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REPRESENTAÇÕES DE PESSOAS DE DIFERENTES CLASSES SOBRE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 121

DOI: https://doi.org/10.15202/1981-1896.v22n44p121-144

REPRESENTAÇÕES DE PESSOAS DE DIFERENTES CLASSES SOBRE SUBSTÂNCIAS

PSICOATIVAS

Rafael De Tilio*

Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM [email protected] Bruna Maria Capeli** Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM

[email protected] RESUMO

Este estudo objetivou compreender como pessoas de diferentes classes socioeconômicas significam o uso/tratamento de substâncias psicoativas. Foram entrevistadas oito pessoas (quatro de classes altas e quatro de classes média/baixas) de uma cidade média da região do Triângulo Mineiro. Os dados foram organizados em três categorias (Representações sobre substâncias psicoativas; Representações dos tratamentos; Representações da temática nas diferentes classes). Os principais resultados destacam que: a dependência é considerada perda de controle do usuário em qualquer classe social; a internação em clínicas terapêuticas é um tratamento falho, porém o mais acessível; as classes altas foram significada como tendo fácil acesso as substâncias psicoativas mais caras as utilizando esporadicamente em festas e por lazer, enquanto que as classes médias/baixas fazem uso de substâncias mais baratas e danosas, mas rotineiramente. Conclui-se que o uso de substâncias psicoativas deve considerar aspectos sociais, econômicos, culturais e psicológicos específicos dos grupos.

Palavras-chave: Representações. Substâncias psicoativas. Classe Social.

DIFFERENT CLASSES REPRESENTATIONS ABOUT PSYCHOACTIVE SUBSTANCES

ABSTRACT

This study aimed to understand how people from different socioeconomic classes mean the psychoactive substances use/treatment. Eight people were interviewed (four high class and four middle-class) of a city of the Triângulo Mineiro region (Brazil). Data were organized in three categories (Psychoactive substances representations; Representations about health care; Representations of the subject in different classes). The main results highlight that: a

* Possui graduação (2002) e pós-graduação (mestrado/2005; doutorado/2009) em Ciências, na área de Psicologia, pela USP. Desenvolve pesquisas referentes à área de violência, sexualidade, gênero e ideologia. É líder do HUBRIS - Laboratório de Estudos e Pesquisa em Sexualidade e Violência de Gênero (https://hubris-laboratorio-de-estudos-e-pesquisa.webnode.com/). Atualmente é Professor no Curso de Graduação e no Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFTM.

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 122 substance abuse was identified as the user lost control on any social class; hospitalization in therapeutic clinical treatment was meant as flawed, but more accessible; high classes was meant to have easy access to the more expensive psychoactive substances, but using it sporadically at parties and leisure, while the medium/low classes make use of cheaper and dangerous substances, but routinely. We conclude that the use of psychoactive substances should consider social, economic, cultural and psychological.

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 123 1 INTRODUÇÃO

Substâncias psicoativas ou drogas psicotrópicas são aquelas capazes de alterar o estado de consciência do usuário (BRASIL, 2007). O consumo destas substâncias está presente em praticamente todas as culturas e ao longo da história (DALLA-DÉA; SANTOS; ITAKURA; OLIC, 2004), todavia, assumindo sentidos variados a depender do contexto específico de uso, por exemplo, o uso místico (desejo de transcendência em rituais religiosos), artigo de cura ou por simples curiosidade e busca pelo prazer (SANTOS; ACIOLI NETO; SOUSA, 2012). Dentre estes usos há os que oferecem mais riscos (potencializando vulnerabilidades), denominado uso abusivo e dependência dessas substâncias, mas também há usos de baixo risco, eventuais e recreativos (DALLA-DÉA; SANTOS; ITAKURA; OLIC, 2004).

Na nossa sociedade algumas dessas substâncias (álcool, tabaco e medicamentos) são legalmente comercializadas e amplamente divulgadas em propagandas. Segundo Mac Rae (2001) depende de cada cultura definir o que considerado legal ou ilegal, e isso está relacionado mais aos aspectos antropológicos e econômicos do que propriamente aos efeitos de cada substância psicoativa.

O uso de substâncias psicoativas demanda diferentes alternativas de intervenção. No Brasil existem vários serviços e tratamentos para dependentes químicos (casas de recuperação; grupos de ajuda como Alcoólicos Anônimos e Narcóticos Anônimos; Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, entre outros). Além disso, existem leis que regularizam o uso destas substâncias, por exemplo, a Lei Seca de 2008 que impõe punições severas para quem dirige alcoolizado e a Lei de Drogas de 2006 que exclui pena de prisão para usuários de qualquer substância psicoativa capaz de causar dependência (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2010).

Neste sentido, a garantia dos direitos humanos e a descriminalização dos usuários são importantes para implementar serviços de atenção e cuidados não estigmatizadores em saúde. Somente assim é possível melhorar as formas de tratamento e combater a internação como única alternativa no tratamento dos usuários (CONSELHO..., 2010).

Na produção científica brasileira da área é possível encontrar numerosos estudos sobre o uso e tratamento de substâncias psicoativas. Especificamente sobre o uso dessas

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 124 substâncias o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas realizado em 2012 (II LENAD, 2014) objetivou investigar práticas e padrões de consumo de álcool e outras substâncias psicoativas (tabaco, maconha, cocaína e crack) na população brasileira. Apesar de retratar fidedignamente os diferentes perfis sociodemográficos e econômicos populacionais, contudo, não apresentou os resultados de consumo separadamente por classe socioeconômica.

Assim, considerando que o uso assume diversos sentidos em função do contexto e intencionalidade dos usuários, é significativo compreender os estilos de uso e consumo destas substâncias nos grupos específicos. A esse respeito, alguns estudos encontrados na literatura científica brasileira se concentram sobre características, hábitos e estilos de uso de substâncias psicoativas nos e pelos grupos específicos de usuários, principalmente dentre adolescentes (por exemplo, MOMBELLI; MARCON; COSTA, 2010), pessoas em situação de rua (por exemplo, OLIVEIRA; NAPPO, 2008; TONDIN; NETA; PASSOS, 2013), jovens universitários (por exemplo, ANDRADE; DUARTE; BARROSO; NISHIMURA; ALBERGUINI; OLIVEIRA, 2012; ECKSCHMIDT; ANDRADE; OLIVEIRA, 2013), pessoas envolvidas com o tráfico de drogas (por exemplo, VALIM; ZALUAR; SAMPAIO, 2015) dentre outros, sendo menos usuais as pesquisa cuja amostra compara diferentes classes socioeconômicas.

Neste sentido, mesmo o já referido II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (II LENAD, 2014), documento de referência para os estudiosos e produtores de políticas públicas da área, não distingue os usuários de substâncias psicoativas por classes socioeconômicas, o que dificulta a comparação e compreensão dos usos diferenciais que essas substâncias podem adquirir em cada classe social, sugerindo (implicitamente) uma homogeneização das motivações e consequências do uso na população geral, o que é questionável.

Diante disso, há de se destacar que o estudo de Velho (2008) cujo propósito foi comparar os estilos de uso de substâncias psicoativas ilícitas entre classes altas (elite da boêmia) e baixas (os pobres) num contexto histórico e geográfico específico (década de 1970 na cidade do Rio de Janeiro), ainda pode contribuir na compreensão dos significados dos usos/consumos contemporâneos de substâncias psicoativas nas diferentes classes sociais. Para Velho (2008) nas classes-altas o uso dessas substâncias lícitas ou ilícitas é significado

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 125 com um ato de fruição, liberdade, ascese e escapismo (e, no máximo, um adoecimento passageiro), enquanto que nas classes-baixas este uso é significado como devassidão, vício e dependência que potencializa riscos, vulnerabilidades e violências.

Ademais, para Velho (2008), por meio de complexos mecanismos de socialização essas significações são internalizadas por ambas as classes sociais, naturalizando os sentidos dos usos de substâncias psicoativas por parte delas, isto é: normalizando o uso nas e pelas altas ao passo que considera aberrante/preocupante seu uso nas e pelas classes-baixas.

Ainda neste sentido, várias reportagens veiculadas pelas mídias de massa, pela literatura não acadêmica ou de divulgação científica apontam que as condições socioeconômicas dos usuários se transmutam em diferenças nas formas de utilização (consumo) e tratamento do uso abusivo de tais substâncias (MENEZES, 2014). Todavia, tais argumentações carecem de embasamento científico (FÉLIX; VIANNA, 2015; PASQUIM; SOARES, 2015; SOUZA, 2012).

De qualquer maneira, é importante evitar os lugares-comuns e os moralismos quando se aborda o uso (mesmo que abusivo) de substâncias psicoativas lícitas ou ilícitas, ainda mais quando as políticas públicas de enfrentamento do uso/abuso dessas substâncias historicamente sempre foram bicéfalas no Brasil por responderem aos interesses diferencias das classes sociais (TORCATO, 2013): proibicionismo e rigorosa punição aos usuários das classes baixas e leniência aos usuários das classes médias e altas.

Por isso, a fim de explorar este lugar-comum sobre uso/abuso de substâncias psicoativas (DELMANTO, 2013), torna-se relevante pesquisar esse fenômeno enfatizando representações de classes socioeconômicas distintas (MENEZES, 2014).

A teoria das Representações Sociais pode ser um aporte teórico interessante para produzir conhecimento sobre o tema. Para Moscovici (2012) representações sociais são um conjunto de significados organizados e originados na vida cotidiana que consideram crenças, mitos e conhecimentos elaborados por e em grupos específicos que contribuem para a construção e significação de uma realidade. Em suma, podem ser entendidas como significados e sentidos que organizam o cotidiano e as interações sociais. Portanto, pode-se considerar que representações sobre uso de substâncias psicoativas organizam condutas e

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 126 práticas relacionadas ao consumo e tratamento dessas mesmas substâncias.

Portanto, esta pesquisa teve como objetivo compreender como pessoas de diferentes classes socioeconômicas significam o uso e tratamento de substâncias psicoativas.

2 MÉTODO

2.1 Tipo de estudo:

Trata-se de um estudo exploratório, transversal e de caráter qualitativo, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (protocolo de aprovação na Plataforma Brasil nº 673.878 de 13/06/14).

2.2 Participantes:

Participaram desta pesquisa oito pessoas autodeclaradas responsáveis pela própria renda, sendo quatro de classes socioeconômicas altas e quatro de classes médias/baixas, residentes no município de Uberaba/MG. Não houve restrição em relação ao estado civil nem ao grau de escolaridade. A média de idade dos participantes é de 26 anos de idade. Apesar de a renda (faixa salarial, seja ela individual ou familiar) nem sempre delimitar com precisão a classe social do indivíduo, por ser classe social um conceito complexo, ela é um dos principais indicadores utilizados como parâmetro (LOSURDO, 2015). O enquadramento dos participantes em classes sociais, a partir do seu nível da renda, apoiou-se nos critérios propostos pelo Grupo de Estudos Urbano (GEU, 2012), que considera a renda familiar mensal, a saber: classe A (acima de R$ 20.340); classe B, subdividida em dois subníveis, B1 e B2 (entre R$ 8.137 e R$ 20.340); classe C, subdividida em três subníveis, C1, C2 e C3 (entre R$ 1.628 e R$ 8.136); classe D/E (até R$ 1.627). Desta forma, no presente estudo foram entrevistadas pessoas das classes A (classes altas) e C3 (classes média/baixa).

2.3 Instrumento:

Para a coleta de dados foi utilizada uma entrevista semiestruturada construída especialmente para esta pesquisa com questões sobre renda mensal, profissão/ocupação, idade, escolaridade, religião, percepções acerca do uso de substâncias psicoativas e dos

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 127 tratamentos oferecidos para os usuários para sua classe social e para outras classes sociais, entre outras questões.

2.4 Procedimentos de coleta e análise dos dados:

Os participantes foram recrutados por meio de indicações da rede social dos pesquisadores, isto é, pela técnica da bola de neve (DEWES; NUNES, 2013): após a realização da entrevista com um membro representante de cada classe pediu-se indicações ou referências de outras pessoas pertencentes à mesma população alvo de interesse.

Após contato prévio com os participantes e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi iniciada a coleta de dados com a realização de entrevistas semiestruturadas individuais, em ambiente que buscou assegurar a privacidade e o conforto psicológico do participante (residências dos mesmos). As entrevistas foram audiogravadas e, posteriormente, transcritas na íntegra para análise.

Após a transcrição literal das entrevistas os dados foram analisados da seguinte maneira: primeiramente, foi feita uma análise vertical de cada entrevista, destacando-se eixos temáticos construídos a partir das respostas à entrevista (ou seja, categorias temáticas a posteriori) e, depois disso, foi efetuada uma análise horizontal do conjunto das entrevistas, elencando diferenças e semelhanças entre os conteúdos das entrevistas, também a partir dos eixos encontrados. Para a organização dos dados foram utilizados os procedimentos de análise de conteúdo temático propostos por Bardin (2010).

A análise e interpretação dos dados foram pautadas na Teoria das Representações Sociais e estudos na área. No decorrer deste relato os entrevistados serão identificados por nomes fictícios e pela classe social a qual são pertencentes da seguinte maneira: nome /classe.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 128 Quadro 1. Caracterização dos participantes: nome e idade, escolaridade, religião, profissão/ocupação, renda familiar mensal (N=8)

Nome e Idade (em anos)

Escolaridade Religião Profissão/ ocupação Renda Familiar Mensal Classe socioeconômica João, 22 Superior incompleto Católico (não praticante) Estudante R$25.000 A José, 21 Superior incompleto Católico (não praticante) Estudante Acima de R$21.000 A Ana, 34 Superior completo, com especialização Católico (não praticante) Fisioterapeuta R$21.000 A Marcos, 22 Superior incompleto Católico (não praticante) Estudante Acima de R$21.000 A Paulo, 23 Superior incompleto Católico (praticante) Administrador escolar R$1.500 C3 Maria, 31 Superior completo Católico (não praticante) Secretária R$2.000 C3 Bia, 23 Segundo grau

completo Católico (praticante) Auxiliar de cabeleireiro R$1.600 C3 Paula, 28 Superior completo Católico (não praticante) Enfermeira R$2.000 C3

A média de idade dos entrevistados é de 26 anos. Em relação à caracterização da amostra foi possível observar que na classe alta (A), cuja média de renda familiar mensal é superior a vinte e dois mil reais, três participantes estão cursando o nível superior e um possui formação superior completa com especialização, enquanto que na classe média/baixa (C3), cuja média de renda familiar mensal é de um mil setecentos e setenta e cinco reais, a escolaridade variou desde o ensino médio completo (n=1) até ensino superior completo (n=2).

No que se refere à profissão/ocupação percebe-se que foi variada em ambas as classes, prevalecendo a de estudante (ensino superior incompleto), sendo que a renda destes provém da família (na modalidade “mesada”), todavia consideradas por eles como renda pessoal. Em relação à religião todos os participantes da classe A se declararam católicos não praticantes, enquanto dentre os participantes da classe C3 dois declararam ser católicos não praticantes e dois católicos praticantes.

Os dados qualitativos desta pesquisa serão apresentados em três categorias, a saber: Representações sobre substâncias psicoativas (dividida em duas subcategorias: Definições de substâncias psicoativas; Percepções sobre o uso de substâncias psicoativas em geral);

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 129 Representações dos tratamentos oferecidos aos usuários; Representações da temática nas diferentes classes (dividida em duas subcategorias: Representações das classes altas; Representações das classes média/baixa).

3.1 Representações sobre substâncias psicoativas

Esta categoria envolve as falas dos participantes no que se refere à definição do que são substâncias psicoativas e também suas representações sobre o uso destas de maneira geral. Esta categoria está dividida em duas subcategorias.

3.1.1 Definições de substâncias psicoativas

As definições trazidas pelos participantes foram semelhantes, já que seis (Ana/A, José/A, João/A, Marcos/A, Paula/C3 e Paulo/C3) associaram as substâncias com alteração da consciência, perda da capacidade motora e de raciocínio.

Todos os entrevistados fizeram referência às substâncias ilícitas no contexto brasileiro em suas respostas. Falaram sobre crack, maconha, cocaína, LSD (“doce”), ecstasy (“bala”), anfetamina e MD (Methedrine).

Apenas Bia/C3, Ana/A e Paulo/C3 falaram espontaneamente sobre o álcool (droga lícita no Brasil) como substância psicoativa, mas todos o mencionaram após perguntas específicas acerca do que achavam sobre essa substância. João/A, José/A, Paulo/C3, Marcos/A, Ana/A e Paula/C3 explicaram que o álcool por ser aceito socialmente parece estar em outra categoria de substâncias psicoativas, não sendo visto com preconceitos como as outras substâncias ilícitas citadas. Desta forma, mesmo o uso abusivo do álcool ser considerado negativo e preocupante ele não foi estigmatizado pelos entrevistados – talvez essa seja uma das razões pelas quais entre 2006 e 2012 o consumo de álcool aumentou na população geral brasileira e, principalmente, dentre os mais jovens (LENAD, 2014).

As substâncias psicoativas lícitas são amplamente utilizadas, principalmente o álcool. Espinheira (2008) diz que o uso de substâncias psicoativas tem se dissociado de usos em contextos específicos (ritualísticos e religiosos) e tem se submetido às leis de consumo, tornando-se bens de consumo amplamente difundidos capazes de dizer quem está adequado em determinados contextos. Nesse sentido, o uso de álcool é aceito e também

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 130 incentivado pelos jovens, já que as mídias veiculam propagandas que associam seu uso à boa convivência, ao bem-estar, à felicidade e ao enfrentamento de adversidades. Assim, o uso de substâncias psicoativas lícitas acaba sendo melhor aceito pela sociedade (TONDIN; NETA; PASSOS, 2013).

José/A, João/A, Bia/C3 e Ana/A incluíram alguns medicamentos como substâncias psicoativas, mas os diferenciam das demais substâncias psicoativas devido ao contexto, ambiente, frequência e existência de prescrição médica (portanto, autorizado) para uso. No entanto, relataram que quem faz uso descontextualizado e excessivo de medicamentos também pode ser considerado consumidor abusivo de drogas e, às vezes, dependente químico. Isso pode ser visualizado nos seguintes trechos:

Só que tem drogas medicamento e droga mesmo. Droga medicamento eu analiso como uma substância que aquele organismo precisa pra curar ou pra funcionar. (José/A).

Então, hoje em dia o terceiro medicamento mais prescrito no Brasil é o clonazepan, que é o Rivotril. E eu acho que o brasileiro tá muito dependente dessas drogas, porque [silêncio] acho que tem um déficit, assim, de incentivo do governo pra tratar o psicológico da pessoa, e já tá entrando direto no medicamento, eu acho que tá entrando muito precoce. (João/A).

A este respeito, destaca-se que a percepção dos participantes encontra ressonância na medicalização de diversos comportamentos sociais. Na cultura ocidental tem sido usual a transformação de características pessoais em doenças, a partir das quais são buscadas intervenções medicamentosas como maneira para atingir transformações internas e pessoais. Dessa forma, cada vez mais problemas não médicos tem se tornado diagnosticáveis e tratáveis com medicações, e a indústria farmacêutica muito se beneficiam do crescimento do número de transtornos mentais com a produção cada vez maior de medicamentos (ONOCKO-CAMPOS; PASSOS; PALOMBINI; SANTOS; STEFANELLO; GONÇALVES; ANDRADE; BORGES, 2013).

Ainda sobre as diferentes definições e representações sobre substâncias psicoativas, Maria/C3 e Bia/C3 responderam o que pensam sobre as substâncias psicoativas em geral (lícitas e ilícitas), dizendo que apesar da alteração da consciência elas são potencialmente destruidoras e capazes de acabar com uma família, e que são usadas por pessoas

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 131 psicologicamente frágeis, diferindo do tipo de respostas dadas até então pelos demais entrevistados:

Eu acho que é a destruição da família e da própria pessoa que usa. (Maria/C3) No meu conceito, um ser humano normal, que leva uma vida, uma rotina normal, ela não precisa fazer uso contínuo de drogas, álcool ou medicamento que não seja caso de saúde, né? (Bia/C3).

Com base nestes trechos é possível refletir acerca das informações sobre o uso de álcool e outras drogas veiculadas pelas mídias que associam o uso destas substâncias à criminalidade e violência, reforçando preconceituosos e estigmas dos usuários de substâncias psicoativas ilícitas. Dessa forma, uma percepção distorcida da realidade do uso é construída e influencia discursos sobre destruição/mazelas associados ao uso de substâncias psicoativas em geral, lícitas ou ilícitas (JORGE; CORRADI-WEBSTER, 2012).

3.1.2 Percepções sobre o uso de substâncias psicoativas em geral

De modo geral, as percepções dos participantes de ambas as classes acerca do uso de substâncias psicoativas foram semelhantes. Todos os participantes falaram que o uso de substâncias psicoativas é frequente na sociedade, mesmo isso não sendo algo positivo já que envolve riscos individuais e coletivos. Há de se destacar que segundo o II LENAD (2014) entre 2006 e 2012: aumentou o número de consumidores de álcool no Brasil; aumentou a frequência semanal de consumo de álcool; diminuiu a idade média do início do consumo de álcool; aumentou o número de consumidores de substâncias psicoativas ilícitas.

Nesse sentido, todos os participantes falaram que o usuário precisa ter controle sobre o uso para que haja cuidado com as consequências individuais e sociais, ou seja, enquanto o uso é recreativo e eventual, não há problemas – o que aponta para uma não moralização completa do consumo dessas substâncias. Por outro lado, a dependência e o uso abusivo das substâncias psicoativas foram considerados um estágio em que a pessoa já não tem mais controle sobre o uso, o que torna a perspectiva dos participantes negativa sobre esses usuários:

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Acho que enquanto não vira abuso eu não vejo nada contra, assim. Só tem que tomar cuidado pra pessoa não viciar, né, não ficar dependente da substância. (Paulo/C3).

A partir do anteriormente comentado acerca da significação do uso de drogas segundo a lógica das leis de consumo, pode-se entrever que estão associados ao consumo de substâncias psicoativas ilícitas modos de vida prazerosos – ideia que se não oficialmente difundida pelas mídias, pelo menos é difundida dentre os grupos de jovens e jovens adultos (TONDIN; NETA; PASSOS, 2013). Tais substâncias servem como soluções imediatas e fáceis para a busca de prazer e satisfação, conferindo status de poder e pertencimento ao grupo social.

Nesse sentido, quando um usuário perde o controle sobre o uso ele vai contra a “regra” (entendida como uso controlado sem exposição aos efeitos negativos dessas substâncias psicoativas), revelando a fragilidade desse modo de vida, e por isso acaba o dependente muitas vezes excluído e estigmatizado (TONDIN; NETA; PASSOS, 2013).

Todos os participantes consideraram que o ambiente social, a frequência e o tipo de substância influenciam sua forma de pensar e agir em relação às substâncias psicoativas. Eles comentaram que ambientes festivos induzem ao uso dessas substâncias e a pressão do grupo social também é um fator importante. O uso em casa (no espaço doméstico) e/ou quando a pessoa está sozinha foi considerado por alguns participantes (Bia/C3, João/A, Marcos/A e Paula/C3) como um momento crítico no qual a substância já começa a fazer parte da rotina da pessoa e também foi associado à fraqueza emocional do usuário e risco iminente de perda de controle. Outros participantes (Maria/C3, Paulo/C3, Ana/A e José/A) não mudaram de opinião com relação ao uso em casa: a dependência de substâncias psicoativas foi associada à fraqueza psicológica e emocional independente do ambiente e da substância, pois a dependência é vista negativamente pelos entrevistados.

É significativo apontar que existem muitas variáveis a serem consideradas quando se analisa o uso de substâncias psicoativas (aspectos culturais, morais, sociais, afetivos, cognitivos, psicológicos, econômicos, políticos e religiosos). O uso de substâncias psicoativas é uma atividade que recebe diversas significações a partir do e no contexto de uso. Cada caso, para ser bem compreendido, deve ser analisado individualmente, não havendo como concluir que aspectos psicológicos influenciam mais que aspectos sociais (MAC RAE, 2001).

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 133 Com relação ao tipo de substância todos os participantes relataram que existem as consideradas mais fortes (com efeitos e consequências psicológicas mais acentuadas) e as consideradas mais leves (com efeitos e consequências psicológicas menos acentuadas), numa hierarquia cujo ápice é o crack, considerado a droga mais potente e com maior risco de dependência.

Marcos/A, Bia/C3, Paulo/C3 e Maria/C3 associam o crack ao roubo e criminalidade, considerando-o uma substância capaz de levar uma pessoa a roubar para conseguir manter o uso. E Marcos/A, Paula/C3, Ana/A, Paulo/C3 e João/A acreditam que a maconha é a mais leve dentre as substâncias ilícitas, pois desconhecem efeitos negativos relacionados a essa substância. Eles ainda acreditam que os efeitos da maconha causam menos danos que os efeitos do álcool, que é uma substância legalizada. José/A e João/A dizem que o álcool é a porta de entrada para outras substâncias mais potentes, pois as pessoas começam a buscar outros efeitos (mais intensos) depois de experimentar a alteração de consciência e as sensações prazerosas que o álcool proporciona:

O álcool ainda não é algo muito recriminado pela sociedade, mas deveria ser, porque ele traz muito mais prejuízo do que algumas outras substâncias que são recriminadas. Porque a gente houve falar de gente que bebeu demais e bateu o carro, bateu na esposa. Eu nunca ouvi falar de alguém que fez o mesmo porque abusou de maconha. (Paulo/C3).

Porém, não se trata de averiguar a veracidade dessas argumentações (quais substâncias são mais danosas etc.), mas sim compreender como significados socialmente orientados (pelos grupos sociais, no caso, pelas classes) constituem as representações, práticas de uso e relações com essas substâncias por parte dos participantes.

Essa distinção é importante por que apesar de haver discussões sobre o modo contextualizado de analisar o uso das substâncias psicoativas, há uma homogeneização dos usuários de crack acompanhada da sua exclusão social: são associados a esses usuários a quebra de vínculos familiares (que também envolve ir morar na rua), empregatícios, a prática da prostituição e de pequenos delitos para aquisição da substância, o aumento da agressividade, entre outros, ou seja, uma visão negativa e diferenciada de outras substância e seus usuários (BRASIL, 2010).

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 134 Muito disso ocorre pelo fato das mídias reforçarem essa perspectiva estigmatizante sobre os usuários de crack e também por valorizar a imagem de pessoas felizes que não demonstram seus problemas (portanto, tem controle sobre seus atos) e conseguem resolvê-los com uma cerveja (álcool) com os amigos em um bar (TONDIN; NETA; PASSOS, 2013) e não fumando uma pedra de crack num beco escuro.

3.2 Representações dos tratamentos oferecidos aos usuários

Todos os participantes relataram conhecer alguns tipos de tratamentos oferecidos aos usuários (abusivos ou não) de substâncias psicoativas, sendo o mais citado as clínicas de recuperação, tanto públicas quanto particulares. Apenas João/A citou um centro de apoio (uma instituição denominada Amor Exigente) como parte possível do tratamento. Em geral, os participantes relataram que para o tratamento da dependência química a melhor alternativa é a internação em clínica com abstinência total da substância, acompanhamento médico (com utilização de medicação) e psicológico.

Paulo/C3 disse não conhecer muito bem outros tratamentos oferecidos, dizendo que seria importante maior divulgação, já que outras pessoas, inclusive usuários, podem também desconhecer alternativas. O esclarecimento sobre o real funcionamento das clínicas e comunidades terapêuticas no Brasil, segundo Perrone (2014), é essencial principalmente devido às frequentes práticas desumanas destinadas aos usuários, algumas delas denunciadas pelas autoridades públicas.

Esse mesmo participante comentou sobre pessoas que usam muitos medicamentos controlados e que não se autodeclaram dependentes químicos, propondo que essas pessoas também fossem conscientizadas sobre algum tratamento para esse tipo de uso de substâncias psicoativas, mesmo que lícitas:

Principalmente as pessoas usuárias de medicamentos controlados, que também é uma droga, um psicoativo e as pessoas acham que aquilo é normal. Então o primeiro passo é a conscientização. (Paulo/C3).

De modo geral, os participantes criticaram os tratamentos dessas clínicas. Eles comentam a falta de comprometimento do Estado e das autoridades públicas com essa questão relevante de saúde pública, sobre falta de recursos, de equipes multiprofissionais,

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 135 de apoio às famílias de dependentes, de apoio pós-tratamento e necessidade de oferta de maiores e melhores oportunidades para reinserção social:

A pessoa dependente de uma droga pesada, crack, cocaína, que depende do governo. O governo que cuida dela, ela não se mantém financeiramente, vamos dizer. Ela é um gasto do governo. O governo dá assistência só na hora, para o vício, mas não tem uma assistência pós-tratamento, de ele arrumar um emprego, de se sustentar. O Governo fecha os olhos pra isso. (João/A).

Estes argumentos dos entrevistados se aproximam aos de Perrone (2014) quando ele discorre que a ausência de regulamentação e apoio do Estado Brasileiro em relação às clínicas e comunidades terapêuticas problematiza, quando não desarticula e impede, a efetivação dos direitos sociais e humanos presentes no Movimento de Reforma Psiquiátrica, com o qual se relaciona o uso abusivo de substâncias psicoativas. Assim, não há como negar que a reinserção do usuário de substâncias psicoativas é, de fato, uma preocupação eminentemente social.

Todos os participantes, exceto Ana/A, falaram que os usuários precisam querer o tratamento e que esse seria o primeiro e mais importante passo para a efetividade da terapêutica. Eles defendem que quando há motivação interna é mais fácil manter o tratamento, ajudando a diminuírem as recaídas. Isso pode ser exemplificado na seguinte fala de outro entrevistado:

O primeiro passo do tratamento é a pessoa querer se tratar, porque você pegar uma pessoa que ta lá jogada no meio da rua, feliz usando a droga dela e querer tratar, você não vai ter um tratamento muito efetivo (Paulo/C3).

Ana/A foi a única a mencionar que o tratamento deve ser iniciado mesmo contra a vontade da pessoa, pois segundo ela é importante pensar na família que igualmente sofre com o usuário:

Ao mesmo tempo em que está preservando uma pessoa, está destruindo um monte de gente, uma família. Então, às vezes, não era melhor colocar a pessoa lá meio que à força e preservar a família?

A internação em clínica como único tratamento conhecido, apontado por todos os participantes, independente da classe socioeconômica, torna possível pensar como a

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 136 população brasileira tem sido informada sobre os tratamentos para usuários de substâncias psicoativas.

A esse respeito pode-se destacar que os conflitos acerca da internação involuntária e compulsória, apesar de prevista desde 2001 (LEI nº 10.216), intensificaram-se somente em 2013 após o Governo começar a divulgar medidas consideradas mais eficientes para o cumprimento daquela, dentre elas a parceria no Estado de São Paulo entre os Poderes Judiciário e Executivo, médicos, juízes e advogados com o objetivo de tornar célere e eficaz a tramitação do processo de internação compulsória 1 dos usuários de substâncias psicoativas (GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2013). Dessa forma, os participantes parecem reproduzir o tipo de tratamento mais divulgado.

Mas quando os participantes consideram a vontade/autonomia do usuário no uso de substâncias psicoativas eles parecem ir ao encontro dos debates sobre outros tipos de tratamentos possíveis que consideram o usuário sujeito ativo e autônomo, não apoiando o intervencionismo moralista do Governo.

A Política Nacional de Redução de Danos (BRASIL, 2010) não preconiza a abstinência nem a moralização do uso das substâncias psicoativas, mas sim um uso cada vez menos potencialmente danoso. Em outras palavras, ela pressupõe intervenções próximas à realidade dos usuários e prevê um tratamento efetivo compatível com a realidade de cada um, que não busca a simples abstinência da substância, mas intervenções que proporcionem reflexões sobre autocuidado, autonomia e as implicações do uso/consumo dessas substâncias (BRASIL, 2010). 3.3 Representações da temática nas diferentes classes

Essa categoria destaca as significações dos participantes referentes às representações acerca do uso de substâncias nas diferentes classes (ou seja, na sua classe

1 As políticas públicas brasileiras de combate (ao uso) e enfrentamento de substâncias psicoativas preveem modalidades diferenciais de internações dos usuários, a saber: a voluntária (decisão eletiva), involuntária (requerida por algum familiar do usuário quando se considera que ele está gerando problemas para si ou para outrem; há a necessidade de um laudo médico atestando a incapacidade civil do usuário) e a compulsória (expedida pelo Poder Judiciário com ou sem a aquiescência de algum familiar, mas sempre sem a aquiescência do usuário). A problemática, na última modalidade de internação, gira em torno da possibilidade de nem o usuário nem seus familiares serem respeitados caso queiram negar a internação que é autorizada por um juiz de Direito – essa prática elevada ao estatuto de política pública pode confrontar o princípio constitucional brasileiro de liberdade individual.

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 137 [intraclasse] e nas outras classes [extraclasse]), sendo dividida, dessa forma, em duas subcategorias: Representações das classes altas (sobre si e sobre as demais) e Representações das classes médias/baixas (sobre si e sobre as demais).

3.3.1 Representações das classes altas

Os quatro participantes dessa classe comentaram que a classe alta movimenta muito dinheiro no tráfico de drogas justamente porque consome muitas substâncias psicoativas, principalmente as mais caras que também são consideradas de melhor procedência e qualidade, potencializando alterações da consciência e das sensações corpóreas e minimizando as consequências danosas dessas substâncias.

Por outro lado, consideram que as classes médias/baixas também usam substâncias psicoativas, porém utilizam as mais baratas e potencialmente mais danosas para a saúde.

Segundo o II LENAD (2014) essa suposição estaria adequada no que se refere ao uso de álcool e do tabaco (as classes mais abastadas, apesar da percentagem também ser elevada, consumem menos e com menor frequência álcool e tabaco quando comparadas às classes sociais menos abastadas), mas não poderia ser extensível ao uso de maconha, cocaína ou crack, visto que naquele levantamento não há dados diferenciadores do consumo dessas substâncias segundo classes socioeconômicas apesar de entre 2006 e 2012 ter aumentado o consumo destas substâncias na população geral.

Assim, tem-se aqui um bom exemplo de representações sociais (senso-comum) relativas ao consumo dessas substâncias, pois não há indicadores precisos de quem (classe) consome exatamente quais substâncias, além de ser dificultoso estabelecer uma escala hierárquica precisa de danos dentre as substâncias psicoativas.

Além disso, os participantes das classes altas disseram que há diferença no tipo de uso (estilos de consumo) entre as classes. Eles (auto) atribuíram às classes altas um uso esporádico, em festas, enquanto atribuíram às classes médias/baixas um uso frequente e rotineiro das substâncias psicoativas. Novamente, esse argumento, representação e atribuição diferencial dos entrevistados não encontram respaldo na literatura científica, nominalmente no II LENAD (2014).

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 138 Os entrevistados acreditam que as classes socioeconômicas médias/baixas têm maior inclinação ao vício (perda de controle), mas não sabem explicar exatamente porque pensam isso ou porque isso acontece:

Então, não sei... na classe popular a pessoa fica muito refém do efeito da droga. A droga para de dar o efeito, ai ela busca uma que dá mais efeito e essa que dá mais efeito, como a pessoa tem menos dinheiro pra comprar, vai ser qual? A mais barata de produzir. E a mais barata de produzir é o que? A que te dá mais dependência (João/A).

João/A, José/A e Marcos/A comentaram que a classe alta é o público alvo das pessoas que vendem droga, pois esse agrupamento possui elevado poder de compra e consumo e está disposto a pagar mais. Ana/A e Marcos/A relacionaram o uso de drogas nas classes baixas com a criminalidade e violência, especialmente com o roubo e o furto. Tal argumento poderia ser compreendido quando se considera que as classes médias/baixas estão, em relação às classes altas, em situação de maior exposição aos riscos e vulnerabilidades sociais, necessitando captar recursos por meio das práticas criminosas para manterem os hábitos de consumo dessas substâncias psicoativas.

João/A e José/A associaram o uso de substâncias psicoativas nas classes altas à elevação e manutenção do status devido à lógica do consumo na sociedade de produção capitalista, argumentando que as pessoas as usam para se destacar dentro de grupos sociais específicos:

Querendo ou não, o cara que usa é o bonitão. Aí meio que estigmatiza a droga, ela vai sendo vista como positiva o que não é né? (João/A).

José/A relatou que compreende de forma diferente o uso de substâncias dependendo do grupo (cultural e socioeconômico) ao qual a pessoa pertence:

Uma pessoa que usa em festa, boate, assim, não interfere no meu jeito de pensar, mas se ela tiver em uma roda de hippie assim, ou numa roda de mano, boné aba reta, eu já penso de outra forma. Então depende do contexto cultural, da classe social, da tendência à criminalidade, isso me faz pensar negativamente sobre essas pessoas. (José/A).

Sobre os tratamentos oferecidos aos usuários, todos os participantes dessa classe disseram que as clínicas particulares são as melhores opções simplesmente porque os

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 139 serviços particulares são, no Brasil, melhores do que os públicos (afirmação passível de questionamento), mesmo enfatizando existirem falhas tanto nas clínicas públicas quanto nas particulares.

3.3.2 Representações das classes médias/baixas

Os quatro participantes das classes médias/baixas comentaram que as classes altas, por terem dinheiro, fazem uso de substâncias psicoativas mais caras e melhores e quem não possui a mesma condição financeira acaba usando substâncias mais baratas e de menor qualidade (e, consequentemente, com maior potencial de gerar danos e problemas) – replicando os argumentos anteriormente apresentados.

Paulo/C3 e Bia/C3 falaram que as pessoas das classes altas não deixam o uso influenciar tanto a rotina como as pessoas das classes médias e baixas. Eles relatam que as classes médias e baixas têm essa tendência ao uso mais frequente e rotineiro, em casa, diferente das pessoas das classes altas, que usam mais em festas e escondido da família. Todavia, não foram encontrados dados no II LENAD (2014) que corroborassem com essa suposição.

Paulo/C3, Paula/C3 e Maria/C3 falaram que o uso nas classes altas é motivado pela futilidade, pelo ócio, pelo status e recreação, para aparecer na sociedade ou para chamar atenção dos pais; já nas classes médias/baixas o uso de substâncias psicoativas seria o resultado de uma fuga das dificuldades reais, para aliviar problemas do cotidiano. Nesse sentido, Maria/C3 e Paula/C3 alegaram que o uso de substâncias psicoativas pode estar relacionado à problemas psicológicos e emocionais mal resolvidas na infância, principalmente nas classes altas, pois o indivíduo busca muitas coisas por ter fácil acesso pelo dinheiro mas nada parece ser suficiente para resolver esses problemas subjetivos – então acabam fazendo uso de psicoativos, o que não deixa de ser uma fraqueza.

Curiosamente, em contrapartida, justificativas sociais relacionadas ao uso dessas substâncias psicoativas (tal como exposição às condições sociais vulneráveis etc.), apesar de importantes, não forma mencionadas pelos entrevistados das classes médias/baixas. Por exemplo:

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Enquanto na classe alta é uma coisa meio fútil, na classe baixa, assim, já é uma coisa que a pessoa não consegue ver outra coisa além do uso da substância. A pessoa vai usar mais diariamente e ai pode afetar o convívio familiar. (Paulo/C3).

Todos os participantes consideraram melhor e mais apropriados o tratamento oferecido em clínicas particulares, mesmo existindo falhas tanto nos clínicas públicas quanto particulares.

Em suma, apesar das evidentes distinções financeiras entre as diferentes classes socioeconômicas é possível perceber que muitas das suas representações sobre o uso e tratamento de substâncias psicoativas são semelhantes. Parece que ao falar sobre as classes socioeconômicas altas todos os participantes (independentemente da sua classe socioeconômica de pertencimento) compreendem o uso de maneira mais aceitável, enquanto que nas classes médias/baixas o usuário é mais estigmatizado pelos entrevistados (independentemente da sua classe socioeconômica de pertencimento) como aquele que (efetiva ou potencialmente) rouba ou agride para manter o uso e/ou por não conseguir controlar o uso.

Segundo Mac Rae (2001) a falta de um debate público aprofundado e a repetição de ideias/representações preconceituosas e autoritárias contribuem para a estigmatização dos usuários de substâncias psicoativas das classes médias e (principalmente das) baixas. O reducionismo deste estereótipo dos usuários como marginais também é útil para encobrir alguns problemas reais da estrutura social, pois o usuário torna-se o único responsável pela sua incapacidade adaptativa ao meio social. Assim, o usuário das classes socioeconômicas médias e, principalmente, das baixas, que é parte da população facilmente estigmatizável, torna-se inimigo da sociedade e é transformado em bode expiatório da mesma (VELHO, 2008).

Dessa forma, desvia-se o foco das elites econômicas que, muitas vezes, são delinquentes, irresponsáveis com as questões sociais, praticam crimes de colarinho branco e consomem abusivamente substâncias psicoativas fomentando o tráfico de drogas, mas que ficam “acima de qualquer suspeita” e não são responsabilizados. Ademais, ao delegarem relevância para o uso de substâncias psicoativas ilícitas sobra restrito espaço para a reflexão acerca do quanto é lucrativo para alguns segmentos das elites a produção e comercialização

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 141 de substâncias psicoativas lícitas que, porém, geram a maior parte dos problemas sociais e de saúde relacionados aos psicoativos (MAC RAE, 2001).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir dos resultados desta pesquisa observou-se que as representações acerca do uso de substâncias psicoativas envolvem variáveis como: a frequência, o ambiente, o tipo de substância e, principalmente, quem faz o uso – ou seja, a posição de classe do usuário.

Assim, destacou-se nas entrevistas dos participantes independentemente da sua classe social que o uso esporádico e controlado em ambientes festivos e de substâncias de melhor qualidade foram significados como toleráveis, sendo estas as práticas atribuídas às classes altas ou abastadas; em contrapartida, o descontrole do uso, a dependência, o uso frequente e rotineiro, que envolve o ambiente domiciliar, e o uso de substâncias mais baratas e de menor qualidade foram significados de maneira negativa por todos os participantes, mas foram atribuídas às classes médias/baixas.

Essa distinção entre dois tipos de estilos de uso (controlado e dependente) aponta para representações compartilhadas e amplamente divulgadas pelas mídias que influenciam os participantes a construir uma determinada perspectiva sobre os usos de substâncias psicoativas.

No que diz respeito aos diferentes tipos de substâncias psicoativas, observou-se que os participantes estabelecem uma hierarquia dos danos, elencando o crack como o mais forte e danoso e a maconha como a mais fraca, e não raro desconsiderando o álcool dessa hierarquia. Ainda se destaca que os participantes de ambas as classes associam às classes médias/baixas o uso de substâncias mais baratas e de pior qualidade, portanto, mais danosas à saúde do usuário, enquanto que as substâncias psicoativas mais caras foram associadas às classes altas.

Mérito desta pesquisa, a nosso ver, não é a simplória comparação das representações entre classes no que se refere ao uso de substâncias psicoativas, mas sim tanto a possibilidade de cada uma tecer diretamente comentários sobre sua própria realidade (e suas representações) como desvelar identificações intraclasses que revelam modos naturalizados de funcionamento social.

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Rev. Augustus | Rio de Janeiro | v.22 | n. 44 | p. 121-144 | jul./dez. 2017 142 Destaca-se, ainda, o amplamente referido desconhecimento das modalidades de tratamentos e serviços oferecidos aos usuários de drogas por parte dos próprios (e/ou potenciais) usuários, ressaltando a importância de maiores divulgações e reflexões acerca dessa temática no Brasil.

Desta forma, o presente estudo, espera contribuir para com estas reflexões na medida em que evidencia a necessidade de se proporcionar debates e discussões que vão além da ênfase no tipo de substância e no usuário dependente, considerando os diversos aspectos que atravessam esta temática, dentre os quais se incluem as representações (diferenciais ou similares) e estilos de uso/consumo dessas substâncias pelas e nas diferentes classes.

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