PROJETO COLMEIA: PROMOVENDO A IGUALDADE DE GÊNERO E O EMPODERAMENTO DE MULHERES NA CIDADE DE JATAÍ-GO
Estael de Lima Gonçalves1 Layla Milena Oliveira Gomes2
Resumo: A violência doméstica e familiar contra as mulheres é recorrente e presente no mundo todo, motivando crimes hediondos e graves violações de direitos humanos e essa realidade não está distante da população jataiense uma vez que Goiás ocupa a 3ª posição em casos de feminicídio no Brasil e a cidade tem milhares de casos registrados. Nesse sentido os governos, organismos internacionais, empresas, instituições de ensino e pesquisa e a sociedade civil organizada e a imprensa devem assumir um compromisso de não conivência com o problema, assim o Projeto Colmeia atua no debate do assunto e busca promover a conscientização e tomada de poder de influência das mulheres participantes a fim de realizar mudanças de ordem social, política, econômica e cultural no contexto que lhes afeta diariamente. O Projeto Colmeia é fruto da união de forças de várias entidades da sociedade civil organizada e de instituições presentes na cidade de Jataí-GO e foi idealizado pela Comissão da Mulher Advogada da Subseção Jataí da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Palavras-chave: Mulheres. Violência doméstica e familiar. Empoderamento. Grupos vulneráveis.
O Projeto Colmeia: empoderamento feminino é fruto da união de forças de várias entidades da sociedade civil organizada e de instituições presentes na cidade de Jataí-GO e foi idealizado pela Comissão da Mulher Advogada da Subseção Jataí da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A ação se iniciou a partir da idealização de um evento alusivo ao Dia Internacional da Mulher com o objetivo de abordar o recorrente tema da violência doméstica e familiar contra as mulheres, além de oferecer às mulheres de grupos vulneráveis da cidade a oportunidade de acesso a serviços de saúde, bem-estar, beleza e atendimento jurídico e psicológico.
A violência doméstica e familiar contra as mulheres é recorrente e presente no mundo todo, motivando crimes hediondos e graves violações de direitos humanos e essa realidade não está distante da população jataiense uma vez que Goiás ocupa a 3ª posição em casos de feminicídio no Brasil e a cidade tem milhares de casos registrados.
Nesse sentido os governos, organismos internacionais, empresas, instituições de ensino e pesquisa e a sociedade civil organizada e a imprensa devem assumir um compromisso de não conivência com o problema, assim o Projeto Colmeia: I Encontro de Empoderamento da Mulher Jataiense foi criado com o objetivo de debater o assunto e promover a conscientização e tomada de
1 Discente do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Goiás, Regional Jataí,
nível Doutorado. Membro do Projeto Colmeia Empoderamento Feminino. Jataí, Goiás – Brasil.
2 Advogada, membro da Comissão da Mulher Advogada, da Subseção Jataí, da Ordem dos Advogados do Brasil.
poder de influência das mulheres participantes a fim de realizar mudanças de ordem social, política, econômica e cultural no contexto que lhes afeta diariamente.
1.Violência doméstica e familiar: um pouco da realidade brasileira
A violência doméstica e familiar contra as mulheres é algo presente no mundo todo, motivando crimes hediondos e graves violações de direitos humanos e está ligada ao fato de que a mulher é socialmente estigamatizada enquanto um sujeito com capacidades reduzidas mediante ao masculino e que portanto está subjugada a ele, sendo esse fator determinante para a visão que os homens tem das mulheres considerando-as, por vezes, objetos de sua propriedade com os quais poderiam lidar conforme suas aspirações.
Mas afinal, o que é violência doméstica e familiar? Conhecer e poder identificar é sempre um dos primeiros passos para debelar qualquer questão. Atualmente, o instrumento disponível que traz com maior clareza a definição desse tipo de crime é a Lei nº 11.340/2006, conhecida com Lei Maria da Penha. A lei é a possibilidade jurídica mais contundente de resguardar os direitos da mulher.
Para Almeida (2007) a violência doméstica é uma noção espacializada, que caracteriza o que é próprio à esfera privada, essa dimensão da vida social que é historiacamente contraposta ao público.
Ao tratarmos da violência doméstica e familiar é preciso tipificá-la em diversas modalidades possíveis de ataque ao bem estar da pessoa afetada. Segundo a Lei Maria da Penha, em seu artigo 7º, as seguintes formas podem ser assumidas pela violência doméstica e familiar:
I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;
II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;
III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça,
coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a
satisfazer suas necessidades;
V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.
Observando essa tipificação fica a clareza de que a violência pode ser, e muitas vezes o é, mascarada, velada. A violência doméstica e familiar, muitas vezes, é subliminar e geralmente é vivênciada em ciclos, iniciando-se com a construção da tensão, chegando à tensão máxima e finalizando com a reconciliação.
O ciclo da violência só pode ser combatido se for rompido a partir, sobretudo, da tomada de consciência por parte da pessoa agredida, uma vez que, como apontamos, essa situação está amarrada ao papel reservado à mulher nas relações sociais, no qual o emprego de violência física e/ou psíquica do homem sobre a mulher está naturalizado.
Para Bianchini (2011) há diversos fatores que levam uma mulher vítima de violência doméstica a perpetuar a viviência com o agressor:
Dentre os fatores que levam as mulheres vítimas de violência a permanecer no relacionamento com o parceiro violento, merecem destaque os seguintes: medo de que o agressor torne-se ainda mais violento, concretizando ameaças, caso esta o denuncie ou o abandone; esperança de que o agressor mude o seu comportamento, fazendo cessar a agressão; preocupação com a manutenção da integridade da família e vergonha de expor publicamente os episódios de violência.
Os dados de violência doméstica e familiar no Brasil são alarmantes e, a partir da análise acima, é possível inferir que provavelmente esse dados são muito maiores pois há uma falseabilidade desses dados devido a resistencia das pessoas em denúnciar as agressões.
Muitos avanços tem sido alcançados com a Lei Maria da Penha, ainda assim, atualmente, contabiliza-se 4,8 assassinatos a cada 100 mil mulheres, dado que coloca o Brasil no 5º lugar no ranking de países nesse tipo de crime. O Mapa da Violência 2015 aponta que dos 4.762 assassinatos de mulheres registrados em 2013 no Brasil, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo que em 33,2% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro ou ex-parceiro.
Gráfico 1. Ordenamento da UFs, segundo taxas de homicídio de mulheres (por 100 mil)
Fonte: Mapa da Violência 2015. Homicídio de mulheres no Brasil.
Infelizmente essa realidade não está distante da população jataiense uma vez que Goiás ocupa a 3ª posição em casos de feminicídio no Brasil, e a cidade tem milhares de casos registrados. Segundo os dados do Gráfico 1, do Ordenamento da Unidades da Federação, segundo taxas de homicídio de mulheres (por 100 mil), resultado de levantamento realizados em 2013 e disponbilizado no Mapa da Violência 2015, Goiás apresenta quase o dobro de vítimas de feminicídio em relação à média nacional.
2. O Projeto Colmeia
Nesse contexto social de constantes ataques ao bem estar e a dignidade das mulheres e de intensos casos de violência doméstiva e familiar surge na cidade de Jataí-Go o Projeto Colméia: empoderamento feminino.
O projeto foi criado a partir da iniciativa da Comissão da Mulher Advogada da Subseção de Jataí da Ordem dos Advogados do Brasil, que convidou várias instituições e grupos organizados da sociedade para pensarem, inicialmente, um evento alusivo ao dia internacional da mulher.
Nesse sentido o primeiro caráter do projeto foi a realização de um evento que seria parte integrante de atividades que seriam realizadas na cidade em comemoração a Semana da Mulher e ao Dia Internacional da Mulher (8 de março). A atividade teria como propósito principal integrar e
promover a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres da cidade de Jataí, sobretudo aquelas em situação de vulnerabilidade social.
A atividade consistiria de palestra, confraternização e oferecimento de serviços para as pessoas presentes. A organização do evento tratava-se de uma parceria das seguintes entidades/instituições: Comissão da Mulher Advogada da Subseção de Jataí da Ordem dos Advogados do Brasil, Universidade Federal de Goiás – Regional Jataí, Instituto Federal de Goiás – Câmpus Jataí, Fundação Raízen, Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Prefeitura Municipal de Jataí e Grupo Mais Mulheres na Política e o público estimado era de aproximadamente 600 pessoas, o evento foi realizado num clube de águas termais da cidade.
O objetivo geral do projeto era de promover a conscientização e tomada de poder de influência das mulheres participantes. Já os objetivos específicos do projeto eram: debater a a violência doméstica e o machismo; promover a participação social e oportunidades para minorias; promover conscientização das mulheres sobre a Lei Maria da Penha; fornecer serviços de saúde, beleza e qualidade de vida; possibilitar uma oportunidade de lazer para as participantes.
Mulheres atendidas por programas sociais e pelo Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher foram convidadas a passar o dia realizando as atividades que lhes dariam autoestima e conhecimentos sobre si, sobre legislação e direitos humanos. Participaram ainda reeducandas do sistema prisional.
Nesse viés, o subtítulo do projeto, 'empoderamento feminino', sugere a ideia de dar a alguém ou a um grupo o poder de decisão , empoderamento tem sido a palavra de ordem para movimentos sociais contemporâneos, sobretudo aqueles voltados para a autonomia de grupos vulnerávies e tem origem no termo inglês “empowerment”. Para Freitas (2016), “[...] o termo conceitua o ato ou efeito de promover conscientização e tomada de poder de influência de uma pessoa ou grupo social, geralmente para realizar mudanças de ordem social, política, econômica e cultural no contexto que lhe afeta.”
Ainda no processo de organização do evento temático o projeto começou a dar mostras de que tomaria proporções maiores e que impactaria de forma positiva em toda a comunidade.
Alguns dos desdobramentos imediatos do Projeto Colméia e da consequente agregação de forças que ele promoveu foram a realização da 1ª Semana de Combate a Violência Contra a Mulher , com o objetivo de mobilizar a sociedade jataiense para a promoção da igualdade de gênero e estimulação de reflexões e debates sobre os direitos humanos e o combate á violência contra a mulher.
Houve ainda, em conjunto, a instituição da Semana Maria da Penha nas Escolas, através de decreto do executivo municipal da cidade. Já em 2017 a atividade foi realizada e consistiu na formação de professores e servidores, em aulas temáticas e distribuição de material educativo, palestras para familiares com o objetivo de estimular reflexões e debates sobre o combate à violência contra a mulher e o respeito aos Direitos Humanos.
Além dessa ação, destacamos o fato de que a mobilização e a exposição do tema no debate do ambiente da cidade gerou resultados como a sugestão por parte de um membro do legislativo municipal de projeto de lei que torne obrigatória, nas escolas da rede municipal, a instrução de noções básicas da Lei Maria da Penha com o objetivo é possibilitar aos estudantes o aprendizado e a reflexão sobre os direitos das mulheres e sobre a importância do combate à violência sofrida pela população feminina. Ainda a partir da mobilização e das discussões despertadas na sociedade pelo projeto foi sugerida a criação de uma casa-abrigo para atendimento integral e multidisciplinar, para mulheres e respectivos dependentes incapazes em situação de violência doméstica e familiar .
Destacamos ainda o fato da mobilização do Projeto Colméia ter contribuido para a agregação de forças em prol de outro projeto importante que é a criação do Conselho Municipal de Direitos da Mulher (COMDIM) e do Fundo Municipal dos Direitos da Mulhe (FMFM). Entidades como Comissão da Mulher Advogada da OAB, Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Universidade Federal de Goiás – Regional Jataí e membros do legislativo municipal se uniram para discutir e propor o projeto de lei que foi encaminhado pelo executivo municipal para aprovação no legislativo e que têm por objetivo fortalecer e fiscalizar os direitos das mulheres no município, auxiliar o executivo na criação de políticas públicas para mulheres, prover recursos para a implantação de programas, desenvolver e manter ações relacionadas à política pública voltada para a garantia e a defesa dos direitos das mulheres no Município de Jataí, promovendo a igualdade de gênero.
Considerações finais
Ao longo da concepção e do desenvolvimento do projeto foi possível perceber o quanto nossa sociedade é carente de ações que promovam o bem estar, a saúde, o lazer e a seguranças das pessoas. Ficou a evidência de que só a ação conjunta dos governos, dos organismos internacionais, das empresas, das instituições de ensino e pesquisa, da sociedade civil organizada e da imprensa é capaz de alterar em muito o panorama social que vivemos.
A repercussão da ação foi extremamente positiva e está sendo ampliada com a consolidação do Projeto Colmeia enquanto uma rede de proteção e empoderamento de mulheres, sobretudo com a parceria do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher que apresentou a ideia para o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) e deverá inclusive ser implantado em outras cidades do Estado.
Ficou-nos a evidência de que a partir do momento que todos os agentes sociais assumem as suas responsabilidades e sobretudo um compromisso de não-conivência com os problemas a realidade pode ser substancialmente alterada.
Referências
ALMEIDA, S.S. Violência de Gênero e Políticas Públicas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007 BIANCHINI, Alice. Os ciclos da violência doméstica contra a mulher, fevereiro, 2011. Disponível em: <https://professoraalice.jusbrasil.com.br/artigos/121813937/os-ciclos-da-violencia-domestica-contra-a-mulher>. Acesso em 10 de maio de 2017.
BRASIL. Lei Maria da Penha. Lei n. 11.340/2006. Coíbe a violência doméstica e familiar contra a mulher. Presidência da República, 2006.
FILHO, José Barroso. O perverso ciclo da violência doméstica contra a mulher... Afronta a dignidade de todos nós, 2008. Disponível em:<http://cnj.jus.br/atos-administrativos/atos- secretaria-geral/433-informacoes-para/imprensa/artigos/13325-o-perverso-ciclo-da-violia-domica-contra-a-mulher-afronta-a-dignidade-de-todos-n>. Acesso em 16 de maio de 2017.
FREITAS, Ana. A origem do conceito de empoderamento, a palavra da vez, 2016. Diponível em: <http://agenciapatriciagalvao.org.br/mulheres-de-olho-2/origem-do-conceito-de-empoderamento-palavra-da-vez/ >. Acesso em: 20 de abril. 2016.
WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil. 1ªed. Flacso/OPAS-OMS/ONU Mulheres/SPM, 2015.
Colmeia Project : promoting gender equality and empowerment of women in the city of Jataí-GO
Astract: Domestic and family violence against women is recurrent and present throughout the world, motivating heinous crimes and serious violations of human rights, and this reality is not far from the Jataian population since Goiás occupies the 3rd position in cases of feminicide in Brazil
and the City has thousands of registered cases.
In this sense, governments, international organizations, companies, educational and research institutions and organized civil society and the press must make a commitment to avoid collusion with the problem, so the Colmeia Project acts in the debate on the subject and seeks to promote awareness and take of power of influence of the participating women in order to make social, political, economic and cultural changes in the context that affects them daily. The Colmeia Project is a result of the union of forces from various entities of organized civil society and institutions present in the city of Jataí-GO and was idealized by the Women's Law Commission of the Jataí Subsection of the Brazilian Lawyers Association .