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CONFERÊNCIAS MUSEU DE LAMEGO / CITCEM - 2014
Quintas do Douro: História, Património e Desenvolvimento
ABREVIATURAS
AMVR – Arquivo Municipal de Vila Real
ASCR – CQ - Amigos do Solar dos Condes de Resende – Confraria Queirosiana
ASRAVD – Associação de Desenvolvimento da Rede de Aldeias Vinhateiras do Douro
CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória
CNRS – Centre National de la Recherche Sciéntifique, Lyon
DL – Diocese de Lamego
DRCN – Direção Regional de Cultura do Norte
FCSH – UNL – Faculdade de Ciências Sociais e Huma-nas da Universidade Nova de Lisboa
FLUP – Faculdade de Letras da Universidade do Porto GHAP - Gabinete de História, Arqueologia e Património MD – Museu do Douro
ORGANIZAÇÃO
ML DRCN / CITCEM FLUP COMISSÃO ORGANIZADORA Alexandra Braga (ML DRCN)
Gaspar Martins Pereira (FLUP CITCEM) Luís Sebastian (ML DRCN)
Paula Montes Leal (FLUP CITCEM) COORDENAÇÃO EDITORIAL Alexandra Braga
Luís Sebastian CONFERENCISTAS
António Martinho (ADRAVD) Carlota Cabral (FCSH-UNL) Celeste Pereira (Greengrape) Gaspar Martins Pereira (CITCEM)
Gonçalves Guimarães (GHAP – ASCR-CQ) Luís Ramos (UTAD)
Manuel Carvalho (Jornal «Público») Natália Fauvrelle (MD/CITCEM) Nuno Magalhães (UTAD) Nuno Resende (CITCEM) Otília Lage (CITCEM) Paula Montes Leal (CITCEM) Paulo Amaral (DRCN) Pedro Peixoto (AMVR)
Pedro Pereira (CITCEM/CNRS) DESIGN DE COMUNICAÇÃO Luís Sebastian COMUNICAÇÃO Patrícia Brás (ML - DRCN) SECRETARIADO Paula Duarte (ML DRCN) Patrícia Brás (ML DRCN) Teresa Sequeira (ML DRCN) LOGÍSTICA Paula Pinto (ML DRCN)
CONCEPÇÃO E COMPOSIÇÃO GRÁFICA Pe. Hermínio Lopes (DL)
IMAGEM DE CAPA Pedro Martins.
© Direção Regional de Cultura do Norte EDIÇÃO
© Museu de Lamego – Direção Regional de Cultura do Norte
DATA DE EDIÇÃO Outubro de 2014 e-ISBN
978-989-98657-7-8
O conteúdo dos textos, direitos de imagem e opção ortográfica são da responsabilidade dos autores.
APOIOS:
Liga dos Amigos do Museu de Lamego Município de Lamego
Diocese de Lamego Hotel Lamego Solta Giga
Casa de Santo António de Britiande ESTGL Lamego
Escola de Hotelaria e Turismo do Douro – Lamego Quinta de Mosteirô
Abstract:
For centuries the Douro ‘quintas’ have played a strategic part in the society, economy and culture of the wine-making region. Recognizing the value of these ‘quintas’ as settlement units, places of farming, territorial and social power in the long history of the Douro region is paramount. The rich and plural patri-monial legacy of these structures, both material and immaterial, makes them, today, a central component of the territory classified as World Heritage. The pla-ce they hold on the collective memory but also as an irreplaceable resource for the definition, leadership and promotion of regional development is undeniable. From this triple perspective, we intend to raise the de-bate on the history and heritage of these ‘quintas’, while vectors of development of the Douro region.
Keywords: Douro, Quintas, History, Cultural He-ritage, Development
Quintas do Douro:
História, Património e Desenvolvimento
texto: Gaspar Martins Pereira
Resumo:
As quintas do Douro assumem, desde há séculos, uma posição estratégica na sociedade, na economia e na cultura da região vinhateira. Partimos do reconhe-cimento da importância das quintas, enquanto unida-des de povoamento, de exploração agrícola e de poder territorial e social na longa história da região do Dou-ro, de que decorre, em grande parte, um riquíssimo e plural legado patrimonial, tanto material como imate-rial, o que as torna, hoje, componentes centrais do ter-ritório classificado como Património da Humanidade, quer como valor de memória colectiva quer como va-lor de recurso insubstituível para a definição, liderança e promoção do desenvolvimento regional. Nessa tripla perspectiva, pretende-se suscitar o debate em torno da história e do património das quintas, enquanto vecto-res de desenvolvimento da região do Douro.
Palavras-chave: Douro, Quintas, História,
Pa-trimónio, Desenvolvimento.
Nota biográfica:
Gaspar Martins Pereira
Professor catedrático do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Investigador do CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço & Memó-ria». Tem desenvolvido investigação nas áreas de História Urbana, História Social, História Empresarial e História da Vinha e do Vinho. É autor de diversas obras, de que se destacam, entre as publicações mais recentes, Uma vida pela liberdade:
Artur Santos Silva, 1910-2010 (Porto, 2010), Crise e Reconstrução. O Douro e o Vinho do Porto no século XIX (coord., Porto, 2010), Roriz. História de uma Quinta no Coração do Douro (Porto, 2011), Alves Redol e o Douro. Correspondência para Francisco Tavares Teles (org., Porto, 2013).
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INTRODUÇÃO
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abe-me a responsabilidade de apresentar o tema geral deste Encontro, «Quintas do Douro: História, Património e De-senvolvimento». Antes disso, creio que vale a pena evocar o espírito destas Conferências, que se iniciaram em 2013 e que resultam de uma parceria entre o Museu de Lamego e o CITCEM - Centro de In-vestigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memó-ria, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pretende-se, essencialmente, atingir três objectivos:i) constituir um espaço de encontro e de debate científico, com periodicidade anual, reunindo investi-gadores das áreas de História e Património, com traba-lhos realizados ou em curso sobre a Região do Douro;
ii) estimular o diálogo interdisciplinar com outras áreas do saber;
iii) abrir o debate à comunidade regional, assumin-do não só a missão de partilhar o conhecimento que se vem produzindo na Universidade mas também de o discutir com todos os interessados na valorização do património histórico-cultural na região duriense.
Ou seja, na sociedade do conhecimento em que vi-vemos, o saber académico não pode isolar-se no círcu-lo estreito das universidades e centros de investigação. Sem ceder um milímetro ao utilitarismo esterilizador destes tempos neo-liberais e sem perda da liberdade de pensamento, base essencial do espírito de criação e de crítica, o conhecimento académico, na área das Humanidades, e em particular na História e no Pa-trimónio, pode e deve apostar na eficácia social da cultura, no seu auto-questionamento e na partilha e troca solidárias de saberes, como contributos para o desenvolvimento. Isso mesmo quisemos reflectir na primeira edição destas Conferências, subordinadas ao tema «História e Património no/do Douro: Investiga-ção e Desenvolvimento».
Na tripla perspectiva que referimos, a escolha do tema geral desta segunda edição das Conferências também não foi casual. Partimos do reconhecimento da importância das quintas, enquanto unidades de po-voamento, de exploração agrícola e de poder territo-rial e social na longa história da região do Douro, de que decorre, em grande parte, um riquíssimo legado patrimonial, tanto material como imaterial, e que as torna, hoje, componentes centrais do território classi-ficado como Património da Humanidade, quer como
valor de memória colectiva quer como valor de recur-so insubstituível para a promoção do desenvolvimento regional.
Unidades vinhateiras típicas do Alto Douro, as quintas correspondem, no entanto, a uma realidade territorial relativamente excepcional. De facto, entre as cerca de quarenta mil explorações vitícolas do Douro, as quintas representam apenas uma pequeníssima par-te, da ordem das centenas. Mas a sua estrutura, como unidades de exploração vitícola integrada (reunindo vinhas, centros de vinificação e armazenagem de vi-nhos, casa de proprietário e/ou caseiro e trabalhado-res; por vezes, também, azenha de azeite, capela, etc.), a dimensão frequentemente média ou grande (em alguns casos, centenas de hectares, como nas quintas dos Frades, Carvalhas, Ventozelo, Vesúvio, Vale Meão, etc.) e a vocação de comercialização dos respectivos vinhos conferem às quintas um lugar socioeconómico estratégico na viticultura duriense.
Além disso, muitas quintas do Douro aliam a produção vitivinícola a iniciativas de enoturismo de excelência, revelando uma notável capacidade para conjugar tradição e modernidade. Independentemen-te dessa aposta económica, as quintas desempenham a dupla missão de guardiãs do património cultural e ambiental do Douro e de centros de irradiação eficaz quer desses valores de memória e identidade quer de dinamismo e de aperfeiçoamento tecnológico, ou seja, de conhecimento, no sentido mais abrangente e plural da palavra. Relativamente à cultura da vinha e do vi-nho, essa missão foi particularmente bem-sucedida ao longo da história e continua a sê-lo na actualidade. Po-rém, no plano do desenvolvimento regional, estamos longe de poder falar de sucesso. Por muitas razões, que vão desde a forma como se exerceu a intervenção do Estado na regulação da região demarcada até à estrutu-ração da sociedade e dos poderes regionais, passando pelas relações que as grandes quintas mantiveram com a sociedade envolvente. Nesta perspectiva, o desafio de transformar uma região pobre e deprimida num espaço de desenvolvimento socialmente inclusivo im-plica que as quintas do Douro assumam uma maior integração regional, com capacidade para contagiar as comunidades vizinhas e para gerar novos dinamismos económicos, sociais e culturais.
2. ORIGENS E EVOLUÇÃO DAS QUINTAS DO DOURO: UMA LONGA HISTÓRIA
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alvez valha a pena começar pelas origens. Como nasceram as quintas do Douro e como evoluíram, de modo a tornarem-se unidades estratégicas de povoamento, exploração e organização do território nesta região? Estas questões remetem-nos para o período longínquo que vai do fim do Império Romano ao final da Ida-de Média, primeiro, Ida-de Ida-desorganização e, Ida-depois, Ida-de «reorganização social do espaço». Há muito que estas questões vêm merecendo a atenção de historiadores, filólogos, arqueólogos e etnógrafos, mas, no caso do Douro, estamos ainda longe de dispor de estudos his-tóricos aprofundados sobre a «organização social do espaço», ao nível dos que têm sido realizados para o lado espanhol1 e mesmo para outras zonas do terri-tório português2. A perda irreparável da maior parte dos cartórios dos mosteiros de Salzedas, Tarouca e S. Pedro das Águias no incêndio que deflagrou, em 1841, no Seminário de Viseu, para onde tinham sido leva-dos, privou os medievalistas de fontes valiosas, mas, como provam os estudos de Almeida Fernandes3 e de outros autores4, subsiste ainda muita documentação medieval que poderá trazer informações importantes para o conhecimento da história do Douro neste pe-ríodo.Na Alta Idade Média, a quintana (que evoluiu, fo-neticamente, para quintã e, a partir do século XV, para
quinta) teria resultado da desagregação da villa,
uni-dade de domínio e exploração agrária da época roma-na e visigótica, que se manteve, com esse significado, a par de outros (aldeia e vila), até bem tarde5. Nesses tempos conturbados que antecederam e enquadraram a formação da nacionalidade portuguesa e sobretudo a partir da implantação da ordem feudal, a quinta teria 1 Entre muitos outros, destaquem-se os de GARCÍA DE CORTÁZAR,
1996 e 1999.
2 Entre outros: SAMPAIO, 1923; DURAND, 1982; COELHO, 1983; AMARAL, 2007; MARQUES, 2006 e 2012.
3 Da vasta produção do autor, destaquem-se, por exemplo, FERNAN-DES, 1973-1976 e 1984-1985.
4 Veja-se, por exemplo, sobre o papel dos cistercienses no Douro, DIAS; DUARTE (coord.), 1999; para as propriedades de Salzedas, MARREI-ROS, 1997 e ALBUQUERQUE, 2012; para Santa Maria de Aguiar, VI-CENTE, 1996 e RODRIGUES, 2004.
5 Sobre a villa romana como «antepassada das quintas do Douro», veja--se ALMEIDA, 2006; PEREIRA, 2008 e 2014.
assumido um crescente estatuto de domínio senho-rial, integrando a residência ou paço (a pars urbana da villa romana), por vezes com carácter defensivo e de protecção das populações vizinhas6, a par de outras instalações de apoio à exploração agrária (a pars
rusti-ca e a pars fructuaria romanas) e das terras de cultivo
circundantes. Mas a evolução, tal como aconteceu com outras sub-unidades das villae, em especial os casales, esteve longe de ser linear, como têm destacado diver-sos estudos7.
Esse carácter senhorial das quintas terá sido o prin-cipal factor de distinção relativamente a outras formas de propriedade rural, como o casal, associado a estra-tos sociais mais baixos8. Algumas quintas derivaram de «granjas» estabelecidas por mosteiros cistercienses, que, a partir de meados do século XII, vieram impri-mir um forte dinamismo nas zonas rurais em que se implantaram. Por essa altura, segundo nos ensina Al-meida Fernandes, essas granjas assemelhavam-se às «quintãs» dos ricos-homens ou cavaleiros, como do-mínios senhoriais9. Tal sinonímia evidencia-se, entre outros casos, para Mosteirô e Paço de Monsul, impor-tantes «granjas» dos mosteiros de S. João de Tarouca e de Santa Maria de Salzedas, desde a segunda metade do século XII10 e, provavelmente, até ao século XIV. No início do século XVI, na célebre descrição de La-mego, de Rui Fernandes, de 1531-1532, já aparecem designadas por quintas ou quintãs (e a designação de-verá ser bastante anterior) e como grandes explorações vitícolas11.
Em finais da Idade Média e no início da Época Mo-derna, as quintas do Douro parecem ter reforçado o seu papel de centros de exploração agrária de matriz senhorial, combinando-se com o dinamismo dos ca-sais e com formas de domínio indirecto da terra, atra-vés da enfiteuse.
Desde finais do século XVII, com a rápida expansão da viticultura duriense, estimulada pelo crescimento das exportações dos vinhos da região, as quintas já existentes, pelas suas características e dimensão, assu-miram um papel liderante da resposta à procura exter-na, num duplo sentido. Por um lado, como unidades 6 BARROCA, 1989: 29. 7 SAMPAIO, 1923: 72-73; MARQUES, 2012: 439-442. 8 GONÇALVES, 1981: 60-72. 9 FERNANDES, 1973: 27. 10 FERNANDES, 1975: 22-31. 11 FERNANDES, 2012: 79-80.
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produtivas maiores e com capacidade de concentração das produções locais e, por outro, como principais re-presentantes dos interesses locais face aos negociantes A par do reforço da vocação vinhateira das quintas e da expressão mercantil e exportadora dos vinhos do Douro, verificou-se um crescente investimento na criação de novas quintas e, sempre que possível, na respectiva nobilitação, através da instituição de víncu-los e capelas. Em meados do século XVIII, por altura da instituição da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, uma representação enviada ao rei pelo cônsul inglês no Porto, Robert Jackson, refe-ria a formação recente da maior parte das quintas do Douro, resultantes da apropriação de terras dos cam-poneses pobres e dos baldios por parte da fidalguia rural:
Se para a Feitoria houvessem de servir vinhos tão--somente de quintas grandes, incluídas em um territó-rio demarcado, nenhuma dificuldade haveria em que os seus possuidores poderosos, e abonados se unissem em um preço exorbitante, e os pobres lavradores seriam obrigados a lhes entregar os seus frutos por aquilo que os ricos quisessem, que depois de recolhidos nas suas adegas venderiam aos ingleses com a mesma exorbitân-cia; vindo a ser por esses caminhos árbitros absolutos do negócio, e dominantes sobre o miserável povo das suas vizinhanças; que é ideia em que trabalham, doura-da de aparentes conveniências, e firmadoura-da de argumen-tos enganosos. / A maior parte das quintas do Douro são de poucos anos, compostas de pedaços de terra que possuíam outros tais lavradores, como estes a quem os supraditos com inumanidade pretendem excluir; são algumas fabricadas em maninhos que de novo se rom-peram, estendidas por ribeiras de pão que se trocaram em bacelos, e quase todas espalhadas: e se o vinho des-sas quintas serve para negócio, por que não servirá o mais que se cria junto delas, que os poderosos querem condenar sem mais culpa que ser vinho de gente pobre, / O vinho mais fino da Feitoria é o desses lavradores que como faltos de cabedal para comprar outros, e para materiais, e confeições, são obrigados a fazê-lo puro, e a vendê-lo sem mistura; e sendo por esse respeito o mais procurado, e de melhor aceitação, por isso é que os ricos industriosamente o condenam para depois o haverem a si, e com ele acreditarem as suas adegas, e cobrirem os vinhos baixos que nas mesmas introduzem [...]12.
Poderá argumentar-se que a opinião do cônsul 12 Cit. em FONSECA, 1949: 35-36.
inglês era suspeita, por representar os interesses dos negociantes. Mas, para o que nos interessa, evidencia três aspectos importantes, facilmente detectáveis em outros documentos da época: i) a expansão da viticul-tura, com a plantação de novas vinhas, inclusive em zonas baixas e em terras «de pão«; ii) a multiplicação de novas quintas, muitas delas resultantes de emparce-lamentos ou de ocupação de terras maninhas ou incul-tas; iii) o papel das grandes quintas na concentração de produções locais de pequenos produtores.
Não é difícil perceber na documentação da se-gunda metade do século XVIII, desde a demarcação pombalina da região do Douro, o papel estratégico de-sempenhado pelas quintas, como principais centros de exploração vitícola. Esse papel liderante não deixará de se manifestar em outros momentos cruciais da his-tória da região, sob múltiplos aspectos, desde a intro-dução de novidades técnicas e sua difusão (como nas crises do oídio e da filoxera ou, mais recentemente, na reconversão vitícola das últimas três décadas) à defesa do produto regional e dos mecanismos reguladores da denominação de origem.
A importância das quintas na história longa do Douro justificaria um maior investimento da histo-riografia em investigações monográficas Porém, neste ponto, apesar de alguns trabalhos realizados13, esta-mos quase a zero. Os trabalhos pioneiros do Visconde de Vila Maior14 e de Manuel Monteiro15, bem como o mais recente de Alex Liddell e Janet Price16, baseados sobretudo em informações locais e sem o recurso a documentação histórica substancial, continuam a ser utilíssimos para alguns casos, mas contêm bastantes imprecisões e não permitem, geralmente, uma lei-tura de longa duração. Embora mais rigoroso e com maior suporte documental, o trabalho coordenado por Eduardo Gonçalves e Aurélio de Oliveira17 fica-se também, na sua maior parte, por generalidades, pouco esclarecendo sobre a história das quintas do Douro, na perspectiva de longa duração.
São igualmente escassos os estudos sobre quintas do Douro na perspectiva dos investimentos vinhatei-13 Veja-se FAUVRELLE, 2001; AMARAL, 2011;
CA-BRAL, 2011; PEREIRA, 2011. 14 VILA MAIOR, 1876. 15 MONTEIRO, 1911. 16 LIDDELL; PRICE, 1995.
ros e das práticas vitivinícolas, que seriam utilíssimos para compreendermos períodos de maior transforma-ção, como o que rodeou a formação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro18 ou o da devastação filoxérica e da reconstrução posterior19.
Uma análise histórica mais aprofundada das quin-tas do Douro permitiria perceber melhor as relações sociais na região (entre proprietários, frequentemente absentistas, administradores, caseiros e jornaleiros), bem como as relações entre as quintas e os casais e as aldeias vizinhas, as estratégias de investimento e as práticas vitivinícolas, etc.. Ao longo da história, tal como ainda hoje, a centralidade que as quintas ocu-pam no sistema vitícola do Douro, quer como espaços de poder social e económico quer como espaços de inovação técnica, contrasta com a sua relativa margi-nalidade na sociedade duriense. Em muitos casos, as quintas aparecem como realidades destacadas e autó-nomas do tecido social e económico envolvente, com o qual têm relações mais frágeis do que com a econo-mia-mundo, a que se ligaram desde muito cedo, adop-tando um elevado grau de especialização e destinando a sua produção quase totalmente ao mercado.
Ao contrário dos pequenos e médios casais, em que o proprietário e os membros da família assumem directamente a gestão e a realização de grande parte dos trabalhos vitícolas, a quinta recorre com maior frequência ao trabalho assalariado. A par de algum pessoal permanente, utiliza um grande número de tra-balhadores à jorna ou em regime de empreitada nos grandes trabalhos agrícolas das surribas, das plan-tações, das podas, das cavas e das vindimas, ou na construção e reparação de paredes dos socalcos. No passado, algumas grandes quintas chegavam a contar com centenas de trabalhadores diários. Porém, o mais vulgar era — e continua a ser, em alguns casos — o recurso a trabalhadores à jorna das aldeias vizinhas, o que constituía uma oportunidade de rendimentos oca-sionais para alguns membros das famílias de pequenos lavradores. A par da oferta de trabalho, na viticultura tradicional duriense, as quintas absorviam também parte da produção dos pequenos e médios lavrado-res vizinhos, introduziam e difundiam as novidades 18 Veja-se PEREIRA, 1984 e 1998. Para períodos
anterio-res, o vazio historiográfico é ainda maior; havendo ape-nas um ou outro apontamento, como o que foi publica-do sobre a Quinta da Vacaria por MARTINS, 1997. 19 Para as quintas de D. Antónia Adelaide Ferreira, veja-se
PEREIRA; OLAZÁBAL, 1996.
técnicas na cultura da vinha e na vinificação, fixavam preços e salários, definiam práticas e calendários que acabavam por ser seguidos pelos pequenos e médios viticultores das redondezas. A data da vindima, por exemplo, era marcada tradicionalmente pelas gran-des quintas. Pode dizer-se que, no sistema do vinho do Porto, a grande quinta constituiu sempre um lugar de confluência de poderes, reais e simbólicos, da elite vinhateira regional.
3. UM PATRIMÓNIO PLURAL
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ela sua história e pelas suas característi-cas, as quintas do Douro concentram, no seu conjunto, um vasto património mate-rial e imatemate-rial, que importa inventariar, estudar e divulgar, quer como valor de memória e de identidade quer como valor de recurso, essencial para o desenvolvimento das actividades económicas, a co-meçar pela viticultura e pelo enoturismo.O mais evidente património das quintas reside nas arquitecturas, eruditas ou vernaculares, das casas, ca-pelas, centros de vinificação, mas também das arqui-tecturas da paisagem, socalcos, caminhos, cais, muros apiários, fornos, laranjais e outras estruturas construí-das, por vezes seculares. Será sobre esse património que incidirá a comunicação da Dr.ª Natália Fauvrel-le, autora de importantes estudos neste domínio20. É conhecida a espessura histórica de diversas quintas, remontando as suas origens a finais do período me-dieval, como acontece com as dos Frades, Mosteirô, Tourais, Pacheca, Ventozelo, Paço de Monsul (de que nos falará a Dr.ª Carlota Cabral) e outras, pertencentes aos mosteiros cistercienses de Santa Maria de Salzedas, S. João de Tarouca e S. Pedro das Águias. Em algumas quintas subsistem ainda vestígios de ocupação mais antiga, nomeadamente da época romana. É verdade que a intensidade da exploração vitícola e sucessivas remodelações apagaram muitos vestígios, mas creio que a arqueologia pode desvendar, em certos casos, alguns traços das ocupações mais antigas, como, cer-tamente, evocarão aqui os arqueólogos Dr. Gonçalves Guimarães, Dr. Paulo Amaral e Doutor Pedro Perei-ra. Porém, como tive oportunidade de referir, a maior parte das quintas data da época áurea de expansão vití-cola no século XVIII. No Douro Superior, a cronologia é diferente. As quintas mais célebres, como as do Silho, 20 Em especial, FAUVRELLE, 2001.
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do Vesúvio, de Vale Meão, de Santiago, da Terrincha, etc., são todas do século XIX.
Por outro lado, não devem desprezar-se os elemen-tos do património natural, desde as espécies vitícolas ao conjunto da flora autóctone, com algumas espécies raras, por vezes concentradas em bosquetes e matas de vegetação primitiva, a que se associam diversas espé-cies da fauna local, algumas com valor cinegético.
Na perspectiva que aqui nos reúne, importa tal-vez realçar outros tipos de patrimónios associados a muitas das mais antigas quintas do Douro. Em certos casos, a condição de propriedades vinculadas, ligadas a famílias fidalgas, bem como a instituição de capelas, fez com que se transmitissem de geração em geração, pelo menos até à abolição dos vínculos, em 1863, reu-nindo, por vezes, importantes acervos documentais. Mesmo com posteriores transferências da proprieda-de, algumas quintas conservam antigos arquivos fa-miliares, com cronologias que chegam a remontar à Idade Média (como acontece com as quintas de Paço de Monsul21 e da Pacheca22). Além destes exemplos, poder-se-iam referir muitas outras quintas que con-servam um maior ou menor acervo de documenta-ção antiga, embora só excepcionalmente tenha sido objecto de inventariação, mesmo que sumária, como aconteceu com o Arquivo da Quinta de Santa Júlia de Loureiro23. Em diversos casos, os processos de herança ou de transferência de propriedade fizeram dispersar esses fundos documentais, o que não quer dizer que se tenham perdido. Por exemplo, importante documen-tação relacionada com a Quinta de Ventozelo, no con-celho de S. João da Pesqueira, que esteve aforada desde o século XVI pela Casa do Poço de Lamego ao Mostei-ro de S. PedMostei-ro das Águias, encontra-se no Paço de Go-minhães, em Caldas de Vizela24. Muitos documentos da Quinta do Vesúvio foram integrados no Arquivo do Grupo Symington, que comprou essa quinta à família Ferreira em 1987. E o mesmo aconteceu, mais recente-mente, com documentação da Quinta de Roriz, adqui-rida em 2009, embora parte da documentação familiar tenha continuado nas mãos da família van Zeller.
Tratando-se de uma das mais importantes regiões vitícolas do mundo, quer pela antiguidade do inves-timento vinhateiro quer pelas características que sin-21 CABRAL, 2011: 30-31.
22 BARROS; LEAL, 2001.
23 FAUVRELLE; LEAL, 1997: 377-385. 24 PEREIRA, 2002.
gularizam a sua produção, a Região Demarcada do Douro, reconhecida pela UNESCO como Património Mundial, desde 2001, merece a atenção dos organis-mos responsáveis relativamente ao seu património documental, em particular o que se relaciona mais di-rectamente com a produção vitivinícola. Disperso, de-sorganizado, na sua maior parte vedado aos investiga-dores e, em certos casos, em risco, a importância desse património justifica medidas urgentes de preservação e valorização, quer através do seu tratamento especia-lizado quer através do seu estudo. A meu ver, deve, no entanto, promover-se, sempre que possível, a sua conservação nas casas ou quintas que os produziram, já que a sua descontextualização pode representar perdas de significado e de função. Em relação a estas colecções privadas, sejam familiares ou de empresas, penso que seria de todo o interesse promover acções de cooperação entre os respectivos proprietários, os organismos responsáveis pelo património arquivísti-co, centros de investigação e universidades, com vista a mobilizar recursos técnicos e humanos qualificados para a preservação, estudo e divulgação desses acer-vos. Foi isso que defendi, há uma boa dúzia de anos, no Museu do Douro, enfrentando a incompreensão de alguns museólogos. A meu ver, era (e é) evidente que o Museu do Douro, no âmbito das suas competências e de acordo com a Lei da sua criação, deveria tornar--se um parceiro activo nesse trabalho de preservação e valorização do património arquivístico da região, atra-vés do respectivo núcleo de Arquivo Histórico25. Mas sobre os arquivos das quintas do Douro teremos opor-tunidade de ouvir aqui alguns conferencistas, nomea-damente a Dr.ª Paula Montes Leal, o Dr. Pedro Peixoto e a Doutora Otília Lage.
Outros importantes patrimónios das quintas do Douro merecem a atenção especializada dos investi-gadores: por exemplo, a arte sacra, que será abordada pelo Doutor Nuno Resende. Poderia referir ainda as riquíssimas colecções de baixela e outros objectos de prata, algumas delas hoje dispersas pelo país, como nos revela o notável trabalho que o Doutor Gonçalo Vasconcelos e Sousa realizou, em colaboração com a Dr.ª Alexandra Braga, para a Bienal da Prata26.
Seria impossível abordar, no tempo limitado des-ta edição das Conferências, todos os aspectos do pa-trimónio das quintas do Douro. Além dos diversos 25 PEREIRA, 2003: 139-143.
tipos de património material, não podemos despre-zar a importância do património imaterial, tradições, crenças e memórias específicas, que necessitam do mesmo trabalho de inventariação, estudo e divulga-ção, para não se perderem, dado que, na maior parte dos casos, se conservam apenas na memória dos mais velhos. Acrescentaria as representações literárias, al-gumas bem conhecidas, como a da Quinta da Cavadi-nha, celebrizada no romance de Miguel Torga,
Vindi-ma, publicado em 1945, ou o mais recente Vale Abraão
(1991), de Agustina Bessa-Luís, que Manoel de Olivei-ra estendeu ao registo cinematográfico. Muitas outOlivei-ras obras da literatura duriense oferecem representações mais ou menos pormenorizadas da vida das quintas em diversas épocas. Vejam-se, por exemplo, os roman-ces de Sousa Costa, Ressurreição dos mortos (cenas da
vida do Douro) e As filhas do pecado. Na Terra do Vi-nho, publicados, respectivamente, em 1917 e 1946. Ou Ervamoïra, de Suzanne Chantal, publicado em Paris
em 1982, só recentemente traduzido para português (Civilização, 2011). E muitos mais. Ainda em Janeiro deste ano, Artur Vaz publicou o seu livro Vintage para
uma Vida, que cruza a história de uma quinta de
San-ta MarSan-ta de Penaguião com os percursos de vida dos seus proprietários, desde a época da filoxera até à crise actual.
4. AS QUINTAS DO DOURO COMO VECTO-RES DE DESENVOLVIMENTO
E
m grande parte dos casos, pela sua posi-ção estratégica, a sua dimensão espacial e económica, a sua estrutura integrada, por vezes com importantes núcleos ar-quitectónicos, as quintas aparecem, hoje, dotadas quer de maiores condições de sustentabilidade económica, quer de maior relevo do ponto de vista do patrimó-nio histórico-cultural. Mais ainda quando, na lógica do desenvolvimento regional, se afirma a tendência crescente de articulação entre a vitivinicultura e o eno-turismo e o eno-turismo cultural. Nesse sentido, o suces-so de algumas experiências de turismo de habitação e de turismo em espaço rural, a par de um ou outro exemplo de musealização, reforça o papel central das quintas, como agentes de desenvolvimento regional. É certo que, apesar dos investimentos realizados, há ain-da muito a fazer, sobretudo numa melhor articulação e funcionamento das rotas turísticas temáticas (Rota do Vinho do Porto, Rota das Vinhas de Cister), bemcomo de programação atraente e de qualidade, apoia-da em bons instrumentos de divulgação. A meu ver, podemos aprender com experiências de sucesso de outras regiões vitícolas históricas, mas devemos fugir de modelos estereotipados e sofisticados, apostando na simplicidade, identidade e autenticidade, sem dei-xar de visar a excelência. Neste domínio, as experiên-cias do Dr. António Martinho e da Dr.ª Celeste Pereira poderão ser extremamente úteis para uma reflexão mais fundamentada.
O desenvolvimento do enoturismo não pode dei-xar de se fazer em estreita articulação com o sistema socioeconómico dos vinhos do Porto e Douro e com a sociedade duriense em geral. A região possui bastantes e bons exemplos de iniciativas empresariais privadas, quer de empresas exportadoras quer de produtores--engarrafadores. Diversas empresas exportadoras têm revelado um crescente interesse na manutenção e valo-rização (e mesmo fundação) de quintas no Douro. Em certos casos, têm realizado investimentos importantes não só no domínio das estruturas de vinificação, mas também de acolhimento turístico. Tais investimentos decorrem do interesse em qualificar as massas vínicas de origem, em aumentar a competitividade através do controlo de espaços produtivos estratégicos e suas rela-ções com pequenos e médios produtores, em garantir o prestígio para vinhos topo de gama (Vintage, Vinhos de Quinta, etc.) e, em complementaridade, em asso-ciar a tradição histórica e cultural de casas de quinta ao acolhimento de clientes importantes. Actualmente, as empresas exportadoras possuem perto de uma cen-tena de quintas, localizando-se as mais importantes do ponto de vista histórico no Cima Corgo, embora se tenha verificado um grande investimento na formação de quintas novas, algumas de grande beleza paisagísti-ca, como a Quinta da Ervamoira ou a Quinta da Leda, no Douro Superior.
Não menos importantes e com maior abertura quer ao turismo quer à sociedade envolvente têm sido as experiências de valorização de quintas históricas por parte de diversos produtores-engarrafadores. Em vá-rios casos, algumas delas articularam projectos de turismo de habitação e actividades de enoturismo com projectos de desenvolvimento vitivinícola, que passaram pela reconversão das vinhas, pelo reapetre-chamento tecnológico e pela inserção no circuito de comercialização de vinhos de qualidade.
O número e a diversidade de experiências de su-cesso, tanto no sector vitivinícola como no do
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rismo, permitem afirmar que não há caminhos únicos. Mas creio que, nestes como em outros sectores neces-sários ao desenvolvimento regional (turismo fluvial, agroindústria, gastronomia e hotelaria, actividades de mediação e dinamização cultural, etc.), há ainda muito trabalho a fazer na perspectiva de uma maior articu-lação e integração. Para nos falarem sobre o papel das quintas do Douro no desenvolvimento regional, se-gundo diferentes perspectivas, convidámos o Dr. Ma-nuel Carvalho, o Professor Luís Ramos e o Professor Nuno Magalhães.
NOTAS FINAIS
A
o longo destes dois dias em que de-correrão estas Conferências, teremos oportunidade de ouvir especialistas das diversas áreas que nos irão apresentar resultados dos seus estudos e reflexões sobre aspectos específicos da história, dos patrimónios e de questões relacionadas com o desenvolvimento do Douro, cen-trando-se nas quintas.Neste sentido, afirmar a centralidade das quintas do Douro não deve entender-se como figura de retórica. Ressalta da convicção de que o reforço dessa centrali-dade no tecido socioeconómico regional é indispen-sável a qualquer estratégia eficaz de desenvolvimento. Também por isso quisemos ter entre nós diversos res-ponsáveis de quintas, não apenas com a função de di-rigirem as várias sessões destas Conferências mas tam-bém para contribuírem com a sua experiência e as suas ideias nos debates — a Dr.ª Laura Regueiro, da Quinta da Casa Amarela, o Eng. António Carlos Sobral Pinto Ribeiro, da Casa de Santo António de Britiande, o Pro-fessor Eduardo Coutinho, da Quinta de Mosteirô, e o Dr. Luís de Barros, da Quinta da Avessada.
Resta-me, na qualidade de co-organizador destas Conferências, agradecer a Vossa presença e partici-pação e desejar que as intervenções provoquem uma frutuosa troca de ideias, debates animados, que tra-gam novas pistas e questões de pesquisas. E que, em contrapartida, os resultados de investigações aqui apresentados possam contribuir para estratégias locais e regionais de valorização da memória e da sua opera-cionalização como recurso de desenvolvimento.
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