Universidade Autónoma de Lisboa
Luís de Camões
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
METODOLOGIA DO TRABALHO CIENTÍFICO
O CONTRIBUTO DO DR. JORGE SAMPAIO
PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Anabela Cruz Brisa Andrade
Rui Barreiros
Índice
1. INTRODUÇÃO...4
2. O QUE SÃO AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS...5
3. A PERSONAGEM...5
4. A INTERVENÇÃO/CONTRIBUTO PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS...7
4.1 No contexto nacional...8
4.2 No contexto europeu...11
4.3 No contexto internacional...12
5. AS NAÇÕES UNIDAS...14
6. ALTO-REPRESENTANTE PARA A ALIANÇA DAS CIVILIZAÇÕES...16
7. CONCLUSÃO...17
«As ciências progridem na medida em que adquirem novas verdades, como fruto da actividade reflexa de fundamentação ou investigação das causas. Não basta pois “vulgarizar”o que os outros encontraram; exige-se uma contribuição pessoal que traga qualquer coisa de “novo”: Factos, ideias, hipóteses, argumentos, conclusões, …»
Padre Júlio Fragata1
1. INTRODUÇÃO
A História das Relações Internacionais constrói-se, não só pelo contributo dos Estados, das Organizações Internacionais, como também, pela impulsão que algumas personagens lhe imprimem, mercê das suas características intrínsecas, do seu empenhamento e do seu modus vivendi.
O presente trabalho pretende mostrar, através da aplicação dos métodos e técnicas abordados, como uma das mais proeminentes figuras da nossa história contemporânea, e Presidente da República Portuguesa durante os anos de 1996 a 2006, exerceu de modo sui generis a sua magistratura de influência, no quadro das Relações Internacionais.
Nesta investigação, iremos demonstrar como este actor, quer da cena nacional, quer da cena internacional, galvanizou as atenções ao nível mundial, para problemas específicos e reais, conseguindo granjear uma estima dos outros povos e governantes, a qual culminou com a sua nomeação para um preponderante papel, que o Secretário-Geral das Nações Unidas Ban Ki-Moon lhe atribuiu, nomeando-o como Alto Representante para a Aliança das Civilizações.
A metodologia seguida, após uma primeira exploração bibliográfica sobre a temática a que nos propusemos abordar, consistiu numa leitura analítica dos diversos textos, interpretando-os, e consequentemente, elaborando a nossa visão personalizada e alicerçada em factos.
Começamos por aflorar a temática das Relações Internacionais (RI), em que consistem, definindo-a. Prosseguimos com uma breve biografia do Dr. Jorge Sampaio, para ficarmos a conhecer melhor a história deste especial personagem.
A forma como, no desempenho da função de Presidente da República interveio, deu contributos para o quadro das RI, mormente através dos actos, das afirmações, dos juízos de valor que permanentemente trouxe à discussão nos vários circuitos políticos, organizativos, e outros intergovernamentais em que se inseriu, enquadrando-os nas diferentes e mais diversas áreas de actuação, quer quando agia apenas no contexto nacional, quer do europeu, onde neste a sua actuação assumiu algumas características que vão aportar aspectos vinculativos aos Estados-Membros da União Europeia, vai culminar, significativamente, quando intervém nas instâncias internacionais.
No capítulo seguinte, afloramos a Organização das Nações Unidas (ONU), a mais importante Organização Internacional, que congrega no seu seio os maiores esforços para a manutenção e consolidação da paz no Mundo, albergando, também, algumas das mais importantes organizações mundiais, para que se entenda como o Dr. Jorge Sampaio, nas actuais funções, nela vai entroncar.
A nossa análise termina quando, como Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações culmina, até à presente data, a extraordinária performance desta personalidade
ímpar, numa tarefa que está a iniciar, e cuja capacidade inata lhe permitirá alcandorar-se a atingir os ambiciosos objectivos que lhe propuseram, bem como, alguns dos constantes na Declaração do Milénio da ONU, que se poderão sintetizar, dentro deste nosso quadro, uma maior aliança entre todos os países, para se obter a inerente diminuição de todos os tipos e formas de guerra.
2. O QUE SÃO AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Para se perceber o que são as Relações Internacionais, impera conhecer a sua definição mais lata, como ela é entendida, e como pode uma entidade singular ser um actor importante nesta matéria.
Uma das melhores definições de Relações Internacionais pode-se considerar a de René Coste1:
«1) As relações internacionais são as que decorrem entre poderes ou autoridades que não reconhecem outros superiores, ou por cima das fronteiras territoriais entre grupos e indivíduos formalmente subordinados àqueles poderes ou autoridades;
2) Como ramo do saber, organiza uma série de técnicas e métodos agregados com perspectiva multidisciplinar, com o fim de elaborar hipóteses, e identificar os temas, classificar os objectivos axiológicos, definir as alternativas possíveis da evolução, julgar da equação entre as alternativas e os objectivos identificados;
3) As relações internacionais podem descrever-se em termos de formação de decisões por indivíduos situados numa circunstância social concreta.»2
Ora é precisamente e devido ao consignado neste último ponto que se infere a capacidade de interferência duma pessoa como o antigo Presidente Dr. Jorge Sampaio no contexto das RI.
3. A PERSONAGEM
Passemos agora a conhecer quem é a personagem sobre a qual vamos desenvolver a nossa investigação.
Jorge Fernando Branco de Sampaio nasceu em Lisboa em 1939, sendo filho de Arnaldo Sampaio, médico, e de Fernanda Bensaude Branco de Sampaio, professora de inglês.
É casado com Maria José Ritta e tem dois filhos.
1 René Coste, padre do Santo Sulpício, é professor honorário na Faculdade de Teologia do Instituto Católico de
Toulouse, tendo desenvolvido variados trabalhos no campo do diálogo inter-religioso e da promoção da paz.
Devido à profissão do pai, passou largos períodos da sua infância nos Estados Unidos e na Inglaterra. Esta vivência teve uma grande influência na moldagem definitiva da sua personalidade.
Concluiu o curso de Direito na Universidade de Lisboa, em 1961. Durante o período em que foi aluno, exerceu uma relevante actividade académica, tendo a sua capacidade de liderança estudantil sobressaído. Afirmou-se, então, como um jovem político e a quem se lhe apontava ir desenvolver uma carreira promissora. Ao utilizar na sua oratória uma forma de discurso arrebatador, exprimindo-se através de fortes e independentes convicções, conseguia galvanizar os outros estudantes, estabelecendo pontes de entendimento entre as diversas tendências e as diferentes perspectivas políticas e ideológicas.
Da sua biografia política podemos realçar os seguintes momentos fundamentais: − Direcção do movimento estudantil, em 1961 e 1962;
− Candidatura pelas listas da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Lisboa, em 1969; − Formação da Intervenção Socialista, em 1975. Jorge Sampaio assumiu responsabilidades
governativas no IV Governo Provisório, em 1975, na área da cooperação (uma Secretaria de Estado tutelada pelo coronel Melo Antunes, ministro dos Negócios Estrangeiros); − Membro da Comissão dos Direitos Humanos do Concelho da Europa, de 1979 a 1984; − Presidente da Câmara de Lisboa, em 1989;
− Eleito Presidente da República em 1996, e reeleito em 2001. No que concerne à política europeia, o Dr. Jorge Sampaio empenhou-se em estabelecer uma linha de execução de política externa que garantisse a Portugal a manutenção da sua posição no quadro dos países fundadores da moeda comum − euro;
− Apoiou a entrada de novos países para a União Europeia (EU), com especial ênfase para os países do leste europeu;
− Consolidou a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP); − Estreitou as relações com o Brasil;
− Afirmou-se na resolução dos problemas da transição em Macau;
− Exerceu uma acção preponderante na autodeterminação de Timor-Leste;
− Em Maio de 2006 foi nomeado pelo Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan como Enviado Especial para o Plano Global de Erradicação da Tuberculose;
− A 26 de Abril de 2007 foi nomeado como Alto Representante do Secretário-Geral da ONU para a Aliança das Civilizações.
Iremos de seguida aflorar como o Dr. Jorge Sampaio contribuiu para o quadro das Relações Internacionais.
4. A INTERVENÇÃO/CONTRIBUTO PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
Após termos analisado, em termos de definição, o que são as RI, infere-se como pode uma personalidade, um Presidente da República, com as características apontadas na breve biografia anteriormente referida agir. Iremos agora verificar quais são os normativos pelos quais baliza a respectiva competência funcional, actuando internamente, tendo de ser analisada, consequentemente, à luz dos princípios jurídico-constitucionais que lhe é no quadro das relações internacionais atribuída.
Desta forma, a Constituição da República Portuguesa (CRP),1 define no seu artigo 7.o o que
são, e como se relaciona o Estado Português no quadro das RI, passando a citar os pontos que constituem o seu articulado:
1. «Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados e da cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade.
2. Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.
3. Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência e ao desenvolvimento, bem como o direito à insurreição contra todas as formas de opressão. 4. Portugal mantém laços privilegiados de amizade e cooperação com os países de língua
portuguesa.
5. Portugal empenha-se no reforço da identidade europeia e no fortalecimento da acção dos Estados europeus a favor da democracia, da paz, do progresso económico e da justiça nas relações entre os povos.
6. Portugal pode, em condições de reciprocidade, com respeito pelos princípios fundamentais do Estado de direito democrático e pelo princípio da subsidiariedade e tendo em vista a realização da coesão económica, social e territorial, de um espaço de liberdade, segurança e justiça e a definição e execução de uma política externa, de segurança e de defesa comuns, convencionar o exercício, em comum, em cooperação ou pelas instituições da União, dos poderes necessários à construção e aprofundamento da união europeia.
7. Portugal pode, tendo em vista a realização de uma justiça internacional que promova o respeito pelos direitos da pessoa humana e dos povos, aceitar a jurisdição do Tribunal Penal Internacional, nas condições de complementaridade e demais termos estabelecidos no Estatuto de Roma.»
Esta caracterização jurídica é importante, porque nos permite ver e perceber como e até onde podem ir as relações neste âmbito. Todavia, o Presidente da República não tem a possibilidade de
per si, poder exercer estas competências, porque é ao Governo que incumbe a execução da política
externa. O Presidente da República tem uma acção balizada pela própria CRP, mormente pelo enunciado no artigo 135.o, onde se fala na competência nas relações internacionais. Para o efeito,
«Compete ao Presidente da República, nas relações internacionais:1
a) Nomear os embaixadores e os enviados extraordinários, sob proposta do Governo, e acreditar os representantes diplomáticos estrangeiros;
b) Ratificar os tratados internacionais, depois de devidamente aprovados;
c) Declarar a guerra em caso de agressão efectiva ou iminente e fazer a paz, sob proposta do Governo, ouvido o Conselho de Estado e mediante autorização da Assembleia da República, ou, quando esta não estiver reunida nem for possível a sua reunião imediata, da sua Comissão Permanente ».
Em tudo o que não está previsto na Constituição, o Presidente exercerá a sua magistratura de influência, que poderá ser mais ou menos marcante, no ponto de vista da intervenção no domínio das relações internacionais, dependendo do espaço que o próprio Governo lhe permite, bem como, à capacidade de afirmação e intervenção do Presidente, quando a lei não estabelece baias minimizantes.
Passemos agora a estudar a sua competência no quadro das competências definidas no quadro nacional.
4.1 No contexto nacional
O Presidente da República é eleito para um mandato de cinco anos, podendo-se recandidatar para mais um, no máximo de 10 anos seguidos. Nesta função, ele alicerçará o respectivo desempenho buscando uma sustentação obtida numa concepção personalizada da função presidencial, no conjunto de valores relativos à sua experiência e vida de luta política, conjugada com o discernimento do que deve ser o programa político e social, dentro dos limites que ao Estado de Direito compete no quadro Constitucional. O Dr. Jorge Sampaio soube interiorizar estes princípios dogmáticos da função presidencial, e exerceu o respectivo mandato como uma
personalidade de referência da estabilidade e da garantia do regular funcionamento das instituições democráticas.
O Dr. Jorge Sampaio considera que o exercício do poder é algo que, nas sociedades contemporâneas, se tem tornado cada vez mais difícil, e concomitantemente, vem obrigando a que tenha de haver uma muito maior dedicação e desprendimento, aliado a um inexorável sentido do dever e do cumprimento das funções que são atribuídas. Neste intuito, o desempenho dos mandatos comprovou a assunção da prossecução do bem público, numa manutenção de fidelidade com os princípios republicanos. Estimulou os governos e as oposições para que ambos desempenhassem, sem nunca esquecerem, todavia, as suas naturais divergências de opinião, e sempre atentos aos problemas que carecem de natural resolução, tendentes à melhoria das condições e do desenvolvimento social e cultural de Portugal, as suas tarefas e missões com sentido reformista e de Estado.
Dentro da sua contribuição para o contexto económico e social nacional, chamou a atenção para a problemática das novas tecnologias da informação e da comunicação, dado serem estas um elemento fundamental para o progresso do País. Nesta matéria, salientou que nos devíamos afirmar com uma expressão de qualidade e de eficiência e, se não se realizasse este desígnio, tal facto iria afectar todos os segmentos da economia e a sustentabilidade do desenvolvimento nacional. Continuou, afirmando veementemente, que para uma economia de inovação e para um ensino e investigação científica de qualidade, na sociedade de informação em rede, a telecomunicação, a televisão, o multimédia e a internet se deveriam constituir como elementos essenciais para a consolidação da democracia, para o bem-estar das populações e para a prosperidade económica. A concretização deste desiderato implicaria uma formulação de orientações políticas, e sobretudo, a atempada tomada de decisão política, a qual se deveria consubstanciar através dum pleno conhecimento das tendências económicas e sociais vigentes, as quais seriam factores cruciais para a estimulação e monitorização das desejadas mudanças.
Como Comandante Supremo das Forças Armadas, e durante os seus mandatos, atribuiu-lhes um papel cada vez mais preponderante, nomeadamente no apoio da política externa portuguesa. Este apoio traduziu-se na nomeação das Forças Armadas para serem empenhadas em diversas missões, agindo principalmente como forças multinacionais de apoio à paz e humanitárias, e actuando quer no quadro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), quer da ONU. Foram chamadas missões de cooperação técnico-militar com os países da CPLP. Foi, na década de 90, com o fim da guerra fria, que as Forças Armadas passaram a ter um muito maior envolvimento na proliferação de missões de manutenção e apoio à paz, sob a égide da ONU ou da OTAN.
No campo da coesão económica e social, e na abertura da conferência sobre «O futuro da Europa Social»1, o Dr. Jorge Sampaio alertou para a necessidade de se aprofundarem os
conhecimentos sobre as realidades que coexistem na Europa e para a elaboração de estratégias que nos tornem capazes, à escala da União Europeia. Disse também que, dentro de cada um dos respectivos Estados-membros, se deveria promover o pleno emprego, adaptando-se o diálogo social e a negociação colectiva, dentro das exigências duma situação de relevante competição económica, onde a inovação e o conhecimento ocupassem um lugar sem precedentes; continuou, dizendo que se deveriam reestruturar os sistemas de protecção social, de modo a erradicar a pobreza, e visando a facilitação da integração social dos grupos mais vulneráveis, limitando-se assim, as desigualdades, numa reposição da equidade social.
A sua acção, durante o mandato como Presidente da República, conferiu, também, um especial enfoque à situação das comunidades de estrangeiros e de minorias étnicas. Neste campo, encetou algumas iniciativas2, onde manifestou a sua grande preocupação com as questões da política de
imigração, e a situação geográfica que caracteriza um marcado desenvolvimento com profundas desigualdades. Estes factores foram considerados como conducentes a movimentos migratórios, com repercussões ao nível europeu muito preocupantes. Referia amiúde que a Europa e Portugal teriam de desenvolver medidas concertadas, onde se deveria, numa primeira análise, quantificar a necessidade de se acolherem estes povos, e em acto posterior, se passaria à acção de os aceitar, sem que tal viesse a comprometer a capacidade de integração em condições humanamente desejáveis, lutando-se, através da utilização de todos os meios disponíveis, contra as redes de exploração de mão-de-obra clandestina, os empregadores sem escrúpulos e contra todos aqueles que se dedicavam à exploração de seres humanos.
Neste mesmo âmbito, dos imigrantes e minorias étnicas3, preocupou-se com a participação dos
imigrantes no mercado de trabalho, dado ser de vital importância para o crescimento económico e para a própria sustentabilidade dos sistemas de protecção social. Dizia o Dr. Jorge Sampaio que estes imigrantes continuavam a encontrar problemas de variada ordem nas chamadas sociedades de acolhimento. Que era necessário que fosse feita uma implementação de políticas sociais clarividentes, com o estabelecimento de adequados programas educacionais, para que se atenuassem os efeitos das dificuldades imputáveis às barreiras linguísticas e culturais, bem como, aos preconceitos étnicos, às discriminações, às formas extremadas de exploração e de segregação residencial.
Iremos agora abordar a sua intervenção num âmbito mais alargado, como sejam as intervenções na Europa.
1 Realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a 5 de Maio de 2000.
2 Semana dedicada às Comunidades Estrangeiras e às Minorias Étnicas, iniciada a 9 de Março de 2003.
4.2 No contexto europeu
Neste quadro, de importância crescente para as RI, o Dr. Jorge Sampaio e na função de Comandante Supremo das Forças Armadas (FA) ressaltou nas suas múltiplas intervenções, o envio de forças militares para a região da Bósnia e Herzegovina e para o Kosovo, integradas em contingentes da OTAN, bem como, para Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste, integrados em missões da ONU. Portugal, mercê da acção preponderante como estas suas forças militares se desincumbiram com grande brio e profissionalismo das tarefas e missões de que foram incumbidas, saiu honrado e reconhecido, tendo sido dado um especial contributo nas acções de restauração e manutenção da estabilidade da ordem e tranquilidade pública, e contribuído, também, para a celebração dos acordos de pacificação e reconciliação nestes territórios.
Na análise e contínuas afirmações sobre o poder e capacidade de intervenção das FA, e no que incumbiria a estas desenvolver a todos os outros níveis, defendeu o Dr. Jorge Sampaio que, embora a OTAN tenha uma função decisiva como garante da estabilidade regional, era necessário que os trabalhos de desenvolvimento da União da Europa Ocidental (UEO) e da entidade europeia de defesa e segurança fossem prosseguidos, num reforço consequente da estabilidade, e com a institucionalização dos novos equilíbrios da relação dos europeus com os norte-americanos.
A 11 de Novembro de 2004 e numa conferência na Câmara dos Deputados italiana1, relembrou
a necessidade duma visão estratégica para a sustentabilidade de qualquer projecto a longo prazo, algo para o qual deveria a União Europeia assumir-se como um actor legítimo e eficaz da mundialização, e fosse determinante na regulação da globalização, para a correcção das assimetrias existentes. A UE poderia afirmar-se, dado ter as necessárias condições para o fazer, como o catalisador da exigida renovação, influenciando no sentido da recomposição da ordem internacional. Dada a proximidade e a política de boa vizinhança, considerar-se-ia este vector como sendo um outro de fundamental importância na perspectiva da afirmação europeia.
Defendeu, a 4 de Fevereiro de 2004, em Oslo2, uma União Europeia como devendo ser uma
Organização de força centrípeta de paz entre os povos e as nações que a compõem. O modelo político instituído deveria permitir consolidar a unidade europeia, dinamizando-a e conferindo-lhe uma maior projecção. Para se alcançar este desiderato, necessitar-se-ia que a cidadania europeia se realizasse como um marco fundador do século XXI. A Europa necessitaria de ser mantida próxima dos cidadãos para ser governada, constituindo-se o Pacto de Estabilidade e Crescimento como uma das ferramentas de consolidação para a sua governação.
1 Dedicada ao tema «A Europa em movimento: novas relações de vizinhança»
A 13 de Janeiro de 2005, e na Universidade de Comunicações de Pequim1, foi referido pelo Dr.
Jorge Sampaio que a União Europeia e a China deveriam estabelecer uma parceria estratégica, constituindo-se esta como um passo fundamental para a construção dum novo ordenamento internacional, onde as civilizações pudessem passar a partilhar os seus valores e todos os homens pudessem viver em paz. Acrescentou ainda que os Estados deveriam subordinar-se às normas de direito comum e aos procedimentos das instituições comuns, numa clara assunção da vontade comum dos Estados na defesa da dignidade, da protecção da segurança e da garantia dos interesses da cooperação institucional, quer estabelecida em acordos bilaterais, quer multilaterais.
Para o Dr. Jorge Sampaio a Europa deve afirmar-se como uma potência regional, e deve desenvolver-se como um pilar europeu da OTAN. Para consubstanciar este desígnio, a Europa deve ambicionar ser uma força mundial, e falar a uma só voz nas Organizações Internacionais.
A defesa intransigente dos Direitos do Homem, da Paz, da Segurança e da Liberdade, devem ser continuamente prosseguidas, constituindo-se esta como um dos outros pontos focados na sua acção europeia, e nas suas múltiplas intervenções. A Europa deve representar uma comunidade essencial de princípios, que ao ser activamente assumida e partilhada pelos outros Estados vizinhos, alterará toda uma filosofia de relações clássicas de boa vizinhança.
Assumiu, em muitas das suas intervenções, e dentro do que entendia ser a sua magistratura de influência como Presidente da República dum Estado-Membro da União Europeia, que a Europa, deveria integrar a Turquia no seu seio. Consolidar-se-ia e tornar-se-ia a Europa um exemplo a seguir como espaço de liberdade, justiça e segurança, espaço este que tem através dos seus Estados-Membros manifestado como sendo o que aspira ser para o resto da Humanidade. A União Europeia assumiria, com esta adesão, ser um digno porta-voz dos valores que todos os restantes povos reivindicam.
Falta agora, e na lógica abordada para a compreensão da génese da acção mais internacional do Dr. Jorge Sampaio, compreender como pautou a sua intervenção ao nível mundial.
4.3 No contexto internacional
No estabelecimento das relações internacionais que lhe competia no cumprimento das suas naturais obrigações como Chefe de Estado, efectuou 41 visitas de Estado e 75 visitas oficiais. Efectuou também 18 visitas a Instituições mundiais e europeias2.
Logo após tomar posse, e a 17 de Julho de 19963, interveio na institucionalização da CPLP
dizendo que «a Comunidade era composta por 200 milhões de seres humanos, inserindo-se cada 1 Visita de Estado do Presidente da República Portuguesa à República Popular da China.
2 Página oficial da Presidência da República, in http://jorgesampaio.arquivo.presidencia.pt/pt/main.html .
3 Abertura da Cimeira Constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, realizada no Centro Cultural de
País em organizações supranacionais e regionais, poderosas e diversificadas, passando a ser potenciado e a capacidade de intervenção de cada um, reforçada». Nesse evento, constituiu uma abordagem extraordinariamente relevante, o ter afirmado que a construção da Comunidade não se deveria confinar à sua mera institucionalização e ao funcionamento dos seus órgãos, representando isso sim, o primeiro grande passo para uma objectivação de uma Organização que deveria assumir um maior e mais preponderante papel, até por causa do intrínseco valor histórico e cultural que liga cada um dos seus Membros. Continuou, sublinhando então o Dr. Jorge Sampaio que «o futuro que nós queremos não pode construir-se segundo os critérios estreitos de um prazo interesseiro e calculista. Tem necessidade de valores e ideais».
Com o Dr. Jorge Sampaio na Presidência, Portugal deu um especial contributo para o desenvolvimento do novo conceito estratégico da OTAN e da defesa europeia, em 1999. Portugal conseguiu afirmar-se como uma fronteira ocidental da Europa, no centro da comunidade transatlântica. Ao transformar-se cada vez mais a Europa como uma potência atlântica, a alteração introduzida ao funcionamento da OTAN, permitiu que se formasse uma verdadeira sociedade internacional assente na paz, na democracia e no direito, pretensão que continua a ser prosseguida.
Relevando o papel que os Estados Unidos queriam assumir, o Dr. Jorge Sampaio, numa sua declaração em Varsóvia1, contestou a política seguida pela Casa Branca, expressando uma opinião
muito própria, a qual encontra eco na sua personalidade e maneira de estar e fazer política, aos mais diversos níveis, dizendo taxativamente «Não tentem liderar-nos sempre, o nosso papel não é apenas seguir-vos, mas encontrar uma liderança comum baseada em valores e naquilo que representamos juntos».
Reivindicou para a Península Ibérica, durante o seu mandato, o lugar de principal interlocutor no panorama das relações bilaterais entre a Europa e a América Latina, enfatizando como um exemplo significativo desta assunção os trabalhos que são levados a cabo nas Cimeiras Ibero-Americanas, que se realizam anualmente, e estão instituídas desde 1991. A participação de Portugal e o desenvolvimento das Cimeiras Ibero-Americanas não é contrária aos princípios da União Europeia. Considerou que serviram antes para melhorar as relações entre estes dois grandes blocos, e contribuíram, também, para o estreitamento dos laços com os Estados Unidos.
Foi um defensor incansável da independência de Timor Leste, tendo exercido uma enorme influência junto das instâncias internacionais, e nomeadamente junto da ONU, visando garantir a segurança deste território e o encaminhamento da ajuda humanitária.
Trabalhou afincadamente na definição e consolidação da área Mediterrânica como um pólo de importância geoestratégica para Portugal.
Como Representante Especial do Secretário-Geral da ONU para a Tuberculose, iniciou a tarefa de encorajar os líderes mundiais no aumento do empenhamento destes no controlo da doença. Esta acção tinha como intuito o cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (Millennium Development Goals) da ONU, que são os de parar e reverter a incidência da tuberculose até 2015.
Importa agora conhecer o que é a Organização das Nações Unidas, para em acto consecutivo melhor se aquilatar das razões e da importância do trabalho que o Dr. Jorge Sampaio foi nesta chamado a desenvolver.
5. AS NAÇÕES UNIDAS1
A Organização das Nações Unidas, também conhecida pela sigla ONU, e comummente chamada de Nações Unidas, é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundial. O nome Nações Unidas foi concebido pelo Presidente Norte-Americano Franklin Roosevelt e utilizado pela primeira vez na Declaração das Nações Unidas de 12 de Janeiro de 1942, quando os representantes de 26 países assumiram o compromisso de que os seus governos continuariam a lutar contra as potências do Eixo.
A Carta das Nações Unidas foi elaborada pelos representantes de 50 países presentes à Conferência sobre Organização Internacional, que se reuniu em São Francisco de 25 de Abril a 26 de Junho de 1945.
As Nações Unidas, entretanto, começaram a existir oficialmente em 24 de Outubro de 1945, após a ratificação da Carta pela China, Estados Unidos, França, Reino Unido e a ex-União Soviética, bem como pela maioria dos signatários. O dia 24 de Outubro é comemorado em todo o mundo como o «Dia das Nações Unidas».
Os propósitos das Nações Unidas são:
Manter a paz e a segurança internacionais; Desenvolver relações amistosas entre as nações;
Realizar a cooperação internacional para resolver os problemas mundiais de carácter económico, social, cultural e humanitário, promovendo o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais;
Ser um centro destinado a harmonizar a acção dos povos para a consecução desses objectivos comuns.
Chamam-se Membros Fundadores das Nações Unidas os países que assinaram a Declaração das Nações Unidas de 1 de Janeiro de 1942 ou que tomaram parte da Conferência de São Francisco, tendo assinado e ratificado a Carta. Outros países podem ingressar nas Nações Unidas, por decisão da Assembleia Geral, mediante recomendação do Conselho de Segurança.
Hoje há 192 países membros das Nações Unidas, regendo-se por uma série de propósitos e princípios básicos, os quais são aceites por todos os Países-Membros da Organização.
Vamos explanar agora o final do ano de 2005 como uma das datas mais relevantes de Portugal e do trabalho que o então Presidente da República Portuguesa Dr. Jorge Sampaio desenvolveu na Reunião de Alto Nível da Sessão Plenária da Assembleia Geral das Nações Unidas, e comemorativa dos 60 anos desta Organização Internacional:
13 de Setembro de 2005 – Efectuou desde este dia e até 17 de Setembro uma visita oficial a Nova Iorque, à ONU;
14 de Setembro de 2005 – Esteve empenhado em diversos encontros bilaterais à margem do plenário da Assembleia Geral, durante os quais se reuniu, entre outras individualidades, com o Alto-Comissário da ONU para os Refugiados Dr. António Guterres, com o Presidente da Comissão Europeia Dr. José Manuel Barroso, com o Presidente da República de Moçambique Armando Guebuza, e com o Presidente da República da África do Sul Thabo Mbeki;
15 de Setembro de 2005 – Prosseguiu com diversos encontros bilaterais na sede das Nações Unidas, entre eles com o Chefe de Estado nigeriano Olusegun Obasanjo, o qual exercia igualmente a Presidência da União Africana;
16 de Setembro de 2005 – No penúltimo dia da deslocação oficial o Dr. Jorge Sampaio discursou na Reunião Plenária de Alto Nível da Assembleia Geral das Nações Unidas. No período da tarde, o Chefe do Estado português esteve presente na conferência internacional Clinton Global Initiative e interveio no painel dedicado ao tema «Religião, Conflito e Reconciliação»;
14 de Dezembro de 2005 – Comemoraram-se os 50 anos da data em que Portugal se tornou membro das Nações Unidas, Organização que neste ano também celebrou o seu sexagésimo aniversário;
21 de Dezembro de 2005 – O Governo português congratulou-se com a aprovação pela Assembleia Geral das Nações Unidas da criação da Comissão para a Consolidação da Paz;
O Dr. Jorge Sampaio foi ainda o primeiro orador da mesa-redonda interactiva que reuniu aproximadamente 40 Chefes de Estado e foi liderada pelo Presidente da Polónia, Aleksander Kwasniewski. Participou ainda na reunião de apoio ao Fundo das Nações Unidas para a
Democracia, presidida pelo Chefe de Estado norte-americano George W. Bush, pelo Primeiro-Ministro da Índia Manmohan Singh, e pelo Secretário-Geral da ONU Kofi Annan.
Depois de todo o quadro apresentado, falta-nos enquadrar a actividade do Dr. Jorge Sampaio nas actuais funções cometidas pelo Secretário-Geral das Nações Unidas Ban Ki-Moon.
6. ALTO-REPRESENTANTE PARA A ALIANÇA DAS CIVILIZAÇÕES
O Secretário-Geral da ONU Ban Ki-Moon nomeou, em Abril de 2007, o Dr. Jorge Sampaio como Alto Representante para a Aliança das Civilizações, após ter obtido a anuência dos países promotores e pioneiros na definição dos objectivos da Aliança, que são a Espanha e a Turquia. Este trabalho teve o seu primórdio com Kofi Annan.
Esta nomeação representou o empenhamento reforçado das Nações Unidas nesta área, tendo sido escolhida uma personalidade competente, conforme foi alegado pelos anteriormente citados países.
É importante ressaltar o discurso de Kofi Annan proferido em Istambul, em Fevereiro de 2007, quando e a propósito da Aliança das Civilizações, disse que a fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, tinham sido sempre o motor do progresso humano, e que ao ser escolhido o antigo presidente de Portugal, a escolha recaía numa personalidade que sempre defendeu a adesão da Turquia à União Europeia, reconhecendo-se desta forma o importante papel de Portugal nesta matéria, no diálogo inter-civilizacional.
A Aliança das Civilizações constitui uma iniciativa que tenta responder à conjugação dos esforços pela comunidade internacional, quer ao nível das instituições, quer ao nível da sociedade civil, cujas ligações apresentam divisões fracturantes, as quais acarretam prejuízo, mercê das más concepções e polarizações. Estas constituem uma potencial ameaça à paz mundial. A Aliança tentará minimizar, se não mesmo, obstaculizar, a que emirjam e se fomentem diferentes formas de violência, derivadas das diferentes concepções, encetando um laborioso e constante trabalho de cooperação entre os diversos actores, na tentativa de lidar com este tipo de divisões.
A Aliança irá, como coligação de forças, trabalhar contra todo o tipo de extremismos, como o que tem caracterizado as sociedades islâmicas e as ocidentais, no respeito mútuo pelas respectivas religiões, credos e tradições, reafirmando a necessidade da humanidade ter de possuir uma interdependência em todas as áreas, sempre no intuito de se melhorar o ambiente, a saúde, o desenvolvimento social e económico, bem como a paz e a segurança.
Ao Dr. Jorge Sampaio caberá a tarefa de liderar e promover esta Aliança das Civilizações como algo credível e viável, na tentativa de se diminuírem as tensões entre as diversas sociedades, as ameaças, os problemas e os desequilíbrios mundiais de forma concertada.
Um outro grande objectivo constitui a tentativa de dirimir uma parte do conflito do Médio Oriente, e conseguir que nos países muçulmanos venha a prevalecer uma maior aceitação da pluralidade social.
7. CONCLUSÃO
Na temática desenvolvida neste trabalho permitimo-nos dizer que o objectivo que nos alcandoramos inicialmente atingir foi conseguido.
Foi aflorado, para um correcto discernimento e entrosamento dentro do que pretendíamos demonstrar, em que consistem as Relações Internacionais, ou seja, como se definem, tendo-nos socorrido, para o efeito, da bem conseguida definição de René Coste. Prosseguiu-se, com uma pequena biografia da personagem central do trabalho, e de como a sua vida se foi moldando, e significativamente, a sua evolução pessoal, as quais o transformaram na personagem de reconhecido mérito mundial.
Para se entender até onde podia o Dr. Jorge Sampaio fazer sentir a sua influência, enquadraram-se as competências do cargo de Presidente da República Portuguesa dentro das balizas definidas pela Lei fundamental que é a Constituição da República, e do que nela é permitido em termos de Relações Internacionais.
Foi apresentada a sua actuação, no âmbito nacional, e de como foi sempre um personagem interventivo, apelador para que nas mais diversas áreas os objectivos e as melhores práticas como exemplo fossem utilizados. E visou sempre, em toda a verdadeira acepção dos objectivos a que se propôs, com o intuito de se obterem, entre outros, os melhores resultados através da utilização do mais elevado nível de eficácia. Posteriormente, e dado estar o País integrado na União Europeia, os momentos que se afiguraram como mais incisivos, dos quais se infere uma maior ingerência positiva para que se obtenham os melhores resultados, foram analisados. Terminamos, com as múltiplas acções ao nível internacional, primeiramente no exercício das funções de mais Alto Dignitário do Estado, seguindo-se-lhe as que resultaram do reconhecimento e atribuição de um alto cargo dentro da Organização das Nações Unidas.
Conseguiu-se explorar e transmitir como, aos mais diversos níveis de intervenção, os quais têm vindo a caracterizar a actuação do Dr. Jorge Sampaio, e que foram explorados nas vertentes da sua actuação como antigo Presidente da República de Portugal, e como cidadão de Alta
Responsabilidade Mundial, nos cargos de Alto Representante do Secretário-Geral das Nações Unidas, quer para a Tuberculose, quer para a Aliança das Civilizações, a temática de Portugal e dos Portugueses, as Organizações Internacionais e a mundialização e a globalização foram temas recorrentemente tratados.
O Dr. Jorge Sampaio soube ler e interiorizar o sentir nacional, europeu e internacional. Ao fazê-lo passou a colocar, consecutivamente, e em todas as suas intervenções, a tónica duma actuação mais assertiva e responsável, onde se devia olhar para os problemas, enfrentá-los e solucionar os casos através de todas as medidas, de todas as ferramentas que estão disponíveis. As linhas mestras, que todos em geral e cada um em particular deveriam seguir, foram por ele muitas vezes apontadas, tornando-se um exemplo a seguir. Procurou assim assumir a grande responsabilidade de ser Presidente, interpretando os sinais, positivos e negativos, que a sociedade foi emitindo, e foi sempre falando aos portugueses sobre as lições que o passado lhes tinha dado, mas sobretudo, sobre as exigências do presente e os desafios para os quais se deviam preparar para melhor enfrentar o futuro. E igual tratamento se consubstanciou ao nível das relações internacionais.
Com o tempo, a experiência e a visão comparada das situações, aprendeu o Dr. Jorge Sampaio que a maior «questão nacional» não é pensar-se que os portugueses são os únicos a ter uma questão nacional, porque todos os povos a têm à sua medida e maneira. Teve o privilégio de seguir a situação nos vários países, e entender o estado de espírito das suas opiniões públicas das suas preocupações culturais. Desta sua acção ficou em melhor situação para concluir que todos os povos têm uma «questão nacional», vivendo-a com intensidade e mesmo dramatismo, sobretudo nos momentos de crise e de incerteza. Considerou ainda que há uma «questão internacional» tanto mais omnipresente quanto o mundo é global, a qual afecta todos os povos, e existe inerentemente uma «questão europeia» a qual é partilhada pelos países europeus. A juntar a todas estas questões há uma «questão da democracia» e do seu funcionamento na sociedade de informação, que está presente em todos os regimes democráticos.
Como Presidente da República o Dr. Jorge Sampaio entendeu ser seu dever apoiar todas as manifestações que se ligavam à identidade cultural e história Portuguesa, propiciando o conhecimento e o diálogo entre os povos, os países, os continentes e contribuindo, nessa medida, para o reforço da tolerância e da convivência pacífica nas relações entre os Estados. Considerou também que o isolamento, o agravamento das assimetrias e dos desequilíbrios, a par do aumento da pobreza, da injustiça e da discriminação, entre os países ou no interior das sociedades são os grandes aliados dos movimentos e grupos extremistas que defendem a intolerância étnica, religiosa, ou mesmo a chauvinista, e são adeptos duma sociedade assente em valores, para a grande maioria, inaceitáveis que não respeitam a liberdade e a dignidade dos seres humanos. A tolerância, o
conhecimento, o diálogo são, assim, a causa e a consequência da paz, da justiça, do desenvolvimento solidário1.
Recomendou o reconhecimento da procura de soluções inovadoras para se poder enfrentar as causas contemporâneas da iniquidade, a qual instala a descrença e corrói a necessária coesão social.
A nomeação e a assunção do cargo de Alto Representante para a Aliança das Civilizações é um marco na sua prestimosa carreira, a qual tenderá a culminar com elevados objectivos mundiais, e a sua consecução permitirá, mais uma vez, colocar uma personalidade portuguesa nos anais da História, e trazer um benfazejo contributo para a Paz e a Ordem Mundial.
1 Discurso proferido na Jornada «Memórias Árabe-Islâmicas», realizada no Arquivo Histórico da Torre do Tombo, em
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