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CLASSICOS EM LIQUIDAÇAO

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Academic year: 2022

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CLASSICOS EM LIQUIDAÇAO

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Deixando de lado, por enquanto, os aspectos pedagógicos e psicológicos da indicação de leitura para esta ou aquela fai- xa etária, de acordo com esses ou aqueles interesses mais ou menos estandartizados, com todas as boas intenções que os acom- panham, acrescidas, logicamente, da visão econômica da indús- tria do livro, o fato é que algumas editoras apostaram neste público e as coisas começam a mudar.

O exemplo mais transparente desta intenção é o da Editora SCipione, através das séries Diálogo e Reencontro. Pelo catálo- go, nota-se que na série DiÃlogo a editora pretende publicar escritores nacionais e livros inéditos, como é o caso de Des- culpe a nossa falha, de Ricardo Ramos; A Porta Mágica, de Ha- roldo Maranhão; Lobo do Mar no Supermercado, de Julieta de Go- doy Ladeira e O Projeto Dragão, de Rubens Teixeira Scavone.

Mas é a série Reencontro que traz o maior número de titu-

*Professora do Departamento de Metodologia de Ensino, CED/UFSC.

IConforme a entrevista "Ler os livros e Crescer com Eles", concedida a Eglê Malhei ros e publ icada na Perspectiva; r. CED, Florianópolis, 1985. p.103.

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los e oferece ao jovem leitor - e também aos nao tão jovens:

a possibilidade de contato com um número já grande de obras clássicas da literatura e com escritores consagrados, livros e autores que atravessam já séculos de permanência nos corpus li- terários de vários paises e seduziram gerações sucessivas de leitores em todo o mundo, além de espectadores de teatro. Lã estão Cervantes (D. Quixote), Shakespeare (Sor~o de uma noite de verão, ate lo) , Voltaire (Cândido), Daniel Defoe (Robinsom Crusoé), Levlis Carroll (Alice no país das maravilhas), Melville (Moby O'ck), Ibsen (Peer Gynt), Swift (Viagens de Gulliver) ,~~

co Polo (As Viagens de Marco Polo) , Manzoni (Os Noivos), Emily Brontê (O Morto dos Ventos Oivantes), e outros.

Selecionei alguns deles, e as leituras de adaptação e tradução do inglês, por Werner Zotz;

Uma Noites, traduzido do francês, com consulta a

Robinson, de As Mil uma edição

em e de Portugal, por Julieta de Codoy Ladeira; de Cândido ou O Otimis- mo, adaptação de José Arrabal, sem mençao à fonte da tradução;

de O Morro dos Ventos Uivantes, traduzido do inglês e adaptado por Vilma Arêas; e de Peer Gynt - O Imperador de Si Mesmo, tra- duzido e adaptado por Ana Maria Machado, sem referência ao ori- ginal, além de Sonho de Uma Noite de Verão, traduzido de The Complete Works of Shakespeare, London, e também adaptado pela mesma Ana Maria em prosa de ficção, foram feitas com a curiosi- dade e o interesse que causam, a todo amante da literatura, a reunião de nomes tão significativos: os dos autores e os dos tradutores-adaptadores. Esses, quase todos, eles próprios au- tores de vários livros para crianças e jovens, possuidores,por- tanto, de experiência e intimidade com a linguagem e com o tra- balho de escritura.

Curiosidade satisfeita: a leitura é gratificante; as his- t6rias mantêm o ritmo; as aventuras e o suspense envolvem o leitor; a linguagem é atual, bem cuidada, tluida. Os adaptado- res, cuidadosos, se esmeraram em costurar muito bem os trechos selecionados, criando uma nova unidade na obra adaptada; melhor dizendo, criando uma nova obra. É exemplar o caso das adapta- ções de teatro, de textos de dramaturgia de Ibsen e Shakespeare feitas por Ana Maria: a mudança total de gênero resulta em dois bons textos de ficção.

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Aparentemente, pois, tudo anda bem com a coleção: a sele- ção das obras é muito boa; a escolha dos tradutores-adaptadores é feliz; o trabalho final é bem feito e de boa qualidade; a e- dição dos livros é bem cuidada, descontando-se os casos de nao citação dos originais, com uma apresentação sucinta dos auto- res, tanto o escritor quanto o adaptador.

Há, porém, dois defeitos na série, que, embora diferentes quanto à gravidade, têm a ver com a mesma concepção de leitura, escola e leitor.

Começo pelo menos sério, mais fácil de descartar porque mais conhecido e criticado: as abomináveis fichas de leitura.

Sua presença como encarte ao livro mostra logo a visão dos edi- tores - e que é também, infelizmente, a da maioria dos profes- sores! - em relação à leitura: feita na escola, não pode ser gratuita. Indicada pelo professor (afinal, a série é paradidá- tica!), a leitura deve ser cobrada, deve-se avaliar se o aluno leu e como o fez! Frnbora dirigida aos alunos, as questões pro- postas visam substituir o trabalhO do professor de formulá-las, e são precedidas de uma conversa com o próprio mestre, onde os editores se eximem do intento de avaliação porque, afinal, "a ficha não aponta soluções acabadas" e por isso "não deve ser encarada como forma de avaliação do conhecimento"! A oscilação entre o objetivo camuflado da ficha e a rigidez da metodologia fica clara, quando em seguida são indicadas formas tradicionais de trabalho, didaticamente previstas. A mistura fica maiorquan- do aparece a proposta de "criatividade": todas as fichas convi- dam para a mesma coisa, recontar a história a partir das ilus- trações, e por escrito, iniciando a série de sugestões, que melhoram um pouco conforme o livro em questão. Propõem pesqui- sas, discussões em torno de temas históricos relacionados com a narrativa, paralelos entre visões, a da época, e a atual, tra- balho de escrita e apresentação de peça de teatro. O problema, que seria cômico se nao fosse sério, é que a indicação de cria- ção de peça teatral faz o caminho inverso, na contra-mão: os alunos são convidados a escrever uma peça de teatro aproveitan- do os personagens da própria história de "Sonho de uma noite de verão"! Certamente Shakespeare fez melhor! E se era para chegar ao teatro, por que a adaptação para ficção? Os alunos não têm

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condições de ler uma peça? Além disso tudo, o ranço da ideolo- gia da linguagem pedagógica sempre presente: "Vamos criar com a história!lI, llVamos conversar sobre isso. II , I1Varnos pesquisar;l!,

"Peça ao seu professor para ... ".

Mas o pecado capital da série é comprometedor e dificil- mente pode ser perdoado: as adaptações. Mesmo feitas por quem as fizeram, mesmo com toda a qualidade que esses adaptadores imprimem ao seu trabalho, mesmo com OS bons resultados que al- cançaram, esses livros não sao os clássicos que apregoam ser.

Este não é o Robinson do escritor Daniel Defoe, de 1719, e sim o Robinson versão 1986, recriado por Werner Zotz. Apesar das garantias que os adaptadores podem fornecer, dados os seus cur- riculos e obras, tornar-se parceiro de Emily Brontê, de Shakes- peare, de Ibsen, de Voltaire é, sem dúvida, um desafio e uma pretensão tentadora:

Não ignoro que as adaptações para crianças e jovens sao feitas desde o inicio da assim chamada literatura infantil - a

"moda" começou com o próprio Perrault - e que a "contaminação"

da literatura pela educação nasceu junto com o gênero, com a escola, com a própria concep~~o de criança ainda existente, com a pedagogia. A visão da literatura para crianças como meio de formação cultural, moral e de entretenimento está por trás das publicações de educadores como Comenius, Basedow, Campe e dos próprios enciclopedistas do século XVIII. Campe, aliás, comete a primeira adaptação do Robinson, já em 1779, sessenta anos a- pós sua publicação na Inglaterra: e o Robinson der Jfingere NUe dá origem a uma série de imitações corrhecidas em literatura co- mo "robinsonadas". Seu ideário educacional leva-o a considerar o livro de Defoe inadequado do ponto de vista moral, religioso e de estilo, esclarecendo muito bem no prólogo do seu Robinson as razoes que o induziram a reescrevê-lo_ Carmem Bravo-Villasa~

te as resume em sua História da Literatura Infantil Universal, onde também opina sobre a adaptação: "Todo o Robinson é um diá- logo entre o pai e os filhos de diversas idades, que interrom- pem a narrativa com perguntas OU expressando a sua opinião, o que dá lugar a moralizações ou lições do pai-mestre. Embora es- tas moralizaç0es por vezes interrompüm o fio da narrativa, há

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riginal~), entre todos os livros existentes na época, para lei- tura do seu Emílio (1762), em nome de um princípio pedagógico segundo o qual um livro não deve antecipar experiências afeti- vas às cri.anças, podendo, entretanto, criar uma situação que pressupõe essa experiência, o que a suscita de maneira natural.

~ paradoxal, porém, que tenha sido o êxito das versoes originais junto aos pequenos ouvintes ou leitores - para os quais não haviam sido expressamente escritas -, com suas longas explicações, digressões constantes, descrições pormenorizadas, desvios da narrativa principal, que vá dar origem às primeiras adaptações e simplificações. Esquecendo-se que adultos, crian- ças e jovens não lêem as palavras, as imagens e o mundo da mes- ma maneira, os adultos de cada época, em nome de valores ora morais, ora religiosos, ora educacionais, ora literários, re- cortam e retalham as obras literárias para que sirvam nas cri- anças, se adaptem aos seus jovens destinatários. Valendo-se da característica essencial da linguagem simbólica - permitir sem- pre uma nova leitura - os adaptadores conservam o essencial da obra para não desfigurá-la totalmente e nuitas vezes se uti.lí- zam de detalhes e pormenores que expressam as mudanças que os novos tempos e os novos leitores privilegiam. O resultado é nao mais o quê e como o autor escreveu, e si I uma variação mais ao gosto da época, que contempla as características considera- das indispensáveis em leituras para jovens, como são atualmente a necessidade de condensação e de grande àinamislIIo narrativo.

Na época dos remakes, dos seriaIs, das ópera-rock, produ- tos reelaborados e repropostos a partir de u original de gran- de aceitação, a adaptação de livros clássicos para crianças e jovens conta já com uma certa tradição. Enobrecida pela aura que a distingue das outras recriaçõ8s dirigidas para o grande pGblico, para a massa em geral, esquecemo-nos que ela se apro- vei ta. paras i tariamente. daqui lo que \',al ter Benj amin chamou de

2 .

Carmen Bravo Vi Ilasante, Histori" da Lí~eratura Infantil Universal. Lis' boa, Vega, 1977. p.24.

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"preconceito inteiramente moderno". E explica: "Trata-se do pre- conceito segundo o qual as crianças são seres tão diferentes de nós, com uma existência tão incomensurável à nossa, que preci- samos ser particularmente inventivos se quisermos distraí-las.

No entanto nada é mais ocioso que a tentativa febril de produ- zir objetos - material ilustrativo, brinquedos ou livros - su- postamente apropriados às crianças. Desde o Iluminismo, essa tem sido uma das preocupações mais estéreis dos pedagogos". 3

Os editores - pedagogos em seu papel cultural, pois i- gualmente visam "convencer, educar, cultivar,,4 não atentaram para opiniões como esta de Béatrice Tanaka: "Lembro que tradu- ções devem ser feitas a partir da língua original e por tradu- tores apaixonados pelo livro. Nada de "adaptações" (nem por Monteiro Lobato~), senão a originalidade foge e só fica o es- quema".5

No caso da Scipione, talvez a paixão pelos livros esco- lhidos, talvez o talento de alguns dos tradutores-adaptadores sejam os motivos pelos quais a Série Reencontro não tenha sub- mergido totalmente no "fiasco que está na origem e, em muitos casos, na permanência da literatura especificamente destinada aos jovens", aproveitando ainda a crítica de Benjamin.

O mais certo, porém, é reconhecer que a salvação ocorreu graças às próprias obras originais e tentar se redimir publi- cando-as em tradução integral, acrescida, cada uma delas, de uma cronologia dos principais acontecimentos da época e da e- xistência do seu autor. Com esta agradável penitên.cia, nao tão difícil já que os direitos da maioria, se não de todas as obras são de domínio público, a editora oferecerá aos leitores de qualquer idade o verdadeiro encontro ou reencontro com os clás- sicos.

3Wa.lter Benjamin. "Livros infantis antigos e esquecidos", in /\agia e téc-

~õca, arte e política. Ensaios ~ne li~ra~urae história da cultura.

Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. são Paulo, Bras; 1 iense, 1985. p.237.

4A reivindicação é de Sigfried Unseld, editor alemão, em seu I ivro O autor e seu editor, pubt icado no Brasi 1 pela Ed. Guanabara, 1986, tradução de Aurea Weissenberg, p.52.

SEm documento pessoal.

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Aos jovens leitores, demonstrará respeito pela sua inte- ligência e sensibilidade, dando-lhes o direito de escolher seus livros sem as veredas e desvios indicados pelas setas de espe- cificidade para menores. Sem subestimar sua capacidade de lei- tura, os editores precisam se lembrar que gosto e hábito do ler são prazer e comportamento adquiríveis, influenciados pelas o- fertas do mercado cultural. Além de simplesmente satisfazer ne- cessidades - supostas ou verdadeiras -, cabe ao editor incenti- var a criação de outras, ampliando as chances dos bons leito- res; como Lúcia, a adolescente que me emprestou seus livros.

Referências

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