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A imagem da mulher nos CD s funk 1

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Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008

A imagem da mulher nos CD’s funk 1

Edinéia Aparecida Chaves de Oliveira (UNISUL) Mulher; Funk; Identidade; Imagem

ST 48 - Corpos e identidades midiáticos: o discurso das revistas femininas (impressas, eletrônicas e digitais) em pauta

1. Introdução

A afirmação de que as mulheres venceram todos os preconceitos, quebraram barreiras e estão em todos os setores sociais, apesar de discursivamente convincente, na prática não se confirma. As mulheres ainda vivem diferentes situações de discriminação e isso não decorre de fatores biológicos e sim de fatores culturais, históricos, políticos, sociológicos e até psicológicos, fazendo com que a discriminação da mulher seja algo constante e permanente desde o princípio das civilizações em todos os setores sociais (BOFF, 2002).

Existem trabalhos que mostram essa discriminação feminina na linguagem, como Cameron (1990), Fischer (2005), Figueiredo (2004). Todos esses trabalhos mostram que o que importa não é o que a mulher é, mas como ela é representada, o que justifica analizarmos a linguagem enquanto forma discursiva e ideológica de representar. A mulher é, na maioria das vezes, representada no plano visual e lingüístico como aquela que recebe a ação ou aquela que pertence ao homem.

Dessa forma, nesse trabalho vamos nos ater à expressão da identidade feminina apresentada nas capas de Cds de músicas funk que imperam desde 2004, mostrando assim como acontece a depreciação e a inferioridade da figura da mulher nessas músicas, como essas práticas são naturalizadas e acabam se tornando o senso comum em uma comunidade. 2Para tanto, usou-se como teoria de suporte a Análise Crítica do Discurso-ACD (FAIRCLOGH, 1990, 1992, 2001, 2006), a Lingüística Sistêmica Funcional (HALLIDAY, 2004); e como metodologia de pesquisa e de análise o modelo de leitura de imagens adaptado de Kress e van Leuwen (1996), Browett (2002) e Lemke (1998).

2.Análise das capas de CDs

Atualmente, lemos o mundo através de todas as linguagens: ícones, símbolos, gráficos e desenhos. Cada vez mais a linguagem escrita, tradicional e linear, como a conhecemos, comunicadora de práticas sociais através dos mais variados tipos de discursos, cede espaço para a ‘mensagem-imagem’ – é a imagem criando/reproduzindo/comunicando valores, crenças e ideologias. Agora, vamos estabelecer um mecanismo para leitura do texto imagem sem esquecer

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que ouso de qualquer código é resultado de escolhas feitas pelo usuário/autor/emissor e ideologicamente moldadas (FAIRCLOUGH, 1992).

Nesse sentido, nos baseamos em Browett (2002) Kress e van Leuwen (1996), e Lemke (1998), organizando assim uma metodologia para olhar para a organização do texto visual, que ficou assim estruturada:

Metafunções Textos verbais Imagens

Ideacional Diz respeito à maneira como o ser humano expressa e representa a sua experiência no mundo. Quem faz o quê, a quem e em que circunstâncias.

Representacional

Indica o que nos está sendo mostrado, o que se supõe esteja “ali”, o que está acontecendo, ou quais relações estão sendo construídas entre os elementos apresentados.

Interpessoal Indica papéis sociais, crenças, atitudes e as relações Estabelecidas entre os participantes Envolvidos no evento comunicativo Orientacional

Posiciona o espectador em relação à cena bem como em relação a outros possíveis pontos de vista e imagens semelhantes da comunidade intertextual

Textual Explicita o papel desempenhado pela Linguagem no contexto comunicativo

Organizacional

Olha-se para a construção do significado, para o “sistema de relações que organizam o texto visual, elementos e regiões, aspectos tais como cores e textura".

Quadro 1: Estrutura da análise multimodal .

Fonte: adaptado de Halliday (2004), Browett (2002) e Lemke (1998).

Foram selecionados quatro CDs, um de 2005 e os outros três de 2006 (lembrando que a maioria da produção funkeira é pirata). Dois são seleções (o mais comum no mercado funk) e dois são solos, sendo um de uma cantora mulher e outro de um cantor homem. O contexto cultural dessas produções musicais é a terceira fase do Funk brasileiro, dos anos 2000 em diante, um momento onde o Funk se voltou especificamente para a sexualidade nas músicas (ESSINGER, 2005). No universo do baile funk (o contexto de situação para o qual vamos olhar) as mulheres não podem ser MCs. 1 Apenas os homens, segundo Vianna (2003, p. 88), que em seu livro “Galeras Cariocas” traz o depoimento de integrantes femininas da comunidade funk que quiseram cantar e foram convidadas a serem dançarinas. Para fazer o contraste, também analisamos a imagem do CD de um MC para contrapor as formas de representação do homem e da mulher nos mesmos espaços sociais e depois, a imagem das coletâneas. Em todos esses textos vamos perguntar como a mulher é representada no baile funk.

O que dizem as capas

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Primeiro CD: Tati Quebra Barraco (2005)

Segundo CD: O som dos morros Funk Rap Hip Hop (coletânea de cantores funk, 2006)

Terceiro e Quarto CDs : MC Marcinho: a fera do Funk (2006) e Funk Bombado. O melhor do Funk Rio/São Paulo (coletânea de cantores funk, 2006)

Quadro 2: Seleção de CDs analisados.

Quadro 3: Análise do CD Tati Quebra Barraco. 3

Quadro 4: Análise do CD : O som dos morros Funk Rap Hip Hop (2006).

Representacional A imagem foi produzida para uma gravadora, no intuito de vender a imagem da MC no Funk. O objetivo é criar associação entre a imagem da cantora e a do baile funk. É a imagem de uma mulher liberada (como ela mesma canta), com sensualidade a mostra no decote, que é comum na comunidade funk. Ela esta se apresentando aos telespectadores como uma amostra do funk.

Orientacional A imagem é construída para vender, se interessa primeiramente na comunidade local, mas também já existe certo cuidado nas roupas, pois a indústria fonológica nesse momento está interessada em vender o Funk e então não pode haver muita exposição do corpo. São mostradas duas MCs: uma no baile, distante, em preto e branco; outra próxima, colorida, fixando mais o rosto, ou seja, a tati mulher do dia a dia. É preciso mostrar a força do Funk, mas sem chocar os compradores. Organizacional São criados dois focos: um de fundo, do baile e outro mais a frente, no lado

esquerdo, onde a cantora está sorrindo e de frente. Existe entre os dois planos uma idéia de movimento, de que o plano de fundo caminhou para o plano principal mostrado, uma idéia de continuidade do baile e da significação dessa cantora. A cor vermelha de seu primeiro nome combina com o segundo-Quebra Barraco, que remete a situação das mulheres daquele contexto, situações sociais e amorosas de violência, onde a mulher precisa ser forte e muitas vezes usar uma voz masculina para se fazer ouvir.

Representacional A imagem é de um baile onde foca-se a dança erótica de um casal. Central e a frente um homem segura a mulher numa posição de trem, outras pessoas ao fundo acompanham a música. Existe muita sensualidade e os dançarinos estão suados. O baile funk é caracterizado como um espaço de balanço, de encontros amorosos.

Orientacional Os corpos aparecem como que em uma exposição, focando um casal que está em uma posição central no salão. O domínio da dança é masculino. Fica evidente o convite ao erotismo.

Organizacional O fundo do cenário é escuro, as condições do baile funk são bem representadas, à noite, a dança sensual. Até mesmo as letras do título do CD são amarelas (alegria na penumbra que é o baile) e elas estão em itálico, chegando a repetir e acompanhar o movimento do casal que está dançando no centro.

Representacional A imagem também foi produzida para uma gravadora, só que para vender a imagem masculina do MC no Funk. A imagem dele é séria, vestido com roupas características dos jovens da comunidade funk. A sensualidade que havia na cantora feminina agora é substituída pela imagem ao fundo de um corpo feminino, representando o objeto das musicas do cantor. Ao contrário da capa anterior, ele não esta se apresentando aos telespectadores como uma amostra do funk, mas como aquele que nos dá essa amostra.

Orientacional Construída para vender, a imagem traz o homem bem projetado, sério, cores neutras, estilo jovem. Olhar imperativo. O corpo feminino que lhe faz fundo é a sua aula, o que ele vai expor, o que ele vai mostrar, cantar. A relação de superioridade entre o masculino e o feminino fica bem declarada. O corpo feminino é a posse que o MC tem nas letras musicais.

Organizacional Também aqui são criados dois focos: um de fundo, do corpo de mulher de biquíni, bem sensual, cor vermelha, pele bronzeada, e o outro do cantor ao lado

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Quadro 5: Análise do CD: MC Marcinho (2006).

Quadro 6: Análise do CD: Funk Bombado. O melhor do funk Rio/São Paulo (2006).

Considerações finais

Como ficou visível nas imagens, o homem tem uma representação de voz, de ação e de identidade diferente da mulher no universo funk. Na imagem feminina, os atributos para vender são sempre o corpo, a beleza e o erotismo. Ela é mostrada como o próprio produto de venda enquanto que a personagem masculina tem posse sobre aquilo que mostra no CD. Também existe uma diferença entre o CD produzido para vender oficialmente- Tati Quebra Barraco- e os demais que são produzidos de forma pirata ou por empresários do próprio Funk. Os que são produzidos no baile ou por gravadoras que não estão na mídia não se importam tanto com o impacto da sexualidade excessiva, além de ousarem mais até nas seleções musicais.

Entender essas práticas comunicativas é o primeiro passo para produzir diferentes textos e certamente diferentes discursos. No universo escolar, pretendemos levar a análise dessas imagens juntamente com as letras das músicas e questionarmos a recepção textual desses textos por nossos jovens, enfocando principalmente o público feminino, mas este é um novo passo euma nova pesquisa. Atualmente, autores como Napolitano (2005), Herschmann (2005) e Vianna (1990, 2003) argumentam ser difícil dizer quem gosta de determinada música devido à influência que a mídia exerce sobre o mercado fonológico. Esses autores vêem a música como um produto de massa da indústria cultural, criado e influenciado pela mídia. Nesse sentido, as imagens criadas para vender essas músicas também podem passar pelas mesmas indagações. O que é real nessas representações? A mulher no Funk é assim ou é interessante economicamente que ela seja representada assim?

Referências Bibliográficas

BROWETT, J. Critical Literacy and visual texts: Windows on Culture. Impact, v.11, n.2, p. 24-29, 2002

esquerdo,uma imagem pequena mas forte. Existe entre os dois planos uma idéia de que o MC tem a imagem atrás de si para mostrar, para cantar, aquele é o conteúdo de suas músicas. As letras combinam as cores de forma ao vermelho mostrar as músicas (sensualidade) e o preto caracterizar o cantor.

Representacional A imagem central é de uma mulher morena dançando, sendo enfatizado o seu rebolado. Ela não tem rosto, está de shorts e em posição sensual. Ela é a representação do que é o Funk.

Orientacional O leitor está diante de uma dançarina, ela está se expondo, se mostrando, se exibindo como que para os telespectadores no baile. Mostra-se como um objeto de consumo.

Organizacional O fundo é escuro, sensual, enquanto que a imagem central é a do corpo feminino. O plano de construção posiciona o leitor como se ele estivesse admirando o rebolado da dançarina olhando-a de baixo. São usadas cores contrastivas. As letras ocupam as laterais de forma a não ofuscar a imagem central. 4

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BOFF, Leonardo. A nova consciencia. In: MURARO, Rose Marie; BOFF, Leonardo. Feminino e

masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

CAMERON, Deborah. (Org). The feminist critique of language: A reader. Londom: Routledge, 1990.

ESSINGER, Sílvio. Batidão: uma história do funk. Rio de Janeiro: Record, 2005. FAIRCLOUGH, Norman. Language and power. London: Longman, 1990.

_____. Discurso e mudança social. Oxford:Polity Press, 2001[1992].

_____. A analise critica do discurso e a mercantilização do discurso publico: as universidades. In : MAGALHÃES, C. (Org.) Reflexões sobre a análise crítica do discurso. Belo Horizonte: Fale:UFMG, 2001.

_____. Language and Globalization. London: Routledge, 2006.

FIGUEIREDO, Débora de Carvalho. Violência sexual e controle legal: uma análise crítica de três extratos de sentenças em caso de violência contra a mulher. Linguagem em Discurso, v.4, Número Especial, 2004.

FISCHER, Rosa Maria Bueno. Mídia e educação da mulher: modos de enunciar o feminino na TV. In: FUNCK, Susana Borneo e WILHOLZER, Nara (Orgs.). Gêneros em discurso da mídia. Florianópolis: Editora das Mulheres, 2005.

HALLIDAY, Michael Alexander Kirkwood; MATTHIESSEN, Christian. An introduction to

functional grammar. London: Edward Arnold, 2004.

HERBERLE, Viviane; OSTERMANN, Ana Cristina; FIGUEIREDO, Débora de Carvalho (Orgs.)

Linguagem e gênero no trabalho, na mídia e em outros contextos. Florianópolis: Ed. da UFSC,

2006.

HERSCHMANN, Micael. O funk e o Hip-Hop invadem a cena. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005.

KRESS, Gunther.; VAN LEWVEN Teo. Reading Images: The Grammar of Visual Design. London: Routledge. 1996.

LEMKE, Jay L. Multiplying Meaning. In: MARTIN, J.R.; VEEL, Robert. (Eds.). Reading

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NAPOLITANO, Carlos. História e Música: história cultural da música popular. 2ºed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005

VIANNA. Hermano. Funk e cultura popular carioca. Estudos históricos, Rio de Janeiro. V.3, n. 6, 1990, p. 244 a 253.

_____. Galeras Cariocas: territórios de confrontos e encontros culturais. Rio de Janeiro: Edintora UFRJ, 2003.

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1 Mestranda do Mestrado em Ciências da Linguagem-UNISUL.

2 Devido a história e à identidade do funk, a maioria dos CDs são piratas. Ver ESSINGER (2005). 3 Mestre de Cerimõnias, quem dirige o baile cantando as músicas.

Referências

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