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(2) VICENTE LUIZ SIMÕES FERREIRA. RELIGIÃO E POLÍTICA Análise histórico-crítica das relações de poder entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana no período pós-exílico. Tese apresentada em cumprimento às exigências do curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião para obtenção do grau de doutor. Área de concentração: Literatura e religião no mundo bíblico Orientação: Prof. Dr. Tércio M. Siqueira. São Bernardo do Campo – SP Setembro de 2012.
(3) A tese de doutorado sob o título “RELIGIÃO E POLÍTICA – análise histórico-crítica das relações de poder entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana no período pós-exílico”, elaborada por Vicente Luíz Simões Ferreira foi defendida e aprovada em 28 de Setembro de 2012, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Tércio Machado Siqueira (Presidente/UMESP), Prof. Dr. José Ademar Kaefer (Titular/UMESP), Prof. Dr. Paulo Barrera Rivera (Titular/ UMESP), Prof. Dr. Antônio Carlos Frizzo (Titular/ITEFIST), Renatus Porath (Titular).. ___________________________________________ Prof. Dr. Tércio Machado Siqueira Orientador e Presidente da Banca Examinadora. ______________________________________________________ Prof. Dr. Leonildo Silveira Campos Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião Área de Concentração: Literatura e Religião no Mundo Bíblico Linha de Pesquisa: Estudo Histórico-Literário do Mundo Bíblico.
(4) Agradecimento Em primeiro lugar, quero agradecer, de saudosa memória, ao amigo e professor, Dr. Milton Schwantes, pois se hoje sou o que sou, academicamente falando, devo praticamente, tudo a ele. As aulas no curso de graduação em teologia. O convite para ingressar na pós-gradução e a orientação no mestrado. Enfim, chegado ao termo no doutorado, fomos colhidos pelo infortúnio de sua partida, mas as lembranças, que não foram poucos, deixaram marcas indeléveis, que nada nem ninguém poderão apagar. Agradeço também aos professores do corpo docente do Programa de PósGraduação em Ciências da Religião pelo carinho e atenção ao longo da caminhada. Ao professor Dr. Tércio Machado Siqueira que pacientemente soube me orientar e quando preciso, foi sempre firme. Agradeço também ao IEPG e CAPES pelo apoio financeiro. Enfim, agradeço aos colegas, meus amigos e companheiros na academia, pois me proporcionaram sempre momentos muito felizes em suas companhias..
(5) Dedicatória. Dedico esta tese a todos os povos que ainda, em pleno século XXI continuam sendo explorados, manipulados e escravizados pelas classes dominantes. Que esta tese, juntamente com outras tantas teses, sirvam de motivação para um profícuo trabalho de libertação e emancipação dessas gentes que também tem o direito de viverem no aqui e agora da história uma vida nova, com acesso aos bens fundamentais para que possam gozar desde já de uma plena alegria e felicidade..
(6) SUMÁRIO Introdução. 12 I Parte. Capítulo 1 – Religião e Política. 32. 1.1 – A Religião 1.1.1 – Fase da Religião Pura 1.1.2 – Fase da ascensão do Estado 1.2 – A Política (O Estado) Capítulo 2 – Sociedades primitivas/selvagens/tribais. 34 41 47 72 76. 2.1 – As diferentes funções dentro das sociedades primitivas 2.2 – A questão do Poder nas sociedades primitivas 2.3 – Religião e poder nas sociedades primitivas Capítulo 3 – Relações de Poder. 84 87 92 101. 3.1 – Conclusão. 106 II Parte. Capítulo 4 – Contextualizando o judaísmo. 108. 4.1 – Contexto histórico do objeto de pesquisa 4.2 – Os persas e sua política imperial de controle social 4.2.1 – Ruralização 4.2.2 – Militarização e incremento comercial 4.3 – Reconstruindo partes da história 4.4 – O tribalismo israelita 4.4.1 – Revisitando o período pré-monárquico 4.4.1.1 – Retirada pacífica 4.4.1.2 – Nomadismo interno 4.4.1.3 – Transição ou transformação pacífica 4.4.1.4 – Amálgama pacífico 4.4.2 – Os anciãos (chefes) tribais pediram um rei 4.4.3 – A situação do tribalismo no período assírio 4.4.4 – Exilio: para o campesinato possibilitou a “retribalização” da província de Judá 4.4.4.1 – O exílio e a reforma agrária 4.5 – O campesinato judaíta 4.5.1 – O campesinato 4.5.2 – O campesinato judaíta 4.5.3 – Resgatando alguns importantes fatos históricos 4.5.4 – Retorno dos exilados: a “terra” no centro da crise 4.6 – O sacerdócio jerusolimitano. 113 114 116 117 117 124 126 127 127 128 129 130 131. 4.7 – O regime teocrático. 176. 143 144 147 147 150 150 161 166.
(7) III Parte Capítulo 5 – Judaísmo: consumação do projeto teocrático 5.1 – Judaísmo: um projeto imperial persa? 5.2 – A ideologia como estratégia do grupo sacerdotal sadocita 5.2.1 – Ezequiel 40-48 “Nunca descuidaremos da casa de nosso Deus” – aspectos da economia do segundo templo 5.2.1.1 – Ez 40-48: um projeto para a província de Judá a) Sumo sacerdote e príncipe: direitos iguais b) A lei do templo (torat habauyt) 5.2.2 – O Pentateuco e a Narrativa Sacerdotal (P) 5.2.2.1 – O Pentateuco no campo das forças políticas e Sociais da província de Judá 5.2.2.2 – A Narrativa Sacerdotal (P) a) Material sacerdotal b) O ideológico culto sacrificial como elemento central do Documento Sacerdotal c) Sadocitas versus levitas 5.2.3 – Esdras e Neemias 5.2.3.1 – Estrutura e teologia 5.2.3.2 – A problemática da terra 5.2.3.3 – Implicações da ideologia de Ez 40 – 48 5.2.3.4 – Esdras a partir de Esd 7 – 10 5.2.3.5 – Neemias a) Neemias 5 b) Neemias 10 5.2.4 – 1º e 2º Crônicas 5.3 – O sistema sacrifical sacerdotal como eficiente Sistema tributário 5.4 – Uma releitura da ideologia sacerdotal à luz de Michel de Certeau 5.5 – O judaísmo à luz da teoria da etnicidade 5.6 – Tribalismo e profetismo 5.6.1 – Amós 5.6.2 – Oséias 5.6.3 – Conclusão 5.7 – As relações de poder no judaísmo à luz de Michel Foucault 5.7.1 – Vigilância em rede 5.7.2 – Punindo não tanto o corpo, mas principalmente a alma 5.7.3 – Da “verdade do poder” ao “poder da verdade” 5.8 – Judaísmo: religião da “saída da religião”. 181 183 190 196 197 199 199 210 212 215 217 221 224 225 227 230 233 234 236 236 241 243 244 250 253 258 258 262 266 268 268 272 274 275. Conclusão. 282. Bibliografia. 292.
(8) FERREIRA, Vicente Luiz Simões, Religião e Política – Análise histórico-crítica das relações de poder entre o campesinato judaíta e classe sacerdotal jerusolimitana no período pós-exílico, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, Tese de Doutorado, 2012.. Resumo. Partindo do pressuposto de que o laicismo preconiza uma separação radical entre Estado e Igreja, procuro demonstrar nesta tese, a partir de um recorte na história do Judaísmo que estas duas dimensões estiveram profundamente presentes em seu período inicial de formação. Esta tese se constitui como uma espécie de desconstrução da história tradicionalmente aceita pelos diferentes credos que utilizam o Antigo Testamento como fundamento de seu corpo doutrinal. Estabeleci as relações de poder, que se efetivaram entre os dois grupos sociais mais importantes dentro do contexto destacado, como meu objeto de pesquisa privilegiado. Por um lado tem-se o poder religioso, que sustentado por um projeto de caráter eminentemente político, subverteu a seu favor toda uma ordem natural na qual estavam alicerçadas, por outro lado, diferentes sociedades tribais. Nesse sentido o judaísmo se configurou como um sistema de crença que justificou e legitimou a classe sacerdotal jerusolimitana como classe dominante em toda a província de Judá. Manipulando os dados da tradição tribal a seu favor, a classe sacerdotal, não somente passou a dominar religiosamente as pessoas que habitavam a região da província de Judá, mas transformou os membros destas sociedades tribais em camponeses escravizados a um sistema de crença extremamente opressor. Segundo a tese de Marcel Gauchet, o judaísmo como ponto de partida da revelação judaico-cristã, se mostra, conforme o conceito weberiano de “desencantamento do mundo”, como início de um processo, onde a religião institucionalizada se tornou “saída da religião”. Processo esse, que teve seu clímax no período da modernidade e que nesse início de século XXI se vê num momento de transição quando passa a um novo período, isto é, à pós-modernidade: nesse sentido já se pode entrever seu ocaso.. Palavras chave: relações de poder – tribalismo – campesinato – sacerdócio – ideologia.
(9) FERREIRA, Vicente Luiz Simões, Religião e Política – Análise histórico-crítica das relações de poder entre o campesinato judaíta e classe sacerdotal jerusolimitana no período pós-exílico, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, PhD Thesis, 2012.. Summary Assuming that secularism advocates a radical separation between Church and State, I try to demonstrate this thesis, a clipping from the history of Judaism that these two dimensions were deeply present in their initial training period. This thesis is constituted as a kind of deconstruction of the traditional story accepted by different faiths who use the Old Testament as doctrinal foundation of your body. Focusing on the study of Judaism as a particular example, established power relations, which we accomplished between the two most important social groups in this context as my privileged object of research. On the one hand there is the religious power, sustained by an eminently political character design, overturned in their favor across a natural order in which they were grounded on the other hand, different tribal societies. In this sense Judaism is configured as a belief system that justifies and legitimizes the priestly class jerusolimitana as the ruling class throughout the province of Judah Manipulating data tribal tradition in its favor, the priestly class, came to dominate not only religiously people who inhabited the region of the province of Judah, but become members of these tribal societies enslaved peasants in a belief system extremely oppressive. According to the thesis of Marcel Gauchet, Judaism as a starting point of the Judeo-Christian revelation, it turns out, according to Weber's concept of “disenchantment of the world”, as the beginning of a process, where organized religion has become "out of religion”. This process, which had its climax in the modernity and the beginning of this century we see a moment of transition when he begins a new period of post-modernity, one can already discern its setting. Keywords: power relations - tribalism - peasantry - the priesthood - ideology.
(10) FERREIRA, Vicente Luiz Simões, Religião e Política – Análise histórico-crítica das relações de poder entre o campesinato judaíta e classe sacerdotal jerusolimitana no período pós-exílico, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, Tesis de Doctorado, 2012. Resumen Suponiendo que el laicismo aboga por una separación radical entre la Iglesia y el Estado, trato de demostrar esta tesis, un recorte de la historia del judaísmo que estas dos dimensiones eran profundamente presente en su período de formación inicial. Esta tesis se constituye como una especie de deconstrucción de la historia tradicional aceptado por diferentes religiones que usan el Antiguo Testamento como fundamento doctrinal de su cuerpo. Centrándose en el estudio del judaísmo como un ejemplo particular, las relaciones de poder establecidas, lo que hemos logrado entre los dos grupos sociales más importantes en este contexto como mi objeto privilegiado de investigación. Por un lado está el poder religioso, sostenido por un diseño de carácter eminentemente político, se volcó a su favor a través de un orden natural en el que se fundamenta por otro lado, diferentes sociedades tribales. En este sentido, el judaísmo se configura como un sistema de creencias que justifica y legitima la jerusolimitana clase sacerdotal como clase dominante en toda la provincia de Judá, Manipulación de los datos de la tradición tribal en su favor, la clase sacerdotal, llegó a dominar no sólo la religión las personas que habitaban la región de la provincia de Judá, pero convirtieron en miembros de estas sociedades tribales esclavizados campesinos en un sistema de creencias muy opresivo. De acuerdo con la tesis de Marcel Gauchet, el judaísmo como punto de partida de la revelación judeo-cristiana, resulta que, de acuerdo con el concepto de Weber de "desencantamiento del mundo", como el inicio de un proceso, donde la religión organizada se ha convertido en “fuera de la religión”. Este proceso, que tuvo su clímax en la modernidad y el inicio de este siglo vemos un momento de transición, cuando comienza un nuevo período de la post-modernidad, ya se puede discernir su final. Palabras clave: relaciones de poder – el tribalismo – campesinos – el sacerdocio – la ideología.
(11) INTRODUÇÃO Há setores que procuram interferir no projeto existencial e social das pessoas. Tentam substituir o projeto pessoal pelo projeto do sistema vigorante. Temem que o ser humano adote posição autônoma, e contrarie os interesses do sistema dominante. Sabem que o ser humano por frágil que seja é “perigoso” *…+ Para sufocar o projeto original autônomo adotam pedagogias massificantes. Procura-se adaptar as pessoas às normas existentes e levá-las a reproduzir-se como cópias da situação predominante. Enquadra-se o rebanho humano no código uniformista. Impõe-se à população o paradigma oficial. E quem diverge do consenso é condenado como herege. Assim o mundo continua a ser mesmo, dominado pelos mesmos, usado pelos mesmos, usurpado pelos mesmos. É hora de provocar a emersão do ser humano autônomo. É hora de suscitar a consciência crítica que não se deixa enganar. É hora de fermentar a reflexão emancipatória que se mantém insubmissa. É hora de amadurecer um projeto original que levante gerações de seres humanos independentes e responsáveis. É hora de encorajar o ser humano a concretizar seu projeto de vida comprometido com a justiça, com a solidariedade, com a igualdade social e com a dignidade humana. Há soluções políticas, econômicas, científicas e tecnológicas. Mas a solução fontal é o ser humano. Para isso, é preciso que o ser humano queira ser solução. Queira ser gente.. Juvenal Arduini. 1. 1. Juvenal Arduini, Antropologia: ousar para reinventar a humanidade, 2ª Edição, São Paulo, Paulus, 2002, p.22-23..
(12) O tema desta tese nasceu em resposta a alguns questionamentos que estava fazendo quando do término do mestrado, pois em verdade, o que move o mundo e a história, não são tanto as respostas, mas sim as perguntas. Perguntar ou questionar, como se afirma, é próprio de cada um de nós seres humanos. Faz parte de nossa essência, de nossa racionalidade ser questionadores, mas não pelo simples fato de questionar, mas como alguém que está em busca de respostas aos nossos problemas mais candentes, sejam eles de que ordem for. Por um lado, alcançamos um status científico e tecnológico maravilhoso quando comparado com outros períodos. As previsões são as mais otimistas possíveis em relação à cura de algumas doenças como a aids, o mal de Parkinson e o mal de Alzheimer. Hoje os físicos, matemáticos e astrônomos falam em “teoria das cordas”2, “Bóson de Higgs”3, “mundos paralelos” que segundo a trilogia baseada em três livros e que agora chega a tela dos cinemas, tem atraído a atenção de muita gente, além de outras tantas fantásticas curiosidades.. 2. “Teoria das cordas”: O interesse na teoria das cordas é dirigido pela grande esperança de que ela possa vir a ser uma teoria de tudo. Ela é uma possível solução do problema da gravitação quântica e, adicionalmente à gravitação, talvez possa naturalmente descrever as interações similares ao eletromagnetismo e outras forças da natureza. Trabalhos na teoria das cordas têm levado a avanços na matemática, principalmente em geometria algébrica. A teoria das cordas tem também levado a novas descobertas na teoria da supersimetria que poderão ser testadas experimentalmente pelo Grande Colisor de Hádrons. Os novos princípios matemáticos utilizados nesta teoria permitem aos físicos afirmar que o nosso universo possui 11 dimensões: 3 espaciais (altura, largura e comprimento), 1 temporal (tempo) e 7 dimensões recurvadas (sendo a estas atribuídas outras propriedades como massa e carga elétrica, por exemplo), o que explicaria as características das forças fundamentais da natureza. Texto acessado em 11/08/2012: http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_das_cordas 3 “Bóson de Higgs” ou “Partícula de Deus” como é conhecida também, é uma partícula elementar bosônica prevista pelo Modelo Padrão de partículas, teoricamente surgida logo após ao Big Bang de [2] escala maciça hipotética predita para validar o modelo padrão atual de partícula . Representa a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares. Todas as partículas conhecidas e previstas são divididas em duas classes: férmions (partículas com spin da metade de um número ímpar) e bósons (partículas com spin inteiro). O bóson de Higgs foi predito primeiramente em 1964 pelo físico britânico Peter Higgs, trabalhando as ideias de Philip Anderson. Entretanto, desde então não houve condições tecnológicas de buscar a possível existência do bóson até o funcionamento do Grande Colisor de Hádrons (LHC) meados de 2008. A faixa energética de procura do bóson vem se estreitando desde então e, em dezembro de 2011, limites energéticos se encontram entre as faixas de 116-130 GeV, segundo a equipe ATLAS, e entre 115 e 127 GeV de acordo com o CMS. Fora da comunidade científica, é mais conhecida como a partícula de Deus (tradução livre do original God particle, alcunha dada pelo físico Leon Lederman devido ao fato desta partícula permitir que as demais possuam diferentes massas. A 4 de Julho de 2012, cientistas do CERN anunciaram que, ao fim de 50 anos de investigação, descobriram uma partícula nova que pode ser o bóson de Higgs..
(13) Ao mesmo tempo também vemos um grande movimento de emancipação de povos do oriente e do norte da África, antes dominados por ditaduras opressivas e sangrentas caindo depois de dezenas de anos no poder. É a “primavera árabe” que testemunha que regimes ditatoriais não resistem ao tempo. Mas, por outro lado, estamos assistindo a mais uma derrocada do capitalismo, que alguns anos atrás, com a queda do socialismo em 1989, foi saudado até pela Igreja Católica como um modelo perfeito de sociedade, parafraseando a canção, “abençoado por Deus e bonito por natureza”, mas que hoje, visto seu inexorável fracasso e na ânsia por se salvar, obriga estados e nações a pagarem um alto preço com suas próprias vidas. Insensível, inescrupuloso e desumano o capitalismo vai fazendo vítimas por toda parte. Mas, como sempre os que mais sofrem e são chamados a pagar este alto preço são os pobres. Vivendo um momento de transição, de mudança de paradigma, de rupturas, de incertezas diante dos tremendos desafios que se nos afiguram de guerras aqui e acolá, de atentados terroristas, muitos se perguntam: estamos, de fato, entrando num período novo? Seria a tão propalada pós-modernidade? Que valores devemos carregar conosco? Que futuro podemos esperar? Será que a modernidade com toda a sua riqueza de valores e sentido já cumpriu com seu dever? Ao que tudo parece indicar existem algumas forças contrárias que antevendo seu inevitável fim, numa tentativa de conseguir sair ilesa desse período, luta desesperadamente para se manter incólume. É o caso como pudemos assistir do chamado acordo entre a Santa Sé (Vaticano) e o Estado Brasileiro em 2009. Segundo Mozart Valadares, ex-presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), a aprovação do estatuto da Igreja Católica no Brasil foi inconstitucional e feriu a liberdade de religião no país. Disse ele: “Quando você faz um acordo dando benefício a um segmento religioso em detrimento dos outros, você começa a desobedecer, a descumprir o texto constitucional”4. Isso, na verdade, nada mais é do o estrépito de um corpo que parecendo ainda viver no período denominado de a “época das trevas”, continua ruindo dia após dia. Haja vista todo o alvoroço que ela provocou, 4. Texto acessado em 11/08/2012: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3943857-EI6578,00AMB+acordo+Brasil+x+Vaticano+e+inconstitucional.html..
(14) principalmente nas redes sociais, com a votação pela liberdade das mulheres em recorrer ao aborto diante de casos comprovados em que o feto seja portador de anencefalia. Em pleno século XXI, nesse início de milênio muitos dos problemas que acossaram nossa vida e, principalmente, nossa consciência, ainda parecem não ter desaparecido. Volta e meia, religião e política parecem irmãs siamesas que resistem a uma separação, pois muitos membros de ambos os lados ainda creem que possam auferir bons resultados mantendo essa iníqua ligação. Lendo o livro “Religião e luta de classes” de Otto Maduro penso que minha tese responde em parte aos seus questionamentos. No prólogo ele se pergunta: “A quem é que serve a religião na luta de classes?”5 Como poderá ser constatado no desenvolvimento de minha tese, as religiões institucionalizadas, particularmente a Igreja Católica Apostólica Romana, continua a servir aos interesses da classe dominante. Em suas “palavras iniciais”, Otto Maduro diz que é preciso saber o porquê e o como as relações entre Igreja e na sociedade chegaram a este ponto. De fato, ele reconhece que os conflitos de classe influem na religião 6. Mas, ao concluir sua tese, Otto Maduro parece não ter satisfatoriamente encontrado a resposta para as perguntas que fizera no início, pois diz: Nisto consiste o mal estar que me atormenta a mais de 13 anos. As perguntas nascidas desse mal-estar e inquietação eu já as formulei nas palavras iniciais deste ensaio [...]. De alguma forma, tentamos sistematizar, neste ensaio, uma resposta a estas perguntas. Mas foi apenas uma tentativa – até aqui – puramente teórica, de um ponto de vista estritamente sociológico e em torno de um só aspecto do problema. Por isto, esta é uma investigação inconclusa, incompleta: porque da teoria seria mister passar, agora, à investigação empírica e à intervenção sócio-política, a fim de verificar o alcance, os limites e a validade de minhas proposições; porque, além disso, seria mister amplia e completar esta perspectiva sociológica com perspectivas psicológicas, teológicas etc., até cobrir algumas das outras dimensões que constituem um fenômeno tão infinitamente rico como o religioso.7. 5. Otto Maduro, Religião e luta de classes: quadro teórico para a análise de suas inter-relações na América Latina, Petrópolis, Editora Vozes, 1981, p.9. 6 Idem, p.22-24. 7 Idem, p.188..
(15) Utilizando-se da teoria marxista como instrumento de análise, ele parece não ter ficado satisfeito com as conclusões e afirma que a “teoria marxista da religião não passa de um distante e obscuro ponto de partida”.8 Mas, ao contrário do conclui Otto Maduro, utilizarei da teoria marxista, mas com um diferencial: aplicando-a diretamente aos textos bíblicos, isto é, indo diretamente à raiz de toda a problemática que ele levanta sem conseguir encontrara uma resposta satisfatória. Nesse sentido, se como dizem os estudiosos do mundo bíblico, classificados de minimalistas9, pelo fato de afirmarem que não existe a menor possibilidade de se escrever uma história de Israel a partir dos textos bíblicos, eu me perguntava: sendo assim, Abraão, Moisés, os 12 Patriarcas, Josué, Saul, Davi, Salomão são todos personagens fictícios? Se estes personagens não são históricos, mas são criações dos redatores, com que intenção foram escritos os textos bíblicos? Qual foi o grupo que 8. Otto Maduro, Religião e luta de classes …, p.189. R K Gnuse, No other Gods: Emergent monotheism in Israel, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1997, 392p.; Joseph Callaway, Village Subsistence at Ai and Raddana in iron Age I em H Thompson, The answers lie bellow: essays in honor of Lawrence Edmund Toombs, Lanham, University Press of America, 1984; David Hopkins, The highlands of Canaan, Georgia, Almond Press. 1985; Frank Frick, The formation of the state in Ancient Israel: a survey of models and theories, Georgia, Almond Press, 1988; James Flanagan, David’s social drama: a hologram of Israel’s early iron age, Georgia, Almond Press, 1988; Gosta Ahlstron, A history of Ancient Palestine, Minneapolis, Fortress Press, 1993; Carol Meyers, Discovering eve: Ancient Israelite women in context, New York, Oxford University Press, 1988.; Cf. CHJ de Geus, The tribes of Israel: an investigation into some of the presuppositions of Martin Noth’s amphictyony hypothesis, Amsterdam, Van Gorcum, 1976; V Fritz, Die Entstehung Israels im 12 und 11 Jahrundert v. Chr., Sttutgart, Kohlhammer, 1996; Israel Finkelstein, The archaeology of the Israelite settlement, Jerusalem, Israel Exploration Society, 1988; Israel Finkelstein, N A Silberman, The bible unearthed: archaeology’s new vision of ancient Israel and origin of its sacred texts, New York, The Free Press, 2001.; Airton José da Silva, “A história de Israel na pesquisa atual”..., p. 43-87.; NP Lemche, Early Israel: anthropological and historical studies on the Israelite society before the monarchy, Leiden, Brill, 1985; Ancient Israel: a new history of Israelite society, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1995; The Canaanites and their land: the tradition of the Canaanites, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1991; Die vorgeschichte Israels: von anfangen bis zum ausgang des 13, Sttutgart, Kohlhammer, 1996; The Israelites in history and tradition, Kentucky, Westminster John Knox, 1998; William Stiebing, Out of the desert? Archaeology and the conquest narratives, Buffalo, Prometheus, 1989; Robert Drews, The end of the Bronze Age: changes in warfare and the catastrophe ca. 1200 B.C., Princeton, Princeton University Press, 1993; Robert Coote e Keith Whitelam, The emergence of early Israel in historical perspective, Georgia, Almond Press, 1987; Rainer Albertz, A history of Israelite religion in the old testament period, 2 vols, Philadelphia, Westminster Press, 1994.; Baruch Halpern, The emergency of Israel in Canaan, Chico, CA, Scholar Press, 1983; William Dever, Recent archaeological discoveries and biblical research, Seattle, University of Washington Press, 1990; Thomas L Thompson, Early history of the Israelite people from the written and archaeological sources, Leiden, Brill, 1992; The mythic past: biblical archaeology and the myth of Israel, New York, Basic Books, 1999; Donald Redford, Egypt, Canaan and Israel in ancient times, Princeton, Princeton University Press, 1992. 9.
(16) esteve por trás da redação dos diferentes livros? Por que a maioria dos livros tidos tradicionalmente como “históricos” perdeu totalmente essa conotação? Se a bíblia é de inspiração divina, por que tantas contradições entre os textos? Se hoje, conforme os dados provenientes da arqueologia que desmentem a maioria das histórias narradas na Bíblia, que sentido essas histórias tinham para aqueles a quem elas foram escritas? Poderiam os livros bíblicos do AT, quase que na totalidade, serem classificados como de caráter “etiológico”? Se pudéssemos perguntar aos redatores, qual teria sido a verdadeira intenção ao escrever o que escreveram talvez não nos dissessem, mas, quem sabe, perguntando aos destinatários, eles nos forneceriam algumas respostas. Porque, na verdade, os camponeses, homens e mulheres que viveram no tempo em que foram escritos esses livros, eles são os verdadeiros destinatários. É a eles que devemos perguntar. São eles que, de certa forma, guardam a chave que nos possibilita a compreensão e o verdadeiro sentido dos textos. Mas quem são estes destinatários? Foi a partir desses questionamentos que me pus a começar a construir meu objeto de pesquisa. Não tinha clareza do que seria, mas aos poucos, à luz principalmente de estudos interdisciplinares foi possível identifica-lo com muita precisão. De repente fui me dando conta também de que meu objeto de pesquisa tinha uma relação intrínseca com minha própria história de vida. Posso afirmar com certeza, que não foi por acaso que isto aconteceu. Fruto também de uma profunda vivência religiosa ao estilo das experiências místicas de João da Cruz, da pobreza e desapego de um Francisco de Assis e da candura de uma Teresa de Lisieux. Dos retiros inacianos dentre outras tantas riquezas, são quase trinta anos de muitas histórias, de encontros e desencontros, de buscas e perdas, de renúncias e entregas, de muitos momentos onde a alegria, a paz e a segurança da comunidade, faziam com que eu esquecesse ou mesmo até, que se despreocupasse, totalmente, com o que se passava no mundo. Assim nasceu meu objeto de pesquisa: as “relações de poder”. Foi perguntando, não só, pelos interlocutores presentes nos textos, mas perguntando a eles sobre o sentido dos textos que cheguei a essa conclusão. É a partir das “relações.
(17) de poder” que se estabeleceram entre os grupos sociais durante o período pós-exílico que encontrei a chave de leitura que me abriu portas outrora bem fechadas sob o manto da historicidade. Se como diz Pierre Bourdieu: [...] O que conta, na realidade, é a construção do objeto, e a eficácia de um método de pensar nunca se manifesta tão bem como na sua capacidade de constituir objetos socialmente insignificantes em objetos científicos ou, o que é o mesmo, na sua capacidade de reconstruir cientificamente os grandes objetos socialmente importantes, apreendendo-os de um ângulo imprevisto [...] O sociólogo poderia tornar sua a fórmula de Flaubert: “pintar bem o medíocre”.10 (O grifo é pessoal). E seguindo as orientações de Bourdieu, descobri que além do objeto de pesquisa escolhido, me deparei com um grupo social, que de certa forma, como objeto de pesquisa foi sempre marginalizado. Elegi este grupo social como objeto do meu objeto de pesquisa, que para muitos pode não fazer o menor sentido, ser até considerado como um objeto “medíocre”, pois como tradicionalmente sabemos boa parte das desgraças, calamidades e infortúnios “enviados por Deus a Israel”, tinha como culpados o próprio povo – sociedades primitivas ou tribais. Na verdade, como poderá ser constatado, eles quase nunca são mencionados, mas quando o são, aparecem como uma espécie de “bode expiatório” em toda esta fantasiosa história criada por escribas ligados às classes dominantes de Jerusalém. É dentro do espírito da “nova história” que privilegia não os grandes acontecimentos, mas os pequenos, aqueles que á primeira vista parecem “socialmente insignificantes”, que de fato, tem um profundo valor histórico que precisa apenas ser desenterrado mediante a utilização de um “método eficaz” de reconstrução histórica. Existem alguns que faremos menção logo abaixo e outros que, na medida da necessidade, daremos as devidas explicações. Pensando alto e longe, como se perguntou Rigoberta Menchú Tum no seu discurso antes receber o prêmio Nobel da Paz em 1992: “À pergunta: ainda existe esperança ou o futuro ainda está aberto aos povos indígenas?” Ela mesmo responde: 10. Pierre Bourdieu, A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Editora Perspectiva S.A.,1982, p..
(18) Para responder a essa pergunta, é fundamental considerar as condições em que vive a imensa maioria de nossa população mundial, suas profundas reivindicações que fundamentam as lutas e esperanças de um futuro melhor. A concentração dos poderes em poucas mãos condena os pobres a serem mais pobres e torna mais evidente a urgência de retomar os sagrados valores que deram origem à nossa humanidade; isto é em essência, o que reivindicamos os povos indígenas e os povos originários do mundo [...] O respeito aos valores e direitos individuais e coletivos, ou seja, a vitalidade e a validade do equilíbrio como requisitos indispensáveis de um mundo justo e pacífico.11. E ela continua seu discurso dizendo que é preciso: [...] Contribuir positivamente para a criação de novas relações entre os povos indígenas e os estados [...] Esta face desconhecida da história tenta fortalecer sociedades multiétnicas e pluriculturais [...] Os 500 anos tem representado muita noite, muita escuridão. Não há escuridão que aguente muito tempo; ela tem de terminar pois é preciso amanhecer.12. É a esses grupos, citados por Rigoberta Menchú, que ela classifica como sendo os “povos indígenas e os povos originários do mundo” que eu associo o campesinato judaíta, pois falar do campesinato judaíta é o mesmo que falar das sociedades tribais, primitivas ou indígenas. É com este grupo ou classe social que me identifico em oposição a todos aqueles que ao longo de toda a história do gênero humano, por causa de sua ganância, dominaram, espezinharam, maltrataram, exploraram, manipularam, ridicularizaram e tantos outros adjetivos que nessa mesma linha possam ser elencados. Pois é salutar saber, como nos disse Paulo Freire no seu livro A Pedagogia da Autonomia que é preciso que se tenha bem claro, antes de dar início a qualquer projeto, o seguinte: A favor do que estou lutando? A favor de quem estou lutando? Contra o que estou lutando? Contra quem estou lutando? 11. Giulio Girard, Os excluídos construirão a história? – O movimento indígena, negro e popular: “Durante cinco séculos outros falaram por nós, hoje queremos começar a falar com voz própria”, São Paulo, Editora Ática, 1996, p.13. 12 Idem, p.14-17.
(19) Sei que a isenção e a objetividade são elementos indispensáveis ao trabalho científico. Mas como vivemos numa sociedade de classes, desconfio da neutralidade científica. Por isso, farei um grande esforço para não ideologizar os fatos, porém, isso não deve impedir que o trabalho revele a posição e o compromisso do autor em relação à necessidade de transformação tanto da sociedade, bem como também, ao tipo de comportamento a que Paulo Freire nos conclama: Um dos saberes primeiros, indispensáveis a quem, chegando a favelas ou a realidades marcadas pela traição a nosso direito de ser, pretende que sua presença se vá tornando convivência, que seu estar no contexto vá virando estar com ele, é o saber do futuro como problema e não como inexorabilidade. É o saber da História como possibilidade e não como determinação. O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre mas também, o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Não sou apenas objeto da História, mas seu sujeito igualmente. No mundo da História, da cultura, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar. No próprio mundo físico minha constatação não me leva à impotência. O conhecimento sobre os terremotos desenvolveu toda uma engenharia que nos ajuda a sobreviver a eles. Não podemos eliminá-los, mas podemos diminuir os danos que nos causam. Constatando, nos tornamos capazes de intervir na realidade, tarefa incomparavelmente mais complexa e geradora de novos saberes do que simplesmente a de nos adaptar a ela. É por isso também que não me parece possível nem aceitável a posição ingênua ou, pior, astutamente neutra de quem estuda, seja o físico, o biólogo, o sociólogo, o matemático, ou o pensador da educação. Ninguém pode estar no mundo, com o mundo, e com os outros de forma neutra. Não posso estar no mundo de luvas nas mãos constatando apenas. A acomodação em mim não é apenas caminho para a inserção, que implica decisão, escolha, intervenção na realidade. Há perguntas a serem feitas insistentemente por todos nós e que nos fazem ver a impossibilidade de estudar por estudar. De estudar descomprometidamente como se misteriosamente, de repente, nada tivéssemos que ver com o mundo, um lá fora e distante mundo, alheado de nós e nós dele. Em favor de que estudo? Em favor de quem? Contra que estudo? Contra quem estudo?13. Com isso, acredito que Paulo Freire quer nos conscientizar do valor que tem uma tomada de posição em relação ao mundo, particularmente em relação ao mundo que envolve nosso assunto. É necessário que seja pertinente, atual e não, uma letra morta sem incidência e nem repercussão na vida. 13. Paulo Freire, A pedagogia da autonomia, São Paulo, Paz e terra S/A, 24ª edição, 2006, 148p..
(20) Como afirmou determinada vez Rigoberta Menchú Tum: “Fue muy importante para mí aprender a distinguir a los enemigos”.14 Portanto, foi a partir dessas palavras de Paulo Freire que comecei a pensar no título desta tese. Partindo do aprofundamento do objeto de pesquisa escolhido – relações de poder –, bem como também pelos muitos questionamentos acima mencionados, busquei qual teria sido a razão para que as sociedades primitivas ou tribais renunciassem a seus valores e princípios morais, que por tantos séculos haviam orientados suas vidas, em troca de um novo modo de vida totalmente diferente. Partindo da constatação de que a dimensão religiosa teve um papel importante, isto é, uma função extremamente fundamental, no sentido de fazer com que estas sociedades tribais não se opusessem e nem criassem resistência quanto à implantação da nova ordem. Foi a partir daí que comecei a intuir o título desta tese. Assim, à luz das ciências humanas, mais particularmente, da antropologia e da sociologia, de autores como Marcel Gauchet, Georges Balandier, Marshall Sahlins, Pierre Clastres, Maurice Godelier, além de um especial encontro com a teoria desenvolvida por Karl Marx e Friedrich Engels: o “materialismo histórico”, dentre tantos outros autores, como pode ser constatado pela bibliografia, foi que me deparei com a realidade de duas dimensões tipicamente humanas: a política e a religião. Historicamente é possível mostrar que desde os primeiros escritos, religião e política sempre foram temas que despertaram paixões, que foram motivos de alianças e, em nosso caso específico, motivo de dominação, de exploração e de manipulação por parte de seus agentes ou representantes. Nesse sentido, os conceitos de Religião e Estado, que se constitui no título desta tese, me dão os instrumentais necessários para que possa, mediante um recorte histórico – que implica na eleição de um caso particular, no caso, o judaísmo – desenvolver de forma ulterior meu objeto de pesquisa – relações de poder –, que sem sombra de dúvida, possibilitará uma perfeita elucidação da discrepância que existe em ter vigente num mesmo centro de poder estas duas instituições: religião e estado. 14. Frase citada por Rigoberta Menchú Tum. Acessada www.fasecelebre.net/frases _frases_de_Rigoberta_Menchu_1.html.. no. dia. 03/07/2012. em:.
(21) Outra forte motivação, que funciona como uma espécie de pano de fundo, vem de uma questão neo-testamentária, isto é, de um ponto de vista presente no Novo Testamento. Como sabemos, existem várias correntes teológicas do Antigo Testamento que desaguam no Novo Testamento e influencia de certo modo a cada um dos livros que o compõe. Uma dessas linhas teológicas, que é uma compreensão do evento Jesus Cristo a partir da ótica dos pobres, dos pobres crucificados da América Latina, segundo Jon Sobrino, e está no cerne da questão que levou Jesus à cruz, – que é ponto central da fé cristã e afirma que Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, morreu crucificado – é o fato de que: Jesus não elaborou nem uma filosofia da religião nem especulou sobre o possível papel alienante estrutural da religião. Como judeu ortodoxo praticava sua religião, mas em suas palavras, seus atos e atitudes, condena a situação factual da religião. Consequentemente com sua concepção de Deus, Jesus foi um liberal em matéria religiosa e isto o levou à cruz. Sua atitude histórica diante da religião e seus representantes deve ser compreendida à luz de sua concepção de Deus que, de fato, tanto serve para oprimir o homem como para justificar sua opressão.15 (o grifo é pessoal). O que realmente está em debate entre Jesus e seus interlocutores – os religiosos de seu tempo – é a sua concepção de Deus “e mais operativamente o modo de acesso ao verdadeiro Deus”. Este foi o motivo pelo qual ele foi condenado à morte. O Deus que Jesus apresenta é muito maior que o deus dos escribas e fariseus e está numa clara contradição com a situação religiosa reinante. Jesus provoca uma ruptura, uma descontinuidade. Parece muito pouco afirmar que Jesus morreu por um desígnio de Deus. Como salienta Jon Sobrino: A cruz de Jesus não é algo casual, mas a consequência da última tentativa de auto justificação do homem religioso, do homem manipulador de Deus, que deixa que Deus continue sendo um mistério, mas manipulável. “A cruz não é compreensível sem a cooperação dos judeus piedosos”. *...+ Por mais paradoxal que possa parecer o que matou o Filho foi a “religião”.. 15. Jon Sobrino, Cristologia a partir da América Latina: esboço a partir do seguimento do Jesus histórico, Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1983, p.216..
(22) A partir dessa compreensão o que está em questão é um processo sobre o verdadeiro poder que medeia a Deus. Como poderá ser verificado na primeira parte desta tese, as sociedades primitivas, assim como o próprio AT, incluindo também, os romanos e os zelotes, desenvolvem uma concepção de poder totalmente contrária à apresentada por Jesus. O poder apresentado por Jesus é o testemunho de um “poder de amor situado e neste sentido é um amor ‘político’, não idealista. A partir da cruz se aguça a pergunta pela verdadeira essência do poder”.16 Segundo as tradições judaicas “Reino de Deus” relacionava-se, ou explicitamente com a instauração de uma ordem política teocrática ou, onde essa visão era rejeitada, com uma organização da sociedade que necessariamente devia levar em conta o social e o político, pelo menos enquanto ambos tivessem a ver com uma configuração da convivência entre homens. O ponto conflitante só pode consistir – como de fato aconteceu na vida de Jesus – no uso do poder, ou expresso melhor, que tipo de poder se deve usar para organizar a sociedade segundo Deus.17. Aqui eu toco, com o auxílio das reflexões de Jon Sobrino, ao essencial daquilo que será desenvolvido nesta tese: as bases das relações de poder que se estabeleceram entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana. Como nos diz Jon Sobrino: Aqui está a verdadeira confrontação: que poder é que verdadeiramente torna presente a divindade? O homem pensa espontaneamente na divindade com naquilo que possui poder. O que Jesus questiona é se esta convicção, tão profundamente arraigada, é verdadeira ou não. Imediatamente constata, historicamente, que o poder entregue à própria inércia, considerado como a máxima manifestação do homem – por ser supostamente a mediação de Deus – é, de fato, opressão. E por esta razão o poder não pode ser a última mediação de Deus. Jesus opõe à concepção da divindade como poder, outra concepção da divindade como amor. [...] Esta concepção do amor político o levou necessariamente à cruz. 18 (o grifo é pessoal). Ter sido morto numa cruz não tem nada a ver com “vontade de Deus” ou algo independente da história, mas foi consequência de sua encarnação histórica, que é verdadeiramente conflitiva, porque a cruz, vista como um fim na história do pecado 16. Jon Sobrino, Cristologia a partir..., p.219. Idem, p.220. 18 Idem, p.223-224. 17.
(23) possui poder e triunfa na forma de opressão.19 Nesse sentido, concordo plenamente com Jon Sobrino, quando diz que: Jesus constata que o mais profundo deste pecado é algo que deve ser considerado em duas vertentes: tanto o poder religioso como o político se fazem passar por Deus, em flagrante contradição com “seu” Deus. Ao mesmo tempo este poder, enquanto divinizado, enquanto idolatrado, leva necessariamente à opressão do homem. Daí o poder que se considera como a autêntica mediação de Deus se converte em última instância de verdade e não se detém ante a opressão. Ao desidolatrar o poder religioso e político, Jesus está condenando, ao mesmo tempo, todo tipo de opressão em nome do poder: para a submissão do homem não existe nenhuma justificação, porque o poder que submete não é Deus, mas seu contrário.20. Desse modo, o que fica claro para mim, a partir desse ponto de vista neotestamentário é que as bases dessa teologia a que chegou o poder religioso do judaísmo, constituído na época de Jesus, tem sua gênese, justamente, no período de conclusão redacional do Pentateuco, ou seja, quando se conclui a redação de diversos textos tendo em vista as difíceis e contraditórias relações de poder entre o campesinato judaíta e a classe sacerdotal jerusolimitana. A história da Igreja Católica Apostólica Romana é um exemplo emblemático, pois enquanto instituição (hierarquia) e corpo eclesial (fieis), não só na sua dimensão ad-extra, de presença no mundo, mas também e particularmente, nas suas relações intra-sistêmicas, isto é, nas suas relações ad-intra, da hierarquia com os fiéis, deixa muito a desejar no tocante às relações de poder. Fundada, nos mesmíssimos moldes da comunidade judaica do Antigo Testamento – qahal: assembleia dos fiéis – ela reproduz quase que nos mesmos moldes toda a estrutura organizacional: tradições, prescrições litúrgico-canônicas, códigos de moral, estruturas eclesiásticas e formas de poder centralizadoras e controladas por um corpo de sacerdotes, a Hierarquia. Sabe-se que toda comunidade não subsiste sem um mínimo de instituição que lhe confira unidade, coerência e identidade, mas como disse Lord Acton, “todo poder tende a se corromper e o absoluto poder a se corromper absolutamente”. Como 19 20. Jon Sobrino, Cristologia a partir..., p.224-225. Idem, p.225..
(24) assevera Leonardo Boff, como veremos ao longo deste projeto, o poder não significou somente uma terrível tentação de domínio e substituição de Deus, mas foi em diversas épocas causa de uma quantidade enorme de escândalos em todos os seus níveis, seja institucional quanto corpo-eclesial – sucumbiu desastrosamente.21 Como tudo na vida tem um início, seu ponto de mutação se deu quando da virada constantiniana. De religio illicita o cristianismo – Igreja Católica Apostólica Romana – passa a constituir a religião oficial e assim a ideologia sacral do Império. Como diz Leonardo Boff: A Igreja parece que não estava apesar das perseguições, preparada para enfrentar evangelicamente os desafios próprios do poder. Ela não aboliu a ordem pré-existente. Assumi-a e adaptou-se a ela. Ofereceu ao Império uma ideologia que sustentava a ordem vigente e sacralizava o cosmo pagão. “A religião que marcou o Ocidente não foi propriamente a mensagem cristã, mas a síntese entre e religião antiga e a cristã” *...+ Com a entrada na Igreja dos funcionários do Império que deviam assumir a nova ideologia estatal, processou-se antes uma paganização do cristianismo do que uma cristianização do paganismo. [...] A Igreja-instituição se acomodou de bom grado às realidades políticas e às uniformidades inexoráveis. Encetou uma trajetória de poder que chegou até o presente e cujo ocaso, parece, nos é dado entrever.22. Como poderão ser confirmadas na segunda e terceira parte desse estudo, as mesmas estruturas encontradas no judaísmo, em termos de uma estreita união entre religião e estado, são reproduzidas da mesma forma na Igreja Católica, guardadas, obviamente, as devidas proporções. Isto acontece porque a matriz estrutural e organizacional das duas religiões é idêntica: os livros do Antigo Testamento. Portanto, é aos pobres e explorados de ontem como aos de hoje, que dedico este projeto de tese na esperança, de como diz Rigoberta Menchú, sobrevir um novo amanhecer, que sejam dias de reconhecimento, não só da manipulação, dominação e exploração a que foram submetidos por dezenas de séculos de história, mas, principalmente, dos “sagrados valores que deram origem à nossa humanidade” e que ainda hoje podem ser encontrados em muitas sociedades indígenas: um Estado sem poder! 21. Leonardo Boff, Igreja, carisma e poder: ensaios de eclesiologia militante, 3ª Edição, Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1982, p.85 22 Idem, p.87-88..
(25) É a isso que, humildemente, se propõem esta tese. No sentido de tentar reconstruir parte dessa história esquecida, devido à ênfase dada aos grandes acontecimentos, personagens e heróis bíblicos, na sua grande maioria fictícios, lançarei mão de alguns dos instrumentais ligados à nouvelle histoire. Em frontal contraposição ao senso comum e ao paradigma tradicional que enfatiza somente o aspecto político, procurarei demonstrar que “sagrados valores” são esses aos quais se refere Rigoberta Menchú e que, segundo ela, podem dar um novo elã às sociedades hodiernas. Tentar escrever parte da história do campesinato judaíta, é escrever parte da história das sociedades primitivas ou tribais. É atender ao apelo de se lançar ao trabalho de escrever uma “história vista a partir de baixo”, isto é, do ponto de vista das sociedades exploradas e marginalizadas, que com certeza, tem muitas coisas a nos dizer. A exploração e a marginalização a que foram submetidos por séculos a fora, não foram frutos de uma evolução natural das sociedades de classe, que necessitavam de mão de obra para satisfazer suas às necessidades. Foram sim, frutos da arrogância de seres humanos, que ao ensimesmarem-se, exploraram e maltrataram sem limites seus próprios semelhantes. Um dos fundamentos da nova história é quanto axioma antropológico do relativismo cultural. Peter Burke em A Escrita da História, afirma categoricamente que “a base filosófica da nova história é a ideia de que a realidade é social ou culturalmente constituída”.23 Isso implica em dizer que o sentido cultural de qualquer sociedade deriva do seu contexto. Assim também, o relativismo moral, implica em que as proposições de moral e ética não são verdades universais, mas nascem de um determinado contexto cultural. Essas verdades nos fazem pensar e questionar muito sobre aquelas inúmeras leis e normas presentes no Pentateuco e tidas como de origem divina. Sobre isso voltaremos na segunda parte desta tese. Conforme Pierre Bourdieu salienta, é para romper com este modo de pensamento ultrapassado e sem base científica nenhuma “– e não pelo prazer de colar 23. Peter Burke, A escrita da história: novas perspectivas, São Paulo, Editora UNESP, 1992, p.11..
(26) novos rótulos em velhos frascos teóricos –“ que me lanço nesse desafio de dar cor e brilho a corpos desfigurados pela dor e sofrimento. Dar voz e vez a quem tanto fez e nada, absolutamente nada recebeu em troca, pois quem faz a roda do mundo girar não é quem fica na direção, mas quem, como suor de seu rosto emprega o melhor de suas forças nesse serviço. [...] Entre ética e poder a relação será sempre difícil, porém necessária: como o poder se refere sempre ao outro, corre o risco de ser perversão e puro domínio quando não se exerce e não se cultiva alto sentido da dignidade humana, da liberdade e dos direitos humanos. Na base de todo poder está a relação fundamental do mandato e da obediência. A decisão antes de tudo, como ato de poder, é o que constitui o problema moral. [...] A partir do momento em que o bem comum está constituído pelo reconhecimento e pela promoção dos direitos do homem e da convivência, pode-se dizer que a justiça é o elemento moral determinante do poder.24. De fato, se não somos capazes de ver o outro na dimensão da alteridade, isto é, se “não se cultiva alto sentido da dignidade humana” como diz Lorenzetti no parágrafo acima, nossas relações de poder são pura “perversão e domínio” do outro. De um determinado ponto de vista, não se trata de construir nada, senão que, desconstruir. Proceder a uma análise histórico-crítica das relações de poder entre o campesinato israelita e a classe sacerdotal jerusolimitana implica em descortinar, em desvelar a trama que está por trás das narrativas construídas de muitos textos bíblicos. Mas, por outro lado, se trata sim de construir aquela parte esquecida – omitida – da história de que nos fala Rigoberta Menchú, daquele real de que nos falará em seguida Michel de Certeau. Sim, a proposta é também de construção, de escrever o não dito da realidade campesina, de encontrar no verso – da narrativa bíblica – o reverso de sua triste e dolorosa realidade: suas lutas para sobreviverem diante dos avanços imperiais, o drama de terem que renunciar aos seus mais nobres valores, costumes, enfim, à sua identidade cultural. A tese que eu defendo e procurarei demonstrar é a de que as relações de poder entre o campesinato israelita e a classe sacerdotal jerusolimitana foram tecidas de tal modo, que as relações de poder claramente se transformaram em relações de dominação e exclusão para os dominados – campesinato israelita –, pois, os 24. Luís Lorenzetti, “Poder” em Dicionário de Teologia Moral, São Paulo, Editora Paulus, 1997, p.971..
(27) dominadores – classe sacerdotal jerusolimitana – que tendo na escritura hebraica seu principal instrumento de empoderamento e legitimação de seu status quo, conforme acentuou Max Weber, “domesticaram os dominados”25. Segundo Michel de Certeau enfatiza em seu livro A Escrita da História: [...] recusar a ficção de uma metalinguagem que unifica o todo é deixar aparecer os procedimentos científicos limitados e aquilo que lhes falta do real ao qual se referem. É evitar a ilusão necessariamente dogmatizante, própria do discurso que pretende fazer crer que é “adequado” ao real, ilusão filosófica oculta nos preâmbulos do trabalho historiográfico e da qual Schelling reconheceu maravilhosamente a ambição tenaz: “O relato dos fatos reais é doutrinal para nós”. Este relato engana porque acredita fazer a lei em nome do real.26. Desse modo, partindo daquilo que a “nova história” caracterizou como sendo uma história a ser contada a partir do ponto de vista dos dominados, isto é, daqueles que sempre estiveram em baixo, aquele “real” de história que foi omitido, conforme interesses escusos dos dominadores, daqueles que sempre estiveram por cima. Com o fim dos discursos universais e seguindo uma das tendências filosóficas que marca profundamente a contemporaneidade da reflexão, como novo norteador ético, o corpo é assumido atualmente como critério para julgamento. Mas conforme preconiza a “nova história” nem sempre foi assim. Estudar a história do corpo humano, que é constantemente afetado de maneiras variadas, tanto pela cultura quanto pela sociedade, jamais deveria ser encarado sem levar em conta as considerações (culturais) da experiência e da expressão na linguagem e na ideologia.27 Para a Nova História é de importância básica uma compreensão do local subordinado, destinado ao corpo nos sistemas de valor religioso, moral e social da cultura, tanto do presente como do passado. Se há como afirma Roy Porter, “um enorme campo de ação para os historiadores políticos para serem mais sensíveis à realidade do corpo, produzidas pela autoridade do estado sobre os corpos de seus. 25. Pierre Bourdieu, A economia das trocas simbólicas, São Paulo, Editora Perspectiva S.A.,1982, p.32. Michel de Certeau, A escrita da história, Rio de janeiro, Forense-Universitária, 1982, p.10-11. 27 Roy Porter, “História do Corpo”, em Peter Burke, A escrita da história, 2ª Reimpressão, São Paulo, Editora UNESP, 1992, p.291-326. 26.
(28) súditos”28, o judaísmo se apresenta como um valioso objeto de estudo, pois, como religião do corpo, de corpos marcados com o sinal da morte, de corpos marginalizados e excluídos da vida, de corpos prostituídos e manipulados segundo os interesses de outros corpos, corpos vergados pela fome e pela dureza do trabalho escravo diante de corpos, aparentemente, emoldurados pelas ideológicas bênçãos dos céus. Não foi por menos que Michel de Certeau inaugurou seu livro analisando aquela pintura de Jan Van der Straet, onde o artista pintou o descobridor que vindo do mar, e tendo atrás de si as naus que levaram muitos de nossos tesouros, se encontra a “América Índia, mulher estendida, nua, presença não nomeada da diferença, corpo que desperta num espaço de vegetações e animais exóticos”. Mas, conforme aponta o próprio Michel de Certeau: [...] o que assim se disfarça é uma colonização do corpo pelo discurso do poder. É a escrita conquistadora. Utilizará o novo mundo como uma página em branco (selvagem) para nele escrever o querer ocidental. Transforma o espaço do outro num campo de expansão para um sistema de produção. A partir de um corte entre um sujeito e um objeto de operação, entre um querer escrever e um corpo escrito (ou a escrever) fabrica a história ocidental.29 (o grifo é meu). Daí que o autor se pergunta: “Que aliança é esta entre a escrita e a história?” E responde, dizendo: “Ela já era fundamental na concepção judaico-cristã das Escrituras”.30 Este “discurso do poder” do qual nos fala Certeau, logicamente tem a ver com os diferentes discursos, mas aqui, particularmente, com os discursos presentes na escritura judaico-cristã. Segundo o próprio Certeau estes discursos tem mais “aspecto de fabricação” e não mais de leitura ou interpretação. O que está por trás é claramente um “problema político” e em jogo, a “questão do sujeito (do corpo e da palavra enunciadora), questão reprimida ao nível da ficção ou do silêncio pela lei de uma escrita científica”.31. 28. Roy Porter, “História do Corpo”..., p.325. Michel de Certeau, A escrita da história..., p.9-10. 30 Idem, p.11. 31 Idem, ibdem. 29.
(29) Desse modo, o que esta tese propõe é uma profunda reflexão sobre o poder, sobre as relações de poder que se estabelecem na sociedade. Por isso, são oportunas as palavras de Lorenzetti, citadas abaixo. Elas nos levam a um profícuo questionamento no que diz respeito ao nível de nossos relacionamentos. O poder, por si mesmo, não tem nem terá fins bem precisos; terá os que lhe venham da consciência. „O poder espera ser dirigido‟ (R. Guardini). A questão ética do poder consiste, pois, essencialmente na questão da finalidade do poder. Os fins, os objetivos, as metas (que podem ser tão variados quanto os projetos humanos são o objeto e o término do problema da avaliação do poder. Estreitamente ligada ao objetivo ou fim está a questão dos meios que precisam ser assumidos: a perversão dos meios implica degeneração do fim. As perspectivas ou os horizontes do poder – não só o político – dificilmente parecem conciliáveis com as razões da ética; o poder tende à eficácia e, por isso, adota a astúcia, a coação e a própria força.32. 32. Luís Lorenzetti, “Poder” em Dicionário de Teologia Moral, São Paulo, Editora Paulus, 1997, p.971..
(30) A história humana não é outra coisa do que uma luta ....................................................................longamente vitoriosa contra a alienação política.33. I PARTE. Capítulo I –Religião e Estado34. “A essência da religião é ser contra a história”35. Tomando como ponto de partida desta tese o fato histórico de que religião e política36 são duas dimensões que estão profundamente arraigadas e consolidadas na 33. Marcel Gauchet, “A dívida do sentido e as raízes do estado: política da religião primitiva” em Guerra, religião, poder, São Paulo, Livraria Martins Fontes, 1977, p.87. 34 Neste capítulo primeiro busco fundamentar os termos religião e política, bem como também, na medida da necessidade, explicitar as teorias e métodos que serão oportunamente utilizados como meio para se alcançar os distintos objetivos. 35 Marcel Gauchet, A democracia contra ela mesma, São Paulo, Radical Livros, 2009, p.61. 36 Utilizo, já desde o início, o conceito de “política” ao invés de “estado” porque a meu ver, o termo política é o que melhor exprime a realidade do estado. O estado é o exercício político no seu grau mais elevado. Portanto, usarei livremente ambos os conceitos, mas dando as devidas ênfases quando necessárias..
(31) condição existencial do ser humano, e por isso mesmo, conferindo-lhe uma dignidade incomparável em relação a todos os outros seres. Quero à luz do testemunho da ciência e da história, bem como também, a partir de um recorte na própria história, revisitá-la e demonstrar até que ponto, a união entre estas duas instâncias, religião e estado, foi sempre e terrivelmente danosa, pelo menos, para um grupo em particular: o campesinato. No intuito de poder abarcar os conceitos em toda a sua amplitude farei uso dos instrumentais oriundos das chamadas ciências humanas. As ciências humanas se apresentam como um conjunto de ferramentas imprescindíveis para a consecução dos objetivos que serão propostos abaixo. Pode parecer estranho para quem é da área de exegese bíblica a ênfase que será dada a diferentes áreas do conhecimento como meio e suporte para o entendimento e interpretação do meu objeto de pesquisa, bem como do contexto histórico a ser estudado. Não foi por acaso que as ciências do homem ganharam o status que tem hoje. Conforme Hilton Japiassu afirma, as ciências humanas tiveram na Revolução Francesa seu grande mote, pois ao introduzirem uma descontinuidade na história, revelaram que a história existe e tanto pode ser alterada quanto reconstruída. Francis Fukuyama estava completamente enganado quando afirmou que a história havia terminado. Nesse sentido Japiassu faz uma interessante reflexão: [...] Este acontecimento político, social e econômico – Revolução Francesa – introduziu uma ruptura fundamental no universo ideológico da Europa do século XIX. E essa ruptura traz, em si, as condições de aparecimento das Ciências Humanas, não como consequência do acaso, mas como uma exigência interna ao acontecimento mesmo. Porque, doravante, não resta dúvida de que a história existe e que os homens podem nela intervir.37. Desse modo, a Revolução Francesa representou, não só um marco histórico para o surgimento das Ciências Humanas, mas também representou o fim de um longo período em que política e religião caminharam profundamente entrelaçadas. Rompeuse o estreito liame que ainda restava da união destas duas grandes dimensões da natureza humana, que praticamente, só prejuízo trouxe, quando estiverem unidas numa mesma instituição, tanto o poder religioso quanto o poder político. Homens e mulheres são con-vocados, isto é, são instados, pelo próprio potencial, – ora latente, ora reprimido – a desenvolver essas dimensões, de modo a que a sua vida em sociedade seja melhor e mais fácil de ser desfrutada. 37. Hilton Japiassu, Introdução às Ciências Humanas: análise de epistemologia histórica, 11ª Edição, São Paulo, Letras & Letras, 2002, p.30-31..
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