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Uma pausa antes do fim: aspectos do tempo em “a visit from the goon squad”

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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DA LINGUAGEM MESTRADO EM LITERATURA COMPARADA. LAYANA DE FÁTIMA BRASIL DE FREITAS CUNHA. UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. NATAL - RN 2016.

(2) LAYANA DE FÁTIMA BRASIL DE FREITAS CUNHA. UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Estudos da Linguagem (PPgEL) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como requisito ao título de mestre em Literatura Comparada.. Orientador: Profa. Dra. Edna Maria Rangel de Sá. NATAL – RN 2016.

(3) Catalogação da Publicação na Fonte. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).. Cunha, Layana de Fátima Brasil de Freitas. Uma pausa antes do fim: aspectos do tempo em “a visit from the goon squad” / Layana de Fátima Brasil de Freitas Cunha. – 2016. 97 f. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação em EstudosdaLinguagem,2016. Orientadora: Profª. Drª. Edna Maria Rangel de Sá. 1. Literatura comparada. 2. Egan, Jennifer – A visit from the goon squad. 3. Estudo do tempo. 4. Literatura americana. I. Sá, Edna Maria Rangel de. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título.. RN/BSE-CCHLA. CDU 81.091.

(4) LAYANA DE FÁTIMA BRASIL DE FREITAS CUNHA. UMA PAUSA ANTES DO FIM: aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem (PPgEL) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), como requisito ao título de mestre em Literatura Comparada.. Banca Examinadora:. ________________________________________ Profa. Dra. Edna Maria Rangel de Sá Presidente – PPGEL/UFRN. ________________________________________ Prof. Dr. Derivaldo dos Santos Examinador Interno – PPGEL/UFRN. ________________________________________ Profa. Dra. Maria Suely da Costa Examinador Externo – UEPB. Natal/ RN, _______de ____________________ de 201___.

(5) AGRADECIMENTOS. Este trabalho proporcionou-me um período de grande aprendizado e amadurecimento profissional. Do período da seleção até o ponto final da última página, muitos obstáculos foram ultrapassados e o que outrora provocou angústia já pode ser relembrado com a satisfação do objetivo cumprido. Se, como disse John Donne, “nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é parte do continente, uma parte do todo” tenho a honra de admitir que, sem os que estão à minha volta, nada seria possível e agradeço: Aos meus pais, que sempre valorizaram a educação acima de tudo, cuidaram para que eu não me desviasse da trajetória escolar e de tudo fizeram para que eu tivesse acesso ao que de melhor estivesse a seu alcance; Ao meu companheiro e filhos, responsáveis por dar sentido a tudo que faço e aliados nos bons e maus momentos. As minhas professoras, Dra.Edna Maria Rangel de Sá, exemplo de pessoa com grande sentido de humanidade e responsabilidade que quero levar comigo para sempre e Dra Rosanne Bezerra de Araújo, que, além de despertar meu interesse para a literatura, acompanhou o início dos trabalhos e acreditou na ideia inicial, mostrando os primeiros caminhos. A meu irmão, Leonardo Jorge, sempre disposto a ajudar-me com programas de computador ou dúvidas de formatação. Mesmo sendo ele o irmão mais novo, é fonte de inspiração e orgulho. A toda equipe do programa de pós-graduação PPGEL, professores e funcionários, que sempre foram solícitos, sejam na parte administrativa seja na de conteúdo e aos meus colegas de jornada pelos momentos partilhados e apoio na leitura atenta do texto final..

(6) RESUMO. Esta pesquisa estuda o tempo como categoria analítica na obra A visit from the goon squad, da escritora norte americana Jennifer Egan. A referida obra tornou-se objeto de pesquisa por trazer em sua prosa características modernas ao mesmo tempo em que dialoga com a tradição, focalizando o tempo como elemento de destaque e usando esta categoria para retratar o indivíduo e a sociedade que o cerca. Para nosso enfoque, utiliza-se principalmente a teorização sobre o tempo feita por Ricoeur (2010) e Meyerhoff (1976) para as análises literário-temporais e Bauman (2001) para pensar sobre os efeitos do tempo na vida dos personagens. Para falar sobre o objeto de estudo elencaram-se cinco temas (A narrativa entrecortada e seus saltos no tempo; Chronos e o leão; Pausas e música na narrativa; O tempo visto como entidade cruel e como redentora e Depois da pausa.) nos quais os treze capítulos da obra estão representados. O referencial teórico possibilitou perceber como a autora traz para sua obra a ideia de que o homem considera o tempo, por si só, responsável por agir de forma intimidadora ou benéfica para cada indivíduo. Também foram levadas em conta as correlações que Egan estabelece com a tradição literária ocidental através do uso da categoria tempo em sua obra e para interface entre sociedade e literatura.. Palavras-chave: Narrativa; Modernidade; Literatura americana; Tempo; Tradição..

(7) ABSTRACT. This research studies the time as an analytical category in the work A visit from the goon squad, written by the North American writer Jennifer Egan. That work became an object of research by bringing in its prose modern features while dialogue with tradition, focusing on time as prominent element and using this category to portray the individual and the society that surrounds it. For the analysis, it is mainly used to theorizing about the time taken by Ricoeur (2010) and Meyerhoff (1976). We also have used Bauman (2001) to consider the effects of time in the lives of the characters. To talk about the object of study five themes were elected (‘The ragged narrative and your heels in time’; ‘Chronos and the lion’; ‘Pauses and music in the narrative’;‘Time seen as cruel entity and as redeeming’ and ‘After pause’) in which thirteen chapters work are represented. Philosophical voices were intersected in order to enables us to see how the author brings to his work the idea that the man believes that time, itself, is blamed for act of intimidate or overhaul each individual. It was also taken into account the relationships that Egan sets with Western literary tradition through the use of time category in his work and interface between society and literature.. Keywords: American literature; Narrative; Modernity; Time; Tradition..

(8) SUMÁRIO. 1. INTRODUÇÃO ____________________________________________________ 7. 2. LITERATURA ESTADUNIDENSE E ESTADO DA ARTE _____________________ 12. 3. 4. 2.1. Breve histórico da literatura estadunidense ____________________________ 12. 2.2. Estado da Arte ____________________________________________________ 16. CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TEMPO ________________________________ 20 3.1. Passeio teórico em Tempo e Narrativa ________________________________ 20. 3.2. Outras contribuições de cunho teórico ________________________________ 30. DESCONSTRUINDO O BRUTAMONTE ________________________________ 38 4.1. A narrativa entrecortada e seus saltos no tempo ________________________ 39. 4.2. Chronos e o leão __________________________________________________ 45. 4.3. O tempo visto como entidade cruel e redentora_________________________ 49. 4.3.1. A percepção de passagem do tempo para os personagens mais velhos ____________ 54. 4.3.2. O tempo redentor de Sasha e Dolly _________________________________________ 61. 4.4. Pausas e música na narrativa ________________________________________ 68. 4.5. Depois da pausa __________________________________________________ 76. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS __________________________________________ 84. 6. REFERÊNCIAS ___________________________________________________ 86. 7. ANEXO: ENTREVISTA COM JENNIFER EGAN ___________________________ 89.

(9) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. 1. LAYANA CUNHA. INTRODUÇÃO Analisar uma prosa literária contemporânea foi o ponto de partida na busca por uma obra. cuja leitura provocasse estranhamento e suscitasse indagações. Escolha advinda do contato com a literatura de língua inglesa durante a graduação e a vontade de descobrir pontos de contato entre a prosa de anos passados e a que está sendo produzida e consumida hoje. Já havia a desconfiança de que a diferença poderia ser apenas aparente e que possivelmente um bom escritor contemporâneo continua a traduzir em sua escrita as impressões do contexto social e histórico. Dentre alguns títulos lançados nos últimos cinco anos, A visit from the goon Squad (2010)1, livro de Jennifer Egan, chamou atenção pela quantidade de prêmios e críticas positivas recebidas. Ao proceder a primeira leitura, ficou claro que aquele seria um excelente objeto de estudo, tendo em vista que o tratamento dado ao tempo era claramente singular. A pesquisa é, então, focada em VGS, obra mais premiada da Jornalista e Escritora estadunidense Jennifer Egan nascida em 1962 e em plena produção. A obra em análise é seu quinto livro, de um total de oito até agora, e amealhou o prêmio Pulitzer de ficção em 2011, além do National Book Critics Circle Award 2010, o Los Angeles Times Book Prize e o Tournament of Books. Nesta pesquisa, o olhar lançado sobre a obra, pensa literatura não apenas como uma escrita que traga uma linguagem peculiar ou como um fato material que pode ser analisado como se examina uma máquina. Antes, olhamos a obra tendo em mente que o ato de classificar algo como literatura é extremamente instável (EAGLETON, 2006) e que inexistem obras ou tradições literárias que sejam valiosas em si. O “valor”, de acordo com Eagleton, significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas pessoas em situações específicas e à luz de determinados objetos. Tendo em mente a maneira como Ricoeur (2010) dedicou-se a analisar detalhadamente a configuração do tempo em três narrativas escolhidas por ele por representar uma “fábula sobre o tempo”, nesta pesquisa nos debruçamos sobre como a passagem do tempo é percebida na. 1. Devido ao título extenso, doravante, para favorecer a leitura, usaremos VGS ao nos referirmos à obra em análise.. 7.

(10) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. referida obra de Jennifer Egan. Em seu trabalho, o filósofo francês defende a escolha das três obras por elas trazerem a própria experiência do tempo como cerne de suas transformações estruturais. Aqui, consideramos que o objeto de estudo escolhido para este trabalho é uma fábula sobre o tempo na medida em que trata, não apenas da passagem do tempo cronológico, mas, principalmente, dos efeitos do tempo sobre a vida dos personagens. Os 13 capítulos da obra estão a serviço do “brutamonte” chamado tempo, que constantemente encurrala o ser humano contra a parede e cobra com crueldade cada minuto perdido ou mal gasto. This is reality, right? You don’t look good anymore twenty years later, especially when you’ve had half your guts removed. Time is a goon, right? Isn’t that the expression? (EGAN, 2010, p.145). [É essa a realidade não é? Vinte anos depois, a sua beleza já foi para o lixo, especialmente quando arrancaram fora metade das suas entranhas. O tempo é cruel, não é? Não é assim que se diz?] (EGAN, 2011, p.126).2. É possível não apenas descrever o uso desta categoria de análise e mostrar de que forma a autora enriquece sua narrativa ao usá-la, como também demonstrar, como no exemplo acima, que os autores da atualidade, por mais imersos que estejam na contemporaneidade, dão continuidade à tradição literária ocidental ao utilizar a linguagem literária para retratar a sociedade que nos cerca. Este ponto, em que a obra traz a continuidade de uma tradição constituída, sem necessariamente fazer alusão direta a ela, foi também um gatilho de interesse para a pesquisa. Além da representação da sociedade, o livro traz também o foco no “eu”, no indivíduo pertencente a esta mesma sociedade, sua relação com a cultura e o consumo. Esse foco individualista é visto como característica própria do romance, como comenta Ian Watt em A ascensão do romance, (1990) percebendo que há nesse gênero uma primazia da experiência individual. Watt define romance como “forma literária que reflete mais plenamente esta reorientação individualista e inovadora” (p.14-15). A opção de estudar uma narrativa tão recente foi feita com a consciência de que a escolha incorre em alguns desafios. Em primeiro lugar, é fato que não se passou tempo bastante para que a obra esteja inscrita no cânone da literatura. Porém, é provável que a boa novidade do mercado de hoje possa ser vista no futuro como parte importante da trajetória literária de uma. Para fins de tradução, untilizamos a versão de Fernanda Abreu na edição de “A Visita Cruel do Tempo” (EGAN, 2011). 2. 8.

(11) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. nação. Deste modo, concordamos com Foucault quando este afirma “[...] se a relação de Eurípedes com a nossa linguagem é efetivamente literatura, sua relação com a linguagem grega certamente não o era” (2000, p.139). Não à toa, muitas vezes, o escritor e sua obra só são reconhecidos após o passar de anos ou décadas. Nesta reflexão sobre a relevância de uma obra de arte é bem-vindo também o pensamento de T.S Eliot (1989), lembrando que a crítica é tão inevitável quando a arte de respirar. Eliot comenta que existe uma tendência nossa de insistir, ao elogiar um artista, em observar nele apenas os aspectos nos quais ele se distancie de qualquer outro. Existe uma preocupação, dizia o crítico inglês, em destacar o que é individual e denote a essência daquele artista. Salienta-se o que separa o artista em análise de seus antecessores – em especial os mais próximos – havendo um empenho em descobrir o que possa ser isolado para então abrir espaço para a fruição artística. Em suma, procuramos o novo, mas Eliot nos faz perceber que isso pode ser apenas um preconceito. Ao contrário, se nos aproximarmos de um poeta sem esse preconceito poderemos amiúde descobrir que não apenas o melhor mas também as passagens mais individuais de sua obra podem ser aquelas em que os poetas mortos, seus ancestrais, revelam mais vigorosamente sua imortalidade (ELIOT, 1989, p.38). Cabe aqui a continuidade do pensamento do crítico quando aponta que seguir a tradição não consiste em simplesmente seguir os caminhos da geração imediatamente anterior, aderindo com facilidade aos seus êxitos. O que Eliot exalta, e com o qual concordamos, é a tradição conquistada a partir do sentido histórico, aquele que implica na percepção de que o homem não escreve apenas com a geração contemporânea a ele, mas com toda a carga da história literária de seu país. De acordo com Eliot, o autor que apreende esse sentido, do temporal e do atemporal, reúne as características de um escritor tradicional e é isso que o torna sagazmente consciente de seu lugar no tempo e consciente de sua própria contemporaneidade. Ademais, aplicar a teoria sobre o texto e trazê-lo para o âmbito acadêmico é um exercício que incorre em ganhos para que estejamos mais próximos de reconhecer, ou não, seu valor estético e literário. Não há escritor que, sozinho, possa dar completude a sua significação. Este significado é alcançado quando o apreciamos em relação aos seus antecessores, através de comparações e contrastes. Comparação que ocorre sempre que uma nova obra de arte aparece e que ocorreu com aquelas que a precederam.. 9.

(12) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. Há também desafios no estudo de uma narrativa recentemente lançada pelo fato de trabalharmos com um autor vivo e em plena produção. Até o presente momento Jennifer Egan já lançou mais três títulos e segue produzindo. Os estudos feitos não podem pretender enquadrar a autora em uma categoria ou estilo uma vez que podemos ser surpreendidos com uma guinada em seu trabalho ou até mesmo verificar uma continuidade da narrativa que é objeto deste estudo, com ressurgimento de personagens. Esta dissertação tem como fundamentação teórica a noção de tempo segundo a perspectiva de Ricoeur (2010), que afirma que a narrativa é a “guardiã do tempo”. Para Ricoeur, além de não haver tempo pensado que não seja narrado, para percebermos o tempo necessitamos do discurso indireto da narração. O pensamento de Ricoeur nos guia a analisar a referida obra de Egan como um painel dos efeitos do tempo no homem atual. Esta perspectiva nos ajudará a interpretar a obra de Egan. Ainda na fundamentação teórica sobre o tempo trazemos a contribuição de Meyerhoff (1976), que trata o tempo como algo híbrido, que não está isolado nas fronteiras da ciência, da literatura, ou da psicologia, mas sim pertencente a todas elas. Meryerhoff ao comentar sobre a experiência humana, nos mostra que essa não existiria sem um índice temporal que a ancore. Para nortear nossa visão acerca do homem contemporâneo nos valemos do pensamento de Bauman (2001), que analisa o mundo atual partindo do pressuposto de que as pessoas hoje reagem ao “mundo líquido”. De acordo com ele, o homem estaria a todo tempo tentando adaptar-se às mudanças de paradigma impostas pelas novas formas de trabalho e organização social que se apresentam na atualidade. A angustia, a insatisfação e a ansiedade atuais seriam provocadas em grande parte pela frustração do desejo de imortalidade, algo passível de identificação nos personagens de VGS. Nossa dissertação encontra-se dividida em quatro capítulos. Após a introdução, o segundo capítulo, intitulado Literatura Estadunidense e Estado da Arte traz os subcapítulos Breve Histórico da Literatura Estadunidense e Estado da Arte. No primeiro subcapítulo temos um histórico resumido da Literatura dos Estados Unidos, para que possamos situar VGS no contexto de seu país de origem e no segundo abordamos alguns trabalhos acadêmicos que já trazem Jennifer Egan ou VGS como objetos de pesquisa.. 10.

(13) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. Segue-se então o terceiro capítulo onde apresentamos uma revisão bibliográfica, que procura esclarecer as ideias e concepções que embasaram as análises sobre o tempo em VGS. Neste ponto executamos uma análise desta categoria narrativa alicerçada principalmente nas considerações de Paul Ricoeur (2010) e Hans Meyerhoff (1976), procurando relacionar a visão dos teóricos com a prosa em questão. No quarto capítulo, intitulado Desconstruindo o Brutamonte, a contribuição dos teóricos tem sua importância ainda mais evidenciada. Com base na fundamentação teórica já citada, exploramos as relações que os personagens estabelecem com o tempo e os procedimentos narrativos usados. Ainda dentro do quarto capítulo, discutiremos em subtítulos quatro enfoques do tempo em VGS : A narrativa entrecortada e seus saltos no tempo, em que o realce se dá sobre a falta de cronologia e os diferentes modos de narrar dos quais a autora se vale para construir sua alegoria sobre o tempo; Chronos e o leão, subcapítulo dedicado à explorar a significativa personificação metafórica do tempo presente no quarto capítulo de VGS; Pausas e música na narrativa, trecho que trata da importância que as pausas podem ter em uma narrativa que tem como pano de fundo a cena musical e O tempo visto como entidade cruel e redentora, última parte da análise da obra, que trará o enfoque do tempo percebido como um inimigo cruel, um vilão sempre à espreita ou como redenção para os que sabem dele se aproveitar. Por último, trataremos das considerações finais e será possível mostrar o caráter de personagem que Egan deu ao tempo, que é retratado muitas vezes como um vilão inevitável, visto que apenas para os personagens que demonstraram a capacidade de lidar com o tempo ele pode mostrar um aliado. O anexo traz uma entrevista concedida por Egan ao jornalista Português José Mario Silva para o site Bibliotecário de Babel. Nesta entrevista a autora de VGS cita algumas situações que a levaram a escrever trechos da sua obra e expõe um pouco de sua visão literária e pessoal.. 11.

(14) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. 2 2.1. LAYANA CUNHA. LITERATURA ESTADUNIDENSE E ESTADO DA ARTE Breve histórico da literatura estadunidense Como atesta Gomes (2009), a literatura norte-americana tem uma história recente se. comparada à produzida na Europa. Tal característica é evidenciada em países que passaram pelo processo de colonização, como os países da América Latina ou África, por exemplo. Durante a fase colonial, dita também como o período puritano, a produção era essencialmente de relatos de viagem, diários de bordo e textos marcadamente religiosos, como sermões. Essa fase, que vai aproximadamente de 1620 até 1750, mostra o índio norte americano visto como violento e selvagem em termos espirituais, logo, as narrativas desses relatos de viagem carregam o caráter de bravura e aventura daqueles que conseguiam vencer os obstáculos desse novo mundo. Pretendia-se, naquele momento, marcar também a diferença entre o cristianismo praticado na Inglaterra e o que estava sendo forjado naquela nova terra. Os textos procuravam reforçar a autoridade da bíblia e da Igreja. O foco dos textos era, portanto, utilitário, instrutivo ou religioso. Os movimentos literários de países como França, Inglaterra, Itália e Alemanha já contavam vasta história quando os Estados Unidos, enfim, firmaram sua identidade literária. Após o período colonial seguiu-se um movimento em que os textos estavam alicerçados na razão e não na religiosidade. Nesta fase houve a ascensão da ideia de uma democracia perfeita, que deveria ser alcançada o quanto antes. O sentimento patriótico começa a aflorar com toda intensidade e os escritos são desde panfletos políticos à pura ficção. Gomes (2009) também comenta as metáforas usadas para que se marcasse cada vez mais a diferença entre o cidadão “americano” e o europeu. Os americanos seriam uma nação movida a objetivos notadamente guiados por Deus, enquanto os europeus estavam sempre ligados a uma moral corrompida e religiosidade frágil. Essa identidade americana foi criada principalmente a partir do século XIX, quando ainda contava com forte influência da literatura europeia, e com mais força no século XX, período em que autores como Henry James e Mark Twain marcaram em suas narrativas a diferença entre o novo e o velho mundo e trouxeram personagens que podem ser enquadrados como o verdadeiro americano. Havia o foco nos sentimentos individuais do personagem além de uma 12.

(15) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. marca forte da imaginação sobre a razão. Os contos, a poesia e os textos que transcendiam os temas anteriores floresceram. A partir daí, a literatura produzida nos Estados Unidos mereceu o título de Americana não só para que se marcasse, com isso, a diferenciação para com a literatura Inglesa, mas por apresentar características estéticas diferenciadas. Com a ascensão da economia dos Estados Unidos, principalmente após a guerra civil, o país deixou de ser a nação endividada de 1860 para se transformar no Estado mais rico do mundo em 1914. Neste contexto, que engloba a fase realista, sobressaíram-se narrativas de nomes como Ernest Hemingway, William Faulkner e Mark Twain, que enfocaram em suas obras o desejo de ascensão do americano, seus mitos fundadores, sua história e os problemas da classe trabalhadora. O homem, o indivíduo pertencente aos Estados Unidos teve a chance de repensar e reformular a visão do seu passado através das narrativas que discutiam o materialismo, a sociedade dividida em classes e os valores morais que deveriam ou não ser cultivados. Depois da fase realista veio o modernismo, dando início a outra fase cultural. Embora os escritores buscassem reinventar as formas artísticas tradicionais e se esforçassem na busca por outras ainda não experimentadas, os americanos ainda escreveram de forma mais realista que os europeus no período entre 1920 e 1930. Esta fase foi marcada pela desilusão e a desconfiança em relação ao país e ao futuro. Sobre este período podemos frisar: A importância de enfrentar a realidade tornou-se tema dominante nas décadas de 1920 e 1930: escritores como F. Scott Fitzgerald e o dramaturgo Eugene O’Neill retrataram diversas vezes a tragédia que aguardava aqueles que vivem de sonhos frágeis. (VANSPANCKEREN, 2011, p.31). Seguiram-se os anos do pós-guerra, com suas desilusões aliadas à crescente demanda do americano médio por consumo. Desfrutando de prosperidade financeira e uma liberdade individual nunca antes experimentada, o país viu florescer uma literatura híbrida, que ora poderia ser identificada como sendo mais ligada à tradição e ora se volta para escritores que revelam sua faceta mais íntima, deixando claro a que grupo pertenciam. Foi a porta para a poesia da geração Beat e a prosa de Jack Kerouac, On the Road, que marcou o início da contracultura independente dos anos 1960. Em meio aos vários movimentos populares, vindos de variadas vertentes, escritores que outrora carregaram o fardo de serem vistos como se fossem representantes de uma minoria começam a vislumbrar uma mudança: [...] é importante notar que além de uma forte consciência social, cada movimento tinha a sua própria identidade, que viria a ser definida por formas culturais específicas. 13.

(16) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. – especialmente na literatura. [...] Apesar de temas específicos mais voltados para questões da identidade negra e feminina, figuras como Alice Walker e Toni Morrison já saíram do nicho de ‘literatura afro-americana’ ou ‘literatura feminista’ para serem reconhecidas como grandes autoras da literatura norte-americana em geral. (GOMES, 2009, p.175).. Seguiu-se um período de intensa produção, numerosos best sellers e alguns prêmios Nobel de literatura amealhados por escritores que retrataram de forma singular as idiossincrasias da sociedade, seus preconceitos e modo de vida. A partir deste ponto foi possível notar que a produção nos Estados Unidos tornou-se cada vez mais múltipla em estilos e seu imenso mercado editorial possibilitou um aumento na produção de livros com grande apelo comercial. Esta produção voltada para o consumo rápido, que por vezes não se enquadra em qualquer escola ou movimento literário é acusada de ser voltada unicamente ao comércio, e não à arte. A obra de arte pós-moderna típica é arbitrária, eclética, híbrida, descentralizada, fluida e descontínua, lembra o pastiche. Fiel aos princípios da pós-modernidade, rejeita a profundidade metafísica em favor de uma espécie de superficialidade forjada, jocosidade e falta de afeto; é uma arte de prazeres, superfícies e intensidades fugazes. (EAGLETON, 2006, p.352). A despeito de toda esta problemática, autores sérios e comprometidos com o trato literário da linguagem continuam produzindo e renovando o meio literário. A arte, e em especial a literatura contemporânea, é capaz de trazer as marcas da velocidade com que a humanidade é impelida a conduzir sua vida. Uma gama de autores começa a questionar os valores da sociedade e apontar a perda do “sonho americano”. Na prosa iniciam-se as narrativas compostas por fragmentos de histórias enquanto na poesia há o abandono da forma e da métrica. Experimentaram-se novas maneiras de escrever e a técnica de utilizar o fluxo de consciência do personagem abriu uma gama de possibilidades narrativas. Escritores como Ezra Pound, John Steinbeck, Robert Frost entre outros tantos, procuraram captar a essência da vida moderna tanto na forma como no conteúdo. Quando o antagonista por excelência do ser humano deixa de ser o outro (outro povo, outra religião, outro modo de vida) só lhe resta lutar contra si mesmo. Nas narrativas contemporâneas temos uma explosão da luta contra os medos, contra o desconhecimento de si e os demônios da culpa. Os personagens podem enfrentar desafios que nascem e deságuam sem a interferência de outrem. Um dos maiores medos, o da finitude, é expresso na tentativa de lidar melhor com algo que concerne a todos, mas não depende de ninguém: o tempo.. 14.

(17) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. A forma como o homem quer dominar o tempo tentando usar cada minuto da melhor forma possível e o inequívoco fracasso nesta empreitada estão presentes na prosa de Jennifer Egan. VGS (2010) traz a temática da passagem do tempo na vida de indivíduos que estão vivenciando o mundo contemporâneo. Suas angústias, frustrações, esperanças e suas dificuldades em encarar o passado estão alinhavadas em histórias que se entrecruzam e se completam numa narrativa caleidoscópica. So, this is it – what cost me all that time. A man who turned out to be old, a house that turned out to be empty. I can’t help it, I start to cry Rhea puts her arms around me. Even after all the years, she doesn’t hesitate. (EGAN, 2010, p.99) [Então é isso – foi isso que me custou tanto tempo. Um homem que no final se revelou velho, uma casa que se revelou vazia. Não consigo me segurar e começo a chorar. Rhea me abraça. Mesmo depois de tantos anos ela não hesita em fazê-lo] (EGAN, 2011, p.89). Outro aspecto importante neste romance é o rumo na vida dos personagens, que parecem sempre flertar com o fracasso e a ruína. Egan nos coloca diante do produtor musical que perde o faro, da jovem que se debate com seus problemas de forma destrutiva, do músico que não soube amadurecer e até das análises precocemente profundas de uma garota de doze anos. No último capítulo, quando se vê, enfim, o sucesso de alguns personagens, uma nesga de esperança surge após tantas histórias de ruína. A versão do título para língua portuguesa, feita por Fernanda Abreu para editora Intríseca, ficou como “A visita cruel do tempo” e ressalta o caráter de personagem que o tempo chega a assumir no texto de VGS. Na obra, o tempo, que é extenso, mas transcorre violento como o título original sugere, abre a possibilidade de pensar sobre os efeitos da passagem do tempo e suas implicações na sociedade. O fragmento a seguir, retirado do quinto capítulo de VGS (p.97), em que duas personagens visitam um terceiro em uma situação de reencontro após alguns anos, é capaz de exemplificar como temáticas sociais e filosóficas estão imbricadas nas ações de alguns personagens, na falta de ação de outros e também na forma como eles encaram a passagem do tempo. We stand there, quiet. My questions all seem wrong. How did you get so old? Was it all at once, in a Day, or did you peter out bit by bit? When did you stop having parties? Did everyone else get old too, or was it just you? Are other people still here, hiding in the palm trees or holding their breath underwater? When did you last swim your laps? Do your bones hurt? Did you know this was coming and hide that you knew, or did it ambush you from behind? Instead I say “Hi Lou”. (EGAN, 2010, p.97). 15.

(18) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. [Ficamos ali sem dizer nada. Todas as minhas perguntas soam erradas: como você ficou tão velho? Foi tudo de uma vez, em um dia só, ou você foi se apagando aos poucos? Quando parou de dar festas? Todo mundo envelheceu ou só você? Os outros ainda estão lá, escondidos entre as palmeiras ou prendendo a respiração debaixo d’água? Quando foi a última vez em que você nadou na piscina? Seus ossos estão doendo? Você sabia que ia acontecer e escondeu que sabia, ou isso o pegou por trás, de emboscada? Em vez disso, falei “Oi Lou”.]. (EGAN, 2011, p.87). VGS, com seus saltos no tempo e referências a mídias sociais e novas formas de interação, poderia estar enquadrado como apenas mais um dos romances contemporâneos que reagem à concorrência das novas mídias fazendo com que a literatura chegue a se assemelhar a elas, como critica Terry Eagleton no trecho à seguir. Por último, e talvez mais caracteristicamente que tudo o mais, a cultura pós-moderna volta sua aversão por limites e categorias fixos para a tradicional distinção entre “grande arte” e “arte popular”, desconstruindo o limite entre elas ao produzir artefatos autoconscientemente populistas ou comuns, ou que se oferecem como mercadorias para o consumo enquanto fonte de prazer. (EAGLETON, 2006, p.353). Jennifer Egan surge na via contrária ao movimento que Eagleton critica. Sua capacidade de retratar o mundo contemporâneo nos remete ao que Ricoeur (2010), destaca sobre as características do gênero romance ao comentar: “...nenhuma outra arte mimética foi tão longe na representação do pensamento, dos sentimentos e do discurso quanto o romance.” (p.153). Há algo de inquietante e provocador ao fim da jornada de leitura. Além de tratar o tempo a partir de uma estratégia de criação literária, as análises apontam para as correlações que a autora estabelece com a tradição literária ocidental. Correlação feita através do uso da categoria tempo em sua obra e da interface entre sociedade e literatura que, afinal, sempre foi presente na literatura americana. No texto que segue revisaremos a literatura teórica que embasa o presente trabalho, procurando deixar claro quais aspectos de cada autor foi mais pertinente para que se entendesse melhor a obra em análise.. 2.2. Estado da Arte A partir do ano de 2012, com a divulgação intensa do nome da escritora Jennifer Egan. por ocasião dos prêmios literários, é possível encontrar os primeiros trabalhos acadêmicos que tratam VGS como objeto de pesquisa. 16.

(19) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. Nos Estados Unidos, país de origem da autora de VGS, a trabalho de Bacharelado de Potgieter (2012), intitulado “Post-postmodernism in contemporary American fiction: An analysis of Jonathan Franzen’s Freedom and Jennifer Egan’s A Visit from the Goon Squad” [Pós Modernismo na ficção Americana contemporânea: Uma análise de Freedom, de Jonathan Franzen e A visit from the goon squad, de Jennifer Egan] argumenta que os romances pósmodernos tentam ultrapassar o abismo entre o texto e a realidade promovendo um engajamento político do leitor. De acordo com Potgieter os personagens seriam elaborados de forma a provocar no leitor a sensação de que compartilha de suas motivações para a ação. Os escritores pós-modernos tentam se reconectar com o mundo promovendo um compromisso político ao focar nos problemas do século 21. Ao comparar os dois romances, Potgieter diz que Franzen trabalha um estilo mais realista ao tratar os problemas ecológicos enquanto Egan é mais pós-moderna com seu experimentalismo textual e pertence a outro lado do espectro da pós-modernidade. Quando fala especificamente de VGS enfatiza a narrativa aos saltos, o uso das prolepses, o capítulo em power point, a distopia do último capítulo e as mudanças de ponto de vista e voz narrativa ao longo da trama. Sua conclusão comenta que ambas as obras falam sobre como a mídia tem cada vez mais poder de influência sobre as pessoas e ressalta o desejo que os romancistas atuais têm de interagir com os leitores e defender o que resta de valores humanos em suas obras. Já Carruth (2014), em “The Digital Cloud and the Micropolitics of Energy” - [A Nuvem Digital e a Micropolítica da Energia] usa VGS em um estudo de caso. Seu trabalho examina a imagem das redes “verdes” ou ecologicamente corretas. O autor problematiza acerca da retórica quase-ecológica da nuvem , considerando a infra-estrutura material que se esconde por trás de cada curso de um teclado. Carruth realiza dois estudos de caso, usando VGS em um deles, onde enfatiza o décimo segundo capítulo. De aocordo com o artigo, no capítulo em power point é possível visalizar a energia demandada para um rápido crescimento da cultura das mídias sociais. Enfatiza também que os operadores destas empresas de mídia usam as atualizações dos usuários para refinar seus algoritmos e lucrar enomemente através da nuvem. Ainda nos Estados Unidos temos o artigo “Thirteen Ways of Looking: Jennifer Egan’s A Visit From the Gooon Squad” - [Treze Pontos de Vista em A Visit From the Goon Squad] de Cowart (2015) publicado pela Revista Critique, da Universidade da Carolina do Sul . Neste 17.

(20) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. artigo o autor enfatiza a utilização da desconstrução textual e os vestígios de metanarrativa sob a sombra do modernismo. Cowart compara o trabalho feito por Egan, ao imbricar tempo e consciência, com o de Virginia Woolf em Mrs Dalloway e To The Lighthouse. Esses trabalhos, diz Cowart, percebem temporalidade de consciência como forma de articulação de linguagem. A principal argumentação é de que Egan reformula os insights de Proust e Eliot após um século, ainda que com a vantagem epistêmica do seu pós-modernismo de segunda geração, ela reconceitualizaria seus temas de tempo perdido e problematicamente recapturado. Saindo do país de origem da autora encontramos Eve (2013), da Universidade de Sussex, Inglaterra, com o estudo:“Vivid Tenuousness: off the page and into the academy in the novels of Jennifer Egan”- [Tenuosidade vívida: fora da página e detro da academia nos romances de Jennifer Egan]. Neste trabalho o objeto é a escrita de Egan, no entanto, VGS é bastante citado por trazer muito da temática abordada. Eve mostra a presença do discursso acadêmico entrelaçado com a prosa de Egan ao pinçar em suas obras exemplos de personagens que remetem ao ambiente acadêmico. No caso específico de VGS são explorados os personagens. Mindy (estudante de doutorado em. Berkeley) , Ted (professor Universitário) e Jules Jones (Jornalista que narra seu encontro com Kitty em forma de artigo). No Brasil, Braga (2014), fala sobre a inserção dos recursos digitais e da Internet nas práticas sociais e educacionais e avalia os possíveis impactos no ensino da literatura do século XXI. Braga (2014) afirma que o enredo de VGS induz o leitor a fazer reflexões sobre a música, sobre questões práticas da vida mundana e social e também sobre a transitoriedade de nossos destinos. A autora do artigo salienta que o número significativo de setenta e quatro páginas do romance são imagens. Segundo Braga (2014) nessas páginas a narrativa se constrói através da exploração bastante original de diferentes tipos de gráficos que narram, de forma esquemática e visual, as vivências e sentimentos do personagem central. A leitura desse romance demandaria que o leitor tivesse em seu repertório de conhecimento prévio a competência para a interpretação de gráficos, inclusive aqueles mais comumente encontrados em relatos de natureza acadêmica.. 18.

(21) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. Por outro lado, Santos (2012), diz que VGS permite uma discussão atualizada a respeito do romance como gênero híbrido, plurilinguístico e bivocal, tal qual Mikhail Bakthin o classificou. O artigo diz que realismo na ficção é posto mais uma vez em pauta, visto que, de acordo com o autor, VGS trabalha no limite do experimentalismo e da mimese responsável por um efeito verossímil de realidade. Por último, VGS é citado por Jatobá e Sá (2013) em artigo que discute a necessidade dos escritores de se adequarem as novas mídias e de se exporem ao público. Segundo o artigo, o autor se submete às exigências de um mercado editorial que privilegia uma literatura de mais fácil compreensão, e que deseja alcançar um público leitor mais amplo, o qual não se dê ao trabalho de fazer reflexões profundas. Cita Egan e VGS ao comentar sobre o personagem Bennie, que cede ao mercado fonográfico mesmo sabendo que não oferece o melhor da música. Apresentamos então, com o presente trabalho, uma contriuição interpretativa da obra VGS, onde percebemos a continuidade da tradição em um discursso pós-moderno feita principalmente através da categoria tempo, analisada a luz das teorias de Ricoeur (2010) e Meyerhoff (1976).. 19.

(22) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. 3. LAYANA CUNHA. CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TEMPO. 3.1. Passeio teórico em Tempo e Narrativa Para a análise de um corpus cuja prosa faz clara alusão à passagem do tempo é. fundamental a busca por discussões profundas acerca do que seria o tempo e como ele pode ser percebido de maneiras díspares dentro das narrativas. Neste sentido, é fundamental a contribuição que o trabalho de Paul Ricoeur (2010), tem a nos oferecer nos três volumes de Tempo e Narrativa. Ricoeur percorre os três tomos testando sua hipótese de que não podemos checar, perceber temporalidade no discurso direto de uma fenomenologia, mas sim que o tempo requer a mediação do discurso indireto da narração. De acordo com o filósofo, esse trabalho consistiu em tomar a narrativa por guardiã do tempo, uma vez que afirma que não haveria tempo pensado que não fosse narrado. Ao examinar três romances que podem ser considerados histórias sobre o tempo – Mrs.Dalloway (1925), de Virgínia Woolf, A montanha mágica (1960), de Thomas Mann e Em busca do tempo perdido (1954), de Marcel Proust – Ricoeur demonstra como a ficção articula nossas experiências com o tempo e nos ajuda a ter um entendimento maior do mundo. “Daí, mesmo que o próprio tempo não seja nunca diretamente observado, ele pode ser narrado e, ao sê-lo, pode ser compreendido de forma prática” (PELLAUER, 2009, p.102). . Ricoeur, ao pensar sobre o tempo, teceu diversas considerações acerca de obras literárias mundialmente conhecidas. Algumas delas são passíveis de serem tomadas de empréstimo em nossa pesquisa, pois o paralelo é facilmente identificado. Um bom exemplo está no tomo II, de Tempo e Narrativa. Ricoeur, ao falar de Tom Jones de Henry Fielding, comenta o jogo entre o tempo que se leva para narrar e o tempo narrado e nos remete a VGS ao comentar seu ritmo: A ação central é relativamente simples, mas subdividida em uma série de unidades narrativas relativamente independentes e de tamanhos diferentes, dedicadas a episódios separados por intervalos mais ou menos longos e que envolvem, por sua vez, lapsos de tempo muito variáveis [...] (RICOEUR, 2012, v.2, p.21).. Ao analisar a configuração do tempo da narrativa de ficção entrecruzando vozes filosóficas e análises de outros nomes3 da crítica literária, Ricoeur explica que reserva o termo. 3. Ricoeur estabelece diálogos com os trabalhos de Propp, Deleuze, Éric Auerbach, Barthes, Frank Kermode, A. A. Mendilow, Todorov, entre outros.. 20.

(23) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. ficção para as criações literárias que não tem o propósito da narrativa histórica “Reservo contudo o termo ficção para as criações literárias que ignoram a ambição que tem a narrativa histórica de constituir uma narrativa verdadeira” (RICOEUR, 2010, v.2, p.06). Deixando bem claro que tratará apenas de narrativas ficcionais, o autor se propôs a ampliar, aprofundar, enriquecer e abrir a noção de composição da intriga e de tempo narrativo. Vemos que em Ricoeur o romance seria como um campo fértil de onde sempre poderão surgir novas relações possíveis do homem com o tempo: “Ora, foi ele (o romance) que constituiu, durante ao menos três séculos, um prodigioso canteiro de experimentação no domínio da composição e da expressão do tempo.” (RICOEUR, 2010, v.2, p.13). Tomando como ponto de partida as considerações de Santo Agostinho e de Aristóteles, o filósofo francês parece procurar nos dois primeiros o que há de limite, propondo respostas para suas indagações. Enquanto Agostinho elabora seu pensamento a respeito do tempo sem relacioná-lo a questões narrativas, Aristóteles tece suas teorias sobre a intriga isentando-se das questões que margeiam a temporalidade. “Seriam duas maneiras de conceber o tempo, uma subjetiva (Agostinho) e outra objetiva (Aristóteles)” (PELLAUER 2009, p.100). Ricoeur considera que Agostinho fracassou em derivar o princípio da extensão e da medida do tempo apenas da distenção do espírito. Apesar de louvar Agostinho por este nunca ter deixado a certeza de que a medida é uma característica autêntica do tempo, (Agostinho considerava que a divisão do tempo em dias e anos designavam propriedades do próprio tempo) o considera mal resolvido quando tentava refutar as teses cosmológicas: ‘Ouvi um homem instruído dizer que os movimentos do Sol e da Lua constituíam o próprio tempo; e não concordei’ (Confissões, XI, 23, 29). Com essa identificação simplista do tempo ao movimento circular dos dois principais astros errantes, Agostinho passava ao largo da tese infinitamente mais sutil de Aristóteles, segundo a qual o tempo, embora não fosse o próprio movimento, era ‘algo do movimento’. (RICOEUR, 2010, v.3, p. 16). A crítica está em torno da argumentação de Agostinho para sustentar que a extensão do tempo estaria na distenção do espírito e não no movimento dos astros. Segundo o religioso, todos os movimentos poderiam - dos astros aos animais - variar, logo, não seria em si, o tempo. Não há outro recurso para Agostinho, já que pertencia a Igreja, senão se opor as doutrinas cosmológicas. Ricoeur rebate lembrando-nos que mesmo após a ciência ter nos provado que o movimento da terra em torno do sol não seja absolutamente regular e ainda estejamos na busca pelo relógio absoluto, é exatamente esse anseio pela correção que demonstra o quanto a busca de um movimento absolutamente regular continua sendo a ideia diretora de toda medida do 21.

(24) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. tempo. Logo, um dia não continuaria sendo chamado de “um dia” se não fosse medido pelo movimento do Sol. Ao analisar o pensamento de Agostinho, Ricoeur se sente convidado a abordar o problema do tempo por outra extremidade: a natureza. O teórico considera importante para a elaboração de uma teoria narrativa que as duas vias que abordam ao problema do tempo, seja pelo lado do espírito, seja pelo lado do mundo, permaneçam abertas “A aporia da temporalidade consiste precisamente na dificuldade de manter as duas extremidades da cadeia: o tempo da alma e o tempo do mundo” (RICOUR, 2010, v.3, p. 18-19). Diante do convite, Ricoeur afirma então que é necessário que se vá até o fundo do impasse e reconhece que uma teoria psicológica e uma teoria cosmológica do tempo se ocultam reciprocamente na própria medida em que se implicam uma na outra. Na busca pelo que Agostinho ignora, vai escutar então, Aristóteles. O filósofo grego dá sua definição do tempo no livro IV da Física, dizendo que o tempo é relativo ao movimento sem se confundir com ele. Aristóteles argumentou, antes de Agostinho, que percebe o tempo e o movimento juntos e não que o tempo derivasse do movimento. Ricoeur concentra sua análise da definição Aristotélica no ponto em que observa como é decisivo o pensamento de que a relação entre o antes e o depois é numérica. Dizia Aristóteles que o tempo era o número do movimento, segundo o antes e o depois. “Assim, Aristóteles pode especificar que o importante para a definição do tempo não é o número enumerado, mas enumerável, que é dito do movimento antes de ser dito do tempo.” (RICOUER, 2010, v.3, p.23). Resulta então, diz Ricoeur, que a definição aristotélica do tempo não permite referência alguma que fosse explícita à alma. O diálogo de teorias e críticas intermediado por Ricoeur tem efeito didático para quem procura elucidar questões de narrativa, como é o caso da presente pesquisa. É para além do mar de questionamentos agostinianos e da racionalidade aristotélica exata e árida que ele nos coloca quando, após debruçar-se sobre suas teorias, diz “Tenho para mim que Agostinho não refutou Aristóteles e que sua psicologia não pode substituir uma cosmologia - pode apenas somar-se a ela” (RICOEUR, 2010, v.3, p. 28). Entre a concepção aristotélica e a concepção agostiniana não haveria uma transição pensável, mas um somatório de ideias acessível através de um salto. Segundo Ricoeur, as dificuldades próprias às perspectivas de cada um fariam com que uma estivesse condenada a ocultar a outra, mas são exatamente estas dificuldades que fazem que 22.

(25) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. com que seja possível que elas se conciliem. Nem se deveria atacar o problema do tempo somente pela alma nem somente pelo movimento. A ambição do filósofo francês, que tem sempre em mente um pensamento reflexivo e especulativo, é mostrar que a poética da narrativa contribui para juntar o que a especulação separa. Ricoeur levanta a necessidade que a poética tem em valer-se tanto da cumplicidade quanto do contraste entre a consciência interna do tempo e a sucessão objetiva. Esse somatório de forças seria importante para a investigação das mediações narrativas entre a “concordância discordante do tempo fenomenológico e a simples sucessão do tempo físico.” (RICOEUR, 2010, v.3, p.36). Como compreende que confrontar Agostinho e Aristóteles não esgota as aporias do tempo, Ricoeur continua sua análise embrenhando-se no pensamento de outras vozes. Coloca o pensamento fenomenológico de Husserl e a abordagem transcendental de Kant lado a lado para concluir que há ali um impasse comparável ao embate anterior, onde não é possível olhar ao mesmo tempo o reverso e o anverso de uma mesma moeda. Logo depois, examina Heidegger e seu conceito de que o tempo universal da astronomia e das ciências seria um tempo vulgar, nivelando-o com as ênfases do tempo fenomenológico. Durante o curso das discussões sobre as teorias que poderiam dar conta da configuração do tempo na narrativa, Ricoeur alerta-nos que a “evolução literária” torna a tarefa do crítico sempre rica em desafios. Ao deitar seu olhar sobre outras teorias o filósofo pensa que é preciso percorrer outro caminho, o da hermenêutica, pois acredita que é pelo paradigma da linguagem que ele será capaz de elucidar as questões que a narrativa contemporânea traz. O autor cita o caso da teoria aristotélica: uma vez criada em uma época em que somente a tragédia, a comédia e a epopeia eram “gêneros” reconhecidos, como poderia ser conveniente para gêneros que surgiram posteriormente? E quanto ao romance, que transformou, nas palavras de Ricoeur, a literatura num “imenso campo de experimentação, do qual todas as convenções foram cedo ou tarde banidas”? (RICOEUR, 2010, v.2, p.11). O romance moderno parece carecer de uma análise tão refinada e complexa quanto as técnicas narrativas usadas pelos seus autores ao construí-lo. O argumento de Ricoeur é trabalhado ao longo de dois capítulos em que o autor discute as teorias, as aplica na análise de alguns exemplos e compara visões de outros críticos. Sobre as considerações acerca do romance advindas do trabalho de Ricoeur, David Pellauer, seu ex-aluno, frisa:. 23.

(26) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. O que é mais importante sobre o romance, no entanto, é que ele nos leva a novos desenvolvimentos de técnica narrativa por se tratar de um gênero que constantemente luta para não ser reduzido a um conjunto fixo de convenções ao mesmo tempo que confronta os leitores com a questão: estamos diante da ilusão ou da semelhança com a realidade? (PELLAUER, 2009, p.107).. Jennifer Egan rompe com alguns desses limites anteriormente postos ao gênero romance. A título de exemplo, é possível imaginar a tentativa de enquadrar a prosa de Egan na sequência elementar de Claude Bremond4. Ricoeur comenta que essa sequência elementar deveria ser utilizada para que se pudesse contar qualquer coisa e dependeria, basicamente, de três fases: “uma situação abrindo para uma possibilidade, a atualização dessa possibilidade, o resultado da ação” (RICOEUR, 2010, v.2, p.69). Já Volli (2007) explica que para Bremond, “Se não há sucessão, também não há narrativa, mas somente descrição, dedução ou efusão lírica.” (VOLLI, 2007, p.113). Seria necessário generalizar ou mesmo simplificar os conceitos para que estes pudessem servir à prosa de Egan. Se pensarmos na prosa da autora como capítulos independentes ou mesmo analisar cenas isoladamente é possível aplicar as três fases de Bremond. Tomemos como exemplo o último capítulo de VGS, que se inicia com Alex na sala de Bennie tentando negociar uma oportunidade de trabalho. Há uma situação abrindo para uma possibilidade “The long awaited brunch with Bennie Salazar was winding down” (p.343). [O tão esperado almoço estava perdendo a energia] (p.304); a atualização dessa possibilidade, visto que no decorrer do capítulo percebemos que Alex e Bennie entraram em um acordo para realizar um trabalho: But Alex had promised Bennie fifty parrots to create “authentic” word of mouth for Scotty Hausmann’s first live concert, to be held in Lower Manhattan next month. (EGAN, 2010, p.350) [Mas Alex tinha prometido a Bennie 50 ‘papagaios’ para criar um autêntico ‘boca a boca’ para a primeira apresentação ao vivo de Scotty Hausmann, marcada para o mês seguinte em Manhattan]. (EGAN, 2011, p.309). Finalmente temos o resultado da ação. Os “papagaios” de Alex foram bem sucedidos e, no dia do show, uma multidão de pessoas comparece a uma região de Nova York para assistir a um músico do qual ninguém houvera falado antes: After the ninth or tenth Exchange of this kind, which happened somewhere around Washington Square, it became clear to Alex that all of these people, the parents and the kidless, the single and the coupled, gay and straight, clean and pierced, were on their way to hear Scotty Hausmann. Every single one. The discovery swept over him. 4. Claude Bremmond, Francês, estudioso de semiótica. Em seu trabalho Bremmond procurou estender a morfologia do conto maravilhoso a vários outros gêneros, inclusive ao romance.. 24.

(27) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. in a surge of disbelief, followed by a rush of ownership and power – he’d done it, Christ he was a genius at it. (EGAN, 2010, p.367) [Depois da nona ou décima conversa desse tipo, ocorrida em algum lugar próximo de Washington Square, ficou subitamente claro para Alex que todas aquelas pessoas, as que tinham filhos e as que não tinham, as solteiras e as casadas, as gays e as héteros, as limpas e as com piercing, todas estavam a caminho do show de Scott Hausmann, Todas, sem exceção. Essa descoberta o submergiu com uma vaga incredulidade seguida por uma inebriante sensação de propriedade e poder – era ele quem tinha feito aquilo, nossa, ele era um gênio.] (EGAN, 2011, p.323). Se, como acompanhamos no exemplo acima, é fácil identificar exemplos da sequência elementar dentro de um capítulo, o mesmo não se pode afirmar sobre as ações da narrativa de VGS como um todo. Como estabelecer um “desenrolar da intriga” se em um capítulo acompanhamos ações de personagem na Nova Iorque dos anos 90 e no seguinte podemos estar com outros personagens, em Mombaça, na década de 70? A tentativa de pensar a sequência de Bremmond em uma obra onde não há apenas uma história a ser contada e em que vemos personagens surgir e desaparecer sem prejuízo para a leitura pode revelar-se infrutífera. Outro ponto enfatizado por Ricoeur (2010) acerca do romance moderno é que este responde a uma demanda social – de um novo público de leitores - e que esta demanda é rapidamente mutável. Nas palavras do crítico: “O romance moderno, efetivamente, anuncia-se desde o nascimento como o gênero proteiforme por excelência (RICOEUR, 2010, v.2, p.13). É exatamente por carregar características de um gênero novo que o crítico francês argumenta não ser possível aplicar no romance o conceito de composição da intriga que era usado até então. Segundo Ricoeur, o romance deveria esquivar-se de uma concepção de intriga que era transposta do drama e da epopeia, dois gêneros já constituídos. Ao elencar alguns dos romances que escaparam à vigilância acorrentada dos críticos e censores Ricoeur nos mostra que de Shakespeare à Goethe, passando por Tolstoi, Balzac e Fielding há uma miríade de romancistas que ousaram romper os tênues limites de gênero. A forma como Jennifer Egan explora seus recursos narrativos e os procedimentos à que ela recorre para lidar com o tempo são explorados no capítulo seguinte desta dissertação e devem a maior parte de seu alicerce teórico à ampla discussão que Paul Ricoeur propôs. Embora detenhamos nosso olhar sobre os aspectos temporais de VGS, é necessário deixar claro que outras categorias narrativas terminam por fazer parte, ainda que de maneira coadjuvante, de nossa análise. A noção de voz narrativa, por exemplo, é importante especialmente devido a suas conotações temporais. Ricoeur (2010), na página 171 indaga, a. 25.

(28) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. propósito de nos fazer entender o que seria presente fictício, “Toda história narrada não é acaso passado para a voz que narra?”. De fato, como autor de discurso, o narrador é capaz de determinar o presente da enunciação. Logo, devemos levar em conta que, se alguém narra, o fato já se passou. Podemos considerar intemporal esse presente da narração se, como Käte Hamburger, admitimos apenas uma espécie de tempo, o tempo ‘real’ dos sujeitos ‘reais’ de asserções que se referem à ‘realidade’. Mas não há razão para excluir a noção de presente fictício, quando admitimos que os próprios personagens são sujeitos fictícios de pensamentos, sentimentos e discursos. [...] É esse presente fictício que atribuímos ao autor fictício do discurso, o narrador. (RICOEUR, 2010, v.2, p.170). Fica claro então que os personagens desenrolam o seu próprio tempo na ficção. Esse tempo comporta passado, presente e futuro e também os deslocamentos temporais conseguidos por meios de técnicas como o fluxo de pensamento ou prolepses. Frisamos que em vários momentos nos referiremos à voz narrativa, tão somente com o intuito de esclarecer questões temporais. Benedito Nunes corrobora com a ideia de Ricoeur (2010) ao afirmar que “cada vez que você fala com alguém é agora que você fala, e agora é o presente da enunciação” (NUNES, 2003, p. 22), este agora é que funcionaria como eixo temporal, fazendo com que os eventos se ordenassem a partir dele. Nunes destaca também que o leitor encontra este tempo presente através da marcação dos dêiticos e consegue então determinar o ponto de vista da narrativa. Quando pensa o mundo da ficção, Ricoeur o faz em contraponto com o mundo histórico, estabelecendo a relação desses dois mundos com as aporias da temporalidade. Ele nos mostra que dentro do tempo fictício há a libertação do narrador da obrigação que o narrador historiador tem, de dobrar-se aos conectores específicos da reinscrição do tempo vivido no tempo cósmico. “Personagens irreais, dir-se-á, têm uma experiência irreal do tempo.” (RICOEUR, 2010, p. 215). Quando diz irreal, está se referindo a, por exemplo, a experiência temporal do herói de ficção, que não necessita estar referenciada no ao único sistema de datação possível que há no calendário. O leitor não precisa, dentro da ficção, preocupar-se em buscar acompanhar uma cronologia que siga sucessões e sequências porque cada experiência temporal fictícia cria seu mundo, e cada um desses mundos é único, são limitações de um tempo imaginário incomparável. Essas características temporais trazem uma independência da ficção na exploração de recursos do tempo fenomenológico que precisam ser inibidos na narrativa histórica, uma vez que esta sempre lida com a preocupação de ancorar o que conta ao tempo cósmico. “A ficção,. 26.

(29) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. eu diria, é uma reserva de variações imaginativas aplicadas à temática do tempo fenomenológico e a suas aporias” (RICOEUR, 2010, p. 216). Em sua discussão intitulada “Os jogos com o tempo” (RICOEUR, 2010, v.2, p.103) o conceito de composição da intriga é enriquecido pela introdução da ideia de que a narrativa tem o poder de se desdobrar em enunciação e enunciado e o mundo do texto. No terceiro capítulo do tomo II de Tempo e Narrativa, o autor deixa claro que a enunciação corresponde ao tempo de narrar – tempo que o narrador leva para narrar algo, não importando se leva cinco páginas para narrar um pensamento ou três parágrafos para comentar acontecimentos de um ano. – já o enunciado é o próprio tempo narrado, o que foi contado de ficcional. Para o mundo do texto fica a experiência fictícia do tempo, “projetada pela conjunção/disjunção entre o tempo que se leva narrando (o tempo de narrar) e tempo narrado” (RICOEUR, 2010, v.2, p.130). De acordo com Ricoeur, os jogos entre os diversos níveis temporais são um reflexo do ato de configuração da narrativa, sendo possíveis, portanto, diversas “versões” deste jogo. Um dos recursos que permitem alterações na enunciação e no enunciado são nada mais que o uso dos tempos verbais. Em primeiro lugar, não é sem razão que, em tão grande número de línguas modernas, um mesmo termo designa o tempo e os tempos verbais, ou que as denominações diferentes atribuídas às duas ordens conservem um parentesco semântico facilmente percebido pelos locutores (é o caso, em inglês, entre tense e time; em alemão, a alternância usual entre raízes germânicas e latinas, em Zeit e Tempus, permite restabelecer sem dificuldade esse parentesco). (RICOEUR, 2010, v.2, p.125). A investigação do autor demonstrou que ainda que o sistema de tempos mude de uma língua para outra, este não se deixa derivar da experiência fenomenológica do tempo e da diferenciação intuitiva que fazemos entre presente, passado e futuro. Em outras palavras, há uma independência do uso dos tempos verbais em relação ao enunciado. O tempo verbal usado para descrever um acontecimento não é necessariamente aquele em que se encontra a ação. Chega-se rapidamente à conclusão de que o tempo verbal e a própria noção de presente não passam de ficção. Pensar a narrativa como “contar algo” implicaria, por parte do narrador, no uso do passado por excelência, mas não é o que faz a literatura. O uso dos tempos verbais está à serviço da criatividade de cada autor. Desde os que usam o tempo futuro para descrever o que um personagem pensou até presente contínuo para falar de ações já descritas anteriormente na narrativa.. 27.

(30) UMA PAUSA ANTES DO FIM: Aspectos do tempo em “A visit from the goon squad”. LAYANA CUNHA. O recurso de colocar na fala, ou mesmo no fluxo de consciência do personagem, um discurso em que diferentes tempos verbais se mesclam pode ser a pista para que o leitor decodifique a voz narrativa, capte qual foi o realce dado pelo autor à cena e seja capaz de fruir de uma melhor experiência fictícia. Ao entrar em contato com o mundo fictício o leitor concorda que existe, naquela narrativa, um outro mundo que não o seu. “É nesse mundo projetado que moram os personagens que aí realizam uma experiência do tempo, tão fictícia quanto eles, mas que não deixa de ter um mundo como horizonte.” (RICOEUR, 2010, v.2. p. 129) O fragmento a seguir mostra como Jennifer Egan soube utilizar-se deste recurso em sua obra. A voz narrativa é do personagem Rob, no único capítulo com narração em segunda pessoa – intitulado “Out of Body” (Fora do Corpo) exatamente pela sensação transmitida pela opção da segunda pessoa em detrimento da primeira. A cena conta com mais dois personagens que conversam à beira de um rio em Nova Iorque. O jogo com o tempo é perceptível na descrição da sensação que Rob tem de estar em um túnel do tempo, onde, “apenas por um segundo” ele tem outra percepção de realidade e vê a si mesmo olhando para o passado. You stand together at the river’s edge, looking out, the least patches of old snow piled at your feet. “Look at the water”, Drew says. “I wish I could swim on it.” After a minute he says, “Let’s remember this day, even when we don’t know each other anymore.” You look over Drew, squinting in the sun, and for a second the future tunnels out and away, some version of “you” at the end of it, looking back. And right then you feel it – what you’ve seen in people’s faces on the street – a swell of movement, like an undertow, rushing you toward something you can’t quite see. “Oh, we’ll know each other forever,” Bix says. “The days of losing touch are almost gone.” (EGAN, 2010, p.232) [Vocês ficam em pé na beira do rio, olhando para longe, com os últimos pedaços de neve velha empilhados a seus pés. - Olhem essa água – diz Drew. – Eu queria poder nadar nela. – Dali a um minuto, ele torna a falar. – A gente vai se lembrar deste dia mesmo quando não se conhecer mais. Você olha para Drew, apertando os olhos por causa do sol, e por um segundo o futuro é sorvido para longe por um túnel, e no final desse túnel uma versão estranha de você está olhando para trás. E é então que você sente: aquilo que viu no semblante das pessoas na rua, uma onda de movimento que parece uma maré subterrânea, impelindo você na direção de algo que não consegue ver muito bem. - Ah, a gente vai se conhecer para sempre – diz Bix. – A época em que se perdia contato praticamente acabou.] (EGAN, 2011, p.198). A autora, no trecho acima, além de valer-se da imagem icônica do túnel do tempo, também faz, na fala de Drew, alusão ao rio de Heráclito. Ao manifestar o desejo de nadar. 28.

Referências

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