A ARTE DO: “POUSAR PARA O RETRATO”. UMA ANÁLISE DA EXPEDIÇÃO LANGSDORFF ATRAVÉS DO DISCURSO ICONOGRÁFICO DE
HERCULE FLORENCE
Selma Momess 1. IGCE-UNESP-Rio Claro [email protected]
Resumo
A intenção deste trabalho é refletir sobre a (des) construção de um discurso epopéico, presente nas expedições científicas do século XIX, mediadas pela documentação iconográfica do período. Onde os cenários reais são filtrados, pelo alto poder de persuasão ao ângulo daquele que o registra. Por sua vez, subordinado a um objetivo ideológico maior e muitas vezes implícito, frente à plasticidade aparente de seus discursos. Tendo como objeto de estudo, desta pesquisa, as aquarelas produzidas pelo desenhista Hercule Florence, durante a Expedição Langsdorff pelo Brasil, no período de 1825 á 1829.
Palavras chave: Expedições Cientificistas, documentação iconográfica, discursos, Expedição Langsdorff, Hercule Florence.
Abstract
The intention of this paper is to discuss the (des) construction of an epic speech, present in scientific expeditions of the nineteenth century, mediated by the iconographic documentation of the period. Where the actual scenarios are filtered by a high angle to the power of persuasion from those who register. In turn, subordinated to a larger ideological and often implicit, forward and the apparent plasticity of his speeches. Having as its object of study, this research produced by the watercolors portraiture and paintings of Hercule Florence during Expedition Langsdorff by Brazil, for the period 1825 á 1829.
Keywords: Expedition Langsdorff, Scientific Expeditions of the nineteenth century, iconographic documentation, Hercule Florence, paintings.
Introdução
Esta pesquisa investiga o uso de significados, entendimentos e influências presentes em diversos autores, dentro da trajetória da história do pensamento geográfico, frente, a apreensão da realidade dos territórios, geradas a partir das ilustrações de desenhistas viajantes, presentes nas expedições científicas do século XIX.
1
Mestranda em Geografia pela Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho. UNESP. IGCE. Rio Claro. Orientador: Prof. Dr. Paulo Roberto Teixeira de Godoy.
A proposta é discutir como estas ilustrações são capazes de criar uma leitura descritiva e seqüencial das expedições, reforçando a idéia epopéica de conquista do “novo mundo”, privilegiando a soberania iluminista, na exploração do espaço, embasada num cientificismo com alto rigor em detalhes, o que acaba por conceder-lhe uma veracidade indiscutível diante dos “olhares civilizatórios”.
Assim, como tais desenhos são capazes de reforçar o mito heróico e a soberania colonizadora frente a um território, recém livre. Local, onde nativos são representados frente a um ideário de criaturas acolhedoras, com forte sentimento cristão e organização familiar invejável aos olhos europeus. Envoltos num cenário de natureza exuberante, muitas vezes pitoresca, a qual afasta qualquer possibilidade de barbárie.
Para esta discussão, a escolha dos desenhos e gravuras de Hercule Florence1 desenhista contratado para Expedição Langsdorff, realizada e custeada pelo Czar russo, Alexandre I, pelo interior do Brasil entre 1821 á 18292. A técnica utilizada pelo artista, numa postura de promeneur 3,de representação da realidade, chamada como “tirar retrato” ou” pousar para o retrato”, aparece na verdade,como uma construção subjetiva e arquitetada de maneira ilusória, ideologicamente encomendada, regada a cores e formas, altamente precisas, capazes de encadear uma leitura linear de sucessões de fatos e transposição de obstáculos, que mais se assemelha ao mito dos grandes viajantes contemplados pela literatura universal, do que a real circunstância e momento, no qual se executou o registro de tais cenas.
Desta forma, o uso do recurso de documentar iconograficamente o espaço desconhecido em loco, adquire uma concepção de verdade, de conquista mesclada a idéia de apreensão do território, regada ao lirismo romântico, com ênfase ao detalhamento de paisagens naturais, tais como: cachoeiras, rios, alterações climáticas e mesmo perfis etnográficos e cenas cotidianas. Resguardando, por outro lado, para a linguagem escrita, presente nos diários e cadernetas de campo, uma realidade hostil dos trajetos e as dificuldades enfrentadas, catástrofes, miséria e confrontos, capazes de colocarem em questionamento, a capacidade e soberania do conquistador sobre o espaço vencido.
Os documentos iconográficos, no caso especifico das pinturas, rendem-se, assim ao desejo de entender o espaço geográfico como categoria descritiva, dentro de um discurso positivista legitimado pelo cientificismo. difundidos pelas Academias de Ciências européias.
Assim como atender aos anseios e requisitos dos países colonizadores e patrocinadores de tais expedições. Onde seus viajantes, preocupados em registrar, num relato único e conciso, o exótico, o domável e o transponível dos espaços “recém descobertos”, passíveis de contemplação e adentramento, enfatizam o imperialismo dos países europeus, diante de possibilidades de exploração comercial e poder na obtenção de relíquias naturais sob resguardo.
Observa-se ainda, que os relatos orais e as anotações dos chamados diários de bordo, ou cadernetas de campo, trazem por sua vez em anexo, as angustias principalmente dos artistas, nas correlações e reflexões sobre o rigoroso método de registrar o observado. Método este, previamente encomendado,pelos chefes e financiadores de tais expedições,diante de sua verdadeira face da realidade.Os contrastes sociais, a organização econômica e política do território, , enquanto país de regime republicano incipiente,como o caso do Brasil.
Assim, esta maneira muito particular, dos relatos escritos, darem primeira voz as imagens, apresenta-se como a forma encontrada de responder ao espírito cientificista do século XIX na apropriação da natureza, no mundo de enxergar o outro, no controle dos modos de agir do “desconhecido”, e principalmente, na maneira dos próprios países se enxergarem, através da imagem arquitetada sobre o outro.
Onde tal estratégia estética acompanha uma corrente de pensamento, presente nas ciências, em especial na geográfica descritiva. Mecanismo este, que influenciou não somente os autores deste período em estudo, mas na releitura destes conceitos sobre os autores mais recentes na história do Pensamento Geográfico Brasileiro.
Objetivos
O objetivo desta reflexão é discutir a fragilidade das ilustrações feitas, nas expedições cientificistas, feitas pelo Brasil, no período do século XIX. Em especial a, chefiada pelo Barão de Langsdorff, o qual percorreu o interior do território brasileiro, de 1821 á 1829, trazendo em sua equipe, entre outros, o desenhista Hercule Florence, que mais tarde seria reconhecido, como um dos precursores da fotografia.
A análise se propõe a evidenciar todo um imaginário remanescente, do período renascentista, o qual é transportado para o mundo das artes visuais, como a maneira de reafirmar o ideário do colonizador. Apontando como as culturas se olham e estabelecem suas igualdades e heterogeneidades, sob a ótica do viajante debruçado sob o discurso do
Desta forma, as iconografias de viagem servem-se ao papel de registros, e muito mais, ao de legitimadores de verdades e dos enfrentamentos cotidianos presenciados in loco, pelos artistas, que por sua vez, respondem através da arte, a figuração e arquitetura de cenários, que reforce a ideologia dos visitantes e a supremacia de suas nações, em solo reconhecido
Por sua vez, a ordenação e disposição estética das imagens, no caso aquarelas, evidenciam a prática de um discurso amenizador na exploração de cenários naturais e cenas cotidianas, onde a imagem aparece como preenchimento de lacunas frente às desventuras e tragédias narradas e relegadas a uma esfera secundária. A qual é encontrada na documentação direcionada aos diários de campo e relatos pessoais dos viajantes
Os registros iconográficos aparecem assim, como difusores de cenários epopéicos, amplamente divulgados junto aos países empreendedores, atuando na dualidade: fiel e farsante na condução de leituras vigentes e legitimadoras aos interesses de grupos específicos, num determinado período histórico.
Na análise do discurso visual, tais ilustrações reafirmam a idéia de conquista do “novo mundo”, privilegiando a soberania iluminista, na exploração do espaço, embasada num cientificismo com alto rigor em detalhes, o que acaba por conceder-lhe uma veracidade indiscutível diante dos “olhares civilizatórios”.
Referencial Teórico
A pesquisa de caráter analítico e documental fundamenta-se na linha marxista de concepção dialética da história. Utilizando-se do método estruturalista genético, proposto por Lucien Goldmann para subsidiar a compreensão, não somente do conjunto de desenhos, mas da produção e seus respectivos sujeitos, envolvidos no contexto, do qual a linguagem e recursos iconográficos foram produzidos pelo autor, dando um entendimento de conjunto, frente aos demais discursos pertinentes a respeito do espaço, construção e desconstrução mitótica.
Desta forma a escolha pelo estruturalismo genético, permite avaliar o uso desse mecanismo de construção imagética da realidade, dentro de um contexto, no qual foi inserido, tais como: a classe social, aos grupos sociais, a doutrina de pensamento histórico vigente no período e a forma estratégica de atuação, desses sujeitos, na compreensão da documentação pela história do pensamento geográfico.
Devido à natureza do estudo, outros autores aparecem no decorrer da discussão da temática trabalhada, para discutir a estratégia de construção estética do objeto em análise.
Questões desenvolvidas
Evidenciar a fragilidade do discurso iconográfico, capaz de construções mentais epopéicas utilizadas nos relatos das expedições cientificistas do século XIX, tomadas dentro da corrente descritiva, na História do Pensamento Geográfico. A sua capacidade de desconstrução frente ao entrelaçamento de demais fontes documentais, utilizando-se para análise os desenhos de Hercule Florence durante a Expedição Langsdorff, pelo interior do Brasil, no período de 1925 á 1929
Identificar e analisar o poder de persuasão estética contida nos discursos iconográficos, capazes de construir narrativas e trajetórias, muitas vezes antagônicas a veracidade dos fatos evidenciados, respondendo a interesses ideológicos e imagéticos.
Fomentar o debate sobre a construção e desconstrução mitótica das expedições científicas, realizadas sob a ótica do positivismo cientificista vigente no século XIX. Considerando o forte traço dessas narrativas epopéicas, presentes na literatura universal, herdadas como técnica capaz de dar um corpo único e conciso, aos relatos presentes na geografia descritiva proveniente de expedições científicas.
Possibilitar a inferência da imagem, nas leituras de caráter geográfico descritiva, assim como a possibilidade de tantas análises em diferentes. contextos históricos e documentais ao longo da história do pensamento geográfico. Avaliando o rico repertório desse recurso sujeito a construção e desconstrução de seus sujeitos.
Contribuir com tal trabalho, para novas leituras e interpretações, quanto ao poder imagético contidas no discurso estético da imagem e sua capacidade de persuasão, quando avaliado , dentre outras linguagens e discursos, num determinado contexto histórico, em relevância no geográfico.
Resultados Prévios
Os resultados obtidos diante da análise são modestos diante da grandiosidade da temática, a qual envolve o estudo. Mas suficientemente capazes de sustentar as inquietações e questionamentos decorrentes da problematização proposta.
preliminares. Um momento difícil, o qual nos seduz a todo momento,a novas inquietações sobre o tema, e onde o responsabilidade do caráter investigativo precisa ceder a exigência do tempo escasso.
A escolha pela abordagem buscando um entendimento na pluralidade metodológica é sem dúvida fascinante, o que requer um exercício árduo. Entretanto, a cada novo parágrafo, as palavras fluem lentamente a responder os questionamentos propostos, de maneira coerente e concisa.
Notas
1. Antonie Hercule Romuald Florence nasceu em Nice, em fevereiro de 1804. Filho de um médico cirurgião do exército e de uma professora de pintura clássica. Desde a infância era uma afeccionado pelas histórias de desbravadores e pelos mistérios das terras abaixo do Equador.Tinha um gosto particular pela geografia,na elaboração de mapas e identificação dos mesmos.A custa de seus trabalho como desenhista viajou pela Antuérpia,Barcelona e finalmente chegou ao Brasil em 1824.Empregou-se num estabelecimento comercial no Rio de Janeiro e posteriormente abriu seu próprio atelier como desenhista retratista. Através de um anúncio de jornal, do Barão de Langsdorff recrutando desenhistas. Candidatou-se a Expedição Langsdorff como Candidatou-segundo deCandidatou-senhista, auxiliar de Aimé de Taunay. Com a morte de Taunay, por afogamento durante a expedição torna-se, a partir de 1826 o desenhista e condutor da expedição, devido à enfermidade dos demais tripulantes, vitimados de malária. Em 1829 retorna ao Rio de Janeiro trazendo a documentação da expedição(1825-1829). Logo em seguida, Florence resolve estabelecer-se em Campinas SP, onde casa-se e monta seu atelier como retratista, realizando ao mesmo tempo seus inventos e estudos sobre a fotografia. Boris, KOSSOY. Hercule Florence: A descoberta isolada da Fotografia no Brasil. São Paulo: Editora Edusp, 2006.p.43-66.
2. A expedição Langsdorff foi realizada a mando das autoridades russas, custeada pelo Czar Alexandre I e chefiada pelo Barão de Langsdorff,cônsul da Rússia no Brasil.O objetivo era percorrer lugares do interior do Brasil praticamente desconhecidos pela civilização, na documentação de sua gente, fauna,flora e clima.Para e expedição foi contratado como primeiro desenhista amado Adriano Taunay e Hercule Florence, como segundo desenhista.Contando também com a presença do botânico alemão Luiz Riedel, o astrônomo e oficial da marinha russa,Nestor Rubsov,o zoólogo Christian Hasse.O projeto oficialmente aprovado pelo governo brasileiro entre 1822 e 1824,onde fizeram várias viagens pelo interior das províncias entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.Entre 1825 a 1829,finalmente realizaram uma longa viagem rumo a Santarém.durante o segundo percurso Taunay morre afogado, e os demais são acometidos das chamadas “febres tropicais”,nome popular da malária entre os europeus.Hercule Florence torna-se assim, o único tripulante em condições de registrar o percurso.Retornando ao Rio de Janeiro em 1829.Boris KOSSOY.HerculeFlorence:A descoberta isolada da fotografia no Brasil. São Paulo:Edusp,2006,p.65.Days Peixoto FONSECA.O viajante Hércules Florence:águas,guanás e guaranás.Campinas:Editora Pontes,2008.p.21-23.
3. O promeneur,ou chamado, viajante curioso será aquele capaz de olhar, associar e dissociar aquilo que ele olha,numa espécie de exercício constante da percepção,onde vai se estabelecendo,a arte de julgar a paisagem.
A atividade de julgamento, ao mesmo tempo comparativa e discriminante, é antes de tudo uma atividade do olhar. Se o objeto é a paisagem,o sujeito deste julgamento é o olhar. Ver a Terra. Besse, J.C. Tradução: Vladimir Bartalini. Editora: Perspectiva, 2006.p.63.
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