• Nenhum resultado encontrado

Estatísticas populacionais: Brasil, 1776-1822

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Estatísticas populacionais: Brasil, 1776-1822"

Copied!
15
0
0

Texto

(1)

ESTATÍSTICAS POPULACIONAIS: BRASIL, 1776-18221

Thais Gomes Shiratori2 Ana Silvia Volpi Scott3

INTRODUÇÃO

Conhecer o passado, a história das populações, seus aspectos sociais, culturais e demográficos, envolve o estudo de diferentes fontes históricas. No caso da historiografia brasileira, são utilizadas fontes como Registros de Eventos Vitais – batismo/nascimento, casamento e óbito – produzidos e organizados pela Igreja (Registros Paroquiais) e pelo Estado (Registros Civis). São importantes ainda as antigas listagens de população, produzidas com diversos objetivos, tanto pelo Estado como pela Igreja (por exemplo, as Listas Nominativas de Habitantes ou antigos Censos Coloniais, elaborados para diversas localidades brasileiras, entre os meados do século XVIII e primeira metade do XIX). Além destas, há fontes de outros tipos, como os testamentos e inventários. Cada uma delas possui especificidades que possibilitam diferentes análises e abordagens.

Os registros de eventos vitais por se tratarem de fontes nominativas permitem que as informações sejam cruzadas entre si e também com dados de outras fontes nominativas. Desse modo, possibilitam a reconstrução de redes de sociabilidade e familiares, auxiliando na identificação de hierarquias sociais e práticas religiosas (BASSANEZI, 2012). Por outro lado, os testamentos e inventários, documentos produzidos no momento de morte de uma pessoa, trazem, por sua vez, diversas informações sobre a vida, o contexto socioeconômico e político dos diferentes indivíduos (FURTADO, 2012).

Através dessas fontes é possível fazer análises para quantificar e caracterizar as populações do passado. Além disso, possibilitam conhecer o modo como se davam as relações entre os indivíduos que integravam os diferentes

1

Trabalho apresentado no VIII Simpósio Nacional de História da População, realizado em Campinas/SP – Brasil, de 16 a 17 de outubro de 2019.

2 Bolsista PIBIC/CNPq no projeto “Além do Centro-Sul: por uma História da População Colonial nos Extremos dos Domínios Portugueses na América” processo nº 420977/2018-0 – Graduanda em Ciências Sociais /Unicamp.

(2)

segmentos populacionais (livres, libertos e escravizados), indicando aspectos relativos aos vínculos familiares, sociais e até políticos que eram mantidos.

As fontes utilizadas para o estudo da história das populações incluem, na maioria das vezes, documentos que não foram criados com esse objetivo. Nesse contexto, o campo da Demografia Histórica ganha destaque, pois possui como característica fundamental o uso, para fins de estudos das componentes demográficas, fontes que não foram criadas com essa finalidade. No entanto, para fazer atingir esse objetivo é essencial a etapa do trabalho de análise crítica das fontes, que inclui a organização, adequação e compatibilização das informações disponíveis nos diferentes tipos de documentos utilizados. Através de técnicas e de métodos específicos é possível elaborar um conjunto de estatísticas e dados de caráter quantitativo e serial para caracterizar o perfil dos segmentos populacionais, que compunham a sociedade brasileira no passado. Também é possível aplicar metodologias de caráter qualitativo e de segmentos nominativos a essas mesmas fontes.

Este trabalho possui como objetivo analisar um conjunto específico de fontes, composto pelos mapas de população, conjunto documental produzido durante o período colonial brasileiro, que disponibilizam informações sobre a população desde os meados do século XVIII até os inícios do século XIX. Esses mapas trazem informações abrangentes que dão subsídios para identificar as características e especificidades da população sob o domínio luso na América naquele período.

Nosso objetivo é explorar as possibilidades de pesquisa que essa fonte oferece, levando em consideração suas potencialidades e limitações. Esta comunicação apresentará os procedimentos metodológicos utilizados que permitem explorar essa fonte, com intuito de contribuir para o conhecimento, de forma integrada, da dinâmica e história demográfica do território colonial.

Parte destas fontes estatísticas está disponível online, através do projeto Counting Colonial Populations, coordenado por Paulo Teodoro de Matos (CHAM/FCSH – Universidade Nova de Lisboa), através do link http://colonialpopulations.fcsh.unl.pt/ que, praticamente, cobrem todo o território que compunha o império colonial português entre os séculos XVIII e XIX. Para o Brasil, estão disponíveis quinhentos e noventa e dois documentos originais, que estão

(3)

documentos, trinta estão organizados em planilhas do Excel e compõem o universo de nossa análise.

Inicialmente abordaremos o contexto histórico de produção dessas estatísticas populacionais. Em seguida, serão apresentadas as características dessa fonte, pontuando as potencialidades que oferece e as dificuldades que se impõem aos pesquisadores. Logo após, serão apresentados os métodos de pesquisa utilizados e, por fim, os resultados encontrados.

CONTEXTO HISTÓRICO

As fontes estatísticas sobre a população são extremamente importantes e possibilitam criar diferentes olhares sobre o passado. No caso das colônias portuguesas a contagem populacional se iniciou no final do século XVII (MATOS; SOUSA, 2015) através de diferentes documentos e formas de recolhimento, sendo impulsionadas ao longo da história por diferentes motivos. Inicialmente eram feitas com intuito de auxiliar o recolhimento fiscal e alfandegário, entretanto, eram realizadas de forma extremamente irregular, não abrangiam todo o território colonial, com ausência de periodicidade temporal e também não seguiam padrão comum. Essas documentações passaram por profundas mudanças a partir do governo de Marquês de Pombal (1750-1777) que, com a introdução de inúmeras políticas de gestão do território, implantou ações a fim de padronizar e expandir a recolha de informações populacionais. Em seu governo essas informações passaram a ter grande importância burocrática e política para a administração colonial, sendo uma ferramenta essencial no processo de colonização e de construção dos Estados Modernos (MATOS; SOUSA, 2015).

No contexto político inaugurado com a administração pombalina, o Brasil passou a contar com os mapas de população, documentação produzida sob as ordens da Coroa portuguesa, e que foi realizada em todas as regiões sob o domínio luso entre 1776 e 1890, dessa forma, os mapas estatísticos cobrem as regiões da África, da Ásia e da América.

Essa fonte reúne informações que possibilitam análises comparativas a respeito da dinâmica demográfica colonial e sobre a história da população e da sociedade brasileira. No entanto, por sua dimensão e enorme heterogeneidade, possui limites e problemas que devem ser considerados ao serem utilizados. Tais

(4)

questões implicam em diferentes dificuldades metodológicas, fazendo com que essa fonte seja ainda pouco explorada, apesar de sua potencialidade.

A coleta desses dados sobre as populações que compunham o império colonial português expressou o esforço burocrático português em conhecer seus territórios e os habitantes que se espalhavam no ultramar. Em um contexto de acirramento das rivalidades entre os países europeus que tinham impérios coloniais (como Portugal e Espanha), o recolhimento das informações expressava, sobretudo, uma estratégia política das metrópoles europeias, em estabelecer sua soberania. Dessa forma, essa ação marcou um momento de mudança de interesse da Coroa portuguesa em relação às suas colônias, que buscou criar e negociar uma nova ordem política, econômica e social. A coleta das informações possibilitou conhecer melhor o território e a população nele distribuída, a partir de dados quantitativos e qualitativos. Segundo Matos e Sousa, estas estatísticas tinham finalidades de cunho fiscal, político e também militar, permitindo, portanto, à administração criar modelos de ocupação, políticas públicas e estratégias militares (MATOS; SOUSA, 2015).

DISCUSSÃO DA FONTE: CARACTERÍSTICAS, POTENCIALIDADES E DIFICULDADES

Os mapas de população revolucionaram o modo como as informações populacionais eram coletadas e organizadas. Pela diversidade de variáveis abordadas, pelo seu caráter temporal que buscava seguir maior regularidade e por sua abrangência, reúnem informações únicas. Diferentemente dos registros e informações produzidas e preparadas antes do governo de Marquês de Pombal, a elaboração dos mapas de população seguia um procedimento de coleta de informações que buscava a padronização. Entretanto, apesar da tendência de uniformização, e devido às especificidades étnicas, sociais e políticas de cada região vigoraram diferentes modelos de quantificação. Ademais, os mapas passaram a cobrir grande parte do território luso na América, com informações de todas as regiões geográficas da colônia, além de reunir elementos de todos os grupos populacionais: homens e mulheres livres, indígenas e escravizados.

Essas estatísticas trazem informações agregadas que dizem respeito às distintas capitanias, com dados relativos ao número de total de habitantes, condição jurídica, cor, etnia, idade, sexo, estado matrimonial. Com esses dados é possível

(5)

construir taxas de natalidade, nupcialidade e mortalidade, permitindo identificar o perfil socioespacial da população.

Os governantes responsáveis procuravam seguir uma metodologia comum, dessa forma, os documentos possuem a mesma estrutura de informações com variações quanto ao número de variáveis, quanto às escolhas lexicais, quanto aos grupos sociais representados ou em relação às categorias jurídicas existentes. Por exemplo: o mapa da Capitania da Baía do ano de 1775 possui a especificidade de registrar o número de casas, fogos e clérigos; no mapa de 1803 da Capitania de São Paulo é utilizada a categoria “mulato”, enquanto que na Capitania da Bahia é usado o termo “pardo”; por último, diferentemente de outras regiões, na Capitania do Grão-Pará a população de indígenas era contabilizada.

FIGURA 1 – Mapa circunstanciado de todos os Habitantes que existem nas diferentes

Povoações anexas à Fortaleza de São Joaquim do Rio Branco 1786

Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Conselho Ultramarino, Brasil, Rio Negro.

As variações eram geradas pelo fato de que, a organização das informações se dava por diferentes pontos de vista, uma vez que envolviam em cada região, diversas instituições e agentes do poder imperial e local para o cumprimento das ordens da Coroa. Além disso, também variava o empenho dos gestores políticos e

(6)

os procedimentos considerados adequados para o recolhimento das informações. Portanto, existem variações nos modelos de quantificação populacional dependendo dos parâmetros considerados importantes, das características e problemas de cada região, que levam a possíveis mudanças no resultado final da estatística elaborada.

Assim, as especificidades de cada documento variam de acordo com as caraterísticas das regiões onde os levantamentos eram realizados, por exemplo: dados sobre as populações indígenas estão presentes, majoritariamente, nas capitanias do Norte do território, enquanto, na Capitania de Santa Catarina, os mapas continham informações que buscavam controlar e acompanhar os efeitos do movimento de casais açorianos para a capitania. É importante pontuar que em regiões envolvidas em disputas geopolíticas, frequentemente a fiscalização da produção dos mapas era mais rígida, com isso, a qualidade e regularidade desses documentos é visivelmente maior (MATOS, 2017). A figura 1 apresenta o mapa que diz respeito ao ano de 1786 para a capitania do Rio Negro, é um exemplo de modelo utilizado para organizar as informações estatísticas sobre aquela população.

Outros mapas e levantamentos populacionais, realizados em diferentes territórios sob o domínio luso, como Moçambique, Angola, Cabo Verde, no continente africano e Goa, na Índia, apresentam, por sua vez, características distintas que expressavam as singularidades históricas, territoriais, populacionais e sociais existentes naquelas regiões. Em Angola, inicialmente os documentos dividiam a população apenas entre livres ou escravos, mais tarde, além de informações gerais quanto ao sexo, idade, ocupação, estado civil, dentre outras, passaram a registrar informações relativas ao número de entradas e saídas da população (CURTO; GERVAIS, 2001; MATOS; VOS, 2013). Já em Goa, o foco da classificação estava voltado para a questão da religião (MATOS, 2017). Por último, em Moçambique o recolhimento de informações incluía não africanos e a população não era dividida por cor (MATOS, 2017).

É fundamental analisar essa fonte levando em consideração a dimensão que a iniciativa possuiu no período em que foi elaborada. Fez parte de um projeto inédito de levantamento de informações demográficas, até então nunca realizado por nenhuma outra nação, com isso, é preciso pontuar as inúmeras dificuldades presentes. Naquele momento inexistiam técnicas e estratégias próprias para o levantamento de dados, os meios burocráticos e materiais eram deficientes para

(7)

abranger todas as regiões e pessoas que se dispersavam por amplo espaço territorial, que incluía o continente americano, o asiático e o africano.

Nesse contexto, o território que viria a constituir o Brasil representava um grande desafio para o projeto da coroa portuguesa, por sua dimensão continental e por seu caráter territorial e populacional extremamente heterogêneo, com isso, o levantamento das informações na colônia lusa na América demandava grandes esforços e diferentes estratégias.

A confecção dos levantamentos populacionais exigia a mobilização de uma gigantesca rede de comunicação e burocracia, envolvendo inúmeras entidades, passando por diversas etapas de produção e instituições. Envolvia agentes do poder imperial, entidades locais membros da Igreja, o Exército, além dos governantes de cada região. As secretarias gerais e os governos de cada capitania tinham responsabilidade importante na elaboração dos mapas populacionais a partir das ordens recebidas. No entanto, devido a hegemonia e a intensidade do poder da Igreja no território, era imprescindível que houvesse o auxílio de seus membros para que as demandas da coroa pudessem ser cumpridas, uma vez que a Igreja já tinha o encargo a coletar e registrar as informações sobre os fiéis (para controlar o cumprimento dos desígnios relativos aos sacramentos católicos) entre todos os segmentos populacionais. A organização e disseminação da estrutura administrativa eclesiástica, através das freguesias e paróquias, bispados, era utilizada pelo governo para viabilizar aqueles levantamentos.

Além dos desafios que o próprio território impunha, muitas das lacunas em relação ao nível de cobertura das informações, assim como as possíveis incorreções, estão associados a dificuldades e falhas dos governantes para a execução das ordens recebidas. Com frequência, isso resultava na supressão de informações de parcelas da população, principalmente de grupos de escravizados e indígenas. Por último, era frequente a resistência e desconfiança da população em fornecer determinadas informações por não compreenderem o uso das mesmas, pois temiam que fossem utilizadas para fins de recrutamento militar ou para cobrança de impostos.

As características dos documentos disponíveis para o estudo refletem dificuldades burocráticas e materiais, que repercutiram, inclusive, na elaboração e desenvolvimento do projeto. As especificidades dos próprios documentos e das informações evidenciam o caráter extremamente heterogêneo da colônia e sua

(8)

população e, ademais, expressam aspectos socioculturais presentes no Brasil colonial. Nesse sentido, apesar das inúmeras potencialidades oferecidas pela fonte, as dificuldades encontradas também são grandes, já que os documentos, em geral, não seguiram o padrão determinado pelas ordens régias, devido às peculiaridades impostas pelo território e pela população ou, não se pode descartar, por conta da negligência dos responsáveis em cumprir, à risca, as ordens da coroa.

De todo modo, apesar dessas dificuldades, a partir da organização dos documentos disponíveis, foi possível desenvolver procedimentos e métodos de investigação capazes de auxiliar na construção de uma análise do passado brasileiro, deslocando o eixo das pesquisas que, majoritariamente se dedicam as regiões sul e sudeste, para uma análise que buscasse considerar todo o território.

O projeto que está em andamento, conta com informações disponíveis para as Capitanias de Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande de São Pedro e Santa Catarina, para a Região Sudeste; Goiás e Mato Grosso, para a Região Centro-Oeste; Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Paraíba e Pernambuco para a Região Nordeste; e Grão Pará, Maranhão, e Rio Negro para a Região Norte. Todas as tabelas e quadros estão digitalizados, entretanto, apenas os documentos sobre as Capitanias de São Paulo, Santa Catarina, Ceará, Bahia, Goiás, Grão Pará, Rio Grande de São Pedro estão organizados em planilhas Excel, reunindo trinta no total.

É fundamental pontuar que alguns mapas disponíveis não se referem a totalidade da capitania, em muitos casos, trazem informações fragmentadas de freguesias, comarcas, vilas ou julgados específicos.

MATERIAIS E MÉTODOS

Inicialmente, como estratégia metodológica, selecionamos apenas a documentação disponível em planilhas. O conjunto de capitanias (Quadro 1) possui número variável de mapas populacionais. Assim, enquanto a Capitania de Goiás conta com treze documentos, a de Rio Grande de São Pedro, possui apenas um. Temos que considerar ainda, que os mapas seguem diferentes modelos de elaboração, com distintas informações sobre a população, que ainda podem variar ao longo dos anos nos quais foram elaborados. Por exemplo: a Bahia conta com categorias específicas, como “número de almas” e “gente que pode dar”, em São Paulo é contabilizado o número de gêmeos, por último, em Goiás é utilizada a categoria de “inúteis” e “ociosos”. Diante da heterogeneidade, optou-se por realizar

(9)

uma análise sincrônica, com um conjunto maior de capitanias e uma análise diacrônica com os dados relativos à Capitania de Goiás. Adiante apresentaremos os detalhes dessa opção.

QUADRO 1 – Mapas populacionais disponíveis em planilhas

Capitania/

Ano Baia Goyas

Grão Pará

Rio Grande de São Pedro Santa Catarina São Paulo Ceará 1773 x 1774 1775 x x 1776 x 1777 x 1778 x 1779 x 1780 x o 1781 x 1782 x x 1783 x 1784 x 1785 x 1786 x 1787 x 1788 x 1792 x 1803 x x x 1804 x

Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Conselho Ultramarino.

Para efeito de análise, a documentação selecionada permite dois tipos de abordagem: diacrônica e sincrônica. A sincrônica possibilita visualizar os dados de forma estática, em um tempo específico: em um determinado ano as informações disponíveis permitem analisar através de uma variável comum o perfil, as características do conjunto de capitanias no ano selecionado. Por outro lado, a perspectiva diacrônica permite analisar, ao longo de vários anos, a partir da seleção de um conjunto de variáveis, o processo evolutivo, permitindo assim, a visualização de mudanças e continuidades.

Com intuito de construir uma análise que abrangesse todo o território colonial, e levando em consideração as limitações existentes, escolhemos como estratégia metodológica, selecionar capitanias que pudessem representar grandes

(10)

regiões geográficas, para que assim fosse possível ter uma visão de conjunto da maior parte do território na análise. Portanto, a Capitania de São Paulo foi selecionada para representar a Região Sudeste, Santa Catarina para a região Sul, Ceará para o Nordeste e Goiás para Centro Oeste. Infelizmente nesse conjunto de documentos que já estão organizados em planilhas, para o ano selecionado não existem informações referentes a região Norte4 do território. Com isso, pela disponibilidade do conjunto de documentos, essa metodologia permite a construção da análise sincrônica. Desse modo, selecionamos os anos de 1803-1804, uma vez que, esse é o período comum em que as capitanias representantes das grandes regiões possuem mapas de população disponíveis.

Os mapas selecionados no período abordado reúnem, em comum, informações sobre sexo, cor e condição jurídica, entretanto, se diferenciam em relação à escala das informações presentes. Os mapas de Santa Catarina e de São Paulo trazem dados sobre todas as freguesias e distritos que as compõem. Por outro lado, o mapa do Ceará, traz dados sobre duas paróquias específicas – Paroquia de Nossa Senhora da Paz e a Paroquia de Nossa Senhora Carmo dos Inhamus, ambas da Villa de São João do Príncipe, na Capitania do Ceará – já o documento de Goiás reúne dados sobre a Freguesia do Senhor Bom Jesus d'Anta. No entanto, apesar da diferença de escala presente nos documentos, foi traçado o perfil da condição jurídica dos habitantes nas quatro regiões do território colonial.

A capitania de Goiás por contar com maior número de documentos, totalizando treze mapas de população dos anos de 1773, 1780,1781, 1782, 1783, 1784, 1785, 1786, 1787, 1788, 1792 e 1804, foi utilizada para construção da análise diacrônica. Todos esses documentos seguem, na maioria dos anos, padrão similar, reunindo informações sobre sexo, cor, condição jurídica, nascidos, mortos. Esse conjunto apresenta também a população subdividida em grupos etários gerais e pelo conjunto de freguesias que existiam na capitania nos anos referidos. Ainda assim, encontramos mapas em que as informações têm variações importantes. Por exemplo, nos mapas de 1786 e 1787, nota-se a ausência de classificação jurídica, cor, e por último, o documento de 1804 refere-se a uma única freguesia.

(11)

RESULTADOS

Os gráficos a seguir revelam a estrutura jurídica da população por sexo, no período de 1803-1804, nas capitanias de São Paulo, Santa Catarina, Goiás e Ceará. No Gráfico 1 nota-se em todas as regiões selecionadas maior proporção de mulheres livres. Na região Sul (Capitania de Santa Catarina) a diferença entre os grupos é maior do que nas demais regiões, nesse ano a população da capitania era de 28433 habitantes, sendo 13942 mulheres, enquanto 84,6% desse grupo era formado por mulheres eram livres e 15,4% eram de mulheres cativas. Na região Sudeste (capitania de São Paulo) de 188379 habitantes, 95858 eram mulheres, sendo que 79% eram mulheres livres e 21% de cativas. Já na região Nordeste (capitania do Ceará) de 10488 habitantes das paróquias selecionadas, 5241 eram mulheres, com 82,1% livres e 17,9%% cativas. Por último, na região Centro Oeste (capitania de Goiás) registrou-se menor diferença entre os dois grupos em relação as demais regiões, a freguesia contava com 1372 habitantes, com 587 mulheres, sendo 56,6% mulheres livres e 43,4% cativas.

GRÁFICO 1 – Condição jurídica mulheres (1803-1804)

Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Conselho Ultramarino.

O Gráfico 2 revela que a condição jurídica dos homens se assemelhava com a estrutura da condição jurídica das mulheres nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste, ou seja, com maior proporção de homens livres em relação a homens cativos no período selecionado. A região Centro Oeste ganha destaque, sendo a única região com maior proporção de homens cativos, de 785 homens 44,8% eram livres e 55,2% eram cativos. Por outro lado, na região Nordeste (capitania do Ceará) de 5207 homens, 82,4% eram livres e 17,6% cativos, sendo a região com maior proporção de

(12)

homens livres em relação aos cativos. Na região Sudeste (Capitania de São Paulo) de 188379 habitantes, 92521 eram homens, com 74% de homens livres e 26% cativos. Por fim, na região Sul (capitania de Santa Catarina) de 28433 habitantes, 14491 eram homens, sendo 71,7% livres e 28,3% cativos.

GRÁFICO 2 – Condição jurídica homens (1803-1804)

Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Conselho Ultramarino.

A perspectiva sincrônica permite identificar que nas quatro regiões analisadas no período de 1803-1804, com exceção dos homens da região Centro-Oeste, a população livre era expressivamente maior do que a cativa.

GRÁFICO 3 – Condição jurídica homens – Capitania de Goiás (1773 – 1792)

Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Conselho Ultramarino.

Já a análise diacrônica da capitania de Goiás, com as informações disponíveis, foi possível, inicialmente, analisar a condição jurídica da população por

(13)

sexo. Os gráficos a seguir revelam a maior proporção de pessoas cativas em ambos os sexos no período analisado, com exceção do ano de 1781, para o conjunto das mulheres. Entre os homens a diferença entre livres e escravizados é expressivamente maior em todos os anos, em 1773: 71,8% dos homens eram cativos, e a proporção se mantem elevada, até 1792, ano em que se registrou uma queda, diminuindo para 68,6% de homens escravizados e 31,4% de homens livres.

Entre as mulheres nota-se maior equilíbrio, na qual a diferença entre os dois grupos é menor em todos os anos em relação aos homens no período selecionado. Dos nove anos analisados, apenas em 1781 foi registrado maior proporção de mulheres livres, totalizando 50,1%, enquanto as mulheres cativas representavam 49,9% da população feminina. Nos demais anos a proporção de mulheres cativas é mais elevada, em 1784 registrou-se a maior proporção de cativas em relação às mulheres livres, totalizando 60,9% da população de mulheres.

GRÁFICO 4 – Condição jurídica mulheres – Capitania de Goiás (1773 – 1792)

Fonte: Arquivo Histórico Ultramarino (AHU). Conselho Ultramarino.

As perspectivas diacronia e sincrônica permitem identificar o movimento da estrutura da condição jurídica da população colonial. Os resultados da Capitania de Goiás no período de 1803-1804 revelam que houve continuidades em relação ao perfil jurídico dos habitantes, uma vez que, em ambas perspectivas a porcentagem da população cativa masculina se mantem mais elevada do que a livre. Portanto, a análise sincrônica evidencia continuidades em relação ao período estudado com a

(14)

análise diacrônica. No entanto, a mudança do perfil jurídico da população feminina revela que se registraram transformações importantes.

Ademais, os resultados obtidos com a análise sincrônica, evidenciam uma tendência em relação a estrutura da condição jurídica dos habitantes do território sob o domínio luso na América, que revela possuir maior porcentagem de população livre nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste no período de 1803-1804.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Explorar a diversidade de documentos e de informações presentes nos mapas populacionais requer estratégias e métodos de organização específicos. É fundamental analisar essa fonte buscando colocar-se no período em que foi produzida, para que desse modo, seja possível organizar e compreender as potencialidades e limites que a documentação oferece, e assim buscar pontos que possibilitem criar formas para que os inúmeros dados contidos possam ser utilizados em análises de cunho demográfico, relativas ao território colonial sob o domínio luso na América, no período selecionado.

REFERÊNCIAS

ALDEN, D. The population of Brazil in the late eighteen century: a preliminary study. Hispanic American Historical Review, Durham,v. 43, n. 2, p. 173-205, 1963. BASSANEZI, M. S. B. Registros paroquiais e civis: os eventos vitais na reconstituição da história. In: PINSKY, C. B; LUCA, T. R. (org.). O historiador e suas fontes. São Paulo, SP: Contexto, 2012. p. 141-172.

FONSECA, A. A. Os mapas da população no Estado do Grão Pará: consolidação de uma população colonial na segunda metade do século XVIII. Revista Brasileira de Estudos de População, Belo Horizonte, MG, v. 34, n. 3, p. 439-464, 2017.

FURTADO, J. Testamentos e inventários: a morte como testemunho da vida. In: PINSKY, C. B.; LUCA, T. R. (org.). O historiador e suas fontes. São Paulo, SP: Contexto, 2012. p. 93-118.

LARA, S. Fragmentos setecentistas: escravidão, cultura e poder na América portuguesa. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2007.

MARCÍLIO, M. L. A população do Brasil Colonial. In: BETHELL, L. (org.). História da América Latina. São Paulo, SP: EdUSP, 1999, p. 39-56. (América Latina Colonial, v. II).

MATOS, P. T.; SCOTT, A. S. V.; SCOTT, D. Counting colonial populations in the Portuguese America, 1760-1820: between central impositions and local constrains. In: INTERNATIONAL SEMINAR ON REGISTERING AND COUNTING THE POPULATION: THE PRODUCTION AND EXPLORATION OF CENSUS

(15)

CENTURY, 2016, Campinas, SP. Anais... Campinas, SP: Nepo-Unicamp/IUSSP, 2016.

MATOS, P. T.; SOUSA, P. S. A estatística da população na América portuguesa, 1750-1820. Memorias – Revista Digital de Historia y Arqueología desde el Caribe, Colombia, Ano II, n. 25, p. 73-103, 2015.

PAIVA, E. Dar nome ao novo: uma história lexical da Ibero-América entre os séculos XVI e XVIII. Belo Horizonte, MG: Autentica Editora, 2015.

Referências

Documentos relacionados

No primeiro livro, o público infantojuvenil é rapidamente cativado pela história de um jovem brux- inho que teve seus pais terrivelmente executados pelo personagem antagonista,

177 Em relação às funções sintáticas desempenhadas pelas estruturas inalienáveis, da mesma forma como acontece para os tipos de estruturas inalienáveis, é curioso o fato de que,

The challenge, therefore, is not methodological - not that this is not relevant - but the challenge is to understand school institutions and knowledge (school

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo teve como propósito apresentar o interesse de graduados do curso de Arquivologia, em relação à publicação de seus TCC’s após o término do

Desenvolver gelado comestível a partir da polpa de jaca liofilizada; avaliar a qualidade microbiológica dos produtos desenvolvidos; Caracterizar do ponto de

If teachers are provided with professional development opportunities that helps them develop a learning environment that is relevant to and reflective of students'

Sabe-se que as praticas de ações de marketing social tem inúmeras funções, dentre estas o papel de atuar na mudança de valores, crenças e atitudes, porém os alunos da

Esse tipo de aprendizagem funciona não no regime da recognição (DELEUZE, 1988), que se volta a um saber memorizado para significar o que acontece, mas atra- vés da invenção de