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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
ARTIGO
ORIGINAL
O
culto
(in)quieto
do
eu
eficaz
Marcelo
Nunes
Sayão
InstitutoFederaldeEducac¸ão,CiênciaeTecnologiadoRiodeJaneiro(IFRJ),Paracambi,RJ,Brasil
Recebidoem27dejulhode2012;aceitoem5defevereirode2014 DisponívelnaInternetem23dejaneirode2015
PALAVRAS-CHAVE
Corpo; Subjetividade; Performance;
Educac¸ãofísica
Resumo Nestetrabalhopretendemosanalisarapreocupac¸ãocomodesempenho,vigentena sociedadecontemporânea,equestionarasuacaracterizac¸ãocomoalgodeíndolepessoal.Para tal, pretendemos refletir sobrea conformac¸ão deuma sociedadeesportivizada geridapela lógicaempresarialesobreavalorizac¸ãodeumestilodevidaquenormalizaumaincessante procurapelamelhoriadaperformanceeespalhaseusefeitosnosmaisdiferentescamposda existência.
©2015ColégioBrasileirodeCiênciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todosos direitosreservados.
KEYWORDS
Body; Subjectivity; Performance;
PhysicalEducation
The(un)quietcultofefficacious
Abstract Inthisarticleweintendtoanalyzetheconcernwithperformance,existingin con-temporary society,andquestion itscharacterizationassomething ofapersonal nature.For suchpurposes,wewillreflectabouttheconformationofasportssocietymanagedbythe busi-nesslogicandaboutthepromotionofalifestylethatnormalizesanendlesssearchforbetter performances,spreadingitseffectsindifferentareasoflife.
©2015ColégioBrasileirodeCiênciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Allrights reserved.
PALABRASCLAVE
Cuerpo; Subjetividad; Rendimiento;
Educaciónfísica
Elculto(in)quietodelyoeficaz
Resumen Enestetrabajonosproponemosanalizarlapreocupaciónconelrendimiento, exis-tenteenlasociedadcontemporánea,ycuestionarsucaracterizacióncomoalgodecarácter personal.Paraeso,nosproponemosreflexionarsobrelaconformacióndeunasociedad depor-tivizada gestionadapor lalógicade negocioysobre la promocióndeunestilo devidaque normalizaunabúsquedaincesanteparamejorarelrendimiento,extendiendosusefectosenlos diferentescamposdelaexistencia.
©2015ColégioBrasileirodeCiênciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todoslos derechosreservados.
E-mail:[email protected]
http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2014.02.001
Introduc
¸ão
Todoprofessordeeducac¸ãofísicaque trabalhaem escola jáse deparou com a negac¸ão de alguns alunos diante de umapropostadeatividadeprática.Comumente,quandose perguntaomotivodarecusaemparticipar,recebe-secomo resposta:nãoseifazer;nãogosto;nãoquero.
Frenteaessa situac¸ão,nãoédifícilconstatarque mui-tas vezes, para o aluno, essa recusa assume um caráter de defesa perante um problema que assume como seu. Nessa lógica, arriscamo-nos a afirmar que também para o professor, na maioria das vezes, essa atitude tem ori-gem em aspectos relacionadosà individualidade doaluno e está comumente associada a uma preocupac¸ão com o desempenhonaspráticas corporais.Demodo semelhante, écomumquetantoprofessoresquantoalunos vislumbrem aparticipac¸ãoentusiasmadacomoumacaracterística pes-soal.Assim,nosdoiscasos,aquestãoévistacomodecunho individual,semque se dêcontade outroselementos que contribuemparaproduzi-la.
Diantedessaconstatac¸ão,visamosnestetrabalho ques-tionarainterpretac¸ãoqueatribuiessapreocupac¸ãocomo desempenhoaumaíndolepessoal,aumaessência consti-tutivadecadasujeito.Paratal,pretendemosrefletirsobre aconformac¸ãodeumasociedadeesportivizadageridapela lógicaempresarialesobreavalorizac¸ãodeumestilodevida quenormalizaumaincessanteprocurapelamelhoriado per-formanceeespalhaseusefeitosnosmaisdiferentescampos daexistência.Nessatrajetória,tomaremoscomoprincípio aafirmac¸ãodeDeniseSant’Anna(2005)deque‘‘falarsobre ocorpoé abordaro que sepassa, aomesmo tempo, fora dele’’.
Afinal,parece-nos queé diantedaconsolidac¸ão deum padrão de desempenho socialmente estabelecido que o sujeitosevêinstadoaparticiparouseretirardaatividade, deacordocom o reconhecimentode umasuposta capaci-dadeouincapacidadepessoaldealcanc¸aromodelo,oque acaba,tanto em umcasocomo nooutro, porlegitimá-lo. Seriacomoumaaceitac¸ãoruidosaousilenciosaque, inspi-radosemJeanJacquesCourtine(2005),poderíamosdefinir comocultoinquietoouquietodoeueficaz.
Porfim,éimportanteacrescentarqueesteensaiofoi ela-boradoa partir de uma série de inquietac¸ões provocadas pelavivênciacotidianacomo professordeeducac¸ãofísica escolar,exercidaaindahoje,equenãotemosintenc¸ãode escreveraquiumahistóriadapreocupac¸ãocomo desempe-nhonaspráticascorporais,masregistraralgunsefeitosque essalógicaproduzemnossasvidaserefletirsobreeles.
Ocultoinquieto
No texto intitulado ‘‘Os stakhanovistas do narcisismo’’,
Courtine (2005) analisa as práticas de body-building nos EstadosUnidoseafirma queum‘‘cultoinquietodoeu efi-caz’’atravessaessasociedadeparaconformarumacultura quereverenciaosucessoe apromoc¸ãopessoalcomo fun-damentosdoseuestilodevida(Courtine,2005).Segundoo autor,obody-buildingéumexemploplenamenteintegrado a esse estilo de vida, que revela, de forma exacerbada, algumascaracterísticasdocultoaocorpoeaodesempenho presentesnasociedadeestadunidense.
Nessetrabalho,Courtineprocuramostrarcomoasformas deperceberevivenciar ocorpoestãoassociadasaos valo-resqueperpassamaculturadaquelepaís.Oindividualismo, a crenc¸ana igualdade deoportunidades,a valorizac¸ãoda competic¸ãoetodo umpensamentomoralereligioso asso-ciado a esses trac¸os, somados ao discurso científico e ao desenvolvimento da tecnologia, forneceram as condic¸ões paraqueganhassemforc¸acertasatitudes,taiscomoo incre-mento da gestão do próprio corpo, o autoinvestimento e aexacerbac¸ãodadisciplina,abuscaincessantepelo bem--estareocultoàbelezafísica.
Seguindo essa lógica, o body-building nada mais é do que umexemplo decomo aspráticascorporais e o corpo são elementos centrais no culto ao performance e ao sucessovigentenassociedadescontemporâneas. Sustenta-das e incentivadas por uma indústria de massa e por um amplomercadoqueglorificaoconsumoeaaparênciacomo formasdeafirmac¸ãosocial,aspráticascorporaissetornam manifestac¸ões dessa culturaque geram statuse reconhe-cimentopormeiodaexibic¸ãocotidianadosinvestimentos destinadosaocorpo.Assim,ocorpo,apreendidocomouma espécie demáquina a sertrabalhada epermanentemente melhoradapormeiodeumautogerenciamentoativo, torna--se um importante instrumento de registro e exibic¸ão do níveldesucessoatingidopeloindivíduo.
Noentanto, como apontaNicolau Sevcenko (2001), os códigoseasmercadoriasquedeterminamascaracterísticas dosucessomudamcommuitarapidez.Dessemodo,numa sociedadenaqualastransformac¸õesocorrememalta velo-cidade,o descarte deprodutose símbolose a criac¸ão de outros sedãode formacada vez maisintensa.Nãobasta manter aboaaparência,é precisotambémacompanharo fluxo das mudanc¸as parapoder garantira manutenc¸ão do status edo reconhecimento.Com isso, paranãoperder a imagemdesucesso,faz-senecessárioestarsempreembusca demelhoraroqueseexibe,sejamosobjetosmateriais,o aspectofísico,osconhecimentos,ashabilidadesde expres-sãoouosmovimentoscorporais.
Segundo Carmen Soares (2005), essa busca constante por melhorias configura uma ‘‘cultura da performance’’, segundo a qual a vida cotidiana passa a se orientar não sópelacompetic¸ão,mastambémpelaprocurade excelên-cia.Essaculturafazumafusãodoespíritoesportivocomo espíritoempreendedoreseusprincípiossetornamumtipo de‘‘culto’’ que perpassatodasasrelac¸ões cotidianas.As lógicas da competic¸ão e da busca pelo melhor desempe-nhopresentesnoesporte(osrecordes)sesomamaoespírito deiniciativa,àbuscadaeficácia,dacompetitividadeeda produtividadeadvindasdomundoempresarial.
sópodeserfrutodeumestilodevidanoqualasuperac¸ão permanentedaperformanceindividualsejaaúnica garan-tia para vencer uma concorrência justa e proporcionar a plenitudenoconsumo.
Comisso,reforc¸a-seaideiadequeavidaeasociedade sãomenosinfluenciadaspelosaspectossociaisepelasac¸ões coletivas do que pelos atos individuais. Cadaser humano viveumaangústiapermanentepelasuperac¸ãodesimesmo. Afaltaestásemprepresente.Ocorpoégeridocom ansie-dadeedeveseralvodeumtrabalhoincansáveleconstante. NaspalavrasdeCourtine(2005):‘‘Apaixãopelobem-estar materialégeral;senemtodosaexperimentamdamesma maneira,todos asentem.Nela o cuidadode satisfazeras mínimas necessidades do corpo e de prover as pequenas comodidades da vida preocupa universalmente os espíri-tos’’.Comoapontamosanteriormente,eiso‘‘cultoinquieto doeueficaz’’quecolonizaaatualsociedade.
ParaSoares(2005),oesportetemumpapel fundamen-tal na produc¸ão desse culto, pois deixou de ser apenas umaformadeentretenimentoouumaatividadefísicapara tornar-seumdosmaisinfluentesprincípiosdevida existen-tesnasociedadecontemporânea.Segundoaautora,vivemos hoje uma ‘‘voga do esporte’’ e os valores e as práticas inerentesaessaatividadetransformaram-seemmodelose referênciasparaavidacotidiana.Emsuasprópriaspalavras:
Seu conteúdo hoje expressa princípios de ac¸ão, e não apenasumconjunto de práticas corporais, tradicional-mente denominadas esporte. O esporte evadiu-se do esporte, conforme afirmac¸ão de Ehrenbergh, tornou--se um estado de espírito, um modo de formac¸ão e pertencimento social, referência privilegiada a uma competitividadesupostamenteprimordiale inerenteao ser humano e que produz uma sociedade competitiva
(Soares,2005).
Amesmaautoraapontaqueoesporteseconformacomo uma‘‘pedagogia de massas’’ capaz de interferir, influen-ciar,determinar formase estilosdevida eimpor valores, maneiras de viver,de ser e de pensar que definem com-portamentos,gestoseatitudesnoseudetalhemaisíntimo. Ainda segundo Soares, no âmbito das práticas corporais (mas,diríamosquenãosó),ostemposatuaisfazem funcio-narumalógicadeacordocomaqual,apartirdepreceitos quesegeneralizaram,sãoestimuladosperformances indivi-duaisaseremconstruídosnavidacotidiana.Dessaforma, cadasujeito,na buscaporconsumar aspromessasde feli-cidadeassociadasaoestilo devidadifundidopelomodelo emquestão, procuraadaptarsuarotinaparaquetodosos momentosdodiaadiapossamcontribuirparaalcanc¸aros padrõesidentificadoscomosucesso.
Desse modo, o esporte, que se desenvolveu em sinto-niacomasociedadecapitalistaeincorporouboaparte de seus princípios, segundo Valter Bracht (2003), acaba por exacerbá-losaoseconstituircomomodeloereferência,no conteúdoenaforma,parasealcanc¸arobem-estar,asaúde, abeleza,acompetitividade,aexcelênciaeasíntesedisso tudoqueéosucesso/felicidade.Assim,tudooquese relaci-onaaoesporteganhaumapositividadedaqualfazemparte tanto osmodelose objetivos aserematingidos quantoos comportamentosemeiosnecessáriosparaalcanc¸á-los.
Nesse processo, tornam-se elementos do culto à per-formanceoautocontrole,acompetitividade,abuscapelo recorde, o modelo de corpo,a promoc¸ão do bem-estar e dasaúde,a possibilidadedeemoc¸ãoe prazer,o estilode vidaativ,eoconsumodeprodutosqueproporcionamstatus. Alémdisso,entendemosqueapadronizac¸ãodomovimento promovida pelo esporte (e por algumas outras práticas corporais), ao ser diretamenterelacionada à melhoria do desempenho,integraasreferênciaseosmodelosdoeu efi-caze,porisso,podetambémserconsideradacomo parte docultoàperformance.
Nesse sentido, Bracht (2003),ao analisar o esporte de altorendimento,afirmaque abusca pelavitória, a exce-lência do desempenho e a racionalizac¸ão dos meios são os códigos que pautam e dão sentido a tal prática cor-poral. Com isso, situa a busca pela maneira mais eficaz e produtiva de se fazer um gesto, um movimento, uma atividade, que configura a racionalizac¸ão dos meios, em igualdadesdecondic¸õescomosoutrosprincípiosdoesporte. Indoalém,consideramosqueaorganizac¸ãodessabuscapor meiodavalorizac¸ão datécnica e do treinamentoé parte constituinte da‘‘pedagogia de massa’’ na qual o esporte se transformou. Seguindo esse raciocínio, defendemos a tese de que a exaltac¸ão do gesto correto e eficaz inte-gra o culto à performance, é parte importante da voga do esporte apontada por Soares (2005) e contribui para umacerta‘‘esportivizac¸ãodavida’’edasdemaispráticas corporais.
Segundo DeniseSant’Anna (2000), a partir dasegunda metadedoséculoXX‘‘ocorpoorgânicotendeaser subme-tidoàac¸ãodeumvastocorpotecnocientíficoqueservepara garantiramelhoriaconstantedaperformanceesportiva’’. Nessabusca pelaeficácia biomecânica,o própriocorpo é operacionalizado.Omovimentoéanalisadoedeleseretira a descric¸ão minuciosa da formamais produtivado gesto. Comisso,oprópriomovimentodocorpoétransformadoem técnica.Essa técnicaé, então, alc¸adaa modelo e padrão que,alémdeinstaurarumadicotomiadocertoedoerrado em relac¸ão aos gestos e movimentos nos esportes e nas demaispráticascorporais,tambémseconformanaprópria curadomalqueinaugura.Atualmente,inseridonacultura daperformance,omovimentotransformadoemtécnicase submeteaoimperativodaeficáciaeidentificacomoameac¸a aodesempenho,aoreconhecimentoeaosucessotodogesto diferentedoqueécientificamenteprescrito.Nessalógica, saberexecutarummovimento na formaprescritapassaa sermaisumaformadepromoc¸ãopessoal,maisumaspecto doeueficaz.
Difíciléconseguirescapardalógicaesportivizante, pre-dominante atualmente em muitas práticas corporais, que buscaa padronizac¸ão do movimento desde o processode iniciac¸ãodaaprendizagem(escapequenamaioriadasvezes évistocomo‘‘aexcec¸ãoqueconfirmaaregra’’).Afinal,o processodeesportivizac¸ãodessaspráticasocorrepormeio dediversasformas,quepassamnãosópelalógica competi-tiva,mastambémporoutroselementos,comoaassociac¸ão entreabuscadaexcelênciaeaoperacionalizac¸ãodocorpo, que juntas levam à submissão ao modelo de movimento, àtécnicaeà exaltac¸ãodogestopadrão. Nessesentido,é importanteressaltaraindaqueessaassociac¸ãoentreo movi-mentocomotécnicaeocultoàperformancecontribuipara disseminaralógicadaexaltac¸ãodogestopadrãoatéentreas práticascorporaisquenãoestãodiretamenterelacionadasà obtenc¸ãoderesultados.Comisso,práticascomoadanc¸ade salão,porexemplo,mesmoquandoocorrememmomentos delazer,tambémsãoimpregnadaspelaexaltac¸ãodogesto padrãoepelocultoaoeueficaz.
Esse culto pode, por um lado, ser inquieto, provocar o anseio permanente e a busca cotidiana pela melhoria dodesempenho,mas,poroutro,tambémpodeserquieto, comopretendemosmostraraseguir.Nessecaso,emvezda angústiaincessante porpromoc¸ão pessoal,temlugar uma autoexclusãopeloreconhecimentodeumasuposta incapa-cidadedealcanc¸aromodelodemovimentoproposto.
Ocultoquieto
Comovimos,vivemosnumasociedadenaqualacompetic¸ão e o desempenho máximo se tornaramreferências, mode-los,objetivosdevidaqueinstamossujeitosaumaprocura inquietae constantepelas promessasdefelicidade repre-sentadaspelo bem-estar,pelasaúde,pelocorpo perfeito, peloconsumoeporumidealdesucessoquesintetizatodos essesaspectos.Com isso,oindivíduocontemporâneo pas-souaconduzirsuavidacomoseelafosseumaempresaque, diantedaconcorrênciacom osdemais, precisade investi-mentosativos epermanentesque possibilitemosucessoe evitemofracasso.
Por outro lado, ao estimular a concorrência,a perma-nentenecessidade de superac¸ão e a busca constante dos modelos,essaformadeconduziravidaaumentaas possibi-lidadesdefracassoeampliaapreocupac¸ãocomasformasde evitá-loe,quandoissonãoforpossível,deescondê-lo.Nessa lógica,ocultoaoeueficazpodetantoproduzirafelicidade, em situac¸ões em que se vivencia umasensac¸ão depoder estatus decorrentedoconsumo e/oude ummomentode exibic¸ãoespetacular,comotambémpodelevarasensac¸ões de frustrac¸ão, fracasso, incapacidade e desajustamento, quando o consumo não é possível e/ou o modelo não é alcanc¸ado.
Assim,apartirdeummesmocultoàcompetitividade,ao consumo,aosmodelossocialmentevalorizados, ao desem-penho, são delineadas e disseminadas duas formas de vivenciá-lo: a inquietae a quieta. Na primeira, o sujeito reconheceasreferênciaseospadrõesestipuladoseprocura incessantementeseenquadrar.Jánasegunda,evitaexibir desempenhosquenãoseenquadramebuscadisfarc¸are/ou ocultaroquenãoestáemconformidadecomosmodelos,o queacabaporreferendá-los.
Emambas,ocorpoocupaumpapeldedestaque,jáque apresenc¸aouaausênciadasaúde,daqualidadedevida,da boaforma,doconsumo,emsuma,dosucessooudofracasso, évisívelnoaspectofísicoerevelaaidentidadeeostatus dequemosexibe.Issoporque,deacordocomCosta(2005), vivemos em umaépoca na qualo corpotornou-se a prin-cipalreferêncianaconstituic¸ãodaidentidadedossujeitos e ‘‘aspirac¸ões morais devem ter como modelo desempe-nhoscorpóreos ideais’’ (grifodo autor).Essa moralizac¸ão do corpo e dos desempenhos corpóreos é reforc¸ada por meiodo cultoao eueficaz elevado a princípiode ac¸ãoe idealde vida,estabelece e consolidahierarquizac¸ões que enquadram os sujeitos, seus corpos e seus desempenhos numaescalaatravessadaporjuízosdevalor.
Nesse contexto, segundo Paula Sibilia (2010), se cons-titui umanova ‘‘moralda boaforma’’ segundo aqual os ‘‘defeitos’’precisamserapagados,jáqueumtipoespecífico decorpoéalc¸adoamodeloaserimitado,nãosóna ima-gemprojetadacomotambémnasatitudesqueaproduzem. Apagar,esconderousimplesmenteevitarservistotornam-se opc¸õesparanãoseexporaoolharalheioeaojulgamento que podevirassociado a esseolhar. Evita-seexibir o que nãoestáem conformidadecomopadrão, deixa-seà vista somenteo quedemonstrasintoniacom ele.Então,diante da inadequac¸ão a ummodelo, que acaba sendo reconhe-cidoerespaldado,osujeitoprefererecolher-seeconfigura, dessa forma,o cultoquieto. Com isso,outras possibilida-des são inibidas, impede a diversificac¸ão das formas de vivenciarocorpo,omovimentoeaprópriavida,em detri-mentodeumahomogeneizac¸ãoquefortaleceelegitimaoeu eficaz.
De acordo com Sibilia (2010), o desejo de apagar as imperfeic¸ões revela, paradoxalmente, uma rejeic¸ão ao corpoeàsuamaterialidade,poisomodelodecorpoquese almejaéumcorpoidealizadoquedesconsideraaslimitac¸ões inerentesàcondic¸ãobiológicadoserhumano.Entretanto, essarejeic¸ãoé interpretadadeformadiferentenoscultos inquietoequieto.Noprimeiro,apesardeocorpovalorizado nãoserocorpoconcretodecadasujeito,masaimagem ide-alizadaque sequeralcanc¸ar, osinvestimentosfeitospara sealcanc¸aressa formasãovistosnãocomo umarejeic¸ão, mascomoumaumentodavalorizac¸ãoedocuidadocomo corpo.Nessalógica,cadavezmaisessetrabalhointensivo sobreocorpoé visto comoalgopositivo,como um exem-plodevirtude, enãocomo umproblema.Poroutro lado, nocultoquieto, arejeic¸ão àexibic¸ãodocorpoé compre-endidacomoumanegac¸ãodocorpoconcretodosujeito,e nãodomodeloidealizado.Nessecaso,aatitudedosujeito évistacomoumproblema,umainadequac¸ão,umsinalda suadificuldade,ouatémesmoincapacidade,delidarcomo própriocorpo.
e execuc¸ão é capaz de contribuir para a valorizac¸ão do indivíduo,ousoincorretoajudaaenquadrá-loentreos desa-justados, os que teriam motivos para ter vergonha, e os levam,comfrequência,apreferirocultarseucorpoeseus movimentos.
Como pedagogia de massas,o esporte ensina o indiví-duo, desde pequeno, a reconhecer os modelos de corpo e movimento que devemser seguidos e,indo alémdisso, ensinaquaisatitudesdevemsertomadasapartirda vivên-ciadessesmovimentosecomosecomportardiantedeuma expectativade desempenho intrínseca aessa prática cor-poral. Já há muito tempo, em sintonia com osprincípios básicosdasociedadeliberale,atualmente,comasuavoga, quedesempenhaumpapeldeprotagonistanaexacerbac¸ão do ideário neoliberal, o esporte tem sido umimportante dispositivo de normatizac¸ão e posterior normalizac¸ão de comportamentos.
Então, diante do culto ao eu eficaz que atravessa a sociedade contemporânea, o sujeito, instado pela peda-gogiadoesporte (embora nãosóporela, evidentemente) apreendequefrenteàcobranc¸apordesempenho,no pró-prioesporte e em outros camposda vida,deve trabalhar incessantementeparaatingir umgrau de aceitac¸ãosocial cada vez maior. Ao mesmo tempo, esse indivíduo passa a compreender, também, que ao não conseguir alcanc¸ar osmodelos socialmentevalorizadose/ou ospadrões mais altosdedesempenho,deveriareconhecersuaincapacidade e aceitara posic¸ão inferior que a justa concorrência lhe impôs. Em ambos os casos, o sujeito se submete a uma realidadepercebidacomodadaeimutável,avalores con-sideradossuperioresque,conformeapontaMargarethRago (2009), não possibilitam a criac¸ão de outros caminhos ou opc¸õesque privilegiemampliarocampodopensávele do possível.
Assim, quandoumindivíduosedepara comalgum pro-cessoquenãoconheceoudomina,acabamuitasvezestendo dificuldade para visualizar outras formas para vivenciá-lo queescapem daoposic¸ão entretentarmelhorar incessan-tementeatéconseguirounãotentaredesistir.Emrelac¸ão ao movimentoe ao gestonaspráticas corporais, essa ati-tude aparece naparticipac¸ão compulsiva,notreinamento obsessivo,novíciodeexercício(quepodedecorrertantoda buscapelocorpoidealcomododesejodedominaratécnica correta),noprimeirocaso,enaparticipac¸ãoenvergonhada, assustada,desestimulada,ouaténarecusacategórica,na segunda forma. Esse quadro tem sido recorrente até em espac¸osnosquaisdeveriaseprivilegiaraoportunidade de experimentar,vivenciarecriarpossibilidadesparalidarcom ocorpoe omovimento,comoa escola,deformageral,e asaulasdeeducac¸ãofísica,maisespecificamente.Assim,é comumencontrarposicionamentosextremosemrelac¸ãoàs aulasdeeducac¸ãofísica.Deumladoosquegostam, parti-cipamebuscamdemonstrareenaltecerassuashabilidades epotencialidades.Deoutroosquedetestam,serecusama participaretememapossibilidadededemonstrarasua inca-pacidade perante o padrãoexigido. Dois lados damesma moeda, em suma,duas possibilidades do mesmo processo desubmissão aoeueficaz: oinquietoe o quieto.Na sub-missão inquieta, os indivíduos referendam os modelos de excelência socialmente estabelecidos e os perseguem de formaobsessiva.Paratal,seguemasprescric¸õeseos cami-nhos que, já no próprio percurso, sãoidentificados como
símbolosdestatusepromoc¸ãopessoal.Transformamesses modelos,e ospróprios caminhos prescritos paraalcanc ¸á--los, em objetos de desejo, em estilos de vida, mas os descartamcom facilidade nomomento em que têm seus statussuperadosporoutros.Vangloriam-senãosódecada resultadoobtido,mastambémdavivência doprocessode conquista, exibem-nos em todas as oportunidades possí-veis. Enfim, cultuam assumidamente valores,princípios e processosrelacionadosaessesmodelose estilosdevidae fazemtudoporalcanc¸araspromessasdefelicidadeaeles associadas.
Jánasubmissãoquieta,osindivíduosserecusama par-ticipardatentativadebuscapelosmodelosdeexcelência, masacabamporreferendá-losdeigualmodo,jáque,aose negar,usamaincapacidadedealcanc¸á-loouainadequac¸ão àsualógicaparaseautoexcluir.Nãoseguemasprescric¸ões eoscaminhos identificadoscomosmodelos, masacabam por se manter à margem deles, pois introjetam as críti-casrecebidasporestar‘‘defora’’,envergonham-sepornão atenderaospré-requisitosreferentesaoestilodevida pro-posto.Dessaforma,essesindivíduosacabam,assimcomoos primeiros,porcultuaroeueficazao endossarcomo supe-riores os padrões e princípios a ele relacionados, só que o fazem de forma discreta, com vistas a não chamar a atenc¸ão para si e para sua inadequac¸ão ao modelo. Todo esse processo, em vez de configurar um questionamento ouumarecusada lógica querege ocultoaqui analisado, pelocontrário, acaba por reconhecê-loe reforc¸á-lo.Mas, afinal,oquefazcomqueosindivíduosseenquadremnessa lógica?
MichelFoucault(2009)jádemonstrouainsuficiênciada hipóteserepressiva paraexplicaroscomportamentos e as ac¸õescotidianasnoaugedasociedadeindustrial.Paraesse autor,opodernãoseexercesomentepelacoerc¸ão,pelo blo-queio,pelanegac¸ão,mastambémpelapositividade,pela incitac¸ão,pelaproduc¸ão.Dessaforma,parapensaroculto ao eu eficaz, devemos situá-lo em uma ‘‘economia geral dosdiscursos’’sobreodesempenho,ocorpo,osgestoseos movimentoseaveriguarquaissãoosefeitosdepoderdessa economiasobreosdesejoseasatitudes.Oeubusca insis-tentementesetornareficaz,ouentãoserecusaarespaldar o modelo, nãoporque recebeu umaordem ouporque foi forc¸ado,coagido,masporqueincorpora,reivindicaedeseja certalógicadefuncionamento,nocaso,adocultoà perfor-mance.Isso porque,aindasegundoFoucault (2009),esses discursospõememcirculac¸ãoumarededesaberese praze-resquepossibilitamapenetrac¸ãodopoder‘‘nasmaistênues emaisindividuaisdascondutas’’.
possibilitem os ganhos e diminuam as probabilidades de danos,sejapormeiodaparticipac¸ãointensaoudarecusa categórica.
Nesse sentido, entendemos que o culto ao eu eficaz e todos os elementos a ele associados reúnem um con-junto de saberes e poderes que produzem efeitos tanto noníveldo corpoquanto nodapopulac¸ão, configuram-se comopoderdisciplinaretambémcomopoder regulamenta-dorna forma descrita porFoucault (1999). Oculto ao eu eficaz, transformado em norma, pode então ser aplicado tantoaumúnicoorganismo quantoàvidadepopulac¸ões, já que, segundo esse autor, a norma é o elemento que circulaentreume outro. Assim,como estratégia biopolí-tica,o cultoao eu eficaz se constitui em ummecanismo deregulac¸ão que crianovasformas devivere se relacio-nar,poisseu aspectodenormaregulamentadoraintervém sobreaspopulac¸õesnosentidodealongaravida,controlar otempogastoforadotrabalho,estimularoconsumoe tor-narocotidianomaisprodutivo,entreoutraspossibilidades. Aomesmotempo,comotécnicadisciplinar,ocultoaumenta autilidadedocorpoeotornamaisprodutivoparaa socie-dadequeoengendra,enquanto,simultaneamente,diminui suaforc¸a política de contestac¸ão e reforc¸aa aceitac¸ão e oenquadramento aosprincípios que constituemo cultoà performance.
Frenteaessesprocessos,osujeitoécadavezmais ins-tadoaseenquadrarnomodelodoeueficazeaceitá-locomo referência.Equantomaiseficazoeubuscaser,ouquanto maiorforomedo desercomparadoaessareferência ina-tingível,maisdóciléo corpoe maiorseuassujeitamento, ouseja,maiscontundenteéasuasujeic¸ão,maisintensa‘‘a maneirapelaqualoindivíduoestabelece suarelac¸ãocom umaregraesereconhececomoligadoàobrigac¸ãodepô-la emprática’’(Foucault,1988).
Nessalinha,éimportanteressaltaraindaqueaassunc¸ão da eficácia, ou de sua ausência, como uma caracterís-ticaintrínsecadapersonalidade doindivíduoconstitui um aspectofundamentalnoprocessodesujeic¸ãoànorma. Afi-nal, essa operac¸ão, como nos indicam Guattari e Rolnik (1986), ao definir a subjetividade como parte de uma essência individual, desloca-a do campo social e obscu-recetodososprocessosqueaconstituem.Nessatrajetória, o próprio indivíduo, ao fixar características socialmente produzidasemumasupostaidentidadeessencializada, sub-metea constituic¸ãode suasubjetividadeàsreferênciase aosmodelosproduzidospela norma.Instaura-se,então, o ‘‘governoporindividualizac¸ão’’(Rago,2009).
Nessaforma decontrole, osujeito é incitado,a partir dediferentesdispositivosque possibilitamacirculac¸ão do poderdeumaformacontínuaeindividualizada,‘‘a expri-mir o seu eumais profundo e a revelar assuas emoc¸ões mais íntimas, sobretudo pela confissão’’ (Rago, 2009). Oqueacabaporvinculá-loaumaidentidade. Comisso,o cultoàperformance,assimcomooutrosfenômenossociais, individualiza-se,torna-separtedeumaidentidade particu-lar, e o indivíduoprocura se descobrire se assumircomo eficazouineficaz.Nessatrajetória,ocultoàperformance seuniversalizaeseconstituicomoumacondic¸ãohumana,ou seja,naturaliza-se.Buscarummelhordesempenhopassaa serumamanifestac¸ãointrínsecaaoserhumano,jáquetodos osindivíduossão,emalgumamedida,eficazesouineficazes. Aeficáciaentão,enquantoaspectoinerenteaoHomem,não
podemaissernegada,somentemensuradaemodificadapor meiodotrabalhodosujeitosobresimesmo.
Considerac
¸ões
finais
Diante do que foi aqui exposto, nos parece claro que os cultosinquietoequietoaoeueficazsãoduasfacesdeum mesmoprocessonoqualabuscapormelhoresdesempenhos eaconstantemensurac¸ãoeavaliac¸ãodaperformance pas-samaserpadrõesreguladoresdaexistência.Nessalógica, constituem-se como duas faces distintas do mesmo assu-jeitamento, diferentesformas de submissão a ummesmo modeloquepassaaservirdeparâmetrodecontroleda nor-malidade,tantoparaaspopulac¸õescomoparaosindivíduos. Aproduc¸ão dessanormalidade, que comporta atitudes tãodistintascomoabuscaincessantepelopadrãode movi-mento e decorpo (característicadocultoinquieto), oua autoexclusãopelaadmissãodaimpossibilidadedeatingiro modelo(docultoquieto),acabaentãoporreferendar princí-pioscarosàsociedadedeconsumo,nãosórelativosaocorpo eaomovimento,mastambémadiversosoutrosaspectosda vida.Defenderumadessasatitudesconfigura-se,então,não comoformadeprotec¸ãodeumapersonalidade,mascomo afirmac¸ãodevaloressocialmenteproduzidos.
Nessesentido,questionaralógica quecultuaarelac¸ão do eu eficaz com o corpo e o movimento, a nossover, é umaformadequestionartambémocultoàperformancee àspromessasdefelicidadeaeleassociadas,oferecidasno mercadopelasociedadecapitalista. Noentanto,paraque essareflexãosobreocorpoeomovimentonãoseja consi-deradaumaquestãoindividualoupsicológica,e possaser estendidatambémparaoutrosaspectos queconstituem a sociedade demercado,torna-se necessáriodesconstruir a ideiadequeexisteumaessênciadesubjetividadeinerente acadasujeito,daqualoeueficaz,entreoutras caracterís-ticas,fariaparte.
Sendoassim,entendemosquesomentelivresdessalógica individualizanteossujeitosterãocondic¸ões,comoapontam
Guattari e Rolnik (1986), de se apropriar de forma cria-tivaeexpressivadasdiversaspossibilidadesdeconformara existência,produzidassocialmente,esesingularizar.Nesse processo, que simultaneamente rompe e desnaturaliza os modelos, abre-se então a possibilidade de construc¸ão de outras lógicas e outros estilos de vida que privilegiem a expansãoe acriac¸ão daexistência, em vezdasujeic¸ãoe daadaptac¸ãoamodelospré-estabelecidos.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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