• Nenhum resultado encontrado

CORONEIS E OLIGARCAS. Introdução a História do Rio Grande do Norte

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "CORONEIS E OLIGARCAS. Introdução a História do Rio Grande do Norte"

Copied!
43
0
0

Texto

(1)

Ia. edição: EDUFRN, 2000

2a. edição: Cooperativa Cultural, 2002 3a. edição: EDUFRN, 2007

4a. edição: Flor do Sal, 2015

Autora

Denise Mattos Monteiro

Editores

Flávia Celeste Martini Assaf e Adriano de Sousa

Revisão

Márcio Simões

Designer Gráfico e Capa

José Antonio Bezerra Júnior

Foto da Autora

Giovanni Sérgio

Ilustração da Capa

índio Tarairiú, tribo extinta.

Óleo de Albert Eckhout, pintor holândes (1654).

Catalogação da p u b l i c a ç ã o n a Fonte.

M775Í Monteiro, Denise Mattos.

Introdução à História do Rio Grande do Norte / Denise Mattos Monteiro. - 4. ed. - Natal, RN: Flor do Sal, 2015.

208 p. : il.

ISBN 978-85-69107-00-2

1. História d o Rio Grande do Norte. I. Título.

CDD 981.32

Todos os direitos desta edição reservados à Flor do Sal

Rua Nascimento de Castro, 1926, S 108 - Lagoa Nova - 59.056-450 - Natal/RN - Brasil e-mail: [email protected] - Telefone: 84 3025-4297

(2)

CAPÍTULO

Coronéis e oligarcas: o Rio Grande do Norte

(3)

-D u r a n t e a P r i m e i r a R e p ú b l i c a , a m i s é r i a n o c a m p o brasileiro esteve n a o r i g e m d e m o v i m e n t o s p o p u l a r e s e religiosos c o m o o d e C a n u d o s , r e p r i m i d o p e l o exército. Foto d e F I á v i o d e Barros.

(4)

Coronéis e oligarcas: o Rio Grande do Norte

no sistema de poder da Primeira República

(1880-1930)

Enquanto o Nordeste mergulhava na grande crise econômica e social que se iniciou nos anos de 1870, o Sudeste do país vivia a expansão contínua de uma lavoura que ganhava importância crescente nas relações comerciais do Brasil com o mercado internacional: a lavoura cafeeira.

Desde a década de 1840, o café, cultivado em algumas áreas das províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, com mão de obra escrava, havia se firmado como o mais importante produto na pauta das exportações brasileiras para o mercado externo, principalmente para os Estados Unidos. Mas foi no decorrer da segunda metade do século XIX que essa lavoura ganhou um grande impulso, quando as terras situadas a oeste da província de São Paulo passaram a ser rapidamente ocupadas por imensos cafezais. Nessa área, a partir dos anos de 1870 e num contexto de abolição progressiva da escravidão, o trabalho escravo foi sendo substituído pelo trabalho livre assalariado de milhares de imigrantes europeus que passaram a vir para o Brasil, com o patrocínio do governo brasilei-ro, para trabalhar nessa lavoura. A riqueza aí gerada iria permitir a mecanização do cultivo e do beneficiamento do café - aumentando a produtividade - e a implantação de várias estradas de ferro naquela província, fundamentais para o escoamento da produção em direção ao litoral.

Foi nesse processo de diferenciação crescente entre o Nordeste e o Sudeste do país, marcado pela crise das lavouras tradicionais - açúcar e algodão - e a ascensão de um novo produto - o café -, que as idéias a favor da abolição da escravidão e da República Federativa, como sistema de governo, ganharam força e se impuseram.

O sistema escravista, além das pressões que sofria do capital industrial inglês, como vimos no capítulo anterior, estava condenado no Brasil pela própria evolução econômica interna do país. No Sudeste, a adoção da mão de obra livre estrangeira assalariada nos cafezais mostrava-se mais lucrativa para os cafeicultores do que a escrava. No Nordeste, a venda de escravos para as províncias cafeeiras, na primeira fase da expansão do café, havia se acentuado com a abolição do tráfico em 1850, com as secas freqüentes e com a crise dos anos de 1870. Além disso, conforme vimos no capítulo 3, nessa última região, especialmente na área sertaneja onde predominava a pecuária e o cultivo do algodão, o trabalho de homens livres, pobres e sem terra, mediante relações de trabalho não assalariado, como a parceria, por exemplo, era bastante comum.

Por esse motivo, no Rio Grande do Norte, como também no Ceará, a escravidão foi abolida em vários municípios antes mesmo da lei imperial de

13 de maio de 1888 que libertou, na província, apenas 482 escravos ainda 112

existentes.

112Exemplos desses municípios foram: Mossoró (1883), Assu (1885), Caraúbas (1887) e Campo

Grande (1887).

(5)

A partir dos anos de 1870, as idéias republicanas passaram a circular através de jornais, manifestos e fundação de clubes republicanos na região Sudeste do país, mais especificamente na área mais dinâmica da economia cafeeira.

A centralização do sistema monárquico então vigente implicava a subordinação das províncias ao poder central, que nomeava o presidente de cada uma delas e controlava toda a renda arrecadada sob a forma de impostos. Além disso, os quadros políticos do Império, como senadores e ministros de Estado, eram dominados pelas frações mais conservadoras da elite agrária brasileira, apegadas ao trabalho escravo e às formas tradicionais de produção. Nesse sentido, a monarquia constituía um empecilho à expansão da área mais dinâmica da economia, pois ao poder econômico dos cafeicultores do oeste paulista não correspondia o mesmo grau de poder político. A República Federativa, que implicava a autonomia de cada unidade da Federação - os Estados passou a ser vista como a saída para esse impasse. Dessa forma, a implantação desse sistema de governo, a partir de 15 de novembro de 1889, significou a ascensão ao poder, em nível federal, dos cafeicultores paulistas.

No Nordeste, o descontentamento da elite agrária da região com a monarquia era crescente. A política econômica do Império era acusada de privilegiar o "sul" em detrimento do "norte", que se debatia em meio à crise econômica e social. Dessa forma, à força do republicanismo no Sudeste, somou-se a falta crescente de apoio à monarquia no Nordeste do país, região que tradicionalmente havia apoiado o Império.

Em províncias como o Rio Grande do Norte, somente nos anos de 1880, e praticamente às vésperas da proclamação da República de 15 de novembro de 1889, o republicanismo apareceu, de fato, na cena política. E quem a ele aderiu, fazendo sua propaganda? Essencialmente, os filhos da elite agrária local que passaram pelas escolas superiores de Medicina e Direito de Per-nambuco e do Rio de Janeiro, centros de circulação e debates de idéias, e

que ocupavam os cargos públicos da província.113

Típico representante dos republicanos no Rio Grande do Norte foi Janún-cio da Nóbrega Filho, do Seridó, cujo pai era proprietário de terras e capitão da Guarda Nacional. Nóbrega estudava direito em Recife quando redigiu o "Manifesto Republicano" publicado no jornal O Povo, de Caicó, em abril de 1889. Nesse manifesto, expressando o descontentamento da elite local, ele afirmava que o Império "em 67 anos de vida, [tinha] votado ao mais criminoso abandono e ao mais revoltante esquecimento esta nossa heróica província, merecedora de um futuro melhor". No dia seguinte, juntamente com alguns de seus irmãos e outras figuras de Caicó, num total de 27 pessoas,

instalou o "Centro Republicano Seridoense".114

A transição de monarquia para República implicou num problema para as elites agrárias: como manter o monopólio de poder com o fim do voto censitário? A primeira Constituição da República, de 1891, ao determinar que teriam direito a voto os brasileiros alfabetizados, ampliou o sistema de

113 "Até 15 de novembro de 1889 os republicanos norte-rio-grandenses não alcançariam três centenas"

(CASCUDO, L. da C. História do Rio Grande do Norte, p. 208).

•"Proclamada a República, Nóbrega seria nomeado promotor de Caicó, passando a Juiz Municipal, sendo eleito Deputado Estadual em 1892.

(6)

representação política, incorporando parcelas da população antes excluídas desse sistema.1"

Mas o monopólio de poder foi mantido através de mecanismos eleitorais como o chamado "voto de cabresto". Através dele, os grandes proprietários rurais - os "coronéis" -, na época das eleições para vereadores, deputados, senadores e presidente da República, arregimentavam, financiavam e con-trolavam, em seus municípios, os votos da massa de eleitores, não necessária e realmente alfabetizados, que viviam sob seu domínio e dele dependiam. Dessa forma, as estruturas de poder não só foram mantidas, como ainda ganharam uma aparência de legitimidade.

Assim, por exemplo, quando um candidato ao governo do Estado do Rio Grande do Norte passou por Acari em busca de votos, alguns anos depois de proclamada a República, ouviu do chefe político José Bezerra de Araújo Gal-vão, que havia sido coronel da Guarda Nacional até 1893 - o famoso coronel Zé Bezerra -, as seguintes palavras, referindo-se ao seu "curral eleitoral":

A m a n h ã , o senhor passará em Currais Novos, m u n i c í p i o de q u e sou representante [...] vai o senhor se hospedar na casa de m e u sobrinho [...] porque o senhor anda aqui atrás de votos e n ã o de manifestações políticas, tenho n o m e u m u n i c í p i o o q u e outro n o Estado provavelmente n ã o tenha: 800 eleitores q u e tenho em Currais Novos são seus de porteira batida e mais nos m u n i c í p i o s vizinhos q u e ouvirem m i n h a orientação política.116

As disputas entre chefes políticos locais, já existentes no Império, perma-neceram e se acirraram. Assim, "coronéis" que às vezes disputavam entre si a conquista da administração de um município ou apoiavam candidatos diferentes em eleições, arregimentavam seus jagunços para garantir a vitória nas urnas e fraudavam os votos, num processo que ficou conhecido como "eleição a bico de pena". O mesmo "coronel Zé Bezerra", por exemplo, por ocasião de um conflito político na vizinha Paraíba, enviou trezentos jagunços

do Seridó para apoiar um dos coronéis em disputa no município de Areia.1 1 7

Dos votos conseguidos pelos coronéis em seus "currais eleitorais" de-pendia a permanência de uma oligarquia no poder estadual, assim como a vitória dos candidatos a deputado e senador por ela indicados. Em troca, essa mesma oligarquia concedia empregos e verbas públicas para o município ou zona de influência dos coronéis, afora o que concedia para seus próprios membros. Essa troca de favores ficou conhecida como política de clientela,

através da qual bens públicos eram apropriados por indivíduos ou grupos.11»

"5 Deve ser registrado, porém, que as mulheres permaneceram sem direito a voto.

116 MELO, Manuel R. de. Patriarcas e carreiros, p. 77. '"Ibidem, p. 75.

118 Oligarquia, palavra originada do grego, significa o governo que se concentra nas mãos de poucas pessoas. As oligarquias no Brasil se originaram do poder concentrado nas mãos de algumas famílias por estado, como, por exemplo, os Acioli no Ceará, os Malta em Alagoas, os Bulhões em Goiás, os Müller em Santa Catarina etc. Enquanto a base política do coronel era local (um ou mais municípios), a base do oligarca era estadual. Ambos, porém, tinham na sua condição de grandes proprietários rurais, e às vezes também grandes comerciantes, toda a sua força.

(7)

0 chamado sistema coronelístico-oligárquico se tornou possível na me-dida em que a Constituição Republicana garantiu, por um lado, a autonomia política dos estados, que passaram a eleger seus governadores e, por outro, a autonomia financeira, quando determinou que a arrecadação dos impostos de exportação - principal fonte de receita - passaria a ser feita pelos estados, que também poderiam contrair empréstimos externos.

Figura 36 - Uma longa e bem-cuidada barba branca

seria símbolo de prestígio entre os coronéis sertanejos? (Cel. Zé Bezerra)

Nesse processo de transição da monarquia para a República, o grupo oligárquico que em cada estado conseguisse fundar um partido republicano estadual, mantendo o seu controle, dominaria o governo desse estado, ou seja, a máquina administrativa e a renda pública. A corrupção, o empreguis-mo e o nepotisempreguis-mo seriam a marca desse sistema de poder.

No Rio Grande do Norte, a figura-chave desse processo foi Pedro Velho de Albuquerque Maranhão. Seu avô era Fabrício Gomes Pedrosa, que, con-forme vimos no capítulo anterior, estabeleceu uma grande casa comercial importadora/exportadora em Macaíba nos prósperos anos de 1850, sendo também proprietário de engenho açucareiro. Seu pai - Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão -, igualmente, tornou-se senhor de engenho em Canguaretama em 1880.

Pedro Velho se formou em Medicina no Rio de Janeiro e, posteriormente, ocupou cargos públicos como Inspetor de Saúde e professor do Atheneu Norte-rio-grandense, a primeira escola de instrução pública secundária da província. Tornou-se abolicionista no ano em que a escravidão foi abolida, fundando a "Sociedade Libertadora Norte-rio-grandense", que existiu entre janeiro e maio de 1888. Da mesma forma, tornou-se republicano no ano em

(8)

que a República foi proclamada, aceitando sua indicação para liderar os "republicanos" da província, com a fundação do Partido Republicano do Rio Grande do Norte, em janeiro de 1889. Dessa fundação participaram, entre outros, cinco irmãos de Pedro Velho, além de dois primos, descendentes da secular família dos Albuquerque Maranhão, somando 114 pessoas.'"

Teria aí origem uma oligarquia que, uma vez proclamada a República, impor-se-ia como a grande força política que dominaria o estado por lon-gos anos. É bastante provável que essa oligarquia, cuja base econômica encontrava-se na atividade açucareira e comercial, tenha se imposto sobre outros grupos de poder pelo fato de que sua área geográfica de produção encontrava-se na faixa litorânea onde localizava-se a capital - centro do poder administrativo da província. Além disso, os Albuquerque Maranhão tinham larga tradição de poder no Rio Grande do Norte.

i ü. « I » » • » - - •

Figura 37 - Pedro Velho de Albuquerque Maranhão

Proclamada a República no Brasil, Pedro Velho assumiu o governo do estado por indicação oficial de Aristides Lobo - Ministro do Interior recém-empossado

"'Pedro Velho fundou, em julho de 1889, o jornal A República, que se tornaria o órgão oficial do

Partido Republicano do Rio Grande do Norte.

(9)

no cargo - e formou uma equipe de governo da qual constavam membros dos antigos partidos liberal e conservador do Império, mas não os republicanos. Essa atitude política de Pedro Velho provocou descontentamentos, cisões, e acabou implicando na intervenção do Governo Federal, que nomeou outro governador. O período de instabilidade política que se seguiu no Rio Grande do Norte refletia não apenas a luta interna pelo poder no estado, mas também a própria instabilidade que marcou a primeira fase de implantação do sistema republicano no Brasil, caracterizada, basicamente, pela disputa entre forças articuladas em torno de militares e aquelas que representavam os interesses

dos cafeicultores paulistas.120

Em meio a conflitos e alianças dentro da elite norte-rio-grandense, que ocorreram, sobretudo, para a eleição dos representantes do estado na primei-ra Assembleia Constituinte da República - reunida em 1890 Pedro Velho conseguiu finalmente se impor.

Em 1892, ele foi eleito governador do Estado pela Assembleia Legislativa, tendo como vice Silvino Bezerra de Araújo Galvão, representante de chefes políticos do Seridó e irmão do "coronel Zé Bezerra". A transição republicana no Rio Grande do Norte se dava, assim, sem nenhuma transformação nas estruturas de poder existentes no Estado.

Embora o mandato de governador de Pedro Velho tenha se encerrado em 1896, a oligarquia dos Albuquerque Maranhão deteria o poder, sem abalos, até 1913, através dos governos de Joaquim Ferreira Chaves - primeiro governador eleito com voto direto -, Alberto Maranhão, (irmão de Pedro Velho), Augusto Tavares de Lyra (genro de Pedro Velho), Antônio José de

Melo e Souza e, novamente, Alberto Maranhão, em segundo mandato."1

Vasta era a rede de poder dessa oligarquia, que se estendia da Intendên-cia de Natal à representação do Rio Grande do Norte no Senado Federal. Dentre os inúmeros cargos públicos que ela monopolizou encontravam-se, por exemplo, a presidência da Assembleia Legislativa do Estado - então chamado Congresso Estadual que esteve nas mãos de Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão, irmão de Pedro Velho, durante dezesseis anos (1897 a 1913). Mas Fabrício foi, também, durante vinte anos (1893 a 1913), o presidente da Intendência de Canguaretama, onde era senhor de engenho.

Fazendo jus à corrupção inerente à prática oligárquica, Pedro Velho conseguiu a aprovação de um decreto de 1890, elevando a 10% o imposto de importação de açúcar, nacional ou estrangeiro, favorecendo a produção açucareira dos engenhos dos Albuquerque Maranhão, na medida em que dificultou a concorrência que lhes podia ser feita pelo produto importado.

120 Nesse conturbado e violento período da história do Brasil, tiveram lugar as manifestações das

camadas médias urbanas, principalmente do Rio de Janeiro - frente às precárias condições de vida -, e dos militares, que haviam conquistado importância na cena política brasileira desde a Guerra do Paraguai. No processo de implantação do sistema republicano, porém, os interesses dos proprietários rurais do Brasil, mais especificamente dos cafeicultores paulistas, iriam se impor sobre o conjunto da nação, a partir do governo de Prudente de Morais - primeiro presidente civil da República que governou entre 1894 e 1898.

121É interessante observar que Augusto Tavares de Lyra, que chegou a Ministro da Justiça e Negócios Interiores, em 1906, publicou u m a História do Rio Grande do Norte em 1921, além de vários

(10)

A família, porém, não descuidou da parte de seus negócios que diziam respeito ao comércio: no mesmo ano, o governo contratou Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão, pai de Pedro Velho, para a construção de uma estrada, com mão de obra de retirantes da seca de 1889-90, que, partindo da capital, dirigia-se à Casa Comercial fundada por seu avô e administrada por seus descendentes, em Macaíba. Nem mesmo o sal escapou: Adelino Maranhão, irmão de Pedro Velho, conseguiu tornar-se o arrematador do

imposto sobre esse produto.1"

Foi, entretanto, preparando a sucessão de Joaquim Ferreira Chaves, em 1900, que a oligarquia Maranhão demonstrou toda a sua força: como Alberto Maranhão não tinha a idade mínima exigida pela constituição estadual vigente - 35 anos -, a constituição foi reformada, estabelecendo-se como idade mínima 25 anos, o que beneficiou também outro membro da oligarquia que se tornaria governador: Augusto Tavares de Lyra.

A autonomia financeira dos estados, permitindo a apropriação pelas oligarquias de rendas antes centralizadas pelo Império, deu novo impulso à modernização de muitas capitais, sedes do poder administrativo desses estados, onde as oligarquias exerciam seu poder.

No caso de Natal, essa modernização pôde contar ainda com outros recursos, como aqueles enviados pelo Governo Federal com o objetivo de combater os efeitos das secas. Foi o que ocorreu na seca de 1903-1904. Com a verba recebida e a utilização da mão de obra de milhares de retirantes que se concentravam na capital, adiantou-se a construção da Praça Augusto Severo, na Ribeira, foram calçadas várias ruas e abertas avenidas que iriam originar a então chamada "Cidade Nova" - os atuais bairros de Tirol e Petrópolis.

Mas a urbanização de Natal avançou de fato a partir do dinheiro obtido com o primeiro empréstimo de capital estrangeiro contraído pelo Governo do Estado, em 1910, com banqueiros franceses, a ser pago em 37 anos. O aceleramento da urbanização, privilegiando-se "algumas ruas e residências da Ribeira e Cidade Alta", deu-se com a chegada da energia elétrica à capital, inaugurada no aniversário do governador Alberto Maranhão (1911), com a expansão do sistema de água e esgoto (1910), com a melhoria dos transportes

urbanos, através de bondes elétricos (1911) e com os primeiros telefones.1"

O mais perfeito exemplo do exercício de poder pela oligarquia Maranhão encontra-se no processo de construção do então Teatro Carlos Gomes, hoje Teatro Alberto Maranhão, na Praça Augusto Severo. A obra foi iniciada em 1898, tendo o Governo do Estado mandado buscar em Paris a cópia de uma estátua para sua decoração. Quando sobreveio a seca de 1903-1904, como vimos acima, milhares de retirantes se concentraram em Natal, instalando seus acampamentos na Ribeira, exatamente em torno do local onde se cons-truía a praça e o teatro. Com a utilização dessa força de trabalho concentrada e a verba enviada pelo Governo Federal, concluiu-se a praça no mesmo local e as obras do teatro ali localizado, que foi inaugurado, em plena seca, com um "festival de caridade", que rendeu "450 vestidinhos que foram entregues

'"Sobre a figura do "arrematador", veja-se nota explicativa no capítulo 4.

U í CASCUDO, L. da C. História da Cidade do Natal, p. 283. Note-se que u m a única empresa foi

contratada pelo governo do estado para a execução desses serviços: a Empresa de Melhoramentos de Natal, pertencente a u m genro de Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão (Domingos Barros) e u m seu sócio.

(11)

aos pobres".1" Passada a seca, podemos supor que muitos desses homens e

mulheres permaneceram na capital, engrossando a categoria daqueles que

estavam à margem do sistema econômico e social.1"

Enquanto isso, as precárias condições de vida e trabalho no campo, sob o domínio do monopólio da terra, eram mantidas. A fome, somada às secas freqüentes e às epidemias, respondia por uma corrente de êxodo rural permanente, que continuava a se dirigir para os seringais da Amazônia e, também, para os cafezais do Sudeste do país. A partir da seca de 1904, era o próprio Governo Federal, já controlado pela burguesia cafeeira paulista, quem fornecia as passagens para os milhares de migrantes, de comum acordo com as elites locais dos centros urbanos litorâneos do Nordeste que, dessa forma, livravam-se de uma grande pressão social.

[...] E m j u n h o d e 1904, m a i s d e q u i n z e m i l f l a g e l a d o s concentraram-se em Natal, q u a n d o então a p o p u l a ç ã o desta cidade era de 16.000 habitantes, c o n f o r m e o censo de 1900 [...] a polícia embarcava à força aqueles retirantes q u e n ã o queriam ir embora [...] em alguns meses, só pelo porto de Natal, embarcaram com passagens fornecidas pelo Governo Federal, cerca de 18.000 pessoas.126

Mas o êxodo não era a única expressão desse quadro de miséria. Como vimos no capítulo anterior, o banditismo rural esteve sempre presente, em especial no sertão. As quadrilhas do século XIX permaneceram, originando o que ficou conhecido como "cangaço". Nos anos de 1920, no Rio Grande do Norte, a repressão ao cangaço tornou-se uma grande preocupação do governo estadual, quando soldados foram enviados para as divisas do estado com a Paraíba e o Ceará. Isto, entretanto, não impediu que, em 1927, o mais famoso bando de cangaço, aquele chefiado por Lampião, percorresse o Rio Grande do Norte, atacando cidades, vilas e povoações na região oeste do estado, dirigindo-se depois para o Ceará.

124 CASCUDO, L. da C. Ibidem, p. 201.

125 Em 1910, sob o governo de Alberto Maranhão, e com parte do empréstimo estrangeiro, o teatro

passou a ser reformado - copiando-se a decoração dos teatros franceses tendo sido reinaugurado em 1912. O responsável pela reforma, Herculano Ramos, foi contratado para outras obras na capital, como o primeiro Grupo Escolar de Natal, que recebeu o nome de u m membro da família Albuquerque Maranhão: o G. E. Augusto Severo. Deve ser registrado que nesse período ampliou-se a rede escolar de ensino primário no Estado, com a criação de escolas em vários municípios.

(12)

Figura 3 8 - 0 cangaceiro Jararaca, do bando de Lampião, foi preso e depois morto pela polícia, quando participou do ataque a Mossoró em 1927. (Cangaceiro Jararaca)

Ao lado do êxodo e do banditismo rurais, a miséria no campo abriu espaço para movimentos populares de natureza religiosa, quando homens e mulheres livres e pobres passaram a se reunir em torno de líderes beatos e pregadores. A mais famosa manifestação desses movimentos, que cons-tituíam uma alternativa de vida, foi o Arraial de Canudos, que existiu no sertão da Bahia entre 1893 e 1897. Canudos, sob a liderança de Antônio Conselheiro, chegou a reunir aproximadamente trinta mil pessoas, o que significava uma ameaça para a estrutura econômica e social existente no sertão. As quatro expedições militares enviadas pelo Governo Estadual da Bahia e pelo Governo Federal, que enfrentaram a resistência armada da população ali concentrada, terminaram por destruir o Arraial, tendo morrido em torno de quinze mil pessoas.

Um ano após a destruição de Canudos, que teve grande repercussão nacional, ocorreu, no Rio Grande do Norte, o movimento da Serra de João do Vale, no município de Campo Grande, quando trabalhadores do campo começaram a migrar para aquela área, juntando-se a Joaquim Ramalho, que pregava como Antônio Conselheiro. A repressão foi imediata: forças militares

(13)

enviadas pelo Governo do Estado, sob o comando do Tenente Francisco Justino de Oliveira Cascudo, prenderam Joaquim Ramalho e o movimento

se dispersou.127

É interessante observar a trajetória do Tenente Cascudo como expressão das relações pessoais no sistema de poder oligárquico. Francisco Cascudo fora nomeado para o Batalhão de Segurança do Estado por Pedro Velho em 1892. Depois de obter promoções, deixou a atividade militar em 1900 e enriqueceu como comerciante, no que muito lhe favoreceu a obtenção do monopólio do comércio da carne verde na capital do estado, concedido por Alberto Maranhão, em seu segundo mandato. Foi um dos acionistas iniciais do primeiro banco criado no Rio Grande do Norte, em 1905 - o

Banco de Natal.128

Esse banco foi instalado com o objetivo de fornecer empréstimos de capi-tal aos proprietários rurais, visando promover a economia agroexportadora do estado. Seu capital inicial foi formado com dinheiro do Tesouro Estadual e de 113 acionistas privados. Dentre esses, "22 eram da família Albuquerque

Maranhão e Lyra, os quais detinham 31.7% das ações".129 As atividades do

Banco, porém, acabaram por se dirigir a outros objetivos que não o crédito agrícola, sendo seu capital utilizado para pagar o funcionalismo público, com seus salários permanentemente atrasados, e para financiar os maiores comerciantes.

A hegemonia da oligarquia Maranhão no Rio Grande do Norte sofreu o seu primeiro abalo em 1913, no processo de sucessão de Alberto Maranhão, que governava o Estado pela segunda vez.

Esse processo esteve ligado ao período de instabilidade política pelo qual passava novamente o sistema republicano no Brasil. Nas eleições pre-sidenciais, em meio a uma intrincada rede de alianças, pactos e oposições entre diferentes grupos oligárquicos por estados, foi lançada a candidatura do Marechal Hermes da Fonseca, contra a candidatura de Rui Barbosa. O primeiro foi eleito com o apoio de setores militares, que queriam uma maior participação política do exército, e de grupos oligárquicos de estados menores da Federação, que estavam excluídos da chamada "política do café com leite" - a alternância no poder federal de representantes das elites paulista e mineira, garantindo, essencialmente, a defesa dos interesses da cafeicultura em termos de política econômica do Governo.

No governo de Hermes da Fonseca ocorreu o que ficou conhecido como "política das salvações", ou "salvacionismo", através da qual, utilizando-se tropas federais, esse governo passou a intervir nos estados, principalmente

127 É importante notar que nos anos de 1930, em u m novo movimento denominado "Caldeirão"

- nome de u m sítio situado no município de Crato, no Ceará, onde se reuniram 2.000 pessoas lideradas pelo beato José Lourenço -, 75 % dos moradores eram oriundos do Rio Grande do Norte. Segundo FACÓ, Rui. Cangaceiros e fanáticos, p. 202, "eram todos homens sem terra e sem trabalho

[...] O fato de a maioria ser do Rio Grande do Norte poderia indicar apenas que no Rio Grande do Norte a miséria era maior, mais difícil a emigração para o Sul, as terras mais áridas". Reprimido pelas armas a partir de 1936, o movimento foi liquidado em 1938.

128 Francisco Cascudo foi ainda deputado e presidente da Junta Comercial do Estado. Segundo palavras

de seu filho, Luís da Câmara Cascudo, "tinha influência eleitoral em vários municípios" e "deixou mais de 1.200 afilhados" (História do Rio Grande do Norte, p. 499).

(14)

do Norte e Nordeste do país, derrubando determinadas oligarquias ali es-tabelecidas no poder.

Em nome da moralização das práticas políticas, o "salvacionismo", de fato, implicou apenas na troca de grupos oligárquicos em alguns daqueles estados. E, uma vez passada esta etapa turbulenta, a hegemonia política e econômica de São Paulo, secundado por Minas Gerais voltou a se impor, até o final da Primeira República.

No Rio Grande do Norte, o "salvacionismo" tomou forma com o lança-mento, para o governo do Estado, da candidatura de um filho do general Hermes da Fonseca - o tenente Leônidas Hermes da Fonseca. A liderança de sua campanha política coube ao capitão José da Penha - deputado estadual no Ceará -, e o apoio recebido partiu de grupos de oposição no Estado à oligarquia Maranhão. Tais grupos, porém, situação e oposição, pertenciam a uma mesma e única elite no Rio Grande do Norte. Dessa forma, tratava-se de uma disputa pelo poder, sem nenhuma contestação às estruturas de dominação econômica e social existentes.

O grupo oligárquico dos Maranhão, aliado a chefes políticos do Seridó, lançou em contraposição a candidatura de Joaquim Ferreira Chaves, que já havia governado o Estado e utilizou-se de violenta repressão, como já utilizara antes, contra os seus opositores, impedindo comícios, fechando jornais de oposição e provocando tiroteios nas ruas. Em conseqüência, o candidato da oligarquia dominante foi eleito para mais uma gestão.

O poder dessa oligarquia, porém, estava com seus dias contados: mudan-ças que vinham ocorrendo desde os anos de 1880 na economia agroexpor-tadora do Rio Grande do Norte, ligadas às condições do mercado para seus produtos agrícolas, determinariam o fim da hegemonia dos interesses ligados à produção açucareira, isto é, o fim da hegemonia da oligarquia Maranhão. A cultura do algodão no Nordeste, desde o final do segundo grande surto exportador dos anos de 1860, havia entrado em estagnação, uma vez que perdera seu espaço no mercado internacional. Nos anos de 1880, porém, abriu-se uma alternativa para a cotonicultura nordestina: o mercado interno. Como teve origem esse mercado interno e qual sua relação com as mu-danças econômicas e políticas que se processariam no Rio Grande do Norte?

Vimos como a expansão da economia cafeeira no Sudeste, especialmente no oeste de São Paulo, havia tornado essa área o centro dinâmico da econo-mia agroexportadora do Brasil, caracterizada pela monocultura, a grande propriedade rural, a produção para o mercado externo, mas realizada pelo trabalho livre assalariado.

(15)

Essa economia primário-exportadora criou as condições necessárias para o início do processo de industrialização do Brasil a partir dos anos de 1880, processo esse que se concentraria, não por acaso, na mesma região Sudeste. Por um lado, à medida que crescia o número de trabalhadores assalariados e mais dinheiro circulava, um mercado interno de consumidores se consolidava. Por outro lado, o capital acumulado pela exploração do trabalho assalariado pelos grandes cafeicultores, e também pelos grandes comerciantes a ele ligados, passou a permitir a diversificação da economia, ou seja, seu investimento na atividade fabril. Além disso, o desenvolvimento de uma infraestrutura imprescindível à existência e expansão de fábricas - constituída por ferrovias, portos e energia elétrica - havia sido criada para a comercialização do café, com forte presença de capitais estrangeiros, especialmente ingleses.

Entre 1880 e 1889, foram fundados 398 estabelecimentos industriais no país, concentrados, sobretudo, na região Sudeste. Dentre eles, encontravam--se tanto fábricas, onde operários trabalhavam com máquinas a vapor ou hidráulicas, como pequenas manufaturas, ou seja, oficinas de artesãos. No quadro abaixo, podemos observar a evolução industrial do Brasil como um todo nas quatro décadas seguintes:

BRASIL: EVOLUÇÃO INDUSTRIAL

ANOS FÁBRICAS/OFICINAS N° DE OPERÁRIOS

1889 636 54.169

1907 3.250 150.841

1920 13.336 275.512

A indústria de fiação e tecelagem - a chamada indústria têxtil - foi um dos primeiros setores fabris a se consolidar. Participando da produção de sa-cos para embalar o café, esse setor evoluiu e expandiu-se de forma a atender um crescente mercado consumidor de tecidos. Durante décadas, a indústria têxtil, principalmente aquela que utilizava o algodão como matéria-prima, constituiria o "carro-chefe" da industrialização, seguida da indústria de alimentos e de bebidas.'"

O desenvolvimento da indústria têxtil algodoeira nacional deu um novo impulso a uma lavoura tradicional do Nordeste - a cotonicultura. Mais do que isso, a possibilidade de abastecer as fábricas têxteis nacionais constituiu

,í0Fonte dos números: SIMONSEN, Roberto C. Evolução industrial do Brasil e outros estudos, p.16-17. 1!1 Nesse processo, a indústria têxtil algodoeira nacional teve que enfrentar a concorrência dos tecidos

ingleses, que dominavam o mercado brasileiro. Ao final da Primeira Guerra Mundial, porém, a produção nacional já estaria suprindo, aproximadamente, 80% desse mercado.

(16)

uma alternativa vital para o algodão nordestino, que havia perdido seu lugar no mercado mundial.

No Rio Grande do Norte, apesar das crises provocadas por secas e pragas nas plantações, as exportações de algodão com destino aos portos do Rio de Janeiro e Santos cresceriam tendencialmente em quantidade e em valor até 1930, tornando a cotonicultura a mais importante atividade agrícola do estado e fonte fundamental da receita, através dos impostos de exportação. Nesse processo, um fator preponderante foi a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que, dificultando a importação de tecidos pelo Brasil, favoreceu a expansão da indústria têxtil nacional e, com ela, o fornecimento de matéria-prima pelos estados nordestinos.

Essa reorientação de mercado - do externo para o interno - fazia parte de um processo bem mais amplo: o da constituição de uma Divisão Intra-nacional do Trabalho no Brasil, que começava então a se estruturar. Nesse processo, uma região se consolidaria como o polo dinâmico da economia brasileira - o núcleo capitalista industrial interno, constituído pelo Sudeste -, enquanto as demais se manteriam como economias de base agrária ou extrativa, trocando matérias-primas por manufaturados. Esse foi o caso do Rio Grande do Norte: a expansão e consolidação da lavoura algodoeira, voltada para o abastecimento de fábricas têxteis do Sudeste, correspondeu ao processo de integração da economia norte-rio-grandense à Divisão In-tranacional do Trabalho, em estruturação entre o final do século XIX e o começo do século XX.""

Figura 39 - Nas fábricas têxteis de São Paulo, milhares de imigrantes estrangeiros e seus descendentes trabalharam como operários. (Fábrica têxtil)

132 TAKEYA, Denise Monteiro. Um outro Nordeste: o algodão na economia do Rio Grande do Norte, p. 20. Registre-se que as desigualdades regionais do Brasil contemporâneo só podem ser

compreendidas, historicamente, se relacionadas a esse longo processo que se iniciou no século XIX.

(17)

À crescente importância econômica da cotonicultura no Rio Grande do Norte correspondeu uma crescente importância política daquela parcela da elite agrária do estado que era ligada aos interesses da produção e comércio do algodão. Assim, foram os grupos políticos do Seridó - a mais importante área produtora de algodão no Rio Grande do Norte - que passaram a deter o poder, a nível estadual, nos anos de 1920, desalojando definitivamente do poder os Albuquerque Maranhão.

A oligarquia do Seridó foi representada pelos governos de José Augusto Bezerra de Medeiros e seu sucessor, e também parente, Juvenal Lamartine. Ambos eram ligados à grande propriedade rural algodoeira-pecuária e for-maram-se em Direito, em Recife. O primeiro era sobrinho-neto do coronel José Bezerra de Araújo Galvão que, conforme vimos, dominava vasto "curral eleitoral" em Currais Novos. O segundo era genro do coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão, chefe político de Acari e irmão do "coronel Zé Bezerra".

A transição entre oligarquias, é claro, manteria inalterado o quadro da do-minação econômica e social interna ao estado, uma vez que os mecanismos eleitorais do sistema coronelístico-oligárquico permaneceriam inabaláveis, como inabalável permaneceria o monopólio da propriedade da terra, base de sustentação dessa estrutura de poder.

A ascensão de uma oligarquia do Seridó implicou na elaboração e exe-cução de uma política econômica para o estado que visava, essencialmente, favorecer a cotonicultura. Assim, na década de 1920, foram instalados o Departamento de Agricultura (1924), o Serviço Estadual do Algodão (1924) e o Serviço de Classificação do Algodão (1927), visando estes dois últimos melhorar a qualidade da matéria-prima produzida no Estado.

Mas foi sobretudo através do estabelecimento de uma política federal de combate às secas do Nordeste que esses interesses passaram a ser beneficiados. Em 1909, por ocasião da seca ocorrida nesse ano, o Governo Federal criou um órgão especial que se encarregaria de planejar, coordenar e finan-ciar obras nos estados nordestinos - a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS). Os grandes proprietários rurais da região, ou seja, os "coronéis" nos municípios, seriam os verdadeiros beneficiários dessa política, que atendia ao chamado "discurso da seca", através do qual a seca, e não os esquemas de dominação econômica e social da região, era apontada por eles como o grande entrave para o desenvolvimento do Nordeste. Em troca, esses pro-prietários continuariam apoiando a "política do café com leite", em nível de poder federal. Tratava-se, portanto, de um pacto entre as elites agrárias do Brasil, que em sua essência significava a manutenção do monopólio da propriedade da terra.

Com as verbas do IOCS drenadas para a região Nordeste, a elite agrária regional pôde tentar resolver dois problemas-chave com que se defrontava: a falta de mão de obra, provocada por um êxodo rural permanente, e a precariedade das vias e meios de transporte para escoar a produção agrícola, especialmente o algodão cultivado no sertão.

(18)

A partir de então, as chamadas "frentes de trabalho" se institucio-nalizaram, isto é, passaram a ser utilizadas de forma oficial - com o emprego de verbas públicas - na construção de açudes e, sobretudo, ferrovias e estradas de rodagem. No Rio Grande do Norte, o sistema ferroviário avançou e duas rodovias foram construídas.

No que diz respeito às estradas de ferro, é necessário fazer uma exceção para a primeira ferrovia implantada no estado, que ligou Natal a Nova Cruz, na divisa com a Paraíba. Suas obras foram iniciadas ainda no período do Império, em 1880, e três anos depois a estrada foi inaugurada. Por seu intermédio, o Rio Grande do Norte passou a fazer parte da rede ferroviária da Great Western of Brazil Railway, companhia britânica que assentara as primeiras ferrovias no Nordeste. Servia es-sencialmente para escoar a cana-de-açúcar e seus produtos, oriundos da área percorrida pela ferrovia, e o algodão, cultivado na faixa litorânea e no Agreste. A construção da Natal-Nova Cruz esteve assim ligada àquela etapa de desenvolvimento do capitalismo europeu de investimentos na infraestrutura dos países periféricos, dentro do sistema da Divisão Internacional do Trabalho, como vimos no capítulo anterior.

Foi somente duas décadas depois de inaugurada a Natal and Nova Cruz Railway Company que duas outras ferrovias começaram a ser cons-truídas no estado, dessa vez dentro do programa de obras contra as secas: a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte (mais tarde chamada E.F. Sampaio Corrêa) e a Estrada de Ferro Mossoró-São Francisco.

A primeira delas teve início na seca de 1903-1904. Segundo o projeto do Governo Federal, ela ligaria o porto de Natal à região central do estado e se encontraria com ferrovias da Paraíba e Ceará. Sua constru-ção, porém, foi lenta e o traçado original não foi executado. Conforme podemos observar pela figura 40, ao final da Primeira República, em

1930, ela havia atingido a cidade de Lajes.1 3 3

A segunda ferrovia - a Estrada de Ferro de Mossoró - era de grande interesse para os proprietários rurais e, principalmente, para os grandes comerciantes dessa cidade. Vimos, no capítulo anterior, que Mossoró havia se tornado um importante centro comercial, sobretudo do algodão, desde a abertura do porto de Areia Branca no século XIX. Assim, o projeto de construção de uma ferrovia que drenasse a produção de todo o oeste do estado para aquele porto, ligando-o ao rio São Francisco, em Pernambuco, passou a ser defendido pelos representantes do Rio Grande do Norte, na Câmara e no Senado Federal, como parte das obras do IOCS. Em 1915, no contexto da maior seca no período da Primeira República, foi inaugurado o primeiro trecho, ligando a cidade de Mossoró ao porto de Areia Branca. Iniciada com capitais privados, a ferrovia foi favorecida pela ajuda do Governo Federal, através do IOCS. Foi também na seca de 1915 que se iniciou a construção das duas primeiras "estradas de automóveis" do estado, ligando, uma delas, Natal ao Seridó, e a outra,

133 Em 1916, inaugurou-se a ponte sobre o rio Potengi, ainda hoje existente, por onde passavam os

trilhos dessa estrada de ferro.

(19)

a cidade de Assu ao porto de Macau, conforme podemos observar pela figura 40. Acompanhando ferrovias e rodovias, as linhas telegráficas, que haviam sido inauguradas no estado em 1878, expandiram-se rapidamente a partir dessa seca, colocando em comunicação vários municípios.

Embora capitais privados tenham participado dessa ampliação do sistema de transporte, foi principalmente através de verbas da política federal de obras contra as secas que ferrovias e rodovias puderam ser construídas.

Com a implantação dessa política, portanto, a elite agroexportadora ganhou duplamente. Em primeiro lugar, com a melhoria das condições de escoamento da produção pelas estradas; em segundo lugar com a possibilidade de reter parte da escassa mão de obra, pois uma vez passada a seca, os trabalhadores abandonavam as frentes de trabalho e voltavam para a lavoura.

Durante o período da Primeira República, no Rio Grande do Norte, teve início, ainda, a modernização da atividade agrícola, especialmente a modernização das técnicas de beneficiamento dos produtos da agricul-tura. Nos anos vinte, ao lado dos engenhos já existentes - muitos deles utilizando a energia a vapor -, surgiu a primeira usina de açúcar, que utilizava maquinaria importada, na principal área produtora de açúcar do estado - o vale do Ceará-Mirim. Mas essa modernização foi tardia, pois o mercado externo já estava perdido há muito tempo, como vimos no capítulo anterior. Dessa forma, a maior parte da produção açucareira do Rio Grande do Norte continuou sendo feita, fundamentalmente, nos pequenos engenhos - os chamados "bangüês" ou "engenhocas" - que fabricavam cachaça, rapadura e um açúcar de qualidade inferior, des-tinado ao mercado local e regional.

Com relação ao algodão, seu processo de beneficiamento, que con-sistia basicamente em separar o caroço da fibra, havia avançado por ocasião do grande surto exportador dos anos de 1860, quando

surgi-ram as chamadas "bolandeiras de pau".1 3 4 Nos anos de 1880, quando

o algodão passou a destinar-se a um crescente mercado interno no

Brasil, surgiram as "locomóveis", que utilizavam a energia a vapor.1 3 S

Geralmente, os grandes proprietários rurais eram ao mesmo tempo os donos desses maquinismos de beneficiamento, o que lhes dava grande vantagem sobre os lavradores. Vimos, no capítulo 3, que o cultivo do algodão era feito em pequenos roçados por lavradores que tinham acesso às terras de grandes proprietários em troca de diferentes formas de pagamento. A mais comum dessas formas era a entrega pelos lavradores de metade de sua colheita de algodão - a chamada "meia", uma forma de "parceria". Com a grande expansão da cotonicultura a partir dos anos de 1880 e a valorização do algodão, os proprietários de terras e

134 As bolandeiras consistiam em dois cilindros de madeira que, rodando em sentido inverso, faziam

desprenderem-se as sementes. Eram movidas pela força de dois homens, em média.

135 As locomóveis eram máquinas a vapor sobre rodas que movimentavam de quarenta a sessenta

(20)

maquinismos passaram a arrendar a terra mediante a exigência de que os lavradores lhes vendessem também a outra metade do produto que a estes pertencia. Dessa forma, os proprietários que monopolizavam o beneficiamento acabavam ficando com todo o algodão produzido pelos "meeiros", revendendo-o já beneficiado e, portanto, mais caro, às casas exportadoras. Areiu Branca MoMonVj Micaíía" CumtbNmo» Suma Cniz NÚVB Clrw

Figura 40 - Ferrovias e rodovias construídas no Rio Grande do Norte n o período 1880-1930 Ceará 2>j / 3

l

Ferrovia Circai Western Ferrovia Central do RN Ferrovia Mossoró - S. Francisco @ • Rodovia Natal - SeridA

© Rodovia Assu - Macau

Oceano Atlântico

Com o tempo, surgiram as primeiras "usinas de beneficiamento" do algodão no estado, que, através do emprego de uma série de aparelhos, preparavam o produto para a exportação. Pertenciam às grandes casas exportadoras que compravam o algodão e cujo capital tinha origem local ou estrangeira. Em 1912, Miguel Faustino do Monte - um dos maiores co-merciantes de Mossoró, que atuava também na extração e comercialização

do sal - instalou uma usina de algodão nessa cidade.1 3 6 No mesmo ano, uma

136 Lembremos que o sal continuava sendo u m importante produto da economia norte-rio-grandense, ao lado do algodão. No decorrer da Primeira República, porém, teve que enfrentar a concorrência da produção do Ceará, d o Rio de Janeiro e, principalmente, do sal importado da Europa.

(21)

segunda usina, pertencente à Casa Boris Frères, empresa familiar de capital

francês que atuava no Ceará desde o século XIX - estabeleceu-se em Natal.137

Numa economia de base agrária como a do Rio Grande do Norte, voltada para a exportação de produtos primários, com a grande maioria da população vivendo no campo, onde predominavam relações de trabalho

não-assalaria-do, o desenvolvimento de indústrias foi muito lento.13» No período de 1889

a 1930, uma única fábrica existiu no estado: a Fábrica de Fiação e Tecidos de Natal. Sua construção havia sido contratada com Amaro Barreto de Al-buquerque Maranhão - pai de Pedro Velho, o todo-poderoso da oligarquia Maranhão -, ainda no período do Império. Mas foi somente em 1888 que a fábrica foi inaugurada por Juvino Barreto - cunhado de Pedro Velho -, com o trabalho de oitenta operários, que vinte anos depois somavam 320 trabalhadores. Em 1925, porém, a fábrica foi fechada, provavelmente por não ter sido capaz de enfrentar a concorrência dos tecidos do Sudeste e da indústria têxtil de Pernambuco.

Figura 41 - A prensa inglesa de algodão da Casa Boris Frères, inaugurada em 1924, prensava até 250 fardos de algodão por dia. (Prensa de algodão)

137 A partir dos anos de 1930, duas grandes empresas americanas que controlavam o setor algodoeiro

no mercado mundial iriam se instalar no Nordeste brasileiro, incluindo o Rio Grande do Norte: a SANBRA e a Anderson Clayton. Ao lado delas, estava a Machine Cotton, de capital inglês, que

havia se instalado no estado em 1924, com a Algodoeira São Miguel, no município de Angicos. Entretanto, os anos de 1930 marcariam também a consolidação do estado de São Paulo como o maior produtor brasileiro de algodão. A partir de então, a produção nordestina passaria a ser marginal também no mercado interno brasileiro.

13a Seria somente a partir dos anos de 1960-1970 que teve início, de fato, a implantação de indústrias

(22)

A utilização do algodão como matéria-prima para indústrias no próprio estado foi possível também com o estabelecimento de pequenas fábricas de óleos vegetais que utilizavam o caroço do algodão. A primeira a ser fundada foi a Fábrica de Óleos e Farelos de Algodão, em 1904, no atual município de São Gonçalo e pertencente a Sérgio Barreto, também cunhado de Pedro Velho. Em termos fabris, o que predominava no estado eram as pequenas unidades de produção, quase artesanais, empregando um reduzido número de operários. Assim, em fabriquetas existentes não somente em Natal, mas também em Mos-soró, Currais Novos, Acari e Assu, eram produzidas mercadorias como cigarros, bebidas, sabão, velas, redes, cerâmica, couros e chapéus.

Embora lento fosse o desenvolvimento fabril, que traria consigo o surgimento de uma nova classe social - o operariado industrial -, a sociedade norte-rio-gran-dense se diversificava. Segundo o recenseamento do Brasil realizado em 1920, havia um total de 2.146 trabalhadores no estado, estando aí incluídos os que trabalhavam nas salinas, nos engenhos, nas estradas de ferro, nas manufaturas,

no cais do porto, na companhia de eletricidade etc.139

Esses trabalhadores começaram a se organizar aos poucos para garantir sua sobrevivência, num tempo em que não existia amparo legal para direitos mínimos, como, por exemplo, limite de horas diárias de trabalho, repouso semanal, salário mínimo e férias.

A origem dessa organização, não só no Rio Grande do Norte mas em vários outros pontos do Brasil, foram as chamadas "Sociedades Mutualistas", através das quais os trabalhadores se socorriam mutuamente em caso de doença, morte e acidentes. No Rio Grande do Norte, ao que tudo indica, a mais antiga foi a Sociedade União Beneficente dos Artistas, fundada em Canguaretama em 1873. Entre o final do século XIX e o começo do século XX, embora as Sociedades Mutualistas continuassem existindo, apareceram as chamadas "Ligas Operá-rias", que se diferenciaram das primeiras por fazerem algumas reivindicações relativas às condições de vida e trabalho, como por exemplo, movimentos contra os preços dos gêneros de primeira necessidade. A "Liga Artístico-Operária Norte-rio-grandense", fundada em 1904, em Natal, por 106 trabalhadores, foi a mais

importante delas no estado.140

Mas foi a partir da década de 1920 que a organização dos trabalhadores avançou, pois várias associações que tinham por base a categoria profissional dos associados passaram a ser fundadas, reunindo salineiros, estivadores, sa-pateiros, marceneiros, motoristas, pedreiros, comerciários, pintores, carteiros, funcionários públicos etc.

Surgiram os primeiros jornais operários, impressos em pequeno número e de curta duração. Mas surgiu, sobretudo, a greve, como principal forma de luta desses trabalhadores pelos seus direitos. Embora existam registros de paralisações de trabalho desde o final do século XIX - de salineiros de Macau, de estivadores do Porto de Areia Branca e de ferroviários da Estrada de

139 Recenseamento do Brasil: 1920, p. 191-192.

1,0 Em atividade durante décadas, seu prédio original ainda existe na atual Av. Rio Branco, em Natal.

(23)

Ferro Natal-Nova Cruz, devido aos baixos salários - foi somente nos anos vinte

que eclodiram as primeiras duas greves, de fato, no Estado.'41

A primeira dessas greves, reivindicando aumento salarial, foi a dos ferro-viários da Great Western, incluindo os do Rio Grande do Norte, no ano de 1920.

Esses trabalhadores já haviam feito paralisações em 1892 e 1909.142 Mas, dessa

vez, o movimento não apenas se espalhou pela Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas - onde havia ramais dessa rede ferroviária -, como também contou com a adesão dos trabalhadores de outra ferrovia, a Estrada de Ferro Central

do Rio Grande do Norte.'13

A segunda greve ocorreu em 1923, também reivindicando aumento sa-larial. Tendo se iniciado com os estivadores do Porto de Natal, ela acabou envolvendo as operárias da Fábrica de Tecidos, os padeiros e os trabalhadores em transporte de cargas da cidade. Nesse movimento, teve participação destacada o jornalista e advogado João Café Filho, que dois anos antes começara a atuar na organização de sindicatos.

A partir dessa greve - a primeira que conseguiu reunir trabalhadores de diferentes setores a repressão do governo estadual às manifestações operárias aumentou. Dessa forma, os governos de José Augusto Bezerra de Medeiros e Juvenal Lamartine, sobretudo este último, foram marcados pelo emprego da violência não só contra operários, mas também contra todo tipo de oposição política. Foram comuns os espancamentos, as prisões, a des-truição de sedes de associações e de jornais. Assim, por exemplo, em 1928, a polícia invadiu o Sindicato Geral dos Trabalhadores de Natal - liderado pelo jornalista Sandoval Wanderley -, destruindo tudo e surrando operários. Café Filho, que tentara se eleger vereador em Natal pela oposição, e Sandoval Wanderley foram perseguidos e refugiaram-se no Recife.

Mas o emprego da violência não foi a única arma usada contra o movimento operário, pois uma série de estratégias foram utilizadas pelo poder estabelecido no Estado para conquistar lideranças operárias. Em 1925, o governador José Augusto criou o que ele chamou de "Universidade Popular", com o apoio e a participação ativa da Igreja, através da qual tentou-se ministrar uma série de palestras para trabalhadores sobre temas como "o alcoolismo", "a fé católica" e os "heróis do Rio Grande do Norte". Em 1929, era fundado o Partido Político Operário, que existiria durante apenas um ano e cujo presidente de honra era o próprio governador Juvenal Lamartine.

111É preciso lembrar que a partir do começo do século XX as greves tornaram-se freqüentes no Brasil,

envolvendo u m número cada vez maior de trabalhadores, sobretudo nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a industrialização e a urbanização avançavam. Entre 1917 e 1919, as greves foram intensas, estendendo-se a vários estados.

142 Veja-se, em Anexo I, o texto das reivindicações dos ferroviários da Great Western dirigido a essa

Companhia em 1909.

143 Segundo SOUZA, Itamar de. A República Velha no Rio Grande do Norte, p. 101, "Algumas

sociedades operárias de Natal, tendo à frente a Liga Operária, resolveram apoiar os ferroviários. Formaram u m a Comissão [...] que angariou, junto ao comércio, recursos para garantir o sustento dos grevistas e suas famílias".

(24)

Figura 42 - As passeatas urbanas ganharam espaço no Brasil dos anos vinte. (Passeata no Rio de Janeiro)

Nos últimos anos da década de 1920, e apesar de toda a repressão existente, começou a ser organizado no Rio Grande do Norte o Partido Comunista do Brasil, que havia sido fundado em 1922, no Rio de Janeiro. Pelos poucos e raros registros históricos existentes, supõe-se que o Partido Comunista do Brasil, em Natal, começou a se organizar em 1926, a partir de um grupo de sapateiros, liderados por um deles - José Praxedes. Em Mossoró, o partido foi fundado em 1928 e nesse processo tiveram grande importância os irmãos Reginaldo, "que não eram operários [mas] pequenos proprietários, comerciantes e professores". Um deles - Rai-mundo Reginaldo - que "sintonizava-se com o discurso socialista que atravessava fronteiras, trazendo os ecos da Revolução [Russa] de 1917", havia liderado a criação da Liga Operária dessa cidade, em 1921. Com a fundação do Partido em Mossoró, vários sindicatos passaram a ser organizado na região oeste do estado, destacando-se o sindicato dos sa-lineiros, fundado em 1931, sob o nome de "Associação dos Trabalhadores na Extração do Sal".144

A efervescência política, social e cultural da década de 20, que se espalhava pelos centros urbanos do país, desembocaria num movimento que tem sido considerado um marco na História do Brasil. A chamada "Revolução de 1930" implicaria uma rearticulação das elites agrárias e

' " f e r r e i r a , Brasília C. O Sindicato do garrancho, p. 66.

(25)

levaria a um novo equilíbrio dos interesses regionais no Brasil, equilíbrio esse marcado até então pela hegemonia da "política do café com leite".

Dentre os vários fatores que estiveram na origem desse movimento, devem ser destacados: a política econômica do Governo Federal durante a Primeira República, de defesa e valorização do café com seus enormes custos sociais; as crises de superprodução do café com queda de preços no mercado internacional, que atingiram seu auge na grande crise do ca-pitalismo mundial em 1929; o crescimento das camadas médias urbanas, da burguesia industrial e do operariado, que em diferentes graus estavam à margem do sistema de poder oligárquico marcado pela corrupção e pela violência; a crescente insatisfação de diferentes oligarquias estaduais que estavam fora do jogo de poder da "política do café com leite", caracte-rizado pela hegemonia de São Paulo e Minas Gerais, e o surgimento do movimento "tenentista".

Figura 43 - As manifestações do dia do trabalho eram alvo da repressão policial. (Io de maio, no

Rio de Janeiro).

O "tenentismo" foi um movimento político e militar de contestação às oligarquias conduzido por jovens tenentes, muitos deles oriundos das cama-das médias urbanas. Tinha como bandeira de luta uma reforma política e eleitoral que, acreditavam eles, moralizaria os costumes políticos no Brasil.

(26)

Durante os anos vinte, três foram as manifestações do movimento te-nentista: a Revolta do Forte de Copacabana (1922), a Revolta de São Paulo

(1924) e a Coluna Prestes (1924-1927).1'«

Em 1929, nas eleições para a sucessão presidencial e de acordo com o sistema de poder existente, o presidente paulista - Washington Luís - deveria ser sucedido por um mineiro - o governador de Minas Gerais, Antônio Carlos de Andrada. Mas Washington Luís lançou um candidato paulista - Júlio Prestes -, rompendo a "política do café com leite".

Rompido o acordo entre as oligarquias hegemônicas, formou-se a Aliança Liberal, envolvendo representantes das elites agrárias de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. A Aliança lançou como candidato à presidência da república o governador gaúcho Getúlio Vargas, tendo como vice em sua

chapa o governador da Paraíba - João Pessoa.146

A Aliança realizou comícios em várias cidades do Brasil, muitos dos quais terminaram em conflitos de rua, como foi o caso de Natal, onde o comício realizado pela chamada Caravana Democrática - realizado em frente à estação ferroviária da Ribeira - terminou em tiroteio com mortes, em fevereiro de 1930.

Realizadas as eleições, a vitória foi do candidato de São Paulo. A suspeita de fraude nas urnas e o assassinato de João Pessoa em Recife, entretanto, levaram à tomada do poder pelas armas. Assim, com o fun-damental apoio dos tenentes, um levante militar sob a chefia de Getúlio Vargas eclodiu em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraí-ba, Bahia e Pará. Enfrentando resistência armada, o levante foi vitorioso e o poder entregue a Vargas, que assumiu como presidente provisório,

em novembro de 1930.147

No Rio Grande do Norte, o governo do estado exercido pela oligarquia do Seridó apoiava o sistema de poder federal até então existente, isto é, a "políti-ca do "políti-café com leite" e não participou dos levantes de 1930. Mas também não defendeu, pelas armas, esse sistema de poder; pelo contrário, percebendo que o movimento sairia vitorioso, o governador Juvenal Lamartine refugiou-se em Paris. Dessa forma, as tropas de apoio à "revolução", vindas da Paraíba, tomaram com facilidade o poder no Rio Grande do Norte. Seguiram-se dois

u s A Revolta Militar do Forte de Copacabana ficou restrita, basicamente, ao Rio de Janeiro. Já a

Revolta de São Paulo estendeu-se por Mato Grosso, Pará, Amazonas, Sergipe e Rio Grande do Sul. A Coluna Prestes, formada inicialmente com forças militares do Rio Grande do Sul e São Paulo - comandadas por Miguel Costa e Luís Carlos Prestes - percorreria o Brasil de Sul a Norte, internando-se na Bolívia, em 1927. No Nordeste, a Coluna Prestes foi combatida pelas polícias estaduais e por bandos de jagunços a mando de coronéis. Vinda do Ceará, a Coluna entrou no Rio Grande do Norte passando pelas vilas de São Miguel - onde se travaram combates - e Luís Gomes, em fevereiro de 1926, rumando em seguida à Paraíba.

146 O Rio Grande do Sul, no decorrer da Primeira República, tornara-se, do ponto de vista econômico, o terceiro mais importante estado brasileiro, depois de São Paulo e Minas Gerais, mas estava de fora do poder nacional. A Paraíba representava a insatisfação de parcelas da elite nordestina em relação à "política do café com leite".

147 É importante registrar que no apoio dos tenentes à Aliança Liberal, o movimento tenentista se

dividiu: uma ala, liderada por Luís Carlos Prestes, negou o seu apoio, considerando o movimento de 30 como u m a "Revolução da Oligarquia". Prestes se aproximaria cada vez mais do Partido Comunista do Brasil.

(27)

dias de "agitação popular", em que "a vida administrativa da cidade para-lisou, o comércio fechou suas portas e as escolas deixaram de funcionar", tendo sido "assaltadas e saqueadas as residências do ex-presidente Lamartine

e de alguns de seus auxiliares e até mesmo o palácio do governo".14'

Os estados brasileiros passariam a ser governados por interventores nomeados pelo governo Vargas. A presença desses interventores, entre-tanto, não impediria que antigos grupos oligárquicos se rearticulassem, visando a manutenção de seu poder. Novos atores políticos, entretanto, entrariam em cena.

Figura 44 - Fumando charuto e em traje de campanha, Getúlio Vargas participou do levante militar que o conduziria ao poder por longos anos (Getúlio Vargas)

(28)

CAPÍTULO

Pão, Terra e Liberdade x Deus, Pátria e Família: as

lutas sociais e a evolução política no Rio Grande

do Norte, no pós-Revolução de 30 (1930 a 1937)

(29)

L a u r o L a g o , J o ã o Batista G a l v ã o e J o s é M a c e d o ( d a e s q u e r d a p a r a a direita): três m e m b r o s d o G o v e r n o P o p u l a r N a c i o n a l R e v o l u c i o n á r i o s e n d o l e v a d o s p a r a a p r i s ã o , e m N a t a l , n o a n o d e 1935. (Foto d o livro

(30)

Pão, Terra e Liberdade x Deus, Pátria e Família: as

lutas sociais e a evolução política no Rio Grande

do Norte, no pós-Revolução de 30 (1930 a 1937)

A década de 1930 havia se iniciado no Brasil sob a perspectiva de mu-danças. O movimento armado vitorioso, sob a liderança de Getúlio Vargas, fizera do combate ao sistema de poder oligárquico sua principal bandeira.

Uma vez empossado como Chefe do Governo Provisório, Vargas tratou de garantir a presença do novo Governo em cada estado, através dos "inter-ventores", que deveriam ser preferencialmente militares, oriundos de outros estados que não aquele para cujo governo eram nomeados. As interventorias visavam assegurar uma ruptura no poder dos grupos oligárquicos tradicio-nais, nas diferentes unidades da Federação. Para o Nordeste, foi nomeado Juarez Távora, liderança do movimento tenentista, como representante do Governo Provisório e seu elo com os interventores na região. Era a chamada "Delegacia do Norte".

A resistência oligárquica às mudanças que se anunciavam, porém, não se faria esperar e geraria uma instabilidade permanente no governo dos interventores, que, frente à pressão dos grupos de poder tradicionais, renunciavam ao cargo ou eram demitidos e substituídos por ordem de Var-gas. Nesse processo de transição, o governo revolucionário, buscando a consolidação, acabaria por se adequar às diferentes conjunturas políticas estaduais, equilibrando-se entre os interesses oligárquicos e as aspirações dos que haviam combatido e apoiado a Revolução de 1930.

Essa instabilidade foi característica do governo do Rio Grande do Norte, estado para o qual foi designado o maior número de interventores - cinco no total - dentre os estados do Nordeste, nos anos que decorreram entre 1930 e 1935. Dois exemplos ilustram a força que aí era exercida pelas oligarquias duran-te as induran-terventorias. Com a tomada do poder em 1930, foi criado um Tribunal Especial, com ramificação nos estados, através dos interventores, encarregado de investigar, denunciar e estabelecer a punição para aqueles que haviam praticado atos de corrupção. O primeiro interventor, Irineu Joffili, tentou dar continuidade a um processo sobre sonegação fiscal, contra a empresa M. F. do Monte & Cia., uma das maiores casas exportadoras do estado, estabelecida em Mossoró, no final do século XIX, pelo "coronel" Miguel Faustino do Monte. A ação do interventor, porém, não foi firmemente respaldada pelo Governo Provisório de Vargas, o que levou Joffili a renunciar ao cargo. Processo seme-lhante ocorreu quando o terceiro interventor, Hercolino Cascardo, em 1931, condenou o ex-governador Juvenal Lamartine à perda dos direitos políticos e devolução do dinheiro público. Também sem respaldo do Governo Federal,

Cascardo renunciou, vendo prevalecer os interesses oligárquicos.149

145 Quatro anos mais tarde, Hercolino Cascardo seria um dos líderes de um grande movimento popular

contra o governo de Getúlio Vargas.

(31)

Nesse contexto, a Delegacia do Norte, exercida por Juarez Távora, foi extinta antes de completar um ano de existência, tendo se mostrado inútil, frente a um sistema de poder solidamente estabelecido, cujas bases nos municípios, controladas pelos "coronéis", permaneceram intocadas com a Revolução de 1930.

Em nível nacional, a reação oligárquica se consubstanciou num movi-mento armado, que ficou conhecido como a Revolta Constitucionalista de 1932. Com a ascensão de Vargas ao poder, a Constituição Republicana de 1891, vigente durante a Primeira República, havia sido revogada e o Con-gresso Nacional dissolvido, assim como as Constituições estaduais e as As-sembléias Legislativas em cada estado. A Revolta Constitucionalista, iniciada em São Paulo, com o apoio de oligarquias estaduais, exigia a convocação de uma Assembleia Constituinte para o país, o que significava, na prática, o fim do Governo Provisório. Embora a revolta tenha sido derrotada pelas forças militares desse governo, a reorganização constitucional foi iniciada por Vargas. No mesmo ano, ele promulgou um Código Eleitoral, que deu o direito de voto às mulheres, mas proibiu o voto dos analfabetos, criou a

Justiça Eleitoral e instituiu o voto secreto.1 5 0 As eleições para a escolha dos

membros de uma Assembleia Nacional Constituinte, que deveria elaborar a nova Constituição e escolher o novo Presidente, foram convocadas para o ano de 1933.

A partir de então, o movimento tenentista, cujos ideais revolucionários abriram caminho para Vargas, começaria a esvaziar-se. Enquanto muitos de seus membros optariam pela volta aos quartéis, outros escolheriam soluções políticas mais radicais, como a ala liderada pelo tenente Luís Carlos Prestes fizera quando eclodiu a Revolução de 1930, a ela negando seu apoio por considerá-la uma "revolução oligárquica".

Ao paulatino refluxo do tenentismo, correspondeu uma rearticulação das oligarquias, frente às eleições que se aproximavam. Por um lado, Vargas, pretendendo passar de chefe do Governo Provisório a Presidente da República e, portanto, dependendo do voto dos deputados constituintes federais a serem eleitos em cada estado, aproximou-se cada vez mais dos velhos grupos

agrá-rios, numa manobra política que fortaleceu esses grupos.15' Por outro lado,

estes últimos organizaram novos partidos em seus estados para concorrer às eleições, visando à representação de tais estados na Assembleia Nacional Constituinte e, sobretudo, a reconquista da política estadual.

No Rio Grande do Norte, objetivando lançar candidatos às eleições para deputados constituintes federais, foram criados dois partidos. O primeiro deles, o Partido Popular, ao contrário do que sua denominação faz crer, era uma expressão dos tradicionais donos do poder no estado. Sob a liderança do ex-governador José Augusto Bezerra de Medeiros, reunia figuras como o também ex-governador Juvenal Lamartine e Dinarte Mariz, ambos primos de José Augusto e representantes da elite agrária do Seridó. O segundo, o Partido Social Nacionalista do Rio Grande do Norte, representava a resistência de

1S0No Rio Grande do Norte, o direito de voto das mulheres havia sido obtido dois anos antes, em 1928.

Referências

Documentos relacionados

Para tanto, no Laboratório de Análise Experimental de Estruturas (LAEES), da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (EE/UFMG), foram realizados ensaios

Tese apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Doutor pelo Programa de Pós-graduação em Direito da PUC-Rio.. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo

O controle cervical após 12 meses foi de 59% para os pacientes com recidiva cervical unilateral submetidos a tratamento de resgate, sendo 43% nas recidivas ipsilaterais e 65%

Desta forma, dada sua importância e impacto econômico como doença da esfera da reprodução, além da carência de informações atuais sobre leptospirose em suínos

Focamos nosso estudo no primeiro termo do ensino médio porque suas turmas recebem tanto os alunos egressos do nono ano do ensino fundamental regular, quanto alunos

A cirurgia, como etapa mais drástica do tratamento, é indicada quando medidas não invasivas como dietas restritivas e a prática regular de exercícios físicos

A conceituação do que vem a ser Convenção Coletiva encontra-se no artigo 611 da CLT, (Brasil, 2017): que em síntese define ser a Convenção Coletiva de Trabalho um acordo de

O tema proposto neste estudo “O exercício da advocacia e o crime de lavagem de dinheiro: responsabilização dos advogados pelo recebimento de honorários advocatícios maculados