Arno Wehling
Maria José C. M. Wehling
FORMAÇÃO DO BRASIL COLONIAL
Prefácio de
J o s é Luiz W erneck da Silva
4 a edição
revista e ampliada
2a impressãoA
EDITORA NOVA FRONTEIRAVII.
Sociedade e quadros mentais
A Sociedade colonial foi um cadinho heterogêneo de populações, com mobilidade e miscigenação tão ou mais intensas que outras sociedades contemporâneas, como a da América inglesa e as da América hispânica. Sob a égide de um Estado que impunha deter minado modelo social e religioso às comunidades que viviam nos seus limites legais, mesclaram-se ou apartaram-se portugueses transplantados, indígenas e africanos de diferentes culturas, cada qual trazendo consigo suas instituições e seus quadros mentais. O resultado foi uma sociedade diferente, com traços das socieda des originais e elementos novos, num mosaico cuja diversidade era acentuada pelas dimensões continentais do país.
As origens. Grupos e etnias. Miscigenação
A geração de Sílvio Romero (1 8 5 1 -1 9 1 4 ) e Capistrano de Abreu (1 8 5 3 -1 9 2 7 ) foi a primeira a valorizar e estudar sistematicamente as diferentes etnias da formação colonial e os efeitos de sua misci genação. Posteriormente, o tema tornar-se-ia assunto preferencial da antropologia e da etnografia brasileiras.
Sobre os indígenas, é preciso distinguir as classificações de ca ráter histórico, que consideram os diferentes grupos e nações como eram — ou deviam ter sido — no século XVI e as classificações adotadas pelos cientistas sobre os grupos existentes nos séculos XIX 1 XX. No primeiro caso, admitem-se quatro grandes unidades cul turais ou nações: os tupis, os jês, os nuaruaques e os caraíbas.
U elemento branco na colonização foi predominantemente português, embora tenha havido presença residual de espanhóis, f> anceses, holandeses e ciganos. Os imigrantes portugueses vinham geralmente do Norte de Portugal, entre os rios Minho e Douro, de I isboa e das ilhas do Atlântico, Madeira e Açores. Do Alem-1 e)o, Trás-os-Montes e Algarve, a imigração foi menor. No século XVIII
tentou-se, pela primeira vez, uma imigração mais planejada, com a transferência de casais açorianos para pontos do litoral catarinense e rio-grandense.
A presença do elemento negro no Brasil confunde-se com a história da escravidão e com a estrutura comercial montada para efetivar o tráfico intercontinental. Sabe-se que várias tribos e rei nos africanos praticavam a escravidão dos vencidos na guerra, mas a presença do homem branco transformou essa prática num empreendimento econômico que promoveu vasta desorganiza ção nas sociedades africanas, cujas comunidades foram assaltadas com freqüência crescente entre os séculos XVI e XIX, à medida que se expandia a colonização americana. O que os árabes faziam des de a Idade Média com suas caravanas (e continuariam fazendo até o século XX) os europeus fizeram com seus navios, em dimensões significativamente maiores.
A despeito das discussões dos especialistas, costuma-se classi ficar os dois grandes grupos étnicos africanos no Brasil em Sudane ses e bantos. Os primeiros, influenciados pela cultura árabe, eram
muitas vezes islamizados. Mais autenticamente africanos, por manterem sua originalidade cultural, eram os bantos. Aos Suda neses pertenciam as tribos iorubas ou nagôs, jejes, minas, haussas, tapas e bornus. Aos bantos, os angolas, congos ou cabindas e os benguelas. Os bantos, que na África povoavam o Sul do continen te, predominaram no Rio de Janeiro e em Pernambuco; os Suda neses, na Bahia, embora antropólogos e historiadores estejam de acordo em não minimizar, ali, a influência banto.
Quanto à miscigenação, ela ocorreu desde os primeiros mo mentos da conquista. Brancos e índios geraram mamelucos em Per nambuco, Bahia, Rio de Janeiro e sobretudo São Vicente, no sécu lo XVI. No século XVII o mesmo se verificou no Estado do Ma ranhão, bem como nas demais capitanias. Não se tratou, apesar de sua predominância, apenas do branco português (o que um histo riador norte-americano chamaria de "libido portuguesa à solta"), pois os cronistas quinhentistas mencionam não raro mestiços de descendência francesa no Rio de Janeiro e nas capitanias do Norte. A mistura de brancos e negros, naturalmente mais intensa com o incremento do tráfico africano nos séculos XVII e w in, gt rou descendência mais concentrada em Pernambuco, Bahia, Rh' de Janeiro e Minas Gerais, no período colonial, embora existiss m mulatos — como mamelucos — em todas as capitanias. Men >r,
mas não irrelevante como pensaram alguns autores, foi a mistura de negros e indígenas, existente, amiúde nas áreas dos quilombos (Pernambuco, Minas Gerais) e também, no final do século XVIII,
em Mato Grosso, Goiás, Maranhão e Pará.
As diferentes formas de organização social
O conhecimento sobre a organização social dos indígenas é defi ciente. Apenas a “nação” dos tupis é mais bem conhecida, ainda assim indiretamente, através do testemunho dos colonizadores, em especial jesuítas, o que limita nosso conhecimento sobretudo a°s séculos XVI e XVII e a certas regiões do Brasil.
A atividade econômica dos índios era a coleta, a caça, a pesca ® a agricultura, sendo comum o seu deslocamento para outras areas após a colheita. As tribos reuniam certo número de aldeias rç^e tinham como características, a dar-lhes unidade cultural, rela-Çoes de parentesco, cultos religiosos (inclusive ancestrais comuns), Proximidade geográfica e os mesmos inimigos, tribos rivais per-tencentes a outros grupos de parentesco.
As aldeias tupis foram descritas minuciosamente pelos cronis-^as século XVI, como Gabriel Soares de Sousa, Gândavo, Jean 1 Léry c Hans Staden: algumas malocas, terreiro central para co memorações e reuniões, e uma paliçada (caiçara). Cada maloca C° mPortava dezenas de pessoas (às vezes, mais de cem), possuindo ° u não divisões internas, com três aberturas, uma em cada extre-vi'| 3í^e C outra central. Na maloca desenvolvia-se grande parte da Ção S° C'a* ^os 'ndÍ8cnas> como as refeições, as conversas, a
recep-aos convidados e as relações sexuais. À noite
tcm fogo para se aquentarem, porque dormem em redes no ar e Ij®0 têm cobertores nem vestido, mas dormem nus marido e mu- er na mesma rede, cada um com os pés para a cabeça do outro, e* Ceto os principais que, com o tem muitas mulheres, dormem sósn a s s u a s r e d e s e d a li q u a n d o q u e r e m se v ã o d e i t a r c o m a que p a r e c e , s e m se p e c a r e m q u e o s v e i a m . Q u a n d o é h o r a de COmer se a j u n t a m o s d o r a n c h o (...) e t o d o s c o m e m e m u m al- R u id ar o u c a b a ç o (...) s ã o t ã o fié is u n s a o s o u t r o s q u e n a o ha q u e m t o m e o u b u l a e m c o i s a a l g u m a s e m l i c e n ç a de seu d o n o . (frei V i c e n t e d o S a l v a d o r , 1 6 2 7 )
Apesar da informação preconceituosa de alguns cronistas so re a licenciosidade sexual em algumas tribos, sabe-se que existia
uma organização familiar fundamentada em laços de parentesco e ancestrais comuns, o que limitava o intercurso sexual em alguns casos de consangüinidade e grupos totêmicos rivais. Predominava a família extensa, com casamentos preferenciais entre primos cru zados e avunculares (tio materno-sobrinha), além de uniões com membros de outras famílias. A poligamia masculina era admiti da, mas de fato viável apenas para os “principais”, morubixabas, guerreiros mais importantes ou feiticeiros.
Apesar da existência de uns poucos bens pessoais, não havia propriedade privada nem relações jurídicas de características con tratuais, o que causou espanto a vários cronistas, que se pergunta vam como era possível a vida comunitária nessas condições.
Admitiam os tupis que apenas o pai era o responsável pela geração, o que acarretava a igualdade de todos os filhos, mesmo havidos com diversas mulheres. Isso explica a prática do resguar-do pós-parto pelo homem. Motivo de admiração pelos cronistas foi, também, a harmonia nas relações familiares e a educação dada às crianças, sem as pressões a que estavam submetidas na
Europa-Se não querem [aprender algo] não os constrangem, nem os cas tigam por erros e crimes que cometam, por mais enormes que sejam, (frei Vicente do Salvador, 1627)
A organização social dos negros, no Brasil colonial, sofreu 1 retamente os reflexos da condição escrava, mais ainda do que cm relação aos indígenas. Estes, quando não eram simplesmente es cravizados, viviam em aldeias nas quais, a despeito da influência jesuítica e da proximidade do homem branco, ainda lhes pernu tiam manter traços de sua organização social. Já a maioria da P° pulação negra não o conseguiu, pela diversidade de grupos» P quebra da organização familiar, decorrente do próprio tráfico» pela deliberada intenção dos colonizadores, sobretudo em M Gerais, de misturar as diferentes etnias por motivo de seguran<*^
Ocorreram, entretanto, ao longo dos séculos colonial» constituições que não puderam recuperar a primitiva organizay Assim aconteceu com o casamento e a família escrava já orga da em bases cristãs ou com a organização social dos quilo No de Palmares, houve estruturas familiares (apesar de o cro Rocha Pita falar em “liberdade de costumes” ), escravos e u^ * ca. da social estratificada que buscava recuperar as condições nas, lembradas pela tradição oral.
O elemento branco, português, reproduziu na Colônia a socie dade estamental de onde provinha, adaptando-a às novas condi ções. Trouxe seus valores, sua organização jurídica hierarquizada, suas regras familiares (casamento, filiação, sucessão), patrimoniais (posse, administração dos bens) e obrigacionais (contratos, execu ção de dívidas, responsabilidade civil), tudo temperado por duas situações contraditórias: de um lado, a sensação de liberdade do Novo Mundo, onde as peias sociais seriam mais frouxas, a mobili dade mais fácil, a presença do Estado mais tênue, sensação resumi da na expressão que afirmava não haver pecado além do equador
(ultra Equinotio non peccatur); de outro, a moralidade repressora
do barroco ibérico, bem no espírito do Concílio de Trento, que foi representada na Colônia pelos visitadores do Santo Ofício e pelos lesuítas. Na óptica destes, os colonos viviam permanentemente sob a tentação demoníaca, apartando-se da religião, enriquecendo de ^odo ilícito e cometendo abusos sexuais. Tais críticas, comuns no seculo XVI, diminuíram nos séculos seguintes, sintomaticamente, restringindo-se a casos ou regiões circunscritas, atestando a reor ganização da vida social em torno da família.
A adaptação do português à nova terra, no século XVI, foi atribuída por Gilberto Freire à sua “ bicontinentalidade” entre a fica e a Europa e à influência muçulmana, que o teriam tornado mais plástico, e conseqüentemente mais apto à miscigenação, do (lue os povos do Norte da Europa. Fatores menos subjetivos que a ®xplicam, no século XVI, foram o caráter aventureiro da vida em ^ l remoto e desconhecido — que desestimulava a emigração fa-p * lar a ambição do enriquecimento imediato para o retorno a
°rtugal e, conseqüência destes, a escassez de mulheres.
O padre Manuel da Nóbrega, já decorrido meio século da des-°berta, pedia mulheres, mesmo de “vida errada”, para os colonos instituírem família. A realidade era que muitos portugueses, e antCndo suas características européias ou até semi-aculturados re os indígenas, povoavam a terra com seus numerosos filhos nrais, oriundos de uniões passageiras ou estáveis, mas quase Pa^1^ 6 m^^*p(as- Os d°is casos mais conhecidos, porque partici-j ratl1 de acontecimentos politicamente relevantes, mas de forma ^Surtia únicos, foram os de João Ramalho, em São Vicente, e
Je-nno dc Albuquerque, o “Adão pernambucano”,
o Confraponto dessa situação foi a permanente preocupação governo, da Igreja e de algumas elites locais com a “limpeza de
sangue”, isto é, a ausência de ascendentes judeus, mouros, afri canos ou indígenas, como fórmula estamental de impedir maior integração na nobreza (ou nas elites locais) e garantir privilégios e isenções, além de acesso a cargos públicos e títulos honoríficos.
Até fins do século XVII, costumam-se admitir, no grupo diri gente de origem portuguesa, dois tipos básicos na sociedade colo nial: o homem do planalto paulista, mameluco, sertanista, ban deirante, e o homem da baixada litorânea (carioca, baiano e pernambucano), sedentário, “patriarca agricultor numa socieda de mestiça de negros e índios”, no dizer de Capistrano de Abreu.
Estratificação social, grupos a etnias
Muitos são os critérios disponíveis para classificar os estratos so ciais na Colônia. Para Gaioso, cronista do Maranhão, as “classes da população”, no final do século XVIII, eram cinco, definidas a partir de um critério que misturava naturalidade com etnia: “fi‘ lhos do reino”, descendentes de filhos do reino, “geração mistura da”, negros e índios.
O viajante francês do início do século XVIII, Le Gentil de La Barbinnais, referindo-se à Bahia, viu apenas dignos de nota isto é, influentes — os senhores de engenho, os comerciantes e os marítimos.
Documentos de época mencionam a cor como critério classi' ficador: portugueses, índios e mestiços em São Vicente nos sécu los XVI e XVII; brancos, pardos e negros na Bahia dos séculos XVU e XVIII. O fenômeno era amplo, pois Montesquieu, referindo-sc às colônias em geral, comentou em Do espirito das leis que
os que vivem nas índias não têm menos arrogância quando con sideram que têm o sublime mérito de serem, como dizem, ho mens de casta branca.
O mesmo atestou o padre Loreto Couto, em Desagravos do
Bradl-... todo aquele que é branco na cor entende estar fora da esfera
vulgar.
A própria ordem jurídica da sociedade estamental classif»c®^ os indivíduos conforme pertencessem ao clero, nobreza ou i No Brasil colonial, a despeito de existir apenas uma n° ^ cza [)S fato, representada pelos senhores de engenho ou os ho ^ bons” das câmaras municipais nas diferentes capitanias,
freqüentes as disputas entre os membros das três ordens em torno de honrarias ou poder, conseqüentes à estratificação. A pressão de comerciantes para participar das câmaras municipais constitui um exemplo, bem como a intervenção governamental para forçar cer tas irmandades a aceitar a entrada de “oficiais mecânicos”, isto é, os artífices.
Outros critérios têm sido aventados. A dicotomia proprietá-rios-não-proprietários revela-se eficaz numa economia agrária, quando a riqueza patrimonial é basicamente representada pela ter-ta. Na Colônia, ela traduz bem as relações sociais nas áreas cana vieira e pecuarista, com os senhores de engenho e fazendeiros no topo e o restante da população na base social, com um mínimo setor intermediário. Mas, mesmo aí, ela não enquadra satisfatoria mente o comerciante, vinculado aos circuitos capitalistas interna cionais. Também aplica-se precariamente à pobreza vicentina, on de a terra era um fator de produção que gerava baixa renda, à área extrativista do Estado do Maranhão e aos “magnatas” da região mineradora do século X V III. Nestes quatro casos, a riqueza não
estava associada obrigatoriamente à posse latifundiária de terras. A clássica antinomia senhor-escravo, considerando-se a im portância e a extensão da escravidão na Colônia, é outro critério Parcialmente eficaz. São abundantes os testemunhos e as queixas sobre a excessiva dependência ao trabalho escravo:
Aquele cuja muita pobreza não lhe permite ter quem o sirva se sujeira, antes, a andar muitos anos pelo sertão em busca de quem o sirva do que a servir a outrem um só dia. (Pais de Sande, governador de São Vicente, 1692)
Cerca de um século depois, já sob a influência iluminista e das ^°vas condições materiais trazidas pela Revolução Industrial, ho-ens tão diferentes como o marquês do Lavradio, vice-rei do Bra-, ° Comerciante inglês John Luccock e José Bonifácio de
Andra-a e SilvAndra-a insistiAndra-am no temAndra-a, lAndra-astimAndra-ando tAndra-al dependênciAndra-a,
ra ,Mlirctanto» a dicotomia senhor-escravo, mesmo não se ígno-! 0 ° a extensa escravidão indígena em São Vicente e no Mara-()| a° ’ na° classifica satisfatoriamente as relações sociais, uma vez áre *^n° ra 0u m>nimiza o trabalho livre, assalariado ou não, nas Por*S a^ucare'rai pecuarista e mineradora, bem como nas cidades to j Uarias- Na verdade, vigorava na sociedade colonial um conjun-e Sconjun-egmconjun-entos bconjun-em mais complconjun-exo do quconjun-e simplconjun-es bipolandadconjun-es.
No segmento superior da sociedade, quer pela origem, pela riqueza ou pelas funções que exerciam — o que combina aspectos da sociedade de ordens com a sociedade de classe — , estavam os elementos que a dominavam: proprietários rurais, grandes comer ciantes do litoral, mineradores enriquecidos e a alta burocracia.
Os proprietários rurais — senhores de engenho, proprietários de fazendas canavieiras, pecuaristas nordestinos e gaúchos — eram latifundiários que se autoproclamavam (sobretudo os pri meiros) a “nobreza da terra”, cujo símbolo, embora se aplique preferencialmente ao senhor de engenho, foi a casa-grande. Vi viam da agricultura de exportação ou da pecuária, cujos couros também se destinavam ao mercado externo.
A família, patriarcal, baseava-se de fato e de direito (as Orde nações o confirmavam) na autoridade suprema do seu chefe e no
direito de primogenitura. A independência e o orgulho dos senho res de engenho foram impiedosamente satirizados por Gregório de Matos Guerra, no final do século XVII, que lhes lembrava a origem pobre:
Alarve sem razão, bruto sem fé
Sem mais lei que a do gosto, e quando erra De Fauno se tornou em Abaeté
Não sei como acabou, nem cm que guerra; Só sei que deste Adão de Massapé Uns fidalgos procedem desta terra.
Os grandes comerciantes do litoral, embora sem constituir uma burguesia nativa, pois quase sempre eram “meros corniS' sários” (como os chamou o marquês do Lavradio), ou represei* tantes comerciais da metrópole, formavam um grupo com nquC za mobiliária geralmente adquirida no comércio atacadista e na intermediação das vendas dos produtos rurais. Discriminados Pe la aristocracia da terra, pela legislação e pela administração, Que os olhavam como atravessadores e novos-ricos, eram quase sen* pre impedidos de exercer cargos públicos, inclusive nas cama municipais.
Apesar de bem-sucedidos na Guerra dos Mascates, no M do século XVIII, foi somente com as medida» modernizadoras ^ governo pombalino que os comerciantes adquiriram, em Por£U8 com o no Brasil, um status nobilitante. A empáfia do comerei3
português na Bahia e sobretudo sua rápida ascensão econon* não passaram sem registro por Gregório de Matos Guerra:
E sentando no meu cais Descalço, roto e despido Sem trazer mais cabedal Que piolho e assobios.
No século XVIII surgiu novo grupo social, os abastados mine-radores de ouro e diamantes, em parte responsáveis pela edifica ção das cidades barrocas do interior mineiro. Dedicados exclusi vamente à mineração nas primeiras décadas, diversificaram seus investimentos ao longo do século XVIII, com o declínio de sua ati vidade principal, estendendo-os à agricultura e à pecuária.
A alta burocracia colonial completava o quadro das elites lo-cais. Era composta de administradores — governadores, secre tários, juízes, ouvidores, desembargadores, militares graduados, técnicos fazendários e autoridades eclesiásticas, como bispos e ar cebispos — que freqüentemente exerciam cargos, ao longo de sua vida profissional, em vários locais do Império português, além da Própria metrópole. Ser nascido em Portugal era uma característica comum nos séculos XVI e XVII, mas de modo algum obrigatória. Assim, no século XVIII e mesmo antes, diversos membros dessa cú-Pola administrativa, que chegaram inclusive a exercer cargos na ad ministração metropolitana, eram nascidos no Brasil. Mais do que a naturalidade portuguesa, exigia-se do administrador a “limpeza de *angue”, comprovada até certo número de gerações, e estudos em ortugal, geralmente o curso jurídico da Universidade de Coimbra. Os setores intermediários da sociedade não constituíam pro-Pttamente uma classe média, como ocorreu nos países de econo mia industrial, mas um conjunto heterogêneo de indivíduos que Cscapavam ao enquadramento nos seus dois pólos. Na região açu-Careira, estavam representados pelos lavradores de cana livre me-' ’ abastados, alguns de cana cativa e os assalariados do engenho. as regiões pecuaristas, eram os antigos vaqueiros que haviam mealhado gado suficiente para “montar fazenda” e iniciar sua r°pria criação. Em São Vicente, antes das minas, era o pequeno r°prietário que, em meio à pobreza local, possuía alguns recursos ia^CnCtrava, as vczcs» na própria aristocracia, frequentando a ígre-C°m lugar marcado e a câmara municipal. Por todo o litoral rtenciam a esta camada artesãos de várias especialidades e pe-4 en°s comcrCiantcs.
\a ^P°ca das minas o setor ampliou-se, com a abertura de no-s °P°rtunidadeno-s. Multiplicaram-no-se ono-s ofíciono-s, o pequeno comer
cio c as atividades dos tropeiros, de modo que, pelo final do sécu lo, seu papel já era importante em cidades como Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Vila Rica, Mariana e São Paulo.
Na base social estavam os homens livres pobres (brancos, mamelucos, mulatos, libertos), os indígenas (tribos afastadas da sociedade ou aldeias agregadas às vilas) e os escravos (negros e índios).
Os homens livres pobres, brancos ou mestiços, trabalhavam como vaqueiros nas áreas pecuaristas do São Francisco, do Nor deste e do Sul; praticavam a pequena (e incerta) lavoura de sub sistência ao longo do litoral; exerciam atividades artesanais como ferreiros, latoeiros, marceneiros, carpinteiros, calafates; ou ainda participavam das atividades extrativas, como os droguistas do ser tão, na Amazônia, os pescadores e os caçadores de baleias nas ar mações do litoral. Poderiam, ainda, localizar-se numa área de se-milegalidade, conforme a região e as circunstâncias: prostitutas, vadios, capangas, além dos marginais propriamente ditos.
O governo colonial procurou ocupar esta mão-de-obra fre quentemente ociosa, canalizando-a para as tropas auxiliares (os “ regimentos de pardos” ), o emprego em obras públicas (como ocorreu no século XVIII no Rio de Janeiro e Salvador) e o estabelc' cimento de povoações.
Os libertos eram basicamente ex-escravos que conseguiam 3 liberdade de forma legal, fosse através da alforria dada pelo pr0' prietário (em caso de testamentos, por exemplo), fosse pela con>' pra da própria liberdade. Esta última operação ocorreu com m3lS frequência na região mineradora, na segunda metade do secu lo XVIII. Consistia na manumissão de escravos que, por si Pr0 prios ou com o apoio de uma irmandade, conseguiam indenizar
senhor. Vindos da África ou nascidos no Brasil, em geral conse guiam sua liberdade em torno dos quarenta anos, casando-se poS teriormente.
Os escravos, indígenas ou negros, formavam a larga base pirâmide social. A repetida afirmação do jesuíta Antonil, de <1 eram os pés e mãos dos senhores de engenho, poderia ser esten da às demais atividades profissionais do Brasil c à própn3 c \ brasileira, onde sempre existiu a escravidão doméstica. Ale«11 significado econômico, o escravo tinha importância social: cedo o prestígio dos senhores foi medido pelo número de esct3 possuídos, o que levou os críticos iluministas a lastimar que
da if
quando os estrangeiros pobres venham estabelecer-se no país, em pouco tempo, como mostra a experiência, deixam de traba lhar na terra com seus próprios braços e logo que podem ter dois ou três escravos, entregam-se à vadiação e desleixo, pelos capri chos de um falso pundonor. (José Bonifácio, 1825)
O desprestígio do trabalho manual e a visão do escravo como um objeto foram conseqüências da escravidão em geral, que se re petiram na Colônia. Mesmo do ponto de vista legal o escravo era considerado objeto, e não sujeito, de direito. Não possuía direitos individuais e era incapaz de contrair dívidas. Para os efeitos pe-n*is, entretanto, a legislação e a jurisprudência admitiam que, cri minoso ou vítima, poderia atuar como sujeito de direito, apesar de extstirem várias restrições processuais à sua presença em juízo.
A atitude ambígua da lei com relação ao escravo decorria, em grande parte, das restrições à escravidão, manifestadas pela Igreja e Pelo direito canônico, que determinavam, no caso de dúvida, a Prevalência do favor da liberdade, pois a escravidão era considera-sempre circunstancial e não natural. Da mesma forma, determi-n3va-se que o filho de senhor com escrava deveria ser livre, por ser contrário ao direito natural ter o pai o próprio filho como escravo. e 0 primeiro aspecto não teve maiores conseqüências sociais, o Segundo foi corrente na Colônia.
Mobilidade social, morgadios e formaçSo das elites. Os setores marginalizados
^ mobilidade social na Colônia, pelas próprias características do ^ sistema econômico, era mais fácil do que em Portugal, onde a ^ciedade cra estratificada há centenas de anos. Aliás, este foi um
l s a t i v o s da aventura colonial, não só para portugueses como
ra os demais povos europeus.
nir ^ 3S re8 '° cs pobres como São Vicente ou o Estado do Mara-pa a° ’ nas <Juais a riqueza não chegou a propiciar uma estratiti-Q^a° ma*s acentuada, as fronteiras entre os diferentes segmentos ■D *a*S nao cram rígidas — exceto para o escravo. Em Pernam-i p^° c ^ahPernam-ia, porém, a ascensão socPernam-ial era maPernam-is restrPernam-ita, poPernam-is as ra rtun'dades econômicas já estavam monopolizadas pelos se-o ° res cngenho e demais proprietários rurais. Uma ascensao S(., | a de João Fernandes Vieira — mulato pobre que chegou a 1 de engenho — foi excepcional, embora tenham existido ca
sos menos espetaculares de imigrantes portugueses que, estabeleci dos inicialmente como mercadores, compraram terras e montaram engenhos. Na área pecuarista, entretanto, a conjugação de inte resses dos primitivos sesmeiros em aumentar seus arrendamentos com os do Estado, desejoso de consolidar a expansão territorial, permitiu o estabelecimento de antigos vaqueiros como arrendatá rios e, depois, proprietários.
No litoral, a ascensão do mascate estava associada às condi ções conjunturais do comércio, além da sua própria habilidade, o mesmo podendo ser dito do tropeiro do Sul no século XVIII. Am bos representaram formas alternativas de mobilidade social, nos quadros de uma sociedade agrícola.
Foi, entretanto, na região das minas que ocorreu no sécu lo XVIII a mobilidade mais intensa, tanto pela atividade minera-dora do ouro e do diamante em si, como pelos demais empreendi mentos econômicos indiretamente estimulados em torno e nas ci dades de Vila Rica, Mariana, São João d’El Rei, Vila Boa, Vila Bela, Serro e Tijuco. Aí, como nas cidades portuárias, é difícil pre" cisar quando um artesão bem-sucedido deixava de ser “hom«11 livre pobre” para tornar-se elemento do setor intermediário, com direito a uma propriedade urbana (ou mesmo uma chácara) c 3 guns escravos, de uso doméstico ou destinados a auxiliá-lo cm sua profissão. Ou ainda quando, em conjuntura desfavorável, ou p°r motivos pessoais, pelo contrário, perdia seu patrimônio e voltava à condição anterior.
Instituição tipicamente estamental para garantir a estratu»-^
ção social foi o “morgadio”, de origem portuguesa, aplicado^ Brasil sobretudo nas propriedades dos senhores de engenho.
in> seava-se no direito da primogenitura, pelo qual apenas o PriIT1 filho herdaria o patrimônio paterno, forma de garantir a indivl lidade da propriedade. Essa instituição, ao lado da impenhor< ^ lidade dos bens dos senhores de engenho, várias vezes rca^ '^ * ca pelo governo português, garantiu a estabilidade social e econ ^ dos senhores de engenho. Determinou, também, o destino ^ mais filhos: as mulheres recebiam o dote, o segundo filho 0 ^ bacharelava-se em leis em Coimbra, habilitando-se à atividau rocrática no Estado, e o terceiro ingressava numa ordem rc ^ com ou sem vocação. A solução garantia amparo econômico ^ tus de nobreza, pois os doutores eram “capazes de entrar n
entra em uma Religião das menos austeras, veste, come, canta, conversa, não o penhoram pela décima, nem o prendem para a fronteira (...) enfim é um religioso de muito boa vida. (padre An
tônio Vieira, Sermão de S. Pedro Nolasco)
Aliás, além da propriedade rural, o serviço público num cargo elevado e uma dignidade eclesiástica eram os principais elementos de nobilitação a que se podia aspirar na Colônia, sendo ou não descendente de senhor de engenho.
O morgadio foi modificado em 1770 pelo marquês de Pom bal, que aboliu aqueles inferiores a duzentos mil-réis, por consi derá-los contrários à justiça e ao crescimento da população. Mas, ao mesmo tempo que restringia sua generalização, Pombal permi tiu que os comerciantes também os instituíssem, terminando com a secular discriminação aos negociantes portugueses e procurando favorecer o surgimento de mais uma aristocracia, além das de san gue e de serviço ao Estado, sendo esta nova de origem plutocrá-tlca» provinda da riqueza mobiliária.
Os setores dirigentes da sociedade — proprietários, alta buro-Cracia, comerciantes, alto clero — não eram, como às vezes se in terpreta, estanques. Além da presença, na burocracia e no clero c°l°niais, em especial no século XVI11, de descendentes de proprie-terios rurais, houve uma bem-consolidada rede de interesses, quase ternprc sedimentada no parentesco através de casamentos e com-Padrios, ligando proprietários rurais à alta burocracia portuguesa c°lonial. A tendência para a prática de uniões endogâmicas entre as famílias de proprietários rurais do Nordeste colonial era bastan te conhecida, de modo que, no século XVI11, um grande número eias, nas diversas capitanias, era aparentada. Estudos recentes ^ stram, porém, que isto se verificou também entre proprietários ur°cratas, como ocorreu com juízes, ouvidores e desembarga-Cm csPccial no Tribunal da Relação da Bahia, no período de u ® a 1750, ou com a permissão para que comerciantes baianos
gtessassem na Misericórdia (século XVW).
Assim, a idéia do clã rural e da família patriarcal do senhor de c|'8cnho, que relegavam a um plano secundário e isolado comer-sécMCS C burocratas, deve ser restrita cronologicamente, de fins o ul° XVI a princípios do XVIII. Se essas características não desa-teijTnram dc todo no sécul° xvm» clas scm dúvida foram mml*
3 as Pda entrada em cena dos novos agentes sociais.
local e de época, compreendiam todos aqueles que, por algum mo tivo, não se adaptavam aos quadros da sociedade estamental, a despeito de sua relativa frouxidão nos trópicos. Sua origem pode ria estar vinculada a situações sociais, como era o caso, nas áreas da grande propriedade rural, daquele que perdia o apoio do pa triarca e era excluído de sua clientela, ou ainda, tanto na vila como no interior, dos filhos naturais. Aos assim excluídos restava o cri me, a vadiagem, a mendicância e, para as mulheres, a prostituição. De outro tipo era a marginalização de judeus e ciganos. For malmente proibidos de seguir sua religião e costumes, obrigados a conversão ao cristianismo, sempre suspeitos de “criptojudaísmo (prática oculta dos rituais judaicos), os cristãos-novos, até meados do século XVin, foram hostilizados com relativa freqüência. Além de indiciados nas duas visitações do Santo Ofício (1591 e 1618), muitos deles eram acusados, por desafetos, com ou sem motivo, de práticas judaizantes, ofensas à Igreja católica e até de pactos de moníacos, no que um historiador chamou de “diabolização dos judeus” no período colonial.
Estes fatos estavam ligados não apenas à religiosidade barro ca, ao mesmo tempo mística, etnocêntrica e preconceituosa, mas também a fatores mais concretos, como a forte presença de cris tãos-novos no comércio da Bahia e Pernambuco, assinalada antes, durante e após as invasões holandesas. Apesar de tentativas ante riores, como a proposta do padre Antônio Vieira, em meados u século XVII, foi somente com o marquês de Pombal, em 1773, Que se proibiu a distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos. 1 ano seguinte foi abolida a declaração de infâmia em caso de apoS tasia (abandono da fé), o que na prática permitia aos judeus e seus descendentes o acesso a cargos públicos e honrarias.
Quanto aos ciganos, até meados do século XVIII o governo português ora determinava sua deportação para o Brasil, ora Pr01 bia sua entrada na Colônia, mas sempre demonstrando em rel a eles uma atitude hostil. Também com o marquês de P o m b a ^
sapareceram as restrições a esta etnia, permitindo-se sua en tra
no Brasil. Consta, dessa época, uma autorização para o assen
mento de ciganos como agricultores na Bahia. r Observe-se, entretanto, que em todo o período colonial c<^
decarater
tmuaram as restrições aos judeus e ciganos, quer as ciai, quer as de caráter oficial, pois tais grupos eram t temidos — como diferentes e ameaçadores, numa comu
tremamente etnocêntrica e que não podia conviver facilmente e de modo tolerante com valores múltiplos e múltiplas verdades. A reli gião, os costumes e a língua continuavam os elementos básicos da identidade cultural. Religiões, costumes e línguas diferentes eram aceitos com dificuldade tanto pelo homem comum como pelo ad ministrador público.
Cl&s e rixas
A existência de famílias extensas — clãs, para Oliveira Viana, fa mílias patriarcais para Gilberto Freire — , com dezenas e até cente nas de descendentes, colaterais, agregados e escravos, foi uma rea-•dade social — embora não a única, conforme estudos posteriores Vem demonstrando — em todo o período colonial. Exercendo um Poder inconteste nos seus domínios, apenas enfraquecido se e Quando o Estado conseguia estender sua autoridade até a região, o que freqüentemente se deu apenas no século XVIII, o chefe do clã £mha sua força contrabalançada somente pela existência de outros c as semelhantes. Assim, a luta entre famílias foi uma constante nos séculos coloniais, pelos mais variados — e às vezes fúteis — motivos.
Na capitania de São Vicente, entre 1600 e 1675, houve oito essas pequenas guerras locais, a mais importante delas sendo a °?. res contra os Camargos, que acabou envolvida em aspectos P° íticos maiores em 1640, quando ocorreu a Restauração portu guesa.
Os conflitos, aliás, por várias vezes extrapolavam o caráter de
f * * Pr>vada rural. Houve arregimentação de forças a partir de
° 1 ariedade e inimizade familiar na composição das alianças °rridas durante a Guerra dos Mascates, em Pernambuco. O mes-010 se deu nos diversos choques entre os moradores de São Paulo e f S taubateanos até o início do século XVIII, o que acabou por
favo-r a vitófavo-ria dos emboabas, nas minas.
rj 01 1697, um conflito opôs paulistas e santistas. O propneta-int ^au^'sta Timóteo Correia prendeu um desafeto, acusando-o de lQCrcePtar a renda da alfândega de Santos. O acusado, porém, era àa1*1^3^ 6 6 Proteg'do de um rico proprietário e comerciante de cie t0S’ ^ '° g ° Pimo do Rego, que o soltou da cadeia. Foi o sufi-'0 h tC ^3ra ^ue ° ofendido senhor paulista marchasse do planalto re a vila de Santos, à frente de cem brancos e mamelucos e
quinhentos índios. O conflito, que acabou numa composição, de monstrou não só a força dos interesses privados e a capacidade de guerrear em torno deles, como a oposição entre sertanistas do pla nalto e comerciantes do litoral, antecipando, em escala menor, o que ocorreria pouco mais tarde no Recife.
Em outras capitanias repetiram-se lutas familiares, até o século XIX. Montes contra Feitosas, Cunhas contra Patacas, Militões con tra Guerreiros, Mouras contra Canguçus demonstravam que, para além de circunstâncias pessoais e causas específicas, os choques eram típicos de uma determinada forma de organização social.
Família: casamento e divórcio, concubinato e prostltulçio A escassez de mulheres brancas na colônia parece ter sido geral até meados do século XVIII. Os jesuítas, no século XVI, a lastimavam» pois isto favorecia o concubinato e as uniões múltiplas, chegan do Manuel da Nóbrega a pedir o envio subsidiado de mulheres, “mesmo de mau proceder”. O governo português, nessa época, patrocinou a vinda para o Brasil de órfãs, com a finalidade de casá-las na terra. A preocupação dos jesuítas e do governo rendeu frutos, pois Anchieta se refere, apenas para o ano de 1584, a 45 casamentos realizados na Bahia, o que não significa, evidentemen te, que todos tenham sido com mulheres brancas.
Nos séculos XVII e XVIII, pelo menos até 1750, o problem3 continuou èm quase todas as capitanias, sempre motivado pelo 3 to de o imigrante português, em geral, encarar a Colônia cotn°
local da realização de lucros e não de fixação definitiva. Em Mm Gerais, pelo menos até a década de 1730, a escassez de mulhe em idade de casar, de origem portuguesa, provocava o surgimen de filas de pretendentes, que o pai da noiva tinha dificuldade c selecionar. Na Bahia e em Pernambuco, por sua vez, de finS século XVII em. diante, o costume de enviar uma ou mais filhas p ra o convento agravava a situação, sendo freqüentemente cri i
do pelos administradores. _ .yj|
A organização do casamento estava prevista na legislaça0 e eclesiástica portuguesa e, para a colônia, foi reiterada, n° *ni | , do século XVIII, nas Constituições Primeiras do Arcebispao0 ^ Bahia. De um ponto de vista exclusivamente religioso, o casam
to era encarado como um sacramento no qual os próprios 1,1,1 ^ eram os ministros. A sociedade e o Estado, porém, inter
abertamente na relação. Em primeiro lugar, as normas relativas ao casamento, como todas as outras, variavam de acordo com a or dem à qual pertenciam os nubentes. No Brasil, existiam também adaptações regionais, que o faziam diferente da Metrópole em al guns aspectos. Além disso, desde o século XVI — mas sobretudo com o processo de centralização acentuado no século XVni — , a Igreja buscava impor a intermediação de sacçrdotes nos casamen t o . e o Estado legislava no sentido de aumentar a autoridade do Pai> em especial da nobreza, procurando evitar o individualismo dos noivos.
Este, aliás, limitava-se não só no caso de menores de 25 anos, Çue precisavam autorização paterna para casar, como para o ho-•nem que servia nas tropas regulares e nas milícias, dependente do c°nsentimento de seu chefe militar. Como, pelo menos teorica-•Jtcnte, todos os homens livres nelas serviam, isto na prática ten-Cu a fortalecer o poder paterno, pois não foram raros os casos de aPdos de pais interessados em impedir o casamento de seus filhos. Conflitos entre as duas instituições sobre o casamento não °tam incomuns: dentro da concepção mercantilista de que um stado rico e poderoso tem por base uma grande população, as aut°ridades governamentais, em geral, procuravam incentivar os Casamentos, visando à procriação. A Igreja local, por seu lado, j^ha outros interesses, como estimular a expansão do clero e co-rar em dinheiro sua participação nos casamentos. Foram fre mentes as queixas de parte a parte, sobretudo no século XVIII,
Uando se acentuou a política regalista de submissão da Igreja 0s desígnios estatais.
. . Cs impedimentos matrimoniais eram aqueles definidos pelas n d ^an° n*casi como alguns graus de parentesco por consangui-sè * f 6 a frn‘dade, err° essencial de pessoa, coação, incapacidade <o^ a » raPto e ausência de pároco e testemunhas. Os primeiros, c'ç retudo, foram obstáculos difíceis de superar no meio rural, on-c'a ?Jam ma*s freqüentes as uniões endogâmicas. O padre Manuel c °b rega, no século XVI, já defendia maior flexibilidade na con-cend^ dispensas, como forma de legitimar as uniões e sua des-Cl l^Cnc*a> procedimento reiterado por vários religiosos ate o se-d ’ Mas somente em 1790 o papa Pio VI autorizou a
conc6? 31^ * 0 das decisões, ao permitir que os bispos brasileiros * CSSem as dispensas.
sar-sc, sem que os senhores pudessem impedi-los. Na prática, entre tanto, sobretudo no meio rural, era freqüente que os senhores obs tassem esses casamentos. Já nas vilas e cidades, à medida que se consolidou a colonização, tornaram-se menos raros. Em São Paulo, na paróquia da Sé, entre 1769 e 1822, foram de escravos quase 30% dos 3.549 casamentos realizados.
A dissolução dos casamentos era admitida pela Igreja em cir cunstâncias previstas na legislação eclesiástica: entrada de um dos cônjuges na vida religiosa, heresia comprovada de um deles, aban dono do lar, adultério e maus-tratos. Também em São Paulo, entre 1700 e 1822, tramitaram 248 processos de divórcio, predominan do, para as mulheres, os motivos de maus-tratos, abandono e adul tério dos maridos.
A doutrina vigente sobre o casamento e a família, como tantos outros aspectos da vida colonial, deita raízes nas concepções me dievais, sendo bastante diferente do retrato da família patriarcal definido por Gilberto Freire, onde conviviam o matrimônio mono-gâmico do senhor e o seu concubinato com escravas. Essa doutrina se fundamentava no direito canônico e nas concepções de São Pau lo e Santo Agostinho sobre a mulher e o casamento, reafirmadas pelo Concílio de Trento no século XVI. Obras como Espelhos de casados (João de Barros, 1540), Casamento perfeito (Diogo P-
Andrada, 1630) e Carta de guia de casados (Francisco Manuel de
Melo, 1651) refletiam tais concepções: sobriedade e equilíbrio no falar, vestir, comer, beber e no sexo, este último entendido com° um “mal menor", restrito à procriação, por causa da inferiorioa ^ da mulher, baseada na definição clássica de Aristóteles na Pohtta*’
A “ordem natural" desejada por Deus (e pelos teóricos do a solutismo, interessados numa população extensa) era a do cas' mento. Fora dela, reinavam o pecado e a devassidão. M e s m o
solteiro tardio não era bem-visto:
Se algum homem passa da idade e não casa logo, é mui tachado e assinalado entre os outros. (João de Barros, 1540)
A família tornou-se altamente protegida pelo Estado. bre as relações familiares, as sucessões e a atividade comerofavoreciam. No caso da herança, regulada pelas Ordenações <
-posteriores, em especial as "leis testam entárias" da P j^ pombalina, era patente a preocupação com a estabilidade rai‘“ !jva A nobreza permitia-se a instituição do morgado, que imo '1 “
parte substancial dos bens como patrimônio indivisível, transmiti do por primogenitura.
A lei pombalina de 9 de setembro de 1769 ampliou a possibi lidade da instituição de morgados para os servidores do Estado, como militares e magistrados, e ainda àqueles dedicados ao co mércio e agricultura (na prática, os grandes comerciantes e fazen deiros), o que ainda assim alargava notavelmente o instituto para todos aqueles que possuíam bens de importância.
Aos demais segmentos sociais e aos filhos segundos dos seto-res privilegiados aplicava-se a lei sucessória comum, que determi nava a divisão do patrimônio entre todos os herdeiros, na ordem de escendentes, ascendentes e colaterais. O testador tinha direito a dispor livremente de apenas 1/3 de seus bens (a “terça”), legando-0s a quem desejasse.
Existiriam, no Brasil colonial, entretanto, vários tipos de or ganização familiar. A família patriarcal ou clânica, mais conheci-a Pel° s estudos de Gilberto Freire e Oliveirconheci-a Viconheci-anconheci-a, compreendiconheci-a, m do tronco familiar e da parentela, os agregados, numa rede c°m plexa de parentesco e lealdades pessoais que, no latifúndio, ^nvolvia centenas de pessoas. Não foi, porém, o único modelo de mflia, especialmente no século xvui. Formas mais simples de m has nucleares existiram por todo o Brasil, com pai-mãe-filhos ’ 6,11Seral, alguns outros parentes.
t . la b o r a tenham existido diferenças regionais, as atitudes men-ls não parecem ter variado da família patriarcal às unidades me-la? r^S: Pátrio poder exacerbado, isolamento das mulheres, ínvio-, / ‘dade do larínvio-, o que fez um historiador comentar que a família hih SC rcsum‘a na fórmula: “pai soturno, mulher submissa,
aterrados" (Capistrano de Abreu).
es Padrão nuclear existiu também para a família escrava, que n'i i ^S. rcccntcs tnostram não ter sido tão escassa como se supu-cra * indícios dela em áreas rurais, onde a concentração de es-Cra maior. Nas áreas urbanas mineiras ela era rara, pois d0m° s Proprietários tinham apenas um ou dois escravos. Ai, pre-«« 0 / nou a família de ex-escravos (libertos). Em São Paulo, como *crvou a propósito dos casamentos, ele não era desprezível, loç. otc foi instituição típica dessa sociedade de estamentos nos
90% das famílias proprietárias na capitania de São Vicente dota vam suas filhas com terras, gado e escravos, às vezes em maior quantidade que a herança dos herdeiros masculinos. Com o dote, a família da noiva tinha como objetivo não só apoiar materialmente o novo casal, como mantê-lo perto de si (doação da casa) ou deter minar sua atividade econômica (terras e escravos).
Em São Vicente, conforme demonstrado em pesquisas, o dote consistia nos séculos XV II e XV III em meios de produção colocados à disposição do casal, sendo secundários os bens de consumo. Já no século X IX (com início no anterior) definiu-se movimento in
verso, com predomínio dos bens de consumo. A evolução do dote retrata bem a decadência do patriarcalismo, o desenvolvimento da economia mercantil, o individualismo e a transformação da famí' lia de unidade produtora (e auto-suficiente) em consumidora.
A generalização do concubinato nos séculos coloniais levou o historiador Charles Boxer a comentar sobre a existência de um duplo padrão sexual para o homem e a mulher. Embora muitas vezes criticado no púlpito das igrejas, o adultério dos maridos, quase institucionalizado nas famílias patriarcais, tinha como con trapartida a reclusão muçulmana” das mulheres. A consequência era uma multidão de filhos naturais, muitas vezes postos à mat* gem da sociedade como vadios ou bandidos. Mesmo em outras camadas sociais e entre o clero, o concubinato e os filhos adulte-rinos — apesar do estigma, inclusive legal, que carregavam — I°l generalizado. Trata-se, é claro, de uma caracterização geral da Co-
lônia, que não elimina a necessidade de se levarem em conta dite rentes épocas e regiões.
A frequência do concubinato não deve ser associada apenas a existência da escravidão e ao caráter muitas vezes aventureiro vida colonial. Mesmo em áreas mais consolidadas, como nas vil |S e cidades do século XV III, era frequente o adiamento ou a nao realização de casamentos por dificuldades econômicas circunst111 ciais (como a crise do final do século); pelos elevados preços ■<’ brados pela Igreja; e pelo encaminhamento das mulheres a ^ i
religiosa, por pais excessivamente preocupados com a salvaç“ das próprias almas ou com o valor do dote.
Outro fator de estímulo ao amancebamento e ao concubin* foi a oposição de senhores ao casamento de seus escravos quantidade de religiosos sem vocação. As Constituições Pritnelt^
uma gradação das penalidades impostas aos clérigos amanceba dos: admoestação em segredo, corte de 1/3 dos proventos e benefí cios, suspensão por um ano, suspensão definitiva de proventos e benefícios e, finalmente, proibição do exercício do sacerdócio.
A moral social, apesar de sua base católica e tridentina, parece ter oscilado em função do número de mulheres brancas disponí-veis para o casamento. Em períodos de escassez, como no sécu-!° ^VI, houve maior tolerância em relação aos “maus costumes”, inclusive concubinato. Já em épocas de maior contingente femini-no> como no século XVIII, a tendência foi para maior rigidez nos costumes, como verificaram pesquisas sobre o tema em São Paulo. °bre a prostituição há registros desde o século XVI. Usualmente, as prostitutas eram negras e mulatas, escravas ou livres, que dispu-n am de seus corpos quer para si próprias, quer, dispu-no caso das pri-t^ciras, para seus senhores (ou senhoras). Um irado despacho do re* Pedro II, em 1700, lastimava e proibia a prostituição de escra-P °r suas senhoras baianas, providência que não deve ter surti-0 muito efeito, pois o fato voltou a ser constatado alguns anos " lais tafde pelo viajante francês La Barbinnais. Sessenta anos
an-es> a Câmara da Bahia denunciava:
sta cidade estava mais dissoluta no trajo das escravas com as m*utas galas que lhes davam os seus amigos, que chegavam a tanto extremo que por elas muitos casados deixavam suas mu-
cres e a fazenda perecia.
1711 é o comentário muito conhecido de Antonil:
Porras mulatas desinquietas de perdição manifesta; porque o di- n e,r°> que dão para se livrarem, raras vezes sai de outras minas l1' dos seus mesmos corpos, com repetidos pecados; e depois de ° rras continuam a ser minas de muitos.
-'*ntf>*VCrSas k*s suntuar*as foram editadas, em várias épocas, vi-p, ltj ° s°bretudo à ostentação das prostitutas. Mas sua própria re-n'„ a° ’ a^m do testemunho dos contemporâneos, evidencia que a situCS°~VCram ° Pr°blema. Na região mineradora do século XVIII déca(ja^ao n* ° era diferente das áreas portuárias. Nas primeiras de estraÍ’ ? Uando a soc*edade ainda não chegara a nenhum padrao a igfc at* *CaÇão mais estável, a prostituição campeava. Sabe-se que cotv.
Ja
e_ Nossa Senhora do Rosário, de Vila Rica, foi construída cabeça'Ja<'? cs de Prostitutas que iam das minas até o pórtico com a P° vilhada de ouro em pó e a lavavam naquele local.Mes-mo com a sociedade mais organizada, episódios coMes-mo o de Chica da Silva, que passou de prostituta a grande senhora, não eram iso lados. Existiam, ainda, as casas de prostituição, ou “casas de al-couce”, em geral freqüentadas por homens livres pobres ou por es cravos, tanto nos núcleos mineradores como nos litorâneos. Eram, aliás, inúteis as queixas contra os “saraus e galhofas” promovidos. A prostituição colonial ganhou, assim, nítido contorno social; associando-se nela a pobreza que oprimia a maior parte da popu lação livre e a condição escrava, que reduzia o ser humano a obje to não apenas de trabalho, mas de prazer.
Sentimentos religiosos e crenças
Os sentimentos religiosos e as crenças foram resultados, no perío do colonial, da conjugação de três universos culturais inteiramente distintos: o branco, preponderantemente português e católico; o indígena, predominantemente tupi; e o negro, composto por Suda
neses e bantos. O sincretismo religioso que ocorreu ao longo dos três séculos coloniais foi a contrapartida espiritual da miscigen3" ção que ocorreu no plano social.
Entretanto, também no plano religioso havia um padrão do minante, o do catolicismo português, imposto tanto por uma moti vação genuinamente espiritual inerente ao próprio cristianismo " doutrina messiânica da salvação pela conversão dos infiéis, ac»r rada no Portugal medieval pela hostilidade a mouros e judeus ^ ^ como pela necessidade política da uniformização religiosa 1 consciências. Mesmo na Europa ocidental, muito mais homogen^ culturalmente, foi preciso esperar a “crise da consciência europeia e o Iluminismo para que se admitisse a liberdade religiosa e a to ^ rância à pluralidade. No Brasil colonial não seria diferente: to
cont‘,r' ii ti-
1
lou-sistematicamente reprimidos, com maior ou menor sucesso me a época e a região, o sincretismo luso-indígena, como as s dades da Bahia no século XVI e os cultos de origem africana, ve, além disso, intolerância à presença de protestantes e judeus.
O catolicismo colonial baseou-se teologicamente na do ^ reafirmada pelo Concílio de Trento, aplicada no Brasil sol'rt n. pelos jesuítas. A Inquisição também esteve eventualmente i“ j , te. Reafirmou-se oficialmente a tradição medieval da Igreja» - ^
mais evidenciada no plano das práticas religiosas da populaÇ
origem portuguesa. Esta trouxe para o Brasil sua religiosidade mística, suas devoções e suas superstições que, muitas vezes, fun diram-se às práticas assemelhadas das comunidades indígenas e negras. Havia, aliás, um fosso cultural entre aquela religiosidade e as sutilezas teológicas e filosóficas dos doutores da Igreja, con forme a interpretação do Concílio de Trento, razão pela qual as determinações, embora sucessivamente reiteradas pelas autori dades eclesiásticas, foram muito imperfeitamente aplicadas no Brasil, em especial pelo clero secular. As críticas a este, aliás, eram frequentes, reclamando-se de seu desregramento (sacerdotes casa dos, investidas sexuais sobre fiéis) e do excesso de interesse mate rial (participação em intrigas políticas, manipulação de bens e ser viços eclesiásticos).
Foi generalizado na Europa de fins da Idade Média, e muito explorado pela Reforma, o fenômeno de uma catolicidade popu lar, mística, devota e supersticiosa, distinta do sofisticado catoli cismo oficial praticado pelo alto clero das dioceses e universida des. O mesmo ocorreu no Brasil colonial, aonde acrescentaram-se os elementos culturais de indígenas e negros. Fator comum às con cepções católicas (especialmente nas suas versões populares), indí genas e africanas foi a idéia de um universo integrado, no qual os fenômenos aparentes dependeriam de forças sobrenaturais que os c'ingiriam. Nada mais oposto, portanto, do que a concepção re nascentista, que ainda levaria dois séculos para amadurecer na própria Europa, de universos físicos, biológicos, religiosos, filosó-icos, separados e independentes, cada qual compreensível por ins trumentos e métodos específicos.
A concepção integrada do universo explica, assim, a presença do milagre nos textos dos cronistas portugueses, como também
ex-1 Üca a floresta povoada de magia, tal como era vista pelas comuni
dades indígenas e negras. Os fenômenos, em primeira ou em ulti ma analise, sempre podem e devem ser explicados a partir de seus vínculos sobrenaturais, porque estariam encadeados numa grande ord iv. cósmica muito imperfeitamente intuída pelos homens.
A semelhança de concepções não vai além, pois o catolicismo — '•orno o judaísmo, o islamismo e as outras religiões que lhe sao aparentadas — estabeleceu uma hierarquia de diversos graus que culminava em Deus, ou seja, numa idéia monoteísta da divindade. Já no caso das religiões indígenas e africanas, este traço mexiste o» é secundário em relação às práticas mágicas que estabelecem as
relações entre/os homens e as diferentes entidades metafísicas (“espíritos da floresta”, “espíritos dos antepassados”, “espíritos das águas”).
As atitudes sincréticas e supersticiosas revelavam-se em mui tos aspectos da vida social. A divindade africana das águas, por exemplo, tinha sua correspondente na “moura encantada” da tra dição portuguesa, deusa das águas que, vaidosa, vivia junto as fontes, penteando-se. A cor vermelha era considerada eficiente contra os maus espíritos nas três culturas: muitas tribos usavam tinturas desta cor para espantar os demônios da floresta; os portu gueses colocavam fitas desta cor no pescoço dos animais e usavam preferencialmente telhas vermelhas em suas casas; a tradição afri cana também a considerava profilática contra os maus espíritos, razão pela qual nos maracatus e reisados o rei e a rainha vestiam-se com trajes vermelhos.
A concepção indígena de que a floresta era povoada por seres mágicos combinava-se com o imaginário medieval que os portu gueses traziam de sua terra, com o imaginário africano e com 0 catolicismo. Assim, em documentos missionários, há frequentes referências associando os espíritos da floresta com o demônio o
tradição cristã, bem como expedientes híbridos para domina-ios-bala de cera benta para matar o caipora (se o atinge no umbigo)e o laço do rosário usado para aprisionar o saci são dois exempl°s-É possível, assim, figurar a religiosidade colonial como semprC
presente na vida dos homens, fornecendo explicações e s°)uí°f* para todos os momentos de sua existência. Era, em seu topo 0 ciai”, barroca, mística, muitas vezes soturna e angustiada, dom* nada pela obsessão com o pecado e o castigo eterno. Na pra social, porém, era mesclada e sincrética. Além dos princípio* religião oficial, incorporava elementos mágicos e supersticiosos ^ origem não apenas indígena ou africana, mas também me portuguesa, como o culto nas encruzilhadas. i;.
A despeito dos esforços da Igreja e do governo, as práticas giosas indígenas e africanas, ou aquelas sincréticas, foram cXten )f mente praticadas. A defesa da ortodoxia religiosa aparece, ^ exemplo, numa obra como Compêndio narrativo do pereg
América, reeditada várias vezes a partir de 1728, cujas pre ^
ções moralizantes visavam à orientação da “gente comum, , o) humilde, nos seus problemas da vida cotidiana” (Afrânio C °u^ esta e que, para os padrões coloniais, foi extensamente
conhecida-obra, o autor, Nuno Marques Pereira, dirigindo-se a um proprietá rio baiano, o repreende por tolerar que seus escravos praticassem o calundu, dança ritual africana entremeada de adivinhações:
Sabei Senhor (lhe disse eu) que, além de teres pecado mortal mente no primeiro mandamento da lei de Deus, estais excomun gado, e todos os vossos escravos, por convires e consentires em semelhantes superstições contra o mesmo mandamento.
Na época colonial, a vida religiosa do brasileiro girava em tor-fio da paróquia, até porque os registros civis faziam-se ali. Na igre-Ia paroquial o indivíduo era batizado, assistia aos ofícios religio-s°s, se casava, batizava os filhos e netos; depois, era sepultado no Ccmitério anexo. Havia, porém, outras vinculações religiosas dos c°l°nos, muitas vezes a partir de devoções que traziam de Portu-Assim ocorreu com as ordens religiosas, como os beneditinos, •Estalados no Rio de Janeiro, Olinda e Salvador desde o final do século XVI, os franciscanos, no Rio de Janeiro, Recife e São Luís, as clarissas e ursulinas na Bahia e os carmelitas no Rio de Janeiro, Cu)a entrada no Brasil deveu-se, entre outros fatores, a pedidos dos Pfóprios colonos, devotos de São Bento, Santa Clara, São Francis-Co ou Santo Antônio.
As manifestações religiosas nos séculos coloniais refletiam o Ue um historiador francês, referindo-se à religiosidade de seu r^1S> c^amou de “piedade barroca”. Na Colônia, ela se caracte-" ‘i por intensos sinais exteriores de devoção e pela incorpora-ja^hIC- C^cmcntos locais, como a representação de anjos, nas igre-e- a'3nas’ através de imagens de meninos índios. Apesar deste admite-se num plano geral que o catolicismo, no litoral, infi' " ma*or influência negra nos séculos XVII e XVIII, enquanto a •htef nCla 'n<^8cna tcr*a recuado do litoral (no século XVI) para o 0ndr,0r nos séculos seguintes, exceto no Maranhão e no Para,
Sua influência foi mais duradoura.
,lluita ®randiosidade visual do barroco, combinada com o caráter Ho -S VCZCs aventureiro, individualista e indisciplinado do colo-&ehos° Cst*mulava uma religiosidade profunda. Visitantes estran-r°sárS CSpantavam- « de ver homens munidos simultaneamente de lude ° S C P*st°laS' La Barbinnais, em 1716, chocou-se com a ati-ho Cn ‘ucc°rosa de noviças e religiosas numa representação teatral 'lnPed,iVCnt0 ^ csterro, em Salvador. Este fato, entretanto, nao 11 à mesma época, morresse no claustro, em odor de