As ciências sociais, a comunicação e a saúde
Social sciences, com m unication and healthcare
1 Departamento de Medicina Preventiva, Centro de Saúde Escola Samuel B. Pessoa, Faculdade de Medicina da USP. Av. Dr. Arnaldo 455, 2oandar, 01246-903,
São Paulo SP. [email protected] 2 Departamento de Saúde Pública, Faculdade de Medicina de Botucatu, Unesp. [email protected]
Ricardo Rodrigues Teixeira 1
Antônio Pithon Cyrino 2
Abstract Com m unication, the central word in the title of this paper, is really intended to denote a kind of pivotal point in the articula-tion that we wish to establish here between so-cial sciences and healthcare. On one hand, its em ergence as a field of differentiated issues with relatively new objects and exam inations, in the heart of social thought, as early as the late eighteenth century, going through its ear-liest theoretical elaborations and em pirical studies, already within the scope of the social sciences, since the mid-nineteenth century, and m ore recently through its differentiation as a separate discipline, in the m id-twentieth cen-tury, up to the point at which it becam e a true icon of contem porary societies, at the thresh-old of the twenty-first century. On the other hand, the relations between what we generically prefer to refer to as “thoughts on com -munication”, tracing the historical path above, and the field of healthcare, in its broadest sense. T hus, we propose, first, to reconstitute the emergence and the evolution of these “thoughts on com m unication” over the last two or three centuries, highlighting their deep rooting in the social sciences and, second, to point out the privileged and variable relation, over the course of history, between these thoughts and the knowledge and practice of healthcare.
Key wo rds Social sciences, Com m unication, Healthcare
Resumo Comunicação, o termo central do tí-tulo deste trabalho, pretende realmente ser uma espécie de pivô da articulação que querem os aqui estabelecer entre as ciências sociais e a saúde. Por um lado, a sua em ergência com o um cam po de questões diferenciadas, com ob-jetos e olhares relativam ente novos, no seio do pensam ento social já desde fins do século 18, passando pelas suas primeiras elaborações teó-ricas e estudos em píricos, já no quadro das ciências sociais, desde meados do século 19, de-pois pela sua diferenciação com o um cam po disciplinar em separado, em m eados do século 20, até se tornar um verdadeiro em blem a das sociedades contemporâneas, neste limiar do sé-culo 21. Por outro lado, as relações entre o que preferim os genericam ente cham ar de “pensa-mento sobre a comunicação”, rastreado no per-curso histórico acim a, e o cam po da saúde, no seu m ais am plo sentido. Assim , propom o-nos, primeiramente, a reconstituir a emergência e as evoluções desse “pensam ento sobre a com uni-cação” nos últim os dois ou três séculos, desta-cando o seu profundo enraizam ento nas ciên-cias sociais, e, secundariamente, apontar as re-lações privilegiadas e variáveis ao longo da his-tória entre esse pensam ento e o conhecim ento e a prática em saúde.
Introdução
Nosso intuito principal é identificar e descre-ver o processo pelo qual um conjunto de ques-tões m u ito específicas vai se form u lan do n o seio do pensamento social moderno, de tal modo que elas acabarão por configurar um cam -po de questões que, mais recentemente, passou a ser designado de Com unicação, destacando, neste processo, algumas de suas interfaces com o campo da saúde. Antes, porém, algumas res-salvas introdutórias são necessárias. Ainda que nos interesse centralmente sua formulação co-mo uma problemática socioantropológica, não podemos ignorar que a comunicação, como um objeto de conhecimento, vem se constituindo e sen do con struído por diferen tes autores dos m ais diversos cam pos disciplinares, m ediante elaborações teóricas, investigações empíricas e in ven ções tecn ológicas, as m ais variadas, ao longo dos últimos dois ou três séculos. Isso não apenas põe em relevo a complexidade do tema, m as tam bém a im possibilidade de rastreá-lo cronologicamente de forma a reconstituir uma simples progressão linear de um objeto crescen-temente mais elaborado. Antes, o que se cons-tata é um objeto intensamente polissêmico ou, nem mesmo um objeto bem definido, mas to mais um foco de questões a irradiar-se, mui-tas vezes tremulamente, em múltiplas direções. Tampouco seria produtivo, e poderia mes-m o ser excessivo às pretensões deste texto, re-troceder à An tigu idade em bu sca das origen s da pesquisa sobre fenômenos de comunicação, como é comum em compêndios de comunica-ção social, dado que o que se pretende aqui ex-plorar são, fundamentalmente, as singularida-des da construção dos fenôm enos de com unicação na modernidade. Os mencionados com -pên dios tam bém n ão costu m am se abster de exaltar o marco representado pela invenção da pren sa m ecân ica por Guten berg, dan do justa ênfase à “revolução das comunicações” que ela representou, no chamado limiar da era moder-na e, nesse caso, já estam os, de fato, bem m ais próxim os de referências básicas para o enten -dim en to do con texto cien tífico e tecn ológico em que se dá a emergência das noções mais con-temporâneas de comunicação. Contudo e, ade-m ais, con sideran do os liade-m ites iade-m postos pelo formato de um artigo, nos restringiremos a ex-plorar apenas os elementos mais recentes e ime-diatos dessa gên ese, focalizan do as prin cipais problemáticas que vão se delineando no pensa-m en to social, desde fin ais do século 18 e copensa-m
grande intensidade ao longo do século 19, e que n os parecem con stitu ir seu s m ais cau dalosos afluentes.
Comunicação e livre comércio
Nas últim as décadas do século 18, seja nos es-critos de econ om istas de u m a In glaterra em plena Revolução Industrial, seja na obra dos fi-siocratas de u m a Fran ça ain da fu n dam en tal-mente agrícola, já podemos encontrar um dis-curso razoavelmente amadurecido sobre as vir-tudes da com un icação. Ela tan to con tribuiria para integrar o trabalho coletivo já bastante di-vidido no interior das fábricas, quanto contribuiria para unificar o espaço comercial, liberan -do o fluxo de bens agrícolas por meio da cons-trução e da preservação das vias de comunica-ção pelo interior do país. Descobrimos, assim, que um prim eiro esboço de um a problem áti-ca da com u n icação prefigu ra-se n o tem a da divisão do trabalho e no modelo de fluxos ma-teriais da cham ada econ om ia clássica in glesa, elaborados n as obras de Adam Sm ith (17231790) e de John Stuart Mill (18061873). Tam -bém podem os vê-la an u n ciar-se n a m áxim a formulada pelo fundador da doutrina fisiocrá-tica, François Quesnay (1694-1774): laissez fai-re, laissez passer.
trânsito das m ercadorias e das letras de câm bio se torna perm anente. M ais ou m enos contem -porâneos ao surgim ento das bolsas, o correio e a imprensa institucionalizam contatos permanen-tes de com unicação. Para os com ercianpermanen-tes basta, no entanto, um sistem a de inform ações reserva-do às corporações profissionais e, às chancelarias urbanas e da corte, um sistem a de inform ações interno. N ão lhes interessa a publicidade da in-form ação.(...) O novo sistem a de com unicações sociais, com suas instituições de troca de inmações, adapta-se sem maiores problemas às for-m as existentes de cofor-m unicação enquanto conti-nua ausente o elem ento decisivo: a publicidade. Assim com o (...) só é possível falar de “correio” quando a possibilidade de transporte regular de cartas torna-se acessível ao público em geral. Até então, o antigo sistema de comunicação da repre-sentatividade pública não se vê fundam ental-mente ameaçado pela nova esfera pública defini-da publicitariamente.
A citação, apesar de lon ga, só n os con duz até o ponto em que Habermas anuncia a possi-bilidade de um novo “sistema de comunicação da represen tatividade pública”, defin idor de um a esfera pública “liberal e burguesa”, caract er izad a p elo seu car ácaract er fu n d am en caract alm en -t e “publicitário” (n ão se trata aqui, eviden te-mente, da idéia atual e mais comum de “publi-citário” com o o espaço da “propagan da”, mas com o a qualidade do espaço em que determ n ados even tos são acessíveis a todos e adqu i-rem “publicidade” na medida em que qualquer u m pode ju lgá-los; ju lgam en to qu e se apre-sen ta, coletivam ente, sob a form a da “opinião pública”). Não há dúvida de que a ascensão da com unicação a um a das categorias centrais da m odern idade e a assun to privilegiado e com -plexo das ciências sociais encontra-se estreita-m en te relacion ada à con stituição dessa esfera pública “publicitária”, para cuja constituição a imprensa foi, inicialmente, a mídia fundamen-tal. Contudo, as prim eiras concepções sobre a comunicação social, em seu berço economicis-ta, são, digam os, “pré-publicitárias” e obede-cem à lógica da “boa ordem” ou da “funciona-lidade” econômica e social e do controle do flu-xo de in form ações. Tem os, en tão, n esse caso, um imaginário bastante “utilitarista” e “contro-lista” a respeito da comunicação, que, como sa-bemos, jamais deixará de coexistir junto àquele outro que vin cula a com un icação à “tran spa-rência” e à “publicidade” e, se não ao “diálogo”, pelo menos ao “debate público”. E esta é apenas um a das várias “am bivalên cias con stitutivas”
do tenso conceito de com unicação na m oder-nidade.
Outro aspecto im portan te a ser destacado nesse m om ento é que, se as prim eiras form u -lações m ais acabadas em torno da idéia de um sistema de trocas e fluxos se dão no campo das preocupações econ ôm icas, isso n ão ocorreu sem o em préstim o de evidên cias colhidas em outros cam pos de experiên cia e con hecim en -to. O médico Quesnay, por exemplo, inspirou-se n os inspirou-seus con hecim en tos sobre a circulação san güínea para pensar o seu Tableau économ i-queda circulação de riqueza. De resto, sabemos qu e a m etáfora do organ ism o vivo será u m a das mais férteis e persistentes ao longo de todo o século 19, produzindo inúmeras representa-ções da sociedade com o um sistem a orgânico, com o um entretecer de redes. Encontram o-la tanto na origem do “organismo-rede” da fisio-logia social de Saint-Simon (1760-1825), quan-to da “sociedade orgân ica” da tam bém den o-m in ada fisiologia social de H erbert Spen cer (18201903). Ambas filosofiasfisiologias con -cedem um lugar estratégico às vias de comuni-cação que, de novo, nos dois casos, são compa-radas ao sistema vascular. O engenheiro ferro-viário Spencer, entretanto, com uma obra filo-sófica que marcaria a segunda metade do século 19, merece destaque por aprofundar a temática da com unicação, conferindo-lhe contornos já bem próxim os ao das abordagens m ais atuais. Iden tifica dois “aparelhos” prin cipais n a sua “sociedade orgânica”: um, distribuidor, basea-do na imagem da circulação sangüínea, que as-seguraria o trânsito das substâncias nutritivas, representado pelas estradas, canais e ferrovias; e outro, regulador, equivalente do sistema ner-voso, qu e possibilitaria a gestão da periferia por um centro dominante, representado pelos meios que permitiriam ao centro “propagar sua influência”, tais como a imprensa, o correio e o telégrafo. Esse últim o ponto já se encontra es-treitam en te vin cu lado a ou tras tem áticas de grande im portância na segunda m etade do sé-culo 19 (tratadas em m aiores detalhes m ais adiante) e que dizem respeito a questões de “flu-xo de influência” e de “gestão das multidões”.
Relação centro-periferia
social do século 19, e que diz respeito a essa re-lação de dominação de um centro sobre a peri-feria. Encontram o-la plenam ente desabrocha-da n o pen sam en to do san sim on ian o Auguste Com te (1798-1857), fundador da filosofia po-sitiva. Sua ciência positiva da sociedade, embo-ra denominada de física social, como outembo-ras fi-losofias de sua época, inspira-se muito mais na biologia do que propriamente na física. Sua visão organ icista, con tudo, dá bem m en os im -portância aos mecanismos de comunicação que seus con tem porân eos. Sua relevân cia para a compreensão de traços marcantes da futura “ci-ên cia da com un icação” é outra e está fun da-m entalda-m ente relacionada à sua clássica e beda-m conhecida visão da história como um progres-so lin ear e n ecessário de u m a era teológica a uma era metafísica e, desta, a uma era científi-ca e positiva, que científi-caracterizaria o estágio das so-ciedades in dustriais m odern as. Den tro dessa concepção biográfica da história hum ana, que deu am paro à ideologia dom inante dos im pé-rios coloniais e marcou profundamente a etnologia da segunda metade do século 19 – exem -plarm en te represen tada pela an tropologia do comteano Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), que escreveu sobre As funções m entais nas socieda-des inferiores(1910), chegando ao conceito de “mentalidade pré-lógica” para definir A menta-lidade prim itiva (1922) –, os povos prim itivos são vistos como “povos-crianças” que deveriam ser necessariamente tutelados pelas nações “ci-vilizadas”, que teriam a missão de conduzi-los à “idade adulta”. Con form e com en ta Mattelart (1999), dessa representação do desenvolvim ento das sociedades humanas (...) emanam as primei-ras form ulações das teorias difusionistas: o pro-gresso só pode atingir a periferia por m eio da ir-radiação pelos valores do centro. Não se ignora o papel dessas teorias nas formulações, após a se-gun da Gran de Guerra, de um a sociologia da m odernização e sua concepção de “desenvolvi-mento”, na qual as mídias ocupam papel estraté-gico.
Se selecionam os Com te para assinalar em -blematicamente esse modo de pensar a relação de dominação centro-periferia, isso se deve fun-dam en talm en te à im portân cia da corren te de pen sam en to qu e fu n dou n a con stitu ição das ciên cias sociais e particularm en te da sociolo-gia, a partir de Du rkheim , com todos os seu s desdobramentos na produção científica no sé-culo 20, incluindo a acima mencionada “socio-logia da m odernização”. Contudo, esse esque-ma básico não tem sua “origem” no
pensamento com teano e possui antecedentes im portan -tes, que também nos interessam nesse momen-to. Vamos situá-los no chamado Século das Lu-zes e revelam-se no importante embate entre o pensamento iluminista e o pensamento român -tico, em torno da noção de povo. A importância e a extensão dessa discussão ultrapassa em mui-to o que se poderá destilar neste breve artigo e nos obrigaria a rever as relações que vieram se con stru in do, desde a au rora da era m odern a, entre a noção de povo e política, que historica-mente oscilaram entre a idéia de buscar no po-vo um m odo de legitim ação do poder político (Maquiavel) e a idéia sempre presente do povo como uma ameaça para o poder político insti-tuído (H obbes). Essa am bivalência está intei-ramente condensada no pensamento iluminis-ta, que se opõe ao poder despótico em nome da vontade popular e se opõe ao povo em nome da razão. Fórm ula que, segundo Martin-Barbero (2001), sintetiza o próprio funcionam ento da hegemonia: A invocação do povo legitim a o po-der da burguesia na m edida exata em que esta invocação articu lasua exclusão da cultura. E é nesse m ovim ento que se geram as categorias “do culto” e “do popular”. Isto é, do popular como in-culto, do popular designando, no m om ento de sua constituição em conceito, um modo específico de relação com a totalidade do social: a da nega-ção, a de um a identidade reflexa, a daquele que se constitui não pelo que é, mas pelo que lhe fal-ta. Definição do povo por exclusão, tanto da ri-queza como do “ofício” político e da educação.
status de cultura o que vem do povo” (Martin-Barbero, 2001).
Cultura de elite e cultura popular
Dos in úm eros, com plexos e, com freqüên cia, con traditórios desdobram en tos da reação ro-m ântica, querero-m os ro-m iniro-m aro-m ente reter, nesse momento, que suas posições fizeram avançar a idéia de que, para além de uma cultura oficial e hegem ôn ica, existem outras culturas. Mesm o que a noção romântica de povo tenha, ao cabo, nutrido muitas visões conservadoras de cultu-ra, ela representou um efetivo alargam ento da con cepção do hum an o – fren te à perspectiva, sob este aspecto, mais estreita, do racionalismo ilum inista –, incorporando as dim ensões sim -bólicas e subjetivas na estruturação da vida so-cial.
Mas, a afirm ação do popu lar n a cu ltu ra e da cultura popular não impedirá, é claro, a coe-xistên cia de m un dos culturais “separados” e, quase sem pre, desigualm en te valorizados. De fato, as visões conservadoras, com freqüência, prevaleceram en tre as falan ges rom ân ticas e são de sua lavra vários dos m odos “clássicos” de se estabelecer a “separação”: entre uma cul-tura rural e um a culcul-tura urban a, um a culcul-tura in gên ua e outra sofisticada, ou ain da, tosca e erudita, tradicion al e m odern a, com o ocorre, por exem plo, n as con cepções folcloristas; ou entre uma cultura em sua expressão superficial, in stável e in au tên tica, pois qu e abalada por m udanças históricas, e um a cultura profunda, formada na estabilidade e unidade da etnia, co-m o se dá, coco-m freqüência, nas concepções ra-cistas e n acion alistas. Mas as con cepções ro-m ânticas ainda coro-m portaro-m a visão da cultura popular como um reverso da cultura burguesa, por ser expressão da experiênciada dor e do so-frim en to, m ais ou m en os com o ela aparece vinculada ao m odo de vida dos m iserables, em Victor Hugo.
É evidente que esta última visão da cultura popular é a que abre a m aior possibilidade de sua politização, e que se dará com con torn os bem assem elhados àqu eles expressos n a lite-r atulite-ra de H ugo, polite-r exem plo, n o m ovim en to anarquista. A maneira como o anarquismo ins-creve certos traços das concepções rom ânticas n as su as práticas revolu cion árias m ereceria, por si só, um estudo completo pelo que anteci-pa de questões extremamente relevantes anteci-para o pen sam en to sobre as com un icações e as artes
no século 20. Talvez nenhum outro movimen -to político ten ha revelado tan ta sen sibilidade em transform ar em m eios de libertação as di-feren tes expressões ou práticas culturais. Co-n hecem os su a especial seCo-n sibilidade para os problemas da educação operária e para as ino-vações pedagógicas. É reconhecido que a trans-posição do conceito político anarquista de “ação direta” para o campo da estética, resultando numa idéia de “arte em situação” ou arte em con -tin uidade com a vida, an tecipa propostas das van guardas artísticas do século 20. E, last but not least, tam bém sabem os que o m ovim en to anarquista sempre foi fértil em vislumbrar po-tencialidades utópicas nas inovações tecnoló-gicas, especialm ente no cam po das com unica-ções: do russo Kropotkin, que via nas redes elé-tricas de seu tem po e su as propriedades des-cen tralizadoras a prom essa de um a n ova vida com unitária, até os libertários de hoje em dia, qu e m u itas vezes vêem n as redes digitais po-tencialidades equivalentes.
unica-ção e cultura. Por essa razão e diante dos propósitos do presente trabalho, optamos por acom -pan har com o se deu, ao lon go do século 19, a dissolução do conceito de povono conceito de massas.
O surgimento das massas
Enquanto o m arxism o rechaça a idéia rom ân -tica de povo por considerá-la ambígua e misti-ficadora, preferin do falar n o proletariado, o pensamento das minorias aristocráticas e bur-guesas rechaça tanto a idéia de povo quanto de classe social, referin do-se obcecadam en te às massas. Obcecadamente, porque esta referência é, antes de tudo, fruto de um medo terrível das elites ao n ovo lugar ocupado pelas m ultidões na sociedade que com eça a em ergir da revolu-ção burguesa e que já está bem delin eado n as primeiras décadas do século 19. Martin-Barbe-ro nos dá, m ais um a vez, um a boa im agem do sentido desse surgimento das massas: o aciona-m ento durante o século 19 da teoria da socieda-de-massa é o de um movimento que vai do medo à decepção e daí ao pessimismo, mas conservan-do o asco. Na realidade, esse m edo-decepção-pessim ism o diz respeito, quase sem pre, a um duplo problem a: será freqüen te o tratam en to con ju gado do su rgim en to das m assas e o da “tecn ologização” da vida social. E esse duplo problem a já pode ser iden tificado n o pen sa-m en to de Alexis de Tocqu eville (1805-1859), talvez o primeiro autor a analisar explicitamen-te o problema ligado ao surgimento das massas e, sobretudo, de sua perspectiva, ligado à “aber-ração” do igualitarismo social, no qual vê o ger-me do “despotismo das maiorias”. No seu clás-sico Da democracia na América, deixa claro que a convergência da mecanização introduzida pela indústria com a “enfermidade democrática” con-duz inevitavelm ente à autodegradação da socie-dade(Martin-Barbero, 2001). Esse mesmo pes-sim ism o fáustico será reencontrado em clássi-cos da filosofia do início do século 20, como A rebelião das m assase Meditação da técnica, de José Ortega y Gasset (1883-1955), e O declínio do Ocidentee O hom em e a técnica, de Oswald Spengler (1880-1936), e ainda num autor “pós-m oderno” co“pós-m o Jean Baudrillard, que no iní-cio da década de 1980, numa obra intitulada À sombra das maiorias silenciosas – o fim do social e o surgimento das massas, afirmaria, realizando uma notável síntese pessimista entre técnicas e massas: “O processo da massa e dos meios de
co-m un icação é uco-m processo ún ico. Mass(age) é mensagem” (Baudrillard, 1993).
Apesar da prolongada permanência de idéi-as “apocalípticidéi-as” a respeito didéi-as m idéi-assidéi-as e didéi-as técnicas em meio ao pensamento mais conservador, é preciso observar que elas também en -contrarão sua versão no chamado pensamento mais progressista, como veremos logo mais, ao tratarmos, por exemplo, da Escola de Frankfurt, cujas críticas à cham ada indústria cultural e à cultura de m assa assum irão grande im portân -cia no pensamento sobre a comunicação após a segun da Gran de Guerra. Além disso, m esm o nos atendo apenas aos autores acim a m encionados e procurando aproximálos, há profun -das diferenças nas suas respectivas visões: se to-dos preservam o “asco” das massas de que nos fala Martin-Barbero, Tocqueville está mais pa-ra o “medo”, Ortega y Gasset papa-ra a “decepção” ou, talvez, desprezo, en quan to Spen gler des-cam ba para um “pessim ism o” suicida. Já em Baudrillard, o n iilista, há um a verdadeira in -versão das prim eiras con cepções das m assas como “multidão ameaçadora”, uma vez que sob o peso de tan ta “in form ação” (que an iquilou todo referente) e tanta “instituição” (que ani-quilou todo social), só nos resta a “simulação” indefinida por intermédio dos meios de comu-nicação e “a implosão do social nas massas”, cu-jo “m odo próprio de ser” é exatamente a inércia, a in diferen ça e a passividade. Mas para com -preen derm os essas m udan ças n as con cepções sobre as m assas, precisam os ain da passar por algumas outras abordagens, desenvolvidas nos próximos tópicos.
As ciências e as tecnologias das massas
A esta descoberta desen can tada das m assas, qu e m al dissim u la o aristocrático “m edo das turbas”, se seguirá o desejo e a n ecessidade de conhecê-las para, por fim , controlá-las. É por m eio dessa busca de conhecim ento e controle sobre as m assas qu e se apresen tarão algu m as das mais interessantes interfaces com o conhe-cimento em saúde do século 19 e que, desta vez, vão m u ito além da m era relação an alógica e metafórica.
séculos depois (± 1700), terá 5 m ilhões; m ais u m sécu lo (± 1800) e terá 10 m ilhões e, até 1851, duplicará m ais um a vez. Em 1750, tinha apenas duas cidades com mais de 50.000 habi-tantes; em 1851, 29, das quais nove ultrapassa-vam 100.000 habitantes (França Júnior, 1993). Um processo de urbanização semelhante se deu em todas as regiões do m u n do qu e passaram por um processo de industrialização intensiva, transform ando as cidades, onde se avolum am as massas, em focos de ameaças políticas e sani-tárias: Os bairros operários que fizeram a popu-lação parisiense duplicar na primeira metade do século 19 tornaram-se, ao redor das indústrias que se m ultiplicavam na periferia de Paris, o “m eio de cultura” ideal para doenças e convulsões so-ciais(Ayres, 1995).
A massa que ameaça é “meio de cultura” pa-ra “doenças e convulsões sociais” e a produção de conhecimento sobre elas, responde a necessidades de controle e direcionamento, vigilân -cia e normatização dessas massas, em que se di-fu n dem as m u ltidões (poten cialm en te) sediciosas e as m ultidões (poten cialm en te) doen -tes, que em ambos os casos podem “contagiar” e assum ir proporções epidêm icas. Pode-se di-zer que, logo nos primeiros anos do século 19, se in icia u m a era em qu e se m u ltiplicarão as cham adas tecnologias de gestão das m assas ou “tecnologias de população”, como quer Michel Foucault.
Neste autor, já encontramos um outro sen-tido para a aproximação dos temas das massas e da “tecnologização” da vida social, que não é m ais o da aristocrática consideração da socie-dade-massa e das técnicas como as duas causas som adas da “decadên cia do Ociden te”. O que Foucault nos mostra é como boa parte das técn icas qu e povoam técn ossa vida social, particu -larm ente aquelas que se dirigem para o corpo, correspondem, de fato, a dispositivos de gestão da sociedade-massa e integram um “projeto de tecnologia de população”, isto é, uma tecnolo-gia em que os traços biológicos de um a popula-ção se tornam elem entos pertinentes para um a gestão econôm ica e é necessário organizar em volta deles um dispositivo que assegure não ape-nas sua sujeição, m as o aum ento constante de sua utilidade(Foucault, 1992). São os conheci-dos “dispositivos disciplinares” teorizaconheci-dos pelo filósofo. Esse conceito nos ajuda a perceber co-m o as tecn ologias de gestão das co-m assas ope-ram , curiosam ente, por m ecanism o de indivi-dualização, por form as de poder que se exer-cem sobre os in divíduos. A “disciplin a” para
Foucault é: Um a arte de distribuição espacial dos indivíduos (...), um a técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos. (...) É o poder de individualização que tem o exam e com o instrum ento fundam en-tal. O exame é a vigilância permanente, classifi-catória, que permite distribuir os indivíduos, jul-gá-los, m edi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo.
“A disciplina implica”, ainda, “um registro contínuo” e é dessa perspectiva que propomos qu e se apreen da a em ergên cia das cham adas ciências da mensuração humana. Com suas n o-menclaturas e índices, surgem para codificar e cum prir a m issão “higien ista” de vigilân cia e n orm atização das m assas supostam en te peri-gosas. A antropom etria e, m ais tarde, a epidemiologia e suas práticas, certamente se encon -tram entre as primeiras grandes tecnologias de gestão das massas ou, melhor dizendo, entre as prim eiras gran des tecn ologias de gestão das massas civis, num quadro de preocupações po-líticas e san itárias com o espaço da cidade, já que existiram precedentes im portantes de uso da m en su ração hu m an a com o tecn ologia de gestão das m assas m ilitares, orientada por ou -tras preocupações. No caso, preocupações com a seleção dos recrutas – para aum entar a força de combate – e com sua identificação, de modo a evitar as deserções (França Júnior, 1993).
Louis Villermé (1782-1863), que foi médico militar das forças napoleônicas, fará a transposição dessa “tecnologia de populações” do cam -po m ilitar para o cam -po san itário, realizan do alguns dos primeiros estudos antropométricos a estabelecer correlações estatísticas en tre va-riáveis som áticas e aspectos sociais. Pesquisa-dor m in ucioso das con dições de vida e traba-lho das massas, foi também capaz de mobilizar outras “massas” ao publicar, em 1840, seu clás-sico Tableau de l’état physique et morale des ou-vriers em ployés dans les m anufactures de coton, de laine et de soie, que “levantou a opinião pú -blica francesa, resultando na edição da Lei Fabril em 1841” (França Júnior, 1993). Essas ou -tras “m assas” m obilizadas por Villerm é po-voam e transitam num outro “espaço”, o acima m en cion ado espaço público “publicitário”– já bem constituído, graças ao substantivo suporte oferecido pela imprensa, na sociedade francesa em que viveu o cientista –, e elas também deve-rão, em breve, ser conhecidas, controladas e di-rigidas.
mo-vim ento que pretendem os ressaltar, pelo qual as tecnologias de gestão das massas surgem no campo militar, desenvolvem-se como tecnolo-gias de gestão “sanitária” das massas no espaço físico das cidades e acabam por evoluir para as tecnologias de gestão das massas no espaço pú-blico “publicitário”. Assinalamos, dessa manei-ra, a migração de um dispositivo originalmente militar para os campos sanitário e publicitário. A m ilitarização dessas m esm as esferas da vida civil também pode ser rastreada, por exemplo, na língua portuguesa, em que noções militares com o “cam panha” e “população-alvo” acaba-ram sendo estendidas tanto ao campo sanitário quan to ao publicitário. É eviden te que, n este últim o caso, já estam os perante um a noção de publicitário reduzida ao m odelo “bélico” da propagan da, quer a serviço das acirradas dis-putas de m ercado en tre diferen tes produtos e marcas, quer na realização de “campanhas” pa-ra candidatos a mandatos públicos. Habermas (1984), ao tratar da emergência da esfera públi-ca “publicitária”, tam bém aponta o que consi-dera sua decadência – a “subversão do princí-pio da ‘publicidade’” –, mostrando como o pre-domínio das leis de mercado põe no lugar desse princípio de publicidade e dessa com unicação pública (Pu blizität) form as de com unicação ca-da vez mais inspiraca-das em um modelo comercial de “fabricação da opinião” (Mattelart, 1999). Mais que uma militarização, Habermas vê nisso uma autêntica “refeudalização da sociedade”.
Ainda em relação a essas ciências da m en su ração com o form a de con hecim en to e con -trole das massas, cabe mais um comentário so-bre outro importante estatístico, muito influen-ciado por Villerm é, que foi o belga Adolphe Qu ételet (1796-1874). Su a gran de con tribu i-ção, e que merece ser aqui recuperada, foi a in-corporação da n oção de “m édia”, forjan do o conceito de “homem médio”. Quételet, que também era astrônom o, aplicou a fenôm enos hu -m an os as n oções estatísticas de “distribu ição normal”, desenvolvidas pelo astrônomo alemão Gauss. O “hom em m édio” de sua antropom e-tria seria um a espécie de “centro de gravidade do corpo”, a partir do qual se poderia avaliar as variações como índices de desequilíbrios e pa-tologias sociais, correspondendo a um claro e assum ido esforço de traduzir a “m édia” num a “norm a”. Sua con tribuição deixa, assim , bas-tan te clara a vin cu lação en tre as ciên cias da mensuração humana e as estratégias de norma-tização social. Ademais, sua pretensão ultrapas-sava a antropom etria e am bicionava construir
uma física social, em que os fenômenos sociais pudessem ser explicados por regularidades es-tatísticas e leis constantes. Foi um dos pionei-ros na construção de tabelas de m ortalidade e n ascim en to, m as tam bém , de crim in alidade, das quais procurava extrair um índice de “ten -dência ao crime”. Nesse caso, diferente de toda a crim inologia que surgiria no final do século 19, de tipo m ais fisiogn om ôn ico e fu n dada num saber de tipo “indiciário” (ver a esse res-peito Ginzburg, 1990), temos aqui uma “crimi-n ologia” baseada “crimi-n um a “crimi-n oção estatística de “homem médio” traduzida em norma, em uma curiosa norm a “probabilitária”. É por isso que para Mattelart (1999), “Quételet é o homem da institucionalização do cálculo de probabilida-des” e o cálculo de probabilidades convida a um novo modo de governo dos homens: “a sociedade de seguros”. A tecnologia do risco e a razão pro-babilitária transferem -se ao cam po político e se tornam ferram enta de gestão dos indivíduos to-mados em massa.
Mas, a acima mencionada criminologia que se desenvolveu cerca de meio século após o pro-jeto de cálculo das patologias sociais de Quéte-let, de caráter m ais in dividu alizan te e ain da m ais n orm atizador, posta a serviço de juízes, policiais e médicos legistas, também merece in-teresse. E não apenas porque a antropologia cri-m in al de Locri-m broso ou a biocri-m etria e eu gen ia de Galton tenham contribuído para a identifi-cação individual, mas principalmente por suas propostas de estabelecer “perfis”. Afinal, não é muito grande a distância que separa as mensu-rações que estabelecem os “perfis crim inosos”, das mensurações que estabelecem os “perfis de audiên cias”. Con form e Mattelart (1999), en -quanto a tipologia dos leitores faz uma primeira aparição na gestão da mídia, desde a criação das revistas femininas na penúltima década do sécu-lo 19 nos Estados Unidos (...), será preciso espe-rar a década de 30 para ver a razão probabilitá-ria exprim ir-se na racionalização da com unica-ção de massa. Mais exatamente, até 1936, quan -do as pesquisas pré-eleitorais de Gallup conse-guem prever a reeleição do presidente Roose-velt.
práticas políticas que veio in staurar, pode-se dizer que o conhecimento e o controle das mas-sas como ameaça política (mas também sanitária) é, cada vez mais, o conhecimento e o con -trole desses “públicos” ou, mais especificamen-te, da “opinião pública”.
Comunicação e epidemias: influência (
influenza
) e contágioE n ão cessam aí os paralelos en tre as práticas “comunicacionais” e sanitárias. É de se notar o quanto as epidem ias (e as doenças transm issí -veis, de um a form a geral) envolvem , rigorosa-mente, fenômenos de “comunicação” e o quan-to a com unicação, por seu lado, envolve fenô-menos “epidêmicos” (Teixeira, 1993). Essas ho-mologias permitem algumas reflexões.
O ponto de partida é essa “comunicabilida-de” – seja de micróbios ou informações, pesti-lências ou paixões – que põe em primeiro pla-no um elem ento socioantropológico decisivo: a realidade das trocas sociais. O contágion ão deixa de ser u m a dram ática figu ra da troca e ainda, mais profundamente, do próprio víncu -lo social. Muitas vezes, falar em distintas dinâ-micas “comunicacionais” ou distintos “regimes epidêmicos” equivale, de fato, a falar em distin-tos modos de socialidade.
Dessa perspectiva, podem os recon hecer a existência de dois tipos gerais de “regimes epi-dêmicos”: Em um prevalece o contágio endógeno ao grupo, a dinâm ica da propagação por enca-deamento, a difusão interativa [prevalece o vín-culo social direto]; no outro prevalece a contami-nação irradiada a partir de um a instância exte-rior ao grupo, a estática das posições individuais, a exposição aos “riscos” [prevalece o vínculo so-cial indireto](Teixeira, 1993). Partindo de ima-gens sugeridas por Guillaume (1984), reconhe-cemos acima dois esquemas: o primeiro é o da epidem ia de contágioe o segundo, daepidem ia irradiada. A epidem ia de con tágio, por apre-sen tar um a velocidade fin ita, e m esm o um a certa lentidão de propagação, não apenas per-mitiu que a epidemia fosse compreendida, mas tam bém que, a seguir, se gan hasse velocidade sobre ela. No plano mais simples, o modelo do con tágio rem ete a um m odo de propagação por encadeamento espontâneo, isto é, ao sabor dos contatos entre os elem entos “condutores” daquele sistema. Trata-se de um modelo de epi-demia fundamentalmente referido a uma dinâ -m ica dos contatos sociais. Entretanto, com o já
dissemos, todos os fenômenos de contágio, qual-quer que seja sua virulência própria, são lentos demais, arcaicos demais, para que ocupem o pri-m eiro lugar. Hoje, a pri-m aior parte das pri-m udanças de estado que são produzidas nas populações, não se propaga mais de pessoa a pessoa. Elas de-pendem de condições exteriores e centrais que são impostas a todos. O regime da difusão interativa cede sua proeminência a um regime inteiramen-te difereninteiramen-te: aquele da irradiação. Ou ainda, se nos colocarmos do ponto de vista das populações, o regim e da exp osição, onde tudo está em jogo, para cada um , em função da posição que ocupa (Guillaume, 1984). Portanto, um modelo fun -damentalmente referido a uma estática das po-sições individuais. E não é este, afinal, o modelo atual da própria epidemiologia – o estudo da ir-radiação seletiva de todos, da exposição de todos aos riscos de doenças?Assim com o o riscoem epidem iologia corresponderia ao cálculo inte-grado do conjunto de posições ocupadas pelo in-divíduo, nos diversos sistem as irradiados, tanto de agressão, quanto de proteção; ... o balanço das suas exposições favoráveis e desfavoráveis (Tei-xeira, 1993).
O que nos interessa, nesse momento, é ob-servar o quanto está presente, no segundo mo-delo, a referência a um modo de socialidade in-teiram en te distin to daquele presen te n as epi-demias contagiosas. Nestas últimas, os contatos contagiosos em potencial tecem uma socialidade que está fundamentalmente referida ao con -tato direto entre as pessoas, enquanto o mode-lo irradiado, como já foi dito, depende das “po-sições individuais” por referência a determina-das instâncias “centrais”. E é por isso que na vi-são, um tan to fatalista, de Guillaum e (1984), quando a epidemia contagiosa é vencida, resta apenas um a ligação m ínim a e indireta entre os homens: simples co-presença sobre um único pla-neta e solidão comum face à morte. O fim da epi-dem ia é, portanto, tam bém o início do indivi-dualism o com o destino fatal da hum anidade, aconteça o que acontecer. O fim da epidemia não apenas expõe os homens a esta fatalidade última, m as os expõe tam bém às instâncias capazes de vigiar, controlar e irradiar (por meio de vacinas, por exemplo) o social.
identifi-car a proeminência simbólica de um desses es-quemas. E a afirmação mais geral que pode ser feita a esse respeito, considerando-se a história das sociedades ociden tais, é a de que prevale-ceu por m ilênios, o esquem a da epidem ia con-tagiosa, sendo que este só veio perder sua proe-minência, muito recentemente, para o esquem a da epidem ia irradiada. Esse processo de muta-ção acompanhou de perto a instalamuta-ção, nos úl-tim os trezentos anos, de todos os dispositivos sociotécnicos desenvolvidos para com bater as grandes “epidem ias”:a era das epidem ias irra-diadas foi anunciada pela instalação de sistemas simbólicos e técnicos de tipo irradiado, que pouco a pouco foram constrangendo o vínculo social di-reto a respeitar a proeminência do vínculo social indireto, estabelecido e reforçado por aquelas ins-tâncias(Teixeira, 1993).
A era da irradiação é tecnologicamente ins-taurada pelas vacinas no campo sanitário e pe-la radiodifusão no campo “publicitário”; é, es-pecialm en te, a era do broadcastingn o cam po da comunicação de massas, franqueada pela re-volução tecnológica (e, por definição, cultural e sociopolítica) representada pela invenção dos novos m eios eletrônicos de com unicação oral e visu al via radiodifu são, qu e m arcaram em cheio o século 20 e vieram alterar profun da-mente a “ecologia” do espaço público “publici-tário” burguês organizado, até então, em torno da imprensa. Boa parte do debate científico-fi-losófico do século 20 sobre as n ovas tecn olo-gias de com u n icação de m assa gira em torn o desse “abalo ecológico” qu e elas vieram pro-vocar num espaço “publicitário” constituído a partir de um m eio de com un icação escrita, o que inclui todas as defesas, muitas vezes elitis-tas, dos pressupostos e da superioridade de uma cultura letrada, acompanhada ou não da crítica ao caráter diabolicam ente “afetual” das novas mídias e de sua irremediável vocação a sucum -bir às leis do mercado. Mas esse debate também inclui as poucas e significativas contribuições que vislum braram nesses m eios de com unica-ção oral e visu al de m assa, a possibilidade de instauração ou redignificação, ao lado da esfera pública burguesa de qu e n os fala H aberm as (1984), de um a esfera pública plebéia, sobre a qual Canclini (1995) nos desafia a pensar: Uns poucos intelectuais e políticos (por exemplo, Mi-khail Bakhtin, Antonio Gramsci, Raymond W il-liam s, Richard Hoggart) foram adm itindo a existência paralela de culturas populares que constituíam “um a esfera pública plebéia”, infor-mal, organizada por meio de comunicações orais
e visuais m ais do que escritas. Em m uitos casos tendiam a vê-la à maneira de Günther Lottes... – como uma “variante da esfera pública burguesa”, cujo “potencial emancipador” e seus pressupostos sociais foram suspensos. Alguns autores latino-americanos, nos quais me incluo, têm trabalhado no estudo e reconhecim ento cultural destas m o-dalidades diversas de comunicação, mas têm fei-to pouco pela valorização teórica destes circuifei-tos populares com o foros onde se desenvolvem redes de intercâm bio de inform ações e aprendizagem da cidadania em relação ao consum o dos m eios de comunicação de massa contemporâneas, para além das idealizações fáceis do populismo políti-co e políti-comunicacional.
Adm ita-se ou n ão que as n ovas m ídias de radiodifusão possam contribuir para a reabili-tação política e cultural de um a esfera pública plebéiana era das massas, o fato é que essas mí-dias, hoje percebidas em seu con jun to com o um sistem a híbrido de m eios de com unicação oral, visual e escrita, são a metáfora máxima da epidemia irradiada em nosso tempo (para uma discussão baseada em esquemas interpretativos bastante próximos aos nossos, mas centrada no tema da mídia, ver Sodré, 1992). E compreen -dê-la com o epidem ia irradiada sign ifica com -preen der algun s de seus efeitos, relacion ados ao próprio fato de operar segundo um a lógica de irradiação: o jornalism o, por exem plo, e de form a m ais geral todo sistem a de in form ação controlado centralm ente, parece nutrir-se dos boatos, da energia “virulenta” dos boatos, mas, n a realidade, visa justam en te acabar com os boatos, visa suprimir sua “virulência”. E o mo-do com o é exercimo-do esse controle da inform a-ção não é apenas pela via direta da censura ou do desmentido, como geralmente se pensa, mas pela via mais sutil da amplificação do boato, da aceleração de sua circulação para reduzir seu ciclo de vida e n eutralizar seus efeitos – pro-movendo uma espécie de “banalização sígnica” –, modo este que reforça mais ainda a metáfora “epidemiológica” da mídia, pois remete ao pró-prio princípio de algumas vacinas.
dessa necessidade de “hibridar” os modelos da irradiação e do contágio, de estabelecer o two-steps flow of information. O próprio Guillaume (1989), quan do prossegue com a m etáfora do vírus e da vacina, o faz agora da perspectiva das estratégias de resistência dos grupos aos dispo-sitivos de irradiação m assiva: Da m esm a m a-neira como os vírus “aprendem” a resistir às va-cinas, as massas aprenderam a jogar com as irra-diações múltiplas que recebem. Redes “de contá-gio” subsistem secundariamente, e sua vitalidade é de tal ordem que os dispositivos de irradiação buscam um a hibridaçãocom elas, para m elho-rar sua eficácia.
Mas há ainda, em toda essa discussão sobre comunicação/epidemia, uma questão de fundo que nunca nos parece suficientemente proble-matizada. As noções de contágio e irradiação de influências, quando transpostas para o cam po da mídia e da informação, onde já não são vis-tas simplesmente como metáforas, exigem que se explique de que form a se dá efetivam ente o contágioe a influêncianessas esferas “com uni-cacionais”. E a im portância dessa explicação é tanto maior quanto se observa que essas noções se tornaram um típico exemplo da “facilidade” rapidamente transformada em “obstáculo epis-temológico”; isso porque, de tanto se acreditar na “auto-evidência” da influênciados meios de comunicação para explicar seus efeitos, esque-ce-se de que, com freqüên cia, é a própria in -fluênciaque precisaria ser explicada. E é disso qu e com eçaram a se ocu par algu n s pesqu isa-dores, ainda no século 19, especialmente aque-les preocupados em encontrar formas de “ges-tão das multidões humanas”, preocupados com a chamada “psicologia das massas”.
O m édico psicopatologista fran cês Gusta-ve LeBon (1841-1931) é muitas vezes apontado com o o grande iniciador do debate, ao publi-car, em 1895, uma das mais célebres e polêmi-cas obras sobre o assun to: La psychologie des foules, onde apresenta as massas como um “fe-n ôm e“fe-n o psicológico” que acom ete os i“fe-n diví-duos, fazendo-os “regredir até um estado pri-mitivo”, em que as inibições m orais desapare-cem e o instinto e os afetos passam a dominar, deixando-os “à m ercê da sugestão e do contá-gio”. O ultraconservador LeBon dá continuida-de, evidentemente, à linhagem de pensadores a quem as m assas atem orizam e repugn am e se propõe a estudar “cientificamente” os mecanis-mos da sugestionabilidade das massas, para po-der atuar sobre elas, subscrevendo uma desca-rada “visão m anipulatória da sociedade”. Para
LeBon, o fundamento do “contágio” é a crença em sua matriz religiosa, portanto, baseada nos m itose na figura de um líderque celebraria es-ses m itos. Nem é preciso citar algum exem plo atual, para afirmarmos que uma tal visão sobre os m odos de se exercer “in fluên cia” sobre as massas está longe de ter desaparecido, mais de um século após a publicação dos trabalhos de LeBon, mesmo tendo, desde então, sofrido vá-rias críticas de peso.
En tre estas últim as, destaca-se a de Sig-m u n d Freu d (1856-1939) qu e, eSig-m Psicologia das massas e análise do eu(1921), criticará jus-tam ente o que cham a de “tirania da sugestão”, preferindo esclarecer a “alm a das m assas” por m eio de seu con ceito de libido. In felizm en te, não é possível reconstituir, neste momento, to-da a riqueza desse debate fun to-dam en tal para a elaboração dos conceitos modernos sobre a co-m un icação, que se travou e ain da se trava eco-m torno das questões de “influência” (e, mais ge-ralmente, de “psicologia coletiva”), e que envolve contribuições de vários campos, como a lin -güística, a pragmática, a psicanálise, as ciências cogn itivas, a psicologia social e a sociologia. Há, entretanto, uma crítica a LeBon que mere-ce ser especialm en te lem brada, pelo que n os in troduz em um outro un iverso de in vestiga-ções que precisará ser con tem plado, para que possam os com pletar esse m apeam ento básico das cham adas qu estões de com u n icação qu e vão se demarcando na própria constituição do pensamento social moderno: trata-se da crítica de Gabriel Tarde (1843-1904), cuja “psicologia social” terá gran de im portân cia n o em basa-m en to da pribasa-m eira teoria da cobasa-m un icação do fun cion alism o n orte-am erican o dos an os 30-40. No seu clássico L’opinion et la foule, m an -tém a idéia de “sugestão”, só que esta não se da-ria mais num “espaço religioso” em que impe-ram as “crenças”, como para LeBon, e, sim, num “espaço de comunicação” (essencialmente cons-tituído pela imprensa) em que imperam as “opi-niões”. Conforme observação de Martin-Barbe-ro (2001), em Tarde, num único movimento, a m assa é convertida em pú blicoe as crenças, em opinião. O novo objeto de estudo será pois o pú-blico com o efeito psicológico da difusão de opi-nião, isto é: aquela coletividade cuja adesão é só m ental. Adesão que, tan to para Tarde quan to para LeBon , se produziria por sugestão, m as que para Tarde, se dá “à distância”, por meio da imprensa e mediada pela opinião pública.
num “espaço religioso”, às concepções de Tar-de, situadas num “espaço da com unicação”, re-presen ta a passagem do contágioà irradiação. Mas, mais do que disso, a contribuição de Tar-de, como coloca Martin-Barbero (2001), ao re-qualificar a m assacom o público, sinaliza luci-damente a nova situação da massa na cultura: a progressiva transform ação do ativo –ruidoso e agitado – público popular das feiras e dos teatros no passivopúblico de um a cultura convertida em espetáculo para um a “m assa silenciosa e as-sustada”.
A “psicologia social” de Tarde tam bém é u m a teoria das in terações sociais em aberta oposição à sociologia de Durkheim , já que in -teressada pela “n atureza subjetiva das in tera-ções sociais”, o que era desprezado pelo positi-vista. Opõe-se a Durkheim, indo na direção da sociologia com preensiva de Weber e, particu -larmente, de Simmel, outro autor decisivo para os desdobramentos futuros do pensamento so-bre a comunicação.
Pequenos objetos da vida cotidiana
Georg Simmel (18581918) também estava in -teressado pela idéia de um social procedente das trocas, das relações e ações recíprocas entre indi-víduos, (de) um m ovim ento intersubjetivo... Contrapondo-se a uma sociologia que define seu objeto a partir do “instituído” e das “estruturas”, tais como o Estado, a família, as classes, as Igrejas, as corporações e os grupos de interesses, Sim -mel se interessa pelos “pequenos objetos” da vida coletiva no cotidiano(Mattelart, 1999). A ade-quada com preen são do arco de problem as e abordagens que recobrem o que chamamos hoje de campo da comunicação não estaria com -pleta sem contem plarm os a am pla vertente de estudos, que se inaugura na virada do século 19 para o 20, e que se interessa fundamentalmente pelo m undo vivido pelos hom ens no seu coti-diano (coticoti-diano de uma sociedade de massas), que se interroga sobre a condição m oderna, a condição do homem na vida moderna, e que se abordam m ais todas as questões apresentadas ao atônito homem das metrópoles, desde a se-gunda metade do século 19, revelando, assim, o saber qu e se gera a partir de u m a ou tra expe -riênciadas m assas e da vida urbana, que não é mais a do medo ou do asco, e que, diferente de todas as que apresen tam os até aqui, procura m ais en ten der o qu e sign ifica estar nelas, do que dominá-las.
Nesta vertente, situamos autores como Sieg-fried Kracauer (1889-1966) e, especialm en te, Walter Ben jam in (1892-1940). Com o afirm a Mattelart (1999), ambos privilegiam a observa-ção dos detalhes, dos fragmentos, das “ruínas da história”, a fim de reconstituir um a totalidade perdida. N isso am bos são influenciados pela fe-nom enologia de Husserl e pelas prem issas m eto-dológicas de Georg Sim m el: a atenção às m ani-festações de superfície para ter acesso à essência de uma época.
En quan to Sim m el, n o seu an tológico en -saio Metrópole e vida m ental, descreve o que cham a de atitu de blasédo hom em da gran de metrópole – uma atitude cuja essência “consis-te no em botam ento do poder de discrim inar”, um estado de ânim o que, por sua vez, seria “o fiel reflexo subjetivo da economia do dinheiro completamente interiorizada” –, Benjamin, em seus escritos sobre Paris, capital do século 19, vai numa outra direção e retoma de Baudelaire (O heroísm o da vida m oderna) a figura do flâ -neur,descrita como a do “colecionador de ima-gen s e desejos da gran de cidade”, o “fetichista da mercadoria”, aquele em “empatia pela alma da mercadoria”. “Flanar” para os franceses de-signa um certo gosto em passear pelas grandes cidades, pelas gran des galerias, aprecian do as vitrines; designa um m odo de entretenim ento já inteiramente associado à mercantilização da vida moderna e a sua espetacularização no con -sum o. Canclini (1995) vê nesse “passeio” um a busca de sen tido em m eio à experiên cia frag-m en tária das frag-m egacidades, um a operação de consumo simbólico que integra os fragmentos em que já se despedaça essa metrópole moderna.
Se há algo de im portân cia capital n a obra de Benjam in é, sem dúvida, nos fazer pensar a experiência: foi o pioneiro a vislumbrar a media-ção fundam ental que perm ite pensar historica-mente a relação da transformação nas condições de produção com as mudanças no espaço da cul-tura, isto é, as transformações no sen sorium dos m odos de percepção, da experiência social. Mas para a razão ilustrada a experiência é o obscu-ro, o constitutivamente opaco, o impensável. Pa-ra Benjamin, pelo contrário, pensar a experiên -ciaé o modo de alcançar o que irrompe na histó-ria com as m assas e a técnica(Martin-Barbero, 2001).
nova sensibilidade das m assas é a da aproxim a -ção(a do fim da distânciana experiência estéti-ca, tão prezada por seus colegas de Frankfurt, em especial, Adorno), é a da conquista do senti-do para o idêntico no munsenti-do. E é esse sentisenti-do, es-se novo sen sorium, o que se expressa e se m ate-rializa nas técnicas que, como a fotografia ou o ci-nema, violam, profanam a sacralidade da aura – “a manifestação irrepetível de uma distância” –, fazendo possível outro tipo de existência das coi-sas e outro modo de acesso a elas” (Martin-Bar-bero, 2001). É nesse ponto que se m anifesta o caráter libertário do pensamento de Benjamin, que entende que, antes, para a m aioria dos ho-mens, as coisas, e não só as de arte, por mais pró-ximas que estivessem, ficavam sempre longe, por-que um modo de relação social lhes fazia parecer distan tes. Agora, as m assas sentem próxim as, com a ajuda das técnicas, até as coisas mais lon-gínquas e m ais sagradas. E esse “sentir”, essa ex-periência, tem um conteúdo de exigências iguali-tárias que são a energia presente na massa. Ben-jamin abre, assim, inusitadas possibilidades de se pensar as relações da m assacom o popular, assunto cuja importância na atualidade tem fei-to com que sua obra venha sendo, com freqüên-cia, reestudada por autores con tem porân eos, com o o próprio Martin-Barbero em quem vi-m os n os apoian do, e que cen sura os cen sores de Ben jam in , qu e só vêem n as tecn ologias de comunicação, “o instrumento fatal de uma alie-nação totalitária”, certos da onipotência sem li-mites do capital e cegos para as contradições que vinham das lutas operárias e da resistência-cria-tividade das classes populares. O que, para Mar-tin -Barbero, im plica desconhecer o funciona-mento histórico da hegemonia e achatar a socie-dade contra o Estado, negando e esquecendo a existência contraditória da sociedade civil.
O tem a da hegem onian os rem ete a ou tro m arxista heterodoxo da prim eira m etade do século 20, que também deixará marcas profun-das n o pen sam en to sobre a com u n icação e a cultura ao longo desse século, particularmente na obra de autores inaugurais dos cultural stu-diesbritânicos (ligados ao Centre of Contem -porary Cultural Studies da Un iversidade de Birmingham, fundado em 1964), como Richard Hoggart e Raymond Williams (1921-1988), ou au tores latin o-am erican os com o Jesú s Mar-tin-Barbero e Néstor García Canclini. Trata-se do italiano Antonio Gramsci (1891-1937), que também assumiu precocem ente, a recusa em ali-nhar de m odo m ecânico as questões culturais e ideológicas às da classe e da base econômica,
tra-zendo ao prim eiro plano a questão da sociedade civil com o distinta do Estado(Mattelart, 1999). Portanto, m ais um autor cujo pensam ento re-con hece e valoriza ou tras din âm icas sociais e políticas, para além do “instituído” e das “estru-turas”.
cultural studies(iniciados por C. Wright Mills [1916-1962] no mesmo período em que se for-mavam as bases dos acima mencionados cultu -ral studiesbritânicos), além de ser, até hoje, uma referência im portante para estudos de audiên -cia/recepção, em todo mundo.
Apesar dessa sua grande importância para a pesquisa em comunicação, o momento em que esta última se define como um campo discipli-nar em separado (momento que nos é indicado pela sua institucionalização por meio da criação de institutos e centros de pesquisa especializa-da, assim como de faculdades de comunicação), corresponde exatamente àquele em que a supremacia da Escola de Chicago começa a ser con -testada e a declinar. A partir de 1935, o projeto empirista de Chicago cederá lugar a um outro: o da Mass Communication Research, cujo esque-m a de an álise “fun cion al” desloca a pesquisa empírica para as medidas quantitativas (afinal, as m ais aptas a respon der às n ovas exigên cias proven ien tes dos adm in istradores da gran de mídia). Essa mudança está intimamente relacio-n ada a m ovim erelacio-n tos de furelacio-n do das ciêrelacio-n cias so-ciais norte-americanas nesse período, relacionados à ascensão do “funcionalismo” como orien -tação teórica dominante. O contexto dessas mu-danças é, como se sabe, o do entre-guerras, aque-le em que os novos meios de comunicação sur-gem – nas palavras de H arold Lasswell (19021978), um dos primeiros teóricos da Mass Com -munication Research – como instrumentos in-dispensáveis para a “gestão governamental das ‘opiniões’”; é também o período do new dealque se segue à grande depressão de 1929, em que a propaganda comercial passa a ter um papel “fun-cionalmente” determinante para o equilíbrio e estabilidade do sistema social, tornando-se uma de suas mais poderosas ferramentas para fazer frente às crises de superprodução do capitalis-mo, ao mesmo tempo em que a propaganda po-lítica assume o papel de mobilizar a população em torno dos programas de Welfare State cria-dos para en fren tar a crise, para isso lan çan do mão de “técnicas de formação da opinião públi-ca” e, junto com elas, de “sondagens de opinião”, que acabaram por se tornar indispensáveis “fer-ram entas da adm inistração cotidiana da coisa pública”. Pode-se dizer que a “sondagem de opi-nião”, essa expressão quantitativa e “probabilitá-ria” da opinião pública, passa a ser a forma hege-mônica de se representaresta entidade abstrata. É nesse sentido, em primeiro lugar, que as son-dagen s são a própria “fabricação da opin ião”: por lhe conferir uma certa existência tangível.
Mass Communication Research
Nesse ponto, dam os por cum prido o objetivo principal a que nos propusemos no início deste trabalho: m apear as prin cipais qu estões qu e em ergiram no pensam ento social dos últim os dois séculos e que acabaram por configurar um cam po de questões bastan te diferen ciado, em qu e se divisam algu n s dos gran des con ju n tos con ceituais da com unicaçãon a m odern idade. Tanto aqueles conjuntos que dão suporte con -ceitual à form a sob a qual se institucionaliza o campo da comunicação, quanto aqueles que dão suporte conceitual a outros modos de se pensar a com unicação, outras visões e projetos a res-peito das formas de comunicação e socialidade contem porâneas e que m uitas vezes se oporão criticamente às formas hegemônicas. E esse ma-pa já está, em suas linhas gerais, traçado, no mo-mento em que se institucionaliza a pesquisa so-bre comunicação sob a égide da “multinacional científica” de Lazarsfeld: a Mass Com m unica-tion Research, cujos modelos teóricos ainda po-dem ser ditos hegemônicos, direta ou indireta-mente, consciente ou inconscienteindireta-mente, já que se tornaram um a espécie de vulgatada comu -nicação para pesquisadores sociais das mais di-versas áreas, uma espécie de visão “generalista” da comunicação, embora, de fato, corresponda a mais bem-sucedida das ideologias da comuni-cação. Por isso, é com ela ainda, em grande me-dida, o nosso embate e, nesses parágrafos finais, esperam os conseguir m ostrar que se trata, in -clusive, de um em bate m ais ou m en os direto com boa parte de suas grandes questões forma-doras, m ais ou m en os n os term os em que fo-ram formuladas nos tópicos anteriores.
Con tudo, ain da que o n osso em bate atual se apóie sobre esqu em as básicos herdados de “outros tem pos”, ele tam bém se dá após m ais de m eio século de história e crítica desse m o-delo hegem ôn ico da com un icação. Para que nossas próprias posições nesse embate possam ser situadas n o m apa produzido, será preciso apresen tar, ain da que m in im am en te, algun s dos principais “movimentos” que marcaram o pensamento sobre a comunicação, nos últimos cinqüenta anos. Privilegiaremos, neste brevíssi-mo resgate, apenas os “brevíssi-movimentos” que mar-caram sign ificativam en te a pesqu isa latin o-americana e, particularmente, a brasileira, que também começam a se institucionalizar após a Segunda Grande Guerra.
Segu in do u m a periodização estabelecida por Lopes (1990) para a pesquisa em com
uni-cação n o Brasil, tem os que o in ício, n os an os 1950, é marcado pela presença quase exclusiva de pesquisas funcionalistas baseadas em méto-dos quantitativos. Num a palavra, surge o Ibope. É a grande vaga do funcionalismo nas ciên -cias sociais do con tin en te am erican o. Nessa gran de vaga se in stitu cion aliza n ão apen as a com unicação, m as um a boa parte das ciências sociais latin o-am erican as e de ou tras regiões “periféricas”. E o funcionalism o – essa síntese teórica, em que se atualizam esquem as racio-nalistas e positivistas, difusionistas e desenvol-vim entistas – nos chegou, sobretudo, em bala-do na já comentada sociologia da modernização. Na década de 1960, a pesquisa funcionalista (bastante impulsionada por organismos inter-nacionais com o o Centro Internacional de Es-túdios Superiores de Comunicación para Amé-rica Latin a/Ciespal) tam bém se volta para os cham ados “estudos de com unidade”, nesse ca-so, sem pre vin cu lados a preocu pações estra-tégicas com a “difusão de inovações tecnológi-cas” e sempre concebidos nos termos da teoria fu n cion alista da m odern ização. Nessa lin h a d a “difusão de in ovações”, dois gran des tipos de tecnologias se sobressaíram: as “tecnologias agrícolas” e as “tecnologias contraceptivas”. E, desde essa época, estas últimas vêm sendo uma espécie de carro-chefe da pesquisa e da prática de comunicação emsaúde. Notemos que, nesse m om en to, já se trata de um a n ova relação da comunicação com a saúde, que não é mais ape-nas a da metáfora ou da homologia, embora es-tas tam bém se preservem , m as u m a relação fundamentalmente instrum ental. No marco do funcionalismo (e sua tranqüila “visão manipu-latória da sociedade”), a comunicação se apre-sen ta com o a disciplin a capaz de oferecer as “bases científicas para a m udança de com por-tamento”, numa era em que promover a saúde significa, quase sempre, a necessidade de “mu -dar o comportamento”. É o auge do difusionismo e não é difícil saber quem ocupará, no cam -po da saúde, as -posições “centrais” e “periféri-cas” (para um exam e m ais detido das relações entre saúde e comunicação num “caldo de cul-tura” funcionalista, particularmente na Améri-ca Latina e no Brasil, ver Teixeira, 1997).
pré-lógico” foram refutadas, justamente, pela antro-pologia “funcionalista” de Bronislaw Malinows-ki (1884-1942), que afirm a que o pensam ento selvagem é “racional”, ainda que não científico. Na su a obra Magia, ciência e religião(1925), afirma que esses domínios são “complementa-res” e que, tanto a “razão”, quanto a capacidade humana de “fazer cultura”, são universais e con-dição de “comunicabilidade” entre os homens. E. E. Evans-Pritchard (1902-1973) segue a mes-ma direção e, em Bruxaria, oráculos e magia en-tre os Azande(1937), declara que os “primitivos” são “racionais”, na medida em que desenvolvem um pensamento como o nosso. Assim, a antro-pologia, que viria refutar as teses de um pensa-mento selvagem “infantil”, não deixa de “natura-lizar” o m odus pensandido “hom em branco”, que é erigido a uma espécie de padrão-ouro da “razão”: são “racionais” porque pensam com o nós. Vale a pena lembrar que outra foi, mais ou menos na mesma época, a posição dos moder-nistas brasileiros: Contra todos os im portadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar (Oswald de An drade, Manifesto antropófagode 1928).
Escola de Frankfurt, estruturalismo e estudos culturais
Ainda segundo a periodização estabelecida por Lopes, temos que, na década de 1960, começam a aparecer no Brasil os “prim eiros estudos crí-ticos sobre a indústria cultural através da teo-ria da Escola de Frankfurt”. Nesse primeiro m o-m en to, predoo-m in ao-m os estudos cen trados n a temática da manipulação. Na década seguinte, o espectro temático se ampliará, passando a in-cluir, destacadamente, os temas da transnacio-nalização e da dependência. Nos anos 70, tam -bém surgem os primeiros trabalhos de orienta-ção estruturalista que, entre outras contribui-ções, en riquecerão o cam po de pesquisa com suas metodologias sociossemiológicas e de aná-lise de discurso.
Ora, a adaptação desses m odelos teóricos europeus à reflexão de questões “locais” logo colocou um a série de problem as, que fizeram com qu e a situ ação se en cam in hasse rapida-mente para uma “grande crise de paradigmas” da pesquisa em com un icação latin o-am erica-na, cujo acme é reconhecido no final da década de 1970. Há um esgotamento relativo das abor-dagens na linha da crítica frankfurtiana – refe
-rimo-nos aqui a Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Adorno (1903-1969), bem como ao “prim eiro” H aberm as – e n a lin ha da análise sociossem iológica estruturalista– Rolan d Bar-thes (1915-1980), mas também Louis Althusser (1918-1990) e, de uma certa forma, o “primei-ro” Foucault –, e am pliam -se n as décadas seguin tes (1980, 1990) as abordagen s que recu -peram as contribuições do “frankfurtiano” Ben jamin (bem como do Habermas “pósgiro lin -güístico”) e os estudos que resgatam o papel dos sujeitos, da vida cotidiana, do que se passa n o plan o da “recepção”, das “audiên cias”, dos “públicos”, vistos agora de u m a perspectiva mais ativanos processos de comunicação.
Nas palavras de Lopes, a década de 1980, na América Latina, é marcada pela politização das pesquisas em Com unicação com forte influência gram sciana, com m etodologias qualitativas; (e com o) tem áticas: novas tecnologias de com uni-cação, transnacionalização, cultura e comunica-ção popular, assim com o pelos esforços para a elaboração de um a teoria e m etodologia da co-m unicação latino-aco-m ericana. O m ais bem su -cedido desses esforços vem sendo a cham ada “teoria latino-americana sobre recepção/uso de meios e consumo cultural”, cujos prógonos mais con hecidos são Can clin i, Martin -Barbero e Guillermo Orozco. E é por isso que, nessa últi-m a década, a pesquisa eúlti-m coúlti-m un icação veúlti-m sendo novamente tomada pelas etnometodolo-gias, pelos interacionism os e pelo m ovim ento intersubjetivo, dirigindo-se cada vez mais, nes-ses prim eiros anos do século 21, na percepção de Martin-Barbero (2002), para “as investiga-ções que indagam o des-ordenamento e des-cen-tramento do cultural: a hibridação cultural”. Por esse cam inho, o que se re-descobre na pesqui-sa, é o povo, os pobres e a cultura como espaço da hegemonia. É também o retorno do cotidia-no e da cultura popular.