MUDANDO O FOCO: UM ESTUDO EXPLORATÓRI O SOBRE USO DE DROGAS
E VI OLÊNCI A NO TRABALHO ENTRE MULHERES DAS CLASSES
POPULARES DA CI DADE DO RI O DE JANEI RO, BRASI L
1Helena Mar ia Scher low sk i Leal Dav id2 Cat h er in e Cau field3
David HMSL, Caufield C. Mudando o foco: um est udo explorat ório sobre uso de drogas e violência no t rabalho ent r e m ulher es das classes popular es da cidade do Rio de Janeir o, Br asil. Rev Lat ino- am Enfer m agem 2005 n ov em br o- dezem br o; 1 3 ( n ú m er o especial) : 1 1 4 8 - 5 4 .
Est e é u m est u do ex plor at ór io par a o m apeam en t o de f at or es en v olv idos n a r elação en t r e u so de dr ogas lícit as e ilícit as e violência no t r abalho, em um gr upo de m ulher es das classes popular es da cidade do Rio de Jan eir o. Par a est e est u do foi u t ilizada u m a abor dagem qu an t it at iv a descr it iv a e an alít ica, e t am bém ab or d ag em q u alit at iv a a p ar t ir d e en t r ev ist as ap r of u n d ad as com m u lh er es q u e sof r em ou h av iam sof r id o sit u ações de v iolên cia n o t r abalh o, u t ilizan do a m et odologia do Discu r so do Su j eit o Colet iv o. Os r esu lt ados ev iden ciam sit u ações sócio- dem ogr áficas e de t r abalh o qu e podem ser con sider adas com o possív eis fat or es de r isco par a o consum o de dr ogas e v iolência no t r abalho. A análise qualit at iv a m ost r ou a for m a com o est e gr u po de m u lh er es v ê o fen ôm en o do u so de dr ogas e da v iolência no t r abalh o, am pliando a com pr eensão sob r e est as q u est ões e f or n ecen d o su b síd ios con ceit u ais e m et od ológ icos p ar a est u d os ad icion ais sob r e o t em a.
DESCRI TORES: m ulher es; t r abalho fem inino; v iolência; t r anst or nos r elacionados ao uso de subst âncias
CHANGI NG THE FOCUS: AN EXPLORATORY STUDY OF DRUG USE AND W ORPLACE
VI OLENCE AMONG W OMEN OF POPULAR CLASSES I N RI O DE JANEI RO, BRAZI L
Th is ex plor at or y st u dy aim ed t o in v est igat e f act or s r elat ed t o t h e u se of illicit an d licit dr u gs an d workplace violence in a group of wom en from popular classes in t he cit y of Rio de Janeiro. We used a descript ive and analyt ic quant it at ive approach was used, as well as a qualit at ive approach t hrough in- dept h int erviews wit h w om en w h o su f f er ed or w er e su f f er in g w or k p lace v iolen ce, u sin g t h e collect iv e su b j ect d iscou r se an aly sis m et h odology . Th e r esu lt s sh ow ed sociodem ogr aph ic an d w or k sit u at ion s t h at can be con sider ed as possible r isk f act or s f or d r u g con su m p t ion an d w or k p lace v iolen ce. Th e q u alit at iv e an aly sis sh ow s h ow t h is g r ou p p er ceiv es t h e p h en om en a of d r u g u se an d w or k p lace v iolen ce, ex p an d in g t h e com p r eh en sion ab ou t t h ese issues and pr ov iding concept ual and m et hodological elem ent s for addit ional st udies on t his subj ect .
DESCRI PTORS: w om en ; w om en , w or k in g; v iolen ce; su bst an ce- r elat ed disor der s
CAMBI ANDO EL FOCO: UN ESTUDI O EXPLORATORI O ACERCA DEL USO DE
DROGAS Y VI OLÊNCI A EN EL TRABALHO DE MUJERES DE LAS
CLASSES POPULARES DE RI O DE JANEI RO, BRASI L
La finalidad de est e est udio ex plor at or io fue conocer los fact or es r elacionados con el uso de dr ogas lícit as e ilícit as y la violencia en el t rabaj o en un grupo de m uj eres de clases populares en la ciudad de Rio de Jan eir o. Par a est e est u dio se u t ilizó u n a apr ox im ación cu an t it at iv a descr ipt iv a y an alít ica, adem ás de u n a ap r ox im ación cu alit at iv a a p ar t ir d e en t r ev ist as en p r of u n d id ad con m u j er es q u e su f r en o h ab ían su f r id o sit uaciones de violencia en el t rabaj o. Se ut ilizó la m et odología de análisis del discurso del suj et o colect ivo. Los r esult ados ev idencian sit uaciones sociodem ogr áficas y de t r abaj o que pueden ser consider adas com o posibles fact or es de r iesgo par a el consum o de dr ogas y v iolencia en el t r abaj o. El análisis cualit at iv o m uest r a com o est e g r u p o d e m u j er es p er cib e el f en óm en o d el u so d e d r og as y d e v iolen cia en el t r ab aj o, am p lian d o la com pr ensión sobr e est as cuest iones y dando apor t es concept uales y m et odológicos par a est udios adicionales sobr e el t em a.
DESCRI PTORES: m uj er es; t r abaj o de m uj er es; v iolencia; t r ast or nos r elacionados con subst ancias
1
As opiniões expressas nest e art igo são de responsabilidade exclusiva dos aut ores e não represent am a posição da organização onde t rabalham ou de sua adm inist r ação; 2 Dout or em Saúde Pública, Pr ofessor Adj unt o da Faculdade de Enfer m agem da Univ er sidade do Est ado do Rio de Janeir o, e- m ail: h elen ad @u er j . b r ; 3 Dou t or em Est u d os Sociológ icos, Pr of essor Assist en t e d a Facu ld ad e d e En f er m ag em d a Un iv er sid ad e d e Alb er t a, e- m ail: c.caufield@ualbert a.ca
I NTRODUÇÃO
O
p r ocesso d e g lob alização n ão t em sid oex am in ad o ap en as d e u m a p er sp ect iv a econ ôm ica.
A r eor ient ação das r elações de m er cado ent r e países
acom panhou- se de m udanças sociais, sobr et udo nos
países em desenv olv im en t o. Tais m u dan ças dev em
-se, sobr et udo, à cr escent e concent r ação de poder e
c a p i t a l n a s m ã o s d e p o u c o s a t o r e s , l e v a n d o à
desigualdade ent re o m undo dos ricos e o dos pobres.
Em r e l a ç ã o a o s p a ís e s l a t i n o - a m e r i c a n o s , à
i n a b i l i d a d e e m co n t r o l a r se u s p r ó p r i o s f l u x o s d e
cap it al, ag or a su b m et id os ao cap it al in t er n acion al,
segue- se a subor dinação das suas quest ões polít icas
e sociais de m odo a fazer as adapt ações necessár ias
p a r a a q u a l i f i c a ç ã o d e s u a s n e c e s s i d a d e s d e
financiam ent o j unt o aos bancos int ernacionais. O assim
d e n o m i n a d o a j u s t e m a c r o e c o n ô m i c o , o u a j u s t e
est r ut ur al pr ov ocou im por t ant e im pact o nas polít icas
de bem est ar social, ent re est as, as de regulação das
r elações de t r abalho. Flex ibilização, sub- cont r at ação,
precarização das relações de t rabalho e um crescent e
desem pr ego são pr oblem as que afet am am plam ent e
os países lat inos( 1).
Em r el a çã o à f o r ça d e t r a b a l h o f em i n i n a ,
ch am a a at en ção a su a p ar t icip ação cr escen t e n a
econ om ia n acion al: som en t e en t r e 1 9 8 5 e 1 9 9 5 , a
f or ça d e t r ab alh o f em in in a cr esceu 6 3 % , com u m
a cr é sci m o d e 1 2 m i l h õ e s d e t r a b a l h a d o r a s( 2 ). As
m u d a n ça s n o t r a b a l h o f e m i n i n o n ã o sã o a p e n a s
n u m ér icas: o per fil da m u lh er t r abalh ador a m u dou ,
de j ovens, solt eiras e sem filhos, para a incorporação
crescent e de m ulheres m ais velhas, casadas e m ães.
Em um a sociedade pat r iar cal com o a br asileir a, ist o
não represent ou, no ent ant o, o com part ilham ent o das
t ar efas dom ést icas com os hom ens – a necessidade
de conciliar papéis fam iliares e profissionais, e a dupla
j o r n ad a d e t r ab al h o são a o u t r a f ace d o t r ab al h o
fem inino. Mudanças na ident idade fem inina, t r azidas
pelo aum ent o na escolaridade e dim inuição no núm ero
de filhos t am bém t r oux er am m udanças par a o per fil
da m ulher t rabalhadora. No ent ant o, est as m udanças
não beneficiam de m aneir a igual a m ulher br asileir a
– q u e m é p o b r e , d e b a i x a e s c o l a r i d a d e e s e m
q u a l i f i ca çã o p r o f i ssi o n a l , co m f i l h o s p a r a cr i a r e
precisando t rabalhar ainda não usufrui das conquist as
fem inist as das últ im as décadas.
As relações precárias de t rabalho que se dão
pelo sub- em prego, ou pelo t rabalho por cont a própria,
o u ai n d a i r r eg u l ar, at i n g em m ai s a m u l h er q u e o
hom em no Br asil. Os salár ios fem ininos t am bém são
m ais baix os qu e os m ascu lin os, n a m esm a f u n ção.
Em relação à t axa de desem prego, ent re 1990 e 2002
est a ficou em 8.0 pont os percent uais para o Brasil( 3).
Tem os, assim , um cenário que afet a significat ivam ent e
a vida da m ulher t rabalhadora brasileira. Vale lem brar
que, segundo o censo do I BGE de 2000, cerca de um
q u a r t o d a s f a m íl i a s b r a s i l e i r a s é l i d e r a d a
fin an ceiram en t e pela m u lh er.
Consum o de dr ogas por m ulher es e v iolência
Ten d o co m o p a n o - d e- f u n d o est e co n t ex t o
econôm ico e sócio- polít ico, alguns dados ev idenciam
que o uso e abuso de drogas lícit as e ilícit as por part e
d a p op u lação f em in in a é u m a q u est ão q u e m er ece
at enção: no Brasil, o consum o de drogas por m ulheres
t r iplicou ent r e 1993 e 1998. A r elação ent r e uso de
dr ogas e v iolência é m uit as v ezes m ist ificada. Trat
a-se d e u m f en ô m en o co m p l ex o , cu j a an ál i a-se d ev e
n ecessar iam en t e lev ar em con t a v ar iáv eis sociais,
ét nicas, polít icas e cult ur ais( 4).
O u so e abu so de álcool e dr ogas ilícit as é
f r eqü en t e en t r e pessoas n ão v iolen t as. No en t an t o,
e st a s su b st â n ci a s co st u m a m e st a r p r e se n t e s e m
m u i t a s si t u a çõ e s d e v i o l ê n ci a – i n cl u i n d o t a n t o
agr essor es qu an t o v ít im as. A con ex ão en t r e u so de
subst âncias e violência é com plexa, e m ais sugest iva
do que conclusiv a( 5- 6). Ainda assim , há evidências de
um a cr escent e pr ev alência de v iolência associada ao
a b u s o d e d r o g a s n a A m é r i c a La t i n a . A q u i , a
g lob alização d o m er cad o ag r av a o p r ob lem a, p ela
f acilit ação ao m er cad o d e d r og as, a d iv er sif icação
das f on t es de pr odu ção, e o au m en t o da dem an da
em diversos grupos populacionais, incluindo m ulheres.
Além d est es, ou t r os f at or es con t r ib u em , t ais com o
as m udanças na est rut ura fam iliar, no papel da m ulher,
de est ilo de vida e de valores( 5,7- 8).
O u so d e d r o g as o co r r e em u m am b i en t e
econ ôm ico, social, leg al, sit u acion al e cu lt u r al q u e
in f lu en cia p ot en ciais com p or t am en t os v iolen t os( 5 , 8 ).
D r o g a s d i f e r e n t e s a f e t a m d e m o d o d i f e r e n t e o s
in div ídu os, de acor do com car act er íst icas pessoais,
i d a d e , s e x o , h i s t ó r i a e f a t o r e s c u l t u r a i s . Co m o
exem plo, podem os cit ar os bem docum ent ados efeit os
da associação da ingest ão de álcool com anfet am inas
e cocaína( 9).
Fo i d e s e n v o l v i d o u m m o d e l o c o n c e i t u a l
t r ipar t it e par a classificar possív eis fat or es env olv idos
d i r et a m en t e a sso ci a d a a o s ef ei t o s d a s d r o g a s n o
sist em a nervoso cent ral ( violência farm acológica) est e
m odelo in clu i a v iolên cia socialm en t e pr odu zida em
pr ocessos com o a com er cialização de dr ogas ilícit as
( v iolên cia sist êm ica) , e a v iolên cia em pr egada par a
a o b t en ção d e d i n h ei r o p ar a a co m p r a d e d r o g as
( v i o l ê n ci a e co n ô m i ca co m p u l si v a ) . Se g u n d o e st e
m o d e l o , a v i o l ê n c i a s i s t ê m i c a e a r e l a c i o n a d a
d i r e t a m e n t e a o s e f e i t o s d a s s u b s t â n c i a s s ã o
r e p o r t a d a s q u a s e n a t o t a l i d a d e e m h o m e n s , e
raram ent e em m ulher es. Tant o para hom ens quant o
p ar a m u l h er es, o ál cool é a su b st ân ci a com m ai s
f r eqü ên cia associada à v iolên cia f ar m acológica, e a
c o c a ín a e h e r o ín a a s s u b s t â n c i a s a s s o c i a d a s à
v iolên cia sist êm ica.
Violência no t r abalho
Nos Est ados Unidos, o Cent ro de Cont role de
Doenças afirm a que a violência no t rabalho aum ent ou
300% na últ im a década. Fat or es de r isco associados
a a g r e s s õ e s n ã o f a t a i s r a r a m e n t e t ê m s i d o
d o c u m e n t a d o s . En t r e t a n t o , a l g u n s e s t u d o s t ê m
d e m o n st r a d o q u e f a t o r e s co m o g ê n e r o , i n se r çã o
ét n ica, ocu p ação e ab u so d e álcool p ar ecem est ar
f o r t e m e n t e a sso ci a d o s à s a g r e ssõ e s n o l o ca l d e
t r ab al h o( 1 2 - 1 3 ). Na Am ér i ca Lat i n a ex i st em p o u cas
infor m ações a r espeit o dest a sit uação.
A declaração feit a pela Assem bléia Geral das
Nações Unidas em 1993 e aceit a pela OMS em 1996
co n ce i t u a v i o l ê n ci a co n t r a a m u l h e r co m o se n d o
qualquer agressão com base na diferença de gênero,
capaz de r esu lt ar em dan o f ísico, m or al, sex u al ou
p sicológ ico.
A v i o l ên ci a d o m ést i ca t em si d o o t i p o d e
v iolên cia m ais bem docu m en t ada em seu s aspect os
det erm inant es e condicionant es, e suas conseqüências
d o q u e a v i ol ên ci a n o t r ab al h o f em i n i n o. Sob r e a
qu est ão da r elação en t r e o m u n do do t r abalh o e a
saúde da m ulher t am bém encont ram os est udos, que,
no ent ant o, não abor dam especificam ent e a quest ão
da v iolência no t r abalho( 14).
A l é m d e h a v e r a i n d a p o u c o s e s t u d o s
específicos sobre o t em a no Brasil, o foco é t am bém
d i f e r e n t e : n o s p a ís e s n o r t e - a m e r i c a n o s , a
pr eocupação cent r a nos par ece ser a de car act er izar
sit u ações, am bien t es e com por t am en t os de r isco, e
def in ir in st r u m en t os in f or m at iv os par a a pr ev en ção
d i r e t a d e a ci d e n t e s e v i o l ê n ci a s n o t r a b a l h o . O
t rabalhador é que é v ist o com o o pr incipal agr essor,
sobret udo o hom em j ovem , port ador de arm a de fogo,
com pr oblem as de con su m o de álcool, e pr oblem as
fam iliar es. Há um a t endência em se focar o assunt o
do pont o de v ist a da v it im ização do em pr egador ou
pat r ão, e não do t rabalhador.
Est a sim p lif icação d o r isco d e v iolên cia n o
t r abalh o n ão par ece dar con t a da com plex idade do
fenôm eno. A discussão sobr e a v iolência psicológica,
q u e n o Br a si l t e m si d o t a m b é m d e n o m i n a d a d e
a ssé d i o m o r a l n o t r a b a l h o , t e m g a n h a d o e sp a ço
crescent e em fóruns de debat es t rabalhist as, m as na
ár ea d e saú d e é, ao n osso v er, p ou co con clu siv a.
Lev an d o- se em con t a a v u ln er ab ilid ad e d o g ên er o
fem inino par a a quest ão da violência, e sua inser ção
infer ior izada no m undo do t r abalho, em r elação aos
hom ens, é de sum a im port ância conhecer m elhor est a
q u est ão , e i d en t i f i car as n u an ces r el aci o n ad as às
div er sas f or m as e sit u ações de t r abalh o da m u lh er
d a s cl a sse s p o p u l a r e s, e a s r e a i s o u p o t e n ci a i s
ex posições à v iolên cia.
METODOLOGI A
Fo i r e a l i z a d o u m e s t u d o q u a n t i t a t i v o
ex plor at ór io, com am ost r a não pr obabilíst ica de 109
m u l h e r e s r e s i d e n t e s e m c o m u n i d a d e s e b a i r r o s
p op u lar es d a cid ad e d o Rio d e Jan eir o, d u r an t e os
m eses de fevereiro a m aio de 2004, e, dent re est as,
u m a a b o r d a g e m q u a l i t a t i v a c o m 1 0 m u l h e r e s ,
u t i l i za n d o a m e t o d o l o g i a d o D i scu r so d o Su j e i t o
Colet iv o. O cr it ér io de in clu são foi o de ser m u lh er
t r abalhador a, com idade ent r e 1 8 e 6 0 anos, r enda
do t r abalho at é quat r o salár ios m ínim os r egionais, e
aceit ar par t icipar v olunt ar iam ent e do est udo.
A est r u t u r ação de u m a am ost r a in t en cion al
se deu em decor r ência da dificuldade em com plet ar
a a m o s t r a p r o b a b i l ís t i c a a l e a t ó r i a p r e v i a m e n t e
desen h ada, dev ido às dif icu ldades de r ealização de
ent r ev ist as à noit e, após o r et or no das m ulher es do
seu t rabalho, em função da sit uação de t ensão social
sof r ida pela popu lação da cidade do Rio de Jan eir o
devido à violência urbana, sit uação que se t orna m ais
ev ident e nas com unidades e bair r os popular es. Est e
f a t o t a m b é m o c o r r e e m o u t r a s c i d a d e s l a t i n o
-am er icanas, onde a sensação de t em or gener alizada
t om a cont a da população de m uit os cent ros urbanos.
Em e s t u d o s e x p l o r a t ó r i o s , o n d e a s
i n f o r m a ç õ e s n e c e s s á r i a s p a r a a c o n s t r u ç ã o d a
i n t e n ci o n a l p o d e a t é m e sm o se r m a i s ú t i l q u e a
aleat ória, j á que não há, nest e m om ent o, a int enção
de se fazer infer ências que possam ser consider adas
com o r epr esen t at iv as da popu lação com o u m t odo,
m as sim levant ar algum as hipót eses e t est ar variáveis
c a p a z e s d e e x p l i c a r m e l h o r o f e n ô m e n o a s e r
est u d ad o.
Par a a colet a de dados qu an t it at iv os for am
u t ilizados: u m qu est ion ár io sócio- dem ogr áf ico e de
sit u ação de t r abalh o e qu est ion ár io sobr e v iolên cia
n o t r a b a l h o , a m b o s a d a p t a d o s d e m a t e r i a l d a
Or ganização I nt er nacional do Trabalho - OI T, e com
a aquiescência da m esm a; quest ionár io de av aliação
de con su m o de álcool TWEAK, e t abela sim ples de
ident ificação de consum o de dr ogas ilícit as e cigar r o.
O t em po- lim it e par a a ident ificação de sit uações de
v iolência no t r abalho e de uso de subst âncias foi de
um ano ant es, a cont ar da dat a da ent revist a.
As ent r evist as pessoais for am r ealizadas nos
dom icílios das m ulher es, m ediant e aceit e pr év io das
m e sm a s. Co n t a t o s a n t e r i o r e s co m a s l i d e r a n ça s
com unit ár ias t am bém for am feit os.
Pa r a a a n á l i s e d o s d a d o s f o i u t i l i z a d a
est at íst ica descrit iva, para as freqüências e proporções
de uso de álcool, cigar r o e dr ogas ilícit as, e par a as
sit u ações d e v iolên cia f ísica, p sicológ ica e asséd io
sexual no t rabalho. Para a ident ificação de fat ores de
risco e prot eção, foi usada análise bivariada ent re as
v ar iáv eis sócio- dem ogr áficas e as de v iolência e uso
de drogas. A verificação da associação ent re variáveis
q u e p o ssam ser co n si d er ad as f at o r es d e r i sco f o i
r ealizada pelo cálculo do odds r at io.
A a n á l i se d a s e n t r e v i st a s a p r o f u n d a d a s,
u t i l i za n d o a m e t o d o l o g i a d o D i scu r so d o Su j e i t o
Colet ivo, perm it iu a const rução de um a “ fala colet iva”
capaz de ex pr essar algu m as r epr esen t ações sociais
im p or t an t es p ar a a com p r een são sob r e a m an eir a
com o est as m ulheres vêem e pensam sobre o uso de
dr ogas e sobr e a v iolência no t r abalho.
RESULTADOS E DI SCUSSÃO
Os r e s u l t a d o s d a a n á l i s e q u a n t i t a t i v a
descrit iva é discut ido a seguir, est abelecendo t am bém
u m a r e l a ç ã o c o m a l g u m a s f a l a s s o c i a i s o b t i d a s
abor dagem qu alit at iv a.
Sobr e o con su m o de dr ogas, o álcool f oi a
su b st ân cia m ais u t ilizad a - 4 5 % d as m u lh er es d a
m o st r a f a zi a m co n su m i a m á l co o l . A a n á l i se d o s
escor es do t est e TWEAK ev iden ciou qu e os escor es
de 2 ou acim a, associados à um a m aior probabilidade
de t er problem as com o uso do álcool, foram obt idos
em 37 ent revist as, represent ando 75% das m ulheres
que afir m ar am fazer uso de bebida alcoólica.
Em r e l a ç ã o à i d e n t i f i c a ç ã o d e p o s s ív e i s
f a t o r e s d e r i s c o , c a p a z e s d e o r i e n t a r e s t u d o s
adicion ais dest acar am - se as segu in t es v ar iáv eis:
- Est ado civil: a m édia de escores do TWEAK ent re as
m ulheres separadas foi ligeiram ent e m aior ( 2,75) que
ent r e as casadas ( 1,89) e as solt eir as ( 1,75) . Sobr e
est a qu est ão, aspect os r elacionados à subj et iv idade
da m ulher separ ada, que t em de assum ir sozinha a
c h e f i a d a f a m íl i a p r e c i s a m s e r m a i s b e m
com p r een d id os;
- Presença de com panheiro ou m arido – independent e
do est ado civ il r elat ado, 45% das m ulher es v iv er am
sozinhas no m ês ant erior à ent revist a. Ent re est as, o
e sco r e d o t e st e TW EAK f o i t a m b é m l i g e i r a m e n t e
super ior ao obt ido ent r e m ulher es que v iv er am com
m a r i d o o u c o m p a n h e i r o . N ã o f o i v e r i f i c a d a
pr obabilidade est at íst ica ( OR= 1, 00) , no ent ant o.
- Filhos – nest a am ost r a, a m ulher que possui filhos
apr esent ou r isco de consum o de álcool de um pouco
m aior que a não possui filhos ( OR= 1,52) .
- Tipo de t rabalho – m anual, int elect ual ou de relação:
o t r a b a l h o d e r e l a ç ã o a p r e s e n t o u e s c o r e s m a i s
elev ados de TWEAK em r elação aos dois ant er ior es.
A escolar idade, r eligião e n ú m er o de f ilh os
f or am f at or es qu e n ão in t er f er ir am n o con su m o de
á l co o l n a a m o st r a est u d a d a . Al g u m a s i n f er ên ci a s
est at íst icas ( an alise b iv ar iad a e r eg r essão log íst ica
ent r e v ar iáv eis) não ev idenciar am r elação est at íst ica
en t r e v ar iáv eis n est a am ost r a.
A d iv er sid ad e n a in ser ção r elig iosa é f at or
expressivo na freqüência de m ulheres que consom em
álcool: 81% dest as são cat ólicas, 13% pr ot est ant es,
e 4% de out ras religiões. As rest rições m orais ao uso
d o á l c o o l p e l a s r e l i g i õ e s e s e i t a s p r o t e s t a n t e s ,
sobr et udo as que se inser em no gr upo denom inado
d e n e o p e n t e co st a i s, co m g r a n d e p e n e t r a çã o n o s
bair r os per if ér icos u r ban os br asileir os são bast an t e
con h ecid as.
O ex am e m ais d et alh ad o d est a v ar iáv el, a
f im d e esp ecif icar a ações d e cad a ig r ej a ou seit a
qu an t o ao u so do álcool poder á apon t ar dif er en ças
im p or t an t es. Vale lem b r ar q u e a d ist ân cia en t r e o
“ ser ” e o “ est ar ”, m ais com u m n a r eligião cat ólica,
p r at icam en t e d esap ar ece n as ig r ej as p en t ecost ais,
t r az no seu discur so a ex pr essão da sua ident idade
principal. Todos os out ros papéis sociais que possuem
s ã o s e c u n d á r i o s . A f o r t e o p o s i ç ã o a q u a l q u e r
com por t am en t o r econ h ecido com o “ cat ólico” ou “ da
um banda” inclui o est abelecim ent o de r ígidas r egr as
d e v e st u á r i o , e a p r o i b i çã o d o u so d e b e b i d a s e
cig ar r o.
S ã o c o n h e c i d o s o s e f e i t o s b e n é f i c o s d a
co n v er são r el i g i o sa, so b r et u d o n as d en o m i n açõ es
r eligiosas cr ist ãs de or ient ação pent ecost al, sobr e os
co m p o r t a m e n t o s i n d e se j á v e i s, e q u e i n t e r f e r e m
negat ivam ent e na vida fam iliar: o sexual, e o uso de
b e b i d a s . Pa r e c e e x i s t i r, a s s i m , u m a m a i o r
pr obabilidade, en t r e os de r eligião pr ot est an t e, em
t o r n a r - s e a b s t ê m i o s . Va l e l e m b r a r q u e c o m
f r eqü ên cia, a con v er são r eligiosa at in ge som en t e a
m ulher, na fam ília( 15).
Em cont r aposição à post ur a cont r a o uso da
b e b i d a , e n c o n t r a m o s , a p a r t i r d a e n t r e v i s t a s
aprofundadas, um a fala social que vê o uso do álcool,
s o b r e t u d o d a c e r v e j a , c o m o a l g o q u e n ã o t r a z
n e c e s s a r i a m e n t e p r o b l e m a s . A s m u l h e r e s q u e
co n so m e m á l co o l o f a ze m g e r a l m e n t e n o f i m d e
se m a n a , co m o f o r m a d e l a ze r o u i n co r p o r a d a a
for m as de lazer, e não at r ibuem efeit os negat iv os a
i sso . Al g u m a s a l eg a r a m q u e o ef ei t o d o á l co o l é
r elax an t e, e a r elação com o t r abalh o qu e fazem é
q u e b eb er ser v e p ar a aj u d ar a r el ax ar n o f i m d e
sem ana, após um a sem ana dur a de t r abalho.
O uso do cigarro foi encont rado em 21% das
m u lh er es, e n ão apar ece associado n u m er icam en t e
a fat or es sócio- dem ogr áficos ou de t r abalho. Não foi
r epor t ado o uso de nenhum a dr oga ilícit a.
A ocor r ên cia d e v iolên cia n o t r ab alh o, em
su a s t r ê s f o r m a s d e scr i t a s n o q u e st i o n á r i o , n ã o
a p r e se n t a v a r i a çõ e s e x p r e ssi v a s n o s e sco r e s d o
TWEAK conform e ocorram ou não no últ im o ano ant es
da en t r ev ist a.
O u so d o ci g a r r o f o i p e sq u i sa d o a p e n a s
e n q u a n t o p r e se n t e o u a u se n t e , se m e sco r e s d e
q u a n t i d a d e s o u t i p o d e c i g a r r o . N a a m o s t r a
inv est igada, 21% das m ulher es afir m ar am fazer uso
de cigar r o.
Nen h u m a d as v ar iáv eis sócio- d em og r áf icas
puder am ser consider adas com o possív eis fat or es de
r isco para o uso do t abaco. Tam pouco os fat or es do
a m b i e n t e e c o n d i ç õ e s d e t r a b a l h o p u d e r a m s e r
v er ificados n est e sen t ido.
Não houve relat o de uso de nenhum t ipo de
droga ilícit a no período correspondent e ao ano ant erior
ao da dat a da ent revist a. Vale ressalt ar que est e t ipo
de per gunt a nem sem pr e for nece r espost a confiáv el,
e q u e a n eg a t i v a em a ssu m i r o u so d e q u a l q u er
subst ância ilícit a pode est ar r elacionada ao m edo de
h a v er a l g u m t i p o d e i n v est i g a çã o , em f u n çã o d a
ex ist ên cia de u m a polít ica br asileir a an t i- dr ogas de
car át er pu n it iv o.
Dent r e os 9 casos que r elat ar am t er sofr ido
algum t ipo de violência física, 3 ident ificaram client es
ou pacient es com o os agressores, e 1 caso ident ificou
u m c o l e g a d e t r a b a l h o . D u a s m u l h e r e s n ã o
responderam a est a pergunt a. Em relação a considerar
e st e u m i n ci d e n t e t íp i co d o l o ca l d e t r a b a l h o , 3
con sider ar am qu e n ão, e 4 qu e sim . Nov am en t e, 2
m ulher es não r esponder am a est a per gunt a.
Na sua grande m aioria, est e t ipo de incident e
ocor r eu d en t r o d o am b ien t e d e t r ab alh o ( n = 6 ) . A
r eação ao at aque inclui a defesa física ( n= 3 ) , pedir
ao agressor para parar ( n= 2) , e apenas um a m ulher
buscou aj uda de sua associação pr ofissional. Quat r o
consideraram que o incident e poderia t er sido previst o,
e 3 consider ar am que não.
En t r e a s co n se q ü ê n ci a s i m e d i a t a s p a r a a
saúde e o bem est ar da m ulher agr edida, a m aior ia
infor m ou que ficou “ super - aler t a” após o at aque, em
guar da cont r a a ocor r ência de nov o at aque. Quat r o
m ulher es r elat ar am t er sent ido sensação de esfor ço
e cansaço após o at aque, e ev it ar am falar dest e, e
apenas 2 infor m ar am t er t ido im agens r epet idas do
ocor r id o.
Em apen as 2 casos h ou v e algu m a ação de
i n v est i g ação d o at aq u e. As co n seq ü ên ci as p ar a o
a g r e s s o r i n c l u ír a m a d v e r t ê n c i a v e r b a l ( n = 1 ) e
descon t in u idade do cu idado ( n = 1 ) , e em 2 casos,
n ão h ou v e n en h u m a con seqü ên cia para o agr essor.
O pat r ão ou ser v iço ofer eceu algum t ipo de apoio a
apenas um a m ulher, e 5 r elat aram não t er r ecebido
n en h u m apoio.
A violência psicológica, ou abuso verbal foi a
f o r m a m a i s f r e q ü e n t e d e v i o l ê n c i a n o t r a b a l h o
e n c o n t r a d a : 3 3 % d a s m u l h e r e s t r a b a l h a d o r a s
sof r er am alg u m t ip o d e v iolên cia p sicológ ica, q u e
inclui o deboche, gr it ar, hum ilhar v er balm ent e, fazer
do out ro “ bode expiat ório” ou m ot ivo de brincadeiras
hum ilhant es. Longe de se const it uir em event o isolado,
a violência psicológica foi enfrent ada por m ais de um a
v ez pela m aior ia das m ulher es agr edidas – em 83%
dos casos, a agr essão ocor r eu m ais de u m a v ez, e
em 20% , t odo o t em po.
f alas sociais, v er if icam os q u e f r eq ü en t em en t e est e
t ipo de v iolência foi at r ibuído à pat r oa, m ais que ao
p at r ão d o sex o m ascu lin o. I st o p od e ser ex p licad o
p o r ser a m u l h er q u em h i st o r i ca m en t e a ssu m e o
c o m a n d o d a s a t i v i d a d e s d e m a n u t e n ç ã o d o l a r,
i n cl u i n d o a d eci são sob r e con t r at ar e d esp ed i r as
em pregadas dom ést icas. Est e par ece ser um assunt o
sob r e o q u al os h om en s p ossu em p ou ca ou q u ase
n en h u m a gov er n abilidade e in t er esse.
A r eação da m ulher a est e t ipo de agr essão
pode t om ar rum os diversos: em cont ext os diferent es,
um a m esm a m ulher pode r eagir de for m a subm issa
o u a t i v a , d e p e n d e n d o d a s r e l a çõ e s p r é v i a s, d a s
v ant agens do t r abalho, da sit uação de v ida.
As que reagem dem onst ram , no seu discurso,
possu ír em u m a n oção, ain da qu e v aga, sobr e seu s
direit os de cidadania e sobre a inj ust iça represent ada
pela v iolência do pat r ão cont r a o em pr egado.
O m e d o d o d e s e m p r e g o é f a t o r
pr eponder ant e, que faz com que m uit as m ulher es se
calem ao enfrent ar a violência no t rabalho, sobret udo
a v i o l ê n ci a p si co l ó g i ca , m a i s d i sf a r ça d a , m e n o s
ex p lícit a. No en t an t o, n ot a- se em alg u n s d iscu r sos
q u e o m ed o d o d esem p r eg o n ão é cap az d e f azer
com que a m ulher t olere indefinidam ent e a agressão.
Depois de algum t em po, ela busca alt er nat iv as par a
escapar dest a sit u ação. Um a das m u lh er es af ir m ou
qu e ch egou a f icar desem pr egada par a n ão t oler ar
as agr essões v er bais da pat r oa.
A p o s s i b i l i d a d e d e p r e v e r e s t e t i p o d e
agr essão n ão par ece ser con sider ada: 2 1 m u lh er es
acham que o incident e não poderia t er sido previst o.
Acr esce a ist o o f at o de qu e 8 8 , 8 % dos in ciden t es
ocorreram dent ro do am bient e de t rabalho, e apenas
3 casos for a dest e.
A im pu n idade par a est e t ipo de agr essão é
o u t r a q u e s t ã o s u g e r i d a p e l o s d a d o s : 7 5 % d a s
m u l h er es a g r ed i d a s d esco n h ecem q u a i s f o r a m a s
conseqüências para o agr essor, e som ent e um caso
foi report ado às aut oridades policiais. De m odo geral,
ist o su g er e q u e as m u lh er es en car am est e t ip o d e
agressão com o inevit ável, e com poucas possibilidades
de ser em m or al ou j udicialm ent e r essar cidas.
Out ro aspect o que deve ser levado em cont a
é o de que m ulheres que t rabalham , e que se inserem
n a f aix a salar ial est u d ad a, en t r am com su a r en d a
com o suport e básico da renda fam iliar com o um t odo.
O t r abalh o, m esm o em con dições n ão ideais, e em
um cont ext o social de desem prego acent uado, poderia
at u ar, n est e caso, m ais com o f at or de pr ot eção do
que de risco para o uso de drogas. Est a possibilidade
foi reforçada pelos result ados da análise de cont eúdo
d as en t r ev ist as ap r of u n d ad as, on d e d u as m u lh er es
r elat ar am j á t er em sido u su ár ias de m acon h a, m as
e m p e r ío d o s a n t e r i o r e s à m a t e r n i d a d e e a o
casam en t o.
Volt ando à quest ão do uso do álcool, dent r e
a s 1 0 m u l h e r e s e n t r e v i st a d a s p a r a a a b o r d a g e m
qualit at iva, 6 relat aram fazer uso ocasional ou regular
de álcool. Em bor a n os dados qu alit at iv os a r elação
ent re variáveis de t rabalho e uso de álcool não fosse
e s t a b e l e c i d a , a s f a l a s s o c i a i s d e m o n s t r a m q u e
algu m as m u lh er es v êem o u so do álcool n ão com o
u m p r o b l e m a e m s i , m a s c o m o u m f a t o r d e
r elax am en t o e lazer, sobr et u do qu an do associado à
com panhia do m ar ido ou com panheir o.
O con t r ole pessoal sobr e a sit uação do uso
d e á l c o o l é e n c a r a d o c o m o u m a v i r t u d e , u m a
“ f or t aleza m or al”. O u so d a b eb id a, r ef er id o com o
algo sob t ot al cont role, é ent ão vist o com o um a opção
e um direit o, após a j ornada ou a sem ana de t rabalho.
A m u l h e r q u e t r a b a l h a e c o n t r i b u i
f i n a n c e i r a m e n t e p a r a a m a n u t e n ç ã o d o l a r –
sobr et udo aquela que o sust ent a sozinha – sent e- se
e m s i t u a ç ã o d e “ l i b e r d a d e ” : n ã o d e v e n a d a a
n i n g u é m , n e m d e v e p r e s t a r c o n t a s d o s e u
c o m p o r t a m e n t o . S e e l a e s t á , o u s a i u d e u m
relacionam ent o afet ivo opressiv o e cont rolador, a sua
at it ude em r elação ao uso do álcool pode espelhar a
afirm ação do seu desej o de liberdade, com o direit o –
m uit as v ezes dur am ent e conquist ado. A r upt ur a com
o est er eót ipo hist ór ico da “ m ulher com por t ada” pode
i n c l u i r o u s o d o á l c o o l c o m o u m a f o r m a d e
t r an sg r essão , l eg al m en t e co n sen t i d a. Est a é u m a
sit u ação car r egada de am bigü idade, n a m edida em
que as m ulheres das cam adas populares são t am bém
o grupo em sit uação de m aior vulnerabilidade para a
v iolência dom ést ica por par t e do com panheir o.
CONCLUSÕES
A c o m p r e e n s ã o s o b r e a s r e l a ç õ e s e n t r e
t rabalho e uso de drogas ainda é insuficient e no Brasil,
e e s t e e s t u d o a p o n t a a l g u m a s q u e s t õ e s q u e
consider am os r elev ant es nest e t ipo de pesquisa.
Ref or çan d o o q u e t em sid o com en t ad o n a
l i t e r a t u r a , o co n su m o d e á l co o l e n t r e m u l h e r e s
a p r e s e n t o u - s e n u m e r i c a m e n t e e x p r e s s i v o .
deve, ao nosso ver, levar em cont a não apenas t est es
de escores do t ipo do TWEAK, m as t am bém o t ipo de
bebida consum ida, e as condições do consum o. Trat
a-s e d e u m p r o b l e m a c o m p l e x o , e p a r a o
e s t a b e l e c i m e n t o d a p a r t i c i p a ç ã o d a v i o l ê n c i a
relacionada ao t rabalho seriam necessárias ident ificar
out ras variáveis, não t rabalhadas no present e est udo,
t ais com o et nia, t ipo de t r abalho, condições labor ais
e gr au de est r esse r elacionado ao t r abalho.
Le v a n d o - s e e m c o n t a o s l i m i t e s
m e t o d o l ó g i co s p a r a a o b t e n çã o d e u m a a m o st r a
probabilíst ica random izada de m ulheres t rabalhadoras
em com unidades, est e t ipo de est udo dev er á buscar
alt er n at iv as par a a defin ição da am ost r a, com o por
e x e m p l o , a p a r t i r d e a b o r d a g e n s d e n t r o d o s
am b ien t es d e t r ab alh o. Nest e sen t id o, o ap oio d e
r e p r e se n t a çõ e s d e t r a b a l h a d o r e s – si n d i ca t o s e
asso ci açõ es – p o d er á f o r n ecer a l eg i t i m i d ad e e a
v iab ilid ad e op er acion al p ar a a colet a d e d ad os. A
inclusão do grupo m asculino poderá, t am bém , auxiliar
na ident ificação de quest ões específicas de gênero, a
am pliar o escopo das análises.
Em r e l a ç ã o a o u s o d e d r o g a s l íc i t a s , a
ut ilização de ansiolít icos, barbit úricos e out ras drogas
sim ilar es, p or t r ab alh ad or es, e su a r elação com o
t r ab alh o, p r ecisa ser m ais b em com p r een d id a. Da
m e s m a f o r m a , o u s o d o c i g a r r o n ã o d e v e s e r
com pr eendido apenas em t er m os de “ sim ” ou “ não”,
m a s t a m b é m q u a n t o a o t i p o d e ci g a r r o , n ú m e r o
co n su m i d o e t i p o d e r e l a çã o e st a b e l e ci d a co m o
t ab aco.
Por últ im o, a possibilidade de invest igar o uso
d e d r o g a s e m u m a a m o s t r a d e p e s s o a s
desem pregadas poderá m elhor sit uar o papel de est ar
em pr egado com o fat or que int er fer e no uso e abuso
de su bst ân cias.
AGRADECI MENTOS
Ag r a d e ce m o s a Co m i ssã o I n t e r a m e r i ca n a
p a r a o Co n t r o l e d e Ab u so d e D r o g a s/ CI CAD , a o
Program a de Bolsas da OEA, ao Governo do Japão, a
t odos os docent es da Universidade de Albert a/ Canadá,
e aos onze represent ant es dos set e países da Am érica
Lat ina que part iciparam do “ I Program a I nt ernacional
d e Pe sq u i sa ” i m p l e m e n t a d o n a Un i v e r si d a d e d e
Alber t a/ Canadá no ano de 2003- 2004.
REFERÊNCI AS BI BLI OGRÁFI CAS
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