LEVANTAMENTO DA FERTILIDADE EM SOLOS DO AGRESTE DE PERNAMBUCO 1
Humberto da Silveira Dantas 2 e Ivan Ferreira Gomes 3
RESUMO. - Pata a realização deste trabalho, foi selecionada uma área de 1.222 bano município de Taquaritinga do Norte, no Agreste de Pernambuco, área essa incluída no levantamento geral de solos dessa região, já efetuado anteriormente.
A fim de verificar a distribuição, a extensão e a caracterização dos diferentes tipos de solos, foram coletados e estudados dor perfis de solos, como representativos das unidades de mapeamento daque-la área.
Nos trabalhos de campo foram utilizados um mapa planialtimétrico e os critérios recomendados no Soil Survey Manual. Os métodos de trabalho de laboratório seguiram as técnicas do estudo de macro-nutrientes.
Nesses solos, de modo geral, predomina a areia grossa, especialmente nos horizontes superficiais, havendo, contudo, aumento gradual do teor de argila no sentido da profundidade, quando a classifica-ção textural passa de franco-argilo-arenoso a argiloso. Os cátions permutáveis dessas terras alcançam teores médios. Quanto ao conteúdo de carbono, nitrogônio e fósforo, geralmente são baixos.
Em escala elevada, os solos da área do município de Taquaritinga do Norte podem ser enquadrados dentro dos grandes grupos; Latossolo Vermelho-Amarelo, Podzólico Vermelho-Amarelo, Planossolo Solódico, Regossolo Eutrófico e Solo Aluvial Eutrófico.
Termos para indexaçio: Agreste de Pernambuco, análise de solos, textura do solo, perfis do solo, hori-zontes do solo, cátions, macronutrientes, micronutrientes.
IN'TRODUÇÃO cálcio nas propriedades físicas do solo compreendidos do que os efeitos do Apesar da significativa importância econômica d05 trocáveis.
soios, poucos são os estudos detalhados de solo realizados na zona fisiográfica do Agreste de Per-nambuco.
o crescimento de sua agricultura tem sido pura-mente extensivo, devido à incorporação de áreas até então ociosas. Assim, mister se torna, a uma instituição de pesquisas, fornecer os meios para desenvolver a produção agrícola de tal modo que a antiga tecnologia seja substituida pela introdução de técnicas modernas.
De grande importância é o conhecimento dos teores dos cátions permutáveis existentes no solo, para avaliação da sua fertilidade. Brooks et ai. (1956) comentam que os efeitos do sódio e do
Aceito pan publicação em 29 de setembro de 1975. Trabalho apresentado na IX Reunião Brasileira de Fer-tilidade do Solo, 8H, 1974, realizado na Seção de So-los do IPEANE, com auxilio do CNPq, mediante bolsa concedida ao primeiro autor.
2
Pesquisador em Química do IPEANE, Caixa Postal 205, Recife, PE e Professor de Química Geral da ETFP e Pesquisador bolsista do CNPq.
Pesquisador em Química do IPEANE e Chefe-substituto da Seção de Solos.
são melhor e Mg2 + Por outro lado, amostras de solo do mesmo local de origem e, presumivelmente, com a mesma quantidade de argila (Hanway Scott 1957) diferem na quantidade de K cedido, quando seco o solo, ou quando reumedecido. Resultados de outros estu-dos (citaestu-dos por Pope e Cheney 1957) indicaram que o K trocável é altamente correlacionado com a quantidade de K removido pelas culturas em casa de vegetação.
Diversas pesquisas têm mostrado que a qualida-de e a quantidaqualida-de da matéria orgânica e da argila afetam grandemente as propriedades do solo, propriedades essas que oferecem especial impor-tância para os agricultores. Assim é que Al-Abbas
et ai (1972) afirmam que a matéria orgânica e o conteúdo de argila são parâmetros importantíssi-mos na descrição dos limites entre os tipos de solo.
Podemos afirmar que os solos em estudo têm baixos teores de carbono, nitrogênio e fósforo. A presente pesquisa teve como objetivos a aqui-sição de conhecimentos sistemáticos da realidade agrária d0 município em foco, e a coleta de dados sobre a morfologia, a física, a química dos seus Pesq. agropec. bras., Brasília, 12 (único):49-70, 1977
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solos, bem como a distribuição e a extensão dos mesmos na região, para possibilitar um planeja-mento racional das atividades agrícolas nessa região.
MATERIAL E MCTODOS
Numa área de 1.222 hectares, situada na zona fisiográfica do Agreste de Pernambuco, Fazenda Bom Nome, no município de Taquaritinga do Norte, foram coletados e estudados dez perfis de solos, considerados representativos das suas unida-des de mapeamento.
De acordo com o "Mapa Exploratório - Reco-nhecimento de solos, Estado de Pernambuco" realizado pela equipe de Pedologia e Fertilidade do Solo do Ministério da Agricultura - em trabalho conjunto com a Divisão de Agrologia da Superin-tendência do Desenvolvimento do Nordeste (SU-DENE) - Ministério d0 Interior - os solos de Taquaritinga d0 Norte enquadram-se nos grandes grupos (Figura 1): 1. Latossolo Vermelho-Amare-lo, textura indiscriminada, fase floresta subpereni-fólia, relevo suave-ondulado e ondulado; 2. Pod-zólico Vermelho-Amarelo, fase floresta subcaduci-fólia, relevo for-te-ondulado, e montanhoso; e 3. associação de Planossolo Solódico com A fraco, fase caatinga hipoxerófila, relevo suave-ondulado e Solos Litólicos Eutróficos, textura arenosa e/ou média, fase pedregosa e rochosa, caatinga hipoxe-rófila, relevo suave-ondulado e ondulado, e Aflora-mentos de Rocha. Além desses, nosso levantamen-to detalhado ainda constalevantamen-tou 4. Regossolo Eu-tráfico e S. Solo Aluvial Eutrófico.
Trabalhando com o mapa planialtimétrico, esca-la 1:40.000, existente na Fazenda Bom Nome, fo-ram identificadas, sob o ponto de vista de interes-se do uso agrícola, as interes-seguintes unidades de mapea-mento (Figura 2):
1. Unidade Trincheira: São solos cuja cor varia do bruno-claro-acinzentado ao amarelado; textura arenosa franca em todos os horizontes. A cama-da arável chega aos 37 cm.
2. Unidade Cajueiro: Solos muito rasos, textura franco-arenosa e franco-argilo-arenosa; bastante duros.
3. Unidade Pedra Preta: As cores variam do cin-zento-rosado ao bruno-escuro; textura variando do arenoso-franco ao argiloso.
4. Unidade Belo Monte: Rodeados de afloramento Pesq. aopec. bras., Brasilia, 12 (único): 49-70, 1977
de rocha, esses solos apresentam-se com camada arável muito estreita, geralmente, 19 cm. A tex-tura varia de franco a argio-arenoso.
S. Unidade Boca Rica: As colorações bruno e bru-no-amarelada são as dominantes. O horizonte A é franco-arenoso e o B, franco-argiloso.
6. Unidade Algodão: São solos arenosos, cujas camadas são bruno-amarelado ou bruno-amare-lo-escuro,
7. Unidade Baraána - Riacho Doce; São seme-lhantes aos anteriores. Arenoso-franco em todas as camadas e com pI1 variando de 7,0 a 7,7. 8. Unidade Limite Benvenuto: a camada arável
não passa dos 10 cm; textura variando de fran-co-argilo-arenoso e bastante duro,
9. Unidade Palma: Após os 16 cm de profundida-de aparece uma camada profundida-de seixos que se man-tém na área d0 perfil com aproximadamente 12 cm de espessura.
10. Unidade Umbuzeiro: São solos empregados no plantio de algodão mocá. Cor variando de bru-no-amarelado-claro e textura franco-arenosa e argilosa.
As características físicas e químicas d05 solos estão na Tabela 1 em Apêndice.
Na descrição dos solos foram adotados os crité-rios recomendados no Soil Survey Manual (1951) e Lemos
et ai.
(1963). Foi feita a coleta de amostras para a caracterização analítica deste estudo, e outras de caráter especial, para posterior estudo de microelementos, conforme técnica descrita pelo autor (Dantas 1971). As amostras coletadas foram estendidas em tabuleiros de madeira, secadas ao ar, destorroadas e passadas através de peneiras com abertura de 2 mm. Na "terra fina seca ao ar" fi-zeram-se as determinações físicas e químicas dos solos (Tabela 1).Os métodos empregados na determinação do complexo sortivo estão descritos pelo autor (Dan-tas 1967), e por Vettori (1969).
RESULTADOS E CONCLUSÕES
Na Tabela 1, encontram-se os resultados da análise das amostras de solos representativos da área estu-dada.
Para o complexo sortivo, as análises são expres-sas em me/100 g de terra fina seca ao ar. A compo-
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sição granulométrica e C, N e P 205 são dados em%.
Adotando-se a interpretação descrita em Gar gantini ti ai. (1970), os solos da camada superior têm conteúdo médio de potássio e de cálcio e mag-nésio; são pobres em alumínio. Também são po-bres em carbono, nitrogênio e fósforo.
Há, de um modo geral, predominância da fração areia grossa, especialmente nos horizontes superfi-ciais, sobre as demais frações, havendo, contudo, um aumento gradual do teor de argila, enquanto na classificação textural passa de franco-argio-are-noso a argiloso.
Os dados analíticos da Tabela 1 permitem as seguintes conclusões:
Unidade Trincheira: Os sdlos dessa unidade apre-sentam baixo teor de argila, com classificação textural de arenoso franco. São muito pobres em carbono, nitrogênio e potássio. Das bases trocáveis, o cá!cio e o magnésio podem ser considerados como tendo "teor médio". O índice de saturação é bom. O fósforo assimi!ável varia de médio a baixo. Apesar de terem pH próximo da neutralidade, o uso agríco!a desses solos tem limitações, necessi-tando especialmente do emprego de adubo.
Unidade Cajueiro: Contém pH ligeiramente ácido. Os solos são duros, com baixo teor de argila, classificação textural: franco-arenoso e franco-argi-lo-arenoso. O equivalente de umidade é médio e vai aumentando com a profundidade; varia de 11 a 23 g de água/100 g de terra fina.
Os solos são pobres em fósforo, nitrogênio, carbono e potássio. Somente cá!cio e magnésio têm "teores médios".
Unidade Pedra Preta: Os teores de areia grossa superam os de areia fina. Os solos têm argila de à profundidade de 28-54 cm; classificação textural: argiloso. São ricos em cálcio, magnésio e potássio e possuem teor médio de carbono e nitro-gênio no horizonte superior. O índice de saturação é alto. O índice de fósforo é alto no horizonte su-perficial. Tanto física como quimicamente os solos desta unidade apresentam-se bons.
Unidade Be!o Monte: Os teores de argila cres-cem a partir dos 19 cm de profundidade e a classi-ficação textural varia de arenoso a franco-argilo-arenoso. O pH vai de 6,7 a 7,5. São solos ricos em cálcio e magnésio, com teores médios ou baixos de potássio. O índice de saturação é alto. A partir de 50 cm de profundiade, começa a apare-
cer elevação nos teores de sódio. É alto o índice de saturação.
Unidade Boca Rica: Os teores de areia grossa, areia fina e limo estão bem equilibrados nesses solos. Seu píl é bastante elevado, variando de 6,8 a 8,0. São solos ricos em cálcio e magnésio. O índi-ce de potássio é médio e o de fósforo é baixo. São pobres em carbono e em nitrogênio. Fisicamente, não apresentam uma boa espessura na camada ará-vel. Quimicamente são medianamente férteis.
Unidade Algodão: Os solos apresentam pH va-riando de 7,4 a 7,1. Não apresentam problemas quanto à pedregosidade. São bastante profundos, ricos em cálcio e em magnésio; teores médios em potássio; muito pobres em carbono e nitrogênio. O fósforo varia de baixo a médio. Do ponto de vista físico, são solos bons. Quimicamente, apre-sentam-se apenas supridos de cálcio e de magné-sio. Não apresentam também problemas de salini-dade.
Unidade Baraúna - Rio Doce: Os solos dessa unidade assemelham-se aos da unidade anterior. Seus teores de argila são baixos. Sua classificação textural é, apenas, de arenoso-franco. O teor de areia grossa é maior que o de areia fina. A umidade equivalente está entre 4 e 6 g/lOO g de terra fina, sendo considerada baixa. A base mais significativa é o cálcio. O magnésio é médio da segunda camada para baixo. São muito pobres, esses solos, em car-bono, nitrogênio e fósforo, e em quase todos os elementos químicos. Fisicamente, são bons, não apresentando problemas de pedregosidade.
Unidade Limite Benvenuto: Os solos apresen-tam pH próximo da neutralidade, variando de 6,8 a 6,4. Classificação textural: franco-arenoso e franco-argio-arenoso. O teor de argila é baixo no horizonte A, mas aumenta no horizonte B (26 a 28%). O equiva!ente de umidade é baixo até os 10 cm de profundidade, e médio-alto a partir de 30 cm. Estes solos são muito ricos em cálcio e em magnésio. O potássio é mediano no horizonte e vai decrescendo com a profundidade. O sódio vai sofrendo elevação à medida que se aprofunda o perfil. São solos muito pobres em carbono,
nitro-gênio e fósforo. Apesar da sua fertilidade natural, esses solos apresentam fortes limitações pela falta de água e moderadas limitações pelo excesso de água.
Unidade Palma: O teor de argila aumenta com a profundidade. Os solos são dos seguintes tipos de textura: arenoso franco, franco-argio-arenoso, ou Pesq. agropec. bras., Brasília, 12 (único): 49 —70,1977
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argiloso. A areia grossa predomina sobre a areia fina. O equivalente de umidade é baixo até os 16 cm de profundidade e médio-alto após os 38 cm.
Carbono e nitrogênio são médios no l9horizon. te, decrescendo daí em diante. São solos pobres em potássio e fósforo. Os teores de cálcio e de magnésio aumentam com a profundidade e podem ser considerados médio-altos.
Esses solos apresentam forte limitação devido à pedregosidade e à falta de água.
Unidade Umbuzeiro: Os solos apresentam-se ácidos nos horizontes, aumentando o pl-1 de 5,1 a 7,2. Sua classificação textural varia de franco-are-noso a argiloso. O equivalente de umidade aumen-ta com a -profundidade, passando de 9 até 27 gIlOO g de terra fina. São solos muito pobres em carbono, nitrogênio, fósforo e potássio. Apenas cálcio e magnésio apresentam-se com destaque pelos seus teores mais elevados nestes solos. O ín-dice de saturação vai d0 médio ao bom.
A falta de água constitui um dos fatores limi-tantes para o seu aproveitamento agrícola, embora sejam cultivados com algodão, palma forrageira, fava, e outras culturas.
Os altos teores em magnésio, nas partes mais baixas do perfil, constituem-se em perigo no uso da irrigação, caso não sejam adequados os sistemas de manejo e drenagem.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem aos laboratórios da Seção de Solos, pelos trabalhos analíticos realizados; ao Dr. Geraldo Ferreira de Queiroz, pelo Abstract; e à Srta. Risoná Maria Cazé, pelos serviços de datilo-grafia.
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Segue Tabela 1
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LEVANTAMENTO DA FERTILIDADE EM SOLOS DO AGRESTE DE PERNAMBUCO 67
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ABSTRACT. - SOIL FERTILITV SURVEV IN THE 'AGRESTE" AREA OF PERNAMBUCO, BRAZIL.
This work was carried out at Taquaritinga do Norte, a county Iocated in the "Agreste area" of Pernambuco State.
To verify the distribution, area sues and characteristics of different types of seus, ten soil profiles considered representativos of dia soil mapping units for that area were collected and studied.
Procedures for the field observation, using Contour maps, were those recommended by the "Sou Survey Manual". Methods and techniques recommended for macronutrient studies were used in the laboratory.
lo general, the soils were predominantly coarso sand, specially in the surface horizon, but there was a gradual increase in cIty with depth, i.e. when the textural classification changed from loam-clay' sand to clay. Quantity of exchangeable cation was medium. In general, contents of carbon, nitrogen and phosphorus were 10w.
On a large scale, the soils of that specific area of Taquaritinga do Norte can be classified within the following great soil groups: Red-VeIIow Latosol, Red'YeIIow Podzolic, Sodic-Planasol, Eutrophic Regosol and Eutrophic AlIuvial Soil.
Index terms: "Agreste" of Pernambuco, soil analysis, soU chemistry, soil textura, soil profiles, soil Iayers, macronutrients, micronutrientes, exchangeable cations.
IVCONGRESSOE 1 MOSTRA NACIONAIS DE IRRIGAÇÃO E DRENAGEM 1978, Setembro 11 a 14. Salvador, BA.
Promovido pela Associação Brasileira de Irrigação (ABID) e Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF) e patrocinado pelo MINISTÉRIO DO INTERIOR
Temas: Planejamento, implantação, operação e manutenção de projetos; Tecnologia; Aspectos legais, ins-titucionais, administrativos e organizacionais; Apoio físico e financeiro; e Tema livre, que repre' sente inovações significativas no campo tecnológico, institucional, operativo e administrativo re-lacionados com a irrigação e/ou drenagem ou atividades afins.
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