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Tribunal da Relação de Lisboa, Acórdão 10 Maio 2001 (Ref. 3230/2001)

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JURISPRUDÊNCIA E PARECERES

Tribunal da Relação de Lisboa, Acórdão 10 Maio 2001 (Ref.

3230/2001)

Relator: Fernando António da Silva Santos Processo: 1838/01

Jurisdição: Cível

Colectânea de Juriprudência, Tomo III/2001 2001

Sumário

MARCAS. Pedido de registo. Providência cautelar. Articulado superveniente.

I - Não são admissíveis articulados supervenientes nas providências cautelares.

II - O pedido de registo de marca confere ao seu autor uma expectativa jurídica que merece ser tutelada.

J.E.C.M. Disposições aplicadas:

arts. 11 e 170 CPI (Ref. 15/2003).

arts. 381 (e ss.), 506, 663 e 710 CPC (Ref. 2/1961).

Acordam no Tribunal da Relação de Lisboa:

I

Maria S. e INTERWORK LDA, instauraram um procedimento cautelar comum, contra PORTUGAL TELECOM, pedindo que cesse de imediato a utilização da marca "TeleCentro PT", bem como para cessar a comunicação da referida marca junto do público, procedendo para tanto à recolha de todos os exemplares das revistas em que se encontre a referida marca, incluindo aquelas de que as requerentes não tiveram conhecimento.

Depois de citada a requerida deduziu oposição.

II - A fls 78 as requerentes pretenderam ampliar o pedido e, posteriormente, ofereceram articulado superveniente.

III - Na audiência de produção de prova - inquirição das testemunhas - o tribunal indeferiu o requerimento de fls 78, que configurou como ampliação de causa de pedir e, de igual modo, indeferiu o oferecido articulado superveniente.

Tais decisões foram impugnadas por via de recurso, que foi admitido como de agravo a subir a final. IV - Depois, proferiu-se decisão julgando-se totalmente improcedente o pedido da providência cautelar. V - Recorre também desta decisão a requerente.

...

VI - Os factos considerados assentes são os seguintes:

1. A requerente INTERWORK LDA, tem por objecto social "traduções", organização de eventos, serviços de secretariado, prestação de serviços de consultaria e gestão, produção de instrumentos de divulgação científica

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e técnica de tele-trabalho, bem como o exercício de actividade profissional predominantemente à distância, de forma autónoma ou juridicamente subordinada com recurso à utilização de ferramentas informáticas e redes telecomunicacionais através de tele-trabalho no domicílio, em centros satélites, tele-centros ou tele-trabalho móvel, serviços telemáticos em geral;

2. A requerente MARIA TERESA S. é sócia-gerente daquela requerente;

3. A requerente INTERWORK candidatou-se a um apoio ao financiamento da criação de tele-centros não virtuais através do ICPME;

4. Aos 9 de Abril de 1999, a requerente MARIA S. requereu, junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o registo da marca nacional n° 336.343 "TELECENTRO" destinada a assinalar serviços incluídos na classe 35ª: serviços de consultaria de gestão a empresas, serviços de gestão de escritórios, serviços de consultoria empresarial, serviços de assistência administrativa, publicidade, difusão de material publicitário, anúncios, informação de negócios, incluindo via Internet e correio publicitário";

5.... bem como o registo da marca nacional n° 336.344 "TELECENTRO" destinada a assinalar serviços incluídos na classe 38ª: fornecimento de acesso (comunicação por computador) a textos, informações audiovisuais e multimédia, documentos, bases de dados e programas de computador e de comunicações, incluindo a Internet e world wide web, telecomunicações, serviços de transporte de cartas, documentos e outros textos por meios electrónicos;

6.... bem como o registo da marca nacional n° 336.345 "TELECENTRO" destinada a assinalar serviços incluídos na classe 41ª: formação profissional, elaboração e implementação de programas de formação profissional, organização de congressos e organização de conferencias;

7.... e, finalmente, o registo da marca nacional n° 336.346 "TELECENTRO" destinada a assinalar serviços incluídos na classe 42ª serviços de traduções (não incluídos noutras classes), serviços Jurídicos, serviços de pesquisa científica e industrial, serviços de assessoria informática, serviços relativos ao estudo e à actividade de engenheiros, de pesquisa e desenvolvimento via área de telecomunicações";

8. Aos 22 de Abril de 1999, a requerida PORTUGAL TELECOM, S.A. requereu, junto do INPI, o registo da marca nacional n° 336.623 "TeleCentro" destinada a assinalar serviços incluídos nas classes 35ª e 38ª serviços de publicidade, gestão de negócios comerciais e marketing serviços de telecomunicações, integrando voz, fax e serviços de internet relativos às telecomunicações";

9... bem como o registo da marca nacional n° 336.624 "TeleCentro PT" destinada a assinalar serviços incluídos nas classes 35ª e 38ª: serviços de publicidade, gestão de negócios comerciais e marketing serviços de telecomunicações, integrando voz, fax e serviços de internet relativos às telecomunicações";

10. A requerente MARIA S. apresentou reclamações no âmbito dos processos de registo das marcas n° 336.623 e n° 336.624;

11. Aos 13 de Setembro de 1999, o INPI remeteu notificação à requerida PORTUGAL TELECOM dando conta da apresentação daquelas reclamações;

12. A requerida publicitou os "TeleCentros PT" nas revistas "NOVA GENTE" n° 1204 de 13 e 19.10.1999, "CARAS" n° 215 de 9.10.1999 e "TVGuia" n.° 1080 de 16 a 22.10.1999;

13. Os "TeleCentro PT" correspondem a locais com telefone, fax e interenet, prestados através de serviços de telecomunicações da própria requerida;

14. As aludidas revistas são de grande divulgação e tiragem;

15. A requerida apenas realizou a campanha referida em 12 já não está a utilizar as marcas por si pedidas; 16. Esta campanha estava programada com, pelo menos, 2 meses de antecedência;

17. O presente procedimento cautelar foi proposto em 27 de outubro de 1999.

VII - Entretanto, por despacho de fls 182 e segs, este tribunal julgou deserto o recurso que tinha por

objecto a decisão que indeferia o pedido de ampliação da causa de pedir, pelas razões nele constantes.

Assim sendo, há que conhecer 2 recursos: um, que não admite o articulado superveniente requerido a fls. 123; outro, da decisão final proferida na providência.

VIII - É sabido que os recursos serão julgados, em princípio, pela ordem de sua interposição, de acordo

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Assim, por razões de ordem lógica, conhecer-se-á primeiro do recurso de agravo e, posteriormente, se for caso disso, do recurso da decisão final, se e na medida em que não for prejudicado pela eventual procedência do agravo.

IX - A questão fundamental a decidir naquele recurso traduz-se no seguinte: é ou não é admissível a

apresentação de articulado superveniente (uma vez verificados os respectivos pressupostos) no domínio do procedimento cautelar?

X - Liminarmente adiantamos já uma resposta negativa.

O procedimento cautelar evidencia uma estrutura processual bastante simplificada, de modo a beneficiar o fim essencial para que foi criado, isto é, a necessidade de acautelar o efeito o útil da acção. (1)

Distingue-se da acção, quer pela sua natureza jurídica processual, quer pelo seu formalismo.

O procedimento cautelar beneficia de ritualismo próprio, apenas dependente das especificidade regulamentadas números artigo 381º e segs.

Tais especificidades, melhor vincadas ficaram com a alteração do Código, pois que, neste pormenor,... "consagrou-se expressamente a urgência dos procedimentos cautelares, estabelecendo-se um prazo máximo para a decisão na primeira instância, determinando-se, consequentemente, uma gestão do andamento do processo, quer para as partes quer para o Tribunal, compatível com o respeito por tal prazo máximo,...." (preambulo do decreto lei n.° 329-A/95 de 12 de Dezembro.

Ora, tais especificidades não se compadecem com o formalismo próprio de uma acção normal e, assim sendo, não parece razoável pretender aplicar ao regime do procedimento cautelar, as regras supletivas previstas no Código para a acção (ordinária).

A estrutura simplificada é mais ajustada ao fim que lhe é específico, (o de acautelar o efeito útil da acção), que não se coaduna com a introdução e admissibilidade de articulados supervenientes, (art. 506º), sendo certo que, com esta proibição, não se coarctam os interesses das partes, pois têm sempre (ainda que posteriormente) ao seu alcance a acção propriamente dita, na qual se assegura a defesa das eventuais pretensões que eventualmente se pretendem inserir através daquele tipo de articulado superveniente (art. 2º)

(2).

Deste modo, improcedem pois as conclusões do agravo o que determina a improcedência do próprio recurso.

XI - Vejamos agora o agravo da decisão final.

A questão essencial a decidir, face ao conteúdo das conclusões da apelante, traduz-se, no fundo, em determinar se se verificam (ou não) os requisitos legais que fundamentam o pedido da providência cautelar.

O fundamento essencial que o Tribunal de primeira instância se serviu para indeferir a pretendida providência prende-se com a circunstância de ter concluído que... "a as requerentes não conseguiam demonstrar a probabilidade séria da existência dos respectivos direitos...".

De facto, refere-se ainda na decisão impugnada, que de acordo com os factos considerados provados, a requerente Maria Teresa pediu o registo das marcas "TeleCentro" 13 dias antes da requerida Portugal Telecom o ter efectuado, pelo que... "beneficia apenas do direito de prioridade de apresentação e do consequente direito de prioridade na concessão do registo relativamente a pedido dos idênticos apresentados posteriormente...".

Genericamente pode sintetizar-se o raciocínio do Tribunal de primeira instância no seguinte: as requerentes, segundo os factos provados, apenas demonstram ter pedido o registo da marca "TeleCentro"; tal pedido apenas lhe concede prioridade do registo em relação a pedido idênticos que venham a ser apresentados posteriormente; não demonstra ser efectivamente já titular desse registo, (porque na matéria de facto tal situação não se mostra aí consignada) e porque no pedido de apresentação de articulado superveniente embora faça referência a tal facto e o comprove documentalmente, o certo que como mesmo foi indeferido, os fundamentos nele incluídos não lhe podem aproveitar.

XII - Não se nos afigura, contudo, que esta seja a interpretação mais acertada.

(1) Antunes Varela - Manual de Proc. Civil, pág. 24.

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É certo que no referido articulado superveniente apresentado pelas requerentes se referia que, o pedido de registo de marca efectuada pelas requerentes fora efectivamente concedido pelo Instituto Nacional de propriedade industrial. Para o efeito, juntavam um documento - fotocópia simples do Boletim da Propriedade Industrial (folha 126) e protestava-se juntar certidão do teor da concessão de tal marca às requerentes. Este documento junto aos autos não foi impugnado e através dele se publicita a concessão à requerente Maria Teresa das marcas números 336343 e 336344 destinadas, respectivamente, a assinalar serviços incluídos na classe 35 e serviços incluídos na classe 38.

O documento em causa foi junto com o requerimento denominado articulado superveniente.

O Tribunal de primeira instância não admitiu o articulado superveniente, mas nada disse quanto ao documento que o acompanhava e que se encontra nos autos.

Trata-se, pois, de um facto constitutivo do direito da requerente Maria Teresa que ocorreu posteriormente à data de interposição do requerimento inicial e que o Tribunal deve tomar em consideração, de modo a que a decisão a proferir corresponda à situação existente no momento da encerramento da discussão, art. 663º do CPC).

Acresce que, desde a data em que requerente Maria Teresa solicitou o registo da marca, daí emergiu, pelo menos, o direito de prioridade de registo - artigos 11º e 170º do Código de Propriedade Industrial.

Trata-se, sem dúvida, de uma autêntica expectativa jurídica que obviamente merece tutela legal e judicial. Como refere o Prof. Galvão Telles, "é mais do que a esperança e menos do que o direito. Mais do que a esperança, porque beneficiária de uma protecção legal, traduzida em providências tendentes a defender o interesse do titular e a assegurar-lhe, quanto possível, a aquisição futura do direito. Menos do que o direito, porque ainda não é este: é o seu germe, o seu pronúncio ou guarda avançada, como que o direito em estado embrionário" (3)

XIII - Assim, o pedido de registo traduz um direito que, a confirmar-se, confere prioridade a qualquer

outro de idêntica natureza.

Por outro lado, traduz-se numa expectativa que indiscutivelmente merece tutela jurídica.

Assim, comprovando-se a concretização do registo da marca, à requerente Maria Teresa, tal situação conduz à conclusão de que se demonstra lesado o direito invocado pela apelante Maria Teresa.

Nessa perspectiva procedem as conclusões da agravante.

Assim sendo, verificam-se, pois, os pressupostos para o decretamento da providência cautelar em causa, o que conduz à procedência do recurso.

XIV - Em conclusão:

a) O formalismo processual do procedimento cautelar contém certas especificidades que não se compadecem com o formalismo próprio de uma acção normal e, assim sendo, não comporta nem admite articulado superveniente, nos termos consagrados no art. 506º do CPC;

b) O pedido de registo de marca traduz um direito que, a confirmar-se, confere prioridade a qualquer outro de idêntica natureza, uma vez que configura uma expectativa que indiscutivelmente merece tutela jurídica.

XIV

Deste modo e pelo exposto julga-se procedente este recurso de agravo, revoga-se a decisão da primeira instância e defere-se a providência cautelar nos precisos termos pedidos.

Custas do agravo interlocutório de fls. 123 pelas requerentes. Custas do agravo da decisão final pela requerida.

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Registe e notifique. Lisboa, 10.05.2001 Silva Santos Bruto da Costa Catarina Manso

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