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Vista do Beleza feminina, mídia e religião | Acta Científica

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Academic year: 2021

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Resumo: Através da pesquisa bibliográfica em associação com a entrevista em profundidade, este artigo objetiva verificar quais as relações existentes entre os conteúdos transmitidos nos meios de comunicação, referentes à temática sobre beleza e cuidados com o corpo, e o conceito de identidade feminina encontrada nas mulheres da Igreja Assembléia de Deus da cidade de Passo-MG. Pretende-se, com isso, inferir possibilidades quanto ao impacto da mídia e da religião para a formação da identidade feminina pentecostal, assim como constatar quais ligações existem entre a beleza e a identidade das mulheres da igreja pesquisada.

Palavras-chave: Mídia; Religião; Beleza; Mulher; Identidade. fEmininE BEAUTY, mEDiA AnD RELiGiOn

Abstract: This article aims to verify the relationship between the contents transmitted in the media about beauty and body care and the concepts of the female identity of Church Assembleia de Deus in Passos (MG), through literature research and interviews. The intends are give possibilities about the impact of the media and religion in the Pentecostal women identity and find what links the beauty and identity in this church.

Key word: Media; Religion; Beauty; Woman; Identity.

Gisele flor. mestranda em Comunicação Social pela Universidade metodista de São Paulo. Bacharel em Jornalismo. Bolsista Capes.

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A mídia propaga incessantemente imagens de mulheres que são consideradas modelos de perfeição física, corporal e de beleza. Estas são predominantementeloiras, magras com corpos malhados, seios e nádegasvolumosos, cabelos longos, lisos e bem tratados, com rostos maquiados, pele sedosa e para completar o visual, acessórios como brincos, colares, pulseiras, relógios, bolsas e sapatos.

Desta forma,os meios de comunicação divulgam através dessas mulheres o que a sociedade deve considerar como sendo o belo. Partindo desse pressuposto, podemos afirmar que a mídia funciona de forma semelhante a uma agenda social que pauta diariamente para a sociedade assuntos que devem ser discutidos, e que concretiza processo de construção e desconstrução de identidades, ao fornecer discursos sobre os quais a sociedade constrói imagens sobre práticas culturais, sociais e religiosas.

No entanto, como poderá ser constatado no decorrer da pesquisa, o poder de influência da mídia não é centralizado como acreditavam os teóricos da bala mágica1, mas sim pela

ênfase constante de determinada temática, pensamento sustentado pela hipótese da agenda-setting e de acordo com o grupo do qual a audiência faz parte. (Wolf, 2003, RilEy, 1971). Para desenvolver estapesquisa optou-se utilizar a hipótese da agenda-setting ,que está focada no entendimento de que mídia não diz como pensar, mas sobre o que pensar, e na teoria sociológica da audiência sobre os grupos de referências primários2.

os objetivos propostos são analisar se o conteúdo transmitido pelos meios de comunicação (televisão e revistas) sobre beleza e cuidados com o corpo influencia a identidade das mulheres da igreja Assembleia de Deus em Passos, analisar a relação mídia –religião na construção da identidade feminina e verificar qual a relação entre beleza e identidade. Para a consecução de tal intuito, foi utilizada uma entrevista em profundidade com mulheres com idade entre 15 a 40 anos da referida denominação evangélica pentecostal.

A escolha da igreja sede da Assembleia de Deus-Missão, em Passos (MG) se deve ao fato de ser uma das mais antigas do município e ser conhecida pela rigidez dos usos e costumes.

É preciso compreender a relação entre religião, mulher e beleza para investigar o papel dos meios de comunicação na construção da identidade feminina em igreja pentecostal com usos e costumes, uma vez que estes regimentos são alvo de críticas devido às mudanças ocorridas na sociedade, principalmente com relação a vestuário, maquiagem e corte de cabelo.

identidade, beleza e religião

A discussão sobre a identidade será fundamentada em Bauman (2005) e Hall (1999). Para Bauman, a ideia de identidade nasceu da crise do pertencimento e do esforço

1 Essa teoria prega que todo membro do público de massa é pessoal e diretamente “atacado” pela mensa-gem dos meios de comunicação. Cf. (Wolf, 2003)

2 A teoria defendida por Sherif, Newcomb, Merton e outros está centralizada nos processos através dos quais os homens se relacionam em grupos e referem seu comportamento aos valores do mesmo. Sendo que, a integração do indivíduo em um grupo pode afetar tanto a sua escolha de assuntos como sua inter-pretação de conteúdos da comunicação. (Riley, 1971)

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que esta desencadeou no sentido de transpor a brecha entre o “deve” e o “é”, está intimamente relacionada com comunidades ou pequenos grupos. Segundo o autor, este fato explica o anseio do indivíduo por ter uma identidade uma vez que o pertencimento a uma comunidade está ligado ao desejo de segurança e aceitação.

Mas, com a fluidez das relações humanas na pós-modernidade, a identidade tende a não ser sólida. Por isso, o autor afirma que

a identidade não tem a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indiví-duo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age e a determinação de se manter firme a tudo isso são fatores cruciais tanto para o pertencimen-to quanpertencimen-to para a identidade. (BAumAn, 2005, p.17)

A questão da fluidez da identidade também é discutida por Hall. Segundo ele, as identidades que estabilizaram o mundo social em épocas passadas estão declinando e abrindo espaço para novas e fragmentadas.

Hall explica que o indivíduo ainda possui o “eu” interior, mas os diálogos culturais fazem com que este “eu” se modifique de acordo com as situações e o próprio processo de identificação tornou-se mais variável e problemático. Este fato se deve à vida mediada, ao mercado global, ao estilo de vida e aos meios de comunicação.

Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identida-des se tornam identida-desvinculadas- identida-desalojadas- de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha. (Hall, 1999, p. 75)

Desse modo, percebemos que a identidade não é fixa como nas sociedades antigas, mas sim mutável e imprevisível. Assim como um camaleão, o indivíduo adapta sua identidade de acordo com o ambiente cultural e social do qual está fazendo parte em um determinado momento. Como se pode perceber pela citação dos autores, essas mudanças não marcam o fim de identidades e, consequentemente ,de comunidades e grupos, mas a construção de novas, que são fragmentadas e temporárias. É o que mostra Bauman ao relatar o comportamento das atuais comunidades

As comunidades guarda-roupa são reunidas enquanto dura o espetáculo e prontamente desfeitas quando os espectadores apanham os seus casacos nos cabides. Elas surgem através de um pretexto e as pessoas se reúnem devido a este pretexto. (Bauman, 2005, p. 37)

No entanto, segundo Hall a identidade conserva uma essência com o passado e com as comunidades. Para ele, a identidade está relacionada à história ao “invocar uma origem que residiria em um passado histórico com o qual elas continuariam a manter certa correspondência” (HAll, 1999, p. 65).

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A identidade corporal e estética feminina religiosa foi influenciada e reforçada principalmente no período medieval, já que para Berger a religião (instituição) “incorporam-se a experiência do indivíduo por meio dos papéis” (Berger, 1985, p. 103).

É na modernidade que os cuidados com o corpo e a beleza deixam de ser influenciados pela igreja e passam a ser ditados pela cultura. Atualmente, a mídia tem sido a grande responsável por ditar a identidade corporal feminina ao “vender” um modelo a ser consumido.

Cumpre aqui fazer um breve histórico baseando nas obras de Vigarello (2006) e Eco (2004) sobre a beleza e os cuidados corporais. A preocupação em manter um corpo bonito, saudável e perfeito acompanha a humanidade desde a antiguidade e em cada época houve um estereótipo aceitável de boa forma e beleza.

Em cerca de 1300 a.C., a mulher egípcia tinha vários cuidados em relação ao seu corpo, tomava banho todas as manhãs com uma mistura de água e carbonato de cal, usava uma pasta de argila derivada do lodo do Nilo, fazia esfoliações nos pés e cotovelos com uma pedra-pomes. os olhos ganham um destaque especial com maquiagem, pois era a parte do corpo mais valorizada. nesta época, a beleza estava relacionada, principalmente com os cuidados da pele e com a higiene do corpo.

Já durante a idade média a beleza passa a ter uma conotação negativa, uma vez que a mulher bela era o fruto do pecado. no Renascimento, as mulheres são esculturas moldadas com espartilhos e corpetes. o acessório apertava o estômago chegando a causar desmaios, mas apesar dessas inconveniências ele era peça essencial, pois passava um sinal de superioridade, uma vez que marcava o prestígio da classe dominante.

A identidade corporal e estética feminina religiosa foi influenciada e reforçada principalmente no período medieval, já que para Berger a religião (instituição) “incorporam-se a experiência do indivíduo por meio dos papéis” (BERGER, 1985, p. 103).

No fim do século XVI as carnes se destacam, a aparência se torna mais polpuda e o contorno mais consistente, a mão e o rosto são objetos primordiais para a admiração. A beleza feminina é valorizada sendo um exemplo de perfeição. na Era Barroca se acentuará a fartura das formas, os seios e as coxas são volumosos, quadris desenvoltos, flancos largos e a papada aumentava o charme feminino. A abundância de formas está relacionada à fecundidade e marca a condição da classe burguesa, a fartura da vida econômica e dos bens que a leva a adotar uma vida de abundância alimentar, negada à classe trabalhadora. Durante o século XVII, segundo Vigarello (2006) a corte dita os critérios do belo. O ombro é afastado para trás, o movimento da barriga para frente, a cabeça mantida fortemente empurrada materializa o orgulho das classes mais abastadas. O século XVIII marca a expansão do indivíduo e a beleza é comandada pelo lado sensível. Um duplo movimento se afirma: o apelo a uma beleza genérica, os quadris, os bustos ganham movimentos flexíveis; e o apego a uma beleza individual, a fisionomia impõe pela primeira vez a valorização do penteado com o formato do rosto. na segunda metade desse século a comercialização dos cosméticos ganha destaque.

No século XIX, a consideração de beleza e os cuidados com o corpo ganham novas tendências com desenvolvimento e a expansão industrial capitalista. Há a necessidade de disciplinar o corpo do trabalhador para que este, assim, se torne apto a acompanhar o ritmo da máquina.

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A expansão industrial, as descobertas da medicina, a disseminação dos esportes, o fenômeno da moda e o cinema contribuem decisivamente no processo de valorização de ideais e padrões de beleza, as silhuetas mudam, a cintura torna-se comprimida, o busto dilata e o corpo começa a ganhar uma figura atlética.

O século XX inicia acentuando os mesmos padrões do XIX. Os produtos cosméticos passam a ser industrializados e, em 1908-1909, Elizabeth Arden e Helena Rubistein inauguram cada uma seu salão de beleza. Essas duas são as pioneiras da indústria cosmética. Em 1910, os papéis femininos nos filmes se multiplicam e as jovens atrizes passam a ter o status de estrelas.

As mulheres se libertaram de certas regras do passado e mais tarde ganham expressão com as lutas feministas. A maquiagem ganha novas cores, o lápis para sobrancelhas e o batom surgem neste período. nos Estados unidos, em 1921, ocorre o primeiro concurso de beleza e as misses se tornam exemplos de perfeição física, conquista social e econômica.

Na década de trinta, Greta Garbo e Marlene Dietrich são mitos da beleza. A expansão do cinema norte-americano dissemina o padrão de beleza através das atrizes provocando um desejo para que todas conquistem o mesmo modelo.

A produção e o consumo em massa contribuem para a produção em série de cosméticos, o que torna o mercado mais competitivo e diversificado. Helena Rubinstein, Elizabeth Arden e Estée lauder contribuem para a expansão desse gênero de comércio juntamente com os meios de comunicação de massa. A expansão da indústria dos cosméticos contribui tanto para a expansão do mercado como para uma maior exigência em alcançar o corpo ideal.

Pode-se observar que não foram apenas os fatores econômicos que contribuíram para a construção do novo padrão de beleza, mas também os sociais. A mulher entra no mercado de trabalho por volta dos anos 80, ela precisa conciliar o papel de mãe, esposa, dona de casa e trabalho fora de casa. o uso da pílula anti-concepcional e a liberação sexual deram oportunidades para que as mulheres pudessem ter maior poder de decisão sobre seu corpo, escolha de parceiros e a opção de ter ou não filhos.

Já por volta dos anos oitenta, o que era para ser brinquedo de criança acaba influenciando o padrão de beleza feminino, a boneca Barbie implanta uma nova estandardização da boa forma física. Outro marco aconteceu nos anos 90: a valorização cada vez maior de mulheres que sobrevivem do próprio corpo. São modelos, atrizes e apresentadoras de TV loiras e magras que passaram a ter cada vez mais prestígio na sociedade brasileira.

No entanto, por trás da construção dos padrões de boa forma e beleza esconde-se uma ideologia política, elitista e social, pois a estética corporal serve como divisor social na medida em que exclui os que não estão nos arquétipos difundidos principalmente pelos meios de comunicação de massa. Para se alcançar o “corpo perfeito” é necessário fazer um investimento, uma vez que as técnicas, regimes, cosméticos e cirurgias não são de baixo custo.

Desse modo, podemos questionar qual a relação entre mídia, beleza e identidade nas mulheres evangélicas pentecostais que frequentam igrejas que ainda mantêm usos e costumes tradicionais. Cumpre indagar como uma identidade feminina assembleiana se

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portará numa sociedade atravessada por tantas pluralidades. Essa situação reflete o caráter amplo e complexo das vivências múltiplas que a pós-modernidade trouxe e que abalaram as estruturas de identificação do sujeito nela inserido.

Será que elas ainda continuam ligadas aos elos da comunidade da qual fazem parte ou já apresentam identidades plurais? Cumpre ressaltar que essas questões neste trabalho estão pautadas na identidade feminina com relação a cuidados com o corpo e beleza.

mídia e influência

A mídia ao divulgar valores, ideias, conceitos e pré-conceitos também é responsável pela criação, manutenção e dissolução de identidades e comunidades. no entanto, os receptores não assimilam a informação de forma passiva. Eles escolhem o conteúdo e a programação de acordo com seus interesses, necessidades e identidade.

os meios de comunicação aproveitam a enorme variedade de público e elaboram um leque de programação para atender a demanda. São várias as teorias que explicam a relação mídia-receptor, mas para a realização deste estudo optou-se por duas teorias a da hipótese da agenda-setting e a hipótese sociológica da audiência dos grupos primários.

Em resumo, a primeira linha de pesquisa afirma que ao se pautar os assuntos com frequência para a sociedade, esta acaba discutindo e se preocupando com as temáticas. Já a segunda diz que isso levará os expectadores a tirar suas conclusões, sobre como interpretar tais assuntos, em conjunto com a comunidade em que estiver inserido. As teorias servirão para que se possa interpretar a relação- mídia-religião, beleza e identidade feminina.

Maxwell Mccombs e Donald Shaw, lang e lang e Cohen (apud, Wolf, 2003) são os principais nomes da hipótese da agenda-setting. Antônio Hohlfeldt (1997) afirma que a agenda-setting é considerada uma hipótese por não se constituir em um paradigma fechado e acabado.

Ela faz parte dos estudos norte-americanos em comunicação pertencentes ao paradigma funcionalista, que reúne pesquisas preocupadas em analisar e detectar as funções dos meios e os efeitos causados sobre a audiência. Pesquisa a influência cumulativa e os efeitos a longo prazo.

A hipótese afirma que a mídia é uma grande agenda social que pauta todos os dias para a sociedade o que deve ser discutido, o que é importante incluir ou excluir das discussões diárias. Defende que em conseqüência da ação dos veículos de comunicação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descarta, realça ou negligencia elementos específicos dos cenários públicos.

Para Wolf, o efeito da agenda-setting na audiência pode ser sintetizado da seguinte forma: as opiniões não são mudadas pelos meios de comunicação, mas o papel destes é o de colocar na pauta preocupações do indivíduo, tema e assuntos. A influência dos meios de comunicação ocorre na medida em que os temas fazem aflorar determinadas opiniões que já existem no repertório atitudinal do receptor. A influência da mídia está na estimulação de certas opiniões e da supressão de outras ao repetir assuntos.

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Assim, percebe-se que o agendamento é um processo coletivo e possui certa reciprocidade, na medida em que a mídia pauta os assuntos para a sociedade, mas a audiência também pauta os assuntos para os meios de comunicação ao requererem temáticas que desejam conhecer mais.

Já a teoria da sociológica da audiência dos grupos focais prega que o receptor tende a dar mais atenção a mensagens que reforçam seus pontos de vista e o consenso do grupo propicia um standard ou um quadro de referências para os julgamentos individuais.

A integração do indivíduo em um determinado grupo pode afetar tanto a sua escolha de assuntos como sua interpretação de conteúdos da comunicação, deste modo as respostas do receptor devem ser entendidas primeiro em termos de seus grupos primários e ,posteriormente, nos termos da organização mais ampla, na qual os grupos estão inseridos.

A igreja Assembleia de Deus em Passos-mG e os usos e costumes

A igreja Assembleia de Deus, é conhecida no município de Passos-MG por ter rígidos usos e costumes, tais como: proibição de os homens terem cabelos crescidos, bem como fazer cortes extravagantes; as mulheres usarem roupas que são peculiares aos homens e vestes indecentes e indecorosas ou sem modéstias, uso exagerado de pintura e maquiagem, unhas feitas, tatuagens; uso de cabelos curtos em detrimento da recomendação bíblica; utilização dos meios de comunicação: televisão, rádio e uso de bebidas alcoólicas e embriagantes.

Para melhor esclarecimento, define-se aqui os conceitos de usos e costumes: “é a expressão utilizada pelos pentecostais para se referir ao rigorismo legalista, às restrições ao vestuário, uso de bijuterias, produtos de beleza, corte de cabelo e a diversos tabus comportamentais existentes em seu meio religioso”. (mARiAno, 2005, p. 187).

lakatos & Marconi (1999) classificam em duas categorias diferentes: os folkways (usos) e os mores (costumes). Folkways seriam Padrões não obrigatórios de comportamento social exterior constituindo os modos coletivos de conduta, convencionais ou espontâneos, reconhecidos e aceitos pela sociedade. São deliberadamente impostos, pois indicam o que é adequado e socialmente correto. Mores aparecem como normas reguladoras de toda a cultura e, apesar da obrigatoriedade e imposição, são considerados justos pelo grupo que os compartilha.

Análise da pesquisa

Para se entender se os objetivos e a hipótese da pesquisa (de que a mídia alterou a forma como as mulheres da Assembleia de Deus em Passos constroem sua identidade com relação a beleza e cuidados com o corpo) são verdadeiros se utilizou para a coleta de dados uma entrevista em profundidade com dez mulheres com idade entre 15 a 40 anos, número que representa 20% dos membros do sexo feminino nesta faixa etária na igreja.

As perguntas que foram realizadas em forma de entrevista são as seguintes: 1-Idade; 2-Profissão; 3-Escolaridade; 4- Assiste programa feminino? Quais os temas

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que mais interessam? 5- lê revista feminina?. Qual? Qual o tema que mais interessa e por que?; 6- Qual o seu conceito de beleza?; 7- O padrão estabelecido pela mídia está de acordo com suas concepções?; 8 - Você se sente dentro do padrão da mídia? Faria algo para mudar?; 9- A mídia te influencia a cuidar do corpo?; 10- A igreja exerce uma influência sobre seus conceitos de beleza e cuidados com o corpo?; 11- Você acha que existe um padrão de beleza “mundano” e outro religioso?; 12- Se sim, quem seria o padrão secular e qual seria o religioso?; 13- Para você a mulher bonita deve ter quais características?; 14- Você procura seguir os conceitos de beleza estipulado pela mídia ou pela igreja?; 15- Você usa maquiagem?

A análise mostrou que a mídia exerce uma influência nestas mulheres na medida que repete os assuntos exaustivamente. Nove afirmaram que suas temáticas preferidas ao ler revistas ou assistirem programas femininos são moda, beleza e saúde (que relacionaram com a melhor forma de manter e perder peso). Sete delas garantiram que são influenciadas pela mídia sobre como manter a forma, cuidados com a pele e cabelo e maneira adequada de combinar as roupas.

É importante frisar que as mulheres mais velhas (mais de 30 anos) disseram que a mídia não exerce influência sobre seus conceitos de beleza e cuidados com o corpo. Apesar de lerem e assistirem sobre os assuntos elas mantem suas próprias convicções e conceitos.

Todas afirmaram que a maioria das mulheres que a mídia apresenta como sendo bonita realmente não é, pois muitas são belezas artificiais, vulgares, com muita “plástica” e maquiagem, magérrimas ou não tem nenhum atrativo estético. Uma delas afirmou que “a mídia fala que é bonita, mas nem por isso a mulher realmente é bonita, elas são bonitas porque estão produzidas e ainda tem dinheiro”.

Ao serem questionadas sobre quem consideravam um estereótipo de beleza algumas tiveram dificuldades em responder tendo que pedir opinião para alguma amiga que estava ao lado no momento da entrevista.

A dúvida não era devido ao desconhecimento de atrizes ou modelos, mas por não conseguirem encontrar uma que expressasse a beleza conforme as concepções defendidas por elas, que é a valorização da beleza interior, ou seja, qualidades como sinceridade, fidelidade, amor ao próximo.

uma jovem comentou que “o padrão de beleza estabelecido pela mídia não está de acordo com minhas concepções, pois as mulheres não são bonitas naturalmente, mas uma beleza forçada com maquiagem e plástica”. o padrão de beleza estabelecido pela mídia não está de acordo com os das mulheres assembleianas pesquisadas, pois segundo elas o mais importante é a beleza interior. Ao serem questionadas sobre quais as peculiaridades que a uma mulher deve ter para ser considerada bela, todas relataram características de caráter, seis nem citaram atrativos estéticos.

A frase de duas delas comprova a assertiva acima: “A mulher bonita é amorosa, atenciosa, se sente bem consigo e com os outros, ela tem caráter”.

“não concordo com os modelos de beleza que a mídia divulga, a beleza da mulher está em seu interior, ela deve estar bem por dentro e a beleza está dentro de cada uma

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de nós”. As dez entrevistadas ainda relataram que existe um padrão de beleza religioso comercial3 e outro secular. Apesar de salientarem esta diferença nenhuma afirmou que

procura imitar roupa, cabelo ou maquiagem das pop stars gospel, o que mostra que a identidade religiosa local está fortalecida com base em suas tradições.

Pelas respostas das entrevistadas percebe-se que a identidade grupal religiosa, de certa maneira, ainda é mantida, pois mesmo tendo maior liberdade para usar maquiagens e corte de cabelo do que antigamente, nenhuma extrapola os limites permitidos pela congregação. A mesma observação pode ser feita com relação à indumentária. Apesar de lerem e acompanharem notícias sobre moda, elas continuam mantendo a tradição dos usos e costumes da igreja, sem o uso de vestes extravagantes e acessórios.

Uma das entrevistadas afirmou que quase não usa acessórios e maquiagem por tradição. “fui criada desde pequena em igreja pentecostal com usos e costumes, por isso não me importo de usar. Apenas em ocasiões especiais que gosto de usar uma maquiagem suave”.

Igreja e mídia exercem influência na vida destas mulheres de forma competitiva. Ao serem questionadas sobre qual das duas tinha algum poderio ao ditar regras e conceitos sobre cuidados com o corpo e beleza ficou balanceado. As cinco mais jovens (abaixo dos 30 anos) afirmaram que os meios de comunicação de massa têm o poder de influenciá-las a cuidar do corpo e ficarem bonitas. Já as cinco mais velhas disseram que primeiramente buscam os preceitos que estão na bíblia e na igreja.

Considerações finais

Da análise pode-se concluir que apesar das fragmentações identitárias, os laços das comunidades ou grupos ainda são fortes, o que faz com que os membros continuem preservando suas tradições e, consequentemente a identidade que mantem o mesmo unido. os receptores não são hipnotizados pelos meios de comunicação, mas são receptores ativos. No entanto, a mídia também não é isenta de influenciar a sociedade, como se pode constatar no fato de pautar temáticas que são do interesse do público.

A interpretação dos conteúdos da mídia também é realizada com base no que o indivíduo aprende com grupo. A mulher assembleiana não deixou que a mídia influenciasse na identidade religiosa, elas continuam seguindo e zelando pela manutenção dos usos e costumes da igreja, valorizam a beleza interior em detrimento da exterior, não se vestem ou se maquiam com extravagância. A influência da mídia é comprovada pela hipótese da agenda-setting, uma vez que ao pautarem as temáticas as mulheres discutem e pensam sobre o assunto, mas não muda, necessariamente, suas opiniões.

outro ponto é como a identidade ainda é mantida no grupo. o fato de, ao serem questionadas se se sentiam dentro dos padrões estabelecidos pela mídia, todas tenham dito que não se sentem dentro dos padrões e apenas duas responderem que fariam algo para mudar, deixando clara a despreocupação em seguir estereótipos, já que se sentem bem como são e reconhecidas dentro da comunidade.

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A não total ruptura dos usos e costumes adotados ainda hoje pela igreja mostra também que o grupo possui uma identidade sólida. o fato de as mulheres acima de 30 anos terem sua identidade alicerçada nos preceitos da igreja e da Bíblia pode ser explicado por elas estarem mais acostumadas aos usos e costumes da igreja, uma vez que foram criadas desde pequena ou ainda adolescentes dentro deste padrão.

Desse modo, pode-se apontar que apesar da fluidez das identidades nesta era pós-moderna ainda se encontra grupos e comunidades que mantêm vivas suas tradições, fazendo-se reconhecidos na sociedade como membros de um grupo através da identidade. A relação mídia-religião-beleza e identidade pode ser sintetizada do seguinte modo: a influência dos meios de comunicação sobre as concepções de beleza e cuidados com o corpo nas mulheres evangélicas pentecostais não pode ser ignorada na medida em que algumas afirmaram serem influenciadas pela mídia, mas por outro lado a religião também não perdeu sua soberania frente aos membros.

Ressaltamos ainda que o resultado dessa pesquisa é aplicável apenas ao referido grupo que foi objeto de análise. Apesar deste contra ponto, a identidade das mulheres pentecostais com relação a beleza é formada com as próprias concepções da igreja e da Bíblia, uma vez que todas declaram que a beleza interior está acima da exterior, demonstrando os valores cristãos. No entanto, surge uma dúvida: as novas gerações que afirmaram ser influenciada pelos meios de comunicação de massa continuarão mantendo a tradição e os laços que sustentam a identidade deste grupo?

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Referências

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