EDITORA Darcilia Simões COMISSÃO EXECUTIVA
Flavio Garcia Cláudio Cezar Henriques EQUIPE DE DIAGRAMAÇÃO E REVISÃO
Carla Barreto Vasconcellos (EXT) Renata Gonçalves da Silva (EIC)
Viviane Souza de Oliveira (EXT) PROJETO DE CAPA
Darcilia Simões
LOGOTIPO: Rogério Coutinho CONSELHO CONSULTIVO
André Valente (UERJ-FACHA) Ângela Lopes (UniverCidade-RJ)
Carmen Lúcia Tindó (UFRJ) Claudio Cezar Henriques (UERJ-UNESA)
Darcilia Simões (UERJ) Edwiges Zaccur (UFF)
Flavio Garcia (UERJ) Flora Simonetti Coelho (UERJ)
José Luís Jobim (UERJ-UFF) José Carlos Barcellos (UERJ-UFF) Luís Flavio Sieczkowski (UniverCidade-RJ)
Magnólia B. B. do Nascimento (UFF) Maria Leny H. de Almeida (UERJ)
Maria Teresa G. Pereira (UERJ) Milton Marques Júnior (UFPe) Nícia Ribas d’Ávila (Paris VIII) Sílvio Santana Júnior (UNESP) Valderez H. G. Junqueira (UNESP)
Vilson José Leffa (UCPel-RS)
Caderno Seminal Digital – Vol 1 – Nº 2 – 1. (Jul/Dez-2004). Rio de Janeiro: Dialogarts, 2004.
ISSN 1806-9142 Irregular
1. Lingüística Aplicada - Periódicos. 2. Linguagem – Periódicos. 3. Literatura - Periódicos. I. Título: Caderno Seminal Digital. II. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Endereço para envio de trabalhos UERJ/IL- A/C Profa. Dra. Darcilia Simões R. São Francisco Xavier, 524, sala 1139-F,
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O projeto teve início em 1994 com publicações impressas. Em 2004, inaugura as produções digitais com vistas a recuperar a ritmo de suas publicações e ampliar a divulgação.
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Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 2
APRESENTAÇÃO
O Caderno Seminal tem tentado estratégias múltiplas para agilizar a circulação dos textos acadêmicos, atendendo as exigências dos órgãos de avaliação e fomento da pesquisa no país e visando a auxiliar as disciplinas e cursos de graduação e pós-graduação na oferta de material de apoio de qualidade.
Assim vem sendo a trajetória do Caderno Seminal. A despeito da demanda de artigos de excelente qualidade e da cobrança dos lançamentos por parte do público-leitor, a equipe de produção do Projeto Publicações Dialogarts, que produz o Caderno
Seminal, tem tentado driblar problemas tais como: espaço para trabalhar, máquinas,
papel para impressão, gráfica em funcionamento precário etc. Até o treinamento dos bolsistas na editoração eletrônica é realizado pelos docentes que lideram o projeto.
Para minimizar problemas relacionados à produção impressa, optou-se então pelas publicações digitais on-line. O endereço é http://www.darcilia.simoes.com, e os leitores poderão salvar os arquivos de seu interesse (formato Word), para consultas posteriores com custo zero para a clientela: autores e leitores.
Agradecemos a todos que vêm confiando em nosso trabalho e reativamos a chamada para apresentação de artigos, cujas normas se encontram disponíveis na última página de cada volume.
O critério de aceitação dos trabalhos é único: QUALIDADE!
Conclamo os colegas professores-pesquisadores e estudantes de pós-graduação (lato e stricto sensu) para que venham distribuir democraticamente suas descobertas.
Saudações Acadêmicas
Novembro, 2004 Os Editores
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 3
S
UMÁRIO
APRESENTAÇÃO ... 2
A EXPANSÃO DE SENTIDOS DO VERBO FICAR E OS MECANISMOS RESPONSÁVEIS PELA ORGANIZAÇÃO COGNITIVA DE SUAS SIGNIFICAÇÕES... 4
Roza Maria Palomanes Ribeiro... 4
A SINONÍMIA NO DICIONÁRIO ... 17
Cláudia Assad... 17
HOMENS E MULHERES DICIONARIZADAS ... 30
Manuel Ferreira da Costa ... 30
NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO: LULA E A IMAGEM PRESIDENCIAL ... 59
Fabiano Correa da Silva ... 59
O UNIVERSO LINGÜÍSTICO DE CHULA NO TERREIRO DE ELOMAR FIGUEIRA MELLO... 65
Ione Moura Moreira ... 65
POLÍTICA E ENSINO DO IDIOMA: LÍNGUA E INCLUSÃO SOCIAL... 77
Darcilia Simões & Marcio Bonin... 77
PUBLICAÇÕES CIENTÍFICAS: RELEVÂNCIA E DIFICULDADES ... 87
Darcilia Simões e Flavio García... 87
A MÚSICA E O ENSINO DO PORTUGUÊS: UM PROJETO SEMIÓTICO-SEMÂNTICO-GRAMATICAL... 99
A PRESENÇA DE ASPECTOS DA CULTURA GALEGA ... 117
SEMIÓTICA, LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS: ALTERNATIVAS METODOLÓGICAS. ... 125
Darcilia Simões ... 125
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 4
A EXPANSÃO DE SENTIDOS DO VERBO FICAR E OS
MECANISMOS RESPONSÁVEIS PELA ORGANIZAÇÃO
COGNITIVA DE SUAS SIGNIFICAÇÕES
Roza Maria Palomanes Ribeiro1 1) INTRODUÇÃO
A Lingüística Cognitiva é uma corrente teórica recente e ainda pouco conhecida no Brasil, no entanto, apesar disso constitui hoje um verdadeiro paradigma. Uma de suas principais bandeiras é a motivação semântica das estruturas gramaticais. Consiste, sobretudo, numa visão bem específica de como a linguagem é motivada pela cognição: a função cognitiva da linguagem passa a constituir o objeto de uma investigação sistemática e coerente.
Para esta corrente teórica, a existência de palavras polissêmicas demonstra existirem relações sistemáticas entre diferentes modelos cognitivos ou entre elementos de um mesmo modelo, i.e, uma mesma palavra pode ser usada para diferentes conceitos pelo fato de já formarem uma categoria dentro do sistema conceitual. Esses sentidos mantêm relações entre si por meio de processos como a metáfora e a metonímia.
A polissemia aponta para a verdadeira função do léxico, que é dar suporte à organização do sistema conceitual. O essencial no fenômeno da polissemia está no fato de os vários sentidos para a mesma palavra estarem relacionados entre si, direta ou indiretamente.
1.1. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
A elaboração deste estudo centra-se na existência de acepções para um item específico – o verbo ficar. E as concepções da Lingüística Cognitiva dão suporte teórico a este trabalho. Tais concepções são compatíveis com nossas idéias sobre o funcionamento da linguagem e a primazia do significado lingüístico: para a Lingüística Cognitiva, a questão básica é exatamente a da significatividade – expressões lingüísticas são ligadas a conceitos e modelos cognitivos do sistema conceitual, tornando-se significativas por sua ancoragem na experiência do ser. É o princípio da escassez do significante (Salomão: 1999), segundo o qual o significante apenas guia complexas operações mentais das quais resulta o trabalho da interpretação.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 5 Como é objetivo geral do presente estudo evidenciar o alcance da perspectiva cognitiva em Semântica, começamos por apresentar a Lingüística Cognitiva, expondo, resumidamente, seus princípios e fundamentos teóricos:
1) A linguagem está intimamente ligada a outros domínios cognitivos, havendo, pois, necessidade de investigação interdisciplinar;
2) A estrutura lingüística depende da conceptualização, que por sua vez, é condicionada pela experiência de mundo do falante;
3) As unidades lingüísticas estão sujeitas à categorização e são tipicamente polissêmicas.
4) A gramática é motivada por aspectos semânticos.
5) A significação de uma unidade lingüística é uma estrutura conceptual convencionalmente associada a essa unidade.
Lakoff e Langacker figuram no rol dos autores mais representativos da semântica cognitiva. A semântica lexical numa abordagem cognitiva toma, principalmente duas formas: a teoria da categorização ou do protótipo (como também é conhecida) e o papel dos modelos cognitivos baseados na experiência humana. Dos estudos de Lakoff que contribuíram para nosso trabalho destacamos categorização, efeitos de prototipicidade e tipos de protótipo; metáfora e metonímia; e polissemia e estrutura radial das categorias. De Langacker retiramos as noções de perspectiva, escopo e recorte.
O conceito de “semelhança por familiaridade”, muito citado em nossa análise, foi extraído de Wittgenstein (1953) e significa que os elementos de uma categoria se associam entre si na base de similaridades parciais, i.e., cada elemento pode partilhar 1 propriedade com um outro, sem ser necessário haver sequer 1 única propriedade comum a todos os elementos.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 6 Lakoff (1987) apresenta a Lingüística Cognitiva, contrapondo-a ao Realismo Objetivista que concebe a relação linguagem/conhecimento de um pretenso modo correto e único de captar o que existe na realidade, sem levar em conta as características do organismo humano. Essa perspectiva objetivista está especialmente vinculada à Teoria Clássica da categorização, segundo a qual as categorias existem efetivamente, sendo determinadas por um conjunto de propriedades objetivamente partilhadas por seus membros, que seriam condições necessárias e suficientes para a sua definição classificação.
São temas de especial interesse da Lingüística Cognitiva as características estruturais da categorização lingüística, como, por exemplo, a polissemia.
A Lingüística Cognitiva considera a polissemia um fenômeno esperável, resultante dos processos de motivação cognitiva, como a metáfora e a metonímia. Esses são dois importantes processos cognitivos que, no nível lexical, são responsáveis por estender semanticamente os itens lexicais a outros significados. A Lingüística Cognitiva atribui a eles uma função cognitiva, concebendo-os como um recurso que a linguagem possui a seu alcance como dispositivo de expressão. A metáfora, assim, é admitida como um processo cognitivo que se baseia numa relação de similaridade, enquanto a metonímia é baseada numa relação de contigüidade.
METODOLOGIA UTILIZADA
O primeiro passo do trabalho foi verificar as acepções do verbo ficar presentes no corpus Discurso & Gramática – seção Rio de Janeiro. Embora o corpus apresente a produção oral e escrita de informantes de 1°, 2° e 3°graus de escolaridade e de CA supletivo e infantil, só nos interessou utilizar a produção oral dos informantes com 1º, 2º e 3º graus de escolaridade.
Analisamos a fala de 68 informantes do corpus. 33 são alunos da 4ª série do 1º grau, 12 dos informantes são alunos da oitava série do 1º grau, 15 são do 2º grau e 8 de 3º grau.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 7 Escolhemos a modalidade oral por representar um discurso próximo do espontâneo e não-planejado, e tais níveis de escolaridade, por serem mais adequados aos nossos propósitos, já que buscamos dados que nos parecem mais comuns entre informantes pré-adolescentes a adultos jovens. Essa escolha nos permite um levantamento das variadas acepções do verbo ficar, sobretudo no que se refere aos usos novos, que são mais detectados na linguagem oral dos informantes com esse perfil.
2) RESULTADOS ANALÍTICOS
Fundamentados nas concepções da Lingüística Cognitiva, procuramos detectar que relações unem as diversas acepções que o verbo ficar apresenta. Após um levantamento das acepções do verbo no corpus2, foi feita uma divisão de acordo com as
especificidades de cada acepção como demonstrado a seguir. Para facilitar a análise das diversas acepções do verbo ficar, fizemos uma divisão das acepções encontradas no
corpus em grupos menores, que abarcam conjuntos de sentido que apresentam, por um
lado, traços comuns entre si e, por outro, traços que os diferenciam dos demais grupos. O Quadro a seguir sintetiza os grupos de sentidos encontrados:
GRUPO DE SENTIDOS
CARACTERÍSTICAS DO GRUPO ACEPÇÕES
1
Indica idéia de permanência:
a) no espaço: com valor essencialmente de verbo estático.
Acepção 1 (estacionar em algum lugar; não sair dele; permanecer),
(1) sueca é divertido por causa disso... né? uma dupla perde... aí entra outra... e... sempre fica::/ eu sempre fico na mesa... porque eu sempre ganho no jogo
Acepção 2 (estar situado),
(2) a televisão fica assim num canto em cima... aí tem o som também que fica embaixo da televisão...
Acepção 3 (restar; sobrar),
(3) aí... entrou falando... né? de... de criação... eh... eh... “que Deus tinha criado a mulher... que é pra... procriar...” eu falei “pô... se ele não tivesse criado o
2 Corpus
Discurso & Gramática – seção Rio de Janeiro( UFRJ): produção oral de 68 informantes de 1°, 2° e 3°graus de escolaridade (33 alunos da 4ª série do 1º grau, 12 da oitava série do 1º grau, 15 do 2º grau e 8 de 3º grau).
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 8 b) no tempo;
c) em relação a domínios mais abstratos
homem também não tinha ((riso)) não tinha adiantado nada...” entendeu? e inclusive tinha uma garota na roda falando aqui assim... eh... “você não vê aí... já pensou se o mundo fosse” eh... “se... ficasse só as mulheres no mundo?
Acepção 4 (não ir além de)
(4) foi interessante o que aconteceu comigo num tempo atrás... mas também foi triste... numa parte foi triste... interessante porque... eu:: eu tenho dois filhos... a minha mais velha está com seis anos... e eu não pretendia ter mais filhos... entendeu? era só ela e ia ficar só nela... Acepção 5 (permanecer ou continuar em determinada disposição de espírito ou situação)
(5) ... aí você começa a ganhar bem... aí você pára e fala assim “não... estou bem pra caramba...” aí... fica naquilo a vida inteira...
2
Indica mudança de estado. Pode apresentar valor de tornar-se, vir a estar em determinado estado ou situação.
Acepção 6: (6) Quando é que você vai defender sua dissertação e ficar mestre? (exemplo nosso)
3
Trata-se de um sentido diferente dos demais, por isso é observado separadamente: seu novo uso significa “namoro descompromissado”,
Acepção 7: (7) ele pegou e saiu com ela... ficou com ela... namorando ela..aquilo pra mim foi um choque..foi uma desilusão
Vejamos, com mais detalhes, as diferenças entre os grupos de sentidos e as
várias acepções que os compõem. a) Grupo de Sentidos 1:
O grupo de sentidos 1 é caracterizado pela idéia de permanência e engloba o sentido básico espacial (permanência em um determinado espaço físico) e as acepções que implicam extensões metafóricas desse sentido básico, indicando um continuum de abstratização que vai do domínio do espaço para o tempo e, daí, para domínios mais abstratos.
A esse respeito é interessante mencionar a análise de Lakoff e Turner (1989), segundo a qual a metáfora estados são localizações constitui um elemento básico para a estrutura da cognição humana. Vejamos um exemplo de cada um desses três níveis:
(8).a televisão fica assim num canto em cima... aí tem o som também que fica embaixo da televisão... (espaço)
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 9 (10) ... aí você começa a ganhar bem... aí você pára e fala assim “não... estou bem pra caramba...” aí... fica naquilo a vida inteira... entendeu? (domínios mais abstratos)
Entretanto, os três níveis que compõem o grupo de sentidos 1 até aqui apresentados parecem não dar conta de todas as nuances semânticas que caracterizam a polissemia de ficar. Vejamos, por exemplo, o trecho abaixo:
(11) meu quarto assim é::... o lugar onde é que eu mais gosto de ficar... é um quarto comum... vou descrever pra você... você pediu para eu descrever... né? é um quarto de pi::so ((riso)) antes era uma cama beliche... aí meu irmão mais velho casou... eu tirei a cama beliche... ficou com a cama de baixo...
Nesse caso, ao lado da noção de permanência, que se caracteriza pelo fato de o móvel permanecer no local, existe a idéia de que essa permanência é o resultado de o falante ter tirado a cama beliche. Em outras palavras, o verbo ficar parece absorver um sentido de conseqüência ou de resultado de uma atividade precedente, que nos contextos anteriores não apresentava. Observe outro exemplo retirado do corpus:
(12) você pega uma outra folha inteira... dobra no meio... aí você pega uma outra folha... corta uns pedacinhos pequenininhos... e cola no telhado... para prender na casa... nas paredes da casa... aí fica uma casa...
Estamos chamando esse valor de ficar de sentido resultativo, já que expressa a conseqüência de algo anterior. O termo foi retirado de Travaglia (1994), para quem a noção de resultatividade constitui uma noção não aspectual geralmente ligada ao aspecto verbal que, entre outros valores, indica o estado resultante de uma situação dinâmica que ainda não se concluiu.
Para compreendermos esse uso de ficar, devemos nos reportar às noções de perspectiva, escopo e recorte (Langacker: 1987), que são de grande importância no que diz respeito ao modo como o falante constrói uma determinada situação ou cena. Salomão (1990) chama atenção para a importância do papel que a perspectivação desempenha na estruturação semântica da linguagem humana. O conceito de perspectiva é central para a teoria dos frames semânticos, já que categorias lingüísticas são vistas como indicações de estruturas cognitivas, impondo a elas um recorte seletivo.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 10 Percebemos que, no exemplo dado, a idéia de permanência está presente, mas o falante parece ampliar o escopo da cena, deixando de recortar apenas a permanência do objeto em um local ou situação, passando a relacionar essa permanência com uma situação anterior que a proporcionou. Estamos compreendendo escopo no sentido de Langacker (1987), que propõe que o escopo de uma predicação é definido pelas porções de uma cena que ela efetivamente inclui.
Processo análogo acontece em casos como o exemplificado abaixo:
(13) sueca é divertido por causa disso... né? uma dupla perde... aí entra outra... e... sempre fica::/ eu sempre fico na mesa... porque eu sempre ganho no jogo...
Novamente a idéia de permanência é clara, mas o verbo parece implicar uma expectativa de término do estado. Ficar aqui tem um valor de “não sair”, dentro de uma convenção de que quem ganha continua no jogo e quem perde sai. Novamente o falante abre o escopo da cena para incluir o movimento de saída, fazendo-o parte do quadro que está querendo construir acerca do jogo de cartas chamado sueca. Estamos chamando de
sentido progressivo esse uso de ficar. O termo progressivo não deve aqui ser
compreendido como tendo valor de cursividade ou desenvolvimento gradual, como normalmente acontece nos estudos sobre aspecto verbal, mas com apresentando um valor de progressão, ou de algo que olha para frente e tende a avançar.
Assim, no quadro a seguir se podem ver as acepções de ficar relacionadas ao Grupo de sentidos 1 que se apresentam como extensões metonímicas associadas a um movimento, predominando, nelas, o valor estático, sendo distinto o foco dado ao momento que antecede ou sucede o movimento que levou o ser àquela condição de permanência. Observe: Grupo de sentidos 1 resultativo progressivo Foco na cena estática, levando-se
em conta o movimento que antecede a situação por se tratar de uma acepção que indica o resultado de algum tipo de operação desempenhada anteriormente:
Ex: (14) aí meu irmão mais velho casou... eu tirei a cama beliche... ficou com a cama de baixo...
Foco na cena estática:
Ex: (15) ... eu gosto de ficar no meu quarto... né? lá tem... a cama que fica encostada na parede... do lado da cama tem uma mesinha desse tipo de mesinha de cabeceira... né?
Foco na cena estática, levando-se em conta o movimento seguinte que levará a situação a um término de alguma forma esperado:
Ex: (16) sueca é divertido por causa disso... né? uma dupla perde... aí entra outra... e... sempre fica::/ eu sempre fico na mesa... porque eu sempre ganho no jogo...
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 11 O quadro esquemático acima permite que se veja entre esses usos uma relação metonímica, desde que se compreenda, com Lakoff e Turner (1989), que esse tipo de relação se dá entre um elemento de um esquema e o esquema como um todo, ou entre elementos do mesmo esquema. Nesse sentido, pode-se observar, no quadro acima, um esquema de movimento, segundo o qual a idéia de permanência em um local ou estado é apenas um estágio de um movimento maior, podendo implicar um deslocamento anterior em direção a esse local ou estado e, por outro lado, um deslocamento posterior de afastamento em relação a esse local ou estado. Dentro dessa perspectiva, a relação entre permanência e aproximação/ afastamento em relação a esse local ou estado é metonímica. O interessante dessa visão é que ela passa um quadro dinâmico da referência (Langacker: 1987), já que o ato de permanecer é normalmente parte de um processo maior.
b) Grupo de Sentidos 2 (Verbo de processo):
O chamado grupo de sentidos 2 é constituído basicamente pela acepção de
tornar-se, vir a estar em determinada condição, indicando, portanto, uma mudança de
estado.Eis abaixo um exemplo dessa acepção:
(17) aí eu falei assim “como é que é a cachoeira? ela é assustadora?” ele falou assim “é por causa que todo mundo diz... que tem... um homem que morreu lá... um homem que/ ele passava limão... pra poder ficar deformado...”
Interessante ressaltar que, nesse contexto, o verbo ficar, por expressar a idéia de mudança de estado, está diretamente relacionado com o sentido resultativo, apresentado no grupo de sentidos 1. Observe o exemplo abaixo:
(18) ... já pensou se o mundo fosse” eh... “se... ficasse só as mulheres no mundo?
Acreditamos que a acepção tornar-se (mudança de estado) obteve do sentido resultativo, a idéia de “vir a estar em determinada condição como resultado de um processo de mudança de estado” através de um processo metonímico por tratar-se de um conceito individual com parte de um todo. Além disso, na conceptualização do sentido de tornar-se funcionou um princípio metonímico geral do tipo causa-efeito.
Foi observado, também, que, como verbo de mudança de estado, o ficar somente pode ocorrer através da combinação com um “atributo”, funcionando como verbo relacional, como ilustrado a seguir:
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 12 (19)... no meu modo de ver... falando de novo... não fica assustada não... porque eu tenho mania muito de falar “no meu modo de ver... no meu modo de pensar...” sabe? minha mãe costuma até falar que eu sou... meio assim... meio político..
(20) meu pai estava andando... ele morava no outro lado da Penha... e:: ele estava passando por... por baixo da pa... da passagem subterrânea do trem... aí dois caras... um escuro alto... forte e um branco também alto... forte... esbarraram nele... e ele anda com aquelas capangas... aí:: a capanga caiu no chão... abriu... os documentos... Dinheiro ficou tudo espalhado no chão... e eu/ ele abaixou pra...catar os documentos...quando ele abaixou... os caras falaram que era um assalto... aí pegaram o dinheiro..
c) Grupos de Sentidos 3:
A respeito do sentido 3, pode-se dizer que se trata de um sentido de caráter metafórico, que, possivelmente, se originou da transposição a um campo semântico específico da idéia de duração limitada ou ilimitada associada ao verbo ficar, ou seja, o domínio semântico que se mostrou particularmente propício a essa metaforização é o da duração. A opção pelo verbo ficar em lugar de namorar pode dever-se ao ponto de vista do qual o locutor considera a atividade que, neste caso, parece ser observada quanto à
duração, apesar de já se apresentar com algumas nuances que diferenciam o uso atual
de seu uso primeiro. Observe os exemplos a seguir retirados o corpus:
(21) uma amiga minha me contou... que foi uma viagem que a gente fez... e:: a gente viajou com... com/ eram/ tinham doze pessoas na casa... e um deles era filho de um deputado... tá? e/ só que ela... ela... ela::... tipo... estava nam/ começou a namo/ namorou não... ficou com o cara lá no carnaval
(22) ficou com ela... namorou e tudo... ela estava super feliz... super apaixonada... aí depois... ele foi... brigou com ela... depois de um mês de namoro... ele brigou com ela...
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 13 Como é difícil apresentar a origem específica desse novo uso, pois se trata de um estudo sobre o qual não se encontra material bibliográfico para consulta e pesquisa que auxiliem na corroboração das hipóteses levantadas, aventamos algumas possibilidades que possam ter levado ao surgimento desse sentido novo. A busca da expressão nova para uma situação nova motivou essa extensão semântica. A opção pelo ficar em lugar de namorar pode dever-se basicamente a dois fatos: em primeiro lugar, ficar, nesse contexto, constitui um sentido mais neutro do que namorar, noivar, casar ou transar, que já estão institucionalizados como representativos de situações de relacionamento estabelecidos socialmente. Isso faz do ficar uma oposição ao demais verbos citados; o termo que representa bem a realidade nova e menos compromissada que surge entre os jovens, refletores de uma sociedade de consumo em que maior status detém aquele que consome mais, buscando sempre estar “na moda”; jovens que crescem dentro de uma realidade em que as coisas não são feitas para durar muito, até mesmo para se estimular um maior consumo.
Mas por que se optou pelo verbo ficar para se expressar essa nova situação? Em nossa análise, isto se deve ao fato de o verbo ficar criar uma expectativa de término de estado, o que é perfeito para se expressar essa nova forma de relacionamento que pelo menor compromisso que implica, tende a não durar muito tempo. Aqui encontramos uma outra relação de semelhança por familiaridade entre esta acepção e o sentido progressivo apresentado no grupo de sentidos 1.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As principais conclusões a que chegamos versam sobre a comprovação da polissemia do verbo ficar, ou seja, sobre a extensão de seus usos marcada por processos metafóricos e metonímicos que o caracterizam como verbo pleno e auxiliar. Detectamos ser difícil tratar do fenômeno da significação, captar e especificar as propriedades dos contextos em que o ficar é empregado em cada uma das acepções encontradas no
corpus, selecionar que parâmetros permitem diferenciá-las, decidir sobre que tipos e
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 14 Porém, a comprovação, não só da existência, mas também da essencialidade da polissemia lexical, particularmente na visão defendida pela Lingüística Cognitiva, permitiu perceber que as acepções se relacionam através da semelhança por familiaridade. Com base nos comportamentos sintático-semânticos de ficar discutidos neste trabalho, corrobora-se nossa visão inicial de considerar o ficar um verbo polissêmico, uma vez que seus usos têm a mesma origem e não se distanciam no sentido, podendo-se perceber traços comuns entre eles.
Pôde-se perceber a existência, pelo menos parcial, de uma estrutura básica e do domínio que ela representa, surgindo, daí, outros empregos de ficar. Estes empregos compõem estruturas que, na escala de gramaticalização, vão do menos ao mais gramaticalizado, manifestando certas nuanças semânticas que os inter-relacionam.
Das entrevistas usadas como corpus do trabalho, foram recolhidos 298 dados em que o verbo ficar aparece como pleno. Como foi visto no capítulo que trata da análise do verbo, foi feita uma divisão em 3 grupos menores. Após agruparmos as acepções que expressam a idéia de permanência, englobando o sentido básico espacial (permanência em um determinado espaço físico) e as acepções que implicam extensões metafóricas desse sentido básico, ou seja, indo do domínio do espaço para o tempo e, daí, para domínios mais abstratos, relacionados a situações da vida, percebemos que os três níveis que compõem o grupo de sentidos 1 não dão conta de todas as nuances semânticas que caracterizam a polissemia de ficar. Chegamos, então, a uma conclusão importante e, por assim, a contribuição do nosso estudo: as acepções de ficar relacionadas ao Grupo de sentidos 1 se apresentam como extensões metonímicas associadas a um movimento, predominando, nelas, o valor estático, sendo distinto o foco dado ao momento antecedente ou precedente do movimento que levou o ser àquela condição de permanência. Utilizamos, para chegar a essa conclusões, as noções de perspectiva, escopo e recorte de Langacker, que dizem respeito ao modo como o falante constrói uma determinada situação ou cena, i.e, o falante deixa de recortar apenas a permanência do objeto em um local ou situação e abre o escopo da cena para incluir os movimentos de chegada ou saída, fazendo-os parte do quadro que está querendo construir. Assim, defendemos que a idéia de permanência em um local ou estado que o ficar expressa neste contexto é apenas um estágio de um movimento maior, podendo implicar um deslocamento anterior em direção a esse local ou estado e, por outro lado, um deslocamento posterior de afastamento em relação a esse local ou estado.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 15 Com relação ao Grupo de sentidos 2 em que o ficar apresenta-se como verbo de processo, indicando mudança de estado, concluímos que, através de um processo metonímico, esta acepção obteve do sentido resultativo do grupo de sentidos 1, a idéia de “vir a estar em determinada condição como resultado de um processo de mudança de estado”, i.e., indica o resultado de uma operação desempenhada anteriormente. Ficar triste pressupõe que algo o levou a esta condição.
Vale ainda comentar, por ser relevante para a compreensão da natureza das extensões de sentido do ficar, que a metáfora está presente em praticamente todas as acepções do verbo. Também vimos que, em vez de recursos meramente estilísticos, como são vistas na literatura tradicional, metáforas apresentam-se como instrumentos de compreensão de situações de experiência, permitindo que tais situações compreendidas por analogia a outras. Um tipo de acepção metafórica em que se pode ver a influência que as situações que uma palavra é usada para representar têm no sentido que tal palavra vai adquirindo é a acepção 7 (namoro descompromissado), ou seja, essa acepção especializada para uma situação bastante particular parece demonstrar que o uso dos recursos expressivos já disponíveis para a representação de novas situações é estendido. Uma das propostas deste trabalho é defender a gramaticalização do verbo ficar. Encontramos no corpus dados que nos permitem tal defesa. Certas estruturações de que participa o ficar, em certos contextos, contêm acepções semânticas distintas, mais ou menos gramaticalizadas. Observou-se que o ficar apresenta níveis de gramaticalização: o ficar pleno com comportamento primordialmente lexical, o ficar funcional com comportamento léxico-gramatical, até chegar ao ficar auxiliar com comportamento gramatical.
No caso específico da gramaticalização do verbo ficar, questões metonímicas se mostraram particularmente importantes. Por isso mesmo, quando tratamos dos casos de gramaticalização, mencionamos mais os processos metonímicos do que os metafóricos.
A metonímia foi vista, neste trabalho, como um processo fundamental de extensão de sentido, permitindo que se estabelecessem conexões entre entidades que co-ocorrem numa determinada estrutura conceptual. Dentro de uma visão mais estrutural, compreendemos que a transferência metonímica é um mecanismo que predomina na mudança por gramaticalização. Esta constitui um processo estrutural de mudança de sentido.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 16 Alcançou-se, portanto, o fim deste estudo com o seguinte resultado concreto: o ficar é um verbo polissêmico e certas estruturações de que participa, em certos contextos, contêm acepções semânticas distintas, mais ou menos gramaticalizadas. E baseados na certeza de que todo conhecimento científico pode (ou deve) ser repensado e reconstruído, não é dada por encerrada a discussão em torno da polissemia do verbo
ficar.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
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A SINONÍMIA NO DICIONÁRIO
Cláudia Assad*
0. INTRODUÇÃO
Atente-se para as definições abaixo:
Sinônimo – São sinônimas as palavras com aproximadamente o mesmo sentido, e com formas diferentes. É a definição lato sensu de sinonímia: ela permite, principalmente aos dicionários, fornecer listas bastante longas de palavras que podem, em certos contextos, substituir-se umas às outras. Em teoria semântica moderna, duas unidades não são sinônimas a não ser que tenham o mesmo sentido estrutural definido por meio de uma análise rigorosa. (Dubois, 1973). (Grifo meu).
Sinônimo – [Do gr. Synónymon, pelo lat. tard. Synonymon.] Adj. 1. E. Ling. Diz-se de palavra ou locução que tem a mesma ou quase a mesma significação que outra. S.m. 2. E. Ling. Palavra ou expressão sinônima de outra: dicionário de sinônimos. [Antôn.: antônimo. Cf. parônimo e homônimo.] (...). (Aurélio, 1999). (Grifo meu).
Sinônimo - adjetivo e substantivo masculino - 1 Rubrica: lingüística. - sema diz-se de ou palavra que tem com outra uma semelhança de significação que permite que uma seja escolhida pela outra em alguns contextos, sem alterar a significação literal da sentença (...). (Houaiss, 2001). (Grifo meu).
Se observarmos atentamente as definições acima, veremos que o termo mais apropriado para designar os “sinônimos” é “quase-sinônimos”, já que não existem sinônimos perfeitos. O princípio de economia lingüística nos fala que nenhuma palavra da língua existe à toa; logo, não pode haver duas palavras de mesmo sentido, já que tal fato violaria o princípio, pois se isso acontecesse, pelo menos uma, das duas palavras, estaria "a mais". Além disso, há que se considerar o contexto: para que duas palavras tenham o mesmo sentido (definição tradicional de sinonímia), isto deverá ocorrer em qualquer contexto para que se possa empregar uma pela outra, o que, de um modo geral, não ocorre.
Comparem-se os seguintes pares de palavras: Seco e enxuto
Calvo e careca Beber e tomar
Oftalmologista e médico de vista
Uma roupa seca é o mesmo que uma roupa enxuta, mas e quanto a uma senhora “seca” e uma “enxuta”? Do mesmo modo, “calvo” será usado em um tratado de dermatologia, mas não “careca”. Podemos beber e tomar o vinho, o leite e a água, mas o que dizer da sopa, do sorvete, do banho? Da mesma forma, uma pessoa com instrução rudimentar, não vai falar “oftalmologista”, mas “médico de vista”, o que mostra que o uso também é responsável pela especificidade de sentido conferida às palavras. As palavras que julgamos sinônimas sempre se especializam de algum modo, seja pelo contexto, seja pelo uso; e por esse motivo mesmo, devemos ter cuidado, pois não podemos substituir aleatoriamente uma palavra pela outra sem corrermos o sério risco de prejudicar o sentido daquilo que, efetivamente, queremos expressar.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 18 Este trabalho tem por objetivo analisar a sinonímia no dicionário, ou seja, como as palavras ditas “sinônimas” são tratadas ali, bem como fazer uma análise comparativa entre os três dicionários escolhidos, no que tange ao tratamento dado por cada um ao fenômeno da sinonímia.
Para realizar este objetivo, foi escolhido um corpus de 30 palavras, extraídas de três dicionários, a saber: Houaiss (2001), Aurélio (1999) e Caldas Aulete (1964).
Tendo sido feita a seleção do corpus, as seguintes perguntas se apresentam: De que modo o dicionário faz referência à sinonímia?
As palavras escolhidas atendem ao esquema proposto por W. E. Collinson e Macaulay (In: Ullmann, 1964)?
As palavras escolhidas atendem ao critério da relação entre hiperônimos, hipônimos e sinônimos proposto por Lyons (1979)?
Existem lacunas no tratamento dado pelo dicionário às palavras sinônimas?
Para responder a estas perguntas, esta pesquisa foi delineada, com os procedimentos que se seguem:
Análise da teoria sobre a sinonímia proposta por W. E. Collinson e Macaulay (In: Ullmann, 1964).
Análise da teoria sobre a sinonímia proposta por J. Lyons (1979), particularmente, no que se refere à relação entre hiperonímia, hiponímia e sinonímia.
Escolha de palavras que podem enquadrar-se nos critérios propostos em Ullmann (1964) e Lyons (1979).
Análise comparativa dos três dicionários escolhidos, no que se refere ao modo como cada um trata o fenômeno da sinonímia.
Conclusão do estudo: tentativa final de atingir o objetivo proposto e as conexões necessárias e possíveis entre os principais aspectos teóricos abordados para tal fim.
1. A Sinonímia em Ullmann
Embora não negue a possibilidade de uma sinonímia completa (nas nomenclaturas técnicas, por exemplo), Ullmann (1964: 294 - 295) afirma-nos que não há sinônimos perfeitos e faz referência a um esquema proposto, em nove itens, por W. E. Collinson para explicar as diferenças mais comuns entre sinônimos, que reproduziremos aqui, sendo que o faremos com exemplos extraídos da língua portuguesa:
1) Um termo é mais geral que outro.
Vamos exemplificar primeiramente com os substantivos “tarefa” e “função” e com os verbos “executar” e “desempenhar”. Comparem-se as frases abaixo:
a) "João executa suas tarefas com rapidez" ou "João desempenha suas tarefas com rapidez"?
b) "Pedro executa suas funções com eficiência" ou "Pedro desempenha suas funções com eficiência"?
Na verdade, João executa tarefas e Pedro desempenha funções.
Convém notar que os vocábulos "executar" e "tarefas" possuem, ambos, presença do traço "Pontual"; assim, temos que "executar" = "+ Pontual" ou "+ P" e "tarefas" também igual a "+ Pontual" ou "+ P".
Por outro lado, os vocábulos "desempenhar" e "funções" possuem, ambos, presença do traço "Durativo"; assim, temos que "desempenhar" = "+ Durativo" ou "+ D" e "funções" também igual a "+ Durativo" ou "+ D".
Para que possamos entender o que significam esses dois traços (Pontual e Durativo), vamos tomar como exemplo o verbo "caçar" e criar um contexto; desse modo, posso dizer "ontem cacei na floresta" e "eu caçava naquela floresta"; a primeira frase mostra-nos que o ato de caçar ocorreu uma única vez, em tempo pretérito, e já foi encerrado, ou seja, eu cacei ontem na floresta, mas isto aconteceu ontem, pois hoje eu vou pescar. Já a segunda frase mostra-nos o ato de caçar como algo que ocorreu muitas vezes em um tempo pretérito e, por esse motivo mesmo, pode-se afirmar que, em tal contexto, o ato de caçar reveste-se de uma certa duração no tempo, de uma certa freqüência, fato esse que lhe outorga a presença do traço "Durativo", ao contrário do item anterior, em que o traço presente é o "Pontual", justamente por não estar o ato de caçar revestido de uma certa duração no tempo.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 19 Se tomarmos os vocábulos "tarefa" e "função", observaremos que dentro de uma mesma função podem ser executadas várias tarefas, o que indica ser o vocábulo "função" de uma amplitude maior que o vocábulo "tarefa". Com efeito, mesmo que a tarefa a ser executada dure um dia inteiro, ao seu término, outra tarefa terá lugar, sem que, com isso, a função seja modificada; na verdade, a função permanece a mesma, daí a diferença na atribuição dos traços, fato esse que ocorre, igualmente, com os verbos "executar" e "desempenhar", o que justifica a combinação apropriada de traços: tarefas são executadas e funções, desempenhadas.
Vejamos agora os verbos “ter” e “possuir” nas frases abaixo: Maria possui olhos verdes. (Possuir = "+ Comercializável"). Maria tem olhos verdes. (Ter = “Comercializável”).
Note-se que o verbo "ter" tem o traço "comercializável" não-especificado, o que significa dizer que o referido traço pode estar presente ou ausente, dependendo do vocábulo em questão; já o verbo "possuir" tem presença do traço "comercializável", o que nos leva a concluir que a frase "Maria possui olhos verdes" comporta uma inadequação ou impropriedade vocabular, já que os olhos não são passíveis de comercialização.
Há que se considerar que o verbo "ter" é hiperônimo do verbo "possuir", logo, posso dizer que "tenho uma caneta esferográfica" ou "possuo uma caneta esferográfica", mas "tenho cabelos negros", e não: "possuo cabelos negros".
2) Um termo é mais intenso que outro.
Vejamos os verbos “repudiar” e “recusar”; no caso do primeiro, temos, de fato, uma carga semântica mais forte, já que implica uma rejeição, o que necessariamente não ocorre com o segundo, pois podemos recusar delicadamente um convite, por exemplo, não por rejeição, mas por absoluta impossibilidade de atendê-lo.
“Assassinar” também é mais intenso do que “matar”; o impacto de uma notícia como “O executivo X foi assassinado ontem de madrugada.” é bem maior que “O executivo X foi encontrado morto.”, por exemplo, até porque, o fato de estar morto não quer dizer necessariamente que foi assassinado. Acrescentem-se aqui os diferentes usos desses dois verbos em contextos variados; se entra uma barata voadora em nossa casa, não gritamos “assassina a barata!”, mas “mata, mata!”.
3) Um termo é mais emotivo que outro.
Um exemplo claro são os eufemismos, que, ressalte-se, enquadram-se também no segundo critério proposto por Collinson. Não é por acaso que, em determinadas situações, buscamos utilizar as “melhores” palavras para não ferir a susceptibilidade alheia. O substantivo “câncer”, por exemplo, é portador de forte carga emocional, de modo que é comum substituí-lo por “doença ruim”. Caberia ainda aqui um exemplo curioso divulgado na Internet, em um desses manuais destinados à defesa pessoal das mulheres: diante de um estupro iminente, aconselha-se que a vítima, em lugar de gritar por “socorro!”, grite “fogo!”, pois, dificilmente será socorrida se gritar por “socorro!”, já que as pessoas temem a violência desenfreada que se estabeleceu nas grandes metrópoles; já a palavra “fogo!” não despertaria o medo da violência e as chances de socorro seriam maiores. Curiosamente, duas palavras bem diferentes (mesmo que estejam no mesmo campo associativo) acabam por se tornar sinônimas.
4) Um termo pode implicar aprovação ou censura moral enquanto que o outro é neutro. Trata-se, na verdade, de um outro modo para definir o eufemismo, já que sua característica principal é justamente a substituição de um termo “pesado” e, dependendo do contexto, censurável, por um que seja “neutro”; assim, podemos citar como exemplo o sintagma “capitalismo selvagem”, susceptível à desaprovação, e um substituto “neutro”, como, por exemplo, o sintagma “livre empresa”. Da mesma maneira, um adjetivo como “leproso”, que certamente provocaria uma censura por parte do ouvinte, deveria ser substituído por “hanseniano”, que é mais “neutro”.
5) Um termo é mais profissional que outro.
Usamos os termos ditos “profissionais” de acordo com o tipo de leitor / ouvinte; assim ocorre, por exemplo, com “cefaléia” e “dor de cabeça”; desse modo, um médico conversando com outro dirá “cefaléia” para designar um dos sintomas do paciente; já para o paciente, o termo mais apropriado será “dor de cabeça”.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 20 6) Um termo é mais literário que outro.
Podemos citar aqui o substantivo “passamento” e a lexia complexa “a indesejada das gentes” (eufemismo) em oposição a “morte”, por exemplo; assim também, termos como “nau” e “navio”, entre outros.
7) Um termo é mais coloquial que outro.
As gírias são um exemplo claro; assim, “estou um bagaço” e “estou cansado”. Comparemos os quatro substantivos que se seguem: “semblante”, “rosto / face” e “cara”, respectivamente, formal, neutros e coloquial; não obstante serem considerados sinônimos, esses substantivos têm usos muito diferentes, senão vejamos: um sujeito que ameaça outro não diz “vou dar um soco no teu semblante” (mas “na tua cara”); lavamos o rosto e não a face e dizemos que um bebê tem a face rosada; do mesmo modo, um adulto pode ter um semblante melancólico e o rosto pálido, entre outros usos. Acrescente-se que o binômio “rosto – face” enquadra-se ainda na primeira diferença descrita, já que a face fica no rosto.
8) Um termo é mais local ou dialetal que outro.
Há muitos exemplos para esta diferença; assim, dizemos, no Rio, por exemplo, “biscoito”, ao passo que em São Paulo usa-se o substantivo “bolacha”; do mesmo modo, dizemos “sinal”, no Rio, e “farol”, em São Paulo. O substantivo “macaxeira”, em Recife, é “aipim”, no Rio; o mesmo se dá entre os diferentes países que falam português: dizemos “elefanta”, no Brasil, e “aliá”, em alguns países do continente africano. Até dentro do mesmo Estado, há diferenças; assim, usamos no Rio (Capital) o substantivo “janela” em oposição a “jinela” em alguns municípios do interior.
9) Um dos sinônimos pertence à linguagem infantil.
Com freqüência, uma única palavra no vocabulário infantil tem mais de um sentido em seu correspondente adulto; assim, temos que “papá” pode significar “papai” e “alimento”, entre outras palavras.
Ullmann (1964) nos fala que o meio mais eficaz para delimitar os sinônimos consiste no “teste de substituição” proposto por Macaulay; ocorre que, com freqüência, tais substituições necessitam de algum tipo de adaptação e, ainda assim, dependendo do contexto, um termo não pode ser substituído por outro. Tomemos os pares “casa” / “lar” e “dispensar” / “prescindir”; dificilmente, uma pessoa dirá ao sair da escola: “vou para o meu lar” (dirá, sim, “vou para minha casa”); já no segundo par, haverá uma adaptação exigida pela regência dos verbos em questão, pois dizemos “dispenso a sua ajuda”, mas “prescindo da sua ajuda”.
Naturalmente, podemos dizer que uma planície é “vasta” ou “larga”, mas não dizemos da velha calça que ela está “vasta” e precisa ser apertada; embora saibamos que uma blusa “seca” é o mesmo que uma “enxuta”, pois, nesse caso, significa que não está molhada, não podemos dizer o mesmo de uma carta, afinal, uma carta “seca” não é o mesmo que uma “enxuta”: enquanto a primeira é desprovida de qualquer emotividade, a segunda é concisa e objetiva.
Segundo o autor, também podemos delimitar os sinônimos através de seus opostos, ou seja, os antônimos. Para Ullmann, o adjetivo “fundo” será sinônimo dos adjetivos “intenso” e “profundo” em “funda simpatia” (pois também podemos dizer “profunda simpatia” e “intensa simpatia”), onde o seu antônimo seria o adjetivo “superficial”, mas não em “água profunda”, em que o seu antônimo seria “rasa”, “não profunda” (não podemos dizer “água superficial”).
É certo que não podemos dizer “simpatia rasa”, mas “simpatia superficial” também é estranho, pois não me parece que o substantivo “simpatia” esteja sujeito a gradações: ou existe simpatia ou não, ou simpatizamos com alguém ou não simpatizamos. Por outro lado, há que se ter em mente qual o sentido de “simpatia” que está sendo utilizado, pois se dissermos “conheço uma simpatia excelente para bronquite”, nem mesmo o recurso ao antônimo terá qualquer validade, já que não se diz “conheço uma funda simpatia para bronquite” e menos ainda “uma simpatia rasa ou superficial para bronquite”.
2. A Sinonímia em Lyons
Lyons (1979), ao analisar o fenômeno da sinonímia, propõe, entre outras considerações relevantes, uma análise relacionada aos conceitos de hiperonímia e hiponímia; assim, o autor considera a sinonímia como uma “hiponímia simétrica”.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 21 Embora um termo hiperônimo não implique, em geral, o seu hipônimo, ocorre freqüentemente que o contexto situacional ou a modificação sintagmática do termo hiperônimo o determinará no sentido de um de seus hipônimos. Essa é a origem da sinonímia dependente do contexto (...). E isso sugere igualmente a possibilidade de definir a relação de sinonímia como “hiponímia simétrica”: se x é um hipônimo de y e se y é também um hipônimo de x – isto é, se a relação é bilateral ou simétrica -, então x e y são sinônimos. (...) A sinonímia, como um caso especial de hiponímia, tem, pois, a propriedade adicional de ser uma relação simétrica: estabelece-se entre a e b e entre b e a. Por motivos puramente formais ela também pode ser definida como reflexiva: (...) toda unidade lexical que se substitui a si mesma é sinônima de si mesma, no mesmo contexto. A sinonímia é, portanto, uma relação de equivalência no sentido matemático do termo.
Vamos considerar ainda as definições abaixo:
Hiperônimo (Dubois) – sin. superordenado. É o termo cuja significação inclui o sentido (ou os sentidos) de um ou de diversos outros termos chamados hipônimos. O sentido do nome da parte de um todo é o hipônimo do sentido do todo que é o seu hiperônimo. Assim, animal é o hiperônimo de cão, gato, burro,etc.
Hipônimo (Dubois) – é o sentido do nome da parte de um todo.
Hiperônimo (Houaiss) - adjetivo e substantivo masculino - Rubrica: lingüística. Relativo a ou vocábulo de sentido mais genérico em relação a outro (p.ex., assento é hiperônimo de cadeira, de poltrona etc.; animal é hiperônimo de leão; flor é
hiperônimo de malmequer, de rosa etc.); superordenado Obs.: p. opos. a hipônimo
Hipônimo (Houaiss) - adjetivo e substantivo masculino - Rubrica: lingüística. Diz-se de ou vocábulo ou sintagma de sentido mais específico em relação ao de um outro mais geral, em cuja classe está contido (p.ex., poltrona é hipônimo de assento; leão é hipônimo de animal)
Obs.: p.opos. a hiperônimo
Hiperônimo (Aurélio) - [De hiper- + -ônimo.] S. m. E. Ling. 1. Numa relação de hiperonímia, o termo cujo significado é mais genérico. [Cf. hipônimo.]
Hipônimo (Aurélio) - [De hip(o)-1 + -ônimo.] - S. m. E. Ling. 1. Numa relação de hiponímia, o termo cujo significado é menos genérico. [Cf. hiperônimo.]
Podemos perceber, com base nas definições acima, que o hiperônimo é um indicador de classes e o hipônimo é um dos membros da classe designada pelo hiperônimo. Por exemplo, “fruta” é um hiperônimo, ao passo que “manga”, “uva”, “banana” etc. são hipônimos.
Vamos tomar o seguinte conjunto de vocábulos: ANIMAL : + Animado / - Humano
GATO : + Animado / - Humano / + Felino / +Vertebrado / + Doméstico / etc.
ONÇA : + Animado / - Humano / + Felino / +Vertebrado / - Doméstico / etc. BARATA : + Animado / - Humano / - Vertebrado / etc. É de se notar que os vocábulos "gato", "onça" e "barata" são hipônimos de "animal",
que, por seu turno, tem presença do traço "animado" e ausência do traço "humano"; assim, temos que: ANIMAL = + Animado e - Humano, entre outros traços.
Convém observar que os traços especificados do hiperônimo "animal" ("+Animado" e "-Humano") são os traços comuns aos hipônimos "gato", "onça" e "barata"; os demais traços do hiperônimo são não-especificados ou, por outras palavras, não são dotados dos sinais "+" ou "-".
Como podemos ver, o hiperônimo é mais abrangente do que o hipônimo, já que se trata de uma relação do tipo contém – está contido; mesmo assim, se fizermos uma modificação sintagmática no termo hiperônimo, conforme nos propõe Lyons (1979), é possível determiná-lo no sentido de um de seus hipônimos.
Desse modo, temos que o hiperônimo “profissional” e o hipônimo “advogado” poderão tornar-se sinônimos se acrescentarmos o sintagma preposicionado “do direito” ao hiperônimo “profissional”; assim, “profissional do direito” equivale a “advogado”, ou seja, são sinônimos.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 22 Todavia, esse procedimento não é uma regra e, como tal, não pode ser generalizado nem mesmo para um determinado hiperônimo, senão vejamos: como modificar o hiperônimo “profissional” para torná-lo sinônimo dos hipônimos “lixeiro”, “sapateiro”, “engenheiro” e “ascensorista”, por exemplo? Diremos, respectivamente, “profissional do lixo”, “profissional do sapato”, “profissional do engenho” (e aqui o sentido será alterado a ponto de mudar a profissão; já “profissional de engenharia” seria mais aceitável, embora não seja comum) e “profissional do elevador”?
Convém observar que Lyons, ao expor sua teoria, brinda-nos com um número muito pequeno de exemplos e, no que se refere à sinonímia como hiponímia simétrica, não nos fornece exemplificação.
Curiosamente, ao falar da sinonímia como um caso especial de hiponímia, oferece-nos como exemplo as palavras “primogênito” e “caçula”, que não são sinônimas, pois “primogênito” é o filho mais velho, ao passo que “caçula” é o mais novo; no entanto, ambas as palavras são hipônimos do hiperônimo “filho” e como tal, são “filhos” já que existe uma correspondência entre os traços semânticos de hiperônimos e hipônimos; sob este aspecto podemos até considerá-las sinônimas, pois “primogênito” = “filho” e “caçula” = “filho” (mas uma não se pode substituir pela outra já que os significados são opostos e, na verdade, a relação entre ambas é de antonímia).
Desse modo, temos que, segundo a definição matemática de Lyons (1979), “se x é um hipônimo de y e se y é também um hipônimo de x – isto é, se a relação é bilateral ou simétrica -, então x e y são sinônimos”; se considerarmos x = primogênito ou caçula e y = filho, teremos que se x (primogênito ou caçula) é hipônimo de y (filho) e se y (filho) é hipônimo de x (primogênito ou caçula), então x e y são sinônimos, ou seja, “primogênito ou caçula” são sinônimos de “filho”, o que não é verdadeiro, já que todo primogênito e todo caçula são filhos mas nem todo filho é primogênito ou caçula; o que dizer, por exemplo, do filho “do meio” e do filho “adotado” e do filho “emprestado” e do filho “do coração”?
Note-se que dizer que x é hipônimo de y é o mesmo que dizer que y é hiperônimo de x; sendo assim, ambos não podem ser sinônimos. Suponhamos agora, em lugar dos sintagmas “primogênito” e “caçula”, respectivamente, os sintagmas “filho mais velho” e “filho mais novo” (modificados sintagmaticamente); então teremos que se x (filho mais velho ou filho mais novo) é hipônimo de y (filho) e se y (filho) é hipônimo de x (filho mais velho ou filho mais novo), então x e y são sinônimos, ou seja, “filho mais velho ou filho mais novo” são sinônimos de “filho”; realmente são, mas um não se substitui pelo outro; além disso, se uma palavra é hipônima de outra, isto significa dizer que uma delas é um hiperônimo e, como tal, ambas não podem ser sinônimas, já que uma contém a outra, a não ser em contextos bem específicos, o que tentaremos comprovar por meio de algumas palavras do corpus escolhido.
Portanto, não podemos pensar em equivalência matemática para a língua, já que esta não é uma ciência exata.
O que segue é a análise dos corpora. 3. Análise dos Corpora
As duas primeiras palavras escolhidas (“profissional” e “economista”) atendem bem ao primeiro critério proposto por Collinson, já que “profissional” é mais geral que “economista”. Ocorre que Collinson propõe critérios para explicar as diferenças mais comuns entre sinônimos; desse modo, o autor parte do pressuposto de que as palavras susceptíveis à aplicação do referido critério são sinônimas, fato que não é possível de acontecer, pois, na verdade, o que vislumbramos aqui é o fenômeno da hiperonímia, senão vejamos: dizer que um termo é mais geral que o outro é o mesmo que dizer que o mais geral contém o mais específico, ou seja, trata-se da relação hiperônimo – hipônimo.
É de se notar que se todo economista é um profissional, nem todo profissional é um economista; sendo assim, podemos afirmar que “economista” é sinônimo de “profissional”, mas o inverso só será verdadeiro em determinados contextos, já que o hiperônimo “profissional” contém diversos hipônimos e “economista” é apenas um deles. A sinonímia aqui parece configurar um fenômeno de “mão única”, o que acaba por descaracterizá-la, já que pressupõe um caminho de “mão dupla”.
Caderno Seminal digital, Ano 11, nº 2, V. 1. [Jul-Dez-2004] _ ISSN 1806-9142 23 O segundo, terceiro e quarto critérios propostos por Collinson estão associados entre si e podem ser sintetizados em um só, senão vejamos: quando dizemos que um termo é mais intenso que outro, o que significa ser “mais intenso”, senão portador de uma carga maior de emotividade? E mais: se um determinado termo provoca comoção em alguém, isto só se dá porque o termo em questão não é neutro e dependendo da situação, o grau de comoção provocado pode importar em aprovação ou censura moral.
Vejamos as palavras do corpus; para enquadrar-se no segundo critério, temos as palavras “rejeição”, “recusa” e “repulsão”; naturalmente, podemos considerar “repulsão” um termo “mais intenso” que os demais, uma vez que, segundo Houaiss e Caldas Aulete, “repulsão” implica “asco”, “repugnância”, o que não acontece necessariamente com as palavras “rejeição” e “recusa”; sendo assim, a “emotividade” provocada por “repulsão” é muito mais forte. Acrescente-se a isto que se a repulsa for revelada diante de um mendigo, por exemplo, tal atitude deverá provocar censura moral por parte de quem presencie a cena.
A rejeição, que também é um termo bastante “intenso”, ainda é mais “suave” que “repulsa”, já que podemos demonstrar rejeição por algo, alguém ou até mesmo por uma situação sem que tenhamos nojo; a rejeição poderá ser por alguma coisa que provoque profunda infelicidade, por exemplo.
Já a recusa revestir-se-á de rejeição ou até mesmo de repulsa, dependendo do modo como seja feita, pois há várias maneiras de manifestar recusa; assim, um convite pode ser recusado com delicadeza, grosseria ou asco. O fato é que as três palavras em questão, por sua própria definição, não podem ser totalmente neutras, a não ser quando descontextualizadas ou em “estado de dicionário”. Convenhamos que, por se tratarem de signos, ao se contextualizarem, transitarão ideologias, crenças e efeitos variados no interlocutor, de modo que fatores como “emotividade”, “censura” e “aprovação” passem a integrar o mesmo campo associativo.
Para o terceiro critério proposto, vamos usar um exemplo extraído da pragmática; Watzlawick, Beavin e Jackson (1987), em sua Pragmática da Comunicação Humana, já nos ressaltam a necessidade intrínseca do homem de ser confirmado pelo outro, no processo de interação. Em um tal contexto, o homem, que é um ser, por excelência, social e do discurso, constrói sua identidade pela via da linguagem, que o instaura em sua condição de ser. Portanto, usar essa mesma via para retirar-lhe as "âncoras" é o mesmo que negá-lo, desconfirmá-lo ou, por outras palavras, atirá-lo à sombra do discurso junto com toda a sua bagagem lingüística prévia, sua cultura, sua raça, enfim, relegá-lo à condição de não-ser.
Segundo Houaiss, aquele que nega “recusa-se a admitir” a existência de algo, o que nos mostra que o verbo “negar” (palavra do corpus) implica maior emotividade [e também intensidade!] que “rejeitar” (palavra do corpus), porque, para rejeitar, é preciso primeiro admitir a existência daquilo que se está rejeitando, o que não acontece quando se nega.
Naturalmente, trata-se aqui de um contexto bem específico; sendo assim, em outras situações, a negação implicará necessariamente a existência de algo; por exemplo, quando alguém nega que disse determinadas palavras, é preciso reconhecer primeiro que tais palavras foram ditas. Tudo isto nos vai mostrando que, na tessitura da sinonímia, praticamente não há espaço para o isolamento das palavras.
Para exemplificar o quarto critério, selecionamos as palavras “leproso” e “hanseniano”; é de se notar que a lepra é uma doença que normalmente provoca horror nas pessoas, além de uma forte discriminação para com seus portadores. A própria palavra “lepra” [e, por extensão, “leproso”] é extremamente agressiva e o adjetivo pode, inclusive, ser usado como ofensa [como em “cão leproso”].
Na Roma antiga, os portadores do bacilo de Hansen eram execrados pela sociedade por serem considerados a escória, o que havia de pior; eram tratados como pessoas malditas e, como tais, obrigadas a viver em guetos dos quais todos fugiam. Essas pessoas eram enterradas vivas e passavam por sofrimentos inomináveis. Hoje, embora a doença tenha cura, a discriminação e o horror persistem, mesmo que de uma forma velada. O adjetivo “hanseniano” atende ao “discreto” tratamento dado pela sociedade aos portadores do bacilo, já que é mais “neutro”, digamos, menos “discriminatório”, menos “agressivo” e implica menos “censura”.