A construção social simbólica do envelhecimento
Meire Nunes Resumo: Este artigo analisa a questão temática do envelhecimento, incluindo
nesta abordagem histórico-cultural a análise dos aspectos da identidade do idoso, seus valores culturais, políticos e econômicos, valores simbólicos que constroem a trama das sociedades. O olhar que a sociedade tem para com o idoso depende intrinsecamente dos fatores socioculturais que ela estabelece na relação com este segmento populacional. O desejo de controlar o envelhecimento é um anseio legítimo e angustiante, e sem dúvida, faz parte da busca pela felicidade das sociedades modernas. As alterações corporais trazidas pelo tempo (cabelos brancos, fraqueza muscular, pele enrugada e flácida) podem trazer a infelicidade, sendo que a consciência de finitude e decadência física podem gerar a depressão. A rejeição à terceira idade e a negação dela, parece-nos ser um mecanismo de defesa natural do homem moderno que busca a jovialidade e nega o envelhecimento. Os estudos nesta dimensão procuram compreender o fenômeno para poder melhor interpretá-lo.
Palavras-Chave: Envelhecimento, jovialidade, cultura, sociedade.
Introdução
Foram necessários milhões de anos para a humanidade atingir um bilhão de pessoas, o que teria ocorrido provavelmente em 1830. Cem anos depois, este número dobrou. De 1927 a 1960, a população mundial chegou à marca dos três bilhões de habitantes, e de lá até os dias atuais, esta aceleração do crescimento foi tão substancial que o quinto bilhão veio em 1987 e doze anos depois, 1999, alcançamos o sexto bilhão (UN,1999).
Não foi somente o crescimento populacional que se estendeu; paralelamente a este crescimento, aumentou também a longevidade humana a limites nunca imaginados graças à Ciência que evoluiu, à alimentação que melhorou e às vacinas que aumentaram seu poder de cobertura contra as mais diversas enfermidades (Veras, 2000; Silvestre et al, 1987).
Constatamos, assim, que nos países em desenvolvimento, o perfil demográfico está mudando, com um contingente bastante elevado de idosos em suas populações.
O envelhecimento populacional crescerá em decorrência dos avanços nos conhecimentos da engenharia genética e da biotecnologia, da descoberta de novas medicações, das políticas de vacinação em massa, do controle de muitas doenças infectocontagiosas e potencialmente fatais, sobretudo a partir
da descoberta dos antibióticos, e dos imunobiológicos; da diminuição das taxas de fecundidade; da queda da mortalidade infantil graças à ampliação de redes de abastecimento de água e esgoto, alterando, em um futuro próximo, não apenas indicadores demográficos como a expectativa de vida, mas principalmente o próprio limite do tempo de vida, ou relógio biológico humano (Veras, 2003; Fries, 1980; Fries e Crapo, 1981).
O Brasil é um país que está envelhecendo rapidamente com alterações claras em suas dinâmicas populacionais e até algumas décadas atrás era considerado um país de jovens, o que fez com que se desse pouca atenção a população em processo de envelhecimento, particularmente por se tratar de um país com graves problemas sociais envolvendo crianças e jovens, destacam-se, entre esses problemas, as deficiências nas áreas da saúde e educação (Veras, 2000).
A abordagem do tema envelhecimento, e tudo o mais que o envolve - saúde, doença, tempo e morte – inclui, necessária e principalmente, a análise dos aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos relativos a valores, estigmas e sistemas carregados de simbologias, que traçam a história das sociedades humanas e suas representações sociais. Envelhecer faz parte do processo humano que é inexorável e natural (Papaléo, 2002).
Porém, vale ressaltar que os valores socioculturais definem o olhar e o tipo de relação que a sociedade estabelecerá com este seguimento populacional (Debert, 1998), e os conceitos: velho, idoso, terceira idade, são construções utilizadas para situar esta população dentro do contexto social - a sociedade - em proveito da ordem e do poder. A literatura científica, nacional e internacional, na temática envelhecimento utiliza em sua produção os termos: velho, idoso, terceira idade, dentre outras expressões, para designar esse grupo social etário, com a nítida falta de preocupação de se ajustar a uma expressão uniforme e adequada (Beauvoir, 1976; Carvalho, 1994).
Para efeitos legais e conceituais, a Organização Mundial da Saúde (OMS) protocola, para os países em desenvolvimento, o idoso como sendo toda pessoa com idade igual ou superior a sessenta anos.1 O Brasil possui cerca de
19 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa mais de 10% da população brasileira, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativas do órgão indicam que esse contingente atingirá 32 milhões em 2025 e fará do País o sexto em número de idosos no mundo, sendo este o grupo etário que mais cresce no Brasil (IBGE)2; Ramos, 1993; Silvestre et al., 1998).
Estas projeções indicam que a expectativa de vida dos brasileiros continuará crescendo nas próximas décadas. A vida média do brasileiro, por exemplo, chegará ao patamar dos 81 anos em 2050. Atualmente, a expectativa média de
vida do brasileiro ao nascer é de 72,3 anos3, a projeção para 2020 é de 27,2 milhões, e em 2025 o Brasil será o sexto país com maior população de idosos do mundo, com a expressiva quantidade de 31,8 milhões de idosos nos países em desenvolvimento, com expectativa de vida por volta dos 80 anos (Silvestre et al., 1998).
O envelhecimento apresenta características singulares, porque esse processo é, em cada indivíduo, dinâmico e constante, com modificações tanto morfológicas quanto funcionais, bioquímicas e psicológicas, que terão como consequência a progressiva perda da capacidade de adaptação ao meio em que vive, apresentando inúmeras fragilidades, com queda da resistência imunológica e maior incidência de processos patológicos, fatores esses comuns para esta fase da vida, e que acabam levando-o à morte (Carvalho, 1994). E este é um fenômeno global, como indicam os levantamentos demográficos no continente europeu, em países da América do Norte e do denominado “Terceiro Mundo”. Estudos provam que esta tendência também foi detectada em países em desenvolvimento como na Argentina, em 1993, com percentuais de 40%; México, em 1995, com 36% e Brasil, em 1992, com 21% (Monteiro, 1995).
O aumento de indivíduos idosos na população colabora para transformações em vários setores socioculturais e econômicos, que afetam a sociedade como um todo, e o envelhecimento deixa de ser um assunto exclusivo para geriatras e médicos generalistas passando a ser tema de outras e extensas áreas do conhecimento de forma multidisciplinar (OMS, 1994; Keith, 1990).
Assim, para compreender as representações sociais impostas ao indivíduo idoso, é necessário traçar um quadro conceitual multidisciplinar que o compreenda nas dimensões biológica, psicológica e sócio-antropológicas, um universo diferenciado, já que alguns indivíduos chegam saudáveis a esta fase da vida, e outros, infelizmente, muito debilitados e adoecidos (Jodelet, 1989). Sabemos que o envelhecimento é um processo fisiológico natural, mas encontramos diferenças no ritmo e forma de atuação do tempo em cada indivíduo (Klein, 1995), e a ciência médica, em geral, faz uso de uma tecnologia que avança a passos largos, debruçando-se em pesquisas para melhorar e reformular novas vacinas e drogas, criando meios de aumento da expectativa de vida indicando que os indivíduos poderão chegar aos 100 anos, se não houver nenhuma intercorrência importante no curso da vida, abreviando sua existência ( Ladislau, 1983; 1995).
Mas o stress, doenças degenerativas, violência urbana, trânsito agressivo e a poluição, entre outras questões, surgem como fatores negativos para esse aumento dos anos de vida. No entanto, seria normal viver até os 100 anos, mas sabemos que isto não pode ser generalizado, pois poucos passarão com tranquilidade pelos fatores negativos descritos (Araújo, 1994).
O homem moderno rejeita o envelhecimento e tudo o mais que o acompanha: - perda da mobilidade física, tônus muscular, audição, visão e demais doenças crônicas, pois se preocupa com a preservação da liberdade individual e da independência física e cognitiva, e a manutenção da autonomia moral e social (Sayd et al., 2001).
Ou seja, todos querem envelhecer com autonomia e dignidade, negando ser portador de doenças debilitantes, negando, muitas vezes, auxilio no uso de medicação contínua, para diversos tipos de enfermidades, pois esta postura gera dependência, que é tudo que o idoso não quer (Faria et al.,1995).
Acreditava-se que para ter uma boa velhice sem dependências era necessária uma série de atributos relacionados à sorte, à graça divina, da troca, do sofisma ou outra explicação sobrenatural, e ter esses pensamentos dava corpo e existência a poderes míticos (Morin, 1998).
Mas estas crenças não se sustentaram e a Ciência veio coroar como a intérprete mais confiável dos fatores inexoráveis e naturais, e o homem moderno passou a ter um imenso universo de informações científicas de como envelhecer bem ou mal (Neri, 2004).
Foucault delimitou e denominou este fenômeno de bio-história, no qual a história social passou a ser regulada pela intervenção maciça da história da medicina no campo social, e na qual a existência humana passou a ter, com sutileza de detalhes positivos, conhecimento de como não envelhecer, onde a possibilidade de ser eternamente jovem contribuía no processo sócio político de produção, reprodução e acumulação de riquezas, centrada no modelo biológico de reprodução e melhoria eugênica da espécie humana (Focault, 1976).
A velhice, nesta perspectiva, passou a ter um papel marginalizado na existência humana, pois em sua idade jovial e produtiva já teria realizado seus potenciais reprodutivos, evolutivos e produtivos, perdendo o seu valor social quando chegasse à velhice, pois não mais produzindo riqueza o indivíduo perderia seu valor simbólico.
Este indivíduo idoso é exposto a um processo em que perdas e rejeições são sempre eminentes e presentes, tendendo a buscar o isolamento, como consequência desta indução social, causada pelas perdas diversas, constantes lutos, aposentadoria e diminuição dos contatos sociais voluntários e involuntários (Birman, 1994).
De acordo com Zimerman (2000), o fato de o idoso ter poucas ocupações sociais, ser menos solicitado pela família e amigos, faz com ele desenvolva um sentimento de improdutividade, sem nenhum poder decisório, internalizando uma sensação de inutilidade.
histórica, e socialmente contextualizada. O tratamento dispensado à velhice dependerá dos valores e da cultura, e de cada sociedade em particular, a partir dos quais ela construirá uma visão ampliada, positiva ou negativa, dessa última etapa da vida.
Para pensar esta questão, a estratégia utilizada seria buscar nas representações sociais e no imaginário social, o entendimento articulado das relações de poder estabelecidas entre os indivíduos considerados idosos e o restante da sociedade que produz e que acumulam capitais e produtos.
Mas, face às mudanças na estrutura demográfica brasileira, com consequente aumento da expectativa de vida dos indivíduos, novos papéis sociais estão sendo atribuídos á esta faixa etária levando, inevitavelmente, à discussão sobre o conceito de idoso.
Por outro lado, impõe-se o questionamento dos critérios estabelecidos socialmente para determinar qual papel atuante lhe será atribuído, tornando-o socialmente aceito (Debert, 1994).
Conclusão
Através da história, os esquemas simbólicos do imaginário e das representações sociais, levaram à construção de mitos e crenças enaltecedoras ou estigmatizantes sobre os grupos de idosos, que podem ser consideradas estratégias para manutenção de privilégios de poder.
Tais representações podem gerar uma representação negativa desta faixa etária, estabelecendo uma distribuição de papéis e de posições sociais, excluindo e impondo crenças comuns, e determinando quem detêm espaço dominante nesta sociedade dita moderna. As categorias: velho, idoso e terceira idade são construções sociais utilizadas para situar o indivíduo nas várias instituições estabelecidas em proveito de uma nova ordem social e de um poder cristalizado.
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Meire Nunes - Mestranda em Educação, Administração e Comunicação pela Universidade São Marcos, São Paulo. Jornalista graduada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Historiadora licenciada pela Universidade São Marcos. E-mail: [email protected]