UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
CRISTIANO LUIZ SPOHR
AS ALTERAÇÕES DO ARTIGO 306 DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO E SUA APLICABILIDADE NO BRASIL, NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E
NA REGIÃO DO GRANDE SANTA ROSA-RS
Santa Rosa (RS) 2015
CRISTIANO LUIZ SPOHR
AS ALTERAÇÕES DO ARTIGO 306 DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO E SUA APLICABILIDADE NO BRASIL, NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E
NA REGIÃO DO GRANDE SANTA ROSA-RS
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientadora: MSc. Lurdes Aparecida Grossmann
Santa Rosa (RS) 2015
Dedico este trabalho à minha família e a todos aqueles que me auxiliaram durante minha trajetória de estudos de uma maneira ou de outra.
AGRADECIMENTOS
A Deus pela vida, saúde, força e oportunidade de estar vivendo este momento tão glorioso e esperado por todos aqueles que estão cursando uma graduação.
A minha esposa Angélica por sempre me incentivar nos estudos e me apoiar em tudo que sempre necessitei, não medindo esforços para que atingisse meu objetivo. Sempre entendendo o motivo pelo qual não pude estar presente em certos momentos, pois estava em busca de conhecimento.
A minha filha (enteada) Amanda Gabrieli que muitas e muitas vezes teve que se privar da minha companhia, devido meus estudos para chegar até esse momento.
A minha avó Spohr que sempre muito alegre tentou passar que as dificuldades são passageiras e que devemos ir à luta e superá-las, pois outras viram e devemos estar prontos para novamente as supera-las.
A minha mãe Cristina que sempre estava pronta para me acolher, nos mais variados tropeços, que nunca mediu esforços para que esse momento fosse tão maravilhoso.
Ao meu pai Paulo que nunca mediu esforços para que eu e meus irmãos estudássemos e conseguíssemos ser felizes com nossa família, que sempre foi um incentivador em todas as fases da graduação.
Aos meus irmãos João Vinicius e Marcus Paulo que sempre me apoiaram em todas as fases da vida, dando-me exemplos de que o estudo é algo de grande importância para a formação do individuo.
Aos meus colegas da Brigada Militar de Alecrim, que sempre me ajudaram nos estudos, sendo que nunca mediram esforços para que eu conseguisse ir ás aulas, muitas vezes deixando de ficar com suas famílias.
A todos os professores que contribuíram para a formação de meu conhecimento e de uma maneira ou outra fizeram que a trajetória da graduação fosse atingida.
A minha orientadora professora Lurdes Aparecida Grossmann que sempre estava à disposição quando necessitava de sua ajuda, nunca medindo esforços para me auxiliar na busca do saber durante essa trajetória.
Em suma, para todas aquelas pessoas que sempre me apoiaram e contribuíram nessa trajetória de vida, desde sempre me incentivando nos estudos e em minhas mais variadas dificuldades, para que esse momento chegasse.
―O HOMEM, QUANDO VENDADO PELA RAIVA, FICA CEGO E MATA POR JUSTIÇA. A JUSTIÇA, QUANDO VENDADA PELO PODER, FAZ MUITO PIOR.‖ Marcelo Petter de Vargas
RESUMO
O presente trabalho de conclusão de curso faz um estudo sobre a Lei nº 9.503/97 a qual instituiu o Código de Trânsito Brasileiro, mais precisamente sobre os artigos que fazem referência sobre a condução de veículo automotor estando seu condutor com a capacidade psicoativa alterada em virtude da ingestão de álcool ou substâncias que geram dependência. Discute-se brevemente as alterações da matéria debatida, a evolução legislativa, até a redação atual e o motivo de ser denominada de ―Lei Seca‖. Será demonstrado que a embriaguez ao volante é um problema enorme, tanto social, como econômico, administrativo, político e em inúmeras vezes atinge a esfera penal. Nessa perspectiva, far-se-á um levantamento do número de pessoas que perdem a vida nas estradas do país, estado e região. Também do valor gasto pelos entes estatais no socorro as vítimas e em seus tratamentos. Será abordada a quantidade de condutores penalizados administrativamente e criminalmente pela embriaguez. Finaliza-se concluindo que se a população não se conscientizar, as leis sozinhas não irão conseguir com que vidas param de ser destruídas nas estradas do país.
RESUMEN
El presente trabajo de conclusión de curso hace un estudio sobre la Ley 9.503/97 que establece el Código de Tránsito Brasileño, más necesariamente sobre los artículos que hacen referencia en la conducción de vehículo de motor estando el conductor con la capacidad psicoactiva alterada debido a la ingestión de alcohol o de sustancias que crean dependencia. Discute brevemente los cambios del asunto discutido, la evolución legislativa, hasta la escritura actual y el motivo para ser llamado "Ley Seca". Se mostrará que el conducir borracho es un gran problema social, económico, administrativo, político como en numerosas ocasiones llega a la esfera penal. En esta perspectiva, se hará un estudio del número de personas que pierden la vida en las carreteras del país, estado y región. También del valor gasto por los órganos estatales en socorrer a las víctimas como en sus tratamientos. Será dirigido a la cantidad de conductores sancionados administrativa y penalmente por la embriaguez. Se encierra concluyendo que si la población no se concientiza, las leyes solas no harán que vidas dejen de ser destruidas en las carreteras del país.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 10
1 A LEI SECA: ORIGEM E MODIFICAÇÕES DESDE O SURGIMENTO DO ART. 306 DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO ... 12 1.1 Lei Seca: origem e razões para sua criação ... 12 1.2 As alterações ocorridas no art. 306 a partir da criação do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) de 1997 ... 19 1.2.1 Outras modificações ocorridas na Lei nº 9.503/97 ... 35
2 O IMPACTO DA LEI SECA E SUAS ALTERAÇÕES NO PAÍS, NO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL E NA REGIÃO DO GRANDE SANTA ROSA ... 40 2.1 Os números da Lei Seca no Brasil: número de mortos, feridos, condutores autuados e presos ... 40 2.2 Análise de dados sobre acidentes, óbitos e multas do Estado do Rio Grande do Sul ... 52 2.3 Levantamento do número de Autos de Infração de Trânsito (AIT) realizados para condutores que foram enquadrados na Lei Seca; de acidentes fatais com o número de vítimas mortas e de motoristas presos com base no art. 306 do CTB na Região do Grande Santa Rosa ... 58
CONCLUSÃO ... 66
REFERÊNCIAS ... 70
APÊNDICE A – Roteiro para coleta de dados junto ao Quartel da Brigada Militar do 4º Batalhão de Polícia de Área de Fronteira (4º BPAF) e do Batalhão de Polícia Rodoviário (BPRV) situado em Santa Rosa sobre a quantidade de infrações cometidas por motoristas com base nos artigos 165 e 277 e de prisões realizadas com base no artigo 306, ambos do Código de Trânsito Brasileiro – CTB, nos anos de 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015 ... 78 ANEXO 1 – Autorização publicada em Boletim Interno para a coleta de dados junto ao P3 e Cartório de Trânsito do 4º BPAF ... 79
ANEXO 2 - Autorização para a coleta de dados junto ao Pelotão de Polícia Rodoviário de Santa Rosa ... 80
ANEXO 3 – AUTO DE INFRAÇÃO DE TRÂNSITO – frente... 81 ANEXO 4 – AUTO DE INFRAÇÃO DE TRÂNSITO – verso ... 82 ANEXO 5 – TERMO DE CONSTATAÇÃO DE SINAIS DE ALTERAÇÃO DA
INTRODUÇÃO
O presente trabalho abordará a Lei 9.503/97 a qual instituiu o Código de Trânsito Brasileiro - CTB. Far-se-á um estudo acerca dos artigos que tratam sobre a condução de veículo automotor estando seu condutor com a capacidade psicomotora alterada em virtude da ingestão de bebidas alcóolicas ou de outras substâncias psicoativas que geram dependência (drogas).
Para confecção do trabalho se realizou uma pesquisa bibliográfica em meios físicos, mas principalmente através de documentos retirados dos meios eletrônicos (internet). Analisaram-se as alterações que os artigos sofreram no decorrer dos anos de vigência do CTB para chegar à redação que se encontram.
Inicialmente, no primeiro capítulo, será abordada a origem e as razões para criação das chamadas ―Leis Secas‖. Também se verificarão quais foram as alterações ocorridas no art. 306 do CTB, desde sua criação, sendo este artigo que configura como crime a condução de veículo automotor estando seu condutor com o estado psicomotor alterado em virtude da ingestão de álcool ou de substâncias que causam dependência. Também foi descrito as alterações que outros artigos sofreram por estarem ligados ao crime definido no artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro – CTB.
No segundo capítulo falar-se-á mais profundamente sobre os índices de acidentes e de pessoas que acabam lesionadas e até perdendo a vida nas estradas do país, do estado e da região. Também se verificará a quantidade de pessoas presas pelo crime do artigo 306 do CTB nas rodovias federais e em nossa região.
Por fim, se verificará o número de condutores que são autuados no Brasil, no Rio Grande do Sul e na Região do Grande Santa Rosa devido à embriaguez ao volante.
1 A LEI SECA: ORIGEM E MODIFICAÇÕES DESDE O SURGIMENTO DO ART. 306 DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO
De acordo com Alessandro Buarque Couto (2008, p.[?]), os Estados Unidos foi o país criador da lei seca, sendo esta instituída no ano de 1920 tendo uma proibição ampla do consumo de bebidas alcóolicas, pois os norte-americanos atribuíam os altos índices de criminalidade a ingestão das bebidas. No Brasil, o artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) recebeu esta descrição por prever a conduta de embriaguez ao volante.
A redação original do CTB nos artigos que tratam sobre a condução de veículos automotor estando seu condutor com a capacidade psicomotora alterada em virtude de estar embriagado ou sobre efeitos de substâncias que causam dependências sofreram várias mudanças conforme será abordado no presente capítulo.
No Brasil, várias foram as tentativas para fazer com que a população reduzisse o consumo de bebidas alcoólicas, pois os gastos públicos e as sequelas deixadas por condutores embriagados eram enormes, contudo as tentativas não conseguiam conscientizar o povo. Somente com a criação do Código de Trânsito Brasileiro de 1997, foi que a população começou a ter maiores cuidados com a combinação de álcool e direção, devido à lei impor sanções administrativas de cunho pecuniário, além de prever que tal conduta deixaria de ser Contravenção Penal e tornava-se Crime.
1.1 Lei Seca: origem e razões para sua criação
Couto (2008, p.[?]), diz que em 1919 os Estados Unidos aprovou a 18ª emenda constitucional, que passou a vigorar a partir do ano seguinte. ―Com a vigência da citada emenda estabeleceu-se a proibição, a fabricação, o comércio, o transporte, a exportação e a importação de bebidas alcoólicas.‖
Devido a essa proibição ampla foi que a emenda constitucional ganhou a nomenclatura de ―LEI SECA‖. Na época em que o país norte-americano colocou em
vigor a lei, ativistas brasileiros já estavam tentando fazer algo para que a população brasileira diminuísse o consumo de álcool no país.
Nesse sentido, Teresa Cristina de Novaes Marques (2012, p. [?]), menciona:
O esforço do Dr. Moncorvo Filho e de tantos outros ativistas não parece ter resultado em mudanças nos hábitos da população. O movimento de repressão ao uso de álcool no Brasil nunca se consumou nem chegou a ter a força que pretendia.
Contudo não se queria nada parecido como no país americano, apenas pretendia-se que a população se conscientizasse que as bebidas alcoólicas não faziam bem para a saúde da população e que os gastos públicos iriam diminuir e esse dinheiro poderia ser investido em outras prioridades, pois muitas sequelas nas contas públicas e nas vidas das famílias advinham do excessivo consumo de bebidas alcoólicas.
A emenda constitucional norte-americana, não teve o efeito esperado pelos seus criadores e após 13 anos de sua vigência foi revogada. No Brasil, a população apenas começou a se conscientizar após a criação do Código de Trânsito Brasileiro de 1997 (CTB), o qual foi instituído pela Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, assim sendo ―a primeira política de alcance nacional a pensar em algum tipo de controle desse hábito foi o Código de Trânsito de 1997‖. (MARQUES, 2012, p. [?]).
Mas o problema é enorme quando há motoristas dirigindo veículos com a capacidade psicomotora alterada em razão de ter ingerido bebidas alcoólicas ou algumas substâncias psicoativas que causam dependência. E não é de hoje que vem se tentando achar a melhor solução para dar à população uma segurança viária, onde todos podem ir e vir sem temer que algum condutor alcoolizado cause um acidente.
Várias são as tentativas para que a população se conscientize, campanhas são realizadas pelos governantes, Centros de Formação de Condutores (CFCs) cada vez dão mais atenção a essa problemática, Departamentos Estaduais de Trânsito (DETRAN) realizam estatísticas para tentar demonstrar para a população
que bebida e direção não combinam, mas não se nota um avanço na conscientização do povo, muito pelo contrário, os acidentes são cada vez mais rotineiros e vidas são ceifadas da comunidade, conforme se verifica no segundo capítulo.
Conforme Lucas Pimentel (2012), ―os centros de formação de condutores, devem dar mais prioridade na direção defensiva, existem recursos específicos para o Estado desenvolver programas de educação no trânsito‖.
Após o novo Código de Trânsito Brasileiro ser criado se notou uma diminuição nos acidentes de trânsito, contudo, esses números após alguns anos voltaram a crescer, como será examinado no segundo capítulo. O governo investe em campanhas, as quais estão diuturnamente nos meios de comunicações, mas a população não se conscientiza dos malefícios causados pela combinação álcool e direção.
Conforme Marta Maria Alves da Silva (2015, p. [?]):
o governo tem desenvolvido uma série de ações para reduzir os números de acidentes no trânsito. O problema, é que apesar dos investimentos feitos, as estatísticas apontam para o crescimento, ano a ano, no número de acidentes e principalmente de óbitos. É preciso inverter essa tendência com investimentos maciços em prevenção, especialmente para conscientizar sobre o perigo do excesso de velocidade e de dirigir alcoolizado.
O CTB de 1997 trouxe em seus artigos punições aos condutores que bebessem e dirigissem embriagados, foi uma opção encontrada pelos legisladores para tentar reduzir o número de vítimas e gastos públicos deixados por motoristas alcoolizados - mas com o passar dos anos nem essas punições mais inibiam os infratores.
Foi então, que em 2008 o governo alterou o art. 306 do CTB, com a intenção de reduzir os números de acidentes de trânsito e consequentemente os valores gastos pelos entes públicos, lançou-se a primeira Lei Seca. Para André Monteiro (FOLHA DE SÃO PAULO, 2015) ―quando foi aprovada a primeira Lei Seca em 2008, houve leve redução nos acidentes (2%), mas os números voltaram a subir‖.
Quando se fala em gastos públicos, se esta falando em gastos que toda população arca através do pagamento de tributos. A Previdência Social sofre grandes impactos, pois tem o dever de arcar com a remuneração dos segurados acidentados após os 15 primeiros dias.
Segundo Leonardo Rolim (2014), ―Quem mais gasta com acidentes de veículos é a Previdência Social, no ano de 2013 os acidentes de trânsito somaram R$ 12 bilhões de reais‖.
É a seguridade social que concede benefícios como o auxilio-acidente para subsistência do acidentado enquanto estiver impossibilitado de retornar as suas funções laborativas, conforme prevê a Lei 8.213/91. A citada lei também traz em sua redação que em caso de incapacidade permanente ou morte, fará jus o trabalhador a aposentadoria por invalidez ou seus sucessores/dependentes a pensão por morte, respectivamente, causando com isso gastos significativos para os entes públicos.
Assim, também afirma Patrícia Santos Dumont (2014):
As alarmantes estatísticas de acidentes no trânsito representam um gasto público de R$ 230 milhões ao ano. Se considerados os valores dispensados pela Previdência Social, com aposentadorias precoces por invalidez e auxílio-doença, o prejuízo é ainda maior.
Nota-se que os gastos advindos de acidentes de trânsito são enormes, e tudo está ligado, na maioria das vezes, a imprudência, negligência ou imperícia dos condutores dos veículos que por motivos diversos, dentre eles a embriaguez, acabam cometendo barbáries, as quais levam inúmeras pessoas à morte.
Desse modo Silvestre de Andrade, citado por Dumont (2014):
acidentes são um fenômeno de múltiplas causas, entre as quais ele destaca a sensação de impunidade por parte da população e a própria tolerância da Justiça com a violência. Temos, por uma questão cultural e estrutural, uma postura de ter pena de quem comete as infrações e, consequentemente, os crimes. De defender o culpado mais do que a própria vítima. Somado a isso, uma fiscalização falha e as poucas condenações aos crimes de trânsito.
Cada vez mais é visto acidentes acontecerem, pois é visível o aumento da frota de veículos circulando nas estradas do país, ligando isso com as causas naturais, mais a pressa dos condutores, a impaciência e o congestionamento nas grandes cidades, os acidentes só podem ser consequências das escolhas tomadas pelos usuários. Para que isso não se torne rotina na vida das pessoas à psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello membro da diretoria da Associação Mineira de Psiquiatria, (apud DUMONT, 2014), diz que:
reações de irritabilidade desproporcional e o próprio estresse são características comuns ao nosso cotidiano. Para enfrentá-las, recomenda organizar melhor o tempo, ouvir músicas relaxantes no carro e alongar-se enquanto enfrenta congestionamentos. Fique atento ainda aos sinais clínicos como irritabilidade desproporcional a pequenos estímulos, sensação permanente de cansaço, insônia e mau humor e a reações inesperadas como agressividade e violência.
Para se tentar evitar que vidas sejam destruídas em virtude de acidentes de trânsito, se deve ficar atento o tempo todo, a tudo que acontece ao redor, inclusive ao comportamento dos outros condutores, principalmente daqueles que estão em veículos menores, não se esquecendo dos pedestres que fazem parte do conjunto.
Conforme site Naganuma (2015, p. [?]), recentemente o Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), com base nas informações do banco de dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), encomendou ao IPEA, uma pesquisa, a qual foi executada com o suporte da ANTP e auxiliada pela Tecnométrica Ltda, foi realizado um levantamento global dos gastos com os acidentes de trânsito.
Essa pesquisa chegou ao astronômico valor de 22 bilhões de reais anuais, ou cerca de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Para chegar a esse valor o instituto se valeu de todos os gastos gerados pelos acidentes de trânsito, isto é, desde os danos materiais até os gastos com atendimento e prejuízos pela interrupção do trabalho. Para se ter ideia do valor aferido, ela representa mais do que o total do orçamento do Ministério da Saúde. (dados: Revista Desafio)
Na maioria das vezes os acidentes de trânsito são ocasionados por condutores que desrespeitem as leis de trânsito, não observam os mínimos cuidados que se deve ter quando da condução de um veículo automotor. No país, a
população não se conscientizou que álcool e direção não combinam, sendo esse o motivo mais comum dos acidentes, juntamente com ultrapassagens proibidas.
Conforme relata José Rodrigues Nivaldino, citado por Gisélia Lúcia Soares e Pollyanna Maria da Silva, (2008, p.[?]):
As estatísticas mostram que nos acidentes com vítimas fatais ou não, há um elevado percentual de motoristas embriagados envolvidos, vai além é mais de 70% - motivo esse em que se levantaram muitos estudos, a fim de chegar a uma solução que possa amenizar esse grave fator de acidentes e de tragédias no trânsito brasileiro.
Corroborando com o assunto, o estudo ―Acidentes de Trânsito e Abuso de Álcool: qual o custo para a sociedade porto-alegrense‖, realizado por médicos psiquiatras e economistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os quais calcularam os custos diretos e indiretos dos acidentes de trânsito nas vias urbanas de Porto Alegre, publicado por Gabriel Azevedo (2011, p. [?], grifo nosso):
mostra que as 6.664 vítimas de acidentes de trânsito em 2008 e as 155 mortes em 2007 custaram R$ 66 milhões para o poder público e a população de Porto Alegre. Pouco menos da metade deste valor – R$31,4 milhões – foi o custo dos acidentes atribuídos ao consumo de álcool.
Desse modo, verifica-se quanto dinheiro público poderia ser economizado se a população fosse consciente e evita-se a combinação álcool e direção. Quantas melhorias poderiam ser realizadas na educação, saúde, segurança-pública ou em tantas outras áreas que estão carecendo de investimentos.
Na opinião de Sabino da Silva Pôrto Júnior (apud AZEVEDO, 2011, p.[?]), coordenador do estudo, professor e economista
o álcool é um problema mais sério do que apenas um potencial causador de acidentes. O álcool é subavaliado pelas autoridades. A pesquisa limitou-se a calcular os custos no trânsito, mas ele causa prejuízos e custos que poderiam ser evitados. A pesquisa mostra a realidade de Porto Alegre, mas ela não é muito diferente de outras cidades.
A previdência social, como já relatado anteriormente, é o órgão público que mais impacto sofre quando os acidentes de trânsito acontecem, contudo a autarquia já está realizando ações regressivas contra os motoristas imprudentes, causadores dos acidentes de trânsito onde restarem pessoas lesionadas e mortas, as quais o INSS terá que movimentar a máquina pública e lhes pagar benefícios.
Conforme Alessandro Stefanutto (2014, p. [?]):
A Previdência paga R$ 12,5 bilhões por ano em benefícios a pessoas que sofreram acidente – equivalente a 24% do déficit da Previdência em 2013, de R$ 51,3 bilhões –, o que ajuda a explicar por que o tema ganhou prioridade nas ações regressivas, entretanto, nega que o foco seja arrecadação, e defende o viés educativo da medida.
Com atitudes desse porte os condutores irão pensar antes de pegar a direção de um veículo automotor alcoolizados, pois caso algum acidente ocorra e o condutor esteja embriagado, em alta velocidade ou participando de rachas, poderá sofrer uma ação de cobrança pelo INSS, pois Stefanutto (2014, p. [?], grifo nosso) afirma que ―Você está pagando por aquele que decide bater em mulher e dirigir bêbado. Nós queremos mudar a percepção da sociedade de que a pessoa faz coisa errada e nada acontece‖.
Como relatado anteriormente, em 2008 foi lançada a primeira lei seca, a qual teve a intenção de reduzir os números de acidentes de trânsito e consequentemente os valores gastos pelos entes públicos, sendo que inicialmente se obteve resultados positivos. Mas com o passar dos dias, a população acaba por esquecer e volta a cometer as mesmas infrações que cometiam anteriormente, se regride novamente aos números absurdos de acidentes, mortes e gastos por causa do trânsito, mais precisamente pela combinação álcool e direção.
Então, no final de 2012, o governo busca achar uma nova alternativa para diminuir os acidentes de trânsito, e surge a ―Nova Lei Seca‖, a qual foi publicada e de imediato teve eficácia plena, com o objetivo de coibir os motoristas de beber e dirigir. As alterações ocorridas no art. 306 serão examinadas no próximo item.
Conforme nos ensina José Eduardo Gonzalez Fernandez (2013, p. [?]) ―verifica-se que a Nova Lei Seca foi criada como um verdadeiro mecanismo de ataque aos acidentes letais ocasionados pela ingestão de bebida alcóolica‖.
Apesar de todas as campanhas realizadas pelos governos, se nota que é enorme a quantidade de pessoas que acabam lesionadas e até mortas no trânsito. Os acidentes de trânsito além de gerar um desgaste emocional para as famílias, tanto do causador como da vítima, faz com que os governos tenham um enorme prejuízo nos cofres públicos, pois em decorrência desses acidentes, pessoas acabam lesionadas e a partir disso uma grande estrutura é formada com profissionais na área da saúde, gerando um gasto para os hospitais e consequentemente para os governos, tanto municipal, estadual como federal.
Com esse intuito, senão além de preservar a vida das pessoas que estão cotidianamente nas estradas do país, foi que o Código de Trânsito Brasileiro de 1997, teve algumas alterações em torno dos artigos que tratam sobre a condução de veículo automotor estando seu condutor com a capacidade psicomotora alterada, devido à influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência, como se verá no próximo item.
1.2 As alterações ocorridas no art. 306 a partir da criação do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) de 1997
O Código de Trânsito Brasileiro que esta em vigência foi introduzido pela Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, sendo composto por 20 (vinte) capítulos, os quais estão distribuídos em 341 artigos. A presente monografia examinará mais precisamente o artigo 306 e suas modificações, mas far-se-á menção aos artigos 165, 276 e 277, os quais tratam sobre a temática que será explanada.
Até o presente momento foram quatro (04) alterações que ocorreram no Código de Trânsito Brasileiro, quando se faz referência ao condutor que esteja com a capacidade psicomotora alterada, devido à influência de álcool ou de qualquer substância psicoativa que determine dependência. As modificações ocorridas se deram através das Leis nº 11.275/06, 11.705/08, 12.760/12 e 12.971/14.
O Brasil, na época da promulgação do presente código, vivia com um número elevado e crescente de acidentes de trânsito nas estradas brasileiras e como consequência lógica as mortes estavam presentes nos mais diversos acidentes e pelos mais variados motivos.
Entre as diferentes causas de morte no trânsito, esta presente na maioria das vezes a embriaguez ao volante, sendo este um dos motivos que o então CTB em vigência trouxe no capítulo XIX, que trata sobre os Crimes de Trânsito, um artigo específico sobre a condução de veículo sob a influência de álcool ou substância de efeitos análogos, passando então a criminalizar tal conduta.
No ordenamento jurídico brasileiro para que haja um crime é necessário que ocorra dolo ou culpa do agente causador do delito. No CTB, de acordo com o artigo 291, ―crimes de trânsito são aqueles ocorridos no comando de um veículo automotor‖.
A redação original do art. 306 do CTB narrava o seguinte:
Conduzir veículo automotor, na via pública, sob a influência de álcool ou substância de efeitos análogos, expondo a dano potencial a incolumidade de outrem.
Penas - detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor. (BRASIL, 2015, grifo nosso).
Nota-se que a citada redação expressava ‖expondo a dano potencial a incolumidade de outrem‖ sendo que para punir o condutor, este deveria estar dirigindo o veículo embriagado e colocando em perigo a vida dos demais cidadãos ocupantes das estradas brasileiras. A comprovação da embriaguez poderia ser obtida por qualquer meio de prova, tanto pericial, bafômetro e/ou testemunhal.
Já se falou que para se caracterizar um crime é necessário que aja dolo ou culpa do agente, o crime também possui classificação e pode ser classificado de várias formas, uma delas é quanto ao seu resultado, sendo que o crime pode ser de dano ou de perigo, ainda se subdividindo em perigo concreto ou abstrato.
Crime de Dano é quando ocorre efetiva lesão ao bem jurídico tutelado, temos como exemplo o crime de homicídio, tipificado no artigo 121 do Código Penal. Já Crime de Perigo é quando a ação do sujeito por si só causa um risco a um individuo ou a coletividade, nesse caso, serve de exemplo o crime de periclitação da vida e da saúde, disciplinado no artigo 132 do Código Penal.
Assim leciona Leonardo Marcondes Machado (2013, p. [?]):
Crime de Dano é o injusto penal por configurar-se com o dano efetivo, ou seja, concreta lesão ao bem jurídico tutelado. Crime de Perigo é aquela espécie de injusto penal que se satisfaz/se consuma com a mera ameaça de lesão (ou perigo de lesão) ao bem jurídico tutelado.
O artigo 306 do CTB, em sua redação original, estava tratando de um crime de perigo, sendo na modalidade de perigo concreto, onde se fazia necessário à comprovação da situação de risco por parte de um individuo ou da coletividade.
Nesse sentido, Dario Jose Kist (2013, p. [?]) apontava que:
portanto, tratava-se de crime de perigo concreto, ensejando a necessidade de comprovar-se no curso da persecução penal a prática de ação perigosa por parte do condutor, como o excesso de velocidade, o andar em ziguezague ou em cima de calçadas e acostamentos, ou qualquer outra manobra anormal ou perigosa.
Segundo Luiz Flávio Gomes, citado por Fabiano Augusto Valente (2015, p. [?]):
não bastava ao acusador apenas comprovar que o sujeito dirigia embriagado (art. 306) ou sem habilitação (art. 309) ou que participava de racha (art. 308), etc. Doravante exige-se algo mais para a caracterização do perigo pressuposto pelo legislador. Esse algo mais consiste na comprovação de que a conduta do agente (desvalor da ação), concretamente, revelou-se efetivamente perigosa para o bem jurídico protegido.
Pela redação original do artigo teria que haver o perigo concreto por parte do sujeito ativo (motorista) contra a vida de qualquer sujeito passivo (pessoa
indeterminada, não precisava apresentar uma vítima concreta, bastava comprovar a condução anormal do veículo e que desta poderia resultar um dano).
André Luiz Callegari (apud VALENTE, 2015, p. [?]), esclarece que:
nos delitos previstos no Código de Trânsito, só pode ser esta a interpretação, é dizer, são delitos de perigo concreto, necessitando sempre da prova da existência do perigo, tendo em vista a natureza material da antijuridicidade e também a moderna visão do Direito Penal, devendo-se sempre levar em conta não só o desvalor da ação, mas, também, o desvalor do resultado.
O art. 306 fica caracterizado quando o condutor é flagrado dirigindo e seu estado psicomotor esta alterado, também quando outros crimes de trânsito ocorrem e o motorista está nas situações que caracterizam o citado delito. Quando os crimes de trânsito acontecem dois institutos muito parecidos surgem, o dolo eventual e a culpa consciente, sendo que se confundem em determinados casos, pois quando o agente ―assume o risco‖ de causar o resultado criminoso, ele pode estar querendo esse resultado (dolo) ou apenas sabendo que isso pode acontecer, mas ele não almeja alcança-lo com seu ato (culpa).
A expressão ―assumir o risco‖, torna o dolo eventual muito parecido com a culpa consciente, e essa confusão se dá por duas razões, conforme Silvio Maciel (2015, p.[?]):
1ª) em ambos os institutos o agente prevê o resultado e mesmo assim prossegue praticando a conduta, ou seja, em ambos os casos não há mera previsibilidade (possibilidade de previsão); há mais do que isso, há efetiva previsão do resultado;
2ª) a expressão ―assumir o risco‖, se tomada em seu sentido comum, leigo, permite considerar como dolosa qualquer conduta que a rigor é culposa, já que a culpa nada mais é do que uma conduta arriscada. Exemplificativamente, aquele que excede a velocidade do automóvel para chegar a tempo em um lugar praticou conduta arriscada. Aos olhos do leigo, ―assumiu o risco‖ do acidente.
Já para Guilherme Didomenico (2015, p.[?]), ―O dolo eventual somente caracteriza-se quando a conduta do agente ultrapassar os limites da normalidade, ou seja, quando ele não se preocupa com a realização ou não do delito‖.
Na visão de Fernando Capez (apud DIDOMENICO, 2015, p. [?]), dolo eventual é quando ―o agente não quer diretamente o resultado, mas aceita a possibilidade de produzi-lo, ou não se importa em produzir este ou aquele resultado‖, ainda define culpa consciente como ―aquela em que o agente prevê o resultado, embora não o aceite‖.
O Código Penal, em seu artigo 18, inciso I e II, prevê a definição de dolo e culpa:
Art. 18 - Diz-se o crime:
I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo;
II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia. (BRASIL, 2015)
No dolo eventual, o agente não quer o resultado, mas se chegar acontecer não tem problema, não está preocupado, azar da vítima. Já na culpa consciente, é diferente, o agente sabe que possui riscos, mas acredita que através de suas habilidades o fato não ocorrerá, também espera que nada aconteça. Nota-se uma diferença entre um instituto e outro, mas na prática não é fácil de saber o que o agente pretendia no momento do acidente.
Na ocorrência do delito, sempre se vem à tona, se o agente queria o resultado ―crime‖ ou se aconteceu sem este querer provocar o delito; se houve dolo ou culpa do motorista causador do fato criminoso.
Para enquadrar a conduta como dolosa ou culposa é necessário ter conhecimento de como o fato ocorreu e qual a intenção do agente causador do fato, sendo esta a mais complicada de se averiguar.
Para que um crime na direção de veículo automotor seja na modalidade dolosa, o agente deve querer o resultado, caso contrário o crime será culposo, como fica demonstrada na decisão:
Ementa: PENAL. HABEAS CORPUS. TRIBUNAL DO JÚRI. PRONÚNCIA POR HOMICÍDIO QUALIFICADO A TÍTULO DE DOLO
EVENTUAL. DESCLASSIFICAÇÃO PARA HOMICÍDIO CULPOSO NA DIREÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. EMBRIAGUEZ ALCOÓLICA. ACTIO LIBERA IN CAUSA. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO ELEMENTO VOLITIVO. REVALORAÇÃO DOS FATOS QUE NÃO SE CONFUNDE COM REVOLVIMENTO DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO. ORDEM CONCEDIDA. 1. A classificação do delito como doloso, implicando pena sobremodo onerosa e influindo na liberdade de ir e vir, mercê de alterar o procedimento da persecução penal em lesão à cláusula do due process of law, é reformável pela via do habeas corpus. 2. O homicídio na forma culposa na direção de veículo automotor (art. 302, caput, do CTB) prevalece se a capitulação atribuída ao fato como homicídio doloso decorre de mera presunção ante a embriaguez alcoólica eventual. 3. A embriaguez alcoólica que conduz à responsabilização a título doloso é apenas a preordenada, comprovando-se que o agente se embebedou para praticar o ilícito ou assumir o risco de produzi-lo. 4. In casu, do exame da descrição dos fatos empregada nas razões de decidir da sentença e do acórdão do TJ/SP, não restou demonstrado que o paciente tenha ingerido bebidas alcoólicas no afã de produzir o resultado morte. 5. [...]. (Guilherme Souza Nucci, Código Penal Comentado, 5. ed. rev. atual. e ampl. - São Paulo: RT, 2005, p. 243) 6. A revaloração jurídica dos fatos postos nas instâncias inferiores não se confunde com o revolvimento do conjunto fático-probatório. 7. A Lei nº 11.275/06 não se aplica ao caso em exame, porquanto não se revela lex mitior, mas, ao revés, previu causa de aumento de pena para o crime sub judice e em tese praticado, configurado como homicídio culposo na direção de veículo automotor (art. 302, caput, do CTB). 8. Concessão da ordem para desclassificar a conduta imputada ao paciente para homicídio culposo na direção de veículo automotor (art. 302, caput, do CTB), determinando a remessa dos autos à Vara Criminal da Comarca de Guariba/SP. (BRASIL, 2011, grifo nosso).
Assim, os tribunais estão decidindo sobre o fato em tese, pois é muito difícil provar que o agente se embriagou com a intenção de matar alguém e sem essa prova nos autos não há como decidir de forma diferente.
Todavia na cidade de Marau, interior do Rio Grande do Sul, no corrente ano se teve uma decisão, em que o Tribunal do Júri acabou condenando o acusado por homicídio de trânsito e lesão corporal grave com a agravante da embriaguez ao volante, ocorridos no ano de 2011.
Nesses termos, Rádio Uirapuru (2015, p. [?]:
O Tribunal do Júri da comarca de Marau condenou, em julgamento realizado no dia 19 deste mês, o réu Marluis Aureo da Silva, a oito
anos e nove meses de prisão em regime inicial fechado por homicídio de trânsito e lesão corporal grave. Ele havia sido denunciado pelo Ministério Público pelos dois crimes com o agravante da embriaguez ao volante. Segundo a denúncia do Ministério Público, em 22 de fevereiro de 2011 Marluis Áureo da Silva conduzia um caminhão em estado de embriaguez e na contramão nas imediações do quilômetro 92 da RS 324, em Marau, quando colidiu com o veículo conduzido por Alduir Carlos Vebber. O condutor morreu e a caroneira Ceni Angelita de Oliveira ficou ferida. Após a colisão, o motorista do caminhão seguiu viagem e parou em uma borracharia para consertar um dos pneus que havia estourado. Ele, inclusive, ligou para o patrão para informar do conserto, mas não fez qualquer referência ao acidente. Marluis Áureo da Silva foi encontrado por policiais que o identificaram devido às avarias existentes no caminhão e realizaram o teste de alcoolemia. Segundo relato dos policiais, ele afirmou ter ingerido duas caipirinhas no almoço. O motorista foi então submetido ao bafômetro apontou 0,77 miligramas de álcool por litro de ar expelido pelos pulmões. O condenado já havia sido autuado por dirigir embriagado dias antes do crime - 11 de fevereiro de 2011 em Caxias do Sul- e, também meses após o fato, - em 16 de novembro de 2011 em Soledade. A promotora de Justiça Graziela da Rocha Vaughan Veleda, atuou em plenário, onde sustentou a denúncia de dolo eventual cometido no trânsito. Durante o Júri, o conselho de sentença reconheceu a materialidade, a autoria do crime e também que o réu havia assumido o risco e consentido com a produção dos resultados morte e lesão, conforme denunciado pelo Ministério Público. O réu tem o direito de apelar em liberdade. (Fonte: Ministério Público)
O acusado terá o direito de recorrer em liberdade, contudo se o Tribunal de Justiça mantiver o que o Conselho de Sentença no Tribunal do Júri decidiu terá o réu que ir preso em regime inicial fechado como ora exposto.
Em 2008, houve algumas alterações, promovidas pela Lei nº 11.705 a qual veio a modificar o art. 306 do CTB, lhe dando a seguinte redação:
Conduzir veículo automotor, na via pública, estando com concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a 6 (seis) decigramas, ou sob a influência de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência. (BRASIL, 2015, grifo nosso).
A Lei 11.705, a qual foi chamada de ―LEI SECA‖, foi criada para reduzir o número de acidentes ocasionados por motoristas embriagados, endureceu a punição para aqueles que bebessem e fossem dirigir, mas os legisladores acabaram por inserir uma comprovação do estado etílico do condutor e este somente poderia
ser atestado por exame sanguíneo ou teste do bafômetro, conforme disciplina o Decreto nº 6.488, o qual trouxe a seguinte redação:
Art. 1º Qualquer concentração de álcool por litro de sangue sujeita o condutor às penalidades administrativas do art. 165 da Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997 – Código de Trânsito Brasileiro, por dirigir sob a influência de álcool.
§ 1º As margens de tolerância de álcool no sangue para casos específicos serão definidas em resolução do Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN, nos termos de proposta formulada pelo Ministro de Estado da Saúde.
§ 2º Enquanto não editado o ato de que trata o § 1º, a margem de tolerância será de duas decigramas por litro de sangue para todos os casos.
§ 3º Na hipótese do § 2º, caso a aferição da quantidade de álcool no sangue seja feito por meio de teste em aparelho de ar alveolar pulmonar (etilômetro), a margem de tolerância será de um décimo de miligrama por litro de ar expelido dos pulmões.
Art. 2º Para fins criminais de que trata o art. 306 da Lei nº 9.503, de 1997 – Código de Trânsito Brasileiro, a equivalência entre os distintos testes de alcoolemia é a seguinte:
I – exame de sangue: concentração igual ou superior a seis decigramas de álcool por litro de sangue; ou
II – teste em aparelho de ar alveolar pulmonar (etilômetro): concentração de álcool igual ou superior a três décimos de miligrama por litro de ar expelido dos pulmões.
Art. 3º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. (BRASIL, 2015)
Foi com o intuito de dar maior rigor aos motoristas que dirigissem veículos automotores embriagados que ocorreu a alteração do art. 306 do CTB, porém foi acrescentada na sua redação uma quantidade de álcool para que o condutor fosse considerado embriagado, o que anteriormente não continha, desse modo causando um problema em sua aplicabilidade.
A esse respeito leciona Warley Belo (2015, p. [?]):
[...], em 2008, através da Lei nº 11.705, inovou-se desastrosa e irresponsavelmente a legislação penal inserindo no tipo a exigência de se comprovar a concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a 6 (seis) decigramas. Não se sabe ao certo o porque desse número já que as pessoas são diferentes em relação à sua resistência etílica e também ao peso relativo da massa corporal, mas, enfim... o Legislador encontrou esse número cabalístico.
Nota-se que com a alteração da lei, o legislador introduziu uma exigência para que o condutor fosse preso, uma comprovação de que ele estivesse com uma concentração de álcool igual ou superior a seis decigramas de álcool por litro de sangue, com isso acabou-se por ampliar a liberdade dos condutores que fazem uso dos produtos que alteram a capacidade psicomotora, porque a prova a ser produzida ficou mais densa, pois o legislador não se deu conta que acrescentando essa exigência poucos seriam os condutores autuados em flagrante delito. Além disso, teria que se comprovar a quantidade de álcool no organismo da pessoa e isso somente poderia ser realizado através da prova pericial.
Assim leciona Kist (2013, p. [?], grifo do autor):
A par desta condicionante na prova do crime que, portanto, somente poderia ser feita pelo meio pericial, assentou-se na doutrina e jurisprudência a noção de que o condutor suspeito de conduzir veículo em estado de embriaguez não poderia ser coagido a utilizar o aparelho de medição da quantidade de álcool existente no sangue, assim como não poderia ser obrigado a permitir a coleta de sangue para fazer o exame. E o fundamento para tais negativas lícitas foi calcado no princípio da vedação da autoincriminação, mais conhecido pela expressão segundo a qual ninguém pode ser obrigado a produzir prova contra si - em latim, nemo tenetur se
detegere.
No Brasil, nenhuma pessoa é obrigada a produzir prova contra si mesmo, sendo este um principio constitucional, disciplinado na Carta Magna no artigo 5º, inciso LXIII e também disciplinado no art. 8º, 2, g do Tratado Interamericano de Direitos Humanos – Pacto de São José da Costa Rica e no art. 14, 3, g do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP):
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
LXIII - o preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado;
Artigo 8º - Garantias judiciais
2. Toda pessoa acusada de um delito tem direito a que se presuma sua inocência, enquanto não for legalmente comprovada sua culpa. Durante o processo, toda pessoa tem direito, em plena igualdade, às seguintes garantias mínimas:
g) direito de não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada;
ARTIGO 14
3. Toda pessoa acusada de um delito terá direito, em plena igualmente, a, pelo menos, as seguintes garantias:
g) De não ser obrigada a depor contra si mesma, nem a confessar-se culpada. (BRASIL, 2015).
Percebe-se que o acusado que estivesse com a capacidade alterada pelo motivo de ter ingerido bebida alcoólica ou outra substância psicoativa que causasse dependência, não possuía a obrigação de se submeter aos testes disciplinados no art. 306 do CTB, pois lhe era uma garantia constitucional.
Francisco Neto Sannini e Eduardo Luiz Santos Cabette (2013, p. [?], grifo dos autores) afirmam que a embriaguez do motorista só pode ser constatada por meio do exame do etilômetro ou sanguíneo, contudo tais provas dependem da exclusiva vontade do condutor. ‖Assim, tendo em vista que a Constituição da República e o Pacto de São José da Costa Rica garantem o direito do indivíduo de não produzir provas contra si mesmo (princípio do nemo tenetur se detegere), é difícil a sua comprovação da embriaguez.‖
Com esse benefício concedido pela Constituição, seria raro que algum condutor embriagado realizasse o teste para se incriminar, sabendo que nada poderia lhe ser feito da negativa da realização dos exames.
Na redação original do artigo havia a presença do perigo concreto por parte do sujeito ativo (motorista) contra a vida de qualquer sujeito passivo (pessoa indeterminada). Após a alteração da lei em 2008, o crime de perigo concreto passou a ser crime de perigo abstrato.
Nesse aspecto, Valente (2015, p. [?]) pondera que:
Com as recentes modificações introduzidas pela Lei nº. 11.705, de 19 de junho de 2008, retornamos à utilização de delitos de perigo abstrato, isto porque basta a mera condução de veículo automotor com concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a 6 (seis) decigramas, ou sob a influência de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência para que se configure o crime.
Sendo assim, para que haja configuração do delito não é necessária à comprovação do perigo real, tão somente necessário é que haja a conduta descrita no tipo penal.
De acordo com Piero Locatelli e Guilherme Balza (2009, p. [?])
Levantamento feito pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) do primeiro ano da aplicação da lei seca no país mostra que aumentou o número total de acidentes de carro e de feridos nas rodovias federais do país, mesmo com a fiscalização mais rigorosa. Entre os dias 20 de junho de 2008, quando a lei 11.705 entrou em vigor, e 16 de junho de 2009, foram 138.226 acidentes, contra 127.683 no mesmo período do biênio 2007-2008. Os feridos foram de 76.056 no período anterior para 79.269 após a lei.
A intenção do legislador foi boa, contudo acabou introduzindo detalhes que acabaram por deixar a lei sem aplicabilidade, porque o condutor não era obrigado a realizar os testes de alcoolemia, ou seja, bebia, dirigia e não se conseguia provar o crime de trânsito, pois para que houvesse a comprovação do seu estado etílico era necessário ter sua colaboração, desta forma só era possível a punição administrativa.
Belo (2015, p [?]) explica que:
No dia 28 de março de 2012, o STJ proferiu decisão no REsp 1.111.566 neste exato sentido. Como esta prova técnica não poderia ser obtida sem a colaboração do próprio cidadão investigado, os motoristas ébrios passaram a recusar, com todo o direito, o teste do bafômetro. Claro, ninguém quer se condenar... Daí a lei caiu no mais puro ostracismo jurídico, pois ninguém soprava o bafômetro, ninguém ia condenado. Com uma agravante bem peculiar como só ocorrer entre nossos Legisladores: a lei, sendo benéfica, foi retroativa e todos os condutores ébrios deste Brasil se viram, da noite para o dia, absolvidos por falta da prova técnica [...]
Após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) proferir decisão no REsp 1.111.566 e ao perceber que a lei não estava tendo o objetivo que se desejava, foi que os legisladores através da lei nº 12.760/12, promoveram nova alteração do artigo 306 do CTB , dando-lhe a seguinte redação:
Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência:
Penas - detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
§ 1o As condutas previstas no caput serão constatadas por:
I - concentração igual ou superior a 6 decigramas de álcool por litro de sangue ou igual ou superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de ar alveolar; ou
II - sinais que indiquem, na forma disciplinada pelo Contran, alteração da capacidade psicomotora.
§ 2o A verificação do disposto neste artigo poderá ser obtida mediante teste de alcoolemia, exame clínico, perícia, vídeo, prova testemunhal ou outros meios de prova em direito admitidos, observado o direito à contraprova.
§ 3o O Contran disporá sobre a equivalência entre os distintos testes de alcoolemia para efeito de caracterização do crime tipificado neste artigo. (BRASIL, 2015).
A lei 12.760/12 foi chamada de ―Nova Lei Seca‖, pois além de alterar novamente o art. 306 do CTB, o qual é trazido no Capítulo dos Crimes de Trânsito, também modificou os valores das multas aplicadas aos condutores que estejam com a capacidade psicomotora alterada. Passou-se a punir com maior rigor os condutores na esfera administrativa; já na esfera penal, a pena imposta pelo crime tipificado no artigo não sofreu alterações, continua a mesma imposta desde sua criação em 1997.
A lei possibilitou aos agentes de trânsito, que em alguma abordagem constatarem que o motorista esteja com seu estado psicomotor alterado pelo motivo da embriaguez ou outra substância que cause dependência, a prendê-lo através da prova testemunhal ou outras admitidas em direito, observando o direito à contraprova, o que não estava mais acontecendo, pois anteriormente somente poderiam prender os motoristas que se submetiam aos testes.
Nesse sentido, André Marques de Oliveira Costa (2015, p. [?]) demonstra que:
Após a repercutida decisão do STJ, a Câmara dos Deputados aprovou novo projeto de lei, que dentre as modificações previstas trouxe a extinção da obrigatoriedade do teste do bafômetro e do exame de sangue. Noutra banda, com o sistema tradicional processual, as provas obtidas através de testemunhas, imagens,
vídeos ou quaisquer outras em direito admitidas passaram a ser valoradas.
Verifica-se, portanto, que a lei em vigor desobrigou o teste do bafômetro e do exame de sangue, podendo o agente constatar a pratica do crime através da prova testemunhal ou outras admitidas em direito e consequentemente, constatando o crime deve-se realizar a prisão do condutor.
Uma das provas aceitas é o Termo de Constatação de Sinais de Alteração da Capacidade Psicomotor. Para credibilidade da prova e confecção do documento, os agentes devem considerar não somente um sinal, mas um conjunto de sinais que comprovem que a capacidade psicomotora do condutor encontrasse alterada. O agente fiscalizador deverá observar os seguintes sinais, conforme termos do Anexo II da Resolução 432 do CONTRAN:
A) Quanto à aparência, se o condutor apresenta: sonolência, olhos vermelhos, vômito, soluços, desordem nas vestes, odor de álcool no hálito.
B) Quanto à atitude, se o condutor apresenta: agressividade, arrogância, exaltação, ironia, falante, dispersão.
C) Quanto à orientação, se o condutor: sabe onde está, sabe a data e a hora.
D) Quanto à memória, se o condutor: sabe seu endereço, lembra dos atos cometidos.
E) Quanto à capacidade motora e verbal, se o condutor apresenta: dificuldade no equilíbrio, fala alterada. (BRASIL, 2015).
De acordo com Sannini Neto e Cabette (2013, p [?].),
muito embora o novo tipo penal não esteja livre de críticas, a alteração foi muito positiva, dando efetividade ao Código de Trânsito e auxiliando na redução de acidentes. No ano de 2012 foram inúmeros os casos de acidentes envolvendo motoristas com suspeita de embriaguez [...]
Em 2014, através da Lei 12.971, foi inserido nos parágrafos 2º e 3º do art. 306 do CTB o termo ―toxicológico‖. O § 2º passou a disciplinar que poderá ser obtida a prova de que o condutor esteja com a capacidade psicomotora alterada através do teste toxicológico. Já no § 3º também foi inserido somente o termo toxicológico, como demonstrado abaixo.
Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência:
Penas - detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
§ 1o As condutas previstas no caput serão constatadas por:
I - concentração igual ou superior a 6 decigramas de álcool por litro de sangue ou igual ou superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de ar alveolar; ou
II - sinais que indiquem, na forma disciplinada pelo Contran, alteração da capacidade psicomotora.
§ 2o A verificação do disposto neste artigo poderá ser obtida mediante teste de alcoolemia ou toxicológico, exame clínico, perícia, vídeo, prova testemunhal ou outros meios de prova em direito admitidos, observado o direito à contraprova.
§ 3o O Contran disporá sobre a equivalência entre os distintos testes de alcoolemia ou toxicológicos para efeito de caracterização do crime tipificado neste artigo. (BRASIL, 2015, grifo nosso).
Também a lei nº 12.971, incluiu o parágrafo segundo ao artigo 302 do CTB, sendo que tal art. encontra-se no capítulo dos crimes de trânsito e disciplina sobre a prática de homicídio culposo na direção de veículo automotor.
Com o advento da presente lei em 2014 e inclusão do § 2º, a pena foi alterada, não sendo a mesma, para aquele condutor que praticar tal delito e estiver com a capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência. A presente alteração legislativa foi de suma importância na tentativa de coibir acidentes de trânsito e mortes nas estradas.
Atualmente também incorre nas sanções do art. 306 do CTB, o condutor que comete o crime em via privada, por exemplo, aquele que estiver em sua casa de veraneio, e lá estiver dirigindo alcoolizado, podendo ser-lhe aplicada a pena estipulada no artigo elencado. Anteriormente o artigo trazia a expressão ―em via pública‖, contudo hoje em dia essa expressão já não faz mais parte do artigo citado, sendo lhe estendida sua aplicação para qualquer via, tanto pública como privada.
Outra importante modificação é a de que não é necessário que a condução do veículo automotor se verifique em via pública. Um condutor embriagado que se desloca, por exemplo, em sua inabitada fazenda particular também comete o crime.
Quando o condutor for flagrado conduzindo veículo automotor e estiver sob a influência de álcool ou substância psicoativa que determine dependência e este se sujeitar a um dos testes especificados, e o resultado for o superior ao estipulado no inciso I, do § 1º do artigo 306, o crime encontra-se comprovado.
Já se o condutor negar-se em realizar os testes e os agentes de trânsito constatarem que o mesmo esteja com visíveis sintomas de dependência, utilizando para obter a prova os meios estipulados no § 2º do artigo acima exposto, também caracterizado se encontrará o delito tipificado no art. 306 do CTB.
Dessa forma, em qualquer das situações acima descritas, os agentes de trânsito deverão conduzir o motorista à Delegacia de Polícia mais próxima para ser lavrado o Boletim de Ocorrência, com tipificação no crime do art. 306 do CTB, lá cabe ao Delegado lavrar o flagrante ou não, aplicar fiança ou não, já que o crime é afiançável.
Exatamente neste sentido, leciona Fernandez (2013, p. [?]):
o operador do direito pode valer-se de qualquer tipo de prova para provar que o condutor estava naquele momento dirigindo embriagado, seja por meio de uma prova testemunhal, na maioria das vezes prestada pelo próprio Policial que atendeu a ocorrência, seja por meio de filmagem, fotografia ou qualquer tipo de prova admitida em direito.
Contudo, deverá o agente de trânsito primeiramente oferecer ao motorista o teste de alcoolemia ou o exame toxicológico, caso não queira realizar, poderá o agente comprovar o estado do condutor por outras provas admitidas em direito.
Conforme Belo (2015, p. [?]):
Estamos em número ascendentes de mortes no trânsito que passam ao largo do endurecimento legal, caminho adotado pelo Poder
Legislativo ao alterar a redação do art. 306 do CTB. Na seara administrativa, qualquer quantidade de álcool no sangue do condutor já é capaz de produzir punições. Tanto no caso da infração administrativa quanto do crime, pode-se fazer a prova pela opção técnica do bafômetro ou exame de sangue e, também, por outros meios de prova para a confirmação do estado alterado do condutor como a prova testemunhal, imagem, vídeo ou qualquer outro meio de prova em direito admitido. O testemunho do agente de trânsito é válido como prova. Cabe ao condutor a contraprova do dito pelos agentes do trânsito ou policiais. Somente no caso da recusa do bafômetro ou do exame de sangue é que se poderá lançar mão dos outros recursos probatórios.
Dito isso, além das penalidades administrativas que os condutores embriagados sofrem, em alguns casos respondem criminalmente também, como a lei assim impõem.
Exatamente nesse sentido a jurisprudência explana:
Ementa: APELAÇÃO CRIMINAL. CTB. ART. 306. EMBRIAGUEZ AO VOLANTE. SENTENÇA CONDENATÓRIA MANTIDA. AUTORIA E MATERIALIDADE COMPROVADAS. A prova colhida demonstra sobejamente a materialidade e a autoria do crime de embriaguez ao volante. A ré dirigia, em via pública, com concentração de álcool por litro de sangue superior a 6 decigramas, infringindo, assim, o art. 306 do Código de Trânsito Brasileiro. No caso em tela, essa comprovação foi feita através do teste de etilômetro, realizado com aparelho devidamente regularizado. APELAÇÃO DESPROVIDA. (RIO GRANDE DO SUL, 2015).
Ementa: PENAL E PROCESSUAL PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL. HOMICÍDIO CULPOSO. CRIME DE TRÂNSITO. OMISSÃO DE SOCORRO (ART. 302, PARÁGRAFO ÚNICO, III DO CTB), FUGA DO LOCAL (ART. 305 DO CTB) E EMBRIAGUEZ AO VOLANTE (ART. 306 DO CTB). CARACTERIZAÇÃO. AVERIGUAÇÃO POR OUTROS MEIOS DE PROVA. PROVA TESTEMUNHAL. ADMISSIBILIDADE. CONDENAÇÃO MANTIDA. RECURSO NÃO PROVIDO. DECISÃO UNÂNIME. I - Prova testemunhal firme e convincente da imprudência do apelante. A pena privativa de liberdade foi justa e bem aplicada, não merecendo reforma. (PERNAMBUCO, 2012).
Desse modo, fica provado que o motorista se submetendo ao teste do etilômetro ou o agente através dos meios de provas elencadas no artigo comprovar a embriaguez do condutor, cabe à prisão em flagrante e este responderá pelo cometimento do crime de tela.
1.2.1 Outras modificações ocorridas na Lei nº 9.503/97
Com passar dos anos o Código de Trânsito Brasileiro foi ficando ultrapassado e consequentemente tendo que sofrer algumas adequações, pois o número de veículos circulando nas vias aumentou o que fez aumentar também a quantia de acidentes. A maior causa de acidentes é motivada pela ingestão de bebidas alcoólicas pelos motoristas, desse modo, os legisladores buscaram na lei a tentativa para diminuir os números de vítimas.
Desde a criação do CTB em 1997 até a atualidade ocorreram quatro alterações legislativas nos artigos que tratam sobre a matéria de embriaguez ao volante, ou seja, no artigo 165 que vem disciplinado no capítulo XV que trata sobre as Infrações Administrativas; nos artigos 276 e 277 os quais tratam sobre as Medidas Administrativas e estão localizados no capítulo XVII e também no artigo 306, o qual esta no capítulo XIX que trata sobre os Crimes de Trânsito. Com essas modificações tentou-se frear os acidentes de trânsito, pois muitas pessoas restavam lesionadas e até mortas.
Quando o Código foi criado à redação original do artigo 165 versava:
Dirigir sob a influência de álcool, em nível superior a seis decigramas por litro de sangue, ou de qualquer substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica.
Infração – gravíssima
Penalidade - multa (cinco vezes) e suspensão do direito de dirigir; Medida administrativa - retenção do veículo até a apresentação de condutor habilitado e recolhimento do documento de habilitação. Parágrafo único. A embriaguez também poderá ser apurada na forma do art. 277. (BRASIL, 2015)
Com as alterações ocorridas em 2006, 2008 e 2012 advindas das mudanças legislativas vigora atualmente da seguinte forma o artigo 165 do CTB:
Dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência:
Infração - gravíssima;
Penalidade - multa (dez vezes) e suspensão do direito de dirigir por 12 (doze) meses.
Medida administrativa - recolhimento do documento de habilitação e retenção do veículo, observado o disposto no § 4o do art. 270 da Lei no 9.503, de 23 de setembro de 1997 - do Código de Trânsito Brasileiro.
Parágrafo único. Aplica-se em dobro a multa prevista no caput em caso de reincidência no período de até 12 (doze) meses. (BRASIL, 2015)
Para chegar à redação que se encontra atualmente foram três as alterações ocorridas, uma em 2006, pela Lei nº 11.275, outra em 2008, pela Lei nº 11.705 e a última em 2012, pela Lei nº 12.760.
Nota-se que a infração ficou mais fácil de ser constatada pela autoridade de trânsito, pois antes era necessário que o condutor estivesse sob o efeito de certa quantidade de álcool ou substância entorpecente para ser autuado, hoje não mais se necessita, pois qualquer quantidade de álcool ou substância psicoativa que determine dependência já cabe penalidade administrativa.
Assim, Belo (2015, p. [?]) pondera que:
Qualquer quantidade de álcool no sangue do condutor já é capaz de produzir as punições administrativas. Até bombom de licor ou enxaguante bucal com álcool ou 200 ml de cerveja poderá render multa com a nova lei seca administrativa. É bom que se diga que nesses três exemplos dados, o bafômetro não acusa nenhuma quantidade de álcool após 15 minutos do consumo do bombom ou cerveja ou o uso do enxaguante.
Outra alteração ocorrida foi no valor da multa, a qual dobrou e em caso de reincidência em um período de 12 meses o valor dobra novamente. Se notou uma diminuição nos acidentes de trânsito, como veremos no próximo capítulo, e com certeza o governo passou a arrecadar um valor mais significativo advindos das multas de trânsito, sendo que este não era seu objetivo e sim a conscientização.
O artigo 276, quando o CTB entrou em vigor possuía a seguinte redação:
Art. 276. A concentração de seis decigramas de álcool por litro de sangue comprova que o condutor se acha impedido de dirigir veículo automotor.
Parágrafo único. O CONTRAN estipulará os índices equivalentes para os demais testes de alcoolemia. (BRASIL, 2015)
Sofreu alterações em 2008 e 2012, sendo que a partir dali vige da seguinte forma:
Art. 276. Qualquer concentração de álcool por litro de sangue ou por litro de ar alveolar sujeita o condutor às penalidades previstas no art. 165.
Parágrafo único. O Contran disciplinará as margens de tolerância quando a infração for apurada por meio de aparelho de medição, observada a legislação metrológica. (BRASIL, 2015)
Neste artigo houve alteração no que se refere à quantidade de álcool para que o condutor sofra as penalidades previstas no art. 165, sendo que antes era necessária uma concentração específica, e atualmente qualquer quantidade basta para a infração existir.
Desse modo, Fernandez (2013, p. [?]) aponta que a:
Referida previsão deixa claro que não há necessidade de que o condutor apresente determinada concentração de álcool por litro de sangue ou por litro de ar alveolar, ou seja, basta que o sujeito apresente qualquer concentração de álcool em seu organismo, mesmo que ínfima para que ele se sujeite as medidas elencadas no referido artigo legal.
Assim, o condutor mesmo não apresentando a quantidade para que haja a ocorrência do crime tipificado no art. 306, sofrerá as sanções administrativas elencadas no art. 165.
Já no artigo 277, foram três alterações ocorridas, nos anos de 2006, 2008 e 2012, sendo que a redação original era a seguinte:
Art. 277. Todo condutor de veículo automotor, envolvido em acidente de trânsito ou que for alvo de fiscalização de trânsito, sob suspeita de haver excedido os limites previstos no artigo anterior, será submetido a testes de alcoolemia, exames clínicos, perícia, ou outro exame que por meios técnicos ou científicos, em aparelhos homologados pelo CONTRAN, permitam certificar seu estado.
Parágrafo único. Medida correspondente aplica-se no caso de suspeita de uso de substância entorpecente, tóxica ou de efeitos análogos. (BRASIL, 2015)