentam-se os encaminhamentos metodológicos da pesquisa, tratando da constituição e do recorte do corpus, da apresentação dos sujeitos de pesquisa e da metodologia seguida na seção de análise.

4.1. OS SUJEITOS DA PESQUISA

Opta-se, como dito na Introdução, pela constituição de um corpus a partir das experiências vivenciadas durante minha atividade profissional, ou seja, com os professores da área técnica agrícola, por se tratar de uma escola que tem esta finalidade em sua formação. Assim, foram selecionados três professores, sendo que dois destes sempre buscavam suporte técnico a mim ao realizar a leitura e tradução de algum texto, manual de instruções de insumos agrícolas adquiridos na Venezuela para serem usados em plantações e cultivos. O terceiro não tinha esta prática, porém tinha o conhecimento da língua de uma maneira informal através de viagens e amigos. Assim, acredita-se que tradutores diferentes adotam estratégias diferentes no momento em que traduz um texto, então resolvi também selecionar três alunos do Curso de Letras e Literatura Hispânica que estudavam na mesma instituição, porém no campus urbano. Acreditava-se que os professores da área agrícola tinham uma noção de tradução diferente destes últimos, já que adquiriram o conhecimento da língua espanhola de uma maneira informal. Em contrapartida, os alunos possuiriam uma formação linguística e teórica acerca da língua em questão.

Como critério, para selecionar os alunos de graduação, foram escolhidos os que estavam cursando o 7º semestre, o penúltimo, para se formar em Letras.

Imagem

Figura  1:  Nesta  figura  podemos  observar  os  circuitos  interno  e  externo  que  compõem  o  ato  de  linguagem 3
Figura 2 - Essa imagem demonstra o duplo ato comunicativo no qual o tradutor está inserido durante  o processo tradutório  7
Figura 3: Processos discursivos do ethos 9

Referências

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